sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Esses geniais inventores

Cesar Vanucci *

“Meu primeiro professor
de aeronáutica foi Júlio Verne...”
(Alberto Santos Dumont, o “Pai da aviação”)

Em sucessivos capítulos, vamos ocupar este espaço com lances da vida de inventores brasileiros. Alguns, menos conhecidos, mas muito criativos, ligados a descobertas que ajudaram a mudar os rumos da história. Casos do paraibano Padre Azevedo, inventor (espoliado) da máquina de escrever, e do franco-brasileiro Hercules Florence, radicado em Campinas, criador da primeira máquina de tirar fotografias, por ele próprio batizada de “photografie” no ano de 1833.

No começo vamos concentrar-nos em inventores brasileiros mais conhecidos. Aqueles que deram ao mundo fabulosas máquinas de voar.

Bartolomeu de Gusmão foi o primeiro. Ganhou o espaço num balão inflado de ar. Santos Dumont tornou-se, deles, o mais célebre. Seu nome ficou imperecivelmente associado à história da conquista espacial.
Mas o que nem todo mundo sabe é da existência, ao longo do período que separa as realizações dos dois grandes inventores, de um número considerável de outros brasileiros empenhados na pesquisa e construção de engenhos que significaram propostas ousadas ligadas à aspiração humana, vinda do fundo dos tempos, de conquista do campo azul do céu. Falaremos deles adiante. Todos tiveram participação graduada em diferentes níveis de importância. Ajudaram de uma forma ou de outra a compor a saga da presença brasileira na história do domínio dos ares, elevada ao ponto culminante com o feito histórico, de ressonância universal, de Alberto Santos Dumont.

Foi aos 25 anos de idade que Santos Dumont, mineiro de Palmira, nascido em 20 de junho de 1873, um dos dez filhos de abastada família de fazendeiros, alcançou consagração como inventor. Em máquina que custou, a valores de agora, o equivalente a 76 mil reais, por ele totalmente concebida e construída, uma espécie de balão em forma de charuto, com controle de vôo manual, medindo vinte e cinco metros de comprimento, o inventor, diante de multidão extasiada, fez uma demonstração definitiva de que, contrariamente ao que, denotando ceticismo e despreparo, imaginavam alguns setores científicos apegados a valores ultrapassados, ao homem não estava vedada a capacidade de locomover-se no espaço. A mesma Paris que o aplaudiu, euforicamente, quando das evoluções precursoras do “Santos Dumont nº 1”, voltou a festejá-lo, num sem número de ocasiões, ao alçarem voo os outros numerosos engenhos que se sucederam ao primeiro teste aéreo.

O momento mais exitoso na vida deste homem, um dos mais fecundos inventores da história, aconteceu em 12 de novembro de 1906. O mundo tomou conhecimento, assombrado, sem capacidade para inferir desde logo as infindáveis perspectivas que se abriam, a partir daquele momento, à conquista do progresso e bem estar, que um brasileiro estava a realizar em Paris os primeiros vôos oficialmente controlados da história.

A utilização do mais pesado que o ar impunha-se como realidade tecnológica. Os monoplanos, lançados após a memorável experiência, consolidaram a reputação de Dumont como cientista. Num desses aparelhos, em 1909, voando a pouca altura sobre sebes e copas de árvores, conseguiu alcançar novo recorde de velocidade, desenvolvendo média de noventa e cinco quilômetros por hora, inconcebível nas concepções científicas dominantes.

No resto, a história de Santos Dumont é bem conhecida. Como Nobel, o grande brasileiro estava convencido de que os seus inventos viriam contribuir para afastar o espectro das guerras, já que notório o poder destruidor de que se revestiriam as máquinas voadoras, se empregadas em planos bélicos. A primeira Guerra Mundial trouxe-lhe malogro e sofrimento. Dumont percebeu que, a exemplo do que doloridamente acontecia com os objetivos em terra, suas convicções estavam sendo também submetidas, na prática, a devastadores bombardeios. As crises de neurastenia que costumavam acometê-lo se aguçaram, na volta ao Brasil, quando da revolução de 32. Nos céus de sua pátria, a máquina projetada para encurtar distâncias e aproximar os homens vinha sendo utilizada como instrumento de destruição.

Drama inexorável abateu-se sobre o espírito sensível do homem que deu asas ao semelhante e que ganhou consagração na memória mundial por força de seu idealismo, de seu gênio e grandeza d’alma.

Se vivo estivesse, ele poderia contemplar, décadas depois, outras facetas, estas de cunho positivo, da fabulosa conquista que proporcionou à humanidade. A navegação aérea intensa, estreitando caminhos e aproximando criaturas; os vôos tripulados além da atmosfera terrestre; os foguetes que deixam a Terra em busca do fascinante desconhecido sideral.
E imaginar que tudo isso começou mesmo, pra valer, naquele 12 de novembro de 1906, em Paris!

A seguir, um apanhado das glórias e desventuras vividas por Bartolomeu de Gusmão.



