sábado, 28 de março de 2020


Nestes tempos de coronavírus

Cesar Vanucci

“Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de orientações respeitáveis. Degradada, a ação federal move-se entre comédias e provocações.”
(Élio Gáspari, jornalista)

Tempos difíceis, provações à pamparra. Tempos para o exercício febricitante de valores que enobrecem a caminhada humana. Tempos de solidariedade, de fraternidade. Tempos de imprescindíveis bom-senso, juízo, reflexão. E, também, apropriado a meditação, reclusão interior e – como não? – oração.

Das lideranças detentoras de responsabilidades institucionais bastante precisas na cartilha republicana e no texto constitucional é legítimo aguardar, mais do que isso, exigir, que saibam se comportar à altura das aspirações nacionais. Revelem-se zelosas e dedicadas no cumprimento do dever, afirmativas nas decisões preventivas e curativas que possam contribuir eficazmente para o enfrentamento da galopante pandemia e minimização de seus devastadores efeitos sociais e econômicos.

O entendimento nacional acima de paixões políticas, largadas de lado ridículas “questiúnculas de aldeia”, discussões bizantinas desagregadoras, é uma solene imposição deste grave momento. As circunstâncias reclamam uma conjugação de forças, de vontades, a mais poderosa que se tenha condições de articular, de maneira a definir, com todo vigor, as políticas mais adequadas que o país tenha ao seu dispor, para o confronto inexorável com a enfermidade que ceifa vidas preciosas e lesiona o valioso patrimônio da coletividade.

As providências requeridas pela dramática situação requerem uma sintonia fina de propósitos e esforços. Faz-se mister que as autoridades competentes, em todos os escalões, a começar pelo Governo Federal, deem-se as mãos, compartilhem a mesma mesa para diálogos construtivos e decisões efetivas. Desvencilhem-se da ruinosa tentação de ditarem regras, mesmo que bem-intencionadas, provenientes de interpretações pessoais egolátricas das ocorrências ameaçadoras que nos rondam. Somem conhecimentos, inventividade, promovendo a coalizão capaz de transmitir à Nação a certeza confortadora de que o melhor da competência inerente ao complexo oficial de serviços públicos está sendo colocado a serviço da proteção comunitária.

Da engrenagem assistencial constituída com esse edificante objetivo, amparada naturalmente no indispensável apoio dos sistemas privados de saúde, espera-se um trabalho eficiente, muito trabalho eficiente. Trabalho de magnitude tal que nunca se possa dar por suficientemente trabalhado o todo problemático a ser encarado, mesmo que o esforço laboral despendido seja o mais intenso e extenso jamais estruturado.

O projeto nacional de combate ao coronavírus terá que ser, - é o óbvio ululante – coordenado na esfera federal. Os governos estaduais e municipais, bem como as lideranças de outros segmentos da sociedade convocadas para trabalho conjunto, serão partícipes importantíssimos no colossal processo. Cabe anotar, neste ponto das considerações, penosa constatação. Até, pelo menos, à hora em que estes dizeres estavam sendo digitados o presidente Jair Bolsonaro mostra-se estranhavelmente avesso a fazer uso do diálogo de modo a possibilitar a alvejada conjugação de ações. Empregando palavras e atitudes inconvenientes e dúbias, classificando o terrificante vírus de “uma gripezinha” insignificante e de alarmismo inconsequente as diligências assumidas noutras esferas administrativas, dava extravagante demonstração de não haver, ainda, então, se compenetrado da indelegável missão que o cargo exercido lhe confere nessa hora de angustia e temores.

A sociedade brasileira concentra-se, agora, na esperançosa expectativa que esse procedimento equivocado, prejudicial aos interesses nacionais, ceda lugar a uma avaliação ponderada dos fatos, uma compreensão exata da realidade que nos rodeia e que disso possam resultar negociações, entendimentos, troca de conhecimentos, atos positivos, com suprema urgência e sem mais desperdícios de energias e recursos, de maneira a contribuir para aliviar um pouco as desgastantes tensões. E colocar o Brasil, do Oiapoque ao Chuí, em posicionamento estratégico recomendável nas trincheiras abertas para o combate ao flagelo.



Reflexões‌ ‌motivadas‌ ‌pelo‌ ‌flagelo‌ ‌

Cesar‌ ‌Vanucci‌
 
“O‌ ‌planeta‌ ‌ficou‌ ‌doente‌ ‌porque‌ ‌está‌ ‌com‌ ‌a‌ ‌“huma...nidade”‌ ‌baixa.”‌ ‌
(Texto‌ ‌colhido‌ ‌no‌ ‌youtube)‌ ‌
 
O‌ ‌flagelo‌ ‌do‌ ‌coronavírus‌ ‌está‌ ‌dizendo‌ ‌a‌ ‌que‌ ‌veio.‌ ‌Sacudiu,‌ ‌em‌ ‌escala‌ ‌planetária,‌ ‌as‌ ‌estruturas.‌ ‌Trouxe‌ ‌apreensão,‌ ‌temores,‌ ‌infortúnios.‌ ‌Chamou‌ ‌as‌ ‌pessoas‌ ‌à‌ ‌reflexão.‌ ‌ ‌
 
Com‌ ‌impactantes‌ ‌implicações‌ ‌de‌ ‌toda‌ ‌ordem,‌ ‌projetou‌ ‌no‌ ‌sentimento‌ ‌do‌ ‌mundo,‌ ‌com‌ ‌absoluta‌ ‌nitidez,‌ ‌a‌ ‌inarredável‌ ‌certeza‌ ‌de‌ ‌que‌ ‌a‌ ‌sociedade‌ ‌humana,‌ ‌em‌ ‌sua‌ ‌peregrinação‌ ‌pela‌ ‌pátria‌ ‌terrena,‌ ‌está‌ ‌a‌ ‌trilhar‌ ‌rumos‌ ‌frontalmente‌ ‌opostos‌ ‌aos‌ ‌direcionados‌ ‌no‌ ‌sentido‌ ‌do‌ ‌bem-estar‌ ‌social‌ ‌almejado‌ ‌pelas‌ ‌multidões.‌ ‌Refazer‌ ‌conceitos‌ ‌equivocados‌ ‌de‌ ‌vida‌ ‌é‌ ‌relevante.‌ ‌Reconectar‌ ‌o‌ ‌mundo‌ ‌com‌ ‌sua‌ ‌humanidade‌ ‌é‌ ‌imprescindível.‌ ‌É‌ ‌preciso‌ ‌assegurar‌ ‌primazia,‌ ‌em‌ ‌tudo‌ ‌que‌ ‌se‌ ‌promova‌ ‌com‌ ‌vistas‌ ‌à‌ ‌exaltação‌ ‌da‌ ‌vida,‌ ‌aos‌ ‌valores‌ ‌humanísticos‌ ‌e‌ ‌espirituais‌ ‌que‌ ‌conferem‌ ‌dignidade‌ ‌à‌ ‌aventura‌ ‌humana.‌ ‌Garantir‌ ‌que‌ ‌tais‌ ‌valores‌ ‌essenciais‌ ‌sobrepujem,‌ ‌nas‌ ‌horas‌ ‌das‌ ‌tomadas‌ ‌de‌ ‌cruciais‌ ‌decisões‌ ‌pelas‌ ‌lideranças‌ ‌em‌ ‌diferentes‌ ‌níveis,‌ ‌as‌ ‌egoísticas‌ ‌e‌ ‌arrogantes‌ ‌percepções‌ ‌das‌ ‌coisas‌ ‌que‌ ‌costumam‌ ‌influenciar‌ ‌negativamente‌ ‌a‌ ‌marcha‌ ‌da‌ ‌história.‌ ‌
 
