quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

 

Esgoto tratado, outra calamidade social

 

Cesar Vanucci

 

“(...) levar serviços de saneamento básico para toda a população,  tão carente e tão sofrida.”

(Édison Carlos, dirigente do Instituto Trata Brasil)

 

A insuficiência de redes de coleta de esgoto para atendimento de nossas cidades é outra calamidade social vivida pelo Brasil dos tempos de hoje. O problema não é apenas tão chocante quanto a gente imagina, mas muito mais chocante do que a gente jamais conseguirá imaginar.

Pra começo de conversa, quase 100 milhões de brasileiros não têm acesso a esses serviços.  Os que dispõem do benefício sanitário básico citado somos apenas 53 por cento da população.

Tendo como fontes levantamentos procedidos pelo Instituto Trata Brasil, UNICEF, IBGE, é possível promover um desfile de informações, sem dúvida estarrecedoras, como as que figuram na amostragem da sequência.

Só 46% dos esgotos do país recebem tratamento. Dos 100 maiores municípios brasileiros apenas 21 conseguem tratar mais de 80% dos esgotos. Pelas estimativas técnicas, o país lança, aproximadamente, a cada dia, 5.622 piscinas olímpicas de dejetos não tratados na Natureza. Cerca de 13 milhões de crianças e adolescentes estão à margem dessa modalidade de proteção à saúde. Três por cento delas moram em residências desprovidas de vasos sanitários. Cerca de 36 municípios da relação dos 100 maiores registram que apenas 60% dos moradores são contemplados com coleta de esgoto. A proporção de municípios com serviço de esgotamento sanitário passou, de 47,3%, em 1989, para 60,3%, em 2017. Em somente 6 das 27 unidades federativas, a proporção de residências providas de esgotamento sanitário foi maior que 50% em 2017. São elas: São Paulo, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo e Goiás.

As análises estatísticas por região apontam os dados que se seguem: no norte, só 10,49% da população têm acesso à rede de esgotos; no nordeste, são 28,01%; no centro-oeste, 52,8%; no sul, 45,17%; 79,21% dos moradores da região sudeste se beneficiam de serviço regular de esgoto coletado.

Outra face da dramática situação diz respeito, já não mais apenas à precariedade e insuficiência dos sistemas de esgotos implementados, mas à ausência de tratamento dos dejetos coletados, exigência fundamental de uma política de saneamento em padrões satisfatórios. Apenas 46% dos esgotos do país são tratados. Somente 21 municípios dos 100 mais populosos tratam mais de 80% dos esgotos.

No tocante aos procedimentos de tratamento por região estes são os dados disponíveis. O tratamento de esgoto no norte é de 21,70%. O nordeste trata 26,34% dos esgotos. O índice de tratamento no centro-oeste é 53,88. No sul, 44,44% e, por último, no sudeste, de 50,09%.

Dias atrás, numa reportagem levada ao ar pela televisão, focalizando a importância social, cultural, ambiental do majestoso São Francisco, o chamado rio da integração nacional, os telespectadores tomaram conhecimento de mais essa informação arrasadora: somam mais de um milhar os municípios que despejam dejetos sanitários, sem qualquer vislumbre de tratamento, nas águas do Velho Chico.

Resumo da ópera. O esgoto que corre sem ser coletado, espalhando malefícios sem conta afeta específica e diretamente quase a metade da população. De outra parte, como já frisado em artigo anterior, a água potável é, ainda hoje, “luxo” não permitido – pasmo dos pasmos – a 35 milhões de patrícios. Tais revelações constam de recente estudo divulgado pelo Instituto Trata Brasil. O estudo deixa evidencia do que os investimentos estão consideravelmente aquém dos valores exigidos e mesmo dos valores fixados pela política pública de saneamento básico, quando prevê gastos de 373 bilhões por ano, por 15 anos seguidos, mirando a possibilidade de equacionar a questão até 2033. As aplicações têm ficado, em média, todavia, pouco acima da metade estabelecida.

Para o “Trata Brasil”, garantir o saneamento básico a toda a população é um desafio permanente às lideranças políticas, englobados aí governos Federal, Estaduais e Municipais. “É papel do cidadão pressionar, assim como os órgãos de controle, Ministério Público, Defensoria Pública, para que tanto os governantes quanto as empresas operadoras realmente façam aquilo que deveriam ter feito, que é levar esses serviços básicos (água tratada e coleta de esgoto) para a população tão carente e tão sofrida”, pontua Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil.

 

Leitores do “Blog do Vanucci” 
comentam os artigos publicados.

 

 Perenidade da mensagem 

 Avelina Maria Noronha de Almeida

Como sempre me deliciei com a leitura de seus textos, entre eles, que emocionante o "Santo Impulso", a belíssima apresentação poética. O Canto Poético e a Magia da Palavra me trouxeram bons momentos de deleite mental e emocional, que me revigoraram para enfrentar as preocupações do dia a dia nestes dias tão difíceis.
Que as luzes do Natal continuem iluminando você e sua família neste fim de ano e no vindouro 2021 portando bênçãos de Saúde, Felicidade e sucesso! Avelina

 

 ● Perenidade da mensagem

 Orlando de Almeida 

Ao mestre e amigo Cesar, A Pandemia interrompeu a tradicional comemoração de Natal presencial em BH da minha família, oportunidade em que aproveito para rever os amigos, como você. (...) Acabo de ler no seu blog a reunião da academia cujo tema foi o Natal nas vozes de poetas e trovadores, apreciei muitíssimo. Deixo aqui meu abraço afetuoso e meus votos de um Feliz Natal em Cristo para você e família e que todos tenhamos um Ano Novo repleto de saúde e paz.