Glórias e desventuras de Gusmão

“Com que engenho te atreves, brasileiro...”
(Versos satíricos da imprensa portuguesa, criticando a ação vanguardeira de Bartolomeu de Gusmão na conquista do espaço)


O itinerário de Bartolomeu de Gusmão foi marcado por vivências doridas. Conheceu a glória. Foi impiedosamente alvejado pelo ódio, nascido do obscurantismo cultural e científico.

Ao reconhecerem-lhe o mérito criador, rodearam-no de honrarias. Essa convivência aconchegada com a celebridade durou pouco. O brilho ofuscante de sua inteligência incomodava figuras poderosas da Corte portuguesa.

O êxito de suas experiências só fez açular o ódio e a inveja. E a tal ponto, que não foi difícil a deflagração de campanhas difamatórias, onde a figura do inventor era equiparada à de feiticeiro, de pessoa comprometida com artes demoníacas.

Perseguido, coberto de escárnios, em dado instante despojado da proteção que Dom João V lhe assegurara de início, enfrentou as iras detonadas pela ignorância e incompetência. Seu nome entrou para um círculo de sombra, numa longa noite de silêncio e de trevas, estendida até a morte, no exílio em terras de Espanha, onde, paupérrimo, dilacerado pela ingratidão, foi acolhido pela compaixão de um irmão de hábito.

Amostra eloquente da ofensiva belicosa movida ao sábio brasileiro que ofereceu a Portugal um invento destinado a mudar a fisionomia do mundo, pode ser retirada dos versos satíricos com os quais a imprensa lisboeta o mimoseou, a propósito da seqüência de seus testes vitoriosos com balões.
“Com que engenho te atreves, brasileiro, / A voares no ar, sendo rasteiro./
Desejando ave ser, sem ser gaivota? / Melhor te fora, na região remota /
Onde nasceste, estar com siso inteiro!”

A “região remota” em que nasceu Bartolomeu (1585) era Santos. Seis dos irmãos se inclinaram também para a vida religiosa.
Homem de vasta cultura, tribuno consagrado, dominava vários idiomas. Dotado de sólida formação científica, chegou a capelão fidalgo na casa real. Paralelamente ao ministério sacerdotal, dedicou-se em Coimbra a experiências e construção de aparelhos e máquinas. Publicou inúmeros trabalhos científicos. Um deles continha explicações sobre os vários modos de esgotar sem gente os navios alagados. Em petição a Dom João V, abril de 1709, solicitando auxílio para o seu engenho voador, acenou com as possibilidades que se descortinavam à chegada da era dos vôos. Abaixo, trechos dessa petição.

“Diz o licenciado Bartolomeu Lourenço que ele tem descoberto um instrumento para andar pelo ar da mesma sorte que pela terra e pelo mar, com muito mais brevidade, fazendo-se muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia, no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e terras mais remotas, quase ao mesmo tempo em que se resolvem: o que interessa a Vossa Majestade muito mais que a todos os outros príncipes, pela maior distância dos seus domínios; evitando-se, desta sorte, os desgovernos das conquistas, que provêm em grande parte de chegar tarde a notícia deles.

Além do que, poderá Vossa Majestade mandar vir todo o preciso delas mais brevemente e mais seguro; poderão os homens de negócio passar letras e cabedais a todas as praças sitiadas; poderão estas ser socorridas tanto de gente como de víveres e munições a todo o tempo, e tirarem-se delas as pessoas que quiserem, sem que o inimigo o possa impedir. Descobrir-se-ão as regiões mais vizinhas aos pólos do mundo, sendo da Nação portuguesa a glória deste descobrimento. Além das infinitas conveniências que mostrará o tempo.”

Ajuda concedida, em oito de agosto do mesmo ano, uma multidão presenciou e aplaudiu a elevação suave do aeróstato, a partir do pátio do castelo de São Jorge, o inventor a bordo. O engenho pousou, pouco depois, no Terreiro do Paço. Segundo o historiador Miguel Milano, a forma do aparelho correspondia à de um grande saco tetraédrico alongado numa das extremidades. Na parte inferior, suspensa, uma barquinha. Dali, o aeronauta manobrava um leme, do formato de pá. O balão era propelido por ar quente, ou um gás mais leve que o ar, possivelmente hidrogênio, embora o inventor, objetivando proteger a invenção, alegasse tratar-se de energia eletromagnética.

O infalível processo de revisão da história, confiado à posteridade, recolocou Bartolomeu de Gusmão em lugar de realce na galeria dos grandes nomes que, com a sua ação pioneira, ajudaram a construir a aventura humana.

Lápide afixada na Praça de Armas do Castelo São Jorge, em Lisboa, numa rua que traz o nome do inventor, estampa depoimento que consagra sua obra vanguardeira:

“A Bartolomeu Lourenço de Gusmão, ao sábio português ilustre, que primeiro que nenhum, realizou em 1709, a genial idéia do aero-navegar, elevando-se em balão na Praça de Armas do Castelo de São Jorge: - Honra, Renome, Glória.”


