quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

 

O presépio de dona Carlota 

Cesar Vanucci 

 

"Natal (...) industrializaram o tema, eis o mal."

(Carlos Drummond de Andrade)

 

O presépio da vó Carlota era um primor. O mais arrumado da rua, a nos louvarmos na opinião dos vizinhos. Ocupava quase a metade da sala de visita. A mesa de jantar, de razoável dimensão, recoberta de sacos de aniagem e papel pardo de textura encorpada, servia de suporte. Já o guarda-louças do conjunto precisava ser remanejado para um dos quartos, mode não atrapalhar o deslocamento dos interessados em apreciar a arte e engenho empregados na montagem. Vovó Carlota preparava tudo no capricho. Despejava na empreitada o mesmo ardente fervor que punha nas práticas de religiosidade que lhe conferiam, no conceito de tanta gente, a fama de santa criatura. Ao longo de vários decênios, diariamente, de manhãzinha, acompanhada das filhas Nenê e Luzia, subia a ladeira que desembocava na bela Igreja de São Domingos, toda revestida de pedra tapiocanga, a fim de participar das missas dos dominicanos. A cena ganhou carinhoso registro na memória uberabense. A tal ponto que acabou sendo transposta por Mário Palmério para as páginas do "Chapadão do Bugre". 

Antes de retornar à história do presépio, quero dizer algumas coisas mais a respeito de minha avó paterna. Essa mulher maravilhosa, presepeira criativa, amealhou em vida considerável crédito, embora humilde e pobre, pelas muitas ações, executadas no anonimato, em favor dos desvalidos. Fez parte na caminhada pela pátria terrena, sem dúvida, do mundo invejável dos corações fervorosos, um tipo de gente que engrandece a espécie. Quando adolescente, deslumbrado, descobri a poesia de Manoel Bandeira, deparei-me com texto que se encaixa admiravelmente em seu perfil. É aquele em que o poeta fala da presença na porta do céu de uma anciã carregada de dons. São Pedro, vendo-a, vai logo dizendo: - Você não precisa pedir licença pra entrar! 

Volto, agora, ao presépio para explicar que aquela representação simbólica do Natal, com seu mágico fascínio, respondia à aspiração de pessoas afeiçoadas a estilo de vida singelo de comemorarem condignamente, no âmbito familiar, a data mais significativa do calendário. Era desmontado depois do "dia de Reis". A introdução das figuras centrais no cenário sagrado só acontecia depois da célebre "missa do galo", na volta de vó Carlota da igreja. As efígies dos reis magos e a decoração correspondente à reluzente "estrela de Belém" iam sendo paulatinamente deslocadas, a cada manhã, em sua trajetória na direção da manjedoura, até o dia do encontro devocional histórico narrado nas crônicas do comecinho cristão. No mais, a comemoração daqueles tempos, de hábitos consumistas parcimoniosos, costumava abranger ainda, com todos reunidos, a tradicional ceia ou, no dia seguinte, almoço na base de frango recheado e arroz de forno. Sem libações alcoólicas, tá claro. E, também, na parte do ritual atribuído à criançada, sobrava para cada qual a grata obrigação de deixar os sapatos no presépio para que Papai Noel, quando a casa mergulhasse em sono profundo, largasse os presentes trazidos na carruagem puxada por renas. 

Tudo diferente das comemorações destes tempos de hoje, de consumismo voraz, em que a marquetagem cria, com frenética desenvoltura, espaços para erigir como símbolos natalinos o peru da Sadia e o chester da Perdigão. 

Uma baita saudade!

 

Experiência terapêutica vanguardeira 

Cesar Vanucci

 

“Médico brasileiro (nos EUA) desenvolve

tratamento para combater doenças degenerativas.”

(Domingo Espetacular, Record TV) 

 

A TV Record brindou o respeitável público, no “Domingo Espetacular” (5.12.21), com uma reportagem em perfeita sintonia com a denominação do programa. O repórter André Tal, confessando-se portador há anos do “Mal de Parkinson”, identificou nos Estados Unidos, em Miami, Flórida, uma clínica de neurologia onde vem sendo executado, em caráter experimental, processo terapêutico vanguardeiro no tocante a transtornos de saúde ligados ao cérebro. 

O trabalho jornalístico, de excelente conteúdo, didaticamente apresentado, traz informações preciosas, devidamente documentadas acerca dos resultados surpreendentes, pode-se dizer, de certa forma, quase imediatos, de tratamentos envolvendo pacientes acometidos de “Alzheimer”, “Parkinson” e outros distúrbios inerentes ao sistema neurológico. 

O processo, autorizado pelo FDA - a Anvisa estadunidense -, é coordenado por profissional da medicina brasileiro Marc Abreu, criador da técnica. Conforme descrição de André Tal, consiste no seguinte: o paciente é introduzido num sofisticado equipamento intitulado “Túnel Térmico Cerebral”. Nesse “tubo” existem dispositivos que desencadeiam impulsos elétricos incumbidos de atacar as chamadas “proteínas defeituosas”, visando estabelecer ciclo de restauração no cérebro. Para isso o corpo do paciente é aquecido a mais de 100 graus centígrados, sem que a elevada temperatura, de conformidade com a tecnologia empregada, moleste o receptor das descargas elétricas. A aplicação induz ao surgimento de “proteínas de choque térmico”. Elas promovem a reparação das “proteínas defeituosas” e estabelecem o ciclo de regeneração cerebral. 

O médico responsável pela aplicação do revolucionário protocolo salienta que a proteína é capaz de regenerar, de remodelar e também retirar os tecidos tóxicos causadores das enfermidades. Ele anota, também, que os impulsos elétricos dirigidos aos pontos afetados podem libertar os enfermos de seus padecimentos. Faz questão de frisar que o trabalho é experimental e que, como cientista, não se sente em condições de garantir, de pronto, a cura dos males, mas que efeitos bem promissores vêm sendo alcançados nesta fase, o que dá condições a serem aventadas possibilidades reais de cura. 

