sexta-feira, 30 de julho de 2021

 

Esses moços...

 

Cesar Vanucci

 

"Esses moços, pobres moços, ah se soubessem o que eu sei..."

(Lupicínio Rodrigues)

 

Navegar pela Internet é o passatempo predileto de um bocado de viventes. A entusiástica disposição que impele tanta gente a singrar essa vastíssima massa oceânica de informações, em constante expansão que nem o universo, confere sentido à lírica recomendação de Fernando Pessoa, endereçada a homens resolutos, de que "navegar é preciso". Os navegadores topam pela frente toda sorte de descobertas. Algumas interessantes, outras úteis como orientação de vida.

A historieta que chega pelo correio eletrônico comunica rica lição. Foi colhida na excursão de um internauta. Em razão de seu saboroso conteúdo, não resisti à tentação de reproduzi-la, para reflexão de meu reduzido, posto que assíduo, leitorado.

Seguinte: discorrendo sobre o conflito de gerações, o cientista inglês Ronald Gibson abriu uma conferência, citando quatro frases:  1ª) "A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus."; 2ª) "Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país, se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque essa juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."; 3ª) "O nosso mundo atingiu seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."; 4ª) "Esta juventude está estragada até o fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura."

Concluída a leitura, o expositor provocou o público com relação aos conceitos expendidos nas frases. Satisfeito com a aprovação dada às palavras, resolveu, então, revelar a origem de cada uma das frases. A primeira é de Sócrates (470-399 a.C.). A segunda é de Hesíodo (720 a.C.). O autor da terceira é um sacerdote que viveu no ano de 2000 a.C. A quarta é texto extraído de um vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilônia, contando, portanto, com 4000 anos de existência.

Tais registros dispensariam, à primeira vista, comentários. O impacto das frases, considerada a sua localização no tempo, já é estupendo comentário. A “juventude desenfreada” de eras remotas ganhou rótulos parecidos milênios adiante. Virou juventude rebelde, juventude transviada, juventude perdida. O vezo de se jogar sobre ombros moços a culpa toda pelo incessante desvario dos seres humanos varou os tempos, passando de uma para outra geração. É um jeito maroto que muitos, entre os mais velhos, encontraram de se livrar das acusações da própria consciência quanto aos malfeitos produzidos com seu concurso direto ou indireto. 

Cada geração costuma ser alvo de condenações pela geração que a antecede. Recordo-me de coisas no gênero presenciadas nos tempos de colegial. Convivi com educadores respeitáveis que apontavam na posse de um exemplar de gibi crime sem perdão. Garotinho ainda, traumatizou-me por algum tempo a atitude de um professor, a quem confessei meu encantamento diante da leitura de textos de Jorge Amado e de Carlos Drummond de Andrade. Em reação enfurecida, na sala de aula, ele declarou, enfaticamente, que a literatura comentada era subversiva e de má qualidade. Achando pouco o despautério cometido, citou os versos famosos da "pedra no caminho", classificando-os de antipoesia. Tá claro que me senti naquele momento, por conta da fulminante "ação pedagógica" do festejado mestre, um mísero integrante, com carteirinha assinada, da tal "juventude transviada". 

Dá pra perceber assim, numa reavaliação dessas condenações, ao longo dos tempos, ao comportamento dos jovens, que seus autores, de modo geral, andaram bastante distanciados da sagrada missão de transmitir, em nome de sua geração, à geração seguinte, o louvor da vida.

 

 

O poeta e o programa infantil

 

Cesar Vanucci

 

“Saudade é ser, depois de ter.”

(Guimarães Rosa)

 

O “Programa Infantil” da PRE-5 era produzido, dirigido e apresentado pela saudosa Altiva Glória Fonseca, uma mulher charmosa e inteligente, de presença destacada nas atividades culturais e assistenciais em Uberaba. Levado ao ar nas manhãs de domingo, com participação animada de público fiel, que lotava o assim chamado “salão grená” da emissora, atraia (anos 40) uma legião considerável de ouvintes. As atrações artísticas, garotos e garotas com inclinação para canto, declamação, esquetes, galvanizavam vibrantes torcidas, os orgulhosos pais da gurizada em plano de realce. Augusto Cesar Vanucci, Pedrinho Ricciopo, Arahilda Gomes, Neuza Papini, Nancy Pagano, Irmalda Dorça, Alaor José Gomes, Maria Abadia de Oliveira,

Irmãos Miranda, Chiquito Pereira Alves, Vicente de Paula Oliveira, Joel Andrade Loes, Walia Vieira, Zilma Buggiato Faria, este desajeitado locutor que vos fala eram, entre outros, integrantes do “elenco permanente” do programa. Os ensaios para as apresentações ocorriam nas tardes de sábado. O Regional da estação de rádio, dirigido pelo maestro João Tomé, artista de mão cheia, capaz de arrancar sons de tudo quanto é instrumento apesar da cegueira de nascença, cuidava com esmero do acompanhamento dos intérpretes, fazendo, se preciso, fundo para declamações. O conjunto compunha-se de piano, violão, cavaquinho, flauta, bateria e pandeiro.

