sexta-feira, 25 de setembro de 2020

 Religiões como sinais de Deus

 

Cesar Vanucci

 

“Importa evitar o fanatismo e o sectarismos religiosos”.

(Padre Juvenal Arduini, grande sociólogo, filósofo e teólogo)

 

Da convivência, de muitos anos, com o saudoso padre Juvenal Arduini guardo lembranças inesquecíveis. O brilhante sociólogo, teólogo, filósofo, orador eletrizante, foi um sábio que influenciou a vida de um bocado de gente.

Com o encantamento que sua trajetória pela pátria terrena e seu opulento legado cultural despertam em meu espírito, remexendo arquivos, revejo texto primoroso de sua lavra a respeito da convivência inter-religiosa.

Com vantagem claramente explícita para o leitor, acostumado a defrontar-se, neste acolhedor espaço, com minhas despretensiosas e utópicas reflexões sobre personagens e coisas do mundo, tomo a iniciativa de reproduzir o texto abaixo. Belo e atual, como vereis, o trabalho explica que o fanatismo e o sectarismo religiosos são capazes de produzir irreparáveis estragos no relacionamento comunitário.

“Atualmente temos uma visão mais abrangente e diferenciada em relação à humanidade. A compreensão multicultural inclui a pluralidade religiosa, pois ao lado das grandes religiões tradicionais, evidencia-se o surto das novas crenças.

A consciência desse fenômeno levou a humanidade a rever e a reformular suas atitudes perante as religiões. Hoje há consciência de que cada religião tem o direito de ser respeitada e o dever de respeitar as outras, já que não se pode admitir que determinada religião queira ser respeitada sem respeitar as demais.

As diversas religiões não são iguais e nem se equivalem, uma vez que, possuem conteúdos e significados diferentes e devem ser reconhecidas segundo suas identidades específicas para não sofrerem reducionismo. Deverão ser avaliadas objetivamente, sem preconceitos ou alteração de sentidos a fim de favorecê-las ou prejudicá-las.

É legítimo discordar de propostas religiosas, mas sem hostilizá-las. Até amigos discordam dos companheiros sem que isso constitua injúria. Um desacordo leal pode ser mais fraterno do que a concordância insincera. Apesar de suas diferenças, as religiões poderão encontrar-se e unirem suas intensas energias para o bem de todos os povos.

Importa evitar o fanatismo e o sectarismo religiosos. Estas são atitudes passionais que cegam as pessoas. Os fanáticos enxergam sua religião como a única a ter direito a existir e a impor-se. Por sua vez, o sectário vê a religião dos outros como anomalia a ser combatida e extirpada. Fanatismo e sectarismo produzem “guerras santas” que levam a perseguir religiões em nome do Deus da Paz. Nem sempre os interesses das religiões refletem o projeto de Deus. Pode acontecer que se invoque Deus para defender posições que contrariam seu plano de salvação. Seria salutar que as religiões se perguntassem se estão empenhadas em trabalhar pelo Reino de Deus ou pelo triunfo de ambições rasteiras.

As religiões procuram crescer e irradiar sua presença. O próprio Jesus enviou seus discípulos a anunciar o Evangelho ao mundo inteiro, mas para tal, há que agir com lealdade. Não se pode forçar a “conversão” de ninguém. O proselitismo arrecada adeptos. Converter-se é decisão pessoal e livre. Desse modo, atrair pessoas para uma religião por meio de chantagem é indecoroso. Arrebanhar fiéis com ameaça de castigo divino é terrorismo religioso. Dizer a enfermos e angustiados que só obterão cura e alívio se deixarem sua religião e passarem para outra é hediondo.

Buscamos a convivência madura entre as religiões. Convivência lúcida e dialogal que permita a cada pessoa manter e aprofundar sua Fé. Ao referir-se aos falsos profetas, Jesus aponta-nos hermenêutica evangélica sábia: “Pelos seus frutos os conhecereis...Toda árvore boa dá bons frutos, mas a árvore má dá maus frutos” (Mt 7,16-17). O valor de uma religião revela-se mais pela ortopráxis do que pela ortodoxia, mas pela prática coerente do que pela doutrina exata. É pelos bons frutos que produzirem para a humanidade que as religiões serão sinais do Deus da vida e do amor, da solidariedade e da paz”.