A esperança que brota, na eficácia do método, está amparada em demonstrações do que ocorreu com o próprio jornalista, após uma única aplicação, vistas na reportagem. São mostradas cenas das dificuldades enfrentadas pelo paciente na movimentação de membros superiores e inferiores no período anterior à sua condução ao “tubo” e, na sequência, o completo desembaraço na movimentação de braços e pernas logo após a aplicação recebida. São imagens que deixam forte impressão. A narrativa contempla, também, casos de pacientes acometidos do mal de Alzheimer e Ataxia espinocerebelar. Tais pacientes admitem haver ocorrido melhoras significativas no estado de saúde após sessões de tratamento no “Tubo Térmico Cerebral”. 

A matéria jornalística é rica em detalhes.

O médico brasileiro Marc Abreu é professor e pesquisador da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Este: www.bttcorp.com – é o site da clínica do Doutor Marc Abreu em Miami, Florida, Estados Unidos, onde são desenvolvidos os trabalhos precursores do tratamento mencionado.

 



 

 O INVENTOR DO NATAL

Luis Giffoni


 Que autor melhor reflete o espírito do Natal? Quem mais patrocinou em suas obras a solidariedade que se busca espalhar nesta época do ano? Quem mais influenciou o imaginário do Natal em família? Quem mais se aproveitou desta festa para fazer crítica social, mostrar o contraste entre o rico e o pobre? Quem mais vendeu livros com as lágrimas?

O inglês Charles Dickens, nascido há pouco mais de dois séculos, é o nome que me vem à cabeça. Foi o Paulo Coelho da época. Seus livros vendiam – e vendem – mais que batata em supermercado. Com frequência melodramático, inverossímil e moralista, Dickens é o rei dos natais tradicionais em família, com os deserdados da Inglaterra vitoriana do lado de fora das janelas, mortos de fome e frio, a observar o conforto e as guloseimas do lado de dentro dos lares dos ricos. É de partir o coração.

Dickens era um contestador, uma voz dissonante do império inglês em seu auge de triunfalismo, embora fosse muito bem aceito no país. Criticava a miséria e a exploração das pessoas, ou melhor, defendia os que não se beneficiaram da Revolução Industrial. Entre outras, exemplo disso é sua novela “Um Cântico de Natal”, o famoso “A Christmas Carol”, de 1843, tantas vezes filmado e adaptado, protagonizado pelo avarento Ebenezer Scrooge, que economizava até a luz, pois a escuridão é mais barata.

Scrooge, pai do tio Patinhas do Walt Disney, detestava natais e ajudar as pessoas. Após ser assombrado por almas penadas e vislumbrar um terrível futuro, sofre a transformação que o leva a celebrar cada Natal e a tomar conta do pequeno Tim, garoto pobre com problema nas pernas. Haja lágrimas. Haja bom propósito de ajudar o próximo.

Até hoje, quando o vinte e cinco de dezembro se aproxima, muita gente acredita na transformação permanente do coração e da mente das pessoas. Nós não mudamos há milênios, continuamos egoístas e centrados em nós mesmos, mas vivemos a esperança de dias mais justos e mais solidários. O grande artífice dessa crença foi Charles Dickens, espalhada mundo afora pelo poder de que a Inglaterra então dispunha.

Livros mudam o mundo. Talvez não mudem nossa humanidade.

Leia os livros de Dickens, encha-se do contraste que ainda persiste em nossa sociedade e tenha um Natal temperado pela solidariedade. Vai durar pouco tempo, mas que seja infinita enquanto dure.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

 

O Natal e a aventura humana 

Cesar Vanucci

 

"Natal. Apagam-se as luzes, acendem-se as esperanças”.

(Eva Reis)

 

O Natal é, por excelência, a época que melhor se identifica com o conceito ideal de vida proposto por Akira Kuruosawa, quando fala, com fascínio na voz e no olhar, do “mundo invejável dos corações fervorosos”. O cineasta, sem propósito preconcebido, de vez que emprega a harmoniosa expressão num contexto cultural não influenciado pelo sentimento dominante nas celebrações natalinas, confere ressonância humanística à mensagem de definitiva beleza que chega do fundo e do alto dos tempos. A transcendência desta mensagem, de origem divina e conteúdo cósmico, abrasa os corações e concita as criaturas de boa vontade a se empenharem na construção de um mundo melhor, não apenas com vistas à conquista, aqui e agora, da pátria terrena. 

Como conceber, com os olhos da esperança, esse mundo invejável? Ele será, seguramente, povoado de amor fraterno e não de ódio destruidor, de apaixonante solidariedade social e não de desapiedado utilitarismo. De justiça removedora de desigualdades e não de injustiça que só faz, o tempo todo, aguçá-las. De contemplação ecumênica e democrática dos contrastes de opinião existentes no relacionamento das ruas e não de imposição autoritária, nascida em ambientes fechados e acinzentados, em favor de doutrina política única ou de pensamento religioso sectário. De crença nos valores espirituais, garantidores da dignidade e não de desprezo solene a preciosos dons humanos, em nome de posturas preconceituosas e desagregadoras. Não fosse tudo isto tradução fiel das condições de vida imaginadas em sua peregrinação de amor pela mais sábia e poderosa das criaturas, o Deus que há dois mil anos se fez carpinteiro. 

A realidade impiedosa de nossos tempos mostra que a distância do alvo a atingir, na aspiração dos corações fervorosos, é medida por consideráveis anos-luz. Muitas as estruturas da convivência humana em estado de desarranjo. Esquecida das lições do saber eterno, a humanidade tem avançado celeremente na edificação de um mundo mecanicista, onde a tecnologia assume, na encruzilhada de decisões cruciais, caminhos de duvidosa eficácia para o atingimento da promoção humana. O exemplo é contundente e não é único. Nas preocupações políticas e científicas, o conhecimento da desintegração do átomo está mais próximo da fabricação de artefatos bélicos do que da criação do bem-estar. Percebe-se, em muitos países e de forma clara no Brasil, que as políticas econômicas objetivando o desenvolvimento relegam a plano inferior a amplitude humana e os aspectos sociais. 