Vanguardeiros e anônimos


“Muitos brasileiros, no anonimato,
se preocuparam com os problemas da navegação aérea.”
(Roberto Pereira de Andrade, pesquisador e escritor)


A conquista dos ares, vista de enfoque exclusivamente brasileiro, aponta no período que medeia as presenças em cena do “Padre Voador” e do “Pai da Aviação” uma lista surpreendentemente extensa de idealistas que, acreditando na possibilidade do voo por meio de engenho aeronáutico, colocaram as habilidades técnicas que Deus lhes deu em favor da materialização dessa fascinante empreitada. O jornalista Romero Solha, no antigo “Diário da Tarde” de 26 de outubro de 1982, publicou sugestiva reportagem a respeito.
O escritor Roberto Pereira de Andrade, autor de trabalho considerado no gênero o mais completo já apresentado, introduz-nos por meio do livro “A construção aeronáutica no Brasil –1910/1976” no conhecimento de uma realidade para muita gente insuspeitada. Na esplêndida pesquisa é mostrado que o vôo humano tem ligação umbilical com a construção aeronáutica, embora esta última haja sido vista, na fase inaugural da aviação, como excêntrico artesanato. Na seqüência, alguns dos inventores listados no trabalho.

Acionada pelo escritor, a roda do tempo traz, em primeiro lugar, a figura do paraibano Marcos Barbosa. Suas experiências, com máquina que lembrava um planador, ocorreram em fins do século XIX. O inventor efetuou voos, planando pelas encostas das colinas, com a ajuda de asas de tela e de madeira.

A obstinação do alferes Paulino José de Almeida Nuro levou-o a projetar (em 1899) um monoplano, o “Jaburu voador”. Nem no Brasil, nem na França, encontrou receptividade. Comissão militar que avaliou o projeto concluiu pela sua inviabilidade.

Carlos Rostaing (1880-1941), outro obstinado. Patenteou no Rio, Paris e São Petersburgo a planta de um dirigível. O engenho foi descrito em janeiro de 1902 pela revista francesa “L Aerophile”.

Quem poderia imaginar o líder abolicionista José do Patrocínio (1853-1905) envolvido, também, em meio às tormentas políticas, com o ofício de inventor? Pois é justamente ele, com colaboração de um engenheiro chamado Tiret, que projeta em 1900 um modelo de balão dirigível, batizado “Santa Cruz”. Isso em Paris, naquela ocasião, mais do que nunca, centro mundial da cultura. A morte do parceiro traz Patrocínio de volta ao Brasil sem que o experimento pudesse ser efetivado. O belo sonho que alimentou durante bom pedaço de sua existência esboroou-se. Por ocasião de seu falecimento a máquina – uma estrutura de alumínio, recoberta de tela – estava quase concluída. Seus herdeiros desmontaram-na.

Carlos Euler, carioca, nascido em 1863, engenheiro, diplomado em Zurique, publicou em 1903, no Rio, uma monografia expondo interessantes “Considerações sobre o voo mecânico”. Sua participação em inventos ficou confinada ao campo teórico.

Quem também assinalou presença nas tentativas das conquistas aéreas foi o amazonense João Autto de Magalhães Castro (1861/1926). Suas pesquisas tiveram caráter predominantemente teórico. Coube-lhe o mérito de haver projetado instrumentos de concepção avançada para a época. Entre eles, um dirigível provido de asas.

Paulista, Gastão Galhardo Madeira (1869/1942) obteve patente em 1880 de um projeto de dirigível e de um sistema de estabilizadores para monoplanos. Despertou a atenção dos construtores franceses Farman e Regy. O projeto veio a ser absorvido pela indústria Rotmanoff & Cia.

Júlio Cesar Ribeiro de Souza (1843-1887) paranaense, construiu, na Europa, três balões dirigíveis de formato alongado. O “Victoria”, o “Santa Maria de Belém” e o “Cruzeiro”. Multidões assistiram às muitas evoluções dos balões nos céus da capital francesa.

Leopoldo Ferreira da Silva, mineiro, nasceu em 1849. Em 1890, registrou na Alemanha patente para a construção de um dirigível de passageiros. No Rio, estruturou empresa com o propósito de explorar comercialmente o invento. Denominada “Cruzeiro do Sul”, a aeronave estava para ser lançada quando do falecimento do inventor. O projeto foi interrompido.

Cearense, Domingos José Nogueira (1848/1926) é outro dos brasileiros que, no anonimato, “se preocuparam com os problemas da navegação aérea”, conforme o escritor Pereira de Andrade. Estudos teóricos sobre a dirigibilidade dos balões garantem-lhe a citação do nome.

Augusto Severo de Albuquerque Maranhão, outro pioneiro, perdeu a vida numa experiência aérea. Em 1894, construiu o balão “Bartolomeu de Gusmão”, em seus primeiros testes de navegação. Mais tarde, na França, empenhou-se na construção do dirigível “Pax”. Na manhã de 12 de maio de 1902, acompanhado do mecânico, ergueu vôo testando a estabilidade do aparelho. Uma fagulha de motor alcançou a carga de hidrogênio. A aeronave precipitou-se em chamas num logradouro parisiense.


* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

O programa infantil e o poeta

Cesar Vanucci*

“Saudade é ser, depois de ter.”
(Guimarães Rosa)

O
“Programa Infantil” da PRE-5 era produzido, dirigido e apresentado por Altiva Glória Fonseca, uma mulher charmosa e inteligente, de presença destacada nas atividades culturais e assistenciais de Uberaba. Levado ao ar nas manhãs de domingo, com participação animada de público fiel, que lotava o assim chamado “salão grená” da emissora, atraia (nos anos 40) uma legião considerável de ouvintes. As atrações artísticas, garotos e garotas com inclinação para canto, declamação, esquetes, galvanizavam vibrantes torcidas, os orgulhosos pais da gurizada em plano de realce. Augusto Cesar Vanucci, Pedrinho Ricciopo, Neuza Papini, Nancy Pagano, Irmalda Dorça, Vicente de Paula Oliveira, Joel Andrade Loes, Walia Vieira, Zilma Buggiato Faria, este desajeitado locutor que vos fala eram, entre outros, integrantes do “elenco permanente” do programa. Os ensaios para as apresentações ocorriam nas tardes de sábado. O Regional da estação de rádio, dirigido pelo maestro João Tomé, artista de mão cheia, capaz de arrancar sons de tudo quanto era instrumento apesar da cegueira de nascença, cuidava com esmero do acompanhamento dos intérpretes, fazendo, se preciso, fundo para declamações. O conjunto compunha-se de piano, violão, cavaquinho, flauta, bateria e pandeiro.

As imagens de borbulhante júbilo daqueles anos dourados da meninice acodem-me com constância à memória velha de guerra. Indoutrodia, por ocasião da bela sessão solene que assinalou, no Auditório JK, na Cidade Administrativa, o momento culminante de celebração da “Semana Mundial do Serviço Leonístico”, neste ano de 2011, fui buscar no baú uma lembrança danada de terna do “Programa Infantil da E-5”. No pronunciamento que fiz na solenidade em questão citei versos de um poeta norte americano, Langston Hughes, assinalando que eles faziam parte de poema decorado na infância. Recuperei na hora meiga cena. A Altiva Glória Fonseca a passar-me uma tarefa, nas proximidades de um dia 13 de maio. O programa da semana seria todo voltado para manifestações lítero - musicais com foco temático na abolição da escravatura. A encomenda que recebi foi a de decorar o poema “Sou negro”, do poeta citado. Sob a zelosa supervisão de minha saudosa mãe Tonica, decorei pra nunca mais esquecer os versos recomendados, de suave sopro lírico e de dardejante conteúdo social. Bate-me forte, aqui e agora, a tentação de reproduzi-los para deleite dos leitores. Vai lá:
“Eu sou negro: / Negro como a noite é negra, / Negro como as profundezas d’África.
Fui escravo: / Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos. / Eu engraxei as botas de Washington.
Fui operário: / Sob minhas mãos as pirâmides se ergueram. / Eu fiz a argamassa para a fábrica de algodão.
Fui cantor: / Durante todo o caminho da África até a Geórgia / Carreguei minhas canções de dor. / Criei o ragtime.
Fui vítima: / Os belgas cortaram minhas mãos no Congo. / Eles me lincham até hoje no Mississipi.
Eu sou Negro: / Negro como a noite é negra / Negro como as profundezas da minha África.”
Do poeta, nascido em 1º de fevereiro de 1902 e falecido em 22 de maio de 1967, fiquei sabendo mais tarde tratar-se de um inovador da arte literária, cioso de sua ancestralidade negra. Ativista social, romancista, dramaturgo, acabou firmando conceito como o mais importante poeta negro estadunidense. Um homem que soube transpor para a palavra os ritmos e a cadência da música de sua gente, notadamente o blues.
E quanto ao programa da E-5? Ele é capítulo de dias idos. Da aurora da vida, da infância querida, que os anos não trazem mais, de que fala Casimiro de Abreu. Converteu-se em saudade. Ou seja passou “a ser, depois de ter”, como diz Guimarães Rosa.



Verso e reverso

Cesar Vanucci*

“As ideologias radicais, não importa sua coloração, nem suas supostas e inflamadas discordâncias, são verso e reverso de uma mesma moeda”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

O fundamentalismo ultraconservador apavora tanto quanto o extremismo terrorista. Pode-se dizer mesmo que um e outro representam, na verdade, verso e reverso de uma mesma moeda. São expressões incendiárias de uma visão distorcida da realidade humana. Uma contrafação do sentido verdadeiro da vida. Agridem a consciência social. Alvejam os direitos elementares. Desprezam os sentimentos e emoções puros e espontâneos que regem a boa convivência comunitária. Geram deuses e ícones falsos. Abominam o diálogo entre contrários, instrumento de convergência que ajuda na construção de mundo melhor. Alimentam preconceitos aviltantes, racismo impiedoso, idiossincrasias incuráveis, ódios fratricidas, totalitarismos ferozes.