A‌ ‌“globalização‌ ‌da‌ ‌indiferença”,‌ ‌na‌ ‌sábia‌ ‌definição‌ ‌do‌ ‌Papa‌ ‌Francisco‌ ‌–‌ ‌
“gloriosamente‌ ‌reinante”‌ ‌no‌ ‌reverente‌ ‌reconhecimento‌ ‌dos‌ ‌católicos,‌ ‌bem‌ ‌como‌ ‌no‌ ‌de‌ ‌muitos‌ ‌fiéis‌ ‌das‌ ‌diversificadas‌ ‌correntes‌ ‌religiosas‌ ‌–‌ ‌é‌ ‌também‌ ‌rotulada‌ ‌por‌ ‌homens‌ ‌e‌ ‌mulheres‌ ‌de‌ ‌boa‌ ‌vontade‌ ‌de‌ ‌“globalização‌ ‌da‌ ‌injustiça”.‌ ‌E‌ ‌isso‌ ‌devido‌ ‌às‌ ‌circunstâncias‌ ‌de‌ ‌traduzir‌ ‌estado‌ ‌de‌ ‌espírito‌ ‌que‌ ‌faz‌ ‌ouvidos‌ ‌moucos‌ ‌e‌ ‌desvia‌ ‌acintosamente‌ ‌o‌ ‌olhar‌ ‌aos‌ ‌clamores‌ ‌e‌ ‌cenas‌ ‌aflitivas‌ ‌desses‌ ‌conturbados‌ ‌tempos‌ contemporâneos.‌ ‌A‌ ‌indiferença‌ ‌mais‌ ‌ou‌ ‌menos‌ ‌generalizada‌ ‌deixa‌ ‌flagrante‌ ‌a‌ ‌existência‌ ‌de‌ ‌mundão‌ ‌de‌ ‌gente‌ ‌que‌ ‌pouco,‌ ‌ou‌ ‌nada,‌ ‌se‌ ‌apoquenta‌ ‌com‌ ‌as‌ ‌tragédias‌ ‌coletivas‌ ‌que‌ ‌se‌ ‌vão‌ ‌acumulando‌  ‌a‌ ‌cada‌ ‌giro‌ ‌da‌ ‌Terra‌ ‌na‌ ‌imensidão‌ ‌sideral.‌ ‌
 
Nos‌ ‌campos‌ ‌da‌ ‌visão‌ ‌e‌ ‌da‌ ‌escuta‌ ‌de‌ ‌quem‌ ‌tem‌ ‌olhos‌ ‌para‌ ‌enxergar‌ ‌e‌ ‌aparelho‌ ‌auditivo‌ ‌para‌ ‌ouvir‌ ‌lá‌ ‌estão‌ ‌as‌ ‌constantes‌ ‌guerras‌ ‌fratricidas,‌ ‌a‌ ‌brutalidade‌ ‌terrorista,‌ ‌o‌ ‌desapiedado‌ ‌drama‌ ‌dos‌ ‌refugiados,‌ ‌as‌ ‌avassaladoras‌ ‌endemias‌ ‌que‌ ‌cobrem‌ ‌o‌ ‌maltratado‌ ‌território‌ ‌africano,‌ ‌a‌ ‌miséria‌ ‌das‌ ‌populações‌ ‌de‌ ‌ruas,‌ ‌cortiços‌ ‌e‌ ‌alagados,‌ ‌a‌ ‌contundência‌ ‌das‌ ‌desigualdades‌ ‌sociais,‌ ‌o‌ ‌opróbrio‌ ‌dos‌ ‌preconceitos‌ ‌e‌ ‌das‌ ‌discriminações‌ ‌regidas‌ ‌pelo‌ ‌ódio,‌ ‌insensatez‌ ‌e‌ ‌ignorância‌ ‌e‌ ‌numerosas‌ ‌outras‌ ‌modalidades‌ ‌–‌ ‌admita-se‌ ‌também‌ ‌epidêmicas‌ ‌-‌ ‌de‌ ‌extermínio‌ ‌da‌ ‌vida.‌ ‌A‌ ‌ausência,‌ ‌pelo‌ ‌menos‌ ‌nas‌ ‌proporções‌ ‌desejadas,‌ ‌de‌ ‌solidariedade‌ ‌social,‌ ‌o‌ ‌despreparo‌ ‌gritante‌ ‌de‌ ‌lideranças‌ ‌com‌ ‌papel‌ ‌de‌ ‌destaque‌ ‌na‌ ‌execução‌ ‌de‌ ‌tarefas‌ ‌voltadas‌ ‌para‌ ‌a‌ descoberta‌ ‌de‌ ‌caminhos‌ ‌que‌ ‌conduzam‌ ‌a‌ ‌uma‌ ‌jornada‌ ‌evolutiva‌ ‌da‌ ‌civilização‌ ‌pontuada‌ ‌de‌ ‌paz,‌ ‌harmonia‌ ‌e‌ ‌justiça‌ ‌são‌ ‌fatores‌ ‌que‌ ‌concorrem‌ ‌para‌ ‌que‌ ‌haja‌ ‌contínuas‌ ‌distorções‌ ‌dos‌ ‌acontecimentos.‌ ‌É‌ ‌assim‌ ‌que‌ ‌jorram‌ ‌tantas‌ ‌interpretações‌ ‌errôneas‌ ‌e‌ ‌nocivas‌ ‌desapartadas‌ ‌do‌ ‌verdadeiro‌ ‌sentido‌ ‌da‌ ‌vida.‌ ‌Perturbadas‌ ‌diante‌ ‌do‌ ‌bombardeio‌ ‌de‌ ‌informações‌ ‌desencontradas‌ ‌–‌ ‌um‌ ‌volume‌ ‌apreciável‌ ‌delas‌ ‌falsas,‌ ‌com‌ ‌aparência‌ ‌de‌ ‌verdade‌ ‌–,‌ ‌comunidades‌ ‌inteiras‌ ‌encaram‌ ‌com‌ ‌mecânica‌ ‌naturalidade‌ ‌-‌ ‌e‌ ‌até‌ ‌mesmo‌ ‌com‌ ‌desconcertante‌ ‌banalidade‌ ‌-‌ ‌situações‌ ‌sumamente‌ ‌graves.‌ ‌De‌ ‌certo‌ ‌modo,‌ ‌apavorantes.‌ ‌Em‌ ‌sendo‌ ‌assim,‌ ‌cometem‌ ‌o‌ ‌absurdo‌ ‌de‌ ‌descartar,‌ ‌por‌ ‌exemplo,‌ ‌os‌ ‌riscos‌ ‌(mais‌ ‌do‌ ‌que‌ ‌comprovados)‌ ‌do‌ ‌chamado‌ ‌aquecimento‌ ‌global.‌ ‌Uma‌ ‌“invencionice‌ ‌de‌ ‌cientistas‌ ‌amalucados”,‌ ‌em‌ ‌conluio‌ ‌com‌ ‌ideólogos‌ ‌extremistas‌ ‌empenhados‌ ‌em‌ ‌espalhar‌ ‌confusões,‌ ‌conforme‌ ‌insistentemente‌ ‌proclamam‌ ‌porta-vozes‌ ‌do‌ ‌obscurantismo‌ ‌intelectual‌ ‌talibanista.‌ ‌Uma‌ ‌corrente‌ ‌de‌ ‌pensamento‌ ‌retrógrado‌ ‌que‌ ‌se‌ ‌espalha‌ ‌por‌ ‌aí,‌ ‌em‌ ‌tudo‌ ‌quanto‌ ‌é‌ ‌latitude‌ ‌do‌ ‌planeta,‌ ‌com‌ ‌impetuosidade,‌ ‌vale‌ ‌admitir,‌ ‌virótica...‌ ‌
 
