segunda-feira, 30 de maio de 2016



Um cara pra lá de perigoso

Cesar Vanucci

“Muitos americanos têm a chance de afastar o
perigoso Trump votando em massa em Hillary Clinton.”
(Milton Gomez, jornalista)


A crônica jocosa do jornalismo relata que, nos idos de 1939, ao rebentar a Segunda Guerra Mundial, um vibrante hebdomadário do Campo das Vertentes deplorou, em grandiloquente editorial, não tivessem as grandes lideranças mundiais ouvido com a devida atenção suas sucessivas advertências relativas aos riscos representados pelas ações de Adolf Hitler e famigerados prosélitos.

Este desajeitado escriba confessa, em lisa verdade, sentir-se um tanto quanto possuído do mesmo tipo de preocupação que assaltou o espirito daquele inflamado articulista, à hora em que faz uso de seu verbo, de alcance curto, para falar dos temores que o afligem, como mero e despretensioso figurante no descomunal palco da existência, diante de uma eventual ascensão à Casa Branca, em Washington, do tal Donald Trump. A resoluta disposição desse cara em torrar parte da colossal fortuna pessoal na pré-campanha pela legenda republicana foi recebida, a princípio, com descrédito e até zombaria. Mas não é que, a partir de um dado momento, sua arenga populista rasteira, impregnada de preconceitos racistas, machistas, xenófobos, começou a sensibilizar - a ponto de causar apreensão a lúcidos setores do pensamento político estadunidense - segmentos do eleitorado identificados com causas radicais e interpretações mórbidas da aventura da vida! Ei-lo, agora, triunfante, a um passo de fazer-se candidato na disputa com o candidato que emergirá das primárias democratas, provavelmente Hillary Clinton.

As pesquisas acusam que Trump não vai reunir condições para superar a poderosa competidora. Mas, pesquisa é pesquisa e eleição é eleição. Até que a vontade das urnas, traduzindo um anseio mundial, escorrace a ambição do trilionário candidato é preciso que alertas sejam feitos, em alta escala, sobre os riscos representados pela eventual presença à testa da maior potência mundial de elemento com o perfil de Trump. Defendendo sem disfarces a atuação dos EUA como nação patrulheira do mundo, a supremacia da gente de epiderme branca em relação aos outros, a expulsão de imigrantes, a proibição de cultos religiosos e a construção de um “muro da vergonha” na fronteira com o México, Trump é um perigo ambulante para os compatriotas e, também, para os viventes do resto do mundo. Não custa nada advertir, não é mesmo?


Não estamos sós,
pode apostar

Cesar Vanucci

“Universo, irmão mal conhecido.”
(Jean Wahl, poeta, citado por Paulo Rónai)

A peregrinação terrena é tecida de infindáveis interrogações. As perguntas espocam em número infinitamente superior às respostas. Num contexto desses, de proporções inimagináveis, a ciência é gota. Os fenômenos investigados, na longa espera da decifração, são um oceano.

No instante em que um telescópio super poderoso em matéria de propriedades tecnológicas apropriadas pelo homem dá-nos conta da existência provável, num ponto distante de outra galáxia, de um corpo celeste que ostenta características atmosféricas assemelhadas às desta nossa ilhota solta no oceano cósmico, é perfeitamente natural se reacenda a sempre momentosa discussão em torno da existência de vida inteligente nas demais paragens do universo. Embora intuída pela grande maioria das pessoas, a tese da pluralidade de mundos habitados não é oficialmente admitida pela ciência ortodoxa.

Hoje já não seria bem assim. Mesmo levando em conta o patrulhamento ostensivo no campo das ideias praticado por certas correntes fundamentalistas radicais. Mas tempo houve em que as pessoas de mente aberta, resguardando-se de ameaças, trancavam a sete cadeados suas crenças em tão “sacrílega” hipótese. Protegiam-se, com justificáveis temores, das consequências práticas de situações em que ideias “tão extravagantes” pudessem vir a cair nos ouvidos de zelosos guardiães dos conhecimentos científicos e religiosos dogmaticamente enfeixados.

A ortodoxia científica, mesclada de fanatice religiosa, fixava conceitos inamovíveis. Contestá-los representava risco a que ninguém queria, obviamente, se expor. As proclamações de um luminar qualquer, revestido de pompa e autoridade, tinham força de mandamento divino. Ái de quem ousasse contradizer, por exemplo, a afirmação de que lá no inatingível ponto em que as águas do mar (povoadas de terríveis monstros) e o horizonte se fundem ficava a borda de um precipício aterrorizante! Ou a assertiva de que o sol e os demais corpos celestiais do firmamento giravam em torno da Terra!

Retomemos o papo sobre a descoberta nos confins galácticos do astro de configuração parecida com a Terra. Muitas especulações começam, agora, a ser feitas a respeito da possibilidade de se abrigarem ali espécies de vida como as que conhecemos aqui. A inviabilidade da coleta de respostas a curto ou a médio prazo,  considerados sobretudo os milhares de anos-luz que separam um planeta do outro, gera logicamente outras elucubrações. Vamos supor que o local favoreça o desenvolvimento de uma civilização com as mesmas peculiaridades. A evolução tecnológica alcançada se situaria num estágio superior ou inferior ao nosso? Adiante.

Mantenhamos sob mira a transformação assombrosa que este nosso mundo velho de guerra experimentou nos últimos 50 anos. Avaliação do que poderia vir a acontecer, em matéria de mudanças, num ciclo evolutivo de mil ou 2 mil anos a mais, remete-nos, naturalmente, a projeções e perspectivas fantásticas. Não apenas tão fantásticas quanto a gente consiga imaginar. Mas muito mais fantásticas do que a gente jamais conseguirá imaginar.

