sexta-feira, 18 de março de 2022



 Temo pelo o que ainda está por vir neste ano

 

 Sérgio Prates

Jornalista    

                                

Lembro artigo de 07 de dezembro de 2019, quando lastimei, sob o título “Não há nada tão ruim (boçal) que não possa piorar”, que o presidente, então com poucos meses de desmando, tenha proclamado que no Brasil ninguém passa fome. Infelizmente, em seus delírios ele se tornou o pior dos pesadelos, chamando de idiota quem compra feijão ao invés de fuzil. Armamentista convicto, “liberou geral” o uso de armas aos políticos em quaisquer mandatos eletivos, ampliou para cinco mil as munições que podem ser compradas de cada vez, assinou decreto incentivando menores de idade a ter aulas de tiro, e até posou com meninos portando réplicas de fuzis e metralhadoras.

Escolhendo mal (advérbio, incorretamente), insiste em colocar gente do mau (adjetivo, ruim) ao seu lado. Com paixão pelo poder, junto aos aliados espalha fakes, deslumbrado pelo tanto que suas mentiras enganam pessoas crédulas e do bem. Produtor de asneiras, logo no seu primeiro carnaval palaciano postou imagens sexuais explícitas, justificando que queria exibi-las para condená-las. Adepto do palavreado chulo, expele impropérios contra autoridades e nações, às quais trata como inimigas. Demorou a reconhecer o novo presidente do Chile - quando o fez, anunciou com visível descaso que mandou o Itamaraty cumprimentar “o tal de Boric”. Antes, ignorou as posses dos “esquerdistas” eleitos na Argentina, Bolívia e Peru.

Na recente tragédia das enchentes, repeliu auxílio humanitário dos argentinos aos brasileiros. Hediondo, advertiu estados e municípios que “não existe opção de receber ajuda rejeitada pelo governo federal”. Ele mesmo ficou alheio às cidades e regiões devastadas, onde milhares de pessoas perderam tudo, dezenas a vida. Naquelas trágicas semanas festejou - não debaixo, mas em cima d’agua - em paradisíacas praias: dançou funk machista em lanchas, passeou de jet ski e ostentou “queimando pneus” em carro de parque circense. Tudo no estilo exibicionista das motociatas que custam milhões de reais, tal e qual suas folgas e férias, como as de janeiro de 2021, que superaram R$2,37 milhões, fortuna equivalente a 179 anos de salário mínimo de um trabalhador.

“Vamos supor que”, ciente de que seria questionado, não pela despesa - que a subordinada Controladoria Geral da União acaba considerando regular -, mas pela apatia diante dos mortos e desabrigados pelas chuvas… o que fazer para deixar o tempo correr e mitigar críticas até de aliados? Como engoliu camarão sem mastigar (versão oficial!), sofreu obstrução intestinal - as comuns, leves, conhecidas como prisão de ventre, necessitam de um remedinho. Se em questões de saúde é especialista em fraudar… uma conjectura, talvez oportunidade perfeita, seria passar uns dias num hospital de hotelaria 6 estrelas e descansar das travessuras. Lembrando que fake exitoso precisa de detalhes convincentes e que “valor não é problema”, mandar um jato buscar nas Bahamas confiável amigo para diagnóstico médico inquestionável (não precisa cirurgia!) do, digamos, mal estar. Vantagem extra: chance sem igual para reviver nebulosa facada e, quem sabe, novamente obter o sentimento de piedade que em 2018 resultou em votos de eleitores condoídos.

Imerso em disparates criminosos que propaga e defende, Bolsonaro é cada vez mais letal. Além de mórbido diante da penúria de milhões, em que poucos obtém lugar nas filas mendigando ossos de açougues, é omisso e enganador, trazendo caos e mortes que poderiam ser evitadas. Mirando reeleição, o que irá fazer, afora perseverar em sanhas e alucinações? Talvez fique mais nefasto, se sentindo poderoso por trocar, a bel-prazer - de forma ameaçadora -, comandos militares e de segurança.

Quanto à saúde, era inimaginável haver ministro mais incompetente do que Eduardo Pazuello, simultaneamente brocoió (desprezível) e bocoió (bronco que acredita piamente), ao declarar que “um manda, outro (no caso, ele) obedece”. Pois há! E Marcelo Queiroga nem espera ser mandado para alegrar o chefe que, no auge da pandemia, enquanto tantos morriam sufocados, caçoou da ânsia de quem tentava respirar e sobreviver sem oxigênio e, agora, despreza o que chama de insignificantes mortes de crianças pela Covid (1.449 comprovadas no ano passado)!

Num país com comando decente - o Brasil atual não o é - seria inadmissível o ministro da Saúde menosprezar a população infantil, como se sua sobrevivência não importasse; repelir a imunização antes da volta às escolas, dizendo que vacinação nada tem a ver com aulas; e protelar as ações necessárias, garantindo que não abre mão do poder de decisão (entenda-se sujeição). Com má intenção, desonra a classe médica e erra de propósito. Quando descoberto, não liga ou se faz de inocente. Exemplo: denunciou 3.935 mortes relacionadas às 325,7 milhões de doses de vacinas contra Covid aplicadas (soma das etapas até 17 de janeiro), ou seja, uma entre 82.772. Ao ter a falsidade revelada pela Folha de São Paulo, apenas alegou que se “confundiu”. Foi absurda a discrepância do número real de 11 fatalidades, uma para cada grupo de 29.610.000 imunizações!

Queiroga (no caso específico trocar o “i” pelo “d” exprime sua inépcia) e outros prepotentes negacionistas nos chamados “Poderes", parecem solidários ao ataque hacker que “sumiu” com dados primordiais para salvar vidas - que o Executivo reluta em divulgar! Manipulados como objetos pelo abjeto líder, abominam a ciência, dificultam medidas de prevenção e articulam imunidades de rebanho para deixar morrer sem vacina. Irracionais, uns juram que a Terra é plana; que o governo federal preserva a natureza, protege e beneficia índios e quilombolas; e não há interesses escusos na farta distribuição de bilhões de reais (e recorde absoluto de orçamento secreto) aos partidos, congressistas e vassalos políticos. Com tanta impostura em meio à angustiante fome e terrível crescente miséria nas ruas, repito: temo pelo o que ainda está por vir neste ano.

Nenhum comentário:

A SAGA LANDELL MOURA

  Dom Arns confirma as sevicias   Cesar Vanucci   “Atormenta-me (...) a perspectiva de não poder prosseguir na vida de apostolado ...