Espicham a tal ponto sua interpretação arcaica das coisas que passam a enxergar as conquistas do espírito, os avanços da ciência como blasfêmias heréticas. Chegam, não poucas vezes, a identificar riscos funestos à paz, à harmonia cotidiana, como agora acontece nos Estados Unidos, por obra e graça do chamado “Tea Party”, num simples anúncio de um atendimento de saúde universalizado; ou como ocorre, também neste justo instante, em certos países do mundo árabe intoxicados pelo radicalismo religioso, na mera aspiração das mulheres de desfrutarem do direito de acesso a uma carteira de habilitação de motorista.

Esse pessoal desvairado, pelos males que se revela capaz de aprontar, enche o mundo de medo. Ou seja, mesmo constituindo parcelas, embora aguerridas e atuantes, flagrantemente minoritárias no conjunto da sociedade, têm o “dom” de espalhar freneticamente por onde atuam o mais amaldiçoado dos instintos rasteiros, a nos valermos da definição do medo cunhada por Shakespeare.

Ÿ Martelo de novo, com carradas de razão, a tecla. Só no primeiro semestre deste ano, os quatro maiores bancos do País obtiveram, somados, lucros da ordem de R$ 22 bilhões e 900 milhões. Tais números, como de praxe, nessa espiral ascendente ininterrupta de resultados excepcionais que pontilha a trajetória do sistema bancário em nosso País, revelaram-se superiores aos do mesmo período do ano anterior, ficando assim distribuídos pelas organizações: Itaú, R$ 7.1 bi; Banco do Brasil, R$ 6.3 bi; Bradesco, R$ 5.4 bi; Santander, R$ 4.1 bi. A proverbial lucratividade do nosso operoso complexo bancário, incomparável com relação a qualquer outro país, traduzida nessa amostra de números correspondentes a apenas quatro instituições, suscita inapelavelmente uma indagação. À vista de toda essa dinheirama, não é o caso de se imaginar a instituição, por iniciativa do Governo, de um fundo para programas sociais relevantes com recursos derivados de tributação que incida sobre a lucratividade excessiva desse e de outros setores escandalosamente favorecidos pela política econômica vigente? Uma decisão dessas, corretíssima do ponto de vista político e social, não representaria uma forma de reforçar o caixa para a expansão de serviços essenciais nas áreas da saúde e educação?

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Confusão das arábias


Cesar Vanucci*

“A confusão era geral!”
(Relembrando dito famoso de Machado de Assis, em “Dom Casmurro”)



Depois dos primeiros e justificáveis instantes de euforia deu para perceber nitidamente no ar alguns sinais inquietantes de que a assim chamada “Primavera árabe”, confrontando reações domesticas e externas consideravelmente poderosas, tendia a perder fôlego. Esforços virulentos em favor da preservação de abomináveis hegemonias oligárquicas no plano doméstico, misturados com as costumeiras manipulações de bastidores engendradas pelos interesses geopolíticos e econômicos de sempre, começaram a colocar em xeque as propostas políticas liberalizantes despejadas nas ruas e praças pelo clamor popular.

As férreas reações às mudanças, mais ferozes numa região do que em outra, mas de qualquer maneira doridamente reais, trabalham obstinadamente no sentido de que o processo não possa avançar nos termos almejados pelas multidões. Chegam a ocasionar nalgumas paragens frustrantes retrocessos.

A Junta no Egito, composta de militares que ocuparam desde sempre postos chave no governo deposto, não parece mesmo disposta a abrir mão de sedimentados privilégios. Os impasses por aquelas bandas só fazem aprofundar. Os integrantes do comando militar empenham-se em assegurar prerrogativas que, de forma alguma, os resultados das recentes eleições admitem referendar. Muito antes, pelo contrario. E olhem que as eleições em pauta foram realizadas debaixo do rígido controle da Junta, com regras, como sabido, não totalmente amoldadas ao tradicional figurino democrático. Num clima atulhado de tensões, com a repressão policial arrastada ao auge, no melhor estilo da era Mubarak, os egípcios fardados não escondem o propósito de se perpetuarem como condestáveis tutores do regime. Propõem-se magnanimamente a exercer “poder moderador” paralelo no processo político. Nesse afã, indiferentes à mensagem das urnas, que apontam os verdadeiros dirigentes do país desejados pela sociedade, cuidam no momento de “designar” um “colégio de notáveis”, escolhidos a dedo para aconselhá-los em suas “patrióticas decisões” sobre questões de valor transcendental. Os crescentes temores acerca do que vem pintando no pedaço egípcio avolumam-se mais quando se tem presente a barbárie extremista, encorajada oficialmente, cometida contra minorias indefesas, como aconteceu no caso dos cristãos chacinados. Um caso que, estranhavelmente, não encontrou a ressonância apropriada por parte da grande mídia ocidental.

Na Síria, as coisas continuam postas daquele jeito que o diabo tanto aprecia. Matança bestial, já contabilizando mais de 5 mil vitimas, deixa escancarada a determinação insana da ditadura de Damasco em não ceder terreno, bem como a existência de uma implacável guerra civil de imprevisíveis consequências. A conflagração síria gera especulações de toda ordem. Não poucos estudiosos de política árabe crêem na possibilidade de que uma eventual sucessão do tirano Assad, tal qual ocorreu noutros paises árabes, possa não significar avanço qualquer em termos de conquistas democráticas.