A ciência alega não dispor ainda de elementos para proclamar a existência de vida inteligente fora do orbe terráqueo. Sob esse aspecto, os estrondosos avanços tecnológicos espaciais valeram pouco. Continuamos, praticamente, a propósito, no mesmo patamar informativo científico dos remotos momentos da censura ameaçadora que impedia a discussão aberta, transparente, do apaixonante tema. Isso, todavia, não impede que muita gente, consciente de sua cidadania cósmica, em diferentes cantos desta imensa pátria terrena, vagando solta em mares intermináveis pontilhados por sextilhões ou mais até de astros - entre eles o tal planeta que guarda similitude com o nosso -, aceite pacificamente a ideia de que não estamos sós no universo.


Enfrentar a crise 
e achar soluções


Cesar Vanucci

Não se espantar com nada talvez seja o único meio.”
(Horácio)

As estarrecedoras revelações contidas nas gravações reservosas, feitas com próceres influentes pelo “muy amigo” Sérgio Machado – outro ativo protagonista do festival de bandalheiras que assola o país – não deixam margem a dúvidas. Quem tem olhos pra enxergar e ouvidos pra escutar pode abrir mão, tranquilamente, das bolas de cristal, tarôs, búzios, ou quaisquer outros instrumentos utilizados pelos ocultistas em exercícios adivinhatórios, e antever com fervorosa convicção que a intrigante novela política brasileira reserva, prafrentemente, nova sequência de emocionantes capítulos. Com informações tão ou mais perturbadoras do que as até agora disseminadas.

“Não se espantar com nada talvez seja o único e melhor meio”, como aconselharia Horácio, de se conservar a serenidade nesta baita confusão das arábias. Confusão, como sabido, produzida por devastador conluio de corrupção montado com implacável desfaçatez por um bando bem identificado de políticos, empresários e agentes públicos despreparados e arrogantes. Apoderada de animadora expectativa, muita gente acreditava que os timoneiros da nau em movimento estivessem suficientemente aptos a conduzi-la pelas rotas de navegação traçadas rumo a porto seguro. Mas, falar verdade, a sensação que se tem, neste preciso momento, é de que um nevoeiro espesso lançou-a num verdadeiro “mar de sargaços”, de transposição pra lá de dificultosa. A impressão deixada até aqui é de que os navegantes não se mostram a altura da importante missão que se lhes foi atribuída. É preciso rever as cartas de navegação, fazer uma releitura atenta e esmiuçada dos mapas. Olhar as estrelas de modo a reencontrar o caminho a ser singrado é dever indeclinável do comandante do navio.

As revelações vindas a lume, com seu inocultável teor conspiratório, indicativas de uma disposição nefanda de tentar abafar as investigações, levantam justificado clamor. Afinal, são apurações respaldadas na consciência cívica da Nação. A opinião pública repele com indignação as manobras urdidas nos ambientes penumbrosos frequentados pela politicagem miúda, confiante em que as instituições saberão reagir com rigor a tão sórdidas provocações.

Faz todo sentido, para analistas políticos dos acontecimentos, imaginar que outras situações extremamente desagradáveis estejam prestes a ser deflagradas. A sinalização de que isso possa ocorrer é abundante. Do Ministério recentemente constituído fazem parte, já desconsiderada a figura do defenestrado Romero Jucá, sete outros elementos na alça de mira da Lava Jato. O substituto do ex-ministro compõe a lista dos investigados da Operação Zelotes. Tem mais: é de molde a produzir desconforto, mesmo admitindo que os cidadãos escolhidos desfrutam de conceito profissional, a circunstância de que ex-patronos de causas do célebre deputado Eduardo Cunha estejam a ocupar funções relevantes no corpo ministerial. E o que não dizer da presença danada de incômoda, claramente evidenciada, do supracitado parlamentar na linha de frente do esquema político dominante, a gozar de prerrogativas de mando e intervenções totalmente inaceitáveis? A ponto até de impor um nome de integrante de seu grupo, pessoa com prontuário desabonador e desqualificante, como líder parlamentar do governo recém-formado.

Um outro dado que confunde bastante o espírito popular diz respeito aos repentinos e estratégicos vazamentos de matérias confidenciais extraídas de processos que correm sob sigilo judicial. Salta aos olhos que os vazamentos obedecem a um método. Quem os promove? Com quais intuitos? Por qual razão os setores competentes se trancam em copas com relação a tão estranho e sistemático procedimento? Afigura-se indispensável que o Poder Judiciário ofereça à Nação uma palavra esclarecedora sobre essa sucessão de desconcertantes ocorrências.

A conjuntura política reclama das lideranças mais lúcidas, em todos os setores – é o próprio óbvio ululante - uma reflexão aprofundada. Reflexão essa que deve vir rapidamente acompanhada de ações capazes de caracterizar uma conjugação de vontades poderosa na busca de saídas justas, equilibradas, acordes com os generosos anseios coletivos e com o sentimento democrático, para as situações momentaneamente adversas que nos afligem.

A crise é de enorme dimensão. Nada, contudo, que um país como o Brasil, com suas invejáveis virtualidades, com sua concepção de vida calcada em utopias positivas e impressionante capacidade, historicamente comprovada, de resolver pacificamente conflitos agudos, não possa, respeitando valores e crenças inalienáveis, solucionar a tempo e a hora.




sexta-feira, 20 de maio de 2016

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG










A FIB e Stefan Zweig

Cesar Vanucci

“O sentimento humano é a mais importante
unidade de medida da cultura e da civilização.”
(Stefan Zweig, escritor)

E não é que a história da FIB (Felicidade Interna Bruta), índice medidor da prosperidade social adotado no Butão, reino incrustado na Cordilheira do Himalaia, continua rendendo manifestações dos leitores?