Muitas‌ ‌as‌ ‌constatações‌ ‌a‌ ‌registrar‌ ‌dessa‌ ‌carência‌ ‌de‌ ‌senso‌ ‌crítico‌ ‌face‌ ‌à‌ ‌acumulação‌ ‌de‌ ‌lances‌ ‌em‌ ‌condições‌ ‌de‌ ‌provocar‌ ‌desassossego‌ ‌social.‌ ‌Bastante‌ ‌emblemáticos‌ ‌na‌ ‌lista‌ ‌desses‌ ‌episódios‌ ‌indesejáveis,‌ ‌os‌ ‌gastos‌ ‌bélicos‌ ‌colossais‌ ‌das‌ ‌grandes‌ ‌potências‌ ‌escandalizam‌ ‌e‌ ‌indignam‌ ‌as‌ ‌mentes‌ ‌mais‌ ‌conscientes.‌ ‌Esse‌ ‌impactante‌ ‌desperdício‌ ‌de‌ ‌recursos‌ ‌dá‌ ‌vaza‌ ‌a‌ ‌que‌ ‌muitos‌ ‌países‌ ‌possam‌ ‌armazenar‌ ‌instrumentos‌ ‌de‌ ‌destruição‌ ‌em‌ ‌escala‌ ‌potencial‌ ‌capaz‌ ‌de‌ ‌reduzir‌ ‌a‌ ‌fragmentos,‌ ‌por‌ ‌dezenas‌ ‌de‌ ‌vezes,‌ ‌tudo‌ ‌aquilo‌ ‌que‌ ‌as‌ ‌diferentes‌ ‌gerações‌ ‌plantaram‌ ‌na‌ ‌superfície‌ ‌do‌ ‌planeta‌ ‌desde‌ ‌os‌ ‌começos‌ ‌dos‌ ‌tempos.‌ ‌ ‌
 
Mesmo‌ ‌entre‌ ‌cidadãos‌ ‌tidos‌ ‌na‌ ‌conta‌ ‌de‌ ‌bem-informados,‌ ‌revela-se‌ ‌reduzido‌ ‌o‌ ‌contingente‌ ‌daqueles‌ ‌que‌ ‌se‌ ‌mostram‌ ‌estarrecidos‌ ‌e‌ ‌que‌ ‌se‌ ‌animam‌ ‌a‌ ‌criticar‌ ‌as‌ ‌alarmantes‌ ‌opções,‌ ‌dos‌ ‌donos‌ ‌do‌ ‌mundo‌ ‌quando‌ ‌desviam‌ ‌recursos‌ ‌amealhados‌ ‌pelo‌ ‌labor‌ ‌humano‌ ‌para‌ ‌horrendos‌ ‌conflitos.‌ ‌ ‌
 
Cuidemos‌ ‌de‌ ‌anotar:‌ ‌um‌ ‌porta-aviões,‌ ‌devidamente‌ ‌equipado,‌ ‌da‌ ‌imensa‌ ‌frota‌ ‌que,‌ ‌permanentemente,‌ ‌singra‌ ‌os‌ ‌oceanos,‌ ‌em‌ ‌ameaçadoras‌ ‌vigílias,‌ ‌a‌ ‌serviço‌ ‌das‌ ‌maiores‌ ‌potências,‌ ‌cobra‌ ‌dos‌ ‌contribuintes‌ ‌valor‌ ‌superior‌ ‌–‌ ‌ora,‌ ‌veja,‌ ‌pois!‌ ‌-‌ ‌ao‌ ‌PIB‌ ‌de‌ ‌numerosos‌ ‌países.‌ ‌Como‌ ‌é‌ ‌que‌ ‌pode?‌ ‌Se‌ ‌a‌ ‌dinheirama‌ ‌gasta‌ ‌dessa‌ ‌maneira‌ ‌fosse‌ ‌destinada,‌ ‌como‌ ‌recomenda‌ ‌o‌ ‌bom-senso,‌ ‌à‌ ‌solução‌ ‌de‌ ‌problemas‌ ‌relacionados‌ ‌com‌ ‌as‌ ‌necessidades‌ ‌humanas‌ ‌vitais,‌ ‌incontáveis‌ ‌tragédias‌ ‌coletivas,‌ ‌inclusive‌ ‌as‌ ‌produzidas‌ ‌por‌ ‌vírus‌ ‌de‌ ‌origem‌ ‌desconhecida,‌ ‌poderiam‌ ‌estar‌ ‌sendo,‌ ‌com‌ ‌certeira‌ ‌convicção,‌ ‌evitadas‌ ‌ou‌ ‌combatidas‌ ‌com‌ ‌total‌ ‌sucesso.‌ ‌
 
O‌ ‌tema,‌ ‌visto‌ ‌está,‌ ‌comporta‌ ‌infindáveis‌ ‌considerações.‌ ‌
 

sexta-feira, 20 de março de 2020


Temperar o medo com a razão

Cesar Vanucci

“Fatos, não temor. Mãos limpas. Corações abertos.”
(Abdu Sharkawy, medico infectologista do Canadá)

A mídia, sobretudo eletrônica, e as autoridades responsáveis pela saúde pública pedem às pessoas para que não se alarmem. Mas, a cada novo boletim noticioso ou novo comunicado oficial a respeito do coronavírus, o mal-estar e os temores, em lares e ruas, só fazem crescer. E não há olvidar a contribuição trazida, para que isso ocorra, pelo bombardeio de informações, em boa parte desvairadas, produzido nas redes sociais.

