sexta-feira, 30 de junho de 2017

C O N V I T E
XX Congresso Brasileiro de Ufologia

Eleições e 
Assembleia Constituinte

Cesar Vanucci

“Sejamos ousados em nossas propostas.”
(Olavo Machado Junior, presidente da Fiemg)

Não existe, neste País tropical, de dimensões continentais, abençoado por Deus e bonito por natureza, vivalma que não se confesse aturdida com o rumo tomado pelos acontecimentos. E que, também, não se quede a sonhar, nesta hora amarga, com urgentes e viscerais transformações nos confusos e, até certo ponto nauseantes, domínios políticos e administrativos.

Pode ser, no tocante às metodologias a empregar, que as vozes das ruas divirjam. Mas é fácil perceber convergência rigorosa, denotando incomum unanimidade, no reconhecimento de que, do jeito que andam, as coisas não podem mais continuar.

Tão ruidosa constatação remete inescapavelmente à necessidade de se promover um novo pacto nacional. Existe expectativa generalizada quanto ao fato de que das cabeças pensantes mais lúcidas, nas esferas do labor, da inteligência e da criatividade, possam brotar o quanto antes propostas factíveis objetivando a almejada recomposição de cenários. Nos anseios populares concebe-se também que uma contribuição valiosa possa ser dada, sobre o que fazer no sentido de se debelar a crise, por organizações como a CNBB, a OAB e outras tantas, representativas do sentimento nacional. A esperança reinante é de que uma poderosa conjugação de vontades se capacite a influenciar decisões relevantes, rigorosamente harmonizadas – seja sublinhado – com os postulados republicanos e democráticos.

Mas de que reforma está mesmo a se cogitar no alarido popular? Fique claro não se tratar de alguma reforma qualquer demagogicamente forjada com o inocultável e maroto objetivo de não se fazer reforma alguma. Um pacto com a extensão e profundidade desejadas pela sociedade implica, iniludivelmente, em alterações de natureza política e administrativa impossíveis de serem implementadas simplesmente na base de PECs e de votações casuísticas e de falsa premência sugeridas por boquirrotos políticos desacreditados e deslegitimados. A recolocação do País nas trilhas do desenvolvimento econômico e social reclama a presença, à frente de seus destinos, de lideranças confiáveis, de personagens não emaranhados em chocantes suspeitas de conluio com esquemas de malversação dos recursos públicos. As penosas circunstâncias políticas enfrentadas pela Nação amparam teses arrojadas. A antecipação de eleições e a convocação de uma Assembleia Constituinte são apontadas como soluções razoáveis para essa crise sem fim.

A ideia de uma Constituinte, com agenda centrada exclusivamente no debate das reformas de base propícias a geração de riquezas e, ipso facto, a ampliação dos níveis de bem-estar social da população, vem sendo defendida por lideranças qualificadas. É o caso, por exemplo, do presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Olavo Machado Junior, e, também, noutro contexto, dos juristas Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach. Acentuando que sua proposta se inspira no compromisso com valores éticos e com o Brasil, o dirigente classista mineiro defende que a Constituinte exclusiva seja composta de pessoas impedidas de exercerem cargos públicos ou eletivos por pelo menos 10 anos. Ressalva que essa exigência constitui salvaguarda necessária contra o corporativismo, o fisiologismo e a demagogia. Admite “que não podemos nos omitir, deixar de tentar”, pede “sejamos ousados em nossas propostas” (...) e que “jamais abdiquemos de nossos sonhos e de nossas utopias.”

A antecipação de eleições e a convocação de uma Constituinte são teses merecedoras de atenção e apoio. O que se preconiza criará chances para reformas de caráter estrutural. Garantirá, com certeza, indispensáveis reformulações partidárias, tributárias, judiciárias, previdenciárias e outras tantas. Podemos vislumbrar, a partir daí, o surgimento das condições ideais para a retomada do crescimento econômico, com os desdobramentos sociais dele derivados. E, também, uma reforma da Previdência a altura dos anseios comunitários. Reforma verdadeiramente escorada em cálculos atuariais à prova de fajutas manipulações oficiais. Reforma que não se concentre em açodada retirada de benefícios de assalariados de baixa renda e que tenha a coragem de confrontar todos os sistemas previdenciários de cunho corporativista existentes, de modo a que se possa conceber, a médio e longo prazos, a estruturação de um regime previdenciário único pra todos os brasileiros. Com a eliminação, obviamente, de abusos clamorosos, como os da situação de milhares de agentes públicos beneficiados com remunerações infinitamente acima do teto oficial  solenemente instituído pelos Poderes e por eles também oficial e solenemente desrespeitado.


Relatos impactantes

Cesar Vanucci

“Mesmo dando desconto por algum provável
exagero, as revelações são bastante contundentes.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Não há como ignorar a pertinência de algumas objeções jurídicas a certos métodos empregados na “Lava Jato” com vistas a estimular a assim chamada “delação premiada”. Mas, nada obstante, é forçoso admitir que esse instrumento investigatório vem se mostrando de razoável eficiência na coleta de dados sobre as nauseantes praticas clandestinas que andaram lesando de forma clamorosa sagrados interesses da Nação.

De outra parte, cabe também, em sã consciência, alertar para o risco de que as informações trazidas a lume contenham exageros e incorreções. Os denunciantes – não nos esqueçamos disso - são ativos membros do consórcio mafioso responsável pelas mutretagens denunciadas. Faz sentido imaginar que alguns tópicos dos depoimentos reflitam vontade pessoal muito forte de alterar seu protagonismo no enredo, na tentativa de atenuar o grau de responsabilidade quanto aos malfeitos.

O espantoso volume de escabrosos detalhes sobre as maracutaia promovidas, mesmo na hipótese de se fazer “descontos” nas revelações transmitidas em Juízo, causa-nos, todavia, a todos, mal-estar e desconforto duradouros.  

Tomemos, por exemplo, as narrativas recentes de Joesley Batista, um dos empresários que alimentou, com insaciável ambição, o sistema de corrupção que se quer desbaratar. A descrição que faz do conluio estabelecido entre agentes públicos inidôneos e elementos inescrupulosos infiltrados em atividades de produção ligadas a obras governamentais, é de deixar estarrecido qualquer mortal.

Ainda que a transcrição de parte de suas declarações nos cause, obviamente, enorme desprazer, entendemos que registrá-las concorre para fortalecer a disposição popular de criar, com novas ideias e ações, mecanismos que nos ajudem a sair da encalacrada em que, a contragosto, fomos metidos pelo desatino administrativo e insensibilidade social de lideranças incompetentes.