As imagens de borbulhante júbilo daqueles anos dourados da meninice acodem-me com constância à memória velha de guerra. Indoutrodia, num encontro de cunho poético, fui buscar no baú uma lembrança danada de terna do “Programa Infantil da E-5”. Ao tomar da palavra para contar histórias sobre eventos literários, citando autores, livros e versos de minha predileção, relembrei a história de um poeta norte-americano, Langston Hughes, recitando um de seus poemas. Assinalei que o poema eu o decorara para declamação em audição do programa. Recuperei na hora, repassando-a aos participantes do encontro cultural, meiga cena. A Altiva Glória Fonseca incumbiu-me de um “dever de casa” nas proximidades de um dia 13 de maio. O programa da semana seria voltado para manifestações lítero-musicais com foco na abolição da escravatura. A encomenda que recebi foi a de decorar o poema “Sou negro”, do poeta acima citado. Sob a zelosa supervisão de minha saudosa mãe Tonica, decorei pra nunca mais esquecer os versos recomendados, de suave sopro lírico e de dardejante conteúdo social. Bate-me forte, aqui e agora, a tentação de reproduzi-los para deleite, por certo, dos cultos leitores. Vai lá:

“Eu sou negro: / Negro como a noite é negra, / Negro como as profundezas d’África. Fui escravo: / Cesar me disse para manter os degraus da sua porta limpos. / Eu engraxei as botas de Washington. Fui operário: / Sob minhas mãos as pirâmides se ergueram. / Eu fiz a argamassa para a fábrica de algodão. Fui cantor: / Durante todo o caminho da África até a Geórgia / Carreguei minhas canções de dor. / Criei o ragtime. Fui vítima: / Os belgas cortaram minhas mãos no Congo. / Eles me lincham até hoje no Mississipi. Eu sou Negro: / Negro como a noite é negra / Negro como as profundezas da minha África.”

 

Do poeta, nascido em 1º de fevereiro de 1902 e falecido em 22 de maio de 1967, fiquei sabendo mais tarde tratar-se de um inovador da arte literária, cioso de sua ancestralidade negra. Ativista social, romancista, dramaturgo, acabou firmando conceito como o mais importante poeta negro de seu país. Um homem que soube transpor para a palavra os ritmos e a cadência da música de sua gente, notadamente o blues.

E quanto ao programa da E-5? Ele é capítulo de dias idos. Da aurora da vida, da infância querida, que os anos não trazem mais, de que fala Casimiro de Abreu. Converteu-se em saudade. Ou seja, passou “a ser, depois de ter”, como diz Guimarães Rosa.

sexta-feira, 23 de julho de 2021

 

Que tempos!

 

Cesar Vanucci

 

“Lamentável quanto à forma e ao conteúdo”.

(Nota oficial do TSE sobre declaração do Presidente Bolsonaro”

 

Estupefação! De tom bastante vigoroso, ainda assim a expressão revela-se insuficiente para exprimir o estado de espírito reinante frente às arengas, de teor antidemocrático, produzidas pelo ocupante do Planalto. Na crônica política jamais se presenciou algo assim. O Supremo mandatário – no caso especifico, um governante guindado ao posto com consagradora votação pelo voto eletrônico – a lançar no ar, de repente, declarações tão esdrúxulas quanto à lisura do modelar processo eleitoral e contra outros valores igualmente caros ao sentimento nacional.

 

São ditos e atos belicosos que trazem intranquilidade social, afetando as atividades produtivas. A inquietação suscitada impele as lideranças e organizações representativas da coletividade a comparecerem a público para reiterar sua inteiriça confiança nas instituições. Trata-se de louvável tentativa de abrandamento das tensões, recomendada pelo bom-senso.

 

Em ataques desabridos ao modelar sistema eleitoral vigorante, sem prova que dê sustentação à assertiva, lançou-se no ar a suspeita de o processo aprestar-se a fraudes.

A atitude permite uma associação de ideias com a “trapalhada” que Trump aprontou na eleição presidencial em seu país. A ameaçadora alegação de que sem voto impresso não haverá eleição desencadeou, de imediato, reações de personalidades destacadas, de diferentes tendências, repudiando incisivamente as despropositadas manifestações.

 

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Luiz Roberto Barroso, em nota, definiu a declaração como “lamentável quanto à forma e ao conteúdo”. Explicou que, desde a implantação das urnas eletrônicas, em 1996, jamais se documentou qualquer fraude. Recordou que, de lá pra cá, foram eleitos os Presidentes Fernando Henrique, Lula, Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro. Aduziu: “Como se constata singelamente, o sistema não só é íntegro como permitiu a alternância no Poder”. O Ministro aludiu ainda, reportando-se à eleição de 2014, que o PSDB, partido que disputou o segundo turno, promoveu auditoria no esquema de votação e reconheceu a legitimidade dos resultados. Citando os ministros que, antes dele, Barroso, presidiram o TSE participando da organização dos pleitos, afirmou que “a acusação leviana de fraudes é ofensiva a todos”. No âmbito da Corte, foi tomada também decisão de se pedir ao Presidente Bolsonaro, por intermédio da Corregedoria Geral Eleitoral, “que apresente as supostas provas de fraude”. Barroso esclarece que até aqui não houve qualquer resposta. Na conclusão da nota oficial do TSE é salientado o seguinte: “Qualquer atuação no sentido de impedir as eleições na data prevista na Constituição viola princípios constitucionais e configura crime de responsabilidade”.

