terça-feira, 11 de junho de 2024

12 jurados e uma sentença


 

*Cesar Vanucci

“A justiça provou que todos são iguais perante a lei” (presidente, Joe Biden)

 

Na era dourada de Hollywood aficionados da chamada 7ª arte foram brindados por produções que deixaram registro inesquecível na memória. Caso sem tirar nem pôr do celebre “12 homens e uma sentença” que acabou rendendo premiações em suas duas versões. A primeira delas, em 1957, dirigida por Sidney Lumet, com Henry Fonda à frente do elenco.  Jack Lammon, sob a direção de William Friedkin liderou outro elenco na versão de 97. O enredo desenrola-se numa sala onde 12 cidadãos, avaliam um caso criminal, com a incumbência de decidir o destino do réu. A câmera e os diálogos exploram admiravelmente as reações comportamentais.

Deve ter acontecido com um mundão de gente o que ocorreu com este desajeitado escriba ao acompanhar os lances da cobertura televisionada referente ao julgamento de Donald Trump, formalmente acusado pela justiça de seu país por 34 crimes. As cenas do filme ricochetearam fortemente na lembrança.

 Os infatigáveis repórteres liberavam informações a curtos intervalos, sobre o que se passava no tribunal. Faziam especulações acerca do que estaria rolando na inacessível sala onde 7 homens e 5 mulheres definiam a sorte do ex-presidente. Olhos grudados nas imagens do receptor, os telespectadores seguíamos as narrativas, dando largas à imaginação quanto ao que deveriam estar fazendo, naqueles momentos os 12 jurados. Perguntávamos a nós mesmos qual seria o placar do veredicto. Sabedores de que a decisão para ser legitimada teria que obedecer a unanimidade em cada item acusatório, arriscávamos palpites sobre o resultado final. Em dado momento, um jornalista antecipou que pelo menos em uma das acusações  Trump já havia sido condenado.

Mas o resultado, surpreendendo o réu só chegou horas depois. Em decisão histórica, inédita na vida americana, Donald Trump foi condenado em todas as 34 situações declinadas no libelo acusatório.

Ao deixar o tribunal, em tom colérico, Donald Trump, disparou uma metralhadora giratória de impropérios contra o presidente Joe Biden, (chamado-o de burro), o juiz, o promotor e o júri afirmando que todos participaram de um complô tenebroso para afasta-lo do poder. Em seu destempero verbal, não poupou nem mesmo, descabidamente, os imigrantes, dizendo que “são todos bandidos”. Recebeu, por incrível que pareça a solidariedade de governantes autocratas, como Putin e Viktor Orbán, além de anêmicos “covers” espalhados pelo mundo.

Correndo o risco de ser preso Trump vai responder ainda a novos processos, envolvendo acusações muito mais graves entre elas atentado contra a democracia pela a invasão do Capitólio.

A legislação estadunidense não impede que um condenado exerça a presidência, mas, convenhamos, como será possível a maior democracia do mundo confiar a alguém com um prontuário desses a responsabilidade de gerir os negócios do país e de influir, com o poder de apertar botões fatídicos, nos destinos de toda a humanidade?

Curiosidade, no filme o réu é inocentado...

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

Aliada contra o crime

 

*Cesar Vanucci

“A câmera tem que ser vista como uma aliada importante na luta contra o crime, na proteção do policial e na proteção da população.” (Renato de Sergio Lima , diretor do fórum Brasileiro de Segurança Pública)

 

O emprego de câmeras digitais corporais por agentes da Segurança Pública vem sendo objeto de acesa polêmica. A medida, já adotada parcialmente em cinco unidades da Federação, encontra simpatia em meios ligados às políticas públicas de combate à criminalidade, sofrendo restrições por parte de alguns seguimentos policias encarregados da manutenção da ordem.

O Ministério da Justiça, reconhecendo o caráter amplamente positivo do uso sistemático desse instrumento nas diligências policiais, acaba de expedir uma instrução normativa aplicável aos órgãos Federais e as corporações policiais nos estados, ressalvando a autonomia dos governadores quanto a utilizar os critérios gerais alinhados. O Ministro Ricardo Lewandowski disse o seguinte sobre a momentosa questão: “Os estados têm autonomia para se auto-organizarem nessa área, no que diz respeito a segurança pública. No entanto, todos aqueles que quiserem fazer uso dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública ou do Fundo Nacional Penitenciário terão que se adequar a essas diretrizes para a compra das câmeras corporais". Enumerou algumas das principais ações a serem gravadas pelas câmeras afixadas nos uniformes dos agentes. Aqui estão: Atendimento de ocorrências variadas, buscas, manifestações ou reintegrações de posse e em situação de oposição à atuação policial, com potencial de confronto ou uso de força física. Segundo as diretrizes apontadas, as gravações podem ser feitas por acionamento remoto, pelo próprio agente de segurança ou, de preferência, de forma automática e durante todo o turno de serviço. A restrição ou vedação do uso de câmeras corporais só poderão ocorrer em situações excepcionais.

Comentando a resolução, o diretor do fórum Brasileiro de Segurança Pública, Renato de Sergio Lima afirmou que “A câmera tem que ser vista como uma aliada importante na luta contra o crime, na proteção do policial e na proteção da população, porque ela que permite que nós produzamos evidências robustas para que o Judiciário, o Ministério Público possa de fato reduzir a impunidade e o Brasil possa ser um Brasil menos violento e mais seguro". Sensatas ponderações. Carecem ser assimiladas em toda a extensão por responsáveis pela governança e seus subordinados nos diferentes escalões da Segurança Pública.

Releva observar que esse providencial sistema, malgrado a descabida resistência de alguns bolsões policiais à sua aplicação, está muito longe ainda da prática universal reclamada pelo interesse público. Para se ter uma ideia do que vem rolando, o estado de São Paulo está promovendo concorrência para aquisição de 12 mil câmeras digitais corporais. O efetivo policial militar paulista aglutina 81 mil agentes.