As palavras seguintes pertencem ao mencionado Joesley Batista: “Há político que acredita que o simples cargo, que ele está ocupando, já o habilita a você ficar devendo favores a ele, e (ainda) pedir algo a você de maneira que seja quase uma obrigação você fazer os favores.” (...)

Referindo-se a grupos com os quais manteve espúrias negociações, o empresário salienta, entre outras coisas, o seguinte: “Há dez, 15 anos houve uma proliferação de organizações criminosas no país.” (...) “Nós participamos e tivemos de financiar muitas delas.” (...) “O Lula e o PT institucionalizaram a corrupção. Houve essa criação de núcleos, com divisão de tarefas entre os integrantes.” (...) “O resultado é que hoje o Estado brasileiro está dominado por organizações criminosas. O modelo do PT foi reproduzido por outros partidos.” (...)

Apesar de haver citado o ex-presidente, o empresário confessa que “nunca teve conversa não republicana com Lula” (...) “Não estou protegendo ninguém, mas só posso falar do que fiz e do que posso provar. Não estou entregando pessoas. Entreguei provas aos procuradores. E o PT tinha o maior saldo de propina. O que posso fazer se a interlocução era com o Guido Mantega?” (...)

“Conheci Temer, e esse negócio de dinheiro para campanha aconteceu logo no iniciozinho. O Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro.” (...) “É o grupo deles (do Eduardo Cunha e companhia). Quem não está preso, está hoje no Planalto. Essa turma é muito perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles. Por outro lado, se você baixar a guarda, eles não têm limites. Então, meu convívio com eles foi sempre os mantendo a meia distância: nem deixando eles aproximarem demais, nem deixando eles longe demais, para não armar alguma coisa contra mim. A realidade é que esse grupo é o de mais difícil convívio que já tive na minha vida.” (...) “O mais relevante foi quando Eduardo tomou a Câmara. Aí virou CPI para cá, achaque para lá. Tinha de tudo. Eduardo sempre deixava claro que o fortalecimento dele era o fortalecimento do grupo da Câmara (PMDB e aliados) e do próprio Michel. Aquele grupo tem o estilo de entrar na sua vida sem ser convidado.” (...) “A pessoa a qual o Eduardo (Cunha) se referia como seu superior hierárquico sempre foi o Temer. Sempre falando em nome do Temer. Tudo que o Eduardo conseguia resolver sozinho, ele resolvia. Quando ficava difícil, levava para o Temer.” (...) “Lúcio (Funaro) virava para mim e dizia: ‘Tem um requerimento numa CPI para te convocar. Me dá R$ 1 milhão que eu barro’. Mas a gente ia ver e descobria que era algum deputado a mando dele que estava fazendo. (...) Tinha que tomar cuidado. Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente Temer.”

Toda essa história, visto está, traz muito desassossego. O anseio da sociedade é de que as investigações relativas ao descomunal problema sejam concluídas com presteza. Tudo, naturalmente, em rigorosa sintonia com os preceitos republicanos e democráticos. E de forma a remover os obstáculos que, neste momento, tanto afetam o desenvolvimento econômico e social deste País de tão ricas potencialidades.



sexta-feira, 23 de junho de 2017

XX Congresso Brasileiro de Ufologia


Convite aos amigos 






Falas merecedoras de reflexão

Cesar Vanucci

“Antecipar eleições seria gesto de grandeza.”
(Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso)

Numa hora sacudida por atroantes incertezas, soa compreensível e, mais do que isso, desejável e positiva, a disposição das cabeças pensantes com capacidade de influenciar correntes de opinião em trazerem a público contribuições que ajudem a clarear o trajeto a percorrer na busca de soluções para a encalacrada em que a Nação se viu metida, a contragosto. Adquirem razoável ressonância, sob tal enfoque, manifestações recentemente expendidas por algumas figuras proeminentes da vida pública. Casos, citando exemplos, do ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso e do ex-Chanceler Celso Amorin.

Os pronunciamentos de ambos, mesmo admitida a hipótese de que não suscitem, num que outro item, apoio em setores da opinião pública, fazem jus a reflexões neste momento em que tanta gente se acha empenhada em viabilizar estratégias que ajudem a superar a crise.

Para FHC, antecipar eleições significa “gesto de grandeza”. Confessando que sua percepção sobre a situação política sofreu “abalos fortes”, diz haver mudado de opinião no tocante à inconveniência de convocação de eleições antes do término do mandato atribuído a Michel Temer.

Pertencem-lhe as afirmações que se seguem: “A ordem vigente é legal e constitucional (daí ter mencionado como “golpe” uma antecipação eleitoral), mas não havendo aceitação generalizada de sua validade, ou há um gesto de grandeza de quem legalmente detém o poder pedindo a antecipação de eleições gerais, ou o poder se erode de tal forma que as ruas pedirão a ruptura das regras vigentes exigindo a antecipação do voto”. O ex-Presidente defende que eventual antecipação de eleições seja precedida de mudanças na legislação. “Novas eleições requerem emendas constitucionais que, a meu ver, deveriam ser antecedidas por mudanças na legislação eleitoral”, salienta.

Sustentando faltar legitimidade a Temer para governar e que o País vive um tipo de “anomia” - ou seja, falta de regras, desorganização -, acrescenta que a proposta de antecipar o pleito ficaria mais razoável com a anuência do atual ocupante do Planalto.

Seja enfatizado que o depoimento de FHC vem a lume após a decisão do PSDB em permanecer no governo. Deixando exposto um racha na legenda, Cardoso anota ainda: “Se tudo continuar como está, com a desconstrução contínua da autoridade, pior ainda se houver tentativas de embaraçar as investigações em curso, não vejo mais como possa o PSDB continuar no governo.” (...) “Preferiria atravessar a pinguela, mas se ela continuar quebrando, será melhor atravessar o rio a nado e devolver a legitimação da ordem à soberania popular.”

O ex-Chanceler Celso Amorin, a seu turno, igualmente defendendo eleições diretas antecipadas, registra que o governo Temer “tem os dias contados”. Isso já não constitui motivo de dúvida para ninguém. Preocupado com as regras que balizariam uma campanha eleitoral imediata, reclama urgente mudança no sistema eleitoral. Pontua: “Não basta que haja eleições gerais (...) é preciso que sejam estabelecidas novas regras que garantam essencialmente duas coisas: 1. O fortalecimento dos partidos políticos com programas claramente definidos. 2. A diminuição do peso do poder econômico no processo eleitoral. A proibição de financiamento por empresas foi um passo salutar, que deveria ser completado pelo financiamento público exclusivo.”