 

● De xubregância a capadura

 Avelina Noronha 

Muito agradecida, senhor Presidente da Amulmig, pelos maravilhosos momentos que passei lendo o seu blog. Como sempre, aprendi muito, tive tantos momentos de deleite intelectual!  O "Elixir do  Pagé" foi uma das obras, junto com a "Captiva Isaura",  escritas por  Bernardo Guimarães quando morava aqui, quando era Queluz. Uma Boa Tarde!Avelina

 

De xubregância a capadura

 Alice Spíndola 

Cesar Vanucci, prezado amigo, que execução mais bizarra!  Tudo foi diferente na sua crônica. Como pôr lamparina no chifre da vaca? Um texto para não ser esquecido pela extravagância. Abraço cordial e fraterno, Alice

 

● De xubregância a capadura; Fábrica de moleque malcriado; Um tal Dionisio

 Arahilda Gomes Alves 

De xubregância, à fábrica de moleque, o riso solto não se estanca :kkkkkkk

Baita canastra de surpresas. Abraços, Arahilda

 

● Religiões como sinais de Deus 

 Orlando de Almeida

Boa tarde amigo e mestre, A publicação de textos do Padre Juvenal Arduini, de saudosa memória,me levou de volta aos bancos da Catedral de Uberaba nas missas das 17 horas, aos domingos, para ouvir suas homilias. Foi um grande pregador que tinha uma sabedoria e um poder de comunicação raríssimos nos tempos de hoje. Com uma eloquência e um gestual que arrebatava a todos do inicio ao fim do seu sermão. Grande abraço.

Orlando de Almeida

 Boa tarde grande amigo e mestre. Me dá uma satisfação enorme ler o seu blog, cujos temas são analisados com objetividade, conhecimento e fino senso de humor. Espero que possamos nos encontrar para jogar conversa fora tão logo passe esta pandemia.

 Abraço aos familiares e te cuida.

 

● Não sobrou ninguém

 Orlando de Almeida 

Boa tarde mestre e amigo Cesar,  Deliciei-me com seus dois artigos sobre a era do rádio, as rádio-novelas e o rádio teatro. Como uberabense que sou, vivenciei esta época da PRE-5, e conheci vários dos personagens mencionados nos seus dois textos, incluindo o amigo e mestre, com quem tive o orgulho de trabalhar no antigo Correio Católico, hoje Jornal da Manhã. As histórias que você contou fizeram com que voltasse ao passado de ouvinte da boa e saudosa Radio Nacional, e seus grandes e inesquecíveis atores. Grande abraço Orlando de Almeida

 

Hora da novela é sagrada

Orlando de Almeida 

Bom dia amigo e mestre Cesar Vanucci  Escusado dizer que os chá russos não devem substituir jamais os nossos de hortelã, boldo e outros receitados desde os tempos de nossas bisavós e tomados até hoje. Mais um brilhante texto. Grande abraço Orlando e Almeida

 

A palavra dos Bispos

Paulo Miranda 
Prezado Cesar, o triste é o outro lado da moeda, desse sestércio: a maioria dos nossos Bispos não assinou o documento, após cuja divulgação, verifiquei em páginas diocesanas do Estado de MG sem lograr encontrar uma única menção a esse mais que urgente e necessário clamor

 

Os supremacistas e os protestos antirracistas

● Os “camisas pardas” tupiniquins

 Alice Spíndola

Vanucci, caro amigo, está na hora de você começar o seu romance. Que seja uma ficção. Até você se surpreenderá com seu talento. O prazer de fazer algo surpreendente o deixará feliz. Tenta!

Abraço cordialíssimo.


● São Francisco de Assis – vida e obra  

 Armênio Cardoso

Estimado Vanucci: Excelente! Sou "franciscano". Muito obrigado.
Fraterno abraço. -

 

● São Francisco de Assis – vida e obra  

 Arahilda Gomes Alves 

Ave, Cesar: Ler a vida de Francisco de Assis é transportar-se a Assis, sua morada, adentrar a Igreja com seu nome,ver no altar,a redoma de vidro, onde se acha a língua do pregador dos

pobres e animais. Ao tentar fotografar, fui admoestada a não fazê-lo por um franciscano.

Emocionante o relato do santo aqui inserido. Dignificante sua página embebendo-nos do sabor do seu saber. Abraços acadêmicos, Arahilda

 

● São Francisco de Assis – vida e obra

 Klinger Sobreira de Almeida

Caro confrade Cesar Vanucci, boa tarde! Seu Blog, sempre de conteúdo renovado, continua nosso guia. A palestra do confrade e amigo Jair Barbosa da Costa, que você divulgou, é magistral. Merece, realmente, uma audiência de qualidade. Abraços

 

● São Francisco de Assis – vida e obra  

 Jair Barbosa da Costa

Mui-prezado Presidente Vanucci, boa-noite.Agradeço, lisonjeado, a distinção que você conferiu a meu texto sobre o Patrono Acadêmico da AMULMIG. Continuo ao dispor de nossa Casa Franciscana, sob sua batuta. Fraternamente

 

Hora da novela é sagrada

Mário Barros
Caro Vanucci: Onde falta a sensibilidade sobra a burrice e a insensatez. A infeliz recomendação de pretender impedir a entrada de parentes e amigos em um condomínio, é de uma excrescência desmesurada. Conheço o imóvel e o mentor da malfadada orientação postada nos elevadores e quadros de aviso. Tirei foto para guardar como recordação de como não se deve proceder na vida social em comunidade. Abraço.

 

● A cor do gato

Edelvais Campos

dr. Cesar, cada vez admiro mais os seus textos, Edelvais


 
● A cor do gato

 Sérgio Prates

Parabéns! Desta vez o senhor se superou. Na minha opinião é o melhor blog de tantos bons e excelentes que já escreveu! Sinceros parabéns.