Em certas circunstancias, a pandemia reconhecida pela OMS acabou introduzindo verdadeiro pandemônio na vida de muita gente, com desassossegantes consequências. A situação criada dá margem a que o tom das apreensões beire o pânico. Em sendo assim, ganharam força as célebres teorias conspiratórias. Ou sejam, tentativas de explicar questões enigmáticas, que apoquentam o cotidiano da sociedade, como sendo resultado de ações maquiavélicas projetadas por escusas conveniências políticas e econômicas de bastidores. Existe quem esteja, nesta hora, especulando a possibilidade de o novo corona ser vírus produzido em laboratório clandestino de alguma potência detentora de arsenal bélico bacteriológico.

Há também quem vislumbre, em toda essa atordoante história, uma manobra, rica em sutilezas, de cunho político e econômico com fitos hegemônicos. De redutos onde viceja exacerbação mística andam brotando, ainda, algumas interpretações apocalípticas.

A tormentosa questão se apresta, na verdade, a infindáveis considerações. Abaixo, passo à reflexão do distinto leitorado uma manifestação técnica e humanística, sobre o coronavírus, que me parece digna de atenção. Se não é de molde a apaziguar por inteiro espíritos inquietos, ajuda a refrear impulsos descabidos.

Estou vendendo o peixe pelo preço que comprei. Não sabendo senão muito poucas coisas, confesso-me leigo em matéria de medicina e infectologia. Bem como, aliás, em numerosas outras momentosas questões aqui costumeiramente abordadas. Isso não impede, contudo, a abordagem, por dever de oficio, de temas que retratam aspectos complexos do cotidiano. O que faço movido, sempre, pelo sincero propósito de concorrer para uma melhor decifração das coisas que perturbam o sossego comunitário. É, pois, nesta linha de raciocínio, adicionando subsídio para avaliação de um problema angustiante, vivido neste preciso momento, que encaixo as considerações sobre o Convid-19 formuladas por um profissional canadense da medicina, Abdu Sharkawy, infectologista da Universidade de Alberta. Atenção para suas palavras.

Sou médico e infectologista. Trabalho com isso há mais de  20 anos vendo pacientes diariamente. Eu trabalhei nas cidades e nas favelas mais pobres da África. HIV-AIDS, hepatite, tuberculose, SARS, sarampo, caxumba, coqueluche, difteria... há pouco a que não tenha sido exposto em minha profissão. E, com exceção da SARS, muito pouco me deixou vulnerável ou absolutamente assustado.

Não tenho medo do Covid-19. Estou preocupado com as implicações de um novo agente infeccioso que se espalhou e encontrou novos pontos de apoio em diferentes solos. Preocupa-me o bem-estar dos idosos, daqueles com saúde frágil ou desprovidos de privilégios, que sofrem principalmente e desproporcionalmente nas mãos desse novo flagelo.(...)

O que me assusta é a perda de razão e a onda de medo que induziram as massas a uma espiral inacreditável de pânico, armazenando quantidades obscenas de qualquer coisa que possa preencher adequadamente um abrigo antiaéreo em um mundo pós-apocalíptico. Tenho medo das máscaras N95 que são roubadas de hospitais e clínicas de atendimento de urgência, onde elas são realmente necessárias (...). Em vez disso, estão sendo colocadas em aeroportos, shoppings, perpetuando ainda mais medo e suspeita (...). Estou com medo de que nossos hospitais fiquem sobrecarregados (...) e aqueles com insuficiência cardíaca, enfisema, pneumonia ou acidente vascular cerebral paguem o preço pelas salas de espera de emergência com escassez de médicos e enfermeiros (...).

Tenho medo de que as restrições de viagem se tornem tão extensas, que casamentos sejam cancelados, formaturas perdidas e reuniões familiares não se concretizem. E bem, mesmo aquela grande festa chamada Jogos Olímpicos ... que também poderá ser suspensa. (...) Receio que os mesmos medos epidêmicos limitem o comércio, prejudiquem parcerias em vários setores e negócios e culminem em uma recessão global. Mas, principalmente, estou com medo da mensagem passada aos nossos filhos quando confrontados com uma ameaça. Em vez de racionalidade e altruísmo, estamos dizendo para que entrem em pânico, sejam medrosos, reacionários. (...) Covid-19 está longe de terminar. Chegará a uma cidade, um hospital, um amigo e até um membro da família (...) em algum momento. (...) O fato é que o vírus provavelmente não fará muito mal, quando chegar. Mas nosso comportamento e atitude (...) podem ser desastrosos. Eu imploro a todos. Temperem o medo com a razão, o pânico com a paciência e a incerteza com a educação. Temos a oportunidade de aprender muito sobre higiene de saúde e limitar a propagação de inúmeras doenças transmissíveis em nossa sociedade. Vamos enfrentar esse desafio juntos, com espírito de compaixão, paciência e, acima de tudo, um esforço infalível para buscar a verdade, em oposição a conjecturas e expectativas catastróficas. Fatos, não temor. Mãos Limpas. Corações abertos.”


Uma prioridade humana

Cesar Vanucci

“As mulheres são seres humanos exatamente como os homens – iguais na capacidade de julgar e de cometer erros, se lhes derdes a mesma experiência do mundo e os mesmos contatos com este."
(Lin Yutang – 1895-1976)

Numa terna cena de infância, extraída do baú das recordações, vejo desenhado o perfil da primeira líder feminista que fiquei conhecendo. Era uma moça de seus 30 anos, dona de semblante extremamente simpático e de corpo bem proporcionado. Trescalava obstinação pelos poros. A gesticulação exuberante, herança napolitana, nela reforçava as palavras ditas em tom de voz quase cantante. Durante um tempão, já adulto, alimentei sem poder concretizar o desejo de manter com ela um dedo de prosa. Até hoje carrego a dúvida que um bom papo poderia certamente ter desfeito. Teve ela, a qualquer tempo, exata percepção do significado precursor dos gestos e ações que assumiu?
Todas as tardes, eu a avistava descendo a ladeira que dava num campo de futebol improvisado, onde a garotada tocava suas peladas movidas a bola de pano, brigas inofensivas e um que outro palavrão, punido às vezes com chinelada. A sensação era de que Verlaine encontrara naquele gracioso desfile vespertino inspiração para os versos: “Quando ela anda, eu diria que ela dança”. Pontualidade parecia atributo todo seu. Havia quem acertasse o relógio à sua passagem. Era o momento em que as janelas das redondezas se fechavam estrepitosamente, em sinal de zanga mal contida. Murmurações e olhares recriminatórios acompanhavam-lhe a trajetória por detrás das venezianas, até que escapulisse por completo do raio de visão do falso puritanismo entocaiado. Tudo compunha clima de excitante e novelesco mistério que aguçava demais da conta a cabeça da gente.
Por que as coisas corriam daquela maneira?
O que a nossa heroína andava aprontando a fim de provocar tanto transtorno?
Preparem-se os eventuais leitores destas mal datilografadas para um baita impacto. Nossa intrigante personagem, apenas e simplesmente, foi a mulher que primeiro ousou, naquela aprazível cidade do interior, na cara e na valentia, fumar em público. Ousou mais – “imaginem só o descaramento!” -: foi também a primeira mulher a andar de calça comprida pelas ruas, num desafio aberto aos padrões predominantes em matéria de "veste recatada".