Enfatizando que as eleições brasileiras estão entre as mais dispendiosas do mundo, sublinha a necessidade de substituir o sistema atual, proporcional uninominal, “em que os candidatos têm de vencer não só os opositores, mas também os correligionários em distritos eleitorais imensos, por outro que enfatize a afiliação partidária do candidato.” Segundo ele, isso poderá ser obtido por voto em lista fechada, ou pelo sistema distrital misto.

Amorin considera que o “x” da questão reside em se obter dos atuais parlamentares anuência para a mudança das regras. Ao tocar nesse ponto, sugere, em proposta inédita, que as duas principais lideranças do País, referindo-se aos ex-Presidentes FHC e Lula, se unam com o objetivo de facilitar as transformações. Destaca: “Seria uma aliança pontual com o objetivo exclusivo de sanear o sistema político. Depois, cada um seguirá o seu caminho e o povo brasileiro decidiria pelo que achasse melhor. Organizações da sociedade civil, como a Comissão Justiça e Paz, poderiam atuar como facilitadoras desse processo, que deveria resultar também em medidas que garantissem uma efetiva neutralidade da grande mídia nas eleições.”


Relatos impactantes

Cesar Vanucci

“Mesmo dando desconto por algum provável
exagero, as revelações são bastante contundentes.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Não há como ignorar a pertinência de algumas objeções jurídicas a certos métodos empregados na “Lava Jato” com vistas a estimular a assim chamada “delação premiada”. Mas, nada obstante, é forçoso admitir que esse instrumento investigatório vem se mostrando de razoável eficiência na coleta de dados sobre as nauseantes praticas clandestinas que andaram lesando de forma clamorosa sagrados interesses da Nação.

De outra parte, cabe também, em sã consciência, alertar para o risco de que as informações trazidas a lume contenham exageros e incorreções. Os denunciantes – não nos esqueçamos disso - são ativos membros do consórcio mafioso responsável pelas mutretagens denunciadas. Faz sentido imaginar que alguns tópicos dos depoimentos reflitam vontade pessoal muito forte de alterar seu protagonismo no enredo, na tentativa de atenuar o grau de responsabilidade quanto aos malfeitos.

O espantoso volume de escabrosos detalhes sobre as maracutaia promovidas, mesmo na hipótese de se fazer “descontos” nas revelações transmitidas em Juízo, causa-nos, todavia, a todos, mal-estar e desconforto duradouros.  

Tomemos, por exemplo, as narrativas recentes de Joesley Batista, um dos empresários que alimentou, com insaciável ambição, o sistema de corrupção que se quer desbaratar. A descrição que faz do conluio estabelecido entre agentes públicos inidôneos e elementos inescrupulosos infiltrados em atividades de produção ligadas a obras governamentais, é de deixar estarrecido qualquer mortal.

Ainda que a transcrição de parte de suas declarações nos cause, obviamente, enorme desprazer, entendemos que registrá-las concorre para fortalecer a disposição popular de criar, com novas ideias e ações, mecanismos que nos ajudem a sair da encalacrada em que, a contragosto, fomos metidos pelo desatino administrativo e insensibilidade social de lideranças incompetentes.

As palavras seguintes pertencem ao mencionado Joesley Batista: “Há político que acredita que o simples cargo, que ele está ocupando, já o habilita a você ficar devendo favores a ele, e (ainda) pedir algo a você de maneira que seja quase uma obrigação você fazer os favores.” (...)

Referindo-se a grupos com os quais manteve espúrias negociações, o empresário salienta, entre outras coisas, o seguinte: “Há dez, 15 anos houve uma proliferação de organizações criminosas no país.” (...) “Nós participamos e tivemos de financiar muitas delas.” (...) “O Lula e o PT institucionalizaram a corrupção. Houve essa criação de núcleos, com divisão de tarefas entre os integrantes.” (...) “O resultado é que hoje o Estado brasileiro está dominado por organizações criminosas. O modelo do PT foi reproduzido por outros partidos.” (...)

Apesar de haver citado o ex-presidente, o empresário confessa que “nunca teve conversa não republicana com Lula” (...) “Não estou protegendo ninguém, mas só posso falar do que fiz e do que posso provar. Não estou entregando pessoas. Entreguei provas aos procuradores. E o PT tinha o maior saldo de propina. O que posso fazer se a interlocução era com o Guido Mantega?” (...)

“Conheci Temer, e esse negócio de dinheiro para campanha aconteceu logo no iniciozinho. O Temer não tem muita cerimônia para tratar desse assunto. Não é um cara cerimonioso com dinheiro.” (...) “É o grupo deles (do Eduardo Cunha e companhia). Quem não está preso, está hoje no Planalto. Essa turma é muito perigosa. Não pode brigar com eles. Nunca tive coragem de brigar com eles. Por outro lado, se você baixar a guarda, eles não têm limites. Então, meu convívio com eles foi sempre os mantendo a meia distância: nem deixando eles aproximarem demais, nem deixando eles longe demais, para não armar alguma coisa contra mim. A realidade é que esse grupo é o de mais difícil convívio que já tive na minha vida.” (...) “O mais relevante foi quando Eduardo tomou a Câmara. Aí virou CPI para cá, achaque para lá. Tinha de tudo. Eduardo sempre deixava claro que o fortalecimento dele era o fortalecimento do grupo da Câmara (PMDB e aliados) e do próprio Michel. Aquele grupo tem o estilo de entrar na sua vida sem ser convidado.” (...) “A pessoa a qual o Eduardo (Cunha) se referia como seu superior hierárquico sempre foi o Temer. Sempre falando em nome do Temer. Tudo que o Eduardo conseguia resolver sozinho, ele resolvia. Quando ficava difícil, levava para o Temer.” (...) “Lúcio (Funaro) virava para mim e dizia: ‘Tem um requerimento numa CPI para te convocar. Me dá R$ 1 milhão que eu barro’. Mas a gente ia ver e descobria que era algum deputado a mando dele que estava fazendo. (...) Tinha que tomar cuidado. Essa é a maior e mais perigosa organização criminosa deste país. Liderada pelo presidente Temer.”

Toda essa história, visto está, traz muito desassossego. O anseio da sociedade é de que as investigações relativas ao descomunal problema sejam concluídas com presteza. Tudo, naturalmente, em rigorosa sintonia com os preceitos republicanos e democráticos. E de forma a remover os obstáculos que, neste momento, tanto afetam o desenvolvimento econômico e social deste País de tão ricas potencialidades.                                                                                                    

sábado, 17 de junho de 2017

Busca de solução 
pelo diálogo

Cesar Vanucci

“Tamo n’água!”
(Desabafo de tia Ritinha diante de algum problema
difícil que pudesse colocá-la em estado de inquietação)


Estou me lembrando, aqui e agora, de uma tia-avó querida, Ritinha. Ela era contadora de histórias repletas de magia e encantamento nos meus risonhos e despreocupados tempos da meninice. Sempre que a barra pesava, toldando de sombras os acanhados horizontes dos afazeres domésticos que absorviam por inteiro suas energias na fase provecta da vida, ela puxava bem do fundo do peito suspiro prolongado, largando então um desabafo: - Tamo n’água!