 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

 

Natal nas vozes dos trovadores

 (Este artigo, publicado no ano passado nos jornais com os quais colaboro, está sendo reproduzido no “Blog do Vanucci”, não só pela temática abordada, como também em homenagem aos autores dos versos estampados)

 Cesar Vanucci

 “Não tendo Cristo por centro, / torna-se festa banal: /

Quem não renasce por dentro/não comemora o Natal!

(Lacy José Raymundi)


A celebração natalina deste ano na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais correu por conta dos poetas. Em concorrida assembleia, de envolvente conteúdo humanístico, entremeada de belas interpretações musicais, os acadêmicos se revezaram na tribuna narrando sugestivos casos, declamando poemas e trovas, comentando candentes temas da atualidade tomando como mote a mensagem de fraternidade que a data máxima da cristandade inspira.

A programação cumprida, sob a competente coordenação das acadêmicas Maria Armanda Capelão, Maria Inês Chaves de Andrade e Tânia Mara Costa Leite, contou com participação ativa, entre outros, dos acadêmicos Elizabeth Rennó, Luiz Carlos Abritta, Auxiliadora de Carvalho e Lago, João Quintino, Maria Inês Marreco, Marilene Guzzela, José Alberto Barreto, Ângela Togeiro, Andrea Donadon Leal, Benedito Donadon Leal, Francisco Vieira Chagas, Gabriel Bicalho, Lucilia Cândida Sobrinho, Ismaília de Moura Nunes, Almira Guaracy Rebelo, Marzo Sette Torres, Altair Pinho, Sidnéia Nunes Guimarães e Maria de Lourdes Rabelo Villares. Exemplares de publicações contendo poemas e crônicas alusivos ao tema da comemoração, de autoria de associados da Amulmig, foram oferecidos aos presentes na conhecida por Casa de JK.

As trovas natalinas vindas na sequência foram selecionadas por Luiz Carlos Abritta, presidente emérito da instituição, para leitura durante os trabalhos. Reproduzo-as aqui como um brinde aos leitores, ao desejar-lhes um Feliz Natal, cheio de amor e de paz.

- Foi na tal estrebaria, / simples, mas cheia de luz, / que nossa doce Maria / teve seu filho Jesus. (Luiz Carlos Abritta)

- Uma estrela, cintilando, / pára, junto à estrebaria. / Maria reza chorando, / enquanto Jesus sorria. (Maria Natalina Jardim)

- No presépio natalino, / Mãe Maria e São José/contemplam Jesus Menino, / orando plenos de fé. (Conceição Piló)

- Vista o manto que lhe cobre/neste Natal, meu Jesus, / em toda criança pobre/e encha seu mundo de Luz! (Ivone Taglialegna Prado)

- De barro, um presépio lindo: / Maria de Nazaré / e um meigo Jesus dormindo/no colo de São José. (Conceição Almeida)

- Foge de mim a esperança/da estrela que apaga a luz, / ao lembrar que uma criança / tem, no destino, uma cruz! (Maria Dolores Paixão Lopes)

- Ao doce planger do sino, / na alegria triunfal, / recebamos Deus-Menino / nestas festas de Natal. (Felisbino Cassimiro Ribeiro)

- Vendo o mundo se prender/nas teias da insegurança, / o Natal nos vem trazer/o milagre da esperança! (Almira Guaracy Rebêlo)

- Com seu infinito amor, / o grande Deus me proteja. / E que o Natal do Senhor / faça, de mim, Templo e Igreja. (Célia Maria Barbosa Rodrigues)

- Aproxima-se o Natal. / Tocam sinos. Quanta luz! / Em cada lar há sinal/da presença de Jesus! (Edmilson Ferreira Macedo)

- A maior festa do mundo, / de âmbito universal, / tem um sentido profundo/nos festejos de Natal. (Geraldo Tavares Simões)

- Meu Natal não tem presente, / ceia farta, cores, luz.. / Meu Natal é diferente:/meu Natal só tem Jesus. (João Quintino da Silva)

- As coisas simples, modestas, / encerram saber profundo. / Nasceu sem plumas e festas/o maior Homem do mundo. (Lucy Sother Rocha)

- Belo Natal se aproxima, / vem trazendo ao mundo a Luz. / Sigo, olhando para cima, / o Evangelho de Jesus. (Auxiliadora de Carvalho e Lago)

- Surge, ao longo dos meus dias, / Natal em cada segundo, / quando misturo alegrias/na esperança do meu mundo. (Rosa de Souza Soares)

- Que esta data abençoada /- é um desejo verdadeiro -/fique em nossa alma gravada, / seja Natal o ano inteiro! (Thereza Costa Val)

- Se todo o povo, irmanado, / em Cristianismo real, / amasse o irmão desprezado.../Seria sempre Natal! (Conceição Parreiras Abritta)

- Natal! Tantos já partiram, / deixando em silêncio a sala.../Quietos velhinhos suspiram, / só a saudade é quem fala. (Eva Reis)

- Estamos, Maria e eu, / comunicando a vocês:/nosso Menino nasceu. / Nós, agora... somos três. (Lucy Sother Rocha)

- Papai Noel, vê se faz/do Natal um baluarte:/erga a “Bandeira da Paz”, / gravando “AMOR” no estandarte! (Ivone Taglialegna Prado)

- Natal trouxe vida nova/aos homens... novo destino, / a esperança se renova/junto ao berço de um Menino. (Zeni de Barros Lana)

- Diante o presépio, encantado, / vendo Jesus que dormia, / um menino, esfarrapado, / embevecido, sorria. (Conceição Parreiras Abritta)

- Um desejo verdadeiro/haja, entre nós, afinal:/ter no peito, o ano inteiro, / sentimento de Natal! (Thereza Costa Val).

  

Perenidade da mensagem

 

Cesar Vannuci

 

“A tua religião, oh Rabi,

cura as minhas feridas?”