A Líbia, inexplicavelmente ausente das primeiras páginas depois do trágico defenestramento do tristemente celebre Kadafi, já está sendo vista como mais uma encrenca emblemática. Os grupos heterogêneos que ascenderam ao comando andam até trocando tiros pelas ruas. A repressão aos adversários continua tão violenta quanto no passado. O precário governo instalado é partidário – Alá que cuide de proteger os humanistas e as mulheres árabes! - da inserção da “Sharia” na Constituição em preparo. Pra muita gente que conhece os meandros da enigmática política árabe, os inimigos de Kadafi, agora desempenhando papeis centrais no teatro dos acontecimentos, têm deixado à mostra, com os desvarios praticados, incontrolável pendor para manter íntegro seu legado de terror.

A confusão que varre os domínios árabes não fica confinada obviamente aos fatos comentados. Tema pra novo papo.




Bota confusão nisso



“Confusão: mistura desordenada de seres ou coisas;
mixórdia, misturada (...), bagunça.”
(Definição constante do Dicionário Houaiss)



As ambições insopitáveis das oligarquias enquistadas no poder e as ações tresloucadas dos grupos religiosos fanatizados explicam em grande parte a razão do mundo árabe viver em permanente e furibunda ebulição. Mas outros fatores de relevância, nem um tiquinho subestimáveis, têm também peso no rumo das coisas. Rumo e coisas sempre enigmáticos e imprevisíveis, em se tratando dos lugares de que se está a falar.

A política ambígua dos Estados Unidos na região, tão ambígua agora quanto foi na era Bush pra desalento dos que acreditaram no sopro renovador esperançosamente acenado na pregação do candidato Obama, é um desses fatores perturbantes. A política de manifesta intolerância do governo israelita, sempre sensível às pressões do grupo ortodoxo radical integrante da coalizão de forças que comanda o pais, é outro complicador realçante no conturbado cenário.

Os dois paises contrapõem-se de forma insensata ao ponto de vista da grande maioria das nações com assento na ONU. Deram-se as mãos, valendo-se de expedientes os mais ridículos, para obstaculizar o reconhecimento do Estado da Palestina. Uma resolução política corretíssima, aguardada há décadas. E não apenas, compreensivelmente, pelos cidadãos palestinos, mas por toda a opinião pública mundial. Por homens e mulheres de boa vontade apoderados da lúcida certeza de que a conquista da paz ardentemente almejada no conflituoso território passa, obrigatoriamente, em primeiro lugar, por essa histórica decisão. E como se não bastassem os pronunciamentos descabidos, vociferados na tribuna, as chancelarias de ambos paises anunciam, pirracentamente, a disposição de retirar apoio financeiro às atividades da Unesco pela “insultuosa“ acolhida dada a uma representação palestina.

Enquanto tais posicionamentos despropositados são adotados, Tel Aviv autoriza, na marra, a construção de novos núcleos de moradias destinadas a grupos israelenses em áreas pertencentes à futura pátria palestina. Desrespeita, novamente, pactos internacionais, fazendo ouvidos moucos aos protestos universais suscitados pelas apropriações indébitas das terras. Confia, obviamente, pela undécima vez, nas “costas quentes” garantidas pelo poderoso aliado americano. Não liga a mínima à circunstância de seus atos agregarem um complicador a mais nos entendimentos em prol da paz no Oriente Médio. Paz essa, mencione-se de passagem, já “celebrada” um punhado de vezes, com concessão até de Prêmio Nobel aos que a “promoveram”, como o distinto leitor haverá de se lembrar ...

E eis que surge agora um outro episódio emblemático, envolvendo governantes israelenses, no bojo de informação trazida ao conhecimento público pela grande mídia, mas sem pormenores explicativos essenciais. Em troca da libertação de um jovem soldado em poder de extremistas árabes, mais de mil, entre 5 mil palestinos encarcerados e tidos como inimigos do Estado do Israel, deixaram a prisão. As negociações para a libertação foram processadas diretamente com o “Hamas”, sem qualquer interferência da Autoridade Palestina. E isso aconteceu, sintomaticamente, no justo momento em que os dirigentes da “Al Fatah”, base da sustentação legal do governo palestino, compareciam à ONU, pleiteando um assento permanente para a Palestina na organização. Muita gente não conseguiu entender as razões das conversações havidas envolverem apenas o pessoal do “Hamas”. Afinal de contas, esse pessoal tem sido volta e meia apontado, pelo Israel e pelos EUA, como virulento grupo terrorista, vinculado à sinistra “Al Qaeda”. É visto, também, como adversário passional da “Al Fatah”. À conta desse suspeitoso currículo tem sido considerado um interlocutor ilegítimo em quaisquer discussões ligadas às candentes questões do Oriente Médio. Por que, cargas d’água, então, resolveram chamar o “Hamas” para negociar troca de prisioneiros? Observadores qualificados perceberam nesse inusitado procedimento uma jogada maquiavélica urdida com o intuito de desqualificar as ações da Autoridade Palestina em sua busca de reconhecimento universal.