 

Numerosas outras autoridades, entre elas os presidentes do Senado e da Câmara do Deputados, governadores de estado, líderes de organizações partidárias e de entidades da sociedade civil comentaram publicamente, rechaçando-as, as impertinentes vociferações antidemocráticas. Chamou atenção em especial o pronunciamento dos subprocuradores da República, integrantes do Conselho Superior do Ministério Público Federal. Eles solicitaram do Procurador Geral da República, Augusto Aras, abertura de investigação sobre as declarações do Presidente Jair Bolsonaro. Argumentaram que “as falas presidenciais têm traços de grave e concreta ameaça ao principal instituto de concretização da democracia e pode configurar abuso”.

 

Que instantes mais sombrios esses! Além da medonha pandemia, ineficientemente combatida - como documentado na CPI do Senado -, os brasileiros ainda se veem às voltas, naturalmente apreensivos, com intimidadoras agressões a conceitos e valores arraigados na consciência cívica e democrática.

 

 

O voo do besouro


Cesar Vanucci

 

“Estou convencido de que dentro das próximas décadas haverá um contato entre nossa Humanidade e alguma civilização extraterrestre”.

(Brigadeiro Moreira Lima, ex-ministro)


Como prometido, trago hoje, em versão resumida, a história do besouro, invocada de maneira bem instigante pelo brigadeiro Guedes Muniz no fecho da conferência sobre “discos voadores” do então coronel Adil de Oliveira, na Escola Superior de Guerra, no dia 2 de novembro de 1954.

Aludindo às dificuldades que os engenheiros militares teriam que forçosamente enfrentar no afã de explicar alguma coisa acerca da viabilidade científica dos óvnis, o brigadeiro recorreu metaforicamente a uma anedota. “A anedota do besouro, muito velha, mas muito oportuna de ser lembrada aqui.” Caso é que os melhores especialistas em aeronáutica no mundo inteiro foram convocados a participar de um encontro com o fito de estudar a complexidade do sistema de voo do besouro. Examinaram com afinco a forma aerodinâmica do inseto, considerada tremendamente errada; sua superfície alar, espantosamente deficiente; sua potência para decolagem, reconhecidamente impossível. Depois de infinitos cálculos e demonstrações científicas exaustivas, chegaram à inabalável conclusão de que o besouro não tem condições, definitivamente, de voar. Mas como não se interessasse pelo conclave, não se inteirasse de suas doutas conclusões e nem, tampouco, esteja atento às notícias do Jornal Nacional, o besouro continuou imperturbavelmente a voar.

Com os “discos voadores” as coisas se passam, mais ou menos, como nessa anedota com feição de fábula. “Eles não existem coisíssima nenhuma”, asseveram alguns. “Mera ilusão de ótica, fruto de cabeças ruins, de charlatanice pura e simples”, garantem outros, envoltos em embriagadora certeza. “A ciência refuta a hipótese”, bradam, às vezes coléricas, figuras respeitáveis em conceituados redutos do conhecimento humano consolidado. Indiferentes, porém, à artilharia pesada das contestações infrenes ou da negação sistemática e preconceituosa praticada por atacado por incrédulos, os óvnis não param de dar o ar da graça nos céus, nos mares, na terra. E isso ocorre, segundo asseguram renomados pesquisadores, desde tempos imemoriais.

Exemplo frisante dessa notável incidência casuística, para lembrar um caso de repercussão na esfera militar entre milhares de ocorrências devidamente documentadas, é a célebre “revoada dos ufos” acontecida na madrugada de 19 de maio de 1986 no espaço aéreo brasileiro, entre Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Pilotos das esquadrilhas de interceptação da Defesa Aérea, comandantes de aviões de carreira, um Ministro de Estado, especialista em aviação, aviadores civis a bordo de aeronaves de pequeno porte, técnicos do Sistema de Controle do Tráfego Aéreo compõem o respeitável elenco de testemunhas das desnorteantes aparições. Os fatos ganharam estrondosa divulgação e o comando da FAB sentiu-se na obrigação de emitir comunicado, prometendo explicações detalhadas para outro momento. As explicações demoraram vir a público. Mas a declaração enfática dada tempos depois pelo brigadeiro Moreira Lima, à época do incidente Ministro da Aeronáutica, revigorou a certeza de que, conforme anos antes sustentado por um outro Brigadeiro, João Adil de Oliveira, “disco voador é assunto que merece ser tratado com a máxima seriedade.” Entrevistado no programa “Mistério”, da extinta Rede Manchete, pela jornalista Rejane Schumann, na presença do estudioso do fenômeno dos discos voadores Marco Antônio Petit, Moreira Lima assinalou, ao lado de outras surpreendentes revelações, estar “convencido de que dentro das próximas décadas haverá um contato entre nossa Humanidade e alguma civilização extraterrestre.”

Qualquer hora dessas, voltarei a relatar casos ufológicos famosos baseados em testemunho militar.

sábado, 17 de julho de 2021

 

Óvnis, um assunto sério


Cesar Vanucci

 

 “O problema dos discos-voadores

 merece ser tratado com seriedade.”