Olhar perquiridor, aparelhos de percepção pessoal ligados a pleno volume, alma inquieta ao contemplar o panorama politico, social e econômico da atualidade brasileira, vejo-me compelido, caprichando para conseguir traduzir em tom brando o inconformismo do cidadão, a reproduzir o desabafo de tia Ritinha: - Tamo n’água! E, talvez, sem colete salva-vidas, com celular desligado, sem embarcação por perto mode prestar socorro.

O que acontece, nesta crise sem fim a vista, dando motivos a sobressalto e inquietação, é que se escancarou de vez a disposição do conglomerado “ecumênico”, multipartidário comprometido até o pescoço com a corrupção sistematizada, em abafar total ou parcialmente as investigações em curso, na tentativa de impedir punições. Não há como ignorar os ruídos das manobras sibilinas, desencadeadas em variadas faixas de atuação, com esse inacreditável propósito. Aliados circunstanciais no esquema montado para desviar recursos públicos de suas nobres finalidades sociais, grupos de comprovada vocação mafiosa, infiltrados nas atividades públicas e empresariais, valendo-se de toda sorte de artifícios, vêm procurando, sem qualquer margem pra dúvidas, embaraçar as apurações. É um tal de despejar casca de banana por tudo quanto é lado, de forma a provocar escorregadelas que possam afetar o andamento das definições legais e institucionais reclamadas na correção das anomalias detectadas nos negócios públicos, que vou te contar!...

Revelam-se abundantes, a esta altura, os sinais de uma singular efervescência, na realidade não adstrita apenas à penumbra dos bastidores, com vistas a alcançar uma “maneiração de barra” se possível geral e irrestrita. Numa observação mais atenta dos fatos dá também pra perceber que não poucas pessoas concentram-se no ingente esforço de livrar a cara, se não de todos, pelo menos de alguns dos elementos mais proeminentes emaranhados nas atordoantes trapaças vindas a furo. É bom ter presente, em hora assim, que o jogo das conveniências costuma abrir espaço para incontáveis astucias. A conjuntura sugere anotar o fato para conferir adiante.

Todo esse conjunto de evidências deixa-nos na certeza de que chegada a hora de uma aliança pontual, aglutinando as cabeças pensantes mais lúcidas das lideranças brasileiras, no sentido de que possam ser refeitos os rumos ora trilhados pelo país. Toda e qualquer iniciativa a ser assumida com o louvável intuito terá que ser inspirada, indispensável reconhecer, no autêntico sentimento nacional. Significa dizer que as diligências a serem adotadas terão que se balizar inflexivelmente pelo modelo democrático republicano mercê de Deus vigente em nossa sociedade. Isso importa em estabelecer, como alvo prioritário nas ações a desfechar, a retomada urgente do desenvolvimento econômico, com a reabsorção da mão de obra desempregada; o saneamento do sistema político deteriorado; o combate tenaz à corrupção; a implementação de reformas verdadeiramente inovadoras, precedidas naturalmente de debates aprofundados e com visão progressista de futuro.

Mesmo que a proposta de entendimento nacional nesse nível, implicando na convocação para a mesa de debates de cidadãos e organizações realmente representativos do pensamento e da ação social, possa soar utópica num primeiro instante, é preciso insistir na aceitação de que o diálogo em termos resolutos, criativos, socialmente sensíveis, serenos é a fórmula preconizada pelo bom senso para que consigamos nos desvencilhar a contento da enrascada em que nos meteram os interesses e ambições descomedidos e despropositados de certos grupamentos corporativos desapartados das regras saudáveis da convivência social. É do diálogo que nascerão as estratégias que melhor se coadunem com os interesses coletivos. Eleição indireta, como constitucionalmente previsto, eleição direta antecipada, com reforma constitucional, convocação de assembleia constituinte exclusiva para fixar as reformas desejadas: qualquer que venha a ser a estratégia escolhida, o que importa mais é que ela provenha da vontade majoritária nacional.


Cadê as respostas?

Cesar Vanucci

“Pergunta sem resposta deixa a gente,
às vezes, em becos sem saída.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

A colossal encrenca advinda da acumulação de desatinos praticados na gestão dos negócios públicos trouxe esse estado de espírito, de erosiva ansiedade e impactante aturdimento, a que estamos presentemente submetidos. Da expectativa nervosa jorram continuas perguntas. As respostas, cadê?

Considerando os termos da questionada decisão do TSE, tomada com o indisfarçável intuito de favorecer o presidente Michel Temer, beneficiando por tabela sua antecessora, não parece fazer algum sentido admitir que, pelo estrito enfoque técnico jurídico, a ex-presidenta Dilma Rousseff possa acabar inocentada das graves acusações que pesam sobre sua atuação governamental? Será que a história das “pedaladas”, de resto sabidamente executadas pelos demais mandatários, resistirá por si só como justificativa sólida do impedimento havido?

Ficou ou não claramente evidenciado, no voto do ilustre presidente do TSE, que S.Exa. usou de dois pesos e duas medidas quando confrontadas as opiniões que expendeu, antes no processo do impeachment e agora no julgamento pertinente à cassação da chapa?

Como explicar, por outro lado, à luz da ética e do bom senso, o posicionamento ambíguo da agremiação partidária que postulou, perante a Justiça Eleitoral, a cassação da chapa vitoriosa no pleito de 2014? As arguições levantadas no recurso em questão não seriam de molde a desaconselhar a participação de representantes do citado partido – ainda por cima tão preponderantemente – no Ministério de um governo que, afinal, à vista da atitude assumida, têm eles na conta de ilegítimo? E como explicar, ainda, a circunstância de que os autores da peça acusatória examinada pela Corte teriam, também, tanto quanto os adversários, auferido na mesma campanha eleitoral (e até fora dela, a exemplo dos outros) os mesmíssimos recursos ilícitos, provindos das mesmíssimas fontes de corrupção, apontados enfaticamente como material probante no arrazoado visando a cassação da chapa?

