sexta-feira, 29 de junho de 2012

Energia liberada pelas mãos

Cesar Vanucci *

“Energia liberada pelas mãos consegue curar malefícios.”
(Conclusão de pesquisa do cientista Ricardo Monezi)

Volta e meia acontece. Lançando-se com toda gana de alpinistas resolutos na escalada das pesquisas feitas com o propósito de obtenção de novos entendimentos sobre o sentido das coisas, os cientistas se deparam, deslumbrados, ao atingirem o topo da montanha, com os vestígios intrigantes da passagem por ali, precedendo-os, de pensadores comprometidos com a divulgação da sabedoria mística.

As descobertas cientificas, acabam, nesses casos, confirmando o que já vinha sendo propagado há muito, em círculos restritos. E que, costumeiramente, vem de ser recebido com descrença e, até mesmo, zombaria, pra dizer pouco, em setores amplos da sociedade. A história humana é carregada de registros dessas precedências místicas às comprovações cientificas. Projetando posições vanguardeiras, algumas dessas revelações antecipatórias revolveram conceitos, causaram ebulição, arrostaram incompreensões, desnudaram reis, desmontaram paradigmas bolorentos. Mas todo esse colossal esforço de sensibilização intelectual pela releitura dos acontecimentos cobra, via de regra, pesado tributo dos que cometem a ousadia de questionar as “verdades” estratificadas do “conhecimento consolidado”, erigidas como dogmas de fé. As labaredas inquisitoriais, de modo prático e em sentido figurado, representaram para muita gente, desde sempre, a única “recompensa” auferida pela reinterpretação de lances marcantes da aventura humana, dados pelo “saber dominante” como definitivamente solucionados. Acontece que este nosso mundo velho de guerra, regido por formulações assimétricas, comporta variáveis sem conta, não percebidas aos primeiros olhares investigativos. Nascem aí interrogações para as quais não se encontram respostas prontas. E, quando encontradas, as respostas tendem a provocar incredulidade.

Estas singelas considerações entram aqui a propósito das conclusões de uma pesquisa recente da USP (Universidade de São Paulo) e Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Não sei ao certo mas, com toda certeza, as duas respeitáveis instituições não terão sido as primeiras a chegarem aos resultados anunciados. Estudo desenvolvido nos últimos anos comprovou que a energia liberada pelas mãos encerra o poder de curar qualquer tipo de mal estar. O trabalho foi elaborado com base em técnicas manuais conhecidas: os célebres “passe” e “imposição de mãos”, assimilados nos rituais de algumas vertentes religiosas; o “johrei”, empregado pela Igreja Messiânica. As avaliações de tais processos de emissão energética começaram há 12 anos, tema de mestrado de um pesquisador da Faculdade de Medicina da USP, o cientista Ricardo Monezi. Coube a ele a iniciativa de investigar os possíveis efeitos da prática da imposição das mãos. “Meu interesse pelo assunto veio de vivência própria, já que a técnica do “Reiki” havia me ajudado a sair de uma crise de depressão”, assinala o pesquisador. Examinando a fundo os efeitos das aplicações de energia manual em camundongos, foi possível observar um notável ganho de potencial das células de defesa do animal contra a progressão de tumores.

Além dos efeitos fisiológicos, foram observados também efeitos psicológicos. De tudo isso adveio a constatação de que a imposição de mãos é capaz de liberar energia que proporcione bem-estar. O pesquisador argumenta que “a ciência chama tais energias de “energias sutis” e considera que o espaço onde estas se acham inseridas esteja próximo às freqüências eletromagnéticas de baixo nível”. Na noticia divulgada a respeito desses estudos de mestrado e doutorado, que abrangeram também avaliações com pessoas idosas portadoras de estresse, assinala-se que as praticas redundaram em redução de tensões e de sintomas de ansiedade e depressão, além de revigorante relaxamento mental e corporal. Outras investigações dentro dessa linha vêm sendo procedidas pelos pesquisadores.

Não resisto à tentação, por derradeiro, de registrar, como fruto de observações pessoais de algumas décadas, na mera condição de investigador solitário dos chamados “fenômenos transcendentes”, que os interessantes resultados dessa inspirada pesquisa das duas universidades paulistas não me trazem surpresa alguma. O que consegui acumular, nesses anos todos, em informações a respeito do fascinante assunto dá pra compor uma sequência bastante extensa de artigos.


Corporativismo da midia

“Em questão, a dimensão ética do que se
acostumou a chamar de jornalismo investigativo...”
(Marcelo Semer, magistrado)

Encaminhado por leitores, chega-nos via Internet um comentário, divulgado no blog do jornalista Luiz Nassif, de autoria de Marcelo Semer. O autor é Juiz de Direito em São Paulo, já tendo presidido uma entidade de classe representativa da categoria dos magistrados. O trabalho fala do corporativismo bastante acentuado da grande mídia à volta do chamado “Caso Cachoeira”. As revelações e conceitos expendidos convidam a uma séria reflexão. Depois de lê-lo atentamente, achamos por bem reproduzi-lo, como contribuição para uma avaliação serena dos relevantes pontos focalizados, que dizem respeito à liberdade de expressão, apanágio democrático e valor inalienável no processo de construção humana, e aos limites éticos intransponíveis que precisam reger a ação do jornalismo investigativo.