Tais lembranças, de simbólico surrealismo, arrancando dos mais jovens, com toda certeza, estardalhantes risadas, chegam a propósito do transcurso, dias atrás, do "Dia Internacional da Mulher".

Ponho-me a imaginar que comemorações desse gênero, cada vez mais consistentes em afirmações de cidadania, sejam capazes de abrir efetivas condições para a quebra de novos elos na gigantesca engrenagem que aprisiona a mulher, em extensas áreas geográficas, sociais, profissionais e culturais, a figurinos de concepção morbidamente machista. Mas quantas celebrações se farão necessárias ainda, ao longo dos anos, para facilitar à mulher o acesso por inteiro a direitos naturais, independentemente de sexo, inerentes à condição humana? Poder-se-á argumentar que são, na verdade, direitos não desfrutados na integralidade pela grande maioria dos seres humanos. Perfeito. Mas não há também como negar que a força invasora masculina chegou primeiro e se apoderou dos melhores pedaços nos espaços liberados. Temos mais coisas a dizer sobre o tema.



Tirante a mulher...
                                                          

Cesar Vanucci

"O palpite de uma mulher é muito
 mais preciso que a certeza de um homem."
(Rudyard Kipling)

“Tirante a mulher o resto é paisagem”. Esta lírica louvação do poeta Dante Milano às mulheres, alcançando culminâncias retóricas, pode parecer, a um olhar inicial, exagerada. Mas não é. Há que ser vista como compensação (insuficiente) para conceitos extravagantes, melhor dizendo, estultices e ignomínias, algumas milenares, assacadas contra a dignidade feminina, ao longo dos tempos, por pensadores famosos e por escribas de diversificados textos sacros.

Embora estejam sendo significativos os avanços em conquistas associadas ao desenvolvimento pessoal da mulher, fruto da expansão da consciência coletiva quanto à verdadeira natureza do papel que toca a cada cidadão desempenhar no fascinante e complexo jogo da vida, existe ainda por aí um oceano inteiro de problemas a ser navegado na busca de soluções compatíveis com a dignidade humana. É gente que não acaba mais, homens e mulheres, a proceder no dia-a-dia que nem se fosse o pessoal lá da rua de minha meninice, conforme narrado no comentário anterior. As janelas prosseguem hermeticamente trancadas e figuras espectrais estão ainda a acompanhar, com desconfiança, por detrás dos reposteiros e das venezianas, à luz mortiça dos candelabros e candeeiros, o esfuziante processo que corre solto lá fora em favor da emancipação feminina.

Essa gente faz ouvidos moucos a justos clamores nascidos do inconformismo, da inteligência e da sensibilidade diante dos paradigmas rígidos bolados pelo farisaísmo, pelo talebanismo no campo das idéias, na avaliação do comportamento da mulher. São paradigmas engessados no tempo. Para os retrógrados têm a mesma inexpugnável consistência das muralhas incas de Ollantaytambo. O pessoal não consegue enxergar que são paradigmas irremediavelmente condenados pela doença letal de uma “certeza” trazida de momento obscurantista soterrado na caminhada da história.

A briga pela derrubada de tais paradigmas é braba, longa e barulhenta. São ainda fortes os ecos de certas palavras de ordem procedentes de eras remotas, sintetizadas na frase padrão “lugar de mulher é em casa”. Os preconceitos vigorantes apresentam, entre nós, em muitos lugares, é bem verdade, efeitos atenuados em matéria de violentação à personalidade, se comparados com as inacreditáveis situações vividas em tempos antigos e em outros rincões de nossa própria época. Mas conservam vestígios culturais rançosos, daquelas épocas absurdas em que algumas coletividades eram forçadas a absorver, em suas regras de vida e crenças, a idéia, por exemplo, de que a mulher não possuía alma. Ou de que, no plano dos sagrados deveres conjugais, como amorosa e dedicada companheira, devesse se preparar para fazer jus ao prêmio máximo da loteca dos deuses, consentindo em que a enterrassem viva com os pertences e despojos do pranteado marido, senhor seu amo, quando de sua (dele) partida desta para melhor.

Todos estamos seguros de que provêm de uma visualização desfocada da realidade, mesclada com flagrante injustiça social, os escandalosos problemas trazidos, volta e meia, a debate nos freqüentes e necessários conclaves organizados, na atualidade, com o objetivo de fortalecer a valorização do papel feminino no contexto social. O desfile de absurdos é composto de revelações que abarcam desde inacreditáveis práticas escravagistas, processos de mutilação sexual aceitos em nome de princípios religiosos, até inaceitáveis restrições no acesso ao mercado de trabalho, a cargos e a promoções idênticos aos que são concedidos aos homens, sem falar na participação restrita nas decisões políticas e, também, nas limitações de ações nos campos técnico e científico e desfrute de bens educacionais. E por aí vai...

Fica para a prosa vindoura a conclusão destas reflexões inspiradas pela celebração, dias atrás, de mais um Dia Internacional da Mulher.

sexta-feira, 13 de março de 2020

Ignomínias milenares

Cesar Vanucci

A mulher deve adorar o homem como a um deus.”
(Assim falou Zaratustra)

Recebi, algum tempo atrás, pelo correio eletrônico, um texto contendo compilação de escritos milenares, alguns extraídos – pasmo dos pasmos! - de livros ditos sagrados. O material coloca-nos, estupefatos, diante de processos culturais tremendamente preconceituosos, rançosamente machistas, que predominaram (e em alguns lugares do mundo predominam ainda) em períodos e situações de obscurantismo cultural despojados de sensibilidade social e de respeito à dignidade humana.

Assim falava o filósofo persa Zaratustra, pregando para fervorosos seguidores, no século VII anterior a era cristã: “A mulher deve adorar o homem como a um deus. Toda manhã, por nove vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados, perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?”

As “Leis de Manu”, livro sagrado da Índia, reforçam o milenar coral da intolerância: “Mesmo que a conduta do marido seja censurável, mesmo que este se dê a outros amores, a mulher virtuosa deve reverenciá-lo como a um deus. Durante a infância, uma mulher deve depender de seu pai, ao se casar de seu marido, se este morrer, de seus filhos e se não os tiver, de seu soberano. Uma mulher nunca deve governar a si própria.”

O célebre Código de Hamurabi, constituição nacional da Babilônia, outorgada pelo rei Hamarábi, que sustentava havê-lo concebido sob inspiração divina no século XVII a.C., não deixa por menos: “Quando uma mulher tiver conduta desordenada e deixar de cumprir suas obrigações do lar, o marido pode submetê-la à escravidão. Esta servidão pode, inclusive, ser exercida na casa de um credor de seu marido e, durante o período em que durar, é lícito a ele (ao marido) contrair novo matrimônio.”