Acaba de aterrissar em nossa mesa de trabalho um outro edificante texto, a exemplo daquele de Robert Kennedy reproduzido neste espaço, em que o autor lamenta também, algumas décadas antes, que o PIB (Produto Interno Bruto) não leve “em conta o sentimento humano”, que é “a mais importante unidade de medida da cultura e da civilização”. Quem diz tudo isso, antes mesmo de Kennedy como já frisado, foi outro personagem famoso de realce mundial. Um cidadão que nutria pelo Brasil afeição e admiração enormes. Em artigos e livros apontou nossa pátria, escolhida por ele para morar, como “País do futuro”. Seu nome: Stefan Zweig, escritor austríaco, de origem judia, que pôs termo à vida, juntamente com a esposa Lotte, em 1942, época em que residia em Petrópolis, durante crise de depressão provocada pela expansão da barbárie nazista na Europa.

A leitora Isaura Marcondes, responsável pela remessa do citado texto de Robert Kennedy, foi quem, uma vez mais, colocou-nos a conhecer o substancioso escrito que, agora, entregamos à arguta apreciação dos caríssimos leitores.

“Os acontecimentos dos últimos anos modificaram profundamente nossa opinião a respeito do valor das palavras civilização e cultura. Decerto não estamos mais dispostos a coloca-las sobre o mesmo plano de conceitos como organização e comodidade. Sem dúvida, foi graças à estatística que no passado se cometeu esse erro fatal; esta, enquanto ciência matemática tem a tarefa de calcular a riqueza de um país e do cidadão individual, ou melhor, de responder a pergunta quantos carros, banheiros, aparelhos de rádio e franquias de seguro cabem por cabeça à população? Segundo essas tabelas, os países mais cultos e civilizados seriam aqueles que apresentam maior índice de produtividade, forte consumo e a mais alta cota de riqueza nacional. Mas a essas tabelas falta um elemento importante: não se leva em conta o sentimento humano que em nossa opinião é a mais importante unidade de medida da cultura e da civilização. Vimos com nossos olhos como mesmo uma perfeita organização foi incapaz de impedir determinados povos de direcionar tal organização unicamente no sentido da bestialidade, em vez de no sentido da humanidade (...) É por esse motivo que não temos mais a intenção de projetar um ranking que examine apenas a potência do impacto industrial, financeiro e militar de um país, mas queremos medir o grau de desenvolvimento de um povo com base em seu senso pacífico e em seu comportamento humano.”

Uma coisa puxa outra. Não queremos perder a ensancha oportunosa, como diria Eça de Queiroz, de complementar esse singelo informe com mais revelações sobre Stefan Zweig. Seu encantamento pelo Brasil, somado ao seu rico perfil humanista e talento como escritor internacionalmente reconhecido, estimula-nos a retornar, em próximo comentário, à sua vida e obra.


Talento invulgar 
e carinho pelo Brasil

Cesar Vanucci

“Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.”
(Stefan Zweig, na carta despedida)

Como prometido, retomamos a história do célebre escritor Stefan Zweig, cidadão do mundo apaixonado pelas coisas do Brasil, que com seus luminosos conceitos humanistas antecedeu em muitos anos no campo das ideias fecundas a proposta inovadora da chamada “Felicidade Interna Bruta” (FIB), adotada no reino do Butão.

Romancista, poeta, dramaturgo, jornalista, foi um dos escritores mais famosos de todos os tempos. Sua obra literária contempla quase uma centena de títulos. No ensaio “Brasil, País do Futuro” revela ao mundo, em tom enternecido, como registraria, mais recentemente, o sociólogo Domênico de Masi, outro estrangeiro que se rendeu aos encantos de nosso País, o modelo de vida, pouco conhecido, do Brasil, fonte de inspiração, pelo que se pode deduzir das avaliações de ambos os pensadores, para projetos de uma futura, grandiosa e serena civilização.

Zweig, de origem judia, nasceu numa família austríaca abastada, composta de banqueiros. Desfrutou de uma educação requintada. Cursou filosofia em Viena. Sua primeira coletânea de poemas foi publicada em 1902. De sua rica produção literária fazem parte traduções para o alemão de obras de Verlaine, Baudelaire, Yeats, Keats. Seu círculo de amigos chegados incluía personagens do porte de Sigmund Freud, Thomas Mann, Rimbaud, Rainer Maria Rilke, Romain Rolland. Marcou presença forte como autor dramático, tendo lançado, antes, ainda, biografias de figuras exponenciais na crônica da história e das letras. Escreveu livros sobre Dostoievski, Maria Antonieta, Nietzsche, Tolstoi, Sthendal, Rilke, entre outros. Pacifista, molestado pelo racismo alemão espalhado na Europa à época nazista, deixou a Áustria para viver na Inglaterra. Deslocou-se depois para os Estados Unidos, escolhendo depois, como derradeiro pouso, a terra brasileira. Encantou-se com o nosso País e passou a divulgá-lo como a pátria do futuro. Procurou recriar por aqui, à sua volta, um pouco da atmosfera de paz dos tempos mais bonançosos da juventude. Estabeleceu-se em Petrópolis, trazendo prestígio para as atividades literárias nacionais e abrindo oportunidades de intercâmbio cultural fecundo por conta de seu relacionamento com nomes eminentes da inteligência mundial. Da “Wikipédia” consta uma frase que traduz com primor seu apreço pelo estilo de vida brasileiro: “Considerando que o nosso velho mundo é, mais do que nunca, governado pela tentativa insana de criar pessoas racialmente puras, como cavalos e cães de corrida, ao longo dos séculos a nação brasileira tem sido construída sobre o princípio de uma miscigenação livre e não filtrada, a equalização completa do preto e branco, marrom e amarelo.”

