quinta-feira, 25 de agosto de 2022

 

A entrevista de Bolsonaro.


Cesar Vanucci *

" Bolsonaro coloca condições para aceitar

resultados das eleições e mente no JN."

(Folha de São Paulo)



            O “Jornal Nacional”, da Rede Globo de Televisão, iniciou no dia 22 de agosto, segunda- feira, uma série de entrevistas com os aspirantes ao cargo de Presidente nas eleições do próximo dia 2 de outubro. O primeiro “presidenciável” ouvido foi Jair Bolsonaro. O depoimento alongou-se por 40 minutos e os entrevistadores Willian Bonner e Renata Vasconcellos crivaram o entrevistado de perguntas relativas a numerosas questões de relevância vividas no atual mandato presidencial.

            O posicionamento de Bolsonaro, face às indagações formuladas timbrou-se por negativa categórica a todas as criticas atribuídas a seu comportamento como gestor da coisa publica. Ele sustentou que se houve com firmeza e adotou as decisões corretas no caso da pandemia, na convivência com o judiciário, na política sobre o meio ambiente, no relacionamento com agrupamentos políticos, sobre tudo o Centrão e assim por diante. Declarou-se defensor intransigente da Democracia e das liberdades publicas. Quanto às objeções que levantou acerca das urnas eletrônicas, disse que seu propósito não é outro se não assegurar que as eleições sejam “limpas e transparentes”.

            O pronunciamento alcançou, como não poderia deixar ser, enorme repercussão. A audiência bateu recorde. Os correligionários do Presidente apressaram-se, tão logo finda a entrevista a propagar pelas redes sociais que a “performance do mito” havia sido “magnífica”. Alguns adeptos chegaram até mesmo a dizer, para espanto geral, que a “humildade de Bolsonaro venceu a arrogância...”

            Não foi bem esta a opinião da mídia e de setores altamente representativos do pensamento comunitário. Os veículos de comunicação, na quase totalidade, classificaram de “mentirosas” as alegações do Presidente, confrontando o que ele disse e fez em passado recente com os argumentos esposados diante das câmeras. Assim é que ao rebater informação de Bonner sobre o fato de haver xingado Ministros do Supremo foi prontamente replicado, com as citações das expressões de baixo calão que proferiu, em diferentes ocasiões, alvejando Ministros do STF.

            Os entrevistadores propuseram a Bolsonaro que aproveitasse o momento para um compromisso solene perante a nação, no sentido de acatar com todo respeito o resultado das urnas, qualquer que venha a ser o candidato eleito. O Presidente da republica respondeu que respeitaria a decisão dos eleitores, com a condição de que as eleições fossem “limpas e transparentes”. Esta manifestação foi considerada insatisfatória tanto pelos apresentadores do “Jornal Nacional” como por respeitados analistas políticos da imprensa e da televisão, ao se ocuparem da entrevista.

            Outros tópicos da entrevista apontados como incorretos versaram sobre a política econômica. Bolsonaro garantiu que tudo vem correndo as mil maravilhas sob esse aspecto, o que é contestado pelos índices de desemprego, de inflação, pelo aumento da pobreza extrema e demais mazelas sociais visíveis no cenário cotidiano.

            A revista Carta Capital resumiu assim o desempenho de Bolsonaro:

            “A entrevista foi um deserto de ideias e de propostas.

            A indigência do vocabulário, os conhecidos problemas de expressão oral, o chamado “body language” foi todo ele pobre, sem graça e sem novidade...”

            A Folha de São Paulo, por sua vez, registrou: “ Bolsonaro coloca condições para aceitar resultados das eleições e mente no JN. Presidente disse que nunca xingou ministros, mas já chamou Alexandre de Moraes de”canalha””. Mais adiante relatou: “ O mandatário começou a entrevista mais calmo, dando respostas em um tom sereno. No decorrer do programa, porém, ficou mais irritado...”


Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

O receio de Kissinger

Cesar Vanucci *

“Nós estamos à beira da guerra”

(Henry Kissinger)


        Como é do desconhecimento geral, Henry Kissinger, ex-Secretário de Defesa dos EUA com realçante presença no palco político internacional, está prestes a comemorar 100 anos de vida e com fôlego para lançamento de mais um livro onde narra suas ricas experiências na atividade diplomática. O título do livro: “Leadership, ou Liderança.”

        Kissinger revela-se, de acordo com jornalistas que o entrevistaram recentemente, dono de mente aberta e com lucidez de espírito. Manifesta-se perfeitamente atualizado com os acontecimentos mundiais, emitindo opiniões sobre os fatos de relevância. Aqui está uma condensação do que disse sobre as desavenças entre os Estados Unidos, China e Rússia. O depoimento saiu no principal espaço de leitura do “Wallstreet Journal”. O Ex-Secretário teme o desequilíbrio global. Argumenta que, “se você crê que o resultado do seu esforço tem que ser a imposição dos seus valores, então o equilíbrio não é possível”. Os americanos, afirma ele, se negam a separar a diplomacia das “relações pessoais com o adversário”. Tendem a ver as negociações “em termos missionários, buscando converter ou condenar seus interlocutores em vez de penetrar em seu pensamento”.

        Assegura que “nem sempre foi assim” e que “o período atual responde demais à emoção”. Aduz: “Estamos à beira da guerra com Rússia e China por questões que em parte nós criamos, sem nenhum conceito sobre como isso vai terminar”.

        Segundo Kissinger, “a política implementada em Taiwan permitiu o progresso dessa Província no sentido de tornar-se uma entidade democrática e autônoma e preservou a paz entre a China e os EUA por 50 anos. Deve-se ter muito cuidado com medidas que parecem alterar a estrutura básica”.

        A fala de Kissinger a respeito do estremecimento das relações dos Estados Unidos com a China ocorreu pouco depois da visita da Presidente da Câmara dos Deputados norte-americana a Taiwan, episódio que produziu irada reação do governo chinês. Agravando ainda mais a já temerária situação, dias depois, um grupo de cinco parlamentares estadunidenses chegou a Taiwan e o fato segundo analistas internacionais, o incidente contribuiu para o ciclo de escalada das tensões reinantes.

                    · E se um míssil atingir alvo errado? A pergunta, com certeza é formulada com constância por estrategistas dos países envolvidos em desavenças e que mantém forças militares em alerta. Na Ucrânia, brutalmente invadida pela Rússia, debaixo da condenação em termos ásperos da comunidade das nações, as batalhas se processam há seis desgastantes meses. A maior usina de fornecimento de energia nuclear da Europa, localizada em região marcada pela contenda bélica, está em poder dos invasores, embora continue sendo operada por técnicos ucranianos. Volta e meia, o noticiário registra que um ameaçador míssil andou roçando parte nevrálgica do importante complexo. E se, de repente um artefato desses, por erro de cálculo ou intencionalmente, atingir um dos reatores? A consequência será calamitosa. O mundo inteiro pagará tributo doloroso pelo que venha as suceder nos dias posteriores, seguramente – Deus nos livre guarde – a terceira, e talvez derradeira guerra mundial poderá eclodir.

        Voltemos a atenção para outro cenário: o mar da China. Neste momento embarcações de guerra dos Estados unidos e da China acham-se postadas nas imediações de Taiwan. Inconformados com as visitas de parlamentares norte-americanos a Taipé, os chineses realizam exercícios militares, com munição de verdade com o fito de reafirmar que Taiwan é parte de seu território, circunstância, aliás, reconhecida pelo ONU e por quase todos os países do planeta (apenas três nações discordam da tese). Cabe aí, também, a pergunta sobre eventual desvio de rota do míssil.