 

Médicos, enfermeiros e hospitais

 

Cesar Vanucci

 

“Comemoremos a pulsação da vida.”

(Padre Juvenal Arduini, exaltando a

ação dos profissionais da saúde)

 

Volto ao carismático padre Juvenal Arduini. Mestre saudoso, cabeça pensante iluminada, querido compadre, companheiro de lida acadêmica na Academia de Letras do Triângulo Mineiro.

Intelectual respeitado, com senso de justiça e sensibilidade social aguçados, Arduini era um sacerdote devotado à causa evangélica. Atuou como professor na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Thomas de Aquino e assistente espiritual no Hospital São Domingos, em Uberaba, ambas instituições pertencentes às valorosas Irmãs Dominicanas. O hospital, à época da implantação foi apontado como estabelecimento modelar por sua arrojada concepção. Especialistas tinham-no como referência no cenário médico hospitalar. Agregado ao São Domingos funcionava a Faculdade de Enfermagem “Frei Eugênio”.

Os textos vindos na sequência, guardados nos arquivos deste escriba, foram produzidos há muito tempo. Reportam-se, em linguagem poética, numa cadência de benção, à ação fecunda em benefícios sociais desenvolvida “com amor e ternura” por médicos e enfermeiros no dia a dia de um grande hospital. Ação, que ele, Juvenal, acompanhou bem de perto, anos a fio. Dispensável enfatizar a atualidade de que se revestem os dizeres agora entregues à apreciação do distinto leitor.

Hospital, núcleo de solidariedade. Partir mais uma vez para o futuro / Através de um olhar / Que enxerga distante. / Hospital é concentração da saúde / Alegria que retorna ao lar. / Felizes são aqueles que são curados / Pois renascem de uma vida, que não se cansa.

As lágrimas são enxugadas pela coragem / Pela presença atenta que circula noite e dia / Pelo diálogo acolhedor / Que todos os participantes são responsáveis. / A caridade vibra na alma cristã / Através da paixão que nos encanta e não desiste / Através da beleza da vida que se revela / Assim, “somente o belo pode ser amado”.

Há muitos irmãos que se arrastam / Na dor e no sofrimento / Que podem ser superados / Através do amor, da verdade autêntica, / Da ternura, de Cristo.

Médicos sábios. Cristo, acompanhe sempre os médicos / Que teu sangue consagre o sangue deles / Que tua voz ressoe em suas palavras / Que teu olhar ilumine o olhar desses profissionais. / Que os passos deles sejam abertos caminhos, pelos teus! / Que o trabalho deles seja encorajado / Por teus gestos.

Que a tua luz atravesse / As sombras que os seguem. / Que a vida deles / Sejam iluminadas pela tua compaixão. / Que suas energias já cansadas, / Sejam revigoradas diante da tua força. / Que a fraternidade entre os médicos / Seja enlaçada e estreita pelo teu amor.

Que tuas mãos / Abençoem as mãos deles. / E que tua fidelidade / Sustente os seus compromissos. / Senhor, faze com que os médicos / Sejam sempre / Cientistas bio-antropológicos, / Peregrinos da medicina, / Companheiros dos enfermos, / Educadores do respeito humano, / Mestre da ética, / Defensores da vida, / Artistas da saúde, / Artífices da paz social, / Romeiros da história, / Maestros da esperança, / Testemunhas da fé, / E mensageiros da alegria.

Bênção ao Posto 6 da enfermagem. É hora de comemorar / A vitória sublime / O belo momento / Do posto 6, renovado. / Sentimos a plenitude da graça / Da vida, da verdade / Doa mor, da paz / E da esperança. / É preciso comemorarmos a solidariedade / O convívio nobre do trabalho / O acolhimento fraterno daqueles / Que buscam a saúde.

Comemoremos a pulsação da vida / A consciência limpa / O semear do respeito / A alegria dos enfermos. / Comemoramos, ainda, a germinação crescente / O corpo e o espírito / O passo sempre firme e inovado / Dos profissionais da saúde. / O sentido da glória / É manter o valor da vida / Da renovação / Da busca para semear o bem.