Consumido por forte depressão, alvejado pelo insuportável clima de intolerância e despotismo existente na Europa, confessando-se desesperançoso quanto ao futuro da humanidade, Zweig decidiu, juntamente com a esposa Lotte, “concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra.” Sua morte em circunstâncias trágicas causou forte impacto no Brasil e no exterior. A vinculação do escritor com o País era tão estreita e tão impregnada de carinho que o governo brasileiro resolveu implantar na casa onde ele viveu e faleceu um memorial alusivo à obra que legou à cultura universal.

Stefan Zweig deixou uma declaração sobre os motivos que o levaram a tirar a própria vida. Estes os termos: Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite. Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes. Stefan Zweig”.




sexta-feira, 13 de maio de 2016








Situação danada de confusa

Cesar Vanucci

“Mesmo sem chance de retornar ao cargo que o consagrou,
Cunha esforça-se para manter o protagonismo.”
(José Roberto Toledo, jornalista)


A coisa anda ruça, meus caros. O surrealismo ocupou pra valer os arraiais políticos, com tricas e futricas inesperadas. A incompetência das lideranças de diferentes matizes, de todos os lados, gerou confusão dos diabos. À hora fatal da mudança temporária (com visos definitivos) do comando presidencial, os horizontes se revelam ainda toldados com mais de 50 tons de cinza. Labora em ledo engano quem alimente a suposição de que as nuvens espessas possam vir a ser rapidamente dissipadas. Queira Deus que sim. Que os prognósticos sombrios desta hora sejam fragorosamente desmentidos!

Afigura-se difícil pacas, para parcelas ponderáveis da opinião pública, admitir sem questionamentos como transformadoras, indicativas verdadeiramente de um marco histórico, as propostas até aqui anunciadas pelos que entram no poder sem nunca dele ter saído. Como olvidar sejam eles corresponsáveis, no duro da batatolina como se costumava dizer em tempos de antanho, pela acumulação do tantão de desacertos e malfeitos que desembocaram nas reações inconformadas das ruas? Poucas vezes a expressão “troca de seis por meia dúzia” soou tão vigorosa quanto agora. Os comentários dos que acompanham os desdobramentos da crise traduzem apreensão diante dos sinais até aqui emitidos. Os nomes e os métodos lembram demais da conta filme já assistido. Não há como deixar de classificar de psicodélico o enredo dessas confabulações, arranjos, composições de bastidores concertadas no palco político, tendo por fundo musical o emblemático samba do crioulo doido, do saudoso Stanislau Ponte Preta, autor igualmente de outro símbolo muito adequado para tempos estapafúrdios, o Febeapá (Festival de besteiras que assola o país).

O Ministério a ser constituído, não se sabe dizer ainda se com o mesmo número exagerado de pastas, parece que não vai abrigar, ao contrário do que se propalou, um “escrete de notáveis”. Muito antes, pelo contrário. Por conta de negociações nadica de nada republicanas. O “dá lá, toma cá” de sempre preside a escolha. Entre os indicados figuram cidadãos que, até recentemente, desempenharam funções relevantes, com poder de caneta na mão, no governo apeado e que, agora, renegam de forma inconvincente suas vinculações com as irregularidades cometidas no passado. Outro item merecedor de preocupação diz respeito a futuros ministros emaranhados nas teias das investigações da Lava Jato. Faz jus, também, a avaliações críticas uma atitude dúbia da oposição. Aceita, por um lado, funções ministeriais, enquanto, por outro lado, contesta no Tribunal Superior Eleitoral a legitimidade da chapa do PT/PMDB (Dilma – Temer) eleita em 2014.

Não passa desapercebido, de outra parte, aos que acompanham os desconcertantes desdobramentos da crise, o silêncio de conveniência dos integrantes do grupo prestes a assumir o governo quanto ao rumoroso caso do afastamento do Presidente da Câmara dos Deputados por decisão do Supremo Tribunal Federal. É de molde a causar compreensível estranheza a circunstância de o grupo por inteiro, maciçamente, conservar-se mudo e quedo que nem penedo com relação ao impactante assunto. Situação mais sem sentido: o Judiciário desaloja de suas funções, em ato sem precedentes, o dirigente de uma das Casas do Legislativo, imputando-lhe gravíssimas acusações. Como é que nenhum líder de expressão entre seus correligionários, incluindo o futuro presidente Michel Temer, bem como elementos de proa nas correntes oposicionistas animam-se a emitir parecer sobre questão de repercussão e implicações desse tamanhão? Segundo o jornalista José Roberto Toledo, “mesmo sem chance de retornar ao cargo que o consagrou, Eduardo Cunha esforça-se para manter o protagonismo”. Isso quer dizer mesmo o quê? Danada de instigante toda essa história.


FIB quer dizer 
busca da felicidade


Cesar Vanucci

“O conceito de Felicidade Interna Bruta nasceu em 1972, no  Butão...”
(Revelação do jornalista Guilherme Mazui, estudioso do tema)


Vários leitores confessaram-se entre intrigados e entusiasmados com a história a respeito da decisão tomada, no distante reino do Butão, encrustado na Cordilheira do Himalaia, de se adotar o inovador índice da  FIB (Felicidade Interna Bruta) em lugar do PIB (Produto Interno Bruto), para se mensurar a prosperidade comunitária. “Achei o maior barato”, acentuou a pedagoga Tania Ribeiro Freitas. “Depois de localizar no mapa o Butão e colher na enciclopédia dados sobre o país, pedi na agência de turismo que me dessem informações sobre como chegar lá”, contou Ascânio Fontoura, comerciante.