        Da para concluir, com base nos fatos narrados, que Henry Kissinger está coberto de razão quando manifesta receio com relação à eventualidade de uma outra conflagração bélica mundial.


*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 Um caso espantoso de memorização.


“A maior parte de nossa memória está fora de nós...”

(Marcel Proust)


CESAR VANUCCI *


Tempos outros. A televisão não passava de experiência incipiente, de lá do estrangeiro. O rádio era o veículo de comunicação com grande poder de penetração, mas limitado na capacidade de cobertura dos acontecimentos em regiões distantes. O Brasil ainda não havia despertado para as conquistas do desenvolvimento, incrementadas sobretudo na “era JK”. Incontáveis registros de fatos relevantes passavam desapercebidos, diferentemente do que hoje ocorre, do grande público em escala nacional. Ficavam circunscritos a ambientes mais fechados. Mesmo quando divulgados com intensidade, naturalmente relativa, alcançavam ressonância reduzida, se consideradas as dimensões continentais do país.

Nessa época, em ambiente interiorano, fase da adolescência, tomei conhecimento do maior fenômeno de memorização de textos de que já ouvi falar. O assim chamado “Salão Grená” da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, Uberaba, funcionava como um centro cultural. Provido de 500 poltronas, localizado em ponto estratégico do centro urbano, abrigava eventos artísticos, culturais, mesas-redondas, por aí. Para boa parte das promoções realizadas havia cobertura radiofônica, o que ampliava, consideravelmente, a divulgação. A emissora, pioneira na região, pertencia ao grupo “Lavoura e Comércio”, criado pelo saudoso jornalista Quintiliano Jardim. O jornal diário circulou por mais de cem anos, até o comecinho deste século.

Colegial fissurado em manifestações culturais, vi atuar, no local, numa série de aplaudidas audições, um cidadão dotado de capacidade inigualável para memorizar textos. Jamais tive notícia, nem antes nem depois de conhecê-lo, de ninguém com predicado – ou que outro termo possa existir para classificar seu desempenho – em condições ligeiras de igualá-lo naquilo que fazia.

Ele reproduzia, com absoluta exatidão, palavra por palavra, detendo-se nas pausas recomendadas pela pontuação, textos inteiros, de qualquer natureza, verso ou prosa, com ou sem menção de números, lidos cuidadosamente por outrem. Discursos, poemas, trechos de romance, trabalhos técnicos, tudo era absorvido com precisão. E, ao depois, repetido. A reação da plateia oscilava entre a perplexidade e o deslumbramento. Lembro-me bem de que, ao anunciá-lo, o mestre de cerimônia narrava saborosas historietas, alusivas a demonstrações dadas pelo nosso personagem, em respeitáveis ambientes frequentados por líderes políticos e intelectuais de renome. Nem bem o expositor, debaixo de aplausos, dava por finda a fala nesses encontros e já o cidadão dono de memória prodigiosa surgia em cena, solicitando permissão para usar da palavra. Em tom sério, pondo todo mundo confuso e nervoso, “garantia” que o texto apresentado não passava de “descarado plágio”. Tanto isso “era verdade”, acrescentava ele, confessando-se o “verdadeiro autor” do texto, que iria repeti-lo, ali, naquele mesmo momento, parcial ou integralmente, sílaba por sílaba. A atmosfera pesada reinante só se desfazia quando, entre risos e pedidos de desculpas, surgia a explicação acerca dos inacreditáveis dons de memorização do “inoportuno” aparteante.

Nunca me esqueci do nome desse cidadão, tão vigorosa a impressão que deixou registrada, de suas habilidades incomuns, no espírito dos que testemunharam essas proezas nas diversas vezes em que se apresentou no “Salão Grená”: Eurícledes Formiga. Os anos se amontoaram, nada mais ouvi contar, adiante, a seu respeito. Até que, outro dia, um conhecido falou-me da existência em Belo Horizonte de um centro espírita que traz esse nome como patrono. Imaginei naturalmente tratar-se da mesma pessoa. Mas, tanto quanto me recorde, naqueles tempos, a fantástica condição de produzir “reprografia cerebral” de Euricledes, reconhecida como inexplicável e extraordinário fenômeno, não se achava vinculada a nenhuma atividade de cunho religioso.