Vem sendo esquecida a lição singela de que o homem é o princípio, meio e fim de tudo. Não existe para servir à política ou à economia. Estas é que foram colocadas em seu caminho para servi-lo.

A sabedoria cristã – o mesmo se pode dizer da sabedoria de outras correntes do pensamento religioso – orienta o ser humano no sentido de que se apegue a um ponto de equilíbrio, em meio às naturais discordâncias provocadas pela efervescência intelectual, inerente à vida. Essa busca pressupõe o domínio da serenidade. É reveladora da incompatibilidade visceral da mensagem cristã, ou espiritual, com as posições extremadas e fanatizadas. Um economista britânico, Fritz Schmacher, lembra que “o ponto essencial da vida econômica e da vida em geral é que ela exige constantemente a conciliação ativa dos opostos”. Arremata magistralmente: “Há na vida econômica e social muitos problemas de opostos que, embora de difícil solução, podem ser transcendidos pela sabedoria”. Nada mais exato. É na sabedoria eterna que se encontram lenitivo e solução para conflitos existenciais do tipo desenvolvimento técnico versus desemprego, ou versus poluição ambiental. Ou o ponto de equilíbrio que garanta, a um só tempo, a desejável estabilidade e as transformações reclamadas pelo progresso; o respeito à tradição e o apreço às propostas renovadoras. 

Como preconiza o pensador, “nossa felicidade e nossa saúde” podem depender de “buscarmos simultaneamente atividades ou metas mutuamente opostas.” 

Isso tudo remete, na idealização de um mundo melhor, mais justo e generoso, à necessidade de se dar à técnica uma feição humana, de se fortalecer os avanços econômicos com a ampliação dos benefícios sociais, de se estabelecer cooperação com a natureza, em vez de desbaratar as dádivas deixadas por Deus no solo e subsolo deste planeta azul. 

Comecei estas maldigitadas com o pensamento do cineasta japonês. Vou concluí-las com a evocação da cena de um filme americano, dirigido por John Ford, que focaliza uma batalha na Guerra da Secessão. Num dado instante, as tropas rivais, com suas emoções ensandecidas, guarnecendo trincheiras separadas a tiro de fuzil, são arrebatadas por um misterioso e avassalador sentimento de ternura. Baixam as armas, abandonam as posições e se confraternizam ruidosamente. Voltam a se engalfinhar mais adiante, na maior das truculências. O que interessa aqui é captar a atmosfera daquele momento mágico da pausa conciliatória, da temporária cessação das hostilidades. Ele tem a ver, simbolicamente, com o espírito de Natal. Que mais, muito mais do que o “espírito do Natal”, deveria ser, para todo sempre, estado de espírito indissociável da aventura humana.

 

Se podes conservar a fé... 

Cesar Vanucci

 

Tu serás um homem, ó meu filho!”

(Fecho do poema “SE” de Rudyard Kipling)

 

O poema “SE” (IF) do indiano Rudyard Kipling, falecido aos 70 anos em 1936, ainda hoje o escritor mais jovem laureado com o Nobel de Literatura, é uma reflexão soberba e enlevante sobre a conduta humana, figurando na lista dos textos literários mais difundidos universalmente. Nos tempos, já distantes, da meninice e adolescência, fazia parte, obrigatoriamente, do repertório de todo declamador que prezasse seu ofício. 

Parece-me oportuno relembrar, a propósito, que nas escolas, em grêmios literários e outras instituições havia o costume de se promover sessões de recitativos, sempre concorridas. Não sei dizer porque cargas d’água esse tipo de promoção cultural bastante aplaudida, “caiu de moda”, por assim dizer... 

Estimulado pela minha querida e saudosa mãe, Tonica, decorei, conservando até estes dias outonais da existência bem vivos na memória velha de guerra, para apresentação no programa infantil na PRE-5, de Uberaba, os versos dessa bela peça literária, na versão assinada por Guilherme de Almeida. Descobri, mais tarde, que havia outras versões do “SE”. 

Reconhecendo o conteúdo precioso de cada uma delas, entendo que a versão gravada na infância traduz melhor a mensagem humanística de Kipling. Tomo aqui, por sinal, a liberdade de anotar as primeiras estrofes de uma dessas outras sugestivas versões. O leitor poderá compará-la, mais à frente, com a versão de Guilherme de Almeida, reproduzida na inteireza para, naturalmente, o deleite de meu reduzido, posto que assíduo leitorado. Estes os termos da tradução do poeta.   

Aqui vêm os versos do poeta Félix Bermudes.

“Se podes conservar o teu bom senso e a calma/Num mundo a delirar para quem o louco és tu.../Se podes crer em ti com toda a força de alma/Quando ninguém te crê...Se vais faminto e nu/Trilhando sem revolta um rumo solitário.../Se à torva intolerância, à negra incompreensão,/Tu podes responder subindo o teu calvário/Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.../Se podes dizer bem de quem te calunia.../Se dás ternura em troca aos que te dão rancor/Mas sem a afectação de um santo que oficia/Nem pretensões de sábio a dar lições de amor...(...)” 

Vem, agora, a versão de Guilherme de Almeida.