Com o intuito de atender solicitações para uma espichada de papo sobre essa novidade chamada FIB, este desajeitado escriba, incorrigível caçador de quimeras, considerou mais prático reproduzir, em complemento às informações transmitidas, estas outras revelações aqui, extraídas de um  trabalho assinado pelo jornalista Guilherme Mazui.
O conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) nasceu em 1972, no Butão, inspirado pelo rei Jigme Singye Wangchuck, com ajuda do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). A FIB proclama que o objetivo de uma sociedade não pode ficar restrito ao crescimento econômico, mas deve refletir a integração das finanças com a qualidade de vida. A avaliação da prosperidade social passaria, assim, a ser feita em cima de nove dimensões.

 Bem-estar psicológico - Avalia o grau de satisfação e de otimismo que as pessoas nutrem em relação a própria vida. Os indicadores incluem taxas de emoções positivas e negativas, analisam a autoestima, sensação de competência, estresse e atividades espirituais.

 Saúde - Mede a eficácia das políticas de saúde. Usa critérios como auto avaliação dos serviços oferecidos, problemas de invalidez, padrões de comportamento arriscados, exercícios físicos, qualidade do sono, nutrição etc.

 Resiliência ecológica - Mede a percepção dos cidadãos quanto à qualidade da água, do ar, do solo e da biodiversidade. Os indicadores contemplam as circunstâncias do acesso a áreas verdes, do sistema de coleta de lixo etc.

 Governança - Avalia como a população enxerga o Governo, a mídia, o Judiciário, o sistema eleitoral e a segurança pública em termos de responsabilidade, honestidade e transparência. Também mede o grau de consciência cidadã, o envolvimento das pessoas com as decisões e processos políticos.

 Padrão de vida - Avalia as rendas individual e familiar, a segurança financeira, a qualidade das habitações e por aí vai.

 Uso do tempo - Apura como as pessoas dividem o tempo. Leva em conta as horas dedicadas ao lazer e socialização com amigos e família, além do tempo empregado no trânsito, no trabalho, nas atividades educacionais, assim por diante.

 Vitalidade comunitária - Foca nos relacionamentos das criaturas dentro das respectivas comunidades. Examina o nível de confiança, a sensação de pertencimento, a vitalidade dos relacionamentos afetivos, a segurança em casa e na comunidade, além das práticas pessoais de doação e de ações ligadas ao voluntariado.

 Educação - Leva em conta fatores como participação na educação formal e informal, envolvimento na educação dos filhos, valores culturais e educativos, as condições do ambiente em que se processam as atividades pedagógicas.

 Cultura - Avalia as tradições locais, os festivais promovidos pela comunidade, a participação em eventos culturais, as oportunidades das pessoas para desenvolver capacidades artísticas, além de incentivar análises críticas referentes a eventuais problemas originários de discriminação por religião, raça ou gênero.

Chama-se isso, em linguagem clara, de busca da felicidade.


E por falar em FIB e PIB...


Cesar Vanucci

“O PIB mede tudo, menos aquilo 
que torna a vida digna de ser vivida.”
(Robert Kennedy)


Os comentários aqui lançados sobre a FIB (Felicidade Interna Bruta), adotada como medidor da prosperidade social no distante Butão, motivaram algumas manifestações interessantes de componentes do reduzido, posto que leal, grupo de leitores deste desenxabido escriba.

Antônio Manoel Almeida mandou dizer que, dia desses, na televisão a cabo, assistiu a um intrigante filme turco em que a heroína, “cansada de guerra” nos atropelos urbanos, resolve chutar tudo pra escanteio na cata do sossego acenado nas convidativas propostas de convivência social anunciadas naquele reino himalaiano. Isaura Marcondes valeu-se da deixa sobre a tal FIB para falar do PIB (Produto Interno Bruto). Encaminhou-nos texto extraído do excelente livro “O Futuro Chegou” (já comentado neste espaço), do sociólogo italiano Domenico de Masi.  Trata-se da reprodução de memorável pronunciamento de Robert Kennedy, assim como seu irmão John Kennedy, ex-presidente dos Estados Unidos, vítima de assassinato cercado de circunstâncias intrigantes no auge da carreira política. Nessa fala, de conteúdo social emocionante, é dito com todas as letras, pontos e vírgulas, que o modelo do PIB, empregado no mundo inteiro como confiável instrumento de aferição do desenvolvimento econômico, “mede tudo, menos aquilo que torna a vida digna de ser vivida”. Os conceitos expendidos no aludido pronunciamento, repetidos abaixo, antecipam, de alguma maneira – é lembrado pela atenta leitora –, ideias anos mais tarde adotadas na concepção da FIB (Felicidade Interna Bruta).


Tratemos de conferir. Robert Kennedy com a palavra: “Não encontraremos nem um fim para a Nação nem a nossa satisfação pessoal na mera busca pelo progresso econômico, na destruição sem limites dos bens da Terra. Não podemos medir o espírito nacional com base no índice Down Jones nem nos sucessos nacionais pelo Produto Interno Bruto. Porque o nosso PIB implica a poluição do ar, a publicidade de cigarros e as ambulâncias para limpar as ruas das carnificinas. Leva em conta as fechaduras especiais com que fechamos nossas portas e as prisões para aqueles que as arrombam. Nosso PIB implica a destruição das sequoias e a morte do Lago Superior. Cresce com a produção de napalm, de misseis e testes nucleares e compreende também a pesquisa para melhorar a disseminação da peste bubônica. Nosso PIB se infla com os equipamentos que a policia usa para conter as revoltas em nossas cidades; e apesar de não diminuir por causa dos danos que as revoltas provocam, aumentam quando as favelas se reconstroem de suas cinzas. Implica o fuzil de Whitman (responsável por massacre urbano)  e a faca de Speck (serial killer) e a transmissão de programas televisivos que celebram a violência para vender mercadorias às nossas crianças.(...)