*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br).

 Defesa da Democracia


Cesar Vanucci *

“A democracia tem dado provas seguidas de robustez”


(Manifesto da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, subscrito por mais de uma centena de entidades dos setores produtivos nacionais)


A FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-, entidade patronal mais poderosa do País, primando-se hoje por atuação politicamente isenta, diferente do que ocorria em tempos passados, acaba de divulgar um manifesto em defesa da Democracia que traduz com fidelidade, insofismavelmente, o verdadeiro sentimento nacional. O documento guarda perfeita sintonia com o pronunciamento tornado público, dias atrás, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

O mencionado documento da escola de direito, como amplamente noticiado, seria assinado a princípio por trezentas personalidades, mas, na verdade, devido à repercussão suscitada pelo anúncio da iniciativa, aglutinou mais de 750 mil signatários, número que será fatalmente nos próximos dias superado. Será oficialmente lançado, junto com o manifesto da FIESP, no próximo dia 11 de agosto, em São Paulo, no Largo São Francisco, palco de memoráveis arregimentações populares, nas tradicionais comemorações alusivas à implantação dos cursos jurídicos no Brasil.

Expressando esplendidamente como já foi dito, o pensamento cívico da Nação a Carta pela Democracia e em defesa da ação reconhecidamente eficiente da Justiça Eleitoral elaborada pela instituição representativa da indústria paulista soma adesões importantíssimas. É subscrito por mais de uma centena de organizações de variados setores produtivos da sociedade: entidades patronais, centrais sindicais operárias, associações profissionais, instituições classistas e liderança de realce no cenário cultural. Figuram entre elas a Federação dos Bancos do Brasil, Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa, Câmara Americana de Comércio, além de órgãos de presença exponencial na luta pela preservação do meio ambiente. Idênticas na essência, as proclamações - FIESP e USP - sustentam ser a democracia o único regime capaz de conferir dignidade ao ser humano. Rechaçam com veemência, os desabridos ataques, volta e meia desferidos, na atualidade brasileira, de origem palaciana, ao processo eleitoral vigorante no país, que trazem em seu bojo críticas sem fundamento à Justiça Eleitoral e seus componentes. As duas cartas pedem a estabilidade política e o desenvolvimento democrático como o “sentido maior” do 7 de setembro deste ano. Reiteram, ainda, a necessidade de se estabelecer um compromisso formal com “a soberania do povo brasileiro representada pelo voto”, a independência dos Poderes e a relevância do Supremo Tribunal Federal.

São textos indicativos de que a opinião pública brasileira se mantem serena e altiva na firme disposição de defender os postulados democráticos e republicanos e o Estado de Direito, por serem conquistas inalienáveis no itinerário do país rumo ao seu destino de grandeza.

Dá pra perceber nestas saudáveis manifestações, categóricas e ordeiras com ampla e saudável visibilidade, que segmentos representativos da coletividade brasileira experimentam neste instante, euforia cívica bastante semelhante àquela que prevaleceu por ocasião das “Diretas-já”, movimento que nos permitiu, depois de trevoso período, a reconquista das liberdades públicas de que hoje tanto nos ufanamos. Nossa gente sabe muito bem o que quer com relação ao pleito eleitoral que se avizinha. Sua expectativa e esperança voltam-se para um processo de escolha de seus governantes liso e transparente, que garanta à ascensão ao poder dos candidatos que a soberana vontade popular venha a apontar nas urnas eletrônicas, como os de sua preferência dentre os nomes credenciados pelos partidos e referendados pela Corte Eleitoral, na forma regimental consagrada pelos ritos democráticos.