“Se 2011 foi o ano em que se expuseram as vísceras do corporativismo no Judiciário, 2012 pode ser o ano da imprensa. Liminares que obstruíram apurações, limitação das competências do CNJ, verbas recebidas de forma irregular por desembargadores. Poucos assuntos renderam tanto nas manchetes dos jornais e revistas como os desvios da Justiça no ano que passou.
2012 começou, no entanto, com a destruição de um dos mitos mais cultuados pela própria imprensa em defesa da moralidade, o senador Demóstenes Torres. Demóstenes foi flagrado em um sem-número de conversas telefônicas prestando serviços e recebendo presentes de um expoente da contravenção. Mas as conversas gravadas, além de insinuar conluio de políticos e empresários, o que infelizmente não é nenhuma novidade, dessa vez também descortinaram uma outra particularidade: a aproximação do crime organizado com jornalistas para influir e auxiliar na produção de reportagens contra políticos, autoridades e seus concorrentes em geral.
A profusão de indícios das malversações de Carlinhos Cachoeira já provocou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito, que parece ser desejada e ao mesmo tempo temida por governo e oposição.
Mas a pergunta principal é saber como a grande imprensa vai se portar em relação à exposição de suas próprias mazelas. Em questão, a dimensão ética do que se acostumou a chamar de jornalismo investigativo e os percalços que envolvem os interesses que geraram algumas destas “reportagens-bombas”.
Pelo que já se divulgou, um jornalista teria sido, inclusive, um dos interlocutores mais frequentes do Poderoso Chefão goiano. E várias conversas entre Cachoeira e seus assessores versavam justamente sobre elaboração de matérias que alavancavam seus interesses, ao prejudicar desafetos. O assunto já é um dos “trending topics” das redes sociais, mas praticamente não é tratado pela grande mídia.
O momento é precoce para qualquer julgamento. Conversas telefônicas, fruto de interceptações judicialmente autorizadas, jamais deveriam se tornar públicas, pois estão sempre abrangidas pelo sigilo de justiça. O propalado “interesse público” faz tempo tem servido de álibi para a imprensa, que estimula o vazamento por servidores que permanecerão ocultos em razão da garantia de sigilo da fonte. Mas e quando estas conversas que não deveríamos estar ouvindo trouxerem revelações sobre o modus operandi de alguns órgãos da imprensa?
Serão eles mesmos os juízes da divulgação de seus erros? Estarão aptos para o ritual de cortar na própria carne ou esse “interesse público” também servirá de justificativa para todo e qualquer desvio de conduta?
Que Elianas Calmons da imprensa se apresentarão para impedir que o corporativismo oculte os interesses privados que existem por detrás de grandes denúncias ou a forma ilícita com que foram obtidas?
Poucos atributos são tão indispensáveis à democracia quanto a liberdade de expressão. Mas o recente episódio dos jornais de Rudolph Murdoch na Inglaterra mostrou que sem limites éticos, o vale-tudo da imprensa para obter informações ou destruir reputações, pode ser tão violador quanto os direitos que se propõe a defender.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

domingo, 24 de junho de 2012

Luminosidade ofuscante, não espessa treva

Cesar Vanucci *

“Dá pra sentir que hoje em dia as mentiras e
ilusões são percebidas cada vez mais rapidamente?”
(De uma profecia atribuída ao guru indiano Sai Baba)


As profecias apocalípticas jorram.

Quase todas, espantosas nos pormenores, precisam datas sobre o que está pra acontecer neste ano da graça de 2012. Inversão dos pólos magnéticos, deslocamento do eixo da Terra, colisão com asteróide de descomunal proporção, tsunamis e terremotos devastadores, elevação súbita do nível dos oceanos, bombardeio fulminante de raios solares, arrasador conflito nuclear, guerra cibernética: são hecatombes dos mais variados feitios acenando com a indesejável perspectiva, para breve, do final dos tempos. Em certos momentos, as informações de cientistas e místicos parecem coincidir. Muita gente garante perceber, solta no ar, uma sensação bem próxima de mudanças impactantes.

Em meio a esse turbilhão de adivinhações, topo, de repente, com uma teoria danada de instigante. De certo modo, a mais instigante de quantas já produzidas sobre o tema. É atribuída a um pensador indiano recentemente desaparecido, que estruturou em vida uma obra filosófica e educacional que continua atraindo grande contingente de adeptos, espalhados pelo mundo. Relatos interessantíssimos de prodígios no campo da parapsicologia compõem sua lendária biografia. Qual é mesmo o nome do personagem? Sai Baba.

O destino deste planeta azul, uma ilhota aparentemente insignificante perdida no meio de um oceano infindável composto de inexplicabilidades, como anota Huxley, é comentado de forma assaz original num depoimento, colhido via psicográfica ao que se afirma, e que vem sendo intensamente divulgado nas redes sociais. Baba fala de transformações profundas que já estariam acontecendo, afiançando não corresponder à realidade a predição de que o mundo vai acabar. A Terra – é acentuado também – entrou num processo de vibração energética tremendamente acelerado. Essa vibração afeta todos e ganha intensidade em emoções e pensamentos liberados pelas pessoas. Essa elevação vibratória – sublinha-se – pode parecer até um paradoxo, uma vez que ao nosso redor pululam o ódio e a miséria. Mas é assim mesmo que as coisas rolam no plano cósmico. “Estamos elevando a nossa consciência como jamais o fizemos”, assevera o pensador. “Mas, como assim; e essa escuridão que nos rodeia?” – pergunta-se. Resposta: dá, sim, pra ver a escuridão, mas as pessoas não devem temê-la ou com ela se identificarem. A escuridão não é uma força que obrigue ninguém a carregar ódio no coração. Não é uma força que se opõe à luz. É ausência da luz. Vem daí que as situações trevosas ou de penumbra enfrentadas pela humanidade, configuradas nas mazelas de todo tipo que nos espreitam e que tanto agridem a consciência social, estão sendo bombardeadas por uma claridade extremamente ofuscante gerada por esse novo estágio de conscientização. A luz emanada desse estado de espírito é mais copiosa do que em qualquer outro patamar da aventura do homem, assegura-se.