E se, de um lado, o nosso PIB compreende tudo isso, por outro não leva em consideração muitas coisas. Não leva em consideração o estado de saúde de nossas famílias, a qualidade de sua educação, ou alegria de suas brincadeiras. É indiferente à decência de nossas fabricas assim como a segurança de nossas estradas. Não compreende a beleza de nossa poesia ou a solidez de nossos matrimônios, a inteligência de nossas discussões ou a honestidade de nossos funcionários públicos. Não considera nem a justiça de nossos Tribunais nem a retidão das relações entre nós. Nosso PIB não mede nem nossa inteligência, nem nossa coragem, nem nossa sagacidade, nem nossos conhecimentos, nem nossa compaixão, nem nossa devoção ao nosso País. Em poucas palavras, mede tudo, menos aquilo que torna a vida digna de ser vivida; e pode nos dizer tudo sobre os Estados Unidos, exceto se estamos orgulhosos de ser americanos.”




sábado, 7 de maio de 2016


Um pacto de suma importância

Cesar Vanucci

 “O combate à corrupção e o desenvolvimento
econômico e social precisam caminhar juntos.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

As lideranças, começando pelas do setor político, dão desassossegantes mostras de não terem ainda se aquilatado dos arrasadores efeitos causados nas atividades produtivas pela enervante demora em se estabelecer um pacto nacional (indispensável e urgente) à volta dos assim chamados “acordos de leniência”. A paralização ou redução do ritmo de trabalho das grandes empresas engolfadas nas investigações sobre superfaturamento em obras públicas acarretam, forçoso admitir, danos econômicos e sociais apreciáveis.

Fatos são fatos. A situação está posta. O bom senso recomenda que a questão, obviamente complexa e delicada, seja trazida a um exame lúcido e objetivo no sentido de se poder encontrar solução adequada, consentânea com o sagrado interesse público, com a atenção voltada para os gravames sociais e econômicos dela decorrentes.

 Para a retomada do desenvolvimento e enfrentamento do perturbador drama do desemprego afigura-se de suma relevância a fixação ágil de um programa criativo, ancorado em diretrizes e salvaguardas eficientes, que abra oportunidades aos complexos empresariais envolvidos nas apurações da Lava Jato de voltarem a participar da execução de grandes obras públicas. Isso – imperioso repetir – com o emprego de todas as cautelas recomendáveis. Essas empresas, sabido é, são detentoras de arcabouços produtivos e de tecnologias avançadas que não podem ser deixados à margem num esforço coletivo pela retomada do crescimento nacional. O que carece ser feito, sem tergiversações, dentro de regras jurídicas e ditames éticos eficazes, é colocar todas as descritas engrenagens de prestação de serviços inseridas na exclusiva missão de construção da riqueza coletiva. Qualquer eventual desvio, mínimo que seja, dessa importante missão - como deploravelmente ocorreu noutros momentos, como fruto de alianças espúrias estabelecidas entre agentes políticos e empreiteiros, visando ganhos pecuniários indevidos – implicará naturalmente na aplicação pelos organismos de controle de sanções rigorosas. Seria até o caso, talvez, de incluir no código processual penas mais severas para essa espécie de delito, abominado pela consciência das ruas.

Levantou-se, em certo instante, nos debates a respeito dos “acordos de leniência”, a hipótese de que as empreiteiras nacionais flagradas em delitos fossem substituídas por organizações estrangeiras, ou por companhias brasileiras de porte médio. Conceituados analistas nas áreas negociais sustentam opinião de que não é assim que as coisas funcionam. Apontam como obstáculo, em primeiro lugar, a inexistência de esquemas empresários aptos a atuarem com a urgência requerida nos frontes das obras.  Citam também o receio, bastante compreensível, de participação em licitações numa hora de desconfianças jurídicas afloradas. O ambiente não se mostraria, por tudo isso, estimulante ao ingresso em cena de novos protagonistas investidores.

De tudo quanto posto sobra como conclusão importantíssima e definitiva o seguinte: o combate à corrupção e a retomada do desenvolvimento são essenciais. A Nação tem os olhos fixados nos dois palpitantes temas. É mais do que razoável esperar das melhores cabeças pensantes do País capacidade e engenho para formular normas de atuação ideais de modo a que tudo possa se encaixar nos devidos eixos. Aos executores das tarefas pertinentes a cada uma dessas empreitadas, almejadas ardentemente na vontade popular, cabe assegurar todas as condições exigidas, em termos práticos e legais, para que consigam levar a termo satisfatóriamente os objetivos colimados.


Muitas preocupações

Cesar Vanucci

“Imaginar Eduardo Cunha na condição
de vice dá calafrios na espinha.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Vem crescendo a olhos vistos, por ululante obviedade, o contingente dos cidadãos que se confessam intrigados, quando não perplexos, com os rumos de certos acontecimentos na seara política. O foco das atenções se concentra na sessão da Câmara em que foi aprovado o encaminhamento ao Senado, para julgamento, do processo de impedimento de Dilma Rousseff.  Pipocam controvérsias. A primeira delas provém da estarrecedora constatação de que quase uma centena dos votantes acham-se emaranhados nas teias da lei, boa parte figurando no desconfortável rol dos investigados pela Lava Jato.