*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quarta-feira, 3 de agosto de 2022


PREVENIR-SE É O JEITO

“O homem é um animal que se adapta.”

(Walter Benevides, médico e escritor)

CESAR VANUCCI *


A capacidade de adaptação do ser humano ao meio em que atua faz parte de nossa peregrinação pela pátria terrena. Dependendo dos fatores em jogo, esse ajustamento ou outro nome que se queira dar ao esforço pessoal de cada qual em se inserir adequadamente no contexto da vida social, familiar ou profissional, acatando as regras e exigências dominantes, assume por vezes inusitadas características. Byron, num lapidar pensamento colhido pelo culto Paulo Rónai, pesquisador de mão cheia de achados verbais que ajudam a compor a sabedoria dos tempos, lembra que: “Os homens são joguete das circunstâncias, quando as circunstâncias parecem joguete dos homens.” O poeta inglês repete, com palavras bem parecidas, segundo o mesmo Rónai, a ideia expressa milênios antes por Heródoto, ao proclamar que: “São as circunstâncias que governam os homens, não os homens que governam as circunstâncias.” Os dois pensadores remetem a Ingenieros: “Cada homem é ele mais suas circunstâncias.”

Todo esse papo introdutório, calcado na erudita contemplação do jogo da vida de doutos personagens da história, chega a propósito de uma questão terra-a-terra, de doridos efeitos no cotidiano de todos. A crescente violência urbana, com suas inesperadas armadilhas, que ceifam vidas e produzem toda sorte de traumas, vem forçando a comunidade a usar amplamente as potencialidades de seu instinto de defesa. E, com isso, a criar constantemente dispositivos que possam proteger melhor as pessoas dos riscos que as rondam. Para enfrentar a turbulência solta nas ruas – que já teria, por sinal, sido contida, a nos louvarmos na derrama publicitária com a qual os governos, em frenética disputa com as “Casas Bahia”, ocupam os intervalos televisivos – motoristas e pedestres apelam para um sem-número de estratagemas. Mudam itinerários. Aplicam películas de escurecimento nos vidros dos veículos. Atravessam sinais interditos de trânsito nas horas tardias. Carregam consigo os instrumentos de som, quando estacionam. Substituem documentos de identidade por cópias. Escondem cartões de crédito na cueca, seguindo o edificante exemplo do assessor parlamentar carregado de dólares. Ocultam os celulares. Tudo, tudo, no afã de se adaptarem às circunstâncias perversas ditadas pela audácia da bandidagem armada. O jeito é prevenir-se. Um homem prevenido vale por dois. Não é o que diz o ditado?

Fiquei sabendo, inda outro dia, de criativos artifícios utilizados por moradores de residências da classe média. Apesar de aparelhadas com alarme e cerca elétrica, “visitadas” em momentos de ausência fortuita dos moradores. No jardim de uma delas, afixou-se placa com ilustração caprichada mostrando dois apavorantes répteis, mais os seguintes dizeres: “Cuidado, jararacas adestradas”. E mais embaixo: “Usem o interfone, para que os bichos possam ser recolhidos.” O manhoso alerta tem dado certo. Até mesmo os valorosos carteiros adotam hoje, pelo sim pelo não, posição de cautela quando nas imediações. Um vizinho andou implicando com a coisa e mandou chamar a Polícia Florestal. Mas tudo acabou bem, depois das explicações.

No jardim de outra residência, pode ser visto painel de grandes dimensões, ao lado de uma réplica de caveira encimada por um protótipo de vela, sempre iluminada, contendo estes dizeres: “Atenção. Perigo! Não ultrapasse. Vodu na linha do Haiti.”