Na hipótese de vingar a tese jurisprudencial de que revelações comprometedoras, eventualmente surgidas no decurso das delações, não possam ser mais utilizadas como elemento probatório de irregularidades supostamente praticadas por alguém indiciado nos processos, isso levará, nalgum momento, à derrogação de sentenças punitivas já proferidas? O mesmo argumento, a propósito, poderá valer como fundamento para pedidos de absolvição em casos a serem ainda julgados?

No momento em que porta-vozes do Senado deixam explícita a disposição de não acatar determinação judicial envolvendo Aécio Neves, isso quer também significar que possa vir a ocorrer reconsideração no tocante à decisão anteriormente tomada numa situação análoga relativa ao ex-senador Delcídio Amaral? A constatação, a esta altura, de que vários dirigentes tucanos, de parelha com vários dirigentes petistas, se locupletaram à pamparra nas mutretagens armadas à sombra do poder, não torna um tanto surreal, esdruxula a mais não poder, a insistência dos supracitados elementos em sustentarem pose de “mocinhos” num enredo composto exclusivamente de “vilões”?

Dilma Rousseff tentou blindar Luiz Inácio Lula da Silva, nomeando-o Ministro de Estado, mode garantir-lhe foro privilegiado. O ato foi refutado por decisão judicial. Michel Temer tentou blindar Moreira Franco, nomeando-o Ministro de Estado, mode garantir-lhe foro privilegiado. O ato não foi refutado pela Justiça. Em qual dos casos a decisão judicial revelou-se correta?

Soa verdadeira a informação de que, em 2015, o ilustre titular do Ministério da Justiça andou defendendo publicamente a tese de que a cassação do mandato de Dilma implicaria obrigatoriamente na cassação do mandato de seu vice?


E, por último, a Agência Governamental de Inteligência xeretou ou não xeretou a vida do ministro Fachin?



O “ESPAÇO CULTURAL” 
INAUGURADO PELO LIONS


Este escriba amigo de vocês foi agradavelmente surpreendido, pelos Companheiros de Lions Clube, no último dia 7 de junho, quarta-feira, durante concorrida sessão festiva promovida pela Governadoria do Distrito LC-4.
A referida reunião, programada pela dinâmica Governadora Maria Jorge Abrão de Castro, teve por foco central a afixação, na entrada do prédio sede do Distrito, de uma placa alusiva aos 100 anos do Movimento Leonistico.
No momento seguinte uma outra placa foi descerrada, ao ensejo da inauguração do “Espaço Cultural Cesar Vanucci”.
Confesso que a carinhosa manifestação de apreço deixou-me bastante emocionado.

As fotos mostradas abaixo retratam o significativo ato.



















Filmes de Hitchcock


 CORRESPONDENTE ESTRANGEIRO
A Trajetória de Hitchcock

Guido Bilharinho *

Hitchcock iniciou sua carreira cinematográfica ainda na Grã-Bretanha no início da década de 1920 com o inacabado Number Thirteen (1922), seguido de Always Tell Your Wife (1923), segundo informa Rubens Evaldo Filho no Dicionário de Cineastas.
No tempo do mudo fez ainda diversos outros filmes em seu país, período finalizado com O Ilhéu ou O Homem da Ilha (The Manxman, 1929), mas onde realizou ainda vários filmes falados até A Estalagem Maldita (Jamaica Inn, 1939, com Charles Laughton e Maureen O’Hara).
Nos Estados Unidos a partir de 1940, ano em que dirigiu nada menos de dois filmes, Rebeca, a Mulher Inesquecível (Rebeca, 1940, com Laurence Olivier e Joan Fontaine) e Correspondente Estrangeiro (Foreign Correspondent, 1940, com Joel McCrea e Laraine Day), a filmografia de Hitchcock distribui-se em três distintas fases, caracterizadas por nítidas e diversificadas orientações e tendências.
Na década de 1940, ainda premido pelas imposições mercadológicas dos estúdios, marca passo com filmes naturalistas e convencionais, de linguagem travada e ambiência pesada e em alguns casos até um tanto opressiva, a exemplo de Suspeita (Suspicion, 1941), Agonia de Amor (The Paradine Case, 1947, estrelado por Alida Valli e Gregory Peck), com subordinação total à estória como produto a ser repassado ao público.
Todavia, com o decorrer do tempo e dos filmes adquire paulatinamente independência, experiência e maturidade, que lhe permitem lançar-se, vez ou outra pelo menos, às aventuras da inteligência e da autoria, iniciada com Festim Diabólico (Rope, 1948, com James Stewart e Farley Granger) até alcançar a máxima potencialidade nas obras-primas Janela Indiscreta (Rear Window, 1954, com James Stewart e Grace Kelly), O Terceiro Tiro (The Trouble With Harry, 1956, com Shirley MacLaine e John Forsythe), Um Corpo Que Cai (Vertigo, 1958, com Kim Novak e James Stewart) e Os Pássaros (The Birds, 1963, com Rod Taylor e Tippi Hedren).
A partir daí entra em evidente decadência com a reincidência em filmes convencionais e anódinos, tendo por finalidade somente narrar as respectivas estórias, destituídas de quaisquer laivos de criatividade e da proverbial sutileza formulatória, apanágio de suas melhores obras, excetuada, nessa fase, até certo ponto, Frenesi (Frenzy, 1972, com Jon Finch e Alec McCowen), ambientado em sua Londres, magnificamente captada e exposta no mercado de frutas e adjacências.

Por sua vez, em Correspondente Estrangeiro, segundo filme nos Estados Unidos, conquanto convencional e objetivando apenas narrar peripécias de espionagem, consegue mostrar suas virtualidades diretivas e perspicácia, tanto no dinamismo desenfreado da narrativa quanto nas inúmeras ambientações e no tratamento habilidoso e cuidadoso dado aos detalhamentos ambiental e interpretativo dos atores, incluídos postura, posicionamento e movimentação
Pela temática, Correspondente Estrangeiro, que envolve muito mais ação de espionagem do que propriamente atividade jornalística, no caso apenas pretextual, compõe a série de obras do cineasta dedicada ao assunto, em voga desde às vésperas da Segunda Guerra Mundial. Desse conjunto fazem parte também, entre outros, os filmes britânicos Os 39 Degraus (The 39 Steps, 1935), Agente Secreto (The Secret Agent, 1936, com Peter Lorre e Madeleine Caroll) e A Dama Oculta (The Lady Vanishes, 1938, com Margaret Lockwood e Paul Lukas).
Neles, o cineasta assume aberta posição contra as ações belicosas germânicas, chegando a ponto de finalizar Correspondente Estrangeiro com exortação, viabilizada por meio do protagonista, à defesa e à participação ianque na Guerra, esta, àquela altura, de desenlace incerto.
Ainda na década de 1940, nos Estados Unidos, amainada a febre da espionagem, Hitchcock realiza, entre filmes de temática variada, duas películas enfocando aspectos e atos derivados da conflagração inicialmente europeia e depois estendida a vários continentes e a todos os mares: Sabotador (Saboteur, 1942) e Um Barco e Nove Destinos (Lifeboat, 1943). Já Interlúdio (Notorius, 1946, com Ingrid Bergman e Cary Grant), com ação desenvolvida no Rio de Janeiro, trata de ato de rapinagem alemã no Brasil.