Para um mundão de gente afigura-se, de outra parte, bastante difícil absorver a ideia de que a palpitante questão do impeachment, rendendo repercussão intensa dentro e fora do país, haja sido conduzida na tramitação parlamentar – digamos assim, para facilitar o entendimento – de “primeira instância” por indigitado réu em processos sob exame no STF. Só nos últimos cinco meses, a Alta Corte acumulou onze denúncias da Procuradoria Geral da República alusivas a atos de corrupção e abuso de poder contra o deputado Eduardo Cunha, Presidente da Câmara. Cinco delas desembocaram em investigações avalizadas pelo ministro relator Teori Zavascki. Compreende-se, perfeitamente, à vista disso, esteja sendo veementemente contestada a legitimidade do papel assumido pela figura referida no impeachment. A hipótese de que, com o eventual afastamento da Chefe de Governo, Cunha ascenda constitucionalmente à condição de “novo” Vice-presidente da República é de molde a provocar calafrios na espinha das pessoas bem intencionadas sinceramente engajadas no esforço de construção nacional, independentemente das ligações que mantenham com as diferentes correntes ideológicas ocupantes do palco central nos debates políticos. Cabe anotar ainda que o parlamentar é alvo de acusações no Conselho de Ética da Câmara. Usa e abusa de suas prerrogativas e com ajuda de aguerridos partidários promove acintosas e sucessivas manobras protelatórias, de maneira a impedir até mesmo as oitivas das testemunhas arroladas, em mais um flagrante abuso de poder.

Outro item preocupante nessa baita enrascada em que a incompetência política nos meteu diz respeito a sérias denúncias, que carecem ser apuradas, de conceituados jornalistas. Essas denúncias, envolvendo lances que alvejam valores éticos que a opinião pública está fazendo questão de preservar, não encontraram, estranhavelmente, ao contrário do que sempre ocorre, eco na grande mídia, em que pese seu explosivo teor. Jânio de Freitas, na “Folha de São Paulo”, jornal que defendeu abertamente o afastamento de Dilma, registrou em sua coluna, dia 21 de abril, segunda-feira, o seguinte: “O governo operava no balcão de cargos e verbas orçamentárias. O balcão de seus adversários não operava menos, embora, à falta de cargos, por outros meios. E também em outras horas: reuniões, de preferência, nas madrugadas em casas de parlamentares e lobistas, inclusive a residência oficial da presidência da Câmara. No dia seguinte à votação o jornalista José Casado (“O Globo”) escrevia: “Deputados comentavam as “cotações” do relativismo ético – R$ um milhão por ausência, R$ dois milhões pelo voto no plenário.” De cotações nada ouvi, como não ouvi resposta para a questão de maior importância: quem forneceu o dinheiro?”

Já André Barrocal, na “CartaCapital”, revista que, a seu turno, posicionou-se oficialmente contra o impedimento, informou na edição de 27 de abril que os céus de Brasília registraram tráfego aéreo inusual por ocasião da votação na Câmara. A explicação viria da evidência de que verdadeiros “mecenas da aviação civil” andaram financiando à pamparra o transporte de deputados a pedido do núcleo político ligado a Temer e Cunha. Uma grana preta rolou na cobertura desses voos especiais, segundo o jornalista, que menciona, como aliás faz também Jânio de Freitas, os patrocinadores do esquema. Não há resistir à tentação de um registro revestido de desconcertante sabor irônico. Conforme as denúncias de Barrocal, entre os principais financiadores dos fretes de aeronaves estaria uma grande empresa vinculada ao setor da alimentação que, a basear em profusa divulgação ainda recente nas redes sociais, “pertenceria” a um dos filhos do ex-presidente Lula.

As diferentes faces da crise

 Cesar Vanucci

“Boa parte da sociedade teme Temer”
(Eliane Catanhede, jornalista)

A crise política sintetizada em meia dúzia de frases proferidas por personagens de presença na mídia.
 

Joaquim Barbosa, ex-Presidente do Supremo, sobre a sessão na Câmara dos Deputados:  “É de chorar de vergonha!”

 Ex-Presidente do Uruguai, José Mujica, reportando-se à mesma sessão: “A transmissão, para fora, fez mal ao Brasil, ao prestígio do País no mundo.”

Ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, diante de uma imagem em que conhecidos próceres políticos aparecem em clima de comemoração: “Vejam só o que vai sobrar pra todos nós.”

Celso Amorim, ex-Chanceler brasileiro: “São manobras de cúpula conduzidas por personagens sobre as quais (mesmo mantida a indispensável presunção de inocência) pesam acusações muito mais graves do que as chamadas pedaladas fiscais.”

James Naylon Green, líder do grupo de “brasilianistas” norte-americanos: “Muda-se para ficar como sempre foi.”

Vittorio Medioli, jornalista e ex-deputado federal: “O balde da paciência entornou pela catástrofe econômica, mais que por pedaladas, mero pretexto. (...) Foi especialmente pelos erros não perdoados de Dilma e pela inconteste atuação de Eduardo Cunha na condução do impeachment que Temer estará com as rédeas do governo.”

Mino Carta, jornalista: “A solução recomendável a esta altura estaria na convocação de eleições gerais o mais breve possível (...) com a possibilidade de reformar um Parlamento hoje inconfiável.”

Rodrigo Martins, jornalista: “A anistia ao presidente da Câmara não é mais de forma sorrateira. Tudo corre às claras.”

João Gualberto Júnior, jornalista: “O pior ainda nem começou.”

Deputado Tiririca, num pronunciamento irônico sobre a sessão da Câmara: “Pela Florentina de Jesus, pela minha irmã Cuculina, pela minha esposa, pela minha amante, pelo meu filho que vai nascer em 2020, voto Sim.”