“Se és capaz de manter a tua calma quando/Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;/De crer em ti quando estão todos duvidando,/E para esses no entanto achar uma desculpa;/Se és capaz de esperar sem te desesperares,/Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,/Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,/E não parecer bom demais, nem pretensioso;/Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,/De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores./Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires/Tratar da mesma forma a esses dois impostores;/Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas/Em armadilhas as verdades que disseste,/E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,/E refazê-las com o bem pouco que te reste;/Se és capaz de arriscar numa única parada/Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,/E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,/Resignado, tornar ao ponto de partida;/De forçar coração, nervos, músculos, tudo/A dar seja o que for que neles ainda existe,/E a persistir assim quando, exaustos, contudo/Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";/Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes/E, entre reis, não perder a naturalidade,/E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,/Se a todos podes ser de alguma utilidade,/E se és capaz de dar, segundo por segundo,/Ao minuto fatal todo o valor e brilho,/Tua é a terra com tudo o que existe no mundo/E o que mais - tu serás um homem, ó meu filho!”

 

A variante vem da desprotegida África

 

 

“Um genocídio!”

(Antônio Guterres, Secretário Geral da ONU,

descrevendo o que vem ocorrendo na África,

 face ao flagelo da Covid-19)

 

Alerta da OMS: uma nova variante supostamente mais temível que as anteriores, irrompeu no aterrorizante espaço pandêmico da Covid-19. Procede da África, esse quarto de despejo destelhado da morada terrena, uma espécie também de terreno baldio onde é despejado lixo de outros lugares relativamente bem cuidados do planeta. A culpa pelo surgimento da cepa ameaçadora – óbvio ululante – não é dos africanos. Eles, africanos, não passam de vítimas, no caso, as primeiras vítimas das repetidas ofensivas de um vírus que faz uso de variadas camuflagens em sua feroz proliferação. 

O alerta desencadeou, logicamente, por parte do resto do mundo, barreiras protetivas de saúde pública.  As do Brasil, conforme o entendimento de respeitados infectologistas, menos eficazes do que as adotadas em outros países. 

Habitantes do maltratado continente africano bem como habitantes de outros lugares que por lá transitaram recentemente estão sendo submetidos a extensas quarentenas no acesso a diferentes plagas. A ONU, pela voz de seu Secretário Geral, o português Antônio Guterres, elevou o tom dos apelos para que o mundo inteiro, com ênfase às grandes potências, contemple com olhares mais solidários e misericordiosos as tragédias sociais ininterruptas dessa África esquecida dos homens e dos deuses. 

Concentrando as atenções, na hora presente, tão somente às dramáticas consequências da propagação da Covid-19 no território africano deparamo-nos com uma verdadeira catástrofe social. A inexistência de sistema de dimensão mínima para articular campanhas preventivas e implantar pontos de atendimento para vacinações confere à questão da disseminação da enfermidade características de calamidade social inenarrável. Guterres mesmo já afirmou que a não destinação de cotas razoáveis das vacinas para os países da África tem o significado horrendo de um genocídio. Mas clamores dessa magnitude não costumam encontrar guarida entre os que detêm o poder de decidir os rumos políticos, econômicos e sociais na jornada humana. 

Os tremendos malefícios causados pelas desigualdades sociais existentes mundo afora parecem ser mais gritantes ainda nos domínios africanos. Decisões geopolíticas econômicas injustas, que condenam centenas de milhões de seres humano a níveis de vida degradantes e perversos, revelam-se quase que sempre mais contundentes em regiões do sacrificado continente.   E tudo isso que acontece não é de agora. Vem de épocas bastante recuadas, como a História, constrangedoramente, documenta. 

É aconselhável ter-se presente na memória que o tráfico de escravos só cessou há pouco mais de um século. É recomendável, ainda, não esquecer que a África é implacavelmente saqueada em suas abundantes riquezas naturais há centenas de anos por colonialismo e neocolonialismo repulsivos. Esses esquemas nefandos nutrem desprezo solene aos direitos fundamentais, absorvidos no processo civilizatório, em parte significativa do mundo mesmo quando, num que outro lugar haja constatações, em circunstâncias variadas e momentos diferentes, de infringências a normas lesivas à convivência comunitária. 

A OMS e a ONU asseguram que a capacidade de produção de vacinas é mais que suficiente para atender uma demanda universal absoluta. Atestam igualmente que alguns países estocaram imunizantes em quantidade superior às necessidades domésticas. Dos fatores citados extrai-se, logicamente, a conclusão de que existem condições de se acudir, com relativa rapidez, às exigências sociais de imunização a contento da população do continente africano. Vacinas não faltam. O que está havendo é escassez de solidariedade social e vontade política. Como Guterres já advertiu, o combate eficiente ao flagelo da Covid-19 estabelece como pressuposto irrevogável a vacinação de todos habitantes do planeta. A África não pode ficar de fora na distribuição dos imunizantes.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

 

Reflexões sobre a cidadania

Cesar Vanucci

“Consideramos estas verdades como evidentes por si: que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis; que entre esses direitos estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade."

(Thomaz Jefferson 1743-1826, Declaração da Independência Americana)

 

O exercício em plenitude da cidadania se assenta na consciência individual de que todos os seres humanos somos senhores de direitos e deveres. Onde esse conceito não se faça presente, alí a cidadania estará sendo, seguramente, alvejada ou questionada.

 A vida em sociedade cobra deveres e prodigaliza direitos. Uma coisa conectada naturalmente com a outra coisa. Ambas traduzindo valores indissociáveis na convivência. Todo o arcabouço social repousa em tais vigas mestras: o cumprimento do dever e o respeito aos direitos humanos.

 Augusto Comte fala magistralmente dessa simbiose que preside a ação humana: “Ninguém possui outro direito senão o de sempre fazer o seu dever”.

 Está visto que o exercício da cidadania só pode vicejar e florescer em ambientes onde se respire o oxigênio das liberdades públicas. Os regimes despóticos aborrecem a cidadania. Conspurcam-na. Negam-na como atributo da personalidade e dignidade humana.

 Em nossos tempos, a força da cidadania vem crescendo de forma auspiciosa. Da conjugação de vontades de multidões interessadas na construção de um mundo melhor e, justamente por isso, desejosas de estender seu exercício aos limites máximos permitidos pelo bom senso e consciência humanos, têm nascido conquistas preciosas. Há um entendimento cada dia mais universalizado de que os direitos pessoais, como propunha Thomas Paine, são uma espécie de propriedade do tipo mais sagrado. Aceitar que o outro é portador desses direitos é uma forma de fazer reconhecida a condição idêntica de que somos também investidos.