(do livro O Cinema de Hitchcock e Woody Allen, no prelo)

* Guido Bilharinho é advogado atuante em Uberaba, editor da revista internacional de poesia Dimensão de 1980 a 2000 e autor de livros de Literatura (poesia, ficção e crítica literária), Cinema (história e crítica), História (do Brasil e regional), publicando atualmente no Facebook os livros Obras-Primas do Cinema Brasileiro e Brasil: Cinco Séculos de História.




sexta-feira, 9 de junho de 2017

Prova definitiva

Cesar Vanucci

“Perdão foi feito pra gente pedir.”
(Verso do cancioneiro popular brasileiro)

Demorou, mas aconteceu. Tutu foi pilhado em vexatório flagrante. Avisos de amigos não faltaram. Tantas as traquinagens extraconjugais praticadas que não ficava nada difícil prever a cena: o teto desabando sobre sua cabeça. Conto como sucedeu. Não sem antes relatar meia dúzia de três ou quatro coisas essenciais para um correto entendimento.

Amigo de infância, confidente do personagem, o cirurgião dentista Isaltino Joaquim, Quinzinho, definiu com exatidão o perfil de Tutu: “Boa praça, mas com defeito de nascença incorrigível, vive se enroscando com rabo de saia!” Tutu é o apelido de Tubertino do Equador. Proprietário de um armazém de secos e molhados na próspera localidade de Capão da Onça, adquiriu o cognome, dado pela devotada esposa Etelvina, à época do namoro.

Não havia um único vivente na cidade que não desse notícias de suas travessuras. Dona Etelvina, justamente ela, a única honrosa exceção. A respeito da cara metade é bom saber que ela, pelo trato lhano e dedicação aos afazeres do lar, desfrutou vida afora de especial simpatia na comunidade. Presença obrigatória na lista anual das “dez mais”, organizada pela festejada colunista Ethel, do semanário local, foi sempre vista pelo pessoal, repetindo palavras publicadas na coluna social, como “dama de acrisoladas virtudes”, “de excelsos e peregrinos dotes”.

Anos a fio, a relação do distinto casal permaneceu imperturbada. De um lado, o “desconfiômetro” de Etelvina totalmente desligado; de outro, o Tutu a aprontar umas e outras. Partícipe ativo de vesperais e noitadas de farra, até noivar o sujeito andou noivando. Escapuliu da encrenca graças a providencial ajuda do Quinzinho. A duras penas, ele conseguiu desfazer um “acerto de contas” articulado por parentes da “noiva” ludibriada pelo “dom juan do empório”...

Municiado de álibis engenhosos, Tutu reduzia a subnitrato de pó de mico  murmurações que ameaçassem quebrar a tranquilidade doméstica. Alertava sempre a esposa: “Sacumé, minha santa, pessoas como nós são alvo dos invejosos.”

Quando a cunhada surgiu com a história de que ele fora visto de braço dado com uma moça numa clínica ginecológica, Tutu safou-se do rolo com a mesma desenvoltura verbal volta e meia registrada em performances de traquejados próceres políticos surpreendidos com a boca na botija. Arrancando de Etelvina o compromisso de conservar em hermético sigilo a “confidência”, detalhou “tim-tim por tim-tim o que realmente se passou”. Solidário com fraternal companheiro, por “coincidência” o Quinzinho, enfrentando destemidamente o risco de colocar a reputação pessoal em jogo, se dispusera a acompanhar a namoradinha do mesmo a consultório médico pra teste de gravidez, que felizmente deu negativo. O companheiro, impactado pelo problema, sofreu colapso nervoso, vendo-se forçado a procurar ajuda numa casa de saúde...

Estamos pois cientes, a esta altura, que os estratagemas empregados por Tutu surtiram com habitualidade os efeitos desejados no sentido de neutralizar uma que outra desconfiança irrompida, de quando em vez, no plácido semblante de Etelvina.

O mundo de Tutu ruiu numa madrugada fatídica. O dito cujo chegou em casa com o galo já cantando no terreiro. Largou as vestes numa cadeira, botou pijama, calçou chinelo e dirigiu-se à cozinha para tomar um copo de leite. Momentos depois, Etelvina ajeitou-se ao seu lado. Com voz firme, resvalando a irritação, passou a interrogá-lo. Onde estivera? Por que o cheiro de álcool que estava impregnando a casa inteira? Por que, na roupa amarfanhada, tantos fios de cabelo feminino? Respostas engatilhadas na ponta da língua, Tutu apelou para a lábia de sempre no enfrentamento da inquirição. - “Sacumé? Houve festa de despedida de funcionário do empório por motivo de aposentadoria. Rolou bebida. Copo de cerveja, numa brincadeira de muito mau gosto, foi derramado sobre o paletó.” Quanto aos fios de cabelo, a “explicação” oferecida desconcertou Etelvina: tratava-se “apenas” de linhas de algodão que ficaram agregadas à roupa durante a visita feita, naquela tarde, à fábrica de fiação e tecelagem.

Ouvindo com toda atenção as desculpas do conjuge, Etelvina disparou a pergunta derradeira: “Aceito o que tá dizendo, mas queira agora, por favor, esclarecer como essas marcas de batom foram parar na sua ceroula? E não me venha com o papo furado de que são respingos de tinta vermelha de lata que caiu da prateleira...”

O chão sob os pés de Tubertino abriu-se em colossal fenda. A cor rosada do rosto foi substituída por palidez cinzenta. A desculpa esfarrapada em gestação engastalhou-se na garganta. Sacudido por lampejo de sensatez, prostrou-se de joelhos, mãos unidas em sinal de contrição, exclamando: - Mulher, pequei! Peço perdão!

Isso mesmo: batom em ceroula é fogo. Prova arrasadora, irretorquível, definitiva.