Mauricio Dias, jornalista: “Os eleitores querem votar. E apontam a direção: renúncia da Presidenta e do Vice.”

Senador Romero Jucá: “O impeachment é uma crônica anunciada. Não caiu de paraquedas. Esse desastre do governo foi construído meticulosamente. Uma posição ideológica equivocada desaguou no intervencionismo econômico, no corporativismo e numa visão autoritária da Presidente.”

Eliane Catanhede, jornalista: “Boa parte da sociedade (...) teme Temer. Ou melhor, teme o que o PMDB significa e o que Temer carrega com ele para o centro do poder.”

· Falar verdade, o posicionamento ideológico, de insofismável teor jihadista, do deputado Jair Bolsonaro, com suas vociferações contínuas contra a democracia e os direitos humanos, preocupa bem menos que as ações praticadas por uma minoria barulhenta de radicais que começa a pintar no pedaço. Vimo-los em ação, carregando faixas, aplaudindo e uivando apoio ao parlamentar à hora de seu voto na Câmara, na concentração na avenida Paulista. Nas intenções de voto para a Presidência eles têm, também, garantido os índices reduzidos, mas superiores aos de outros prováveis candidatos, obtidos pelo citado personagem. São indícios perturbadores de arregimentação extremista. Não deixa de ser tranquilizador saber que a consciência cívica da Nação repele as propostas incendiárias provindas das lateralidades ideológicas.

Mesmo assim, aconselha-se aos democratas que conservem os aparelhos de percepção permanentemente ligados. Como se recomenda na famosa cartilha do escotismo é prudente manter-se sempre alerta.

· Um lance que não vem passando batido aos olhares atentos de leitores das publicações impressas e telespectadores. A grande mídia brasileira interrompeu, abruptamente, o velho costume, que para muitos soa um tanto quanto provinciano, de reproduzir manchetes, análises, informações sobre o Brasil estampadas nos mais importantes veículos da comunicação social estrangeira. Comenta-se, à boca pequena, no meio jornalístico, que isso se deve à circunstância de a mídia estrangeira, especialmente europeia e norte-americana, andar expendendo no momento críticas acerbas à forma com que vem sendo conduzida a crise política brasileira.




 
Intolerância subverte índole da brasilidade
Rita do Val *
A crise político-econômica do País pode ter consequências ainda mais profundas, devido ao acirramento dos discursos dos governistas e da oposição, que têm revelado um lado violento nos embates e discussões. Observamos assustadora mudança cultural dos brasileiros, cuja índole solidária, pluralista e serena, presente inclusive em numerosas eleições e momentos de intenso debate partidário-ideológico, está sendo substituída rapidamente pela intolerância e truculência.
O direito de opinar está sendo patrulhado e se convertendo em objeto de intimidação das pessoas. No Congresso Nacional, nas empresas e nas redes sociais, não faltam histórias e casos de agressão verbais e até físicas, envolvendo indivíduos que se dizem comprometidos com a ética e a democracia.
De um lado, vemos uma minguada base aliada do governo, que defende ferrenhamente o mandato da presidente Dilma Rousseff. De outro, uma oposição renovada, que ganha forças com o impeachment. Porém, o debate político, de ambos as partes, transcende ao espírito republicano, revestindo-se de exagerada agressividade e agressões morais e físicas. Muito preocupante é como a população está cada vez mais contaminada por esse embate truculento, que não interessa à democracia e muito menos à sociedade.
A política pode até mesmo ser paixão, pois isso é inerente ao ser humano. Porém, não pode fomentar o ódio. Na fronteira entre os dois sentimentos, nota-se preocupante mudança de um paradigma cultural dos brasileiros. As sessões do Legislativo lembram as brigas de torcidas organizadas. Nas redes sociais, o debate democrático deu lugar à barbárie, com trocas de ofensas pessoais, insultos e ameaças. Veem-se pessoas que justificam o emprego da tortura (um crime no Brasil!), pedem a volta da ditadura militar, fazem apologia ao estupro como prática educativa e defendem que o adversário deveria ser exterminado (genocídio?).
Segundo pesquisa da VitaSmart, uma em cada cinco pessoas diminui seu contato com amigos na vida real devido a brigas nas redes sociais. E 19% dos 2.698 entrevistados admitiram ter bloqueado ou cancelado amizades por causa de discussões virtuais. É triste constatar que a violência tomou o lugar do uso da razão e que a intolerância com quem pensa diferente transforma amigos e parentes em inimigos e colegas de trabalho em adversários.
Estamos na contramão da história, já que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, o mundo organiza-se para a construção da paz. O Brasil sempre teve papel importante na mediação de acordos multilaterais, exatamente devido à vocação de nosso povo e governantes para o diálogo. Talvez tenhamos esquecido de que fazemos parte de uma nação e queremos que ela supere suas dificuldades, para que todos nós, brasileiros e estrangeiros que aqui vivemos, tenhamos vida digna e progresso social e harmonia.
O debate político e o contraste das ideias e ideologias são enriquecedores e contribuem para o fortalecimento da democracia. Porém, digladiando-se com crescente agressividade, os políticos têm dado um mau exemplo. Eles deveriam cumprir melhor o papel de mediadores das relações entre o Estado e a sociedade e guardiões dos princípios republicanos, postura básica de quem recebe um mandato público.
É premente pacificar os ânimos. O PIB, os empregos e os investimentos voltarão a crescer, pois toda crise tem fim. No entanto, será muito difícil reverter a ruptura em curso no grau de tolerância dos brasileiros. Precisamos reaprender a conviver com as diferenças.
*  Rita do Val é coordenadora do curso de Relações Internacionais na Faculdade Santa Marcelina (FASM)

A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...