Uma comparação sugestiva trazida à nossa reflexão: a troca de uma lâmpada de 40w por outra de 100w no quarto de despejo leva a gente a enxergar no lugar sinais de desordem e de sujeira que, nem de leve imaginava pudessem existir. A luminosidade abundante de hoje em dia tem o condão de expandir nossa capacidade de percepção para mentiras, ilusões, engodos, mitos equivocados que não vinham sendo lançados no lixo, mas empurrados pra debaixo do tapete.

Este momento de irradiação energética poderosa convoca-nos a arrumar melhor o quarto de despejo. Arregaçar as mangas e promover limpezas que escorracem as imundícies. A mudança poderá trazer dores físicas, fruto de emoções negativas estocadas nas mentes e corações. A solução é assimilar em plenitude a vibração energética posta a circular. No fecho do depoimento atribuído a Sai Baba é dito que vivemos “a melhor época da humanidade desde todos os tempos.” Isso nos coloca no desfrute do privilegio de passar a ser testemunhas e agentes da maior transformação de consciência jamais imaginada.




Agressão aos preceitos humanísticos


“Homens são homens. Esquecem-se, às vezes de ser humanos.”
(Shakespeare)


Não sei bem precisar o motivo pelo qual, em meio ao costumeiro turbilhão do noticiário, três fatos sem quaisquer conotações, divulgados sem espalhafato, ocorridos em contextos culturais e geográficos diversificados, remoeram de forma persistente a minha cuca no final da semana. Consultando os botões de meu pijama, deduzi a hipótese de que, talvez, a explicação se contivesse na circunstância de serem, todos eles, de certa forma, reveladores de distorções comportamentais recebidas, via de regra, por aí afora, sem grandes questionamentos críticos. Distorções essas – acrescente-se - em flagrante discrepância com preceitos humanísticos que recobrem a vida de dignidade.

Estes os fatos.
Como a Ucrânia e a Polônia foram escolhidas sedes da Eurocopa 2012, a mídia esportiva dedicou razoável espaço para falar do que anda rolando nos dois paises em termos econômicos, políticos e culturais. Eis que, de repente, surpreendo-me diante de informações danadas de inquietantes sobre o antissemitismo que grassa solto num e noutro país e sobre ostensivas manifestações de feição neonazista levadas continuamente a público em território ucraniano. As imagens de pessoas agitando, inclusive em estádios de futebol, o símbolo mais característico da sinistra era hitlerista, a suástica, deixam-me perplexo. As informações que complementam as inacreditáveis cenas não fazem por menos. Fica-se sabendo, por exemplo, que vem ganhando crescente expansão na vida política ucraniana um partido chamado Svoboda, que prega abertamente o ódio racial. Seus seguidores conservam na conta de ídolos os veteranos da “Halychyna”, que nada mais é do que uma brigada dos tempos da ocupação alemã, constituída nos moldes das tenebrosas SS para cuidar da chamada “limpeza étnica”. Essa brigada ucraniana foi responsável pela chacina de 200 mil judeus. Doutra parte, o jornalista Michael Goldfarb, no “The Observer”, assinala que em estádios de futebol na Polônia, como projeção preconceituosa assimilada culturalmente, a expressão “judeu” é lançada de forma pejorativa, costumeiramente, nos duelos das torcidas, como elemento de agressão verbal recíproca. Algo atordoante.

O outro episódio desnorteante diz respeito a uma pesquisa da Universidade de São Paulo, divulgada em vários jornais. O “Núcleo de Estudos da Violência” saiu às ruas em onze capitais brasileiras, ouvindo pessoas sobre o que pensam do emprego da tortura pra fins de obtenção de provas. Os números apurados são de estarrecer um frade de pedra. Quase a metade dos entrevistados concorda totalmente ou parcialmente com a utilização desse “método” selvagem e covarde de se extrair “confissões” de presos. Seja observado que, em pesquisa anterior, no ano de 1999, o índice de aprovação da tortura foi, apesar de preocupante, menor: 34% contra os 47.5% de agora (pesquisa de 2010). Os que repudiam totalmente essa hedionda modalidade punitiva somavam, em 1999, 71.2% dentre as pessoas ouvidas. O índice caiu alarmantemente para 52.48% na pesquisa de 2010. É de dar calafrio na espinha.

O último fato a comentar tem raiz numa extraordinária façanha cientifica. Dez anos atrás, na África do Sul, uma equipe de médicos sul-africanos e estadunidenses conseguiu, num feito celebrado ruidosamente, separar gêmeos siameses da Zâmbia unidos pelo crânio.
A história de como tudo se processou, antes, durante e depois da miraculosa intervenção, é relatada em documentário de tevê com abundância de pormenores. Os garotos, desfrutando atualmente de plena autonomia de movimentos, são mostrados em diferentes ocasiões de sua rotina de vida. Inesperadamente, uma revelação pra lá de desconcertante, se é que esta palavra basta para absorver devidamente o impacto. Os dois necessitam de cuidados educacionais especiais, à vista de sequelas deixadas pela intervenção cirúrgica. Os pais não dispõem de recursos para cobrir o custeio desses serviços de atendimento especial de que os filhos se fazem carecedores. E não é que ninguém aparece, nesse cenário dramático, com disposição para botar um final feliz no caso? Difícil pacas ignorar o toque perverso da situação.