Eis porque suplicamos / O júbilo para todos. / É hora de suplicarmos / A bênção do pai celestial / Do Cristo em nosso irmão. / É hora de pedirmos / A bênção do Espírito Santo / De abençoar a todos. / É hora de dizer amém, / Assim seja, / É hora da glória / Pela presença de Deus.


sábado, 19 de setembro de 2020

 

Nos tempos do rádio


Cesar Vanucci

 

"Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado.

Não perdia um só capítulo de “O direito de nascer”."

(Antônio Luiz da Costa, professor)

 

Em artigo recente afirmei, com convicção, que a hora da novela é sagrada pra um mundão de gente. Era assim também nos tempos do rádio. A televisão herdou, no capítulo das novelas, alguns macetes do rádio. Junto com outro tipo de herança: a absorção, pela telenovela, de talentosos autores, atores e diretores consagrados na radionovela. A radionovela naqueles áureos tempos do rádio como o mais poderoso instrumento de difusão cultural do continente brasileiro, distinguia-se do radioteatro. Era de duração longa, apresentação diária. Assim que acabava uma história, o horário passava a ser ocupado por outra radiofonização. A radionovela que deixava o ar e a que entrava mereciam, na programação, insistentes e persuasivas chamadas. Já o radioteatro podia ser definido como uma novela de tamanho menor, transmitida esporadicamente. Tá na cara que esse modelo inspirou a televisão, quando criou, junto com a telenovela, a minissérie. Essa, também, novela de curta duração.

 

Aqui está intrigante relato sobre as emoções desenfreadas dos ouvintes nos bons tempos das novelas de rádio. Nélio Pinheiro era costumeiramente escalado para papéis de galã, diferentemente de Rodolfo Mayer, convocado sempre para vilão nos folhetins radiofonizados da Nacional. Dono de voz expressiva e envolvente, exercia no público um fascínio comparável ao que se percebe hoje na televisão, em relação ao desempenho de Tony Ramos, Antônio Fagundes, por aí.

Numa trama determinada, seu personagem "descendia" de uma família da Beira, em Portugal. Tomado de estupefação, Nélio recebeu um dia nos estúdios um grupo de cidadãos lusitanos, todos oriundos daquela região, radicados no Rio de Janeiro. Os entusiasmados visitantes, exibindo documentos, fotos, transmitindo depoimentos em viva voz procuraram, com vigoroso empenho, estabelecer com o ator um vínculo de parentesco próximo. Até passagens da "infância", pródiga em "traquinagens" dos tempos em que "viveu" na Beira, foram "relembradas". Deu trabalhão danado explicar que os personagens e fatos retratados na novela eram pura ficção. Não passava de mera coincidência toda e qualquer semelhança com nomes e lugares da vida real.

Noutro seriado, a mocinha do papel central, defendido com competência pela radioatriz Zezé Fonseca, comeu o pão que o diabo amassou por culpa das armações inimigas. Mas como diz o ditado, não há mal que sempre dure. Veio daí que no desfecho a jovem acabou recompensada por tanto sofrimento. Encontrou seu príncipe encantado, filho obviamente de seu principal algoz. A ele se uniu pelos laços indissolúveis do matrimônio, sendo feliz para sempre. Nas imediações do casamento de mentirinha, pipocou algo fora do enredo. Um mundão de ouvintes entendeu de participar, à sua maneira, da celebração. A heroína recebeu felicitações e presentes à pamparra. Enxovais, eletrodomésticos e outros utensílios para o lar. Além, está claro, de hospedagens em locais paradisíacos para desfrute da merecida lua de mel...

Como dá pra ver, o desconcertante entrelaçamento da ficção com a realidade no imaginário popular, traduzido em episódios jocosos, não é coisa de agora, destes tempos televisivos. A história do rádio de antanho, quando a radionovela e os programas de auditório abriam as portas da fama para artistas, igualzinho faz hoje a televisão, é pródiga em registros reveladores desse descompassado estado de espírito de alguns viventes.

 Volto à radionovela no capítulo vindouro.

 

Não sobrou ninguém

 

Cesar Vanucci

 

"É prá já!"