2) Homem certo - Homem certo, na hora certa, na missão certa. Assim pode ser definido o Ministro Alexandre de Moraes, ao cabo de sua gestão na Presidência do Tribunal Superior Eleitoral onde está sendo substituído pela Ministra Carmem Lúcia. Os democratas, afortunadamente maioria neste nosso Brasil continental, aplaudem o magistrado pelo destemor cívico evidenciado no enfrentamento do populismo extremista, da xenofobia, racismo e misoginia existentes em arraiais dominados pela fanatíce ideológica.

3) Assaltos - Os juros nos cartões de credito rotativo atingiram o obsceno patamar de 442 por cento ao ano. Pergunta-se quando é que o camburão com agentes fardados vai estacionar diante das casas de agiotagem institucionalizada para recolher ao xadrez os responsáveis por essa enormidade de assaltos cometidos à luz do dia?

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Regras para as plataformas

 

*Cesar Vanucci

o ambiente "praticamente desregulado" no qual as plataformas digitais operam cria uma competição injusta e desleal.” (Juscelino Filho, Ministro das comunicações.)

 

1) A tragédia climática no Rio Grande do Sul eclipsou a divulgação de fatos relevantes, de acontecimentos de grande interesse comunitário. É o caso de um encontro ocorrido nos Estados Unidos que reuniu representantes de órgãos de comunicação social nas diferentes modalidades de todos os países das Américas. O escopo do conclave foi avaliar as consequências e riscos para a sociedade humana e atividades jornalísticas dos desvios e deturpações oriundos do uso desregrado da internet e da Inteligência Artificial (IA). Ficou assentada como decisão categórica dos periodistas a necessidade imperiosa e urgente de a governança mundial estabelecer rígidos critérios para a operacionalização das plataformas digitais. As normas almejadas contemplam o combate permanente, com sanções eficazes, às fake News, às invasões de propriedades intelectuais e concorrência publicitária desleal. Enfim, uma ação envolvente, de amplitude para colocar termo em procedimentos que têm causado danos incalculáveis aos seres humanos, às instituições pelos desatinos cometidos por setores descompromissados, por fanatíce ideológica e avidez por ganhos matérias, com o bem estar social.

2) Diabruras de Milei - O imprevisível Javier Milei, Presidente da Argentina, acaba de provocar mais um entrevero diplomático. Participou em Madrid de um encontro de extremistas políticos saudosistas do regime do “generalíssimo Franco”. Agrediu verbalmente a esposa do Primeiro Ministro espanhol, Pedro Sanchez, acusando-a de corrupta. Não deu outra: o Governo espanhol exigiu que Milei se reretratasse e, diante de sua recusa ordenou o fechamento da embaixada espanhola em Buenos Aires. A descabida atitude, ferindo em cheio a ética diplomática, está sendo bastante criticada na própria Argentina, até mesmo em círculos ligados ao governo. Os investimentos espanhóis na economia argentina são bem volumosos. Os críticos das posturas costumeiramente insólitas de Milei estão levantando a hipótese de que o ocupante da Casa Rosada foi mal aconselhado, dessa feita, pelo seu “saudoso” cão de estimação, com o qual segundo ele próprio admite, mantém contatos de natureza mediúnica. No lançamento recente de um livro o dirigente portenho brindou a plateia com um recital de canto, mostrando outra faceta de seus “predicados”.  Com seis meses de mandato, Milei já entrou em rota de colisão, por conta de incontinências verbais, com os presidentes do México, Colômbia, Chile, Brasil, com o Primeiro Ministro espanhol, além do Papa Francisco seu compatriota. Dias atrás, a revista “Times”, anotando que entre outras coisas Milei se vangloria de ser instrutor de sexo tântrico, classificou-o de radical e de excêntrico, o governante mais excêntrico da atualidade. Enquanto isso, as promessas de tornar a Argentina “uma superpotência” vão se esboroando diante da realidade de uma governança sem rumos claros. O indicie de inflação está nas alturas dos 400 por cento, o dólar vale quase 2 mil pesos, o declínio na taxa de desemprego mostra-se a cada dia mais avassalador. Com a economia em frangalhos, os vestígios de pobreza coletiva se fazem mais visíveis do que nunca.

3) Triste sina – triste a sina da política carioca! Nos últimos anos, seguidamente, 7 (sete) governadores do Rio de Janeiro tiveram seus mandatos cassados. Pelo apertado placar de 4X3, em julgamento ocorrido no TER, o atual governador, Claudio Castro escapou por pouco de ser o oitavo da lista. A acusação movida pelo Ministério Público contra ele, seu vice e o presidente da Assembleia Legislativa será agora examinada, em grau de recurso, pelo TSE. Segundo a denúncia, na véspera eleitoral, dois órgãos da administração Estadual nomearam 28 mil pessoas que teriam atuado como cabos eleitorais...

Jornalista (cantonios1@yahoo.com)

Clamor universal pela Paz

 

 

*Cesar Vanucci

 

            Que haja paz para que o diálogo entre eles seja fortalecido e dê bons frutos.”

                                         (Papa Francisco, a respeito do conflito em Gaza).

 

Amarga realidade: tudo como dantes no quartel de Abrantes. Os conflitos – dir-se-ão tribais - congestionam este nosso maltratado planeta. A soma deles, diz a ONU, passa de centena e meia. A voraz indústria de armas esfrega as mãos de contentamento. Dividendos polpudos engordam as contas dos acionistas. Os “senhores da guerra” mantêm-se imperturbáveis e inflexíveis aos clamores da humanidade. Gaza e Ucrânia, pra ficar apenas em duas citações, continuam sendo referencias brutais do instinto selvagem que se apoderou, em tantos rincões, de mentes e corações, despossuídos de humanismo.  

No Vaticano, a voz, sempre lúcida e serena do sábio Francisco exorta os belicosos adversários da interminável contenda que ensanguenta a Terra Santa ao diálogo e à concórdia. O Papa junta num abraço simbólico que enternece o mundo inteiro, um jovem israelense e um jovem palestino, órfãos da guerra, unidos na dor. O gesto emblemático incorpora-se aos apelos fervorosos vindos de todas as partes, em prol de pausa humanitária que venha acompanhada de dialogo, em lugar da troca de tiros, na busca de uma solução civilizada para desavença tão irracional. Os apelos da opinião pública, como notório, desfazem-se em estilhaços ao esbarrar na indiferença, insensibilidade e prepotência dos guerreiros empedernidos.  