(Verso de um poema de Lauro Fontoura, onde

criança enferma dirige uma pergunta ao Mestre)

 

“Galileia. / O luar põe alegorias brancas nos cabelos do mestre. / A noite desce como uma benção. / Para os lados de Hebron, / sob o céu límpido, / a distância se afuma num fundo bíblico de searas. / Cristo apanha a seus pés uma criança leprosa, /ergue-a à altura da sua fronte / e beija-lhe a boca. / O pequeno, levantando as pálpebras ingênuas / e pousando o olhar triste / na doçura doirada dos olhos divinos / perguntou: - ‘A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?’”

 

Estes primorosos versos, trecho introdutório do poema “Hóstias de Luz”, são de Lauro Savastana Fontoura. Um humanista da melhor linhagem. Causídico renomado, primeiro diretor da Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro, advogado geral do Estado, desembargador do Tribunal de Justiça MG, personagem político com ativa participação nas lidas públicas, deixou vestígios marcantes de sua passagem pela pátria dos homens.

 

A narrativa poética com que nos brinda fala de temas que abastecem de sublime encantamento a aventura humana. Fala de misericórdia, compaixão, solidariedade, esperança e amor. Expressões que compõem o pujante e terno vocabulário natalino em todas as latitudes, idiomas e hábitos culturais. Mas, bem mais do que isso, sinalizam roteiro ideal, a ser obstinadamente trilhado por mulheres e homens de boa vontade, na caminhada civilizatória que dá sentido à vida.

 

“Sentido da vida”: A expressão reclama a entrada em cena de um outro poeta. Raul de Leoni. Pertencem a Raul de Leoni, em “Luz Mediterrânea”, esses outros magistrais e líricos conceitos: “O sentido da vida / e o seu arcano / é a aspiração de ser divino, / no prazer de ser humano.”

 

Tudo quanto posto concede-nos a esplêndida chance de projetar-nos a patamares superiores no entendimento e verdadeira compreensão de algo transcendental.  Trata-se da mensagem vinda do fundo e do alto dos tempos, sempre com ênfase ampliada na festa maior do calendário universal. Ao recomendar a prática permanente da misericórdia, da compaixão, da solidariedade, da esperança, do amor, esta mensagem, de serena e inteiriça beleza, lembra a impostergável necessidade, de premente urgência – não fica nada demais a pleonástica enfatização -, de nos colocarmos, todos os seres humanos, de modo intenso, a serviço de um projeto social, de cunho humanístico e espiritual, que seja capaz de reconectar o mundo com sua humanidade. Noutras palavras: fazer com que o labor humano concentre ações prioritárias em prol da erradicação das clamorosas desigualdades sociais. Em prol da abolição das guerras “abominadas pelas mães”, como anota Horácio. Em prol da extirpação da pobreza aviltante, dos preconceitos odiosos, em suas múltiplas e atordoantes modalidades. Em prol da eliminação de tudo aquilo que possa alvejar a paz e o bem-estar social, conceitos de vida que fazem parte dos ardentes anseios dos corações fervorosos.

 

A sociedade humana dispõe – visto está - de talento, engenhosidade, criatividade, recursos naturais prodigiosos, tecnologias fabulosas, tudo em superabundância, dependendo de vontade política, sensibilidade social, espírito de justiça, para direcionar tudo isso em favor de empreendimentos que contribuam para estruturação de uma história humana ancorada no bem-estar coletivo e na justiça social, numa civilização fraterna, onde prevaleçam em plenitude condições propicias para cura de todas as feridas abertas que hoje laceram, mundo afora, o tecido social.

 

A mensagem transmitida, há 2020 anos, na Galileia, pelo Ser inigualável, de luminosidade suprema, da devoção universal, descrito nas narrativas sagradas não perdeu nem tampouco perderá jamais sua absoluta perenidade como completo, perfeito e definitivo instrumento de cura para todos os males. Para todas as feridas.

 

Aos caríssimos leitores, os votos de um Feliz Natal!

 

 

Perenidade da mensagem

 Cesar Vannuci

 “A tua religião, oh Rabi,

cura as minhas feridas?”

(Verso de um poema de Lauro Fontoura, onde

criança enferma dirige uma pergunta ao Mestre)

 

“Galileia. / O luar põe alegorias brancas nos cabelos do mestre. / A noite desce como uma benção. / Para os lados de Hebron, / sob o céu límpido, / a distância se afuma num fundo bíblico de searas. / Cristo apanha a seus pés uma criança leprosa, /ergue-a à altura da sua fronte / e beija-lhe a boca. / O pequeno, levantando as pálpebras ingênuas / e pousando o olhar triste / na doçura doirada dos olhos divinos / perguntou: - ‘A tua religião, oh Rabi, cura as minhas feridas?’”

Estes primorosos versos, trecho introdutório do poema “Hóstias de Luz”, são de Lauro Savastana Fontoura. Um humanista da melhor linhagem. Causídico renomado, primeiro diretor da Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro, advogado geral do Estado, desembargador do Tribunal de Justiça MG, personagem político com ativa participação nas lidas públicas, deixou vestígios marcantes de sua passagem pela pátria dos homens.

A narrativa poética com que nos brinda fala de temas que abastecem de sublime encantamento a aventura humana. Fala de misericórdia, compaixão, solidariedade, esperança e amor. Expressões que compõem o pujante e terno vocabulário natalino em todas as latitudes, idiomas e hábitos culturais. Mas, bem mais do que isso, sinalizam roteiro ideal, a ser obstinadamente trilhado por mulheres e homens de boa vontade, na caminhada civilizatória que dá sentido à vida.

“Sentido da vida”: A expressão reclama a entrada em cena de um outro poeta. Raul de Leoni. Pertencem a Raul de Leoni, em “Luz Mediterrânea”, esses outros magistrais e líricos conceitos: “O sentido da vida / e o seu arcano / é a aspiração de ser divino, / no prazer de ser humano.”

