sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Mídia, Chevron e Petrobras


Cesar Vanucci*

“Não faltará rigor nessa apuração!”
(Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência, a propósito
do vazamento de óleo da plataforma da “Chevron”)


Houve-se bem o Governo Brasileiro em ordenar sejam interrompidas, por tempo indeterminado, as operações da Chevron no Brasil. A quarta maior petroleira do mundo pisou feio na bola no episódio do vazamento de óleo no Campo do Frade, na Bacia de Campos. Recorreu a trapaças inimagináveis na construção de sua interpretação dos fatos. Foi longe demais da conta na marota tentativa de engazopamento da opinião pública em que se lançou, começando pelo Parlamento e órgãos de fiscalização.

Favorecida pelo incompreensível e, pode-se dizer mesmo, cúmplice comedimento de parte influente da mídia na divulgação da grave ocorrência ambiental, a empresa norte-americana fez de tudo para ocultar as verdadeiras proporções do incidente. Tratava-se, garantiu, de vazamento provocado por “uma rachadura no solo do oceano”. Um “fenômeno perfeitamente natural”, ousou afirmar. A versão pinoquiana foi reduzida a estilhaços em curto espaço de tempo. A alegação, constatou-se, não passava de embuste, deboche puro.

As informações liberadas a respeito de colossal mobilização de recursos extraordinários que estaria promovendo, objetivando conter o vazamento foram desmentidas, uma a uma. A petroleira sustentou haver requisitado, de imediato, 17 embarcações para as operações de emergência. Mentira. Naquela fase dos trabalhos, deslocou para o local do desastre um único navio. Ao anunciar um plano emergencial de abandono do poço que vinha sendo perfurado, sonegou outro dado fundamental: não dispunha dos equipamentos necessários à execução do plano com a rapidez exigida. O equipamento teve que ser trazido de fora. Só entrou em funcionamento algum tempo depois, sem que os órgãos competentes tivessem sido devidamente notificados de sua chegada. Disso resultou o retardamento de providencias consideradas essenciais. As tapeações da Chevron chegaram ao ápice do atrevimento quando mandou confeccionar um vídeo com imagens adulteradas do incidente. A intenção de, uma vez mais, ludibriar a boa fé alheia ficou manifesta. As cenas editadas “provavam” que a dimensão do desastre ambiental havia sido sensivelmente menor.

Coube a diligentes oficiais da Policia Federal deixar exposta ainda mais a arrogância e impertinência da empresa. A ação policial comprovou a utilização na área pesquisada, na Bacia de Campos, de uma sonda com capacidade para perfurações além de sete mil metros. O fato evidenciou que a petroleira infringiu também, clamorosamente, regras pactuadas quanto às suas atribuições na prospecção que lhe foi confiada. Na verdade, as camadas de petróleo na região explorada podem ser alcançadas a profundidades que tornam dispensáveis sondas desse porte. A ação levada a termo escondia o propósito de facilitar à Chevron acesso, de forma ilegal, clandestina, à camada de pré-sal. Acesso esse não cogitado na outorga de prospecção concedida.

Não há, pois, usando de franqueza, como calar a estranheza diante da tonitruante constatação de que essas coisas todas, de suma gravidade, não conseguiram, apesar dos sinais e indícios abundantes e pertubadores, atrair com a intensidade desejável as atenções da grande mídia. Pergunta-se, então, com certa inquietação quanto a natureza das respostas que possam ser colhidas: e se no lugar ocupado pela estrangeira Chevron, como ré que é de crime bem configurado contra o interesse público, contra o interesse nacional, estivesse colocada a brasileiríssima Petrobras? A cobertura das ocorrências gravíssimas na bacia de Campos teria sido tão controlada, tão parcimoniosa, quanto a que foi dada, no tocante à candente questão, por quase todos os nossos grandes veículos de comunicação? Hein?



Ano aziago para o futebol


“Os últimos serão os mineiros!”
(Gracejo, com jeito de prognóstico, posto a circular nas redes
sociais, a propósito do desempenho do futebol de Minas)

Vexame geral, roçando a tragédia. Um dos três clubes despencou logo de cara ribanceira abaixo. Os demais – sabe lá Deus como – escaparam por um triz do rebaixamento. A coisa andou tão feia por período exageradamente prolongado que muita gente passou a aceitar, resignadamente, como prognostico irremovível um dito em tom de gracejo posto a circular nas redes sociais: “os últimos serão os mineiros” ...