Reveladores do inconformismo da sociedade com relação ao horror das guerras, dois posicionamentos de efeitos políticos e jurídicos importantes acabam de ganhar destaque no noticiário. Um deles foi tomado no âmbito das Nações Unidas. Por esmagadora maioria de votos os Países Membros da instituição resolveram conceder à Palestina direito de assento permanente na Assembleia Geral, com todas as prerrogativas inerentes. A decisão é interpretada, por um lado, como de caráter apenas simbólico, face ao entendimento de que o assunto teria que ser apreciado antecipadamente pelo Conselho de Segurança. Mas existe, por outro lado a compreensão de que a maciça votação favorável no plenário, incomum na historia da ONU, garante total legitimidade à resolução. Seja como for, o resultado indica cabalmente o estado de espírito dominante no sentido de se encontrar, sem delongas a solução desejada universalmente. Cabe anotar que, além dos Estados Unidos e Israel, a Argentina de Milei e a Hungria de Viktor Orbán  votaram contra.

As fortes tensões internacionais repercutem também de forma intensa na Corte Internacional de Justiça de Haia, onde acaba de ocorrer outro fato relevante sobre a guerra no oriente médio. Criada pela ONU, por inspiração de juristas que atuaram no tribunal de Nuremberg que julgou os crimes nazistas, a Corte propõe-se a examinar denuncias sobre crimes contra a humanidade. Sua jurisdição se estende a 123 países. Vladimir Putin figura entre os 28 dirigentes mundiais sentenciados pela Corte, devido a ato de lesa humanidade na Guerra da Ucrânia. Contra ele foi expedido mandato de prisão que, teoricamente, impede sua presença em países jurisdicionados.

Os pavorosos acontecimentos de Gaza estão levando o Tribunal de Haia a adotar drásticas resoluções. Acha-se em curso ali denuncia da África do Sul de que estaria havendo genocídio na região. Dias atrás a procuradoria da Corte assumiu posição jurídica de enorme relevância. Pediu a prisão do Primeiro-Ministro de IsraelBenjamin Netanyahu, de seu Ministro do Exterior e dos três principais líderes do Hamas.

Paralelamente a isso, provocando áspera reação de Israel, vários países europeus anunciaram em bloco decisão de reconhecer imediatamente a existência e soberania do Estado da Palestina. O que o mundo está dizendo é: chega de guerra, instaure-se a paz!

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Os desafios cruciais da construção


 

*Cesar Vanucci

“Cuidar do meio ambiente é zelar pelo ambiente inteiro” (Antonio Luiz da Costa, educador)

 

 

E agora? O que fazer quando as cheias cederem, as águas baixarem, o nível dos rios cair, os temporais e desabamentos cessarem, a caudal impetuosa que manteve cidades inteiras submersas finalmente desaguar no mar? O que fazer quando os moradores retornarem aos seus lares e se depararem com os rastros de destruição deixados pelas tormentas? Como definir, em meio ao turbilhão de problemas, as prioridades a serem atacadas no descomunal esforço de reparações exigidas pela hecatombe climática?

Quando a apavorante amostra diluviana se desfizer e a gigantesca operação de reconstrução puder ser desencadeada, o Brasil terá que saber utilizar, numa empreitada de não curta duração, o melhor de sua vontade política, de seu engenho técnico, de sua capacidade administrativa a fim de que sejam alcançados em plenitude os resultados ardentemente almejados. Vai ser preciso multiplicar o trabalho, bem executado e muito bem acolhido pela opinião publica, dos terríveis momentos emergenciais. Em tais momentos as atenções estiveram predominantemente focadas, como é obvio imaginar no resgate de pessoas, na assistência social ampla aos desabrigados. O “cenário de guerra” em que se transformou parte da província gaucha, inspirou ações providenciais dos Poderes Públicos (Governos e Congresso), envolvendo medidas bastante satisfatórias no ponto de vista do respeitável interesse comunitário. Na tarefa hercúlea à nossa frente, face ao maior desastre ecológico ocorrido no país, impões-se que a eficiência  caminhe de mãos dadas com a urgência. A coordenação geral dos trabalhos terá que se estribar num planejamento muito consciencioso, meticuloso capaz de garantir sustentação a um ritmo febricitante de obras. As novas edificações, a eventual mudança de lugar de residências e até mesmo de cidades, como se está prevendo,os planos de contingência e de adaptação terão que compreender projetos irrepreensivelmente elaborados. O mesmo há que se dizer dos possíveis novos traçados rodoviários. A chama da fé, esperança, espírito de resiliência e estoicismo demonstrados até aqui pelos compatriotas do Sul, confortados na magnífica solidariedade do povo brasileiro, das instituições publicas e privadas, carece ser mantida na  complexa batalha que se avizinha de soerguimento das estruturas devastadas. Faz-se imperiosa a observância, nas numerosas frentes do trabalho a ser executado, de rigoroso critério orçamentário, bem como impecável consistência técnica, como medida preventiva para o caso de eventuais fenômenos climáticos indesejáveis. Está claro que as obras de engenharia, os maquinários, as plantações, os rebanhos compõem um todo muitíssimo precioso no processo da reconstrução. Mas o que não pode deixar de ser levado em conta, privilegiadamente, é o ser humano. Ele terá que ser colocado no centro de convergência das decisões. Nada poderá ser feito sem a preocupação, em primeiríssimo lugar, com seu bem estar.

Quanto ao mais, a situação reclama competência e presteza. O Rio Grande do Sul tem pressa, muita pressa. O Brasil também.

Nem bem foram ainda contabilizados os estragos provocados pelo “El Niño” e já podem ser vislumbrados nos horizontes os sinais amedrontadores da “La Niña”. Segundo explicam os especialistas em questões climáticas, trata-se de uma nova onda de intempéries potencialmente prejudicial às regiões atingidas. Que os bons ventos a afastem de nossa direção!