O episódio oferece mais dados instigantes. Cuidemos de anotá-los. O coordenador pelo “Hamas” dos entendimentos com as autoridades de Israel, um clérigo de nome Yussef, encontrava-se até recentemente na prisão. Foi colocado em liberdade com o fito de conduzir as conversações. Repórteres da televisão portuguesa, conforme mostrado em interessante reportagem no “Globo News”, descobriram que o filho mais velho desse clérigo, de nome Mussab, agia no interior da organização terrorista comandada pelo pai como um agente do serviço secreto israelense. Por causa disso, teve que recorrer a asilo político nos Estados Unidos. Em minhas leituras assíduas de jornais e acompanhamento de boletins televisivos nada havia lido, visto ou escutado a respeito desses itens antes de tomar conhecimento da surpreendente reportagem. Vamos, venhamos e convenhamos: não há como deixar de classificar, no mínimo, de estranho o silêncio da grande mídia com relação ao assunto.

No artigo passado – lembra-se o leitor? – falamos de confusões das arábias. Bota confusão nisso.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mídia, Chevron e Petrobras


Cesar Vanucci*

“Não faltará rigor nessa apuração!”
(Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, a propósito
do vazamento de óleo da plataforma da “Chevron”)


Houve-se bem o Governo Brasileiro em ordenar sejam interrompidas, por tempo indeterminado, as operações da Chevron no Brasil. A quarta maior petroleira do mundo pisou feio na bola no episódio do vazamento de óleo no Campo do Frade, na Bacia de Campos. Recorreu a trapaças inimagináveis na construção de sua interpretação dos fatos. Foi longe demais da conta na marota tentativa de engazopamento da opinião pública em que se lançou, começando pelo Parlamento e órgãos de fiscalização.

Favorecida pelo incompreensível e, pode-se dizer mesmo, cúmplice comedimento de parte influente da mídia na divulgação da grave ocorrência ambiental, a empresa norte-americana fez de tudo para ocultar as verdadeiras proporções do incidente. Tratava-se, garantiu, de vazamento provocado por “uma rachadura no solo do oceano”. Um “fenômeno perfeitamente natural”, ousou afirmar. A versão pinoquiana foi reduzida a estilhaços em curto espaço de tempo. A alegação, constatou-se, não passava de embuste, deboche puro.

As informações liberadas a respeito de colossal mobilização de recursos extraordinários que estaria promovendo, objetivando conter o vazamento foram desmentidas, uma a uma. A petroleira sustentou haver requisitado, de imediato, 17 embarcações para as operações de emergência. Mentira. Naquela fase dos trabalhos, deslocou para o local do desastre um único navio. Ao anunciar um plano emergencial de abandono do poço que vinha sendo perfurado, sonegou outro dado fundamental: não dispunha dos equipamentos necessários à execução do plano com a rapidez exigida. O equipamento teve que ser trazido de fora. Só entrou em funcionamento algum tempo depois, sem que os órgãos competentes tivessem sido devidamente notificados de sua chegada. Disso resultou o retardamento de providencias consideradas essenciais. As tapeações da Chevron chegaram ao ápice do atrevimento quando mandou confeccionar um vídeo com imagens adulteradas do incidente. A intenção de, uma vez mais, ludibriar a boa fé alheia ficou manifesta. As cenas editadas “provavam” que a dimensão do desastre ambiental havia sido sensivelmente menor.

Coube a diligentes oficiais da Policia Federal deixar exposta ainda mais a arrogância e impertinência da empresa. A ação policial comprovou a utilização na área pesquisada, na Bacia de Campos, de uma sonda com capacidade para perfurações além de sete mil metros. O fato evidenciou que a petroleira infringiu também, clamorosamente, regras pactuadas quanto às suas atribuições na prospecção que lhe foi confiada. Na verdade, as camadas de petróleo na região explorada podem ser alcançadas a profundidades que tornam dispensáveis sondas desse porte. A ação levada a termo escondia o propósito de facilitar à Chevron acesso, de forma ilegal, clandestina, à camada de pré-sal. Acesso esse não cogitado na outorga de prospecção concedida.

Não há, pois, usando de franqueza, como calar a estranheza diante da tonitruante constatação de que essas coisas todas, de suma gravidade, não conseguiram, apesar dos sinais e indícios abundantes e pertubadores, atrair com a intensidade desejável as atenções da grande mídia. Pergunta-se, então, com certa inquietação quanto a natureza das respostas que possam ser colhidas: e se no lugar ocupado pela estrangeira Chevron, como ré que é de crime bem configurado contra o interesse público, contra o interesse nacional, estivesse colocada a brasileiríssima Petrobras? A cobertura das ocorrências gravíssimas na bacia de Campos teria sido tão controlada, tão parcimoniosa, quanto a que foi dada, no tocante à candente questão, por quase todos os nossos grandes veículos de comunicação? Hein?