Será que não é, então, o caso de manjados personagens políticos da praça, ruidosamente flagrados por conta de provas também arrasadoras, irretorquíveis, definitivas, imitarem o gesto de Tutu, tornando pública na frente das câmeras cabal confissão dos malfeitos praticados? Não é improvável que as pessoas, tal qual dona Etelvina, se disponham condescendentemente a perdoá-los, mesmo que não se revelem propensas, ao contrário da crédula criatura, a aceitar eventual compromisso das ilustres figuras de não virem, jamais, em tempo algum, a reincidir nas bandalheiras intensa e prazerosamente executadas.


Pluralidade de 
mundos habitados

Cesar Vanucci

“O assunto óvni deve ser tratado com seriedade.”
(Jacques Patenet, porta-voz do governo francês)

A admissão, pouco tempo atrás, pelo governo francês, em caráter oficial, da existência de vida inteligente em outros pontos do infindável espaço cósmico pegou de surpresa, de algum modo, envolvendo numa atmosfera de momentâneo alumbramento muita gente. Mas para uma parcela numericamente expressiva de cidadãos, comprometidos não é de hoje com o estudo da tese da pluralidade de mundos habitados, a importante revelação não teve sabor de ineditismo. Na verdade, tais setores aceitam de há muito, com convicção, a teoria de que o universo abriga civilizações avançadas detentoras de tecnologias não compreensíveis à luz dos conhecimentos pacificamente aceitos.  Essa certeza encontra respaldo no acúmulo considerável de evidências e informações que nem sempre alcançam o domínio público, levantadas em todos os cantos do mundo a respeito das mirabolantes evoluções, em nossos céus, dos chamados objetos voadores não identificados (óvnis), também conhecidos por “discos-voadores”. Não deixa de ser oportuno o registro de que essa revelação francesa não foi divulgada com o estrondo midiático de que se faz merecedora, sabe-se lá por que cargas d’água ou sibilino jogo de conveniências.

As autoridades francesas, na citada manifestação, ao abrirem arquivos catalogados como segredo de Estado afetos à segurança nacional, trouxeram para o campo real algo inimaginável tempos atrás. São de Jacques Patenet, diretor do “Grupo de Estudos e Informações de Fenômenos Aeroespaciais Não-identificados”, as palavras seguintes: “Estamos, felizmente, rompendo as barreiras jurídicas e também o receio que nos impedia de abrir os arquivos. Queremos mostrar que o assunto merece ser tratado com seriedade.” Para esse porta-voz do governo francês, as provas reunidas pelo órgão são de tal monta que permanecer em silêncio equivale a cometer ato de “irresponsabilidade científica.” A ênfase na abordagem dessa temática torna o posicionamento francês muito especial. Rompeu-se oficialmente a cortina de silêncio adotada por aí afora. Não há como, diante de tão sonora constatação, insistir na ignorância da realidade, a exemplo do que já ocorreu mais de uma vez no passado. Há cerca de 30 anos, por exemplo, o próprio Ministério da Defesa da França liberou, surpreendentemente, sugestivas informações sobre óvnis coletadas por pesquisadores conceituados. Mas deixou o assunto cair, pouco depois, suspeitosamente, em ponto morto. Reproduziu, de certa maneira, o comportamento habitualmente adotado há décadas pelos Estados Unidos.

Aliás, essa política de escamoteação dos fatos, a bem da verdade, não é praticada apenas pelos estadunidenses. Russos, ingleses, chineses, alemães e outros mais também fingem ignorar “que há algo no ar além dos aviões de carreira”, como costumava dizer, noutro contexto, o Barão de Itararé. Registre-se, a propósito, que as frequentes revelações de astronautas americanos admitindo a existência de óvnis têm sido reforçadas pelos seus companheiros de jornada espacial da Rússia.

Outra informação de mexer com a mufa das pessoas: coincidindo com a declaração francesa reconhecendo a existência dos óvnis, ganharam realce na imprensa as alegações atribuídas a um físico nuclear de nome Robert Lazar. Ele garante haver prestado serviços, nos anos 80, numa base secreta estadunidense no deserto de Nevada, conhecida por “Área 51”. Ali, segundo o físico, acha-se montado um complexo subterrâneo que, em passado recente, teria funcionado como hangar para naves interplanetárias. O que Lazar relata é impressionante. Vasculhando documentos secretos, descobriu que a “Área 51” era frequentada por humanoides, supostamente originários da galáxia Zeta Reticuli. No ano de 1979, teria ocorrido no local incidente gravíssimo, do qual resultou a morte, em confronto belicoso com os alienígenas, de alguns cientistas e militares que atuavam na base.

O atordoante depoimento, que lembra historieta de quadrinhos de Buck Rogers, se junta a um sem número de revelações, dadas como inverossímeis, que a opinião pública não tem ainda, no momento, como confirmar ou negar, face ao silêncio tumular que recobre costumeiramente tudo quanto diga respeito, nos diferentes países, aos avistamentos de óvnis.

É interessante relembrar ainda que Jimmy Carter, ao lançar-se candidato a Presidente dos EUA, confessou ter sido testemunha ocular de um contato de terceiro grau e prometeu abrir os arquivos das investigações estadunidenses sobre os “discos”. Ficou na promessa. Calou-se, “prudentemente” por razões com toda certeza supervenientes...

Por derradeiro, é relevante recordar que, no governo de JK (que baita falta ele faz ao Brasil atormentado destes tempos!), houve a liberação oficial de fotos de um óvni sobrevoando navios da Marinha brasileira nas imediações da Ilha da Trindade, em águas territoriais capixabas.




sábado, 3 de junho de 2017

O tratamento dispensado 
aos delatores

Cesar Vanucci

“Setores amplos da sociedade veem como 
“regalias” algumas cláusulas nos acordos.”
(Domingos Justino Pinto, educador)

Objeto de intensas controvérsias nas esferas jurídicas, a delação premiada acabou se transformando num eficiente instrumento nas investigações da Lava Jato. Trouxe à tona, em meio a questionamentos razoáveis levantados sobre os métodos de ação adotados pelos investigadores, um volume expressivo de estarrecedoras revelações. Tais revelações deixaram a descoberto colossal engrenagem de corrupção, envolvendo num conluio perverso próceres políticos, agentes públicos e empresários inescrupulosos. As figuras dos delatores, pelo seu exuberante protagonismo nas apurações, estão colocadas neste momento sob a mira das atenções. Isso provoca naturalmente reações e comentários os mais variados. Trazemos aqui singela contribuição para o debate que se processa a respeito.