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quinta-feira, 16 de maio de 2024

Por falar em supersalários...

 


*Cesar Vanucci

“O que se pretende é regulamentar o que já está regulamentado”

(Domingos Justino Pinto, educador.)

 

 Pela enésima vez no curso de numerosos períodos governamentais, fonte oficial anuncia “categoricamente” a disposição de elaborar uma lei para colocar fim aos abusos dos supersalários pagos a privilegiados agentes públicos lotados em repartições das diferentes esferas do Poder.  A Constituição brasileira estabelece um teto salarial para os servidores públicos, estipulando que ninguém tem direito a receber mais do que, para ficar em num único exemplo, o Presidente da República. A regra, como tantas vezes denunciado, tem sido solenemente desrespeitada. Os holerites de muita gente, talvez milhares de pessoas, como temem executivos cônscios de seus deveres republicanos agrupam penduricalhos, itens marotos que elevam a remuneração a alturas indesejáveis. O reconhecimento geral da esdrúxula situação não resultou, até hoje em nenhuma medida concreta de contenção da irregularidade. Como existe a promessa de ser editado outro instrumento legal referente ao assunto, de modo a resolver toda essa história, tomamos a liberdade de oferecer uma sugestão de texto para o ato destinado a divulgação, como contributo que poupe o tempo do legislador. Depois das palavras protocolares do preâmbulo, vem o texto: Artigo 1° - no que concerne aos vencimentos de agentes públicos federais, cumpra-se o que manda a Constituição; Artigo 2° - revogam-se as disposições em contrário. Embaixo aponha-se a assinatura de quem de direito, dispensando-se o reconhecimento de firma em cartório. E estamos conversados.

2) “Ajudas” - Amostra loquaz – mais emblemática, impossível – de como são conduzidas, nas altas esferas decisórias universais, as magnas questões sociais, políticas e econômicas que afligem este nosso mundo velho de guerra. O governo dos Estados Unidos destinou 100 mil dólares (500 mil  reais) para as vítimas das enchentes do Rio Grande do Sul. Na mesma semana, anunciou a remessa de ajuda de 30 bilhões de dólares (150 bilhões de reais) para o “esforço de guerra” (leia-se armas de destruição) do Estado de Israel. Tem mais: anunciou também auxilio, com a mesma,finalidade, de 28 bilhões de dólares (140 bilhões de reais) para a Ucrânia. Seja ressaltado que as duas parcelas mencionadas são apenas parte da substanciosa colaboração financeira concedida com objetivos bélicos.

3) Sugestão - Na televisão, alguém sugere sensatamente aos congressistas que reservem parte dos recursos provenientes das controvertidas emendas parlamentares para acudir necessidades da população do Rio Grande do Sul. Pelo que se sabe, até alguns dias atrás, apenas três deputados gaúchos haviam anunciado a intenção de carrear somas orçamentárias para tal finalidade. Na hipótese de que a sugestão anotada encontre receptividade estaremos nos deparando, alvissareiramente, com um gesto de grandeza cívica que fará muito bem à imagem do Senado e da Câmara Federal.

4) Milicianos - A inesgotável série de malfeitorias praticadas pela chamada “banda podre” da polícia carioca acaba de agregar  outro episodio chocante. O Ministério Público do Estado apurou, por meio de investigações que se arrastaram por quase dois anos, que 13 (treze) integrantes da PM, entre suboficiais e soldados, compunham aguerrida milícia na região de Belford Roxo. Os “milicianos fardados” mantinham “negócios” de drogas, armas e carros, “garantindo” proteção aos moradores e comercio estabelecido com cobrança de taxas regulares. Já devidamente trancafiados, respondendo a processo criminal, deveram ser expulsos das fileiras da corporação.

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)


A união almejada pelo Brasil

 



                                         

        *Cesar Vanucci

 

“A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.”(Franz Kafka)

  

Diante do cataclisma no Rio Grande do Sul as forças vivas da Nação estão dando magnífica demonstração de solidariedade e fraternidade. A consciência de cidadania, impregnada de humanismo, típico de nossa cultura criou as condições ideais para que todos os setores  representativos da sociedade firmassem um pacto em torno dos problemas gerados pela catástrofe.

A resoluta disposição comunitária de enfrentamento da calamidade pairou, altaneira, sobre as divergências políticas do cotidiano democrático, as desavenças ocasionais da vida mundana, abrindo frentes de trabalho emergencial muito bem sucedido. Auspiciosamente, acham-se engajados com afinco nessa árdua tarefa os Poderes Públicos, com suas estruturas de serviços essenciais. A execução de tais serviços envolve pessoal das Forças Armadas, Forças Policiais estaduais, agências de saúde e educação, órgãos assistenciais dos Ministérios e Secretarias, além de ONGs, instituições educacionais, religiosas, classistas e sindicais, organizações privadas de saúde e educação, empresas e uma multidão de abnegados voluntários. Tão poderosa conjugação de vontades, de cunho altruísta e feição ecumênica, inspira a esperança de que possamos, adiante, todos juntos estabelecer clareira de entendimento na busca, já não mais de saídas de emergência, mas, sim das soluções decisivas para eventuais casos de fenômenos climáticos perturbadores.

 A formidável unidade de ações observada nesse capítulo difícil da vida brasileira é recebida com simpatia pela opinião pública. É vista pelas lideranças evoluídas, mentes lúcidas, corações fervorosos, pelos autênticos democratas como fator capaz de garantir ao Brasil avanços consideráveis na senda do desenvolvimento, começando pela reconstrução daquilo que as tormentas destruíram. Espera-se, pois, que disso se compenetrem os responsáveis pela condução dos negócios brasileiros, nas áreas políticas, na gestão pública e das atividades privadas interessados na conquista do futuro e bem-estar coletivo.