Tudo quanto posto concede-nos a esplêndida chance de projetar-nos a patamares superiores no entendimento e verdadeira compreensão de algo transcendental.  Trata-se da mensagem vinda do fundo e do alto dos tempos, sempre com ênfase ampliada na festa maior do calendário universal. Ao recomendar a prática permanente da misericórdia, da compaixão, da solidariedade, da esperança, do amor, esta mensagem, de serena e inteiriça beleza, lembra a impostergável necessidade, de premente urgência – não fica nada demais a pleonástica enfatização -, de nos colocarmos, todos os seres humanos, de modo intenso, a serviço de um projeto social, de cunho humanístico e espiritual, que seja capaz de reconectar o mundo com sua humanidade. Noutras palavras: fazer com que o labor humano concentre ações prioritárias em prol da erradicação das clamorosas desigualdades sociais. Em prol da abolição das guerras “abominadas pelas mães”, como anota Horácio. Em prol da extirpação da pobreza aviltante, dos preconceitos odiosos, em suas múltiplas e atordoantes modalidades. Em prol da eliminação de tudo aquilo que possa alvejar a paz e o bem-estar social, conceitos de vida que fazem parte dos ardentes anseios dos corações fervorosos.

A sociedade humana dispõe – visto está - de talento, engenhosidade, criatividade, recursos naturais prodigiosos, tecnologias fabulosas, tudo em superabundância, dependendo de vontade política, sensibilidade social, espírito de justiça, para direcionar tudo isso em favor de empreendimentos que contribuam para estruturação de uma história humana ancorada no bem-estar coletivo e na justiça social, numa civilização fraterna, onde prevaleçam em plenitude condições propicias para cura de todas as feridas abertas que hoje laceram, mundo afora, o tecido social.

A mensagem transmitida, há 2020 anos, na Galileia, pelo Ser inigualável, de luminosidade suprema, da devoção universal, descrito nas narrativas sagradas não perdeu nem tampouco perderá jamais sua absoluta perenidade como completo, perfeito e definitivo instrumento de cura para todos os males. Para todas as feridas.

Aos caríssimos leitores, os votos de um Feliz Natal!

 

sábado, 19 de dezembro de 2020

 

O antirracismo entra em campo

 

Cesar Vanucci

 

“Um santo impulso!”

(Nelson Rodrigues, se ainda entre nós,

assim classificaria, por certo, a atitude dos atletas)

 

Conforme manjado jargão da crônica futebolística, o antirracismo adentrou a cancha. Em grande estilo. Soberbo espetáculo de afirmação civillizatória aconteceu no majestoso estádio parisiense “Parque dos Príncipes”, com arquibancadas vazias como pede a turbulência pandêmica, quando da disputa entre o PSJ, francês, e o Instanbul Basaksehir, equipe turca, pela última rodada da fase de grupos da Liga Europeia dos Campeões. No comecinho do jogo, 13 minutos do primeiro tempo, um árbitro de linha, romeno, alvejou com expressão desairosa, de notório conteúdo preconceituoso, um atleta africano que, por sinal, não participava da peleja. No quiproquó que se seguiu o cartão vermelho de expulsão foi sacado do bolso do árbitro principal, mas o prélio foi interrompido por conta de um episódio jamais registrado nos anais do esporte das multidões. Os jogadores dos dois times tomaram, conjuntamente, unanimemente, a incrível decisão de abandonarem, disciplinadamente, o gramado, em sinal de protesto contra o ato de discriminação praticado. A atitude assumida, inédita num palco esportivo, colocou obviamente em xeque o regulamento do torneio, deixando a cartolagem aturdida e o público (que acompanhava a competição pela tevê) maravilhado. Menos de 24 horas transcorridas da inusitada ocorrência, com a composição da arbitragem alterada, normas e regimentos burocráticos chutados pra escanteio, a partida interrompida teve continuidade. A punição aplicada na véspera – cartão vermelho – passou a não valer. O placar avantajado, 5 a 1 em favor do time francês, foi considerado detalhe de somenos na flamejante história, diante da memorável goleada, de impactante simbolismo, aplicada contra o racismo numa das canchas da vida em que ele costuma mostrar a cara.

 A situação vivida no “Parque dos Príncipes” concita-nos a percorrer as ladeiras da memória, recolhendo na caminhada exemplos frisantes, de duradoura repercussão, afrontosos à dignidade humana, cometidos em ambientes esportivos pomposos.

 Talvez o mais contundente desses registros haja sido o da Olimpíada de Berlim, realizada pouco antes da segunda guerra mundial. O protagonismo infame ficou a cargo do sinistro Adolf Hitler, ícone das falanges racistas em sua configuração mais horrenda. Num dado momento, espumando ódio, ele resolveu deixar, abrupta e acintosamente, a tribuna do estádio para não ter que entregar troféu a um magnífico atleta estadunidense – “negro como a noite, negro como as profundezas d’África”, segundo os versos célebres do poeta Langston Hughes -, que acabara de conquistar, galhardamente, a mais cobiçada láurea dos jogos. Mas, na ocasião, nada obstante a ressonância midiática alcançada pelo boçal gesto, a ninguém, a nenhuma delegação, acudiu a ideia de marcar indignação, inconformismo face ao abjeto posicionamento racista cometido pelo ditador nazista, com ato de desagravo coletivo instantâneo, tal como o de agora em Paris.

 Naquele e noutros momentos em que a brutalidade racista se fez sentir num cenário festivo repleto de esfuziantes emoções, como costumam ser os cenários compostos para grandes concentrações esportivas, nada se viu, como reação dos atletas e público, que ligeiramente pudesse se igualar ao que os jogadores turcos e franceses, promoveram nessa recente noitada futebolística. Uma noitada inesquecível, na qual futebol, com toda sua eletrizante carga emotiva, cedeu lugar, contentando-se a segundo plano na ribalta, a uma atração que não estava no programa, a uma manifestação histórica que engrandece a consciência humana.