No Alcorão, livro sagrado muçulmano, recitado por Alá a Maomé no século VI; na fala de São Paulo, apóstolo cristão no ano 67; e nas prédicas de Lutero, teólogo alemão da reforma protestante no século XVI, damos de cara, também, com manifestações que reservam à mulher papel de total submissão na convivência social e familiar. Alcorão: “Os homens são superiores às mulheres porque Alá outorgou-lhes a primazia sobre elas. Portanto, dai aos varões o dobro do que dai às mulheres. Os maridos que sofrerem desobediência de suas mulheres podem castigá-las, deixá-las sós em seus leitos, e até bater nelas. Não se legou ao homem maior calamidade que a mulher.” Paulo: “Que as mulheres estejam caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar. Se quiserem ser instruídas sobre algum ponto, interroguem em casa os seus maridos.” Lutero: “O pior adorno que uma mulher pode querer usar é ser sábia.”

Pois não é que até Aristóteles, filósofo helênico apontado por Dante como “o mestre dos que sabem” (“Il maestro dicolor che sanno”) entra firme nessa onda de insensatez que, ao longo dos tempos, condena a mulher a uma condição servil no relacionamento comunitário! Manjem só a babaquice proferida pelo preceptor de Alexandre, o Grande, no século IV a.C.: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior.” Possuído do mesmo desvario, Henrique VII, que acumulava no século XVI as funções de rei da Inglaterra e chefe da Igreja Anglicana, é autor de proclama onde se assinala que “as crianças, os idiotas, os lunáticos e as mulheres não podem e não têm capacidade para efetuar negócios.”

A Constituição inglesa do século XVIII vinha impregnada desses mesmos xenofóbicos conceitos: “Todas as mulheres que seduzirem e levarem ao casamento os súditos de Sua Majestade mediante o uso de perfumes, pinturas, dentes postiços, perucas e recheio nos quadris, incorrem em delito de bruxaria e o casamento fica automaticamente anulado.” Já bem antes desse inacreditável dispositivo constitucional inglês, um “Tratado de conduta moral e costumes da França”, editado no século XIV, fixava severos critérios a serem observados, pela “vítima”, nos casos de um homem ser molestado com “repreensão em público por uma mulher”. “Cabia-lhe, legalmente, o direito de derrubá-la com um soco, desferir-lhe um pontapé e quebrar-lhe o nariz para que assim, desfigurada, não se deixe ver, envergonhada de sua face. E é bem merecido, por dirigir-se ao homem com maldade de linguajar ousado.”

A mensagem que agrupa os textos aqui reproduzidos é arrematada, pela leitora que a enviou a este escriba, com os seguintes comentários: “Por esses escritos vê-se quão árduo foi o caminho para as mulheres chegarem aos dias de hoje em igualdade de condições com os homens. Infelizmente, em muitos países islâmicos, a situação das mulheres parece continuar a mesma retratada nesses escritos milenares”. Escritos? Melhor dizer estultices, ignomínias milenares.

Histórias portuguesas, com certeza

Cesar Vanucci

“O português é um realista, ao tempo que um singelo sentimental.”
(Adelino Magalhães)

Eu sei que vai ter nêgo dizendo que estas mal alinhadas estão padecendo, volta e meia, de excessos nostálgicos. Quase tanto quanto, talvez, as letras dos boleros do Agustin Lara, à época em que o talentoso compositor mexicano, no auge da fama, amargava incurável “dor de cotovelo” por conta do amor não ou mal correspondido da linda atriz Maria Félix.

Mas querem saber duma coisa? Mesmo sem consultar ninguém, garanto que um punhado considerável de viventes de minha geração concorda comigo, em gênero, número, caso e grau, quando sustento, convicto, que os espetáculos de humor do passado eram incomparavelmente mais divertidos dos que os destes tempos ambíguos. José Vasconcelos, as duplas Lauro Borges e Castro Barbosa, Paulo Gracindo e Brandão Filho, e mais Chico Anísio, Agildo Ribeiro, Golias, sem falar em Oscarito, Sônia Mamede e Grande Otelo, sabiam compor personagens, protagonizar situações engraçadas com estilo e competência raramente observados nas performances hilárias do rádio, teatro e televisão de nossos dias.

Naqueles tempos, a apelação respeitava limites. Nada desse colosso de frases de sentido dúbio grosseiro, de vez em sempre introduzidas nos textos dos comediantes. No começo dos anos 50, o Brasil inteiro gargalhou, à bandeiras despregadas, como se costumava então dizer, com um disco de acetato, 78 rotações,  do José Vasconcelos. Tratando de coisas triviais do cotidiano, despojadas de impertinências, as piadas eram repassadas em todas as rodas, produzindo risadas francas e soltas. A PRK 30 entrava nas casas com saborosas interpretações do momento mundano, político e econômico, sem concessões à vulgaridade. As “histórias de português” desfrutavam de espaço especial no anedotário das ruas. Como ainda hoje ocorre, exprimiam, no fundo, um jeito carinhoso de retratar os hábitos e o linguajar dos queridos irmãos lusitanos. De uma feita, um comendador cheio de trique-trique, desavisado quanto a essa circunstância afetiva, queimou no golpe. Deu publicidade ao seu inconformismo com relação ao tratamento dispensado aos patrícios, por ele considerado ofensivo nessas “historinhas insolentes.” A desconcertante reação, como de se imaginar, teve efeito de “piada pronta” no imaginário popular. Mais ou menos assim: “Você, aí, meu chapa: já conhece a última dos dois irmãos irlandeses? “Que mané irmãos irlandeses? “O Joaquim e o Manuel, uns gajos envolvidos numa trapalhada bestial lá no Tejo...”

Este papo desataviado, com anotações sobre os caminhos percorridos pela comicidade popular, retiradas do baú, chega a propósito de uma bem humorada coletânea de “histórias de português” que minha estimada amiga advogada Patrícia Rios, valorosa militante das lutas pelos direitos humanos, andou distribuindo, via correio eletrônico, para desfrute dos amigos, na condição de navegante dos mares da internet. Genuínas piadas de salão, transmitidas pela rede a nível mundial, obedecem àquela linha descontraída da graça sem malícia incomodativa, nem fraseado chulo.