Ano aziago para o futebol


“Os últimos serão os mineiros!”
(Gracejo, com jeito de prognóstico, posto a circular nas redes
sociais, a propósito do desempenho do futebol de Minas)

Vexame geral, roçando a tragédia. Um dos três clubes despencou logo de cara ribanceira abaixo. Os demais – sabe lá Deus como – escaparam por um triz do rebaixamento. A coisa andou tão feia por período exageradamente prolongado que muita gente passou a aceitar, resignadamente, como prognostico irremovível um dito em tom de gracejo posto a circular nas redes sociais: “os últimos serão os mineiros” ...

Para os torcedores do América o sofrimento estendeu-se praticamente por todas as rodadas. Os torcedores do Atlético “curtiram” sufoco a maior parte do tempo. A angustia dos cruzeirenses só se desfez, de forma inesperada, na vigésima quinta hora. A goleada implacável aplicada no arquiinimigo, na derradeira e decisiva disputa, rendeu compensações, mas não ocultou jeito maneira a mediocridade da campanha encetada. A expressão mediocridade cai, também, como luva para definir o desempenho do Atlético. Aliás, a posição na tabela dos dois principais clubes do Estado diz tudo e mais alguma coisa. Distanciados um do outro por apenas dois pontos, “desfrutaram”, ambos, a amarga sensação de figurar, com méritos irretorquíveis, na rabeira dos 16 classificados.

Que o futebol praticado pelos atletas em campo situou-se abaixo da critica ninguém põe em duvida. Mas manda a verdade dizer que a responsabilidade por tão assustadores desacertos não pode ser largada a débito exclusivo dos jogadores. Pegue-se o caso do Cruzeiro como exemplo. O time, no principio da temporada, era apontado por todo mundo como real candidato ao titulo. Vindo de espetacular campanha na “Libertadores”, quando a perda do titulo na final só aconteceu por um desses caprichosos acasos brotados, de quando em vez, ao arrepio da lógica, nos excitantes e inextricáveis domínios do “esporte de multidões”, lançou-se de repente, para espanto geral, num processo de desconstrução perversa de tudo aquilo que estava montado e vinha dando certo. Já no meio do primeiro turno todo mundo se perguntava sobre o que estava a suceder com um time que a crônica esportiva chegara a apontar como o único no mundo em condições de se nivelar em brilho técnico com o Barcelona, de Leonel Messi. Ficou claro, de forma avassaladora, que houve um incompreensível desgaste técnico da equipe, provocado por fatores extra-campo.

O Atlético, a seu turno, em que pese a ebulição permanente produzida pelas dispendiosas contratações de técnicos e craques, continuou a desempenhar o papel a que, resignadamente, se afeiçoou de tempos pra cá, no palco dos espetáculos. O papel de despretensioso coadjuvante, em desacordo, gritantemente, com os feitos esportivos doutros tempos.

O desempenho pífio dos times em campo não esgota, tá claro, as explicações a respeito da lastimável circunstância de o ano de 2011 haver sido o pior pro futebol mineiro na era pós Mineirão. Nossos clubes carecem hoje – está na cara – de administrações mais competentes. Reclamam lideranças com maior capacidade de ação e poder de voz na política do futebol. Omissões deploráveis, renúncia inaceitável de direitos, acomodações diante de fatos injustificáveis acarretaram – como não? - danos pesados à credibilidade do futebol mineiro. Isso tem sido a razão de parte ponderável da torcida estar sendo arrastada, a contragosto, ao desalento. Muita coisa relevante que rolou fora do campo influiu marcantemente na desastrada performance dentro de campo. Uma conjugação de variados fatos compôs o contexto negativo em que o futebol mineiro se inseriu. Planejamentos inadequados no que concerne às obras do Mineirão, relativas à Copa de 2014, e do estádio do Sete, sem relação com a Copa, atacadas simultaneamente, privaram os clubes e a torcida de arena apropriada para sediar as competições na Capital, por considerável espaço de tempo. Inequívocos, os prejuízos. Uma outra medida que concorreu fortemente para arrefecer o entusiasmo popular quanto ás disputas foi a incrível decisão de se impor “torcida única” nos estádios distantes que passaram a acolher os clássicos. O saudoso Stanislau Ponte Preta dificilmente deixaria de arrolar essa decisão no seu famoso Febeapá. A “contribuição” da emissora que detém o controle das transmissões por televisão dos jogos, para o descrédito do futebol mineiro foi também “preciosa”. Essa de vedar, por interesse comercial, o acesso do telespectador, nos canais abertos, aos jogos dos times de sua predileção, substituindo-os por partidas, até do exterior, sem qualquer poder de atração para o torcedor, vamos e convenhamos, é de lascar o cano... Não é assim mesmo que como se costumava dizer em tempos de antigamente? Nada de surpresas, por conseguinte, distinto leitor, tendo em vista essa fase atual de descrédito do futebol mineiro, quanto a um outro desconcertante episódio registrado na última rodada do Brasileirão. Para os dez clássicos regionais disputados, nenhum árbitro mineiro foi escalado. Nem mesmo como gandula, ora, veja, pois ...

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

O ser humano em primeiro lugar Cesar Vanucci “A economia é um meio pra se atingir um fim social.” (José Alencar Gomes da Silva, ...