(Brigadeiro João Adil de Oliveira)


O dia 16 de janeiro de 1958 ficou gravado de forma memorável por oficiais e marinheiros da Força Naval brasileira que participavam de manobras no litoral capixaba, imediações da Ilha da Trindade. Por volta das 16 horas, as atenções de todos se voltaram estrepitosamente à contemplação de um desconcertante espetáculo aéreo. Gigantesco objeto, de formato discoidal, promovia espantosa coreografia diante de extasiada plateia, militares na quase totalidade. As evoluções do aparelho desafiavam todas as leis conhecidas da física. A nave, de aparência metálica, não lembrava em nada nenhum tipo de artefato aéreo concebido pelo engenho humano.

No convés do navio capitânea, o “Almirante Saldanha”, um fotógrafo profissional civil, Almiro Baraúna, dedicava-se a documentar os exercícios navais em curso. Assestando o foco da objetiva no estranho aparelho, bem visível a olho nu, obteve estupenda sequência fotográfica, que acabou merecendo registro na crônica ufológica mundial como um dos mais extraordinários documentários pertinentes à presença dos óvnis na atmosfera terrestre. Com a circunstância, sumamente positiva, de encontrar respaldo num testemunho ocular irrefutável, numérica e qualitativamente da maior respeitabilidade. As fotos chegaram logo aos jornais e agências noticiosas, alcançando impactante ressonância mundial. A autorização para que fossem liberadas partiu do próprio Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, um estadista de mente aberta e visão de futuro. Decisão de caráter vanguardeiro. O Brasil notabilizou-se como o primeiro país a exibir, com a chancela oficial do governo, uma documentação nítida e incontestável das aparições dos misteriosos “objetos voadores não identificados”, de suposta origem extraterrena.

O “Incidente de Trindade” está registrado como instante de alta relevância da participação militar nas investigações ufológicas. Sabe-se, com certeza, que anos antes a Aeronáutica já vinha se dedicando a estudos pertinentes ao enigmático tema. Conservo em arquivo uma sonora comprovação desse trabalho: cópia integral de impressionante depoimento, a conferência proferida, em 2 de novembro de 1954, na Escola Superior de Guerra, para platéia constituída por centenas de oficiais graduados das três Armas, pelo coronel aviador João Adil de Oliveira, à época chefe do Serviço de Informações do Estado Maior da Aeronáutica. Esse oficial, mais tarde promovido a Brigadeiro, ganhou notoriedade nacional, na década de 50, por haver presidido a Comissão Militar de Inquérito que apurou o atentado da rua Toneleros, em que foi assassinado o Major Vaz e saiu baleado o jornalista.

Carlos Lacerda. O dramático episódio, como se recorda, detonou a grave crise política culminada com o suicídio do Presidente Getúlio Vargas.

O expositor proclamou, sem vacilações, que “o problema dos “discos-voadores” polariza a atenção do mundo inteiro, é sério e merece ser tratado com seriedade”. Disse mais: “os governos das grandes potências se interessam pelo problema e o tratam com seriedade e reserva, dado seu interesse militar.” Enumerou, com abundantes pormenores, instigantes ocorrências ufológicas e convincentes depoimentos de cientistas, pesquisadores e contatados. Após a conferência, foram apresentadas “algumas testemunhas de casos comprovados pelas investigações da Aeronáutica”.

No fecho do encontro na ESG, o Brigadeiro Guedes Muniz, então presidente da ADESG, fez uma observação ultra intrigante. Aludindo às compreensíveis dificuldades confrontadas por técnicos e engenheiros militares em arriscar pareceres acerca da viabilidade técnica e científica “desses vagabundos do espaço”, ele recorreu a uma fábula que tem o besouro como personagem, “oportuna de ser lembrada aqui”.

Comprometo-me a narrar, qualquer dia desses, a sugestiva historinha do besouro.

 Pandemia, desemprego, Copa

 

Cesar Vanucci

 

“Programa oficializa corte de salários e jornadas.”

(Noticiário dos jornais)

 

• Oferecemos abaixo uma resenha fidedigna dos traumatizantes acontecimentos vividos pela Nação em consequência da pandemia. Algo fadado a ser uma dolorida tragédia, com considerável número de vítimas, acabou se tornando uma catástrofe de medonhas proporções, com inimaginável volume de vidas ceifadas, sendo que parte delas, segundo avaliações de acatados cientistas, poderia, perfeitamente, ter sido poupada. E tudo isso - minha Nossa! - por conta de erros crassos, verdadeira lambança cometidos pelos setores competentes na esfera oficial. Na lida da questão faltou liderança, faltou coordenação, faltou planejamento. Sobrou despreparo gerencial. Sobraram ações e omissões clamorosas. O combate ao flagelo, notoriamente deficiente, revelador de despreparo gerencial, começou tarde demais. A vacinação, vagarosa, também começou muito depois da hora recomendada. O negacionismo científico levou a estripulias sem conta nas decisões relevantes no combate ao mal. A ausência de bom senso e as interpretações equivocadas de fatos sociais e políticos, por parte de grupos ideológicos de feição radical, com influência descabida nas definições sobre as diretrizes a serem seguidas, representam outros sinais perturbadores identificados na condução do processo de combate ao coronavírus. A CPI do Senado está trazendo a lume estarrecedoras revelações. Até mesmo indícios chocantes de corrupção na compra de vacinas.