 No mais, buscando um roteiro para essa pugna permanente que a prática da cidadania nos exige, esforcemo-nos por proceder como recomenda, liricamente, o poeta Ledo Ivo: “Teu dever é este: lembrar, sendo antigo; amar, sendo humano; morrer, sendo vivo; e cantar o mundo com uma linguagem que é comum tesouro de todos os homens.”

 

 

Foi dada a largada

 

Cesar Vanucci

 

“O nosso Brasil se transformou em desunião, conflito,

 arrogância política, violência contra imprensa”

(João Doria, candidato tucano à presidência)

 

O PSDB largou na frente oficializando a primeira candidatura à sucessão presidencial. Em concorridas primárias das quais participaram como pré-candidatos os governadores de São Paulo, João Doria, do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite e o ex-prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, os tucanos escolheram o nome de maior visibilidade nacional, abrindo, ao que tudo faz supor, um “racha” em suas fileiras a se levar em conta a manifesta hostilidade existente entre o atual governador bandeirante e o antigo governador candidato da legenda à presidência no pleito passado, Geraldo Alckmin. Doria ambiciona reconhecimento popular como candidato da “terceira via”. Ou seja, um disputante ao Planalto com discurso e propostas de governo diferenciadas, mais do que isso, antagônicas, de dois outros prováveis competidores apontados por analistas políticos como capazes, potencialmente, de estabelecer uma polarização de votos que parcelas significativas da sociedade exprimiriam desejo de evitar. Os competidores seriam no caso, o ex-presidente Lula, que vem liderando, na hora presente, pesquisas sobre intenções de votos e o atual presidente Bolsonaro, que nessas consultas tão distanciadas ainda da eleição, vem ocupando invariavelmente o segundo lugar.

 Oportuno ressaltar que os “prováveis candidatos” relacionados nessas extemporâneas coletas de opiniões são, muitas delas, figuras que poderão, no frigir dos ovos, não ser confirmadas, nas agremiações, na hora de definirem seu posicionamento.

 Doria é adversário de Lula há muito tempo. De Bolsonaro foi aliado na campanha eleitoral passada. A animosidade entre os dois é hoje bastante acentuada, a ponto de observadores chegarem a admitir que numa eventual inimaginável aliança que se visse forçado a fazer, no futuro, por alguma circunstância qualquer com um dos dois, o governante paulista acabaria optando pelo petista. Mas algo assim, claro está, não passa de especulação delirante, à inteira deriva do contexto politico em que está sendo concebida a campanha do tucano em tornar-se reconhecido, aos olhares dos votantes, como opção legítima dos que se antepõem a uma decisão ideologicamente polarizada.

 O PSDB ergue a bandeira da “terceira via”. Não será a única legenda a fazê-lo. As movimentações de bastidores e os primeiros ensaios com relação a lançamento de nomes fornecem provas sobejas de que a “terceira via” será o caminho a ser trilhado por muitos.  No PDT, Ciro Gomes, pré-candidato único vai utilizar certeiramente a impetuosidade retórica para agregar a imagem a um posicionamento de forças políticas, de dimensão ainda não testada numa disputa, que supostamente oferece rejeição aos dois presumíveis candidatos mais bem avaliados, por hora, nas pesquisas.

 O ex-ministro Sérgio Moro, que recentemente ingressou no Podemos, sem ter anunciado disposição para concorrer à presidência, é outro personagem que, no modo de pensar de observadores credenciados das tricas e futricas políticas acabará, também, na hipótese de candidatar-se, por enveredar pela mesma via.

 O noticiário anda repleto de conjecturas acerca de conversações, cogitações, envolvendo as dezenas de partidos e elementos filiados de maior projeção. Essa efervescência faz todo sentido.  A definição tucana forçou movimentação de peças do tabuleiro de xadrez político. Revelações intrigantes, composições impensáveis, anúncios estrepitosos de deliberações que, em muitos casos, não resistirão a inevitáveis chuvas e trovoadas inerentes ao processo, eclodirão a três por quatro, até que o quadro definitivo das candidaturas – isso lá por volta de agosto vindouro – fique delineado. Doria já é candidato. Lula e Bolsonaro ainda não confirmaram candidatura. Os nomes de prováveis disputantes vão passar a ser mais insistentemente citados. Muita agitação ainda vai acontecer nas arquibancadas antes que trile o apito dando por iniciado o mais importante clássico da vida democrática brasileira. Contenda em que a torcida coloca toda esperança armazenada no coração de que o resultado traga dias melhores para o Brasil.

sábado, 4 de dezembro de 2021

 

Os recados de Glasgow

Cesar Vanucci

 

“Não há mais tempo a perder.”

(Rainha Elizabeth, da Inglaterra)

 

Não há mais tempo a perder. Os ponteiros do relógio se aproximam de hora decisiva. Já estamos entrando, por assim dizer, nos descontos do segundo tempo da prorrogação. Se, ao fim e ao cabo, o resultado mostrar-se adverso o caos e o pânico imperarão. 

Os recados de Glasgow são diretos. Incisivos, implacáveis. Propiciam entendimento de suprema clareza, numa linguagem categórica, a quem tem olhos para enxergar e ouvidos para escutar, sobre acontecimentos funestos que espreitam a marcha humana. Sem essa, por conseguinte, de os acomodados da silva absorverem, assim sem mais nem menos, com bovina resignação, os argumentos falaciosos dos teóricos da “terra plana”, com suas retrógradas interpretações das narrativas científicas e manifesta belicosidade contra valores sagrados da sabedoria humana. 