Eta mundo velho de guerra sem porteira, refratário à justiça social e à solidariedade humana!

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Assim, na democracia

Cesar Vanucci *

“A democracia é, antes de tudo, um estado de espírito.”
(Pierre Mendes France)

Ø A lei da ficha limpa representou um extraordinário avanço no processo de consolidação da democracia brasileira. A opinião pública soube reagir, com justa veemência, às solertes manobras feitas em alguns momentos por grupos e pessoas comprometidos com malfeitos repudiados pela consciência nacional no sentido de revogá-la ou de procrastinar indefinidamente sua aplicação. Ela despontou como resposta vigorosa da sociedade brasileira a abusos administrativos que todos almejamos ver, algum dia, banidos para sempre da cena pública.
Deixando evidenciada sincera e bem intencionada aspiração de ver a legislação aplicada em sua inteireza, doa a quem doer, muita gente vem chamando a atenção nas redes sociais para alguns personagens já devidamente caracterizados como incontestes “fichas-suja”. Dessa circunstância vem também tirando proveito uma minoria de ativistas, pescadores de águas turvas, que se vale maliciosamente dessa faculdade para promover inclusões indevidas, juridicamente incorretas, de nomes de desafetos e adversários, nas relações que têm sido amplamente disseminadas.
Esse procedimento maldoso pede muita cautela e atenção do distinto público, para que o processo não seja desvirtuado de seus reais objetivos, contaminado por manobras solertes a serviço de desforras, vinditas, perseguições mesquinhas.
Pelas regras, “ficha suja” é aquele individuo responsável por ação de improbidade ou de outro delito grave, indiciado, julgado e condenado em instância colegiada. Uma notícia solta, expondo alguém de militância pública não implica obrigatoriamente em sua culpabilidade. Esta só se configura em processo normal de apuração dos fatos, garantidos aos acusados sempre o direito de defesa. É assim que as coisas funcionam na Democracia.

Ø O Senador Aécio Cunha tem todo o direito do mundo de ocupar a tribuna parlamentar para tecer, como fez, enaltecedoras referências à atuação como homem público do Senador Demóstenes Torres, alvo neste momento de gravíssimas acusações. A liberdade de opinião é apanágio da democracia. A opinião pública tem todo o direito do mundo de criticar, como vem também fazendo nas redes sociais, o posicionamento do Senador Aécio Cunha. É assim que as coisas funcionam numa democracia. Já a grande mídia brasileira não tem o menor direito, quaisquer que sejam suas razões, de silenciar ou de simplesmente registrar com descomedida discrição um pronunciamento desse gênero, tendo-se em vista o peso da liderança de quem o formulou e as circunstâncias que rodeiam o momentoso episódio de que o parlamentar goiano é protagonista. Tal posicionamento passa léguas de distância do dever atribuído à comunicação social dentro do contexto democrático.

Ø Muita gente supunha que seria difícil pacas pintar no pedaço, a longo prazo, alguma celebridade, política ou não, em condições de superar o notório doutor Paulo Salim Maluf como “cara de pau” mor da República. As declarações e alegações do senador Demóstenes Torres, prestimoso parceiro do todo poderoso chefão Carlinhos Cachoeira, concorreram para que se esboroassem pra sempre essas suposições.

Ø O torcedor que conserva na lembrança as deslumbrantes imagens da coreografia traçada nos gramados do mundo pelo Cruzeiro dos tempos de Tostão, Dirceu Lopes, José Carlos, Piazza, Raul não pode deixar de sentir-se em tremendo desconforto com o padrão de futebol que o clube vem mostrando nesta melancólica fase de agora. Na partida com o Náutico, os atletas do time cometeram, com o seu atual estilo feio e retranqueiro, 46 faltas, recorde difícil de ser igualado. Que horror! As regras do futebol deveriam ser alteradas em casos assim. Deveriam fixar para excesso de faltas uma punição à altura. No curso da própria disputa. Com cobranças de pênaltis, que tal?



Números surpreendentes


“Surpreender-se, estranhar, é começar a entender.”
(Ortega y Garret)

Ø Minas continua a proporcionar incríveis surpresas com relação aos números que projetam suas contas públicas. Indoutrodia tomávamos conhecimento, incrédulos, dos valores de uma dívida pública colossal, insuspeitada da maioria.
De repente, não mais do que de repente, diria o poeta, o “déficit zero” da marquetagem caprichada e ultraeficiente, saiu precipitadamente do ar, cedendo lugar para que despontasse, com toda sua tintura dramática, uma dívida pública de quase 70 bilhões para com a União e uma outra dívida de mais de 5 bilhões com a Cemig, ambas oferecendo em face dos juros e correções cobrados aterrorizante tendência de crescimento. E não é que, agora, trazido à divulgação pelo Sindifisco, chega-nos, mais uma vez, outro número desnorteante! Vejam só: a dívida ativa acumulada do Estado de Minas Gerais, que de 27 bilhões em 2009, caiu ligeiramente para 26 bilhões e 700 milhões de reais em 2010, fechou no ano passado em 29 bilhões, 551 milhões, 541 mil, 302 reais e 36 centavos. A revelação é acrescida de que são de 24 bilhões, nos assentamentos do balanço patrimonial do Estado, as presumíveis “perdas de devedores duvidosos.”
São dados – ta na cara – que reclamam esclarecimentos mais completos de quem de direito. Algumas perguntas inevitáveis assomam como ponto de partida para discussão: Os valores podem ser classificados como “impagáveis”? Como está mesmo composta a relação de devedores? Quem são os maiores devedores, pessoas, empresas, setores? Não será o caso de fazer-se uma divulgação dos nomes dos devedores mais notórios? 30 bilhões – seja frisado – correspondem a quase a metade das dívidas oficiais do Estado.