Enquanto tudo isso se desenrola, milhares de famílias pranteiam seus mortos queridos e assistem com cuidados especiais seus enfermos sequelados. Tudo isso brada aos céus!

 

O IBGE aponta um novo (indesejável) recorde brasileiro: o desemprego chegou a quase 15 por cento da população ativa. Empregando expressão repleta de significados no linguajar das ruas, nutro temores de que o buraco seja ainda mais embaixo... O atordoante índice contempla pessoal que deixou de fazer jus, como comumente se diz, a “carteira assinada”. A esse expressivo contingente há que se agregar a multidão dos que atuavam, até bem pouco tempo, na informalidade e que perderam, nesta hora sombria, sua capacidade aquisitiva. Tem mais: e a rapaziada que, deixando os estudos básicos, emerge para o mercado de trabalho e que experimenta malogro na conquista do primeiro emprego? A dramaticidade da situação social, vigorante neste país das oportunidades desperdiçadas, toma extensão ainda mais avultada quando se tem em mira a injustificável ausência de projetos de desenvolvimento capazes de absorver parcelas significantes da mão de obra disponível. E, além do mais, pra piorar as coisas, quando surge desassossegante anúncio acerca da disposição governamental em tornar definitiva a política de redução de salários e de jornada. E o que não dizer, dentro dessa mesma linha de raciocínio, das aflições geradas nos lares pela incessante (e incontrolável) alta dos preços de produtos de consumo, processada debaixo da indiferença glacial dos órgãos oficiais reguladores?

 

• A história é tão intrigante que merece ser novamente comentada. Entre as manifestações populares de desagrado com relação ao estado de coisas caótico reinante no país, chama atenção, por sua singularidade, o deliberado desinteresse dos cidadãos pela Copa América, torneio, ao que consta, em curso nos gramados de algumas capitais. Ninguém comenta partida ou lance algum dos jogos, que reúnem seleções da América do Sul, três delas detentoras de títulos mundiais. Imaginar que algo desse gênero pudesse algum dia ocorrer num país onde a paixão pelo futebol começa, por assim dizer, com “embaixadinhas” dos bebês nos ventres maternos, é de um surrealismo desnorteante. A propósito, o leitor aí, apaixonado pelo esporte das multidões, sabe dizer qual foi mesmo o resultado do último jogo da seleção canarinho?    

sexta-feira, 9 de julho de 2021

 

Flagrantes do cotidiano

 

Cesar Vanucci

 

“Com a Copa América parece que

o futebol deixou de ser alegria do povo”.

(Domingos Justino Pinto, educador)

 

• A pergunta é pra você aí, torcedor apaixonado. Você aí, que conhece tudo sobre o esporte das multidões e que sabe apontar, de cor e salteado, sem vacilações, as escalações (incluindo treinador, auxiliares técnicos, reservas, preparadores físicos, massagistas, roupeiros) de todas as seleções brasileiras que conquistaram títulos mundiais e regionais. Explique por que mané cargas d’água esse ensurdecedor silêncio de tumba etrusca à volta da “Copa América”, ora disputada em estádios do país. Por onde se circula, nos papos entre conhecidos, nas conversas telefônicas, nas mensagens trocadas nas redes sociais, não se ouve nem se lê nadica de nada sobre o que anda rolando nos gramados. Nenhuma bandeira é agitada nas janelas em dia de jogo do Brasil, ninguém sai à rua com a camisa canarinho. Nada de foguete na hora de gol. Parece que se compôs, na consciência das ruas, uma cumplicidade global para expressar indiferença quanto ao torneio. Por que será mesmo que isso está acontecendo? A pandemia, por si só não esclarece essa reação coletiva de desinteresse, impensável quando se tem presente o fato de que estamos no país do futebol.

 

• Dois momentos imperdíveis na programação televisiva domingueira. Globo, 14 horas, “The Voice Kids” (o título bem que poderia ter sido abrasileirado, não é mesmo?); Record, 18 horas, “Canta Comigo”. Os dois musicais, de belo feitio, têm proporcionado enlevantes emoções aos telespectadores. Ouvindo os cantores mirins e os cantores adultos, em bem cuidadas performances, a gente não tem como evitar o “lugar comum” das demonstrações de entusiasmo das ruas, quando frente à criatividade popular: somos um eterno celeiro de craques.

 

• Os fabricantes da vacina contra a Covid-19 estipulam na bula (que o Ministro da Saúde diz não haver lido), um intervalo determinado entre a primeira e segunda doses. Tem ocorrido com alarmante frequência, por inconcebível escassez do imunizante, de os prazos recomendados não serem cumpridos. Seria de toda relevância e oportunidade os setores competentes divulgarem esclarecimentos sobre o que pode resultar dessa alteração de prazo. Disso decorre diminuição do potencial da vacina? Se ampla demais a distância entre a primeira e segunda doses ocorreria, por acaso, a necessidade imperiosa de uma terceira dose? 