As advertências ao mundo para que corrija seus rumos no sentido de manter convivência harmônica com a Natureza são volumosas. Ao contrário do que talibanistas de todas as graduações insinuam – com utilização desarvorada das fake news -, os alertas emitidos não são produto de imaginação alucinatória de cientistas e ambientalistas zuretas. Constituem, sim, um acervo extraordinário de dados, números, índices, gráficos, coligidos em estudo e pesquisas exaustivos que demandaram anos. Nessa poderosa conjugação de vontades esteve envolvido um verdadeiro exército de cabeças pensantes representativas do pensamento científico em seu mais elevado grau de percepção das coisas do planeta e do universo. 

Tudo isto posto, a sociedade humana coloca-se, agora, na expectativa – mais do que isso, alimenta fervorosamente a esperança – de que as lideranças políticas e dos demais setores investidos de poderes de decisão nas magnas questões abordadas no histórico conclave na Escócia, saiam logo das palavras para ação. Aos olhares atentos de todos que acompanharam (e continuam acompanhando) os trabalhos, debates, análises, compromissos e pactos celebrados, acordos firmados, o certame revelou-se extremamente positivo. A impressão geral é de que os responsáveis por políticas públicas e definições setoriais vinculadas ao equacionamento dos dramáticos problemas gerados pelas alterações climáticas extremas acham-se verdadeiramente apoderados da convicção de que há algo de importância crucial a ser feito. A recomendação – bem mais do que isso, a exigência – que se lhes é feita fala de um “mãos à obra” em ritmo de urgência urgentíssima. Estas lideranças estão também compenetradas de que, por parte da opinião pública mundial, haverá vigilância permanente com vistas ao cumprimento, a tempo e a hora, dos deveres solenemente assumidos. Tudo faz crer que dagora em diante os blábláblás e o “faz de conta” de passado recente, os protocolos firmados com cláusulas e prazos expressos elaborados com o secreto propósito de jamais saírem do papel, as retóricas populistas ocas, pra enganar trouxas não mais serão aceitas sem questionamentos veementes. Eventuais embromações serão, certeiramente, denunciadas, julgadas e condenadas, no veredicto inapelável das ruas. 

Importa, por derradeiro, salientar que chefes dos governos de todos os continentes deixaram demonstrada sua disposição em contribuir para que as metas pertinentes à redução das emissões dos poluentes que degradam a Natureza e que põem em risco a sobrevivência humana no planeta sejam rigorosamente efetivadas. Seja frisada também a participação intensa nos trabalhos de representantes de grandes conglomerados empresariais, que se comprometeram a fazer substanciosos aportes financeiros na luta contra as alterações climáticas. Mesmo não estando representado no encontro pelo seu Presidente, o Brasil aderiu às importantes deliberações estabelecidas nos acordos globais celebrados.

 

Um minuto para meia noite

 Cesar Vanucci


“A humanidade está cavando a sua própria sepultura”.

(Antonio Guterres, Secretário Geral da ONU)

 

Glasgow, Escócia, novembro de 2021. Falta um minuto para meia noite, momento fatídico nas previsões científicas para catástrofes inimagináveis. O alerta da Ciência ecoa em todos os cantos deste Planeta, tão maltratado pela insensatez humana. Todas as avaliações em torno do aquecimento global mostram que as calamidades anunciadas não são tão aterrorizantes quanto a gente consiga imaginar, mas muito mais apavorantes do que a gente jamais conseguiria supor. 

O encontro histórico aglutina lideranças políticas, cientistas renomados, representantes qualificados de todos os setores da sociedade engajados no esforço global de fazer deste um mundo melhor para todos. 

O tom do evento, com seus debates, depoimentos, relatórios técnicos, compromissos, acordos, foi dado pelo anfitrião, Primeiro Ministro do Reino Unido, Boris Johnson. Ele fez sugestiva comparação dos graves desafios confrontados pela espécie humana na atualidade com as missões fictícias enfrentadas pelo “seu compatriota” James Bond, afirmando, de forma solene, que as tragédias previstas não são fruto de enredo cinematográfico. “A máquina apocalíptica é real” –proclamou.  “Estamos a um minuto da meia noite e precisamos agir mais. Se não fizermos nada hoje, será muito tarde para os nossos filhos fazerem algo no futuro. Todas as promessas serão um blábláblá, a ira e impaciência do mundo serão incontestáveis” – completou o dirigente do Reino Unido, referindo-se a declarações da jovem sueca Greta Thunberg. Esta ativista, participando em Glasgow, de manifestações populares, adquiriu notoriedade mundial com conclamações endereçadas sobretudo às novas gerações, em prol de providências urgentes capazes de redefinirem os rumos dos acontecimentos, no que toca às mudanças climáticas. 

O pronunciamento mais esperado pelos convencionais, na sessão de abertura do certame de Glasgow foi o do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Em suas palavras, ele procurou dar um protagonismo inédito aos Estados Unidos. Segundo ele seu país faz questão de mostrar “que não só está de volta à mesa, mas pretende liderar pelo exemplo, o que nem sempre foi o caso”. “A mudança climática está destruindo o mundo”, assinalou o dirigente da Casa Branca, reconhecendo que seu país é o maior emissor de gases poluentes. “Estamos em um ponto de inflexão da História (...). Nenhum de nós pode escapar do pior que ainda está por vir se não conseguirmos fazer frente a este momento”, acrescentou. 

Joe Biden deu ciência das estratégias que os EUA pretendem colocar em andamento para zerar seu saldo de emissões. Enfatizou ainda que os “Estados Unidos irão contribuir para que países em desenvolvimento se adaptem e façam frente as mudanças climáticas.” Lembrou ainda tratar-se de demanda antiga que se acentuou durante o distanciamento americano do cenário multilateral no governo Trump. 