 Os 22 craques foram movidos por impulso fabuloso. Se vivo, Nelson Rodrigues não hesitaria, com toda certeza, de classificá-lo de “santo impulso”.

 O antirracismo entrou em campo. O correto é garantir sempre sua escalação.

 

Heloisa sabe das coisas

 

Cesar Vanucci

 

“O trabalho de Heloisa Altavilla enriqueceu e enriquece

minha existência, e, em efeito cascata, a de muitos outros (...)”

(Elizabeth Fonseca Pinto, médica)

 

Heloisa Maria Altavilla acaba de lançar o livro “Luzes cósmicas – Iluminação”. Reproduzo abaixo o prefácio que escrevi.

 Esse aí (pode ser, também “essa aí”) já nasceu sabendo!

Ouvi a frase acima, muitas vezes, na recuada e risonha infância. Estou falando daqueles tempos com certo “gosto de aurora comida com sol”, tempos despreocupados em que “a vida chamava-se agora”, conforme lírico registro de Guilherme Almeida. A frase da introdução fazia parte do proseado, rico em colorido humano, de vó Carlota, uma criatura admirável. Ela foi desapartada de nosso convívio mais cedo do que seria de se desejar, para que pudesse ir, certeiramente, espalhar sabedoria e solidariedade noutras paragens existenciais.

A expressão “nasceu sabendo” era empregada na classificação de pessoas especiais. Gente dotada de percepção social aguçada, de conhecimento que extravasava as bordas rotineiras.

Algumas pessoas parecem nascer sabendo das coisas! A definição encaixa-se como luva no perfil de Heloisa Maria Altavilla. A autora da instigante narrativa daqui pra frente estampada fala-nos de coisas que já foram e de coisas que ainda hão de ser. O pessoal que dela se acerca sente-se atraído pelas sedutoras interpretações da vida auridas de sua opulenta formação humanística e espiritual. O cabedal de informações oferecido é oriundo de intuições desabrochadas a partir de uma profusa leitura de textos da milenar sabedoria mística com seus fascinantes arcanos. Mas, também, confessa Heloisa, muitas das revelações transmitidas são captadas em processo, dir-se-á mágico, apenas acessível, pelo menos até agora, a um contingente reduzido de viventes. Conhecidos como sensitivos, são detentores de faculdades que lhes permitem acessar as redes extrassensoriais das sutis energias espalhadas pelo cosmos.  Disso resulta, então, que pessoas possuidoras de dons parecidos com os da Heloisa acabam se habituando a ver coisas antigas com olhar novo. E a despejarem o olhar faiscante nas coisas novas que possam surgir no bojo das assombrosas transformações da marcha civilizatória. Os que sabem das coisas não ignoram que uma realidade fantástica fabulosa ronda o tempo todo os passos dos caminhantes. Não falta, mesmo no plano erudito, por outro lado, quem se esforce por encobrir essa reluzente realidade, com reações que exprimem pudor preconceituoso, intolerância banhada de presunção, visão anacrônica inspirada em escleróticos conceitos fundamentalistas.

Os sensitivos, conscientes de seu relevante papel no contexto das conquistas humanísticas e espirituais, merecem ser vistos como componentes de linha auxiliar proficiente das fileiras dos pensadores e cientistas empenhados na busca de respostas para as interrogações, brotadas da inquietude intelectual dos seres humanos, a respeito dos mistérios e do sentido da aventura da vida.

E pra arrematar o papo. Fazendo jus a apreço e admiração pelo que vem realizando, Heloisa Maria Altavilla conta, neste livro, coisas provocantes e curiosas a respeito de suas vivências esotéricas. Cuidemos de ouvi-la.

 

sábado, 12 de dezembro de 2020

 

Ecumenismo rima com humanismo

 

Cesar Vanucci 

 

“A fé é um pássaro que pousa no alto da folhagem e canta nas horas em que Deus escuta.”

(Joaquim Nabuco)

 

 Insistimos na temática ecumênica. Faz todo sentido. Vivemos instante humano perturbador. Sedento de amor, de compreensão, de tolerância. Em momento assim posturas ecumênicas ganham especial significado, por remeterem a questões essenciais, a nobres aspirações humanas.

O ecumenismo tem tudo a ver com humanismo, que é a nossa própria razão de viver. Responde com vigor escorraçante às propostas radicais dos fundamentalismos de todos os matizes. Setores que se prevalecem de rançosos (pré)conceitos, com conotações invariavelmente racistas, para baixar regras de comportamento em estridente dissonância com a dignidade humana. O espírito ecumênico torna explícito que religião não pode significar obstáculo a liberdade. A fé há que ser encarada, dentro de perspectiva religiosa autêntica, como “um pássaro que pousa no alto da folhagem e canta nas horas em que Deus escuta”, conforme lírica observação de Joaquim Nabuco.

Do ponto de vista ecumênico, as religiões mostram pontos consideravelmente mais numerosos de convergência, do que de divergências. Equivalem-se em mérito na busca do diálogo sincero com Deus. Com doses mais maciças de boa vontade, desarmamento de ânimos, respeito, zelo pela primazia dos valores fundamentais das diferentes crenças, reconhecendo que no fundo todos são valores extremamente parecidos, as religiões estarão capacitadas a oferecer valiosíssima contribuição na construção de um mundo melhor. Na retomada, digamos assim, do mundo pela humanidade.

Empolga-nos a fala ecumênica. Todas as vezes em que a percebemos, enunciada nalgum ambiente cercado ou não por ritualística religiosa, imaginamos a presença ali de criaturas inspiradas, propensas a deixarem de lado as diferenças na forma, para se fixarem, em junção fraternal, no conteúdo do culto aos valores transcendentes da vida.