Ø Não tenho, evidentemente, como confirmar a veracidade da informação. Mas como ela foi colhida em fontes que nós, repórteres, costumamos classificar genericamente de “confiáveis” animo-me a repassá-las aos poucos (posto que leais) leitores destas maldatilografadas. Aquele cara que andou dando chilique no aeroporto até ser intimado a cascar fora do avião debaixo de apupos, após vociferar seu azedo inconformismo diante do fato do comando do vôo ter sido confiado a uma pilota, acaba de ser distinguido com convites internacionais procedentes da Arábia Saudita, Afeganistão e Paquistão. Os autores dos convites confessam-se jubilosos com a possibilidade de tê-lo como expositor oficial em congressos e cursos organizados com o edificante propósito de divulgar os extraordinários benefícios proporcionados à coletividade pela prática permanente de atos que exaltem a supremacia machista no cotidiano de suas progressistas comunidades. Isso aí.

Ø O Ministro Gilmar Mendes acusou o ex-Presidente Lula de fazer-lhe proposta descabida atinente ao chamado mensalão. O ex-Presidente Lula reagiu, indignado, à denuncia. O ex-Ministro Nelson Jobim, única testemunha do encontro de Lula e Gilmar, negou a versão do segundo a respeito do teor da conversa. A grande mídia, deixando claramente expressa uma tendência, está dando guarida ampla nos comentários e noticiários aos argumentos de Gilmar. Noutras palavras: para ela Gilmar está certo, Lula está errado.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Festa da Academia

Cesar Vanucci *

“A Academia é uma guardiã de saberes acumulados.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Um acontecimento de relevância cultural indiscutível. Assim a solenidade de posse da diretoria que irá reger os destinos da Academia Mineira de Leonismo no biênio 2012/2014, realizada no último dia 29 de maio.

Público numeroso, constituído de intelectuais, líderes políticos e de outros segmentos comunitários, dirigentes de entidades literárias, educacionais, cientificas e classistas, integrantes do movimento leonistico, lotou as dependências do Teatro da Assembléia Legislativa.

Entre outras figuras de realce, estiveram presentes ao evento o presidente da Federação das Academias de Letras e de Cultura do Estado de Minas Gerais, acadêmico Aloísio Garcia, secretário geral da Academia Mineira de Letras; o deputado dr. Viana, representante da Assembléia Legislativa de Minas; a escritora Conceição Abritta, presidente da Academia Mineira Feminina de Letras; o escritor Luiz Carlos Abritta, presidente da União Brasileira dos Trovadores e presidente emérito da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais; o acadêmico João Bosco Castro, presidente da Academia de Letras Guimarães Rosa, da Policia Militar de Minas Gerais, o advogado e acadêmico Sebastião Braga, ex-diretor internacional do Lions Clube; o coronel Ary Vieira Costa, presidente do Circulo Militar de Minas Gerais.

A parte artística da programação ficou a cargo da Orquestra de Cordas “Sol das Gerais” de Betim, regida pela maestra Vânia Maria Mendes. Esse esplêndido conjunto musical é composto de jovens selecionados em áreas de vulnerabilidade por um edificante projeto de inclusão social, mantido por empresários, levado avante com excepcionais resultados, por pessoas de boa vontade na Região Metropolitana de Belo Horizonte. O espetáculo apresentado foi de rara beleza. Arrancou aplausos entusiásticos da platéia.

A diretoria empossada, que tem na presidência este amigo de vocês, é integrada pelos seguintes acadêmicos: ex-Presidente Imediato, Sóter do Espírito Santo Baracho; 1º Vice-Presidente, José Alves Viana (Doutor Viana); 2º Vice-Presidente, Nancy Moura Couto Konstantin; 3º Vice-Presidente, Vespasiano de Almeida Martins Neto; 1º Secretária, Maria das Graças Amaral Campos; 2º Secretário, Marcos Boffa; 1º Tesoureiro, Maria Jorge Abrão de Castro; 2º Tesoureiro, Maria Celeste Martins; 1º Diretor Bibliotecário, Marilene Guzella Martins Lemos; 2º Diretor Bibliotecário, Edite Buéri Nassif; 1º Diretor Social, Carminha Ximenes; 2º Diretor Social, Sônia Maria Queiroga Ferreira; Diretor Jurídico, Ernani Martins de Melo Rocha; 1º Orador Oficial, Sebastião Braga; 2º Orador Oficial, Sóter do Espírito Santo Baracho; Diretores Vogais, Antônio Carlos Tozzi Henriques, Augusto César Soares dos Santos, Daniel Antunes Filho.

Coube à acadêmica Nancy Moura Couto Konstantin proferir a “Invocação a Deus” que, tradicionalmente, abre as assembléias leonisticas em todos os lugares. O acadêmico Sebastião Braga homenageou Sóter Baracho com uma placa de reconhecimento pelo brilhante trabalho por ele executado no período em que presidiu a Academia.

Os oradores Sóter e Braga revelaram-se pródigos em demasia nas referências ao presidente empossado. Aos exageros por eles cometidos nessas referências pessoais, nos discursos de substancioso conteúdo cultural proferidos, juntou-se calorosa manifestação de apreço de amigos reunidos na platéia. Encheram-me a bola a tal ponto que me senti “encorajado” a confessar estar balançado com relação a algo até certo tempo atrás inimaginável. Filiar-me a partido político e – quem sabe? – sair candidato nas próximas eleições a um cargo qualquer. Segundo suplente de Juiz de Paz da Comarca, por exemplo, dá pra imaginar?