(João David, autor de novela,

 instado a apressar o desfecho da trama)

 

A mania nacional da radionovela levou, na década de 50, muitas PREs do interior a criarem esquema próprio de produção. Os radioatores, radioatrizes, autores ou adaptadores de textos eram recrutados no meio artístico local. Cumpriam as tarefas ou por desprendido amor à arte, ou em troca de módicos cachês semanais. As radiofonizações saiam ao vivo. Nada de gravações, artifício técnico inacessível aos minguados orçamentos das emissoras. No Rio e em São Paulo, pequenas empresas dedicavam-se à elaboração de textos melosos para suprir as necessidades da radionovela interiorana. O estilo lembrava romance de madame Delly, autora de grande aceitação junto ao público leitor feminino. Funcionava também nas capitais como opção, implicando em custos evidentemente maiores, uma central de produção, que se valia do concurso de radialistas consagrados. Ela garantia capítulos prontos, gravados.

 

A PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, de Uberaba, pioneira nos Vales dos rios Grande e Paranaíba, naqueles vastos e férteis chapadões do Triângulo, apostou na radionovela própria. A emissora, ligada ao grupo "Lavoura e Comércio", que deixou de circular há poucos anos depois de uma trajetória centenária, abriu caminho, no mundo da comunicação e do espetáculo, para um punhado de celebridades. Entre muitos outros: Urbano Vanucci Loes, que compôs com Cesar Ladeira, Carlos Frias, Celso Guimarães e Luiz Jatobá o time dos grandes locutores do rádio; Gontijo Teodoro, futuro "Repórter Esso"; e Augusto Cesar Vanucci, que veio a conquistar no teatro, cinema e televisão expressivos prêmios, inclusive o "Emy", nos Estados Unidos, e o “Ondas”, na Inglaterra. O seu “Emy”, em 1981, foi por sinal o primeiro da série de dez arrebatados por artistas da Globo até o ano de 2013, quando o laurel foi conferido à fabulosa Fernanda Montenegro. Depois do ano citado o criativo time global recebeu outros “Emys”.

 

O "cast" da E-5, como era de bom tom dizer-se na época, agregava gente de valor. Alguns deles: Altiva Glória Fonseca, dona de lindíssima voz; Silvia Riccioppo, cantora lírica e atriz teatral de méritos; Jonas Garret, José Vianna, Raul Jardim, Sebastião Costa, que acumulava as funções de contrarregra. Do elenco infantil faziam parte o já citado Augusto Cesar; este locutor que vos fala; e a talentosa Valia Vieira, filha do diretor da emissora, o saudoso Waldemar Vieira, que aliava ao perfil de humanista incomum capacidade de ação.

 

Se a memória não tá a fim de me trair, "Armadilhas do destino" o nome da novela. João David, o autor, tabagista inveterado, cigarro pendurado nos lábios, pigarro constante, dedos amarelecidos pela nicotina, aprendera do ofício na Excelsior, de São Paulo. Numa Remington manipulada freneticamente ia desovando com talento os capítulos de cada dia. As cópias, em papel carbono, com uma ou outra correção a lápis, eram distribuídas pouquinho antes do capítulo ser jogado no ar, tempo às vezes insuficiente para os radioatores treinarem as inflexões corretas das falas. Seja como for, o público parecia gostar da coisa. Muitos ouvintes compareciam, assiduamente, ao auditório, conhecido por "majestoso salão grená", para acompanhar de perto a trama "encenada" no palco, se é que assim possa ser dito. Em "Armadilhas do destino", as tragédias pessoais com óbitos frequentes, se acumulavam. E como a novela já se espichasse por longo tempo, o patrocinador recomendou a João David que apressasse o desfecho. O autor não se fez de rogado. Anunciou, resoluto: "É pra já!". Botou os personagens remanescentes num ônibus em viagem tumultuada por estrada coalhada de precipícios e engendrou um derradeiro desastre. Não sobrou ninguém pra contar história.

sábado, 12 de setembro de 2020


Chá russo

Cesar Vanucci

“O povo com seu bom senso nativo, com a sua segura intuição das coisas boas, justas e legítimas, nunca tomou chá.”
(Escritor Ramalho Ortigão, “As Farpas”, conforme registro do “Dicionário de Citações”, de Paulo Rónai.”