Alcançou forte repercussão o desabafo do Secretário Geral da ONU, o português Antônio Guterres, exprimindo, com toda certeza, o sentimento reinante na COP26: "Chega de tratar a natureza como toalete. A humanidade está cavando a própria sepultura. É hora de dizer chega, pois os últimos seis anos foram os mais quentes já registrados e o vício por combustíveis fósseis está empurrando a humanidade para a beira do abismo”.  Ele chamou atenção ainda para a circunstância de que “o aumento do nível do mar já dobrou nos últimos 30 anos, que os oceanos estão mais quentes do que nunca e que áreas da Floresta Amazônica já emitem mais carbono do que absorvem.”    Explicou que as propostas dos governos poderão levar o mundo a um aumento calamitoso da temperatura para 2,7 °Celsius.  

Aí está o implacável diagnóstico. Reclama ação pronta e eficiente. Agora. Já. A inação equivale a uma sentença de morte.

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

 

Luiz Carlos Abritta

 

Cesar Vanucci

 

“A morte é a curva da estrada.”

(Fernando Pessoa)

 

O poeta Fernando Pessoa, volta e meia citado pelo Abritta nas sessões literárias da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, explica assim o fenômeno da morte: “A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto.” 

O inesquecível companheiro Luiz Carlos Abritta, que passou a não mais ser visto na curva da estrada, vai fazer baita falta nas áreas da militância do oficio das letras e das artes. Na caminhada cultural, por vezes extenuante, mas sempre reservando compensadoras descobertas aos caminhantes, poucos como ele. Poucos com sua incomum capacidade para multiplicar-se em afazeres relevantes e tocá-los com eficiência a um só tempo. Em cintilante trajetória como Procurador de Justiça e cidadão de exemplar conduta, provido de apreciável conhecimento das coisas da vida, o ilustre personagem soube aliar à condição de intelectual brilhante à de exímio gestor executivo de bens culturais. Na Amulmig, de que era presidente emérito, e no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, que vinha presidindo, com a competência costumeira, deixa marcas inapagáveis de labor criativo. Sua obra literária abrangendo narrativas envolventes e versos primorosos, asseguram-lhe inclusão na galeria das celebridades festejadas pelo mundo cultural das Gerais.

A seguir, uma pequena amostra da sugestiva obra poética do saudoso Abritta, aclamado trovador.


 TROVAS DO ABRITTA

Nem o sofista profundo/esta verdade falseia:/quem se julga rei do mundo/é um pequeno grão de areia! //

 

Sempre foste minha amada/e, no doce cativeiro, /sem algema e sem mais nada, /tu me prendes por inteiro. //

 

Nesta vereda que é a vida, /vou de tropeço em tropeço, /pois cada nova subida/ é sempre um novo começo. //

 

Vou definir a saudade/e não sei se estarei certo:/saudade é aquela vontade/de que o longe fique perto. //

 

Transformo a dor desse pranto/em suave melodia/e, nesse doce acalanto, /faço da noite meu dia! //   

 

Se não me dás teu carinho, /se não me queres amar/sou barco triste e sozinho, /que já não quer navegar! //

 

Se a aspereza dessa vida. /vai me causar muita dor, /palmilho a estrada, querida, /nos braços do teu amor! //

 

Vou para a eterna viagem/tal qual Francisco de Assis:/nada levo na bagagem/ e assim sigo feliz! //

 

Eu tenho perseverança /e à tristeza me anteponho:/garimpeiro da esperança, /sempre vivi do meu sonho. //

 

Do simples pó eu procedo/sei que a ele hei de voltar, /a vida não tem segredo:/é um eterno retomar. //

 

Guardei dos sonhos retalhos/para, nas minhas andanças, /afugentar espantalhos, /usando as velhas lembranças. //

 

Sou estrela matutina/tu és pura Aldebarã;/eu sou astro que declina, /tu és o sol da manhã! //

 

Ainda os Intocáveis

 

Cesar Vanucci

 

“Nosso grande drama é a discriminação

 entre as castas superiores e os dalits e adivasis.”

(Pe. Stanny Jebamalai, indiano)

 

 Reportando-me às grandes tragédias dos tempos modernos de certo modo ignoradas pela humanidade, procurei retratar aqui o drama, de origens milenares, dos “intocáveis” indianos. Como já explicado, eles correspondem numericamente a quase duas vezes a população do Brasil. Carregam, passando-o de pai para filho, o “estigma da impureza”, adquirido de acordo com amalucados conceitos pseudorreligiosos em más ações que teriam praticado em vidas pretéritas...

Foi na estação ferroviária da deslumbrante cidade de Jaipur que vi estampada, de modo mais impactante, essa pungente tragédia. Visitava pela segunda vez o território indiano, um trecho do Atlas que abriga manifestações de arte e cultura catalogadas entre as mais portentosas da história da civilização. Estava chegando de Madupan, imediações da fronteira com o Paquistão, local em que se acha plantada a casa matriz da benemérita Brahma Kumaris, um Shangrilá transbordante de sabedoria e espiritualidade. A viagem de trem, de um ponto a outro, espichou por quase 12 horas. Durante o trajeto, resolvi percorrer os vagões de passageiros, da primeira à terceira classe. Protegendo-me dos solavancos do trem, circulei desembaraçadamente pelos corredores do interminável comboio. De repente, recebi uma ordem de guardas uniformizados para não seguir adiante. Os vagões seguintes não poderiam ser visitados. Eram de destinação exclusiva aos intocáveis. Esperei pelo final da viagem para ver, de ponto estratégico, os passageiros que desembarcariam dos “vagões proibidos”. Eles desceram por último, evitando aproximarem-se dos demais viajantes. Um cortejo chocante. Nas vestes andrajosas, nos escassos pertences transportados, na postura vergada pelas humilhações de vidas inteiras aqueles pobres coitados compunham um retrato falado da miséria humana na feição mais contundente que meus olhos jamais contemplaram. 