Nas considerações alinhadas levamos em conta, estritamente, para não laborar em julgamentos precipitados, aquelas situações que não mais comportem dúvidas no que concerne à identificação de responsáveis pelo cometimento dos atos criminosos divulgados. Alongue-se a explicação: a enxurrada de denúncias acerca de malfeitos supostamente praticados nos negócios públicos é tão encorpada, implica, de princípio, tanta gente, que se afigura prudente e razoável, nas análises dos fatos, reservar-se uma margem para registros de eventuais equívocos que possam ocorrer nessa extensa citação de nomes vindos a público. Isto posto, faz-se imprescindível reconhecer, alto e bom som, que os assim chamados “delatores premiados”, “colaboradores beneficiados”, ou que outras designações mais sejam atribuídas aos autores de denúncias acolhidas pela Justiça, ocupam merecidamente, na galeria destinada aos elementos flagrados em conduta criminosa, posições rigorosamente equivalentes às dos personagens por eles enfaticamente denunciados.

Uns e outros, manda a verdade reconhecer, têm culpa no cartório assemelhada. Não são nada flores que se cheirem. Como se diz na fala das ruas, “tudo farinha do mesmo saco...”. Nas ocorrências delituosas em que se emaranharam inexistem graus diferenciados de culpabilidade mode favorecê-los. Nada há que os faça menos comprometidos nesse tentacular esquema de corrupção que tão prestimosamente ajudaram a compor. Fazem jus, sim, por conseguinte, da mesma forma que seus parceiros de trama mafiosa, à repulsa de uma sociedade que se sente injuriada. Que se viu, de repente, impiedosamente alvejada pela desfaçatez e ganância de falsas elites embriagadas por mórbida autossuficiência  no exercício do poder.

Nessa linha de raciocínio, adquire especial ressonância, aprestando-se obviamente a discussões amplas, o tratamento até certo ponto condescendente dispensado pela Justiça aos delatores em função dos acordos firmados. Algumas cláusulas estão parecendo, ao olhar crítico da opinião pública, exageradamente indulgentes. Muitos perguntam: o que sobrou pra esses caras, como punição pelas malvadezes praticadas, foi apenas isso, uai? As imagens e informações alusivas às “regalias” aparentemente desfrutadas pelos ditos cujos vêm sendo recebidas com certa estranheza e sentimento de frustração. Pegaria muito bem, no modo de entender das ruas, uma reavaliação de procedimentos nesse capítulo de toda essa nauseante história.


A África não conta. 
Ela apenas?

Cesar Vanucci

“O que as grandes potências aprontaram na África, 
ao longo dos tempos, clama aos céus!”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

A África foi irremediavelmente condenada, nas estratégias geo-político-econômicas traçadas pelos “donos do mundo”, bovinamente acatadas sem questionamentos pelos demais protagonistas da esfuziante jornada humana, a ser palco permanente de dilacerantes experiências. É lá, prioritariamente, que são testados armamentos sofisticados, “última geração” pode-se dizer, com o povo intimado a servir de “bucha de canhão”. É lá, mais do que em outras paragens, que as riquezas dadivosas do subsolo são avaramente “guardadas e protegidas”, mode garantir substanciosa reserva de matérias primas para a hora, lá na frente, em que estejam exauridos os filões de produtos vitais hoje intensamente explorados noutras plagas.

A África esfaimada, a África maltrapilha, a África de pés descalços ameaçada pela Aids, alcançada em cheio pelos efeitos perversos de equivocada e distorcida política globalizante, essa África da pobreza ao rés do chão não conta. Permanece esquecida dos homens e, também, dos próprios deuses venerados nas crenças das muitas etnias que a povoam.

A ONU cataloga meia centena de nações, habitadas por centenas de milhões de criaturas que, na iníqua distribuição “per capita” de renda, não dispõem de mais do que dois reais diários para sobrevivência. São países localizados, na quase totalidade, adivinhem onde? Exatamente, terras d’África. Compõem a ampla base da ultrajante pirâmide social dos tormentos humanos nestes conturbados tempos.

É preciso, em nome da dignidade humana, conservar ao alcance dos olhos, mentes e corações, os dados arrolados. Fica claro que uma situação dessas reclama das pessoas de boa vontade, com certeza parcelas majoritárias nos contingentes populacionais, reflexão aprofundada, acompanhada naturalmente de ações, que se inspirem nas lições humanísticas e espirituais que a nossa civilização tanto alardeia professar. Tais lições, forçoso reconhecer, vêm sendo solapadas pela insânia, egoísmo e insensibilidade social. Amontoam-se à nossa volta registros reveladores dos descaminhos sociais e econômicos trilhados. Eles são de molde a gerar perplexidade, indignação e clamor. Não há como conter desassossego e inquietação diante de revelações como as que são abaixo transmitidas por respeitáveis instituições especializadas na interpretação dos acontecimentos sociológicos e antropológicos.

Alguma coisa anda funcionando muito mal, por certo, neste mundo do bom Deus onde o tinhoso costuma plantar seus encraves, quando a gente toma conhecimento de que um único e solitário vivente do planeta consegue acumular, naturalmente por força de talento, competência e vocação negocial, fortuna pessoal superior ao conjunto dos PIBs (produtos internos brutos) de dezenas de países da África negra. Alguma coisa, repita-se, funciona mal, fazendo água no projeto original da Criação, quando se sabe, de outra parte, que os 80 cidadãos melhormente posicionados na lista dos ricaços do mundo somam, com os haveres adquiridos, recursos equivalentes à renda acumulada de um terço da população (quase 9 bilhões) deste planeta azul. Não deixa também de causar impacto a informação de que a minúscula Cingapura, cidade artificial - regida por rançoso autoritarismo, onde a goma de mascar (o tradicional chiclete) é considerada droga ilícita, punida com chibatadas -,situada num território desprovido de riquezas naturais, erigida em meca econômica por força dos insondáveis interesses da megaespeculação financeira, recebe sozinha mais investimentos do que o continente africano inteiro.

Falar verdade, essa história toda, com suas incoerências sociais expostas, deixa-nos à mercê de uma ordem econômica e social contundente. Suscita reflexões que conduzem inapelavelmente à conclusão de que uma reformulação de critérios na condução da trajetória humana se faz extremamente necessária. Tal reformulação, para que possa alcançar os resultados almejados, terá que ser calcada em valores humanísticos, no igualitarismo democrático, nas crenças espirituais que todos reconhecemos, no plano ideal, como a essência da presença humana na pátria terrena. O propósito de se promover as transformações desejadas pelo sentimento universal há que ser introduzido como item prioritário na agenda das preocupações, diálogos, discussões, estudos e debates da sociedade. Sem o que tudo ficará relegado a simples e oca retórica.


A SAGA LANDELL MOURA

Não precisava ser assim   Cesar Vanucci “Esse nosso infernal cotidiano!” (Domingos Justino Pinto, educador) Carga pesada. Isso...