· O tzar Vladimir Putin não é de dar “colher de chá” pra ninguém. Que o digam seus adversários. Prefere dar chávena inteira de chá. Com veneno dentro.
Quem dele ouse discordar expõe-se a riscos. Dentro ou fora da imensidão territorial russa. O opositor da vez, na lista dos atingidos pelos “sutis” processos empregados com objetivos de retirada abrupta de “desafetos” do palco político, é Alexei Nalvany. O citado cidadão tornou-se famoso pela divulgação sistemática, com ênfase nas redes sociais, de denúncias acerca de arbitrariedades cometidas pelas autoridades supremas do Kremlin.
O atentado de que foi alvo pode ser assim resumido. Em Tomsk, Sibéria, ele tomou chá num bar do aeroporto, enquanto aguardava voo para Moscou. Instantes depois, já alojado no avião, foi visto a retorcer-se em dores. Em Onsk, a 750 quilômetros do ponto de partida, por conta do agravamento de seu estado de saúde, o aparelho foi forçado a fazer uma parada de emergência. Inconsciente, Alexei foi hospitalizado.  O boletim de internamento acusou coma. Companheiros seus de embates políticos, alarmados, resolveram botar a “boca no trombone”. Bradaram alto, provocando comoção internacional, a informação de que Alexei, a exemplo de outros em passado recente, havia sido envenenado por ordem de Putin. A repercussão adquiriu tal proporção que às autoridades russas não sobrou outra alternativa senão atender, relutantemente, em meio a tensas negociações, ao apelo angustiado de parentes da vítima e organismos internacionais vinculados a movimentos humanitários, no sentido de que o paciente pudesse deixar a Rússia e ser medicado na Alemanha.  Entregue a cuidados médicos especiais, já a esta altura em Berlim, ele se encontra em fase de recuperação.
Os laudos médicos alemães corroboram a suspeita de envenenamento, categoricamente negada por fontes oficiais de Moscou.
O amplo noticiário a respeito dessa impressionante história, que parece extraída de novela policial, fala de uma extensa relação de casos de envenenamento registrados, em anos recentes como já dito, envolvendo, “coincidentemente”, outros cidadãos que ganharam notoriedade por militância ativa nas hostis da oposição ao governo. É oportuno recordar, a propósito, que o dirigente russo ostenta no currículo a condição de haver comandado, nos tempos do autoritarismo bolchevista, a temida KGB.
Abaixo vêm alinhados os nomes dos demais desafetos do mandatário russo apontados como vítimas de envenenamento.
 Iuri Sochekochikhin, jornalista investigativo. Faleceu. Anna Politkovskia, jornalista investigativa. Sobreviveu ao “chá”, mas foi assassinada a tiros, algum tempo depois. Viktor Iushchenko. Sobreviveu. Alexander Litvinenko, ex-espião. Ficou seriamente enfermo, após tomar chá, em Londres, na companhia de um colega de profissão. Serguei Skripal, ex-agente russo. Juntamente com a filha, sofreu atentando por envenenamento numa praia no Reino Unido. Ambos conseguiram se recuperar. Piotr Verzilov, ativista político oposicionista. Sobreviveu, após receber, como acontece agora com Alexei, tratamento emergencial de desintoxicação por envenenamento ingerindo chá. A assistência médica que permitiu sua recuperação foi prestada em clínica alemã.
As afamadas “casas de chá” de Moscou e São Petersburgo, tradicionais pontos de confraternização mundana das celebridades russas, parecem haver perdido, nestes tempos desvairados, seu fascínio e charme. Andam às moscas, como se costuma dizer no linguajar das ruas... E não por causa apenas da covid-19!

· Vamos admitir, condescendentemente, num voo condoreiro de imaginação, que 95 por cento dos malfeitos atribuídos pela mídia a Vladimir Putin e Donald Trump não passem de meras “intrigas da oposição”. Mas, cá pra nós, falar verdade, esses 5 por cento restantes são suficientes o bastante pra produzir calafrio na espinha de qualquer mortal. Não há como esquecer que ambos, os dois, ao lado de alguns outros integrantes (não tão confiáveis assim) da confraria gestora do chamado “clube atômico”, são detentores do poder de acionar os botões daqueles apavorantes painéis montados com a  tétrica finalidade de atear fogo no mundo, se isso, por acaso, atender às conveniências soberanas da geopolítica dominante. Valha-nos Deus, Nossa Senhora!