 Não há como ignorar, todavia, a existência de um pequeno bolsão de resistência à frondosa ideia da unidade nacional, desligada das paixões políticas, na busca de resultados positivos para magnos problemas que nos afligem como Nação. O drama do Sul do país mostrou-nos, outra vez, essa deplorável circunstancia. Valemo-nos para classificá-la de uma expressão popular: É o cumulo do absurdo! Shakespeare fornece definição mais adequada para a situação: “é loucura, mas tem um método”! Estamos nos referindo, obviamente, à presença insidiosa “das fake news” na divulgação dos dolorosos acontecimentos do RS. A caudal de falsidades lançada nas despoliciadas plataformas digitais, visando com torpes objetivos semear o pânico e criar uma atmosfera de rancor e revolta, deixou todo mundo atônito e indignado com a desfaçatez do grupelho que a promoveu. O tiro disparado saiu pela culatra. A irresponsável ação deflagrada equivaleu a uma cusparada para cima sem que o autor, (ou autores), saísse de baixo. Os brasileiros desejam ardentemente a união, as “fakes” pregam a desunião. Elas constituem, sem sombra de dúvida, um ato demencial, não há negar. Mas, seguem um método com a intenção de desacreditar a esplêndida junção de esforços aplaudida por todos e que nos coloca diante de lances de dedicação e heroísmo que enaltecem a condição humana.

Não dá mais para esperar. O Congresso precisa aprovar logo a regulação das plataformas digitais, doa a quem doer. Os estelionatários das redes carecem ser contidos em sua corrosiva atuação.

Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

 

São muitos os sinais

  


Cesar Vanucci *

 

“A humanidade está ameaçada”.

(Alerta da OMS )

 

Com a atenção focada nos impactantes acontecimentos do Rio Grande do Sul, retomo a candente questão das mudanças climáticas extremas.

 Começo falando de um sugestivo texto de Robert Frost, relativo aos sinais emitidos pela Natureza, para suavizar um pouco o tema perturbador trazido à reflexão. Com a palavra o poeta estadunidense: “Quantas vezes trovejou antes que Franklin compreendesse o sinal? Quantas maçãs caíram na cabeça de Newton antes que compreendesse o sinal? A Natureza nos manda sinais constantemente, repetidas vezes. E, de repente, nós percebemos o significado deste sinal.”

Frequentes, ruidosos, crescentemente ameaçadores, os sinais estão sendo captados por gente da ciência, da ecologia, das lideranças comprometidas com o bem-estar social. Cuidam elas, conscientes de sua missão no contexto civilizatório, de expedir alertas fundamentados sobre os sinistros riscos que andam rondando a humanidade em consequência dos desatinos praticados contra o meio ambiente. Os desmandos são cometidos em nome de ganância desenfreada e de feroz utilitarismo, que subjugam, implacavelmente, em favor de minorias, os sagrados interesses da coletividade.

Em  recente relatório produzido pela Organização Mundial de Saúde é enfatizado que as mudanças dos eventos climáticos  ceifaram milhares de vidas nos últimos anos. As modificações também estão ameaçando a segurança alimentar e aumentando as doenças transmitidas por alimentos, água e vetores, além de afetar negativamente a saúde mental de populações. O documento sustenta que as alterações operadas no clima são uma das emergências de saúde mais graves antepostas ao desenvolvimento social e econômico do planeta.

Paralelamente à manifestação da OMS, saiu publicada uma carta aberta que traz como signatários profissionais da saúde de todos os continentes. Nela, 300 organizações, representantes de pelo menos 45 milhões de profissionais de saúde, apelam por empenho da comunidade internacional para ações climáticas de sentido propositivo.

No relatório da OMS é acentuado ainda que “Compromissos nacionais ambiciosos sobre o clima são cruciais para os Estados.” A manifestação contempla os resultados de avolumado número de pesquisas que confirmam as incontáveis e inseparáveis ​​ligações entre o clima e a saúde. O documento descreve, além disso, como ações transformadoras em todos os setores, desde energia, transporte e Natureza, até sistemas alimentares e financiamento, são necessários para proteger a saúde.

A pandemia da Covid-19 nos revelou as ligações íntimas e delicadas entre humanos, animais e nosso meio ambiente, pontuou o porta-voz da OMS, Tedros Adhanom. “As mesmas escolhas insustentáveis ​​que estão matando nosso planeta estão matando pessoas”.

Tanto o relatório da agencia da ONU, quanto a carta aberta dos homens da ciência, vêm num momento em que eventos climáticos extremos sem precedentes e outros impactos climáticos estão agredindo, de forma inclemente, cada vez mais, a todos os seres vivos. Ondas de calor, tempestades e inundações arrebataram milhares de vidas e perturbaram milhões de outras, ao mesmo tempo em que afetaram os sistemas de saúde, as redes hospitalares e centros de atendimento médico em momentos cruciais.

Noutro ponto das abordagens feitas pela ONU é salientado que “A queima de combustíveis fósseis está nos matando e a mudança climática é a maior ameaça à humanidade”. Diz mais o documento: “Embora ninguém esteja a salvo dos impactos das mudanças climáticas, eles são desproporcionalmente sentidos pelos mais vulneráveis ​​e desfavorecidos”.

Voltaremos a falar do assunto.

 


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

 

quinta-feira, 9 de maio de 2024

O impacto do “novo normal”

 



 

*Cesar Vanucci

“Há séculos a Natureza vem sendo transformada em dinheiro. Chegou a hora de o dinheiro restaurar a Natureza.” (Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente).

 

Os tempos das calamidades climáticas constantes são chegados. O que não tem faltado é anuncio prévio acerca da desassossegante possibilidade. A Natureza tem dado recados abundantes. A ciência não para de alertar sobre o que está por acontecer e já está, até mesmo, acontecendo.

A tragédia humanitária que se abateu sobre a Província do Rio Grande do Sul é amostra impactante do “novo normal climático”. No curto espaço de sete meses os Pampas Gaúchos foram impiedosamente alvejados. No verdadeiro cenário de guerra que se instalou em quase todas as cidades e zona rural, milhões de pessoas foram atingidas. As tempestades trouxeram inundações, deixando cidades inteiras submersas e isoladas por causa da destruição de estradas e pontes. Propriedades e lavouras foram arrasadas. O sistema de serviços essenciais ficou seriamente comprometido. Centenas de preciosas vidas foram perdidas. O numero de desabrigados alcançou cifras elevadíssimas. Uma calamidade jamais registrada naquelas paragens.