Pronunciamento de Cesar Vanucci na solenidade de posse da diretoria da Academia Mineira de Leonismo - dia 29 de maio de 2012, no Teatro da Assembléia Legislativa de Minas Gerais.


Esta Academia tem uma origem ilustre, uma proposta nobre e um destino de grandeza.

Nasceu sob as inspirações vibrantes de companheiros que têm seus nomes cravados na “calçada da fama” das realizações leonísticas.

A menção de dois deles, com a benevolente permissão dos demais, serve para exaltar, emblematicamente, o mérito dos que compartilharam, em diferentes momentos, dos sonhos e ações desabrochados em tantas celebrações da inteligência e da sensibilidade que compõem a crônica da instituição. Reverencio-os: Felipe Machado Cury, de saudosa memória, Ernani Martins Melo Rocha, governador do Lions à época da criação do órgão.

A Academia traz uma proposta nobre.

Proposta, claro está, encharcada de leonismo. Vale dizer, repleta de humanismo, que tem tudo a ver com a prática da solidariedade humana, com a busca infatigável de caminhos melhores na edificação da pátria terrena.

A Academia tem, por outro lado, compromisso com a tradição. Conserva em alto apreço o conhecimento consolidado. Mas tem, também, um compromisso com a contemporaneidade das coisas. Procura viver o seu tempo, assestando o olhar perquiridor nos desafios do amanhã. Não pode deixar de ser depositária de conhecimentos valiosos, guardiã serena de saberes acumulados.

De outra parte, ela não cumprirá sua missão a jeito se deixar engessar-se pela falsa certeza de que os paradigmas criados no curso da aventura humana para identificar momentos culturais relevantes, precisam ser vistos fatalmente como dogmas de fé. O mundo gira e as mudanças são inevitáveis. Uma Academia não pode deixar, assim, se emaranhar, em suas propostas, pelas teias traiçoeiras do apego fanatizado a conceitos de notória falsidade cultural.

A Academia tem um destino de grandeza.

Alimenta-se dos conhecimentos e experiências consolidados, de riqueza inexaurível, do movimento leonístico. Processa-os de modo a realimentar o movimento leonístico de informações de utilidade que lhe assegurem, sem perda de substância, fiel aos princípios essenciais, permanência e modernidade.

É bom, sob esse aspecto, não se perder de vista, mode evitarem-se equívocos e injustiças, a visão distorcida que muitos têm do que seja modernidade. Moderneiras – mas não modernas -, certos viventes aprontam confusão tremenda quando colocam, por exemplo, a economia como um fim em si mesma, esquecidas de que a Economia, assim como a tecnologia, não é fim em si mesma. É meio para se atingir um fim. E o fim é sempre social.

Ser moderno significa, na realidade, colocar todo o resto sob o primado do espírito humano. É colocar a inventiva das pessoas, o potencial de serviços da sociedade em favor do bem estar social. É dar tratamento privilegiado ao social no gerenciamento dos negócios comunitários. É encarar a miséria, a falta de oportunidades profissionais, o desemprego, as endemias, a ausência de escolas e de tetos, como pecados sociais, a serem expurgados em nome dos sentimentos humanísticos.

O quadro social de nosso país não pode deixar de ser avaliado na programação acadêmica. O que Camões assinalou, num outro contexto, se ajusta, como luva, às circunstâncias brasileiras: “Todas as notas da elegia das aflições humanas soluçam neste quadro de suprema angústia...”

O Acadêmico é um ministro da palavra.

Esculpindo conceitos edificantes, conferindo dinamismo e vibração às idéias, demarcando e alargando o espaço reservado às ações de construção humana, a palavra é sempre pura magia. Aliás, tomando emprestada definição de Ronsard, a única magia. E tudo porque, segundo o mesmo pensador, a alma é conduzida e regida pela palavra e a palavra é sempre dona do coração. Os praticantes do ofício das letras, conscientes de que sua arte é forma sublime de expressão dos sentimentos, usam do poder mágico da palavra, da força de sedução da palavra para  celebrar a vida. Entendem como dever utilizar o talento com o fito de espalhar beleza e disseminar verdades. Para expandir a consciência humana, apontar trilhas, criar condições perenes de ascensão social. Exercitando a curiosidade, transformam o ato de viver numa aventura poética. “A vida se vive e se escreve”, proclama Pirandello.

Tudo que acabo de dizer remete ao reconhecimento de que a palavra, como acontece também com os demais dons concedidos ao homem em sua busca infatigável do sentido das coisas, deve sempre revestir-se – seja repetido - de significado social.

Nasce aí a explicação dos motivos pelos quais os intelectuais, os artífices da palavra, escritores, poetas, pensadores, tribunos, cientistas, comunicadores, educadores, pessoas que trabalham por vocação, ou profissionalmente a palavra, merecem ser vistos como “ministros da palavra social.”

Essa honrosa condição implica em posicionamentos diante das coisas do mundo. Esse mundo de Deus, que anda precisando muito de ser reconectado com sua humanidade. A palavra social ajuda na indispensável reformulação de estruturas econômicas e sociais iníquas, geradoras da miséria, fome e doenças que tanto afrontam a dignidade humana.