Nos pronunciamentos do admirável Papa Chico, o ecumenismo vem ganhando, pelo lado cristão, sonoridade e intensidade com certeza nunca dantes registradas. João XXIII e João Paulo II estimularam também ações positivas no tocante à aproximação das religiões. Das outras grandes correntes religiosas pouco se sabe quanto à real disposição de suas lideranças qualificadas em se associarem às práticas ecumênicas. O Dalai Lama, dignitário de facção budista de forte expressão, parece ser, delas todas, a liderança que melhor assume publicamente atitude propositiva com relação ao tema.

Entendemos que os meios de comunicação social estão capacitados a contribuir de maneira efetiva para a propagação do ideal ecumênico, amortecendo tensões resultantes das dificuldades que se antepõem, em tantas partes, ao exercício da liberdade de expressão religiosa. É certo que a tevê e o rádio reservam espaço considerável para divulgação religiosa. Nos casos específicos das emissoras vinculadas a correntes ideológicas bem configuradas os temas focalizados atendem naturalmente às conveniências do proselitismo. Mas, de qualquer modo, as mensagens são irradiadas para plateias imensas. Pena que uma tribuna de tamanha magnitude não dedique também boa fatia de tempo para a fala ecumênica. Temos para conosco, com razoável conhecimento de causa, que poderão se revelar altamente compensadores os índices de audiências para programas produzidos com talento, abarcando estudos e debates de questões momentosas que coloquem lado a lado especialistas do pensamento cristão, budista, maometano, judaico, assim por diante.

Participando, vários anos atrás, de uma missa dominical natalina na Igreja do Carmo, Belo Horizonte, sentimo-nos tomados pelo fascínio de uma celebração de ponta a ponta impregnada de genuíno ecumenismo. Toda a composição litúrgica denotava isso, a começar pelo presépio, de singelo simbolismo, que ornamentava a nave principal do templo, confeccionado por meninos assistidos socialmente pela paróquia. E a mensagem, então, do celebrante Frei Cláudio van Balen! Um senhor cântico de louvor à divindade e à humanidade. Sem chavões piegas, sem fórmulas estereotipadas que pudessem desfigurar o sentido da sabedoria evangélica. Fala harmonizada com os clamores sociais da hora. Com os anseios de paz que habitam a alma das ruas. Anseios esses que se contrapõem à belicosidade fundamentalista que tanta angústia traz aos corações e mentes dos homens e mulheres de boa vontade em todas as latitudes deste nosso mundo velho (e cansado) de guerra.

 

Aceleradores de transformação

 

Cesar Vanucci

 

“Se forem bem compreendidos (...), o país tem grande chance de retomar uma rota saudável de recuperação sustentada.”

(Jornalista Merval Pereira)

 O jornalista Merval Pereira divulgou, em sua apreciada coluna de “O Globo”, um estudo da consultoria “Macroplan”, especializada em cenários prospectivos. Intitulado “O que será do Brasil pós-covid: um ensaio prospectivo até 2030”, o trabalho se baseia em opiniões colhidas junto a 139 personalidades de realce na vida privada e pública do país.

 O economista Cláudio Porto, dirigente da “Macroplan”, conforme anotado pelo jornalista, explica que “nenhum executivo ou agente público, privado ou do terceiro setor terá chance de sucesso se ignorar esses vetores de mudança em sua navegação nos negócios públicos ou privados no Brasil ao longo desta década”. Os vetores a que se refere, em número de dez, são denominados “aceleradores de transformação”. Tomo a liberdade de reproduzi-los na sequência.

1)          O endividamento público e privado. Até 2030 a dívida bruta do Governo Federal (em 2020 pouco superior a 90% do PIB) alcançará a proporção de 112% no cenário base ou 156% no pessimista, segundo projeções do IFI/Senado.

2)          O desemprego e a pobreza no país. Mantidas as condições que prevaleceram nos últimos cinco anos e nos dias de hoje (14,4% desempregados), para o decênio de 2020-2030, a taxa média de desemprego provavelmente será maior do que na década passada. Para que a média seja similar à do período 2020-2019, será preciso que a taxa caia em torno de 5% ao ano até 2030 – o que não se dará naturalmente.

3)          A segurança sanitária. Há indícios de uma crescente valorização das medidas sanitárias e da saúde pública por parte da população, o que pode favorecer a ampliação de investimentos e a performance do Sistema Único de Saúde (SUS). Um sinal relevante foi o bom desempenho eleitoral dos governantes e candidatos que mostraram melhor dedicação na prevenção ou mitigação da Covid-19 nos seus espaços administrativos, confirmando que a boa oferta de saúde pública gera votos.

4)          A evolução da Educação. Até 2030, o modelo educacional brasileiro será mais diverso e integrado devido às inovações tecnológicas. O ensino à distância (ou semipresencial) deve consolidar-se. Desde 2010, o EAD vem crescendo a taxas de 20% ao ano sinalizando uma oportunidade pra acelerar o passo e reduzir o enorme atraso do país neste campo.

5)          Os investimentos em dados, Big-Data e Analytics. Para 2020-2022, estima-se um investimento de R$142,7 bilhões (23% a.a) em computação em nuvem e R$68,8 bilhões (13% a.a) em Big Data e Analytics. O digital se consolidará como a plataforma dominante, mesmo com todas as nossas precariedades.

6)          O trabalho remoto. Até setores com trabalho humano intensivo, como o agrícola, aderiram ao novo modelo. A tendência mais provável é que o “modelo home office” reflua em um modelo híbrido passe a se constituir um novo padrão.