O padre jesuíta indiano Stanny Jemabalai, que elegeu a luta pela inclusão social dos intocáveis como profissão de fé, criando uma ong para desenvolver ações nesse sentido, descreve com exato conhecimento de causa, a dolorosa odisseia dos componentes das subcastas em sua terra. Confessando haver buscado inspirações em Ghandi, “nosso herói”, e no educador brasileiro Paulo Freire, na ajuda prestada aos dalits e advasis, lembra que essa gente não dispõe nem de dinheiro, nem de poder. Mas por serem numerosos, estão criando, com o correr dos tempos, uma forte consciência de comunidade. “Incentivando isso, a transformação até que se torna possível.” Trabalhando de cima da recuperação da autoestima dos intocáveis, o sacerdote procura estimular sua organização como grupo social, de modo a que possam batalhar por direitos milenarmente sonegados. A estratégia adotada, na linha pacífica de Ghandi, prevê o apelo às cortes judiciais nos casos rotineiros das lesões aos direitos individuais. Para que as coisas funcionem razoavelmente, a ong vem formando batalhões de “advogados de pés descalços”, como são conhecidos elementos recrutados no próprio segmento estigmatizado, graduados em cursos que fornecem noções fundamentais de direito. Esses advogados tão singulares integram um sistema não-oficial de Justiça, criado pela própria ong, com o intuito de acelerar decisões. Os mais qualificados são contemplados com bolsas de estudos em Universidades. Tais ações vêm favorecendo a aglutinação dos membros das “castas inferiores” numa mesma plataforma de reivindicações, de maneira a que os “indesejáveis” indianos possam enfrentar as odiosas discriminações de que são alvo. O jesuíta Stanny declara-se esperançoso quanto aos resultados do trabalho, conquanto reconheça as dificuldades quase intransponíveis dessa caminhada de libertação do opróbrio social a que os intocáveis são, há milênios, submetidos.

 

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

 

O fascínio das coleções

 

Cesar Vanucci *


“Existe uma arte da citação.”

(Valery Lasband)


Existe uma natural inclinação humana para colecionar coisas. E o intrigante (para muitos, fascinante) hábito da coleção é praticado de forma fervorosa pelos adeptos. O colecionador costuma cuidar com carinho singular, não perceptível em outros procedimentos de sua rotina de vida, dos objetos colecionados. Agarra-se, também, com entusiasmo às vezes frenético, às chances de poder ampliar, com constantes aquisições, seu precioso acervo. 

A lista de materiais, peças, coisas colecionadas é extensa e profusa, oferecendo surpresas incontáveis. Obras de arte, correspondentes a momentos culturais diferentes, animais raros ou comuns, veículos antigos, gravatas, caixas de fósforo, miniaturas de garrafas de bebida e de carros de corrida, peças de vestuário: a inclinação humana para montar coleções deixa a imaginação correr solta, a voar com o desembaraço de um condor nas alturas andinas. Um tipo de coleção que andou em grande moda no passado é a de selos. O irreverente Pitigrilli dizia a respeito: no fundo mesmo, o que os colecionadores se esmeram em reunir não passam mesmo de amostras internacionais de escarros. 

Este nosso papo introdutório é pra contar procês que eu também participo, não é de hoje, sem alardes, do nobre ofício de colecionador. Comecei a coleção adolescente. Não me desapartei dela, com o atravessar dos anos, apesar da coleta intermitente, não enquadrada em critérios rígidos de disciplina. Socorrendo-me de livros de citações, de anotações à mão, de registros datilografados ou digitados, de recortes de jornais e revistas, de muitas outras modalidades de impressos, acumulei razoável coletânea de frases. Adágios, ditos de efeito, axiomas, aforismos, máximas, sentenças, ditados, brocardos, versos, manifestações proferidas em tribunais ou entrevistas, expressões nascidas da saborosa linguagem das ruas. 

O material reunido trata temas antigos ou atuais. Algumas citações conservam timbre de eternidade. Outras são de duração conceitual efêmera. Utilizo-as invariavelmente no preâmbulo de meus despretensiosos escritos, como estão em condições de atestar os 25 leais e assíduos leitores que inadvertidamente me acompanham há anos. 

Valery Lasband falava, como lembra Paulo Rónai, da existência da “arte da citação”. Dizia que “Montaigne parecia possuí-la em grau supremo”. 

Tudo isso posto, achei de bom alvitre, como se costumava dizer em tempos de antanho, arrolar aqui algumas frases marcantes dessa coleção, embalando a expectativa de que delas possam emanar sabedoria e enlevo que aqueçam o espírito e o coração. 

De início, frases que contemplam aspectos transcendentes da aventura humana. De Teilhard de Chardin (filósofo, teólogo, antropólogo, paleontólogo, arqueólogo, uma das cabeças pensantes iluminadas do século 20): “Na escala cósmica, só o fantástico tem probabilidade de ser real.(...) Na escala cósmica, as coisas não são tão fantásticas quanto a gente imagina, mas muito mais fantásticas do que a gente jamais conseguirá imaginar.” De Jacques Bergier e Louis Pauwells (geniais autores de “O despertar dos mágicos”): “O espírito humano é que nem o paraquedas. Só funciona aberto.” De William Shakespeare: “Há muitos mais mistérios entre o céu e a terra do que supõe a nossa vã filosofia.” Do excelente poeta Raul de Leoni (“Luz Mediterrânea”): “O sentido da vida e o seu arcano é a aspiração de ser divino, no prazer de ser humano.” Do poeta (indiano) Rudyard Kipling, no célebre poema “Se” (tradução de Guilherme de Almeida): “Se podes conservar a fé, quando à tua volta, atribuindo-te a culpa, os outros a perderam. Se confiando em ti mesmo, aceitas sem revolta que duvidem de ti os que não te entenderam (...) És um homem!”. De Aldous Huxley, um pensador com visão plantada no universo e no futuro: “Habitamos uma ilhota perdida, num oceano infinito de inexplicabilidades." 

Mais citações pela frente.

A SAGA LANDELL MOURA

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