 Encarar catástrofes desse gênero com desdém e indiferença, pior ainda, com mórbido negacionismo significa fuga irracional da realidade. O negacionismo insolente é filho dileto do fanatismo ideológico. Fomenta teorias conspiratórias que desservem a causa da evolução humana.   

São múltiplos e muitas vezes imprevisíveis os desafios a serem enfrentados, daqui pra frente, pela sociedade nesta fase tormentosa de convulsão dos elementos naturais, provocadas pela insensatez e ganância dos povoadores deste belo e mal tratado planeta. Antes de nos ocuparmos de alguns aspectos relevantes da ameaçadora situação vivida pelo mundo contemporâneo, em função do aquecimento global, cumpre ressaltar um lance altamente significativo, rico em humanismo, observado em meio a volumosa carga desditosa da brusca alteração ambiental. O Brasil solidário acha-se muito bem representado nos dolorosos acontecimentos. Os Poderes públicos nas esferas Federal e Estaduais, Forças Armadas e policiais, bombeiros, órgãos de prestação de serviços comunitários, voluntários,  gente do povo, movidos pelo saudável propósito da ajuda incondicional, estão proporcionando estupenda demonstração dos frutos positivos que podem ser colhidos de uma poderosa conjugação de vontades focadas no bem comum. Coisas assim fazem renascer a esperança em momentos melhores. Amenizam o sofrimento e a dor das vítimas.

É preciso atentar para os sinais. Deu para perceber, nos dias que antecederam a tragédia no Sul, que a informação básica de que um fenômeno climático se avizinhava chegou ao conhecimento do público em tempo razoável. Zelar para o aprimoramento deste esquema é fundamental. A criação de estratégias de prevenção que contemplem obras vitais nas chamadas áreas de risco é outra medida a ser adotada. O fortalecimento da Defesa Civil com recursos tecnológicos avançados e continuo treinamento de seus integrantes para prevenir e acudir as emergências nos desastres naturais também faz parte do conjunto de providências a serem implementadas.

Atentar para os sinais é preciso. O indigesto “cardápio” dos cataclismas nascidos do adelgaçamento da camada de ozônio que circunda o globo terrestre abrange inesperados furacões, erupções vulcânicas, terremotos, secas climáticas, tsunamis e mais um colosso de coisas assustadoras. As lideranças mundiais não podem declinar do dever imperioso de definir ações inteligentes e vigorosas em defesa da coletividade. Pode estar em jogo, nessa historia do aquecimento global destes nossos tempos confusos, a própria sobrevivência da espécie humana.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

O Rio continua lindo, mas...

 


*Cesar Vanucci

 

“Uma verdadeira máfia, que tem entrado nas instituições, nos poderes, nos comércios e no sistema financeiro nacional”. (Governador Claudio Castro sobre as facções e as milícias no RJ)

 

O Rio continua lindo, como lembra Gilberto Gil, mas clamando por pronto socorro que possa curar as feridas abertas em seu tecido social. Refém das facções e milícias, sentindo-se insegura face à inoperância e corrupção de agentes  públicos, a chamada “cidade maravilhosa,” que soube encaixar na deslumbrante paisagem um complexo arquitetônico majestoso e febricitante, permanece há muito à espera de que alguém possa retirar as flechas do peito de seu Padroeiro para que São Sebastião do Rio de Janeiro possa ainda se salvar, conforme propõe Aldir Blanc em linda canção.

Na semana passada, outro surreal incidente voltou a encher de sobressalto a noite carioca. O serviço de inteligência da polícia detectou a presença, no Morro do Alemão, de integrantes graduados de uma organização do crime. As autoridades montaram uma operação de envergadura para a captura dos “fora da lei”. Mais de 300 policiais foram recrutados. Viaturas blindadas e até helicóptero foram mobilizados. O esquema de ocupação da área-alvo foi meticulosamente planejado. Quando o respeitável contingente policial, no romper da madrugada, chegou ao Morro do Alemão, deparou-se com uma situação inteiramente fora de todos os cálculos. Todas as ruas de acesso estavam bloqueadas com elementos encapuzados fortemente armados prontos para o enfrentamento da lei. Recebida a bala a guarnição policial reagiu, com o tiroteio estendendo-se por vários minutos, o que obviamente trouxe muito pavor aos moradores da comunidade. Nas horas seguintes o Governador do Rio de Janeiro, Claudio Castro, com desalento na voz, deu declaração pública reconhecendo o rotundo fracasso da operação, dizendo com todas as letras, pontos e vírgulas que os criminosos haviam sido dela informados previamente por agentes públicos inidôneos, pertencentes a banda podre da polícia. Isso aí representa mais uma prova assustadora da infiltração mafiosa nas esferas públicas no Rio de Janeiro, lugar que sempre foi visto no passado como a segunda terra natal de todos os brasileiros.

 

2) Bala perdida – Rio de janeiro , outra vez. No primeiro quadrimestre deste ano de 2024, quase cinquenta cidadãos, indefesos moradores de regiões dominadas por milícias e facções, foram atingidos por balas perdidas, durante troca de tiros entre a polícia e bandidos, entre membros de grupos criminosos rivais disputando território. Das pessoas atingidas oito vieram a falecer. Como é que pode?

 

3) Granadas – A Policia Federal acaba de revelar que as granadas arremessadas pelo ex-deputado Roberto Jeferson contra agentes da instituição, na véspera das eleições presidenciais, bem como as outras guardadas em sua residência, pertenciam ao arsenal da policia militar carioca. O desvio das mortíferas armas está sendo objeto de investigação. Ora, veja, pois!

 

4) Erro político – Por “falar em armas”, observadores argutos da cena pública admitem que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu “um tiro no pé”, cometendo erro político elementar, no discurso feito na manifestação em São Paulo na celebração do 1° de maio promovida pelas centrais sindicais. Foi quando pediu votos para seu candidato à Prefeitura paulista Guilherme Boulos. Pelo código eleitoral vigente posicionamentos dessa natureza, fora da fase pré-eleitoral, são taxativamente proibidos, implicando em punição para quem infrinja a lei. Mais do que de pressa, alguns partidos, entre eles o MDB que integra a colisão governamental, entraram com representações contra o Chefe do Governo na Justiça Eleitoral (STE) por propaganda antecipada. Que mancada!