 

• Numa das vezes em que acompanhou depoimento na CPI da Pandemia, este escriba velho de guerra foi tomado de enorme perplexidade ao ouvir, da boca de executivo da Saúde, absurda comparação da marca comemorativa dos cento e vinte anos da Fiocruz com um símbolo obsceno. É incrível observar o transtorno que pode se operar na cuca de alguém que se deixe contaminar por dogmas talebanistas!

 

• A impressão que tenho é que nenhum chefe de família ou dona de casa consegue hoje mencionar um único item sequer, da extensa variedade de produtos consumidos nos lares, que não tenha sofrido alteração a maior nestes últimos tempos. Tudo está subindo vertiginosamente, alimentos, medicamentos, etecetera. A carestia está tirando o sono de muita gente. A inflação voltou com todo ímpeto à vida nacional.

 

• E o Cruzeiro? Como é que pode? É muito chocante admitir, mas se alguma intervenção radical nos rumos do futebol apresentado em campo não for logo tomada, o desfecho melancólico da história toda será a participação do Clube - detentor de extraordinários feitos no passado - na temporada vindoura, na terceira divisão. Quem ousaria conceber, pratrazmente, que as coisas pudessem algum dia chegar a esse extremo!

 

Lances da atualidade

 

Cesar Vanucci

 

“516 mil mortos pela Covid-19 no Brasil.”

(Dados apurados até o dia 29/junho/21)

 

• Recentes pesquisas de opinião sobre intenções de votos, admitindo-se a suposição de uma eleição para a Presidência da República no momento atual, apontam larga vantagem do ex-presidente Luiz Ignácio Lula da Silva frente a eventuais candidatos. Esses resultados encontram explicações, segundo experimentados analistas de assuntos políticos, nas circunstâncias a seguir alinhadas. Lula conta, em qualquer cenário de disputa eleitoral, com um contingente significativo de simpatizantes, mesmo enfrentando acusações sobre sua conduta administrativa, graças a inegáveis realizações sociais ocorridas no curso de seus mandatos. De outra parte, há que se levar em consideração a repercussão favorável junto a setores da opinião pública, face a decisões proferidas pelo STF. A primeira reconhecendo a incompetência legal da Justiça Federal do Paraná em apreciar processos em que figurou como réu, transferindo-os para alçada de outras esferas judicantes, o que implica praticamente na reabertura de todo o sistema de averiguações já levadas a cabo. Em segundo lugar, admitindo que o ex-magistrado Sérgio Moro, que veio a ocupar o Ministério da Justiça no governo Bolsonaro, afastando-se da função em litígio com o Presidente, atuou de forma parcial e politicamente tendenciosa, na condução de feitos envolvendo o ex-presidente, um dos quais determinante de sua prisão por mais de ano. O desfecho de julgamentos envolvendo Lula, ainda em andamento, conforme se depreende do relato, vai ter, obviamente, influência na avaliação de sua popularidade perante o eleitorado. Em consultas de opinião vindouras isso será naturalmente demonstrado.

 

• A metodologia de cientistas conceituados quanto a cálculos sobre o número de vidas que poderiam ter sido salvas, pode dar motivo para controvérsias. O que, todavia, não comporta dúvida, é que a negligência gerencial no combate à Covid-19, entre nós, contribuiu para que o número de vítimas superasse bastante os índices mundiais de mortalidade.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

 

Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais

empossa quatro novos acadêmicos


Flagrantes da cerimônia de posse
(Fotos  colhidas por Alvimar Peres)

 

Em sessão solene realizada no dia 26 de junho, sábado, às 10 horas, em sua sede, a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais empossou quatro novos acadêmicos. São eles: Ângela Rodrigues Laguardia (representante de Barbacena), que foi saudada pela acadêmica Elizabeth Rennó, representada pela acadêmica Maria Inês Marreco, presidente eleita a ser empossada no cargo em julho;  Marzo Sette Torres (representante de Belo Horizonte), saudado pela acadêmica Ângela Togeiro Torres; Maria Goretti de Freitas Oliveira (Ipatinga) e Nilze Monteiro Batista (Belo Horizonte), que foram saudadas pelo acadêmico Cesar Vanucci.

Ângela Togeiro atuou como Mestre de Cerimônia. Os empossados receberam os diplomas e distintivos protocolares, à hora do juramento e assinaturas do termo de posse.

 

Saudação às acadêmicas

Maria Goretti de Freitas Oliveira e Nilze Monteiro Batista

 

Cesar Vanucci, presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais fez, na ocasião, o pronunciamento abaixo reproduzido.

Sinto-me profundamente lisonjeado com o convite para proferir uma palavra de saudação, nesta cerimônia cheia de amorosidade, às novas acadêmicas Nilze Monteiro Batista e Maria Goretti de Freitas Oliveira. Comprometo-me a não utilizar nem quinze minutos dos dez minutos estipulados pelo protocolo para este honroso procedimento.