Imaginando que o comendador “irlandês” mencionado acima não mais se disponha a arremeter-se, todo arcabuzado, contra os desaforados propagadores dessas “atrevidas invencionices”, desejo compartilhar, daqui pra frente, com os meus confessos 25 benevolentes leitores, algumas das “histórias de português” que me foram cordialmente encaminhadas. Vamos lá, às últimas de Lisboa.
 Gêmeo tenta se suicidar e mata o irmão por engano.
 Lançaram em Portugal, o novo serviço por telefone, É o “Disque-Finados”. A gente chama e ouve um minuto de silêncio! O portuga estava dirigindo em uma estrada, quando deu com a placa: "Curva perigosa à esquerda". Não teve dúvidas: virou à direita! Por que os portugueses usam somente a letra "T" nas agendas de telefone? Telefone do Antônio, telefone do Joaquim, telefone do Manoel, telefone do Pereira... - Manuel, você gosta de mulher com muito seio?
   - Não, pra mim dois já tá bom. Papo entre empregado e chefe.
- Chefe, nossos arquivos estão super lotados, posso jogar fora os que têm mais de 10 anos?
- Sim, mas não esqueça de tirar antes uma cópia de todos.
 O filho chega pro pai e diz:
- Papai, posso ir lá fora ver o eclipse?
- Pode meu filho, mas não chegue muito perto.
 Por que o banco 24h não deu certo em Portugal?
- Porque mal davam 23:30 e já tinha uma fila enorme.
 O gajo se impressiona com a máquina de refrigerante. Coloca uma fichinha e cai uma latinha. Coloca 2 fichinhas e caem 2 latinhas. Coloca 10 fichas e caem 10 latinhas. Então vai ao caixa e pede 50 fichas. O vendedor pondera:
- Desse jeito o sr. acaba com as minhas fichas.
- Não adianta, eu não paro, enquanto estiver ganhando.
 O assaltante aborda o Manoel no meio da rua.
- Pare! - ordena.
- Impare! - grita de volta o Manoel, estendendo três dedos.
- Mas eu estou te roubando - explica o assaltante.
- Então não brinco mais!
 - Como é restaurante “self-service” português?
   - O cliente é pesado, na entrada e na saída.
 - Por que o português, cada vez que compra uma caixa de leite, abre-a, ali mesmo, no supermercado? Segue à risca o que vem escrito na caixa: "Abra aqui."



OFICINA DE ARTE PARA PESSOAS QUE LIDAM COM IDOSOS

Sula Mavrudis, coordenadora da “Cidade do Circo”, encaminha-nos, com pedido de divulgação o interessante material noticioso abaixo reproduzido.

FernandoTerra - Bio

FernandoTerra, natural de Belo Horizonte, iniciou seus trabalhos como clown social ainda no Brasil colaborando com Sula Mavrudis no Banquete dos Mendigos. Esse projeto, em 1998, ganhou uma versão para idosos carentes. Em Portugal iniciou seu trabalho junto a Operação Nariz Vermelho que, apesar de ter foco nas crianças, também atende idosos.
Entre 2010 e 2012 trabalhou em projetos de palhaços hospitalares com foco nos seniors em Roma, na Itália. Em 2013, de volta a Portugal, criou o primeiro grupo de visitas a instituições de acolhimento de idosos do país, chamado Rugas de Riso, com foco nos portadores de demência e limitações físicas.
Visita grandes centros clínicos e hospitalares, como Ospedale Gemelli (Itália), ASFE Saúde (Portugal), Ospedale di Ostia (Itália) e algumas residências da Santa da Misericória em Portugal.  Colabora com a Federação Nacional de Doutores Palhaços da Itália (FNC). Autor do livro "O Dr. Palhaço", lançado em 2014 com duas edições esgotadas. Desde 2016 desenvolve projetos de palhaços para idosos em cuidados paliativos. Ministra palestras em congressos de medicina e saúde mental e workshops para artistas e profissionais de saúde.

A Oficina - O Clown, a Dupla e a Demência

Trata-se de uma jornada introdutiva alguns temas relacionados à palhaçaria direcionada ao público idoso.
Inicia-se com uma reflexão sobre arte e terapia, seguido de vários jogos sobre a relação da dupla de palhaços, com ou sem jogos de hierarquia. Finalmente, iremos trabalhar a conexão da dupla de palhaços com o paciente de limitações motoras e visuais. Apontamentos sobre o estado do palhaço, timming e hierarquia também fazem parte deste workshop.  Local: Espaço Aldeia - Horto
Público alvo: Artistas, Palhaços, Profissionais das artes performáticas com propósito de se aprofundar na arte da palhaçaria em contexto clínico. Duração: 9 horas  /  Valor por participante: R$ 110,00  /  Mínimo de participantes: 6 / Máximo de participantes: 16.
Quem se interessar pela promoção deve acessar o email  sulacidadedocirco@gmail.com ou email fernando@ameleca.com

sexta-feira, 6 de março de 2020

Democracia alvejada

Cesar Vanucci

“O Presidente da República, embora possa muito, não pode tudo.”
(Ministro Celso de Mello, decano do STF)

Acintosa e surreal demonstração de desapreço às instituições democráticas e leis da República desencadeou pujante reação em cadeia, de desagrado e indignação, em todas as latitudes do continente brasileiro.

O autor da censurável “proeza”, por espantoso e desagradável que isso seja, foi o próprio Presidente da República Jair Bolsonaro. Justamente o cidadão alçado pela vontade legítima e majoritária do eleitorado, em eleições regidas pelos sagrados valores do regime democrático, às elevadas e nobres funções de supremo mandatário executivo da Nação. Acontece que Sua Excelência, inveterado tuiteiro, entendeu de dar guarida, em conta pessoal na internet, a vídeo postado por radicais extremistas contendo conclamação a manifestações de insurgência contra os poderes Legislativo e Judiciário. Vozes altamente representativas da consciência cívica nacional, vinculadas a diversificadas correntes de opinião, exprimiram com inusual veemência sua estupefação e discordância com relação ao insensato registro.

Alinhamos, na sequência, alguns depoimentos do volumoso conjunto de pronunciamentos ouvidos, a propósito do assunto, em amplos e diferentes setores e ambientes da vida brasileira. Eles dão conta da generalizada repulsa suscitada pelo insólito procedimento em foco.

O decano do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, registrou: “O Presidente da República, embora possa muito, não pode tudo, pois lhe é vedado, sob pena de incidir em crime de responsabilidade, transgredir a supremacia político-jurídica da Constituição e das leis da República.” (...) “Essa gravíssima conclamação, se realmente confirmada, revela a face sombria de um Presidente da República que desconhece o valor da ordem constitucional, que ignora o sentido fundamental da separação de poderes, que demonstra uma visão indigna de quem não está a altura do altíssimo cargo que exerce e cujo ato de inequívoca hostilidade aos demais Poderes da República traduz gesto ominoso de desapreço e de inaceitável degradação do principio democrático.”

O Presidente Dias Tofolli, do Supremo, assinou nota com estes dizeres: “Sociedades livres e desenvolvidas nunca prescindiram de instituições sólidas para manter sua integridade. Não existe democracia sem um Parlamento atuante, um Judiciário independente e um Executivo já legitimado pelo voto. O Brasil não pode conviver com clima de disputa permanente. É preciso paz para construir o futuro. A convivência harmônica entre todos é o que constrói uma grande nação.”

O ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso assim se pronunciou: “A ser verdade, como parece, que o Presidente tuitou convocando uma manifestação contra o Congresso (a Democracia), estamos com uma crise institucional de consequências gravíssimas. Calar seria concordar. Melhor gritar enquanto se tem voz.”

O Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, também comentou o assunto. Disse: “Só a democracia é capaz de absorver sem violência as diferenças da sociedade e unir a nação pelo diálogo. Acima de tudo e de todos está o respeito às instituições democráticas.” (...) “Criar tensão institucional não ajuda o país evoluir. Somos nós, autoridades, que temos de dar o exemplo de respeito às instituições e à ordem constitucional. O Brasil precisa de paz e responsabilidade para progredir.”

Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, declarou que: “A Constituição e a Democracia não podem tolerar um Presidente que conspira por sua supressão.”

O Secretário Geral da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Joel Portella Amado, indicou que “a Igreja Católica poderá vir a questionar Jair Bolsonaro por difundir vídeos com convocações para manifestações antidemocráticas.” “A Igreja – aduziu – estará apoiando iniciativas que preservem a democracia.”

O jurista Miguel Reale Junior, um dos autores da ação de impedimento de Dilma Rousseff, avaliou que “a atitude de Bolsonaro implica em conspiração contra os Poderes da República.” Acrescentou: “Não sei o que ele tomou nesse carnaval para adotar um ato de tamanha ousadia. É gravíssimo. Convocar a Nação para desconstruir um Poder está entre os itens que justificam um impeachment.”

Na apreciação do general Santos Cruz, até ainda recentemente ministro chefe da Secretaria de Governo da Presidência, “é irresponsabilidade confundir o Exército com alguns assuntos temporários de governo, partidos políticos e pessoas. É usar de má-fé, mentir, enganar a população.”

O jurista Aristóteles Atheniense, conselheiro nato da OAB, fez em artigo estampado aqui no “DC” o seguinte comentário: “Nesse incitamento, o Presidente da República apresenta-se como “capitão” e estende seu convite ao ministro mais próximo, chamando-o de “general”. A mensagem instiga o povo contra dois Poderes, algo inadmissível numa democracia e em plena vigência da Constituição. A aversão do Presidente à classe política consumiu um minuto e quarenta segundos, ao som do Hino Nacional, provocando 727 comentários e 683 compartilhamentos. Isto às vésperas das anunciadas reuniões da comissão mista da Reforma Tributária, que se tornou um ponto essencial da agenda econômica do Ministro Paulo Guedes.”

Encurtando razões: não há como não extrair do deplorável incidente uma (nova) ameaça à Democracia.


O vírus, as redes, o motim

Cesar Vanucci

“Dialogar com talibã em rede social é como jogar xadrez com pombo.”
(Observação de uma cidadã inconformada com o tom
 de intolerância reinante nos whatsapp da vida)

O vírus. “Tipo da história mal contada. Aposto que tem coisa por detrás...” Este seria, com certeza, o comentário de Tonão, meu saudoso pai, diante da intensa repercussão ocasionada pela propagação mundial do coronavirus. Revejo-o, no vídeo cassete da memória, em sua proverbial postura indagativa naqueles momentos em que se via provocado por situações surpreendentes ou desconcertantes. História mal contada. O coronavirus, batizado cientificamente de Covid-19, pode não ser bem o que aparenta ser. A insuficiência de informações, além de causar compreensível e generalizada perturbação, gera especulações incontáveis. Recapitulando os fatos. Essa nova ameaça de flagelo que sobrepaira sobre a maltratada espécie humana teria se originado numa região específica da China. A área foi colocada sob “quarentena”. Ninguém entra, ninguém sai. Medidas emergenciais de controle foram adotadas em todas as partes do mundo. Criou-se o que, a grosso modo, poderia ser denominado “cordão sanitário de isolamento”. Turistas que circularam pela China foram submetidos a exames rigorosos, dentro de um sistema preventivo recomendado pelos órgãos de saúde pública. Mas eis que, de repente, inquietantes sinais da presença do temido vírus passaram a ser detectados noutras paragens. Em locais consideravelmente distanciados daquele que tinha sido, até então, oficialmente reconhecido como foco central da enfermidade. E isso aconteceu sem que quaisquer liames fossem anotados entre os novos elementos infectados e o local e pessoas contaminados na fase inaugural do processo. E agora, José? Será que o coronavirus é mesmo uma doença, com propensão epidêmica, provocada pela ingestão de carnes exóticas ao agrado do cardápio tradicional chinês? Ou será coisa completamente diferente, por exemplo, uma mutação de microorganismo nocivo espalhado pela atmosfera? Ou, ainda, como sugeriu, em tétrica observação, indoutrodia, o escritor estadunidense Dean Koontz, um engenho de uma invisível guerra bacteriológica? Algo apavorante que teria escapado à vigilância dos doutores nirvanas, de nacionalidades diversas, que se consagram em laboratórios secretos a experiências voltadas para dizimar e não para celebrar a vida?

As redes. “Abdiquei, definitivamente, da prerrogativa de frequentar as redes sociais para diálogos sobre quaisquer temas, sobretudo políticos e religiosos.” É o que afiança, em tom resoluto, uma amiga querida, intelectual festejada. Adepta do xadrez, ela já conquistou inúmeros troféus em torneios concorrendo com bam-bam-bans dessa modalidade recreativa, que proporciona ao praticante, segundo esclarece, higiene mental equivalente ao de uma caprichada meditação. Acrescenta: - “Não está dando mais, jeito maneira, pra trocar “figurinhas”, intercambiar opiniões, com a horda de hunos fanáticos que se apoderou, com irremovível jactância, de fatias consideráveis do espaço franqueado a bate-papos. Os “talibãs terraplanistas” soltos na praça – rotulemo-los assim – se socorrem dos mais chiliquentos recursos para expor estapafúrdias teorias.” Minha amiga complementa seu ponto de vista com outra curiosa observação. Participar de algum debate com esse pessoal dá uma canseira dos diabos, só debelada com cuidados terapêuticos esmerados. É como se alguém – exemplifica - se dispusesse a disputar uma partida de xadrez, imaginemos, com um pombo. O oponente – ou seja, o pombo – fita você com ar superior. Esparrama com as patas, desordenadamente, as peças arrumadas no tabuleiro. Libera fétidos excrementos. E, inopinadamente, sem lhe dar a chance de mover sequer um peão, cabeça bem ereta, peito estufado, arrotando banca de enxadrista imbatível, abandona, todo majestoso, o cenário da competição. E vai arrulhar noutra freguesia.

O motim. Esse episódio, pérfido e desassossegante, do motim dos policiais cearenses faz mal, bastante mal à democracia. A Carta Magna proíbe a participação de agentes de segurança pública em atos grevistas. A rebelião, encontrando irresponsável apoio em segmentos políticos minoritários (conquanto influentes), propagandistas de carteirinha do “quanto pior, melhor”, faz jus a frontal repúdio por parte da comunidade. A ação de alguns amotinados foi pontuada por façanhudas exibições públicas. Os grevistas deixaram indefesos cidadãos à mercê da bandidagem. Foram flagrados nas ruas carregando, de forma intimidatória, armas adquiridas com o dinheiro público para defesa única e exclusiva dos soberanos interesses da população. Alvejaram, num lance inconcebível, um Senador da República. Simplesmente estarrecedor. Alarmante. Mas, a bem da verdade inteira, é preciso que se reprove também, com veemência, o gesto infeliz do ex-governador de Estado. Pilotando uma retroescavadeira, ele tentou, no auge da insensatez, invadir recinto em que os policiais indisciplinados se entrincheiravam. Claro está que uma situação desse gênero colide em cheio com as normas institucionais e com o bom-senso.


A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...