 

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

quinta-feira, 2 de maio de 2024

Letra e música magistrais

 


Cesar Vanucci *

 “Tu pisavas nos astros  distraída...” 

(Orestes Barbosa, no clássico “Chão de estrelas”, composto em parceria com Silvio Caldas)

 

A crônica literária registra uma manifestação de Manuel Bandeira, que causou na época em que foi feita, anos atrás, grande surpresa e chegou a provocar, até mesmo, um certo clima polêmico. Indagado sobre quais seriam os mais belos versos da poesia brasileira, o grande vate, sem titubeios, respondeu: “Tu pisavas nos astros distraída.” A resposta colocou no foco das atenções um clássico da MPB, “Chão de estrelas”, de onde os versos apontados por Bandeira foram retirados. Conferiu, também, justo realce a um excelente poeta popular que não frequentava os salões acadêmicos mais refinados. Orestes Barbosa, coautor da melodia, ao lado do portentoso intérprete Sílvio Caldas.

 

Arrostando rançosos preconceitos com o veredito proferido, o autor de “Evocação do Recife” convidou-nos, de certa maneira, com a autoridade de inconteste conhecedor do fascinante oficio da versejação, a aprender extrair das canções populares brasileiras outros achados poéticos.

 

Partilhando dessa certeza de que a incomparável música popular feita no Brasil é um repositório de poesia da melhor qualidade resolvi, quando de minha passagem pela direção da Rede Minas de Televisão, abrir espaço especial num dos programas que criei (“Um livro aberto”, dedicado à temática literária) para interpretações musicais do cancioneiro nacional. O canto era acompanhado de comentários sobre os versos das composições.

 

Dentro dessa linha de raciocínio, resolvi também, em certo período, ampliar a tal coleção de frases com letras de melodias conservadas no carinho e enlevo pela memória das ruas.

 

Algumas delas. “A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar; tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar.” (“A felicidade”, tema do filme “Orfeu negro”, Vinicius de Moraes e Tom Jobim).

 

“Mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti...” (samba-canção “As rosas não falam”, de Cartola).

 

“Atire a primeira pedra, ai, ai, ai. Aquele que não sofreu por amor.” (“Atire a primeira pedra”, Mário Lago e Ataulfo Alves).

 

“Vê, estão voltando as flores. Vê, nessa manhã tão linda. Vê, como é bonita a vida. Vê, há esperança, ainda” (marcha-rancho, “Estão voltando as flores”, Paulo Soledade).

 

“Quem nasce lá na vila, nem sequer vacila em abraçar o samba, que faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo.” (“Feitiço da vila”, Vadico e Noel Rosa).

 

“Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio.” (“Feitio de oração”, Noel Rosa e Vadico)

 

“Se a lua nasce por detrás da verde mata mais parece um sol de prata, prateando a solidão.” (“Luar do sertão”, toada, Catullo da Paixão Cearense).

 

“Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer.” (“Pra não dizer que não falei de flores”, Geraldo Vandré)

 

“O mundo é uma escola, onde a gente precisa aprender a ciência de viver, pra não sofrer.” (“Pra machucar meu coração”, Ary Barroso)

 

“Fazer samba não é contar piada, quem faz samba assim não é de nada; um bom samba é uma forma de oração, porque o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança de um dia não ser mais triste não”. (“Samba da bênção”, Vinicius e Baden Pawell).

 

“Ai! Que amar é se ir morrendo pela vida afora. É refletir na lágrima, um momento breve de uma estrela pura cuja luz morreu.” (Serenata do Adeus”, Vinicius de Moraes).

 

“Nesta viola eu canto e gemo de verdade; cada toada representa uma sodade.” (“Tristeza do Jeca”, toada, Angelino de Oliveira).

 

“Tu és, de Deus a soberana flor. Tu és de Deus a criação, que em todo o coração sepultas o amor, o riso, a fé e a dor em sândalos dolentes.” (“Rosa”, valsa, Alfredo Vianna, o Pixinguinha).

 

“O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito...” (“O mar”, Dorival Caymmi).

 

 

*  Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

terça-feira, 30 de abril de 2024

Nada de PEC bang-bang

 



                                          *Cesar Vanucci


“Sem uma regulamentação eficiente, as armas liberadas podem vir a ser disparadas contra o cidadão comum” (Antonio Luiz da Costa, educador)

 

 

Alcunhada de PEC “bang-bang”, subiu para analise do plenário do Congresso uma proposta, aprovada por curta margem de votos na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, instituindo  nova regulamentação para o uso e porte de armas. O que se pretende é retirar da União o controle da comercialização de armas de uso pessoal, transferindo essa prerrogativa constitucional para as unidades da Federação, a exemplo do que ocorre, com efeitos desastrosos, nos Estados Unidos. Seja anotado, a propósito, fato relevante. A Casa Branca vem buscando, empenhadamente, alterar as normas hoje predominantes, que dão causa a enorme confusão. As normas em questão concedem poderes às províncias regionais, tal qual se pretende fazer aqui, de elaborarem sua própria legislação a respeito da explosiva questão. A menção desse posicionamento do Governo Biden sugere a este desajeito escriba inverter o sentido de um dito famoso do passado: “O que (não) é bom para os Estados Unidos, (não) é bom para o Brasil”. E não é mesmo!

Já pensaram na encrenca que iríamos arranjar caso esse história de cada estado brasileiro criar sua própria regra no tocante ao controvertido tema? Imaginem só os riscos que correríamos com uma medida desse calibre que favorecesse a distribuição de armas, em quantidades e tipos diferenciados de uma região para outra, a gosto de fregueses mais ou menos exigentes. Não espantaria ninguém o surgimento no cenário de que fazem parte os “caubóis do asfalto” de indivíduos com grau de empoderamento igual ao daquele político fanático, detentor de arsenal privado, que, na véspera da eleição andou recebendo agentes da polícia com disparos de fuzil e arremesso de granadas!