Hora da novela é sagrada

Cesar Vanucci

“Desde os áureos tempos da Rádio Nacional, da Rádio Tupi, da Mayrink Veiga, entre outras PREs, que as novelas mexem, pra valer, com a sensibilidade da gente do povo.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

· Conterrâneos, amigos desde os idos da meninice, Barcelos e Ascânio comunicam-se quase todos os dias, mode que manterem-se atualizados quanto aos assuntos cotidianos.
Nestes tempos de reclusão forçada, trocam sempre informações pelo telefone. Preenchem, assim, o hábito, de longos anos, do bate papo durante terapêuticas caminhadas matinais, por agora interrompidas. Barcelos estranhou bastante o recado do amigo, passado pela secretária, em resposta a uma chamada pelo celular. Ascânio, médico oftalmologista, mandou dizer que não poderia atendê-lo por estar “acompanhando no momento o parto da Filó”. Barcelos comentou: “Uai! Eu não fazia a mais leve ideia de que o Ascânio atuasse também na área da obstetrícia!”
Um dia depois, tudo acabou devidamente explicado. A “assistência ao parto da Filó” não foi de cunho profissional. Foi “assistência” na condição de telespectador. O companheiro médico havia se referido, na verdade, a lance “acontecido” numa novela, da Globo, de grande audiência, levada ao ar no final da tarde. Intitulada “Êta Mundo Bom!”, a novela foi relançada de forma condensada, cobrindo espaço na programação à vista da paralisação, por motivos conhecidos, das gravações no setor da teledramaturgia. Barcelos riu a bandeiras despregadas, passando adiante a amigos comuns, a “novidade” sobre a súbita conversão do amigo, nas lidas domésticas, ao papel de telenoveleiro.
Mas, como proclama a sabedoria das ruas, “nada como um dia após o outro”. Não é que, pouquíssimos dias transcorridos, a inesperada situação que suscitou gargalhadas se inverteu? Com os fraternais amigos jogando, como de costume, conversa fora via telefônica, chegou a vez de o médico surpreender-se com perguntas, fora do prosaico enredo do dia a dia, formuladas pelo colega Barcelos. Cá estão: “O que você acha que poderá acontecer com a Sandra e o Ernesto, no final da trama, a levar-se em conta as malvadezas praticadas contra a bondosa “tia” Anastácia e o ingênuo Candinho?” “Você acha que a Conegundes, vulgo “Boca de fogo”, permitirá que o Zé dos Porcos contraia matrimônio com a Mafalda, decifrando de vez, para a graciosa roceira, a charada do cegonho?”
Vamos reconhecer o óbvio. As fantasias que brotam das novelas mexem em cheio com a sensibilidade das pessoas. O confinamento provocado pela “gripezinha maligna” ajudou aumentar de forma impressionante o “ibope” da criativa dramaturgia televisiva. O que tem de cavalheiros, madames, mancebos e moçoilas a se refestelarem em poltronas, na “hora sagrada” da exibição do capítulo do dia, de olho grudado na telinha, acompanhando as peripécias do qualificado elenco de atores e atrizes “globais”, vou te contar!...
Cabe, a propósito, introduzir na conversa, aproveitando – isso mesmo! - um intervalo publicitário da divertida comédia em foco, uma sugestão endereçada aos encarregados da programação da emissora. Por que não se cogitar da volta, nos repetecos de “antigos sucessos”, de “Gabriela” e “O Bem Amado”. Os telespectadores de sempre, somados aos de agora agradecerão, penhorados, se isso acontecer. Podem crer.

Deu a doida (1). Deu a doida na telefonia móvel. Um monte de gente se queixando. Numerosas vezes por dia os celulares soam anunciando chamadas com os números de origem, naturalmente, registrados no visor. A pessoa chamada diz “alô”, repetidas vezes, encontrando silêncio como resposta. Resolve, então, retornar a ligação, para saber do que se trata. Uma voz metálica “explica”: “Este telefone não existe”. A agência reguladora dos serviços telefônicos precisa mandar averiguar que “diacho” de coisa é essa, dessas chamadas inoportunas, bastante numerosas, obviamente misteriosas, com números que ficam registrados, inclusive códigos de área, “mas não existem”...