A palavra social há que ser empregada na condenação das guerras que as mães abominam. As guerras do terror e o terror das guerras. Na condenação das lateralidades ideológicas incendiárias, dos fundamentalismos religiosos ou políticos de quaisquer matizes, que conduzem ao despotismo, ao obscurantismo, ao terrorismo sem entranhas, ao racismo, a discriminações de todo jaez e ao imobilismo social. A palavra social profliga a hipocrisia e arrogância dos “donos do mundo”, com suas regras capciosas de subjugação humana. Essas regras fabricam estatísticas estarrecedoras. A fortuna acumulada dos 500 grupos e pessoas mais bem aquinhoados do planeta equivale, conforme atesta a ONU, ao patrimônio somado de 3/4 da sociedade humana.

No contexto brasileiro, a palavra social não pode deixar de eleger como prioridade as cobranças pela prevalência da conduta ética na vida pública, com repulsa à enojante atuação de corruptos e corruptores em toda a ampla escala da convivência pública ou privada, e pelo culto do sentimento nacional nas ações gerais do governo e sociedade. Não pode deixar de insistir, também, na adoção de posturas coletivas em defesa, altiva e resoluta, da cultura brasileira, do idioma brasileiro, do patrimônio dos brasileiros. No que concerne à cultura e ao idioma, nunca é demais recordar que o uso desatinado, como tanto se vê por aí, de vocábulos estrangeiros para classificar coisas óbvias do cotidiano é indicação clara de pauperismo intelectual, subserviência cultural e panaquice ampla, geral, irrestrita e irremediável.

No tocante ao patrimônio nacional – e estamos falando aqui de soberania e segurança nacionais -, é necessário atentar para os sinais de ameaças e cobiças externas que mantêm sob permanente mira a riquíssima Amazônia. Muitas lideranças brasileiras, com destaque para as lideranças militares, têm alertado para o que vem rolando sob esse aspecto. É preciso levar na devida conta esses sinais.

Meus amigos,

Por derradeiro, uma profissão de fé: as utopias fazem parte da caminhada. “Se as coisas são inatingíveis, ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas.” (Mário Quintana)

Esforcei-me quanto pude, nesta descolorida arenga, em traçar um utópico roteiro de conduta para a nossa Academia. As utopias são parte indissociável da aventura humana.

“Sonho, logo existo”, disse alguém, em algum lugar. Desajeitado propagador de idéias que costumam roçar as sutis fimbrias da quimera, não abdico, apesar de tudo, de todos os pesares, de minhas crenças no ser humano.

Imagino possível, algum dia, que a utopia cantada nos versos de tantos poetas venha a ser concretizada no advento radioso de uma era universal plenamente democrática, ecumênica, harmoniosa, humanística, forjada por corações fervorosos. Uma era onde “o homem possa confiar no homem, assim como a palmeira confia no vento, o vento confia no ar, o ar confia no campo azul sereno do céu”, como propõe Thiago de Mello.

Muito obrigado a todos quantos aqui compareceram e fizeram desta noite feérico, amorável e fraternal encontro de congraçamento humanístico. Palavra de leão!


IMAGENS DA SESSÃO SOLENE DO DIA 29.05, NA
ACADEMIA MINEIRA DE LEONISMO
As fotos foram produzidas pelo Companheiro Augusto César Soares dos Santos

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Clamor universal

Cesar Vanucci *

 “O bem estar do povo é a lei suprema.”
(Cícero)

O movimento pode até ter perdido o fôlego inicial. Mas deixou marcas, disseminou conceitos, ganhou consciências. Revelou algo importante para as avaliações antropológicas: as emoções populares transportadas para as ruas, não importa onde, guardam no mundo contemporâneo notáveis afinidades. Independentemente de nacionalidades, idiomas, crenças religiosas, hábitos culturais. Ocorram as manifestações em Manhatan, na Cinelândia carioca, na praça Vermelha em Moscou, nas cercanias do Taj Mahal, na Índia. A multidão, composta basicamente de jovens, do “Ocupe Wall Street”, convocada a exteriorizar seu inflamado inconformismo diante do agravamento das desigualdades socioeconômicas em seu país, reproduziu à sua maneira, dentro de contexto cultural específico, a mesma indignação que a rapaziada de numerosos lugares do Oriente despejou nas praças por ocasião da chamada “primavera árabe”. Nem tudo que uns e outros almejaram, ou continuam almejando em seu formidável desabafo cívico, impregnado de idealismo, redundou de pronto em conquistas. Ocorreram, como sabido, não poucas frustrações. Mas as idéias renovadoras lançadas no ar, as propostas de mudanças vitais apresentadas, os anseios de liberdade propagados fixaram, quando pouco, marcos referenciais reveladores nos caminhos a serem trilhados, daqui pra frente, pelas lideranças políticas e de outros setores providos de lucidez e com responsabilidades definidas na construção do desenvolvimento econômico e social. Fica muito claro na percepção global da sociedade a existência hoje de uma consciência social desperta, em tudo quanto é canto deste planeta azul, para a necessidade de reformulações sociais capazes de garantirem a elevação a patamares dignos e justos das condições de vida de todos os seres humanos. O clamor que volta e meia espoca em passeatas pelas ruas afora do mundo, desvinculado em suas origens de inspirações político-ideológicas contaminadas, acena esperançosamente com as perspectivas descortinadoras de uma nova era. Uma era mais fraternal, mais justa, consentânea com a dignidade do ser humano. Dá pra perceber, auspiciosamente, que tais ações coletivas se contrapõem visceralmente às proposições nascidas das lateralidades incendiárias. Contempla-se momento da história propenso a condenar as exacerbações e extravagâncias do fundamentalismo político e religioso em suas interpretações rançosas da aventura humana. O que está aflorando é um sopro possante e irrefreável, de feição humanística, que abomina o despotismo, a violência contra os direitos fundamentais, o racismo, a prepotência dos feudos econômicos despojados de responsabilidade e sensibilidade social, a arrogância imperial dos arranjos geopolíticos prejudiciais às nações e agrupamentos vulneráveis. E que, paralelamente, por outro lado - arriscamo-nos mesmo a dizer com “benfazejo fanatismo” –, cultua a democracia, em sua pura inteireza e intransigente apego às liberdades de ir e vir e de manifestação plena das idéias. A crescente desigualdade de renda, seja nos Estados Unidos, no Brasil, na Europa, ou quaisquer outros lugares, coloca como prioridade, na agenda dos grandes e transcendentes debates humanos da atualidade, a exigência de uma reformulação da ordem econômica e social. O processo de canalização das riquezas extraídas do talento e labor humanos precisa ser passado a limpo. O brado dos jovens do “Ocupe Wall Street” exprimiu o desconforto da sociedade estadunidense diante da constatação de que uma minoria da população é escandalosamente favorecida pelo regime de impostos e de bonificações de toda sorte vigorante no país, desfrutando à vista disso do “direito” de poder expandir incessantemente seu patrimônio pessoal. Nada diferente do que acontece, aqui por nossos pagos, ou com igual, maior ou menor intensidade, em tantos outros lugares. Vem daí a certeza da universalidade do sentimento em favor de reformas econômicas, sociais e políticas que povoa as ruas. E pra arrematar essas reflexões: o bem estar do povo é a lei suprema. Cícero já proclamava isso um bocado de anos antes da era cristã.