Pesquisadores da criminalidade urbana classificam a proposição como um retrocesso brutal. Registram que o controle de armas num país com a vastidão territorial do nosso tem que atender a uma voz de comando única, no caso o Governo Federal que conta com suporte eficiente da Policia Federal e do Exercito, se voltado a ser chamado para ações de fiscalização, como já ocorreu no passado. A existência de critérios homogêneos na regulamentação da matéria concorre para que o esquema de concessões de armas não seja aviltado. Com razoáveis resultados, o governo atual conseguiu reduzir, por meio de ordenamento jurídico mais rigoroso, a fuzarca instalada no passado recente com as facilidades incríveis proporcionadas  para aquisição de armas de fogo. Sabe-se, com certeza que a “desregulação” havida beneficiou grandemente as facções criminosas.

A PEC, do imenso agrado da “bancada da bala”, de notória tendência radical, está sendo criticada com veemência por vozes as mais representativas do pensamento republicano e democrático. O que a sociedade agora espera é que a maioria parlamentar, ajuizadamente, rejeite-a na votação em plenário. Até porque a modificação desejada é inconstitucional.

 

2) Estado Democrático de Direito – a defesa do Estado Democrático de Direito foi a alegação apresentada pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro ao promover, no Rio de Janeiro, na praia de Copacabana uma manifestação política reunindo contingente numericamente significativo de partidários e simpatizantes. A alegação causou espanto, na imprensa e em muitas áreas da opinião pública. Afinal de contas o antigo mandatário do Planalto, com alguns de seus colaboradores mais próximos, vem sendo processado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), justamente pela circunstância de haver atentado contra o Estado Democrático de Direito. Escusado lembrar que as provas acumuladas, incriminando-o são muito robustas, envolvendo depoimentos arrasadores.

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

 

Agora é com a Austrália

 


                                                                               *Cesar Vanucci

                                                           “O arrogante empresário coloca-se acima da lei”

                                                           (Anthony Albanese, Primeiro Ministro da Austrália)

 

 

Delirantemente festejado pelo extremismo fundamentalista, o miliardário Elon Musk continua “aprontando” mundo afora. Como a gente costuma dizer em papo de rua, sente-se uma espécie de “rei da cocada preta”.  Aliás, melhor dizendo, “rei da cocada branca”, a se levar em conta a admiração que suscita nas falanges “supremascistas”. Obcecado pelo propósito de ditar regras que se sobreponham ao ordenamento jurídico-constitucional dos países democráticos, colocou agora em sua alça de mira a democracia australiana. Agrediu intempestivamente o governo e a suprema corte daquele país, utilizando a mesma retórica insolente empregada no caso do Brasil. Como aconteceu por aqui, levou uma senhora descompostura. E - outra vez mais- na saraivada de criticas que recebeu foi relembrada a postura acovardada que costuma assumir diante de países regidos pelo autoritarismo, onde prosperem seus negócios. A plataforma digital “X”, de que é dono, foi proibida na China, mas Elon permaneceu mudo e quedo que nem penedo. Não invocou a “condição” de impoluto defensor da liberdade de expressão. Como diz o jornalista Guga Chacra, esse cara não passa de um “tremendo babaca e hipócrita”. A razão do “mutismo” é a rendosa associação de interesses comerciais que mantém naquele país.

 2)PEC - A inoportunidade da assim chamada “PEC do Quinquênio” entra pelos olhos. O bom senso recomenda enfaticamente seja retirada logo da pauta das discussões parlamentares. Não faz o menor sentido propor-se melhoria salarial, isoladamente, para uma única categoria de agentes públicos, sobrecarregando de forma pesada o orçamento. Categorial que, por sinal, desfruta da primazia de ser a mais bem contemplada na política de remuneração do Estado. A impropriedade da medida ainda mais se avulta quando se tem em mira a circunstância de outros respeitáveis grupos de servidores aguardarem, de há muito, recomposições salariais até aqui não garantidas em exaustivas negociações. Não é de mais lembrar que entre os eventuais beneficiários da PEC figura muita gente aquinhoada com super salários, alguns deles acima do teto constitucional.

 3) Indiciamento - O aluvião de malfeitorias praticadas no período governamental passado traz à baila outro desconcertante registro. A Procuradoria Geral da República indiciou uma Parlamentar e seu comparsa, sob a acusação de haverem cometido atentado de violação do sistema do Conselho Nacional de Justiça. Pela denuncia, a Deputada Carla Zambelli (autora intelectual) e o hacker de Araraquara, Walter Delgatti invadiram arquivos do Órgão Federal, emitindo documentos falsos com o fito declarado de semear confusão e desacreditar o Poder Judiciário. Entre os documentos “produzidos” figurara uma ordem de prisão alvejando o Ministro Alexandre de Moraes, atual presidente do TSE. A “ordem” tinha o próprio Ministro o “signatário”. Noutros documentos lançados foram expedidas ordens de soltura para numerosos delinquentes, de alta periculosidade, alguns com pena de 200 anos, ligados a facção do CV. A parlamentar foi coordenadora de uma reunião resevada de Delgatti, no Palácio do Governo, com o então presidente Jair Messias Bolsonaro.  Foi ainda protagonista de uma cena chocante flagrada numa das vias mais movimentadas da capital paulista, pouco antes das eleições presidenciais. De arma em punho, acompanhada de guarda costa, também armado, perseguiu um jornalista negro, com quem se desentendeu por palavras, rendendo-o no interior de um estabelecimento comercial. Do libelo acusatório constam 10 diferentes delitos. A imprensa noticiou que elementos ligados à corrente política de Zambelli insistem pra que ela renuncie a seu mandato, de modo a que possa ser julgada em 1ª instância.

A SAGA LANDELL MOURA

12 jurados e uma sentença

  *Cesar Vanucci “A justiça provou que todos são iguais perante a lei” (presidente, Joe Biden)   Na era dourada de Hollywood afici...