· Deu a doida (2). Sinal desnorteante da confusão mental que grassa solta na praça: Na portaria de condomínio de luxo, a administração mandou afixar um aviso em letras garrafais. Diz o seguinte: “Parentes e conhecidos não são bem-vindos a este edifício”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020


Hiroshima, 75 anos

Cesar Vanucci*

“Bella matribus detestata – As guerras detestadas pelas mães".
(Horácio, 658 a.C)

Retiro do baú anotações com mais de duas décadas e frescor atual. Referem-se ao apavorante lance inaugural da era atômica. Ou seja, a explosão, 75 anos atrás, da bomba de Hiroshima, assunto intensamente relembrado pela mídia nestes dias.
O estoque das armas de destruição em massa é cada dia mais volumoso. O tal acordo de não proliferação de armas nucleares só vale, de verdade, para os países que ainda não as possuem. Os integrantes do fechadíssimo “clube atômico” monitoram com rigor policialesco as ações dos demais países, procurando dificultar-lhes até mesmo a aquisição de conhecimentos concernentes ao emprego da energia nuclear para fins de desenvolvimento econômico e social. Atribuem, por antecipação, a responsabilidade por uma eventual tragédia nuclear futura a terceiros, não detentores da mortífera tecnologia.
“Esquecem-se” de que na única vez na história humana em que bombas atômicas caíram sobre populações civis, destruindo cidades e matando centenas de milhares de pessoas, a iniciativa de detona-las foi tomada justamente por um dos membros do “clube”, que continuou, a exemplo dos parceiros, a armazenar novos e mais arrasadores artefatos.
Por outro lado, analistas em estratégias militares garantem que existem, presentemente, também, em poder dessas mesmas potências artefatos químicos tão “eficazes” quanto o armamento atômico. O que dá para “garantir”, se da vontade dos “senhores das guerras”, o extermínio de qualquer forma de vida sobre a superfície planetária. Uma ligeira amostra dos danos de que essa parafernália bélica é capaz de provocar tem sido dada numa série de conflitos registrados, mundo afora, posteriormente à segunda guerra mundial. É só lembrar o que sucedeu no Vietnã, no Golfo Pérsico, no confronto Irã-Iraque. Aquele mesmo em que o ditador Saddan Hussein pôde contar com copioso fornecimento de armas e sólido apoio logístico dos antigos aliados e futuros arquiinimigos estadunidenses.
Não esquecer ainda que a bomba de hidrogênio, mais potente do que a atômica, ainda não foi testada em campo de batalha. Existe em quantidade suficiente para acabar com o mundo várias vezes. As estatísticas mencionam milhares de engenhos guardados em silos subterrâneos, porta-aviões, submarinos e aviões permanentemente, por “estratégicas precauções”, preparados para decolar. São coisas assim que fazem com que os guerreiros vocacionados se imaginem sempre, em sua paranóia destrutiva, próximos do Armagedon. Farejar o Armagedon é postura natural para os espíritos deformados que fazem das guerras um bom negócio. Não sei se alguém, dentre ocasionais leitores destas maltraçadas linhas, ainda se recorda de um estapafúrdio lance, de anos atrás, estampado em jornais televisivos, quando do conflito Irã-Iraque. Um empresário paulista, cheio de empáfia, fornecedor de equipamentos bélicos a um dos litigantes, envergando uniforme de campanha iraquiano, ocupou as câmeras de televisão no ridículo papel de comentarista. Empunhando uma vareta sobre imenso mapa, vangloriou-se da eficiência mortífera dos instrumentos produzidos em suas fábricas. O homem babava de contentamento, em delirante fantasia, com as revelações sobre os estragos que as armas estariam em condições de provocar. Sentia-se um pouco dono do mundo. Uma cena arrepiante, essa proporcionada pelo mercador de armas. A história mostra que tem gente poderosa, espalhada por esse mundo de Deus onde o diabo costuma plantar seus enclaves, raciocinando e agindo nos mesmos termos do babaca citado. Nem todos talvez possuídos da ânsia tresloucada de exibir seu pendor belicista e primitivismo via televisão. Gente perigosa, sempre de prontidão para atear fogo em tudo.
Hiroshima e Nagasaki, alvos civis atingidos em cheio pela insanidade bélica, legaram-nos uma mensagem. Uma mensagem contra todas as guerras. Não só contra a guerra atômica. Um clamor pela paz, originário dos recantos mais generosos da alma humana, em todas as latitudes. Bem apreendido, pode levar o ser humano a refletir melhor sobre suas origens e seu destino. Permite-lhe até sonhar com aquele instante ideal na aventura terrena em que toda a dinheirama gasta para produzir morte seja aplicada na celebração da vida. Em favor de pesquisas e ações que elevem os padrões do bem-estar, promovam a cura de doenças e a erradicação da miséria. São essas, aliás, as guerras que precisam ser combatidas por todos.
Palavra de Hiroshima. E de Nagasaki!