A busca da “partícula de Deus”

“A peça que falta para o quebra-cabeças.”
(Fernando Werkhaizer, físico)

Cientistas famosos andam apregoando que suas avançadas pesquisas pelas enigmáticas veredas da física quântica vêm permitindo aproximação cada vez maior da chamada “partícula de Deus”. Gabam-se mesmo de já haver encontrado pistas intrigantes da localização do “bóson de Higgs”, estrutura supostamente responsável pelas interações na Natureza. No entendimento dos doutos, embora hipotético, um elemento provido de massa que teria aparecido logo após o também hipotético “Big Bang”, apontado por círculos científicos como a primeira de todas as coisas dentro da linha conceitual adotada pra explicar a Criação. Tal partícula seria responsável pela composição dos átomos. Advém dessa circunstância a denominação que se lhe foi dada de “partícula de Deus”. Passa bem ao largo das cogitações deste desajeitado escriba, com sua supina ignorância da temática cientifica, desdenhar ou mesmo contradizer diretamente os brilhantes físicos engajados nesse salutar propósito de descobrir, pelos atalhos das exaustivas investigações cientificas, explicações sobre como começou tudo quanto está posto aí. Mas que eu duvido possa esse bem intencionado esforço desembocar, nos prazos estipulados, nas respostas tão desejadas pelo aluvião de interrogações nascidas da compreensível inquietação humana a respeito do principio, sentido e destino da aventura da vida, ah, isso, eu duvido mesmo, sim senhores! Como se costumava dizer, noutros tempos, de forma bem descontraída em papos coloquiais, du-vi-de-o-do. Tanto quanto o meu restrito entendimento leigo consegue alcançar dessa fascinante procura levada avante por alguns cérebros privilegiados, com o concurso de tecnologias assombrosas, o chamado “bóson de Higgs” seria assim como uma peça que estaria faltando pra fechar o quebra-cabeças da teoria do “Big-Bang”, ou seja da explosão nuclear que formou o Universo. Não passa, como já dito, de hipótese, sujeita ainda a comprovação, de acordo com a expectativa de eminentes sábios. Os colisores de prótons, localizados em pontos estratégicos do mundo, empregados nessa busca infatigável já estariam, a esta altura, fornecendo indícios animadores (mais do que isso, talvez, convincentes) de que uma revelação concludente estaria prestes a ser anunciada. Mas, muitos cientistas, precavidamente, não descartam a possibilidade de que o processo possa não lograr atingir, por conta de fatores imponderáveis, os resultados ardentemente almejados. O modelo da investigação poderia ter sido composto com pressupostos equivocados. Se isso de fato, contrariando tantas esperanças, acontecer, ou seja, a descoberta da partícula não puder se consumar, outros caminhos haverão de ser, obviamente, desbravados pela ciência na tentativa de achar explicações consistentes para os mistérios que circundam a infinita vastidão cósmica. Bem, e quanto às descrenças pessoais que, simploriamente, consciente do analfabetismo cientifico que carrego, entendi de externar quanto aos resultados das investigações em curso a respeito da “partícula de Deus”, no que, afinal de contas, se fundamentam? Em mera, pura e simples intuição. Nada mais do que isso. Seria rematado tolo não reconhecesse na ciência um excepcional instrumento de procura da verdade. Uma força poderosíssima em condições de movimentar idéias e ações que se entrelaçam com o futuro e o destino da humanidade. Mas, nada obstante os extraordinários feitos e conquistas proporcionados pela ciência, levando em conta de outra parte tantos problemas cruciais angustiantes, enfrentados pela sociedade humana destes nossos tempos – problemas cuja solução distante depende bastante das inovações tecnológicas –, penso, com meus botões, apoderado de certezas, ser ainda demasiadamente cedo, no atual estágio de desenvolvimento emocional e espiritual do ser humano, pra se conceber a possibilidade da decifração cabal do código da vida. O deslindamento dessa charada não é pra agora. Aposto e dou lambuja.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

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