7)          Os negócios digitais no país. O acesso à internet do Brasil já alcançou 70% da população em 2020, e irá ampliar o alcance dos negócios digitais principalmente fintechs, streamings e marketing de conteúdo.

8)          Os investimentos em automação e robotização. Internet 5G e impressoras 3D serão comuns até 2030. E robôs vêm sendo utilizados em trabalhos anteriormente feitos por humanos, sobretudo nas indústrias.

9)          A aceleração do comércio eletrônico. Até 2030, o faturamento do comercio eletrônico no Brasil alcançará a marca de R$315 bilhões, mantida a taxa média de 16% no crescimento anual entre 2011 e 2019.

10)      Os impactos das conexões virtuais e das redes sociais na sociedade. Os brasileiros estão entre as populações mais conectadas do mundo (mais de nove horas por dia), e nas primeiras colocações entre os que mais usam plataformas de mídia social. Um fato portador de futuro que está emergindo é a aceleração da melhoria dos filtros críticos da sociedade em relação às chamadas “fake news”. Neste terreno, a mídia convencional está sendo revalorizada e tem desempenhado um papel educacional de massa muito construtivo e decisivo.

 

 

sábado, 5 de dezembro de 2020

 

Vidas pretas importam

 

Cesar Vanucci

 “A questão racial precisa ser tratada em todos os domínios, da Justiça à Tecnologia”.

(Jorge Terra, negro, Procurador da Justiça, Mestre e Doutor)

 

Ninguém mais bem capacitado a descrever com exatidão a ignomínia do racismo do que um cidadão que na trajetória cotidiana sofra na própria pele as constantes ferroadas da horda de preconceituosos, de todos os naipes, que circulam desembaraçadamente por aí. Oportuno, por conseguinte, tomar conhecimento de relatos que se disponham a fazer, a propósito da flamejante questão, personagens que, a despeito dos empecilhos, armadilhas, desafios de toda ordem, conseguem galgar posições de realce profissional que lhes facultem a chance de denunciar o drama existencial dolorosamente imposto às vítimas da intolerância racial.

 O Procurador de Justiça Jorge Terra, gaúcho, é um desses personagens que conviveram, desde muito cedo, com o problema da estigmatização por causa da cor da pele. Ou seja, à luz do bom senso, do humanismo, da justiça social, por causa de coisa nenhuma. Como já dito e repetido, a raça humana é única. A cor da pele não passa de mero detalhe anatômico. Assim como a cor dos olhos, a cor dos cabelos, a menor ou maior estatura, e inumeráveis diferenciais que fazem de cada vivente deste planeta uma individualidade no meio das multidões.

Em depoimento à “Carta-Capital”, ele conta que, na infância, na escola pública que frequentou, fazia parte de um grupo de quatro negros na sala de aula. Os demais alunos se recusavam a brincar com os quatro no chamado recreio. Isso perdurou até o dia em que se viu forçado a brigar com o líder da turma que os hostilizava. Sustentando que o preconceito independe de classe social, ele anota que o enfrentamento do problema é permanente. Sentiu isso ao longo dos tempos e, hoje, com 54 anos de idade, graduado em Direito, com Mestrado e Doutorado, desenvolve ações contínuas no combate à xenofobia, ao machismo e outras modalidades de preconceito, além, obviamente, do racismo. Explica que “não haverá sociedade justa, democrática e solidária com parte da população sofrendo discriminação e injustiças”. Acentua, em entrevista ao jornalista René Ruschel, que o problema arrasta negros e pardos à pobreza. O racismo – diz ainda - se manifesta de forma cruel nas áreas da educação e do mercado de trabalho.

 Referindo-se à circunstância de o racismo, a segregação e o preconceito permanecerem tão arraigados nas engrenagens da convivência humana, registra que “o racismo no passado era segregacionista, mas, hoje, afigura-se mais na forma assimilacionista.” Aduz: “Ataca características comportamentais e culturais de determinados grupos que, igualmente, geram exclusão. O preconceito, os estereótipos raciais e o racismo continuam revigorados pelo fato de não serem sistemática e efetivamente combatidos no âmbito público e privado.”

 A respeito da observação de que as crianças em idade escolar recebem informações de maneira muito superficial acerca dos dramas do racismo e da escravidão, o Procurador salienta: “O problema começa, mas não se resume à rede básica. Falhamos no ensino jurídico e não parece haver plena compreensão ao tratarmos de Direito Constitucional, de Direito Administrativo, de Direito Penal e de Direito Internacional. Negamos às crianças, aos adolescentes e aos jovens uma educação plena, baseada na verdade, capaz de gerar as transformações sociais, políticas e econômicas indispensáveis. O racismo é reforçado também nos ambientes familiares. Em decorrência da nossa forma de socialização, no primeiro espaço público que vivenciamos, a escola, preferencialmente na educação infantil, de fato é imprescindível haver trabalho antirracista efetivo, planejado e sistematizado.”

 Jorge Terra é indagado, ainda, na entrevista, do motivo de manter-se firme e resoluto na luta antirracista, tendo em vista o caráter costumeiramente inglório desse tipo de ativismo. Responde da seguinte maneira: “Tenho foco constante na eficiência e na eficácia dos direitos humanos. Trabalho não apenas no combate ao racismo, mas também no enfrentamento de questões relacionadas ao machismo e à xenofobia, bem como atinentes aos preconceitos contra pessoas com deficiência ou integrantes da comunidade LGBT-TQIA+. Confesso ter dificuldade de ver a vida sem enfrentamento de numerosas questões que geram enormes barreiras para os cidadãos”. Arremata: “Não haverá sociedade justa, democrática e solidária com parte da população sofrendo discriminação e injustiças. Penso ser possível a superação desde que haja planejamento, com atenção à eficiência e à eficácia.”

 

A SAGA LANDELL MOURA

  Lenda viva do Leonismo                                                                                                                 C...