Para os torcedores do América o sofrimento estendeu-se praticamente por todas as rodadas. Os torcedores do Atlético “curtiram” sufoco a maior parte do tempo. A angustia dos cruzeirenses só se desfez, de forma inesperada, na vigésima quinta hora. A goleada implacável aplicada no arquiinimigo, na derradeira e decisiva disputa, rendeu compensações, mas não ocultou jeito maneira a mediocridade da campanha encetada. A expressão mediocridade cai, também, como luva para definir o desempenho do Atlético. Aliás, a posição na tabela dos dois principais clubes do Estado diz tudo e mais alguma coisa. Distanciados um do outro por apenas dois pontos, “desfrutaram”, ambos, a amarga sensação de figurar, com méritos irretorquíveis, na rabeira dos 16 classificados.

Que o futebol praticado pelos atletas em campo situou-se abaixo da critica ninguém põe em duvida. Mas manda a verdade dizer que a responsabilidade por tão assustadores desacertos não pode ser largada a débito exclusivo dos jogadores. Pegue-se o caso do Cruzeiro como exemplo. O time, no principio da temporada, era apontado por todo mundo como real candidato ao titulo. Vindo de espetacular campanha na “Libertadores”, quando a perda do titulo na final só aconteceu por um desses caprichosos acasos brotados, de quando em vez, ao arrepio da lógica, nos excitantes e inextricáveis domínios do “esporte de multidões”, lançou-se de repente, para espanto geral, num processo de desconstrução perversa de tudo aquilo que estava montado e vinha dando certo. Já no meio do primeiro turno todo mundo se perguntava sobre o que estava a suceder com um time que a crônica esportiva chegara a apontar como o único no mundo em condições de se nivelar em brilho técnico com o Barcelona, de Leonel Messi. Ficou claro, de forma avassaladora, que houve um incompreensível desgaste técnico da equipe, provocado por fatores extra-campo.

O Atlético, a seu turno, em que pese a ebulição permanente produzida pelas dispendiosas contratações de técnicos e craques, continuou a desempenhar o papel a que, resignadamente, se afeiçoou de tempos pra cá, no palco dos espetáculos. O papel de despretensioso coadjuvante, em desacordo, gritantemente, com os feitos esportivos doutros tempos.

O desempenho pífio dos times em campo não esgota, tá claro, as explicações a respeito da lastimável circunstância de o ano de 2011 haver sido o pior pro futebol mineiro na era pós Mineirão. Nossos clubes carecem hoje – está na cara – de administrações mais competentes. Reclamam lideranças com maior capacidade de ação e poder de voz na política do futebol. Omissões deploráveis, renúncia inaceitável de direitos, acomodações diante de fatos injustificáveis acarretaram – como não? - danos pesados à credibilidade do futebol mineiro. Isso tem sido a razão de parte ponderável da torcida estar sendo arrastada, a contragosto, ao desalento. Muita coisa relevante que rolou fora do campo influiu marcantemente na desastrada performance dentro de campo. Uma conjugação de variados fatos compôs o contexto negativo em que o futebol mineiro se inseriu. Planejamentos inadequados no que concerne às obras do Mineirão, relativas à Copa de 2014, e do estádio do Sete, sem relação com a Copa, atacadas simultaneamente, privaram os clubes e a torcida de arena apropriada para sediar as competições na Capital, por considerável espaço de tempo. Inequívocos, os prejuízos. Uma outra medida que concorreu fortemente para arrefecer o entusiasmo popular quanto ás disputas foi a incrível decisão de se impor “torcida única” nos estádios distantes que passaram a acolher os clássicos. O saudoso Stanislau Ponte Preta dificilmente deixaria de arrolar essa decisão no seu famoso Febeapá. A “contribuição” da emissora que detém o controle das transmissões por televisão dos jogos, para o descrédito do futebol mineiro foi também “preciosa”. Essa de vedar, por interesse comercial, o acesso do telespectador, nos canais abertos, aos jogos dos times de sua predileção, substituindo-os por partidas, até do exterior, sem qualquer poder de atração para o torcedor, vamos e convenhamos, é de lascar o cano... Não é assim mesmo que como se costumava dizer em tempos de antigamente? Nada de surpresas, por conseguinte, distinto leitor, tendo em vista essa fase atual de descrédito do futebol mineiro, quanto a um outro desconcertante episódio registrado na última rodada do Brasileirão. Para os dez clássicos regionais disputados, nenhum árbitro mineiro foi escalado. Nem mesmo como gandula, ora, veja, pois ...

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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