A pandemia manteve-nos distanciados fisicamente por largo espaço de tempo. O reencontro de hoje reafirma a constancia de nossa aproximação em torno dos valores do espírito humano. Vale dizer: elos poderosos mantêm-nos juntos, não importam quaisquer circunstâncias adversas, na celebração da inteligência, da arte, da criatividade, enfim, da cultura, razão de ser de nossa presença neste sodalício de enriquecedoras tradições. Sob a inspiração de São Francisco, temos aqui um abençoado repositório de ideias generosas. A Amulmig é guardiã serena de saberes acumulados, por força de nossa integração. E a serenidade de Deus está sempre presente nas coisas que fazemos juntos.

 Maria Goretti de Freitas Oliveira e Nilze Monteiro Batista chegam a esta Casa portando invejáveis troféus conquistados em suas realizações como arautos da cultura. Conhecem muito da lida cultural. É só atentar para seus cintilantes currículos. Entendem, como todo intelectual identificado com as coisas de seu tempo e de sua gente, que o espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto.

Por essa razão colocam ardor singular, sensibilidade social em ditos e feitos. Isto está abundantemente comprovado nos atos de Nilze, graduada em Ciência da Informação pela UFMG, dona de valiosa bagagem de títulos em extenso labor profissional e cultural que não conhece fronteiras. Isto vem também vastamente evidenciado nas ações de Maria Goretti, nas coruscantes atividades abraçadas em áreas pedagógica e da criação literária. Ambas as duas fazem jus, por sobejos motivos – e a leitura de seus currículos traz todos os argumentos necessários para legitimar a afirmação – às louvações, aplausos, apreço que as envolvem nos meios em que tão proficuamente atuam. Entendo que uma posse acadêmica mereça ser enxergada por todos como um ato sacramental.

Ao serem investidas na condição de acadêmicas em nossa gloriosa Amulmig – Casa de São Francisco que também é Casa de JK – Goretti e Nilze veem-se rodeadas pela sublimidade que emana de todo evento sacramental. As acadêmicas Nilze e Goretti agregam ao quadro de associados da instituição os dons e predicados de criaturas magnificamente identificadas com a causa da construção humana. Ao mesmo tempo, elas duas, Goretti e Nilze, passam a haurir fluidos positivos da poderosa egrégora, carregada de energia, aqui reinante, ganhando estímulos renovados para suas vivências e crenças humanísticas e espirituais.

Se perguntarmos a Nilze ou Goretti qual o papel das pessoas providas de inteligência e criatividade – como elas o são -, na aventura humana elas responderão, com a certeza de qualificados porta vozes das coisas culturais, que o papel do intelectual é o de semear a palavra social. A palavra social pode ser explicada assim: as ideias antecedem as palavras e as palavras antecedem as ações. A ideia fecunda impulsiona a palavra fecunda e a palavra fecunda proporciona ações importantes e decisivas no processo dos avanços civilizatórios. À sua maneira, ministro da palavra social, o intelectual não pode se omitir diante de situações que agridem a consciência humana e a dignidade da vida.

Isso remete, na hora presente, a uma indagação tormentosa da sociedade como um todo e das elites pensantes em especial, diante da crise humanitária que aí está: - até quando vamos morrer? Quinto mais populoso, com 2,7 por cento da população mundial, nosso país, chocantemente, está no topo da lista dos atingidos pelo flagelo, com 14 por cento dos casos registrados mundialmente. Meio milhão de vidas perdidas. Mais hoje do que ontem. Mais amanhã do que hoje. Mais depois de amanhã do que amanhã.

Não há como ocultar que este cenário desconcertante e doloroso foi composto em grande parte pela condução institucionalmente inepta dos esquemas de prevenção e combate à pandemia, colocados em execução pelas autoridades competentes.  E não se pode desconhecer também que o rançoso negacionismo científico contribuiu para decisões equivocadas e atitudes desastradas.

Os intelectuais brasileiros precisam ajudar o país a encontrar saídas para seus cruciais problemas e desafios. Precisam buscar inspiração em suas crenças humanísticas e espirituais, em suas convicções democráticas para a retomada da marcha nacional nos rumos da vocação de grandeza do país. Um encontro cultural como o de hoje, com suas enlevantes e duradouras emoções, valendo como celebração da inteligência e da vida, estimula, encoraja reflexões, meditações e também, – como não? – orações.

Queridas acadêmicas Maria Goretti de Freitas Oliveira e Nilze Monteiro Batista, saudando-as efusivamente pelo seu ingresso, juntamente com os outros empossados, Ângela Rodrigues Laguardia e Marzo Sette Torres, personagens de presença realçante na cena cultural, queremos dizer-lhes que aqui as recebemos com enorme apreço e carinho. Estamos confiantes e seguros de que será extremamente preciosa a sua contribuição, como ministras da palavra social, às causas da construção humana e da expansão consciencial do mundo, valores muito caros à diligente e amorosa comunidade literária da Amulmig. Sejam bem vindas! Um abraço caloroso e um beijo na face de cada uma, em termos virtuais, sem necessidade, obviamente, de explicar as razões.”


quinta-feira, 1 de julho de 2021

 


Romanceiro de Federico Garcia Lorca,
de Mercês Maria Moreira

 

Jair Barbosa da Costa
Vice-Presidente da Amulmig
 (pequeno ensaio)
 