Dizem que, tirante uns tantos olhares de esguelha de desconfiados vizinhos pertencentes a seitas religiosas ortodoxas, que evitam transitar pelo passeio da casa, a família vem conseguindo manter distanciados “intrusos” de diferentes naipes.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 Negacionismo Eleitoral


“Quem ataca a eleição semeia a antidemocracia”. (Edson Fachin – Presidente do TSE)

CESAR VANUCCI*


Mais essa, agora: negacionismo eleitoral. Dos arroubos retóricos açodados e impertinentes do Presidente Jair Messias Bolsonaro brota outra perturbadora encrenca política com ressonância fora de nossas fronteiras.

S. Exa. entendeu, de repente, num de seus desconcertantes impulsos de beligerante sem causa, de convidar parte do corpo diplomático acreditado em Brasília, para uma despropositada fala de crítica acerba ao sistema eleitoral do país do qual é dirigente. O inverossímil questionamento deixou a opinião pública brasileira, os círculos políticos e os meios diplomáticos, estarrecidos. Nunca, jamais, em tempo algum, alguém deu notícia de algo desse gênero!

Tomados de indignação e inconformismo, os setores democráticos reagiram à insólita manifestação, que abrangeu também ataques a ilustres integrantes do Supremo Tribunal Federal. O Ministro Presidente do TSE, Edson Fachin, em lúcido pronunciamento lançou no ar a expressão “populismo autoritário” ao exprimir repulsa pelo ocorrido. Assinalou, com todas as letras, pontos e virgulas: “Mais uma vez, a Justiça Eleitoral e seus representantes máximos, são atacados com acusações de fraude, ou seja, uso de má fé. Ainda mais grave o envolvimento da política internacional e das forças armadas. É hora de dizer basta a desinformação e ao populismo autoritário que coloca em xeque a Constituição de 1988”.

O Presidente do Congresso Nacional, Senador Rodrigo Pacheco, reafirmou, por sua vez de forma peremptória que as urnas eletrônicas constituem um instrumento confiável e legítimo das práticas democráticas em vigor. Nesse mesmo tom, houve uma sequência vasta de declarações formuladas por lideranças políticas e de outros segmentos participativos da vida econômica e social brasileira. Até mesmo partidários do Presidente Jair Bolsonaro demonstraram, de forma bastante visível, constrangimento com relação aos fatos. Tem-se como certo, por sinal, que algumas vozes mais moderadas dos redutos governistas vêm insistindo com Bolsonaro para que adote procedimentos mais brandos ao externar suas ideias, deixando de lado essa questão do voto eletrônico, acatado como sabido e notório pela maioria da sociedade.

Dias antes dessa última tentativa presidencial de desmoralização do processo eleitoral que, por sinal, possibilitou, sem tropeços, sua ascensão ao poder em 2018, na Catedral da Sé, em São Paulo, num culto ecumênico em memória do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Don Phillips, assassinados na Amazônia, autoridades religiosas de

diferentes crenças lamentaram o posicionamento assumido por Bolsonaro e seus adeptos nesse desconcertante capítulo do processo de votação.

Diplomatas estrangeiros, ouvidos por jornalistas brasileiros, foram unânimes em registrar seu espanto diante do acontecimento. Muitos deles, como já havia sido feito, algum tempo atrás, pelo Presidente Joe Biden dos EUA emitiram a opinião de que o sistema da votação eletrônica, empregado com sucesso no Brasil, não comporta esse tipo de questionamento que vem sendo trazido a público.

Uma coisa, a essa altura revela-se bem nítida no sentimento nacional: o negacionismo eleitoral está causando fadiga e stress à sociedade brasileira. Já está passando a hora de se pôr um basta nesta arenga eleitoreira descabida e antidemocrática. O que o Brasil mais deseja é que as eleições se efetivem na forma preconizada e apontem resultados que traduzam a soberana vontade popular, qualquer que seja ela, como estipula um saudável jogo democrático.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Chegada a hora

  Chegada a hora Cesar Vanucci *   “Eleição é um teste cívico periódico para se manter a boa saúde democrática.” (Antônio Luiz da Co...