 
Hiroshima e Nagasaki

 Cesar Vanucci

“Meu Deus! O que foi que nós fizemos?”
(Robert Lewis, co-piloto da fortaleza voadora que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima)
 
O mundo está a relembrar, nos dias que correm, o apavorante episódio que, há 75 anos, fez de Hiroshima e Nagasaki cidades-símbolos do holocausto.
A colossal tragédia já foi analisada em livros, reportagens, tribunas, atos cívicos, exposições, por historiadores, dirigentes políticos, militares, educadores, cientistas, gente do povo, pessoas que ajudaram a apertar o botão fatídico naquela manhã de agosto de 1945 e, também, como não poderia deixar de ser, por parentes das vítimas fatais e dos sobreviventes.
São relembranças que carregam no bojo uma profusão de versões. Há a versão dos vencidos e a versão dos vencedores. A versão dos estrategistas. A de cientistas que se ocupam com entusiasmo dos avanços tecnológicos da física e do ingresso da humanidade na era nuclear. E a dos humanistas, preocupados com os enfoques demasiadamente técnicos da questão. Existem, ainda, versões militar, jurídica, ética e moral. Todas escoradas numa superabundância de argumentos solidamente plantados nas mentes de seus propagadores.
Alega-se de um lado que, se os Estados Unidos não tivessem optado pela bomba, a invasão do Japão teria custado o sacrifício de 500 mil vidas americanas. Reforça-se a alegação com o argumento de que havia uma nova arma para ser empregada e que o país chegou primeiro que os adversários na disputa pelo domínio nuclear. Em contraposição, afiança-se que a estimativa de baixas na provável invasão foi ardilosamente exagerada, de modo a provocar comoção e justificar o lançamento do artefato. Os Estados Unidos bem que poderiam ter promovido, com a presença de observadores neutros e de representantes nipônicos, uma demonstração prévia do poder catastrófico da arma. O ato valeria como um ultimato e ao adversário, comprovadamente fragilizado àquela altura, não restaria alternativa que não a capitulação.
 No extenso capítulo da condenação à atitude dos vencedores sustenta-se ainda que a bomba foi lançada menos com o intuito de levar o Japão à rendição e mais com o sentido de protocolar um recado claro e explícito à União Soviética. Uma espécie de carta de apresentação, com currículo e referências à mostra, para o pós-guerra. Para a desgastante “guerra fria” que se estendeu, com muito sofrimento e angústia, até a Perestróica, a glasnost, a derrubada do famigerado “muro de Berlim” e o consequente desmoronamento da estrutura comunista. Os anos de chumbo da “guerra fria” foram marcados, todos sabem, pela ampliação do clube atômico, que absorveu como novos associados a Rússia e outros países da antiga União Soviética, a Inglaterra, a França, a China, a Índia, o Paquistão, o Israel, a Coréia do Norte e, provavelmente, a África do Sul. E sabe-se lá mais quem!... Só que os arsenais de agora fazem dos modelos, disparados contra alvos japoneses, autênticas peças de museu, valha-nos Deus!...
Outro argumento contestatório à posição estadunidense está contido na seguinte indagação: por que o repeteco, dias depois de Hiroshima, da bomba atirada em Nagasaki? Uma única bomba não teria sido suficiente para dobrar a arrogância do Império do Sol Nascente?
Nessa hora em que afloram relembranças do histórico acontecimento, não há como esquecer a atuação dos cientistas engajados no projeto concebido em Los Alamos. Receosos de que Hitler chegasse primeiro à construção da bomba, eles fizeram um apelo a Roosevelt para que apressasse as pesquisas. Depois dos eventos de Hiroshima e Nagasaki, muitos deles, como Robert Oppenheimer, ousaram propor a abolição das armas atômicas. Sofreram estrondosa e amarga desilusão. A questão já havia escapulido ao seu controle.

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...