Ofereço este ensaio a minha filha Gisele, futura ocupante da cadeira de Mercês na AFEMIL. Sempre notei nos romanceiros certas características comuns: o épico como gênero prevalente, todavia, veiculado pelo lírico; formas (fôrmas) poemáticas variadas, em geral obedientes à métrica e rima. O romanceiro de Mercês Maria Moreira difere dos demais por eleger o decassílabo a predominar em longas estruturas desta alentada obra sobre os alopoemas, em redondilhas dos dois tipos, em menor número. Ainda, relativamente às fontes para a construção deste Romanceiro de Federico Garcia Lorca, a Autora não recorre ao fabulário popular para sequer um dos temas desenvolvidos. É que lhe bastam a fecunda vida de seu ídolo, — considerado herói e vítima da ditadura franquista, responsável por seu assassínio —, sua terra, seus amigos, seus algozes, sua Espanha e a brilhante trajetória de palco e das letras cujas produções perpassam todo o livro, em especial a Poética, que a Autora resenha, em versos, para trazer-nos a lírica lorquiana, como a do Romancero Gitano. Além disso, estabelece uma confluência de sua personagem-central com os maiores intelectuais do mundo hispânico a sua volta. Três pórticos: a) o que se pretende cantar — Lorca, a Espanha, Andaluzia e Fuente Vaqueros, aldeia do gênio, e a dor por sua perda; b) despertar da origem cigana da Autora; c) o indelével amor platônico amalgamado ao badalar do sino “imperecível” no coração de quem canta. Após invocar a Deus, com humildade, pede-Lhe luz para realizar a obra cujos primeiros poemas, como um andante, trazem Federico ao mundo e retratam seu sangue — a mãe, o pai, os irmãos, assim também o povo, a aldeia Fuente Vaqueros. Os ingredientes para nutrir todo o incomparável manancial épico-lírico de Mercês Maria Moreira são fartos e não se esgotam. Eis a impressão à medida que se vai palmilhando o singular percurso do artista multifário: dramaturgo, poeta, pintor, escritor, também autor de um romanceiro de sua raça gitana, cujo tema e personagens sua cantora exalta e revive.
Também no bojo de boa parte dos poemas é a figura de Garcia Lorca que se quer evocar e enaltecer para se expor e reafirmar, até o ilimitado, o imensurável amor da Autora — cúmplice desse onírico idílio.
Em Perdido amor, por exemplo, tem-se uma comunhão perfeita dessa personagem com a natureza, em plenitude, e com antigas civilizações e “remotas línguas de fanados seres”, na busca incansável, obstinada, do poeta-mito, móvel solar do romanceiro. A explosão do eu-lírico, em ascese, exerce tal pressividade, à procura obcecada dessa metade, assim desplatonizada, que, em um desses colóquios, fruto da imagética, deixa escapar os apelos da matéria e (os) anseios da alma. Perdido amor encerra-se como se fosse o epílogo do romanceiro, como se findasse a mais sentida declaração de amor: parece recolher e escoar todas as essências do canto lírico, do esplendor da própria poesia, adornada de metáforas e alegorias a envolver o amado Garcia Lorca, tão platônico e tão palpável neste belo, majestoso canto-acalanto. Mas uma alma, assim machucada e ofendida pela morte covarde de seu maior mito, acabaria encontrando uma fórmula poética de vingança. É o que faz Mercês Maria Moreira com todos os algozes do dramaturgo: condena, pós-morte, a torpeza e arrogância de Luiz Alonso. Dialoga com o carrasco, atirando-lhe toda sorte de praga e o desprezo. Assim também procede com o sádico Governador José Valléz Gusmán e, finalmente, com o generalíssimo Franco. Em duas extensas composições, critica a mão pesada e agressiva do ditador, a sede de poder, a prepotência, o extermínio de inocentes, inclusive de seu amor maior, Lorca, cuja arma – o talento – e cuja munição – o verbo perturbavam os senhores mandatários de “su pátria”. O amor sublime e puro, o humanismo, na mais arrojada apologia e reflexão, a historiografia, em verso, de um dos períodos políticos mais sufocantes da Espanha, berço de numerosos artistas e pensadores universais — tudo isso se faz presente no Romanceiro de Federico Garcia Lorca, obra-prima da magistral poetisa Mercês Maria Moreira.

Tudo é grandiloquente e altissonante neste monumento literário a Garcia Lorca, núcleo-significativo, lato sensu, de toda a obra, seja ao se tratar do próprio curso vital e artístico, seja ao se inserir na história de Fuente Vaqueros, Granada, Espanha e seus expoentes artísticos e intelectuais, amigos de Lorca, como Pablo Neruda, Dâmaso Alonso, Picasso e mais duas dezenas deles. Sente-se o pulsar da Espanha por todo o livro, mas este “Renascimento da Espanha”, de quase cento e setenta versos, é, a um tempo, hino e meditação: seu passado, sua história, sua dor; o assassínio de Lorca, as expressões maiores de suas artes.

A SAGA LANDELL MOURA

  Luiz Carlos Abritta   Cesar Vanucci   “A morte é a curva da estrada.” (Fernando Pessoa)   O poeta Fernando Pessoa, volta e m...