sexta-feira, 29 de março de 2019


Tropeções em fatos desconcertantes

Cesar Vanucci


“Olhar o mundo com os olhos dilatados pela estranheza...”
(Ortega y Gasset)


Nas andanças cotidianas os tropeções em fatos desconcertantes acontecem volta e meia. Aqui, de registro recente, um punhado deles.

Cada dia, conta o jornal, um novo tipo de agrotóxico é despejado na mesa de refeições do brasileiro. O número dessas substancias nocivas, liberadas por órgãos ditos de saúde pública, cresceu 394 por cento entre 2005 e 2018. Seja a informação acrescida de outro dado inquietante: boa parte dos produtos franqueados é de uso proibido fora daqui, inclusive nos países onde o veneno é caprichosamente concebido ou fabricado para comercialização em “casa de mãe Joana”. Cabe anotar ainda que, só em Minas Gerais, no ano de 2017, ocorreram 625 notificações de intoxicação aguda provocada por agrotóxico nas lidas rurais. Em 2008 as intoxicações na faixa do trabalho agrícola chegaram a 181. Aumento de 245 por cento, entre os períodos citados, conforme levantamentos do SUS.

Investigação jornalística revela serem um tanto quanto exagerados os atos até agora divulgados acerca de nomeações de parentes próprios, ou de familiares de cupinchas, para cargos públicos estratégicos, assinados por numerosos governantes estaduais que se escoraram em retóricas mudancistas com relação a viciosas práticas políticas para galgar o poder. A postura nepotista denunciada mostra explicitamente que, também por aí, vamos ter que, tomados por frustração, confrontar um pouco mais do mesmo...

Com a manutenção pela Câmara Municipal de veto do Executivo a projeto de lei definindo regras rígidas e limitações na comercialização de animais domésticos, Belo Horizonte tornou-se a única capital do Sudeste desprovida de legislação pertinente ao assunto. “Consideramos o veto um desfavor à sociedade. Estamos na contramão da corrente mundial”, denuncia Ana Martins, dirigente da ONG “BastAdotar”, em entrevista ao “O Tempo”.

Itatiaiuçu, Barão de Cocais, Macacos (Nova Lima), em fevereiro; Rio Preto, agora em março, são outros municípios duramente afetados, na história recente, pela exploração predatória mineral. Passaram a integrar o conjunto das comunidades inclementemente alvejadas por preocupações diante da circunstância de estarem localizadas nas proximidades das tais “barragens de risco”. Foram “lançados” no rol das áreas que ostentam placas com os dizeres “perigo à vista”, após as horrendas tragédias de Mariana e Brumadinho. Ainda agora, em 16 de março, moradores do povoado de Monte Alegre, distrito de Santa Bárbara de Monte Verde, Rio Preto, Zona da Mata, foram convidados a deixar, às carreiras, suas propriedades e pertences, ao soar a sirene de alerta a respeito da súbita elevação, para o assim chamado (amedrontador) “nível dois”, do volume de água na barragem vinculada ao reservatório de uma hidrelétrica. Acertou na mosca quem apostou ser a Vale a proprietária da usina hidrelétrica...

O Governo Federal vem de promover leilão para que um punhado de aeroportos, por ora administrados pelo Estado, “passe ao controle da iniciativa privada”. O ganhador do lote apontado como de maior valor (terminais localizados no Nordeste) foi uma grande empresa espanhola. Estatal, tá bem? Como diriam o saudoso Ricardo Boechat e seu irreverente parceiro, José Simão, nas bem humoradas tiradas matinais na “Band”, o Brasil é mesmo, inapelavelmente, o país da piada pronta...


Mais esbarrões em coisas desconcertantes

Cesar Vanucci

“Promessas não pagam dívidas.”
(Brocardo popular que se ajusta com exatidão a uma
situação vivida pelo funcionalismo publico mineiro.)

Os esbarrões em coisas desconcertantes fazem parte, inexoravelmente, da aventura cotidiana. As informações alinhadas abaixo foram coletadas nos últimos dias.


● Na televisão, palanques, declarações a jornais, no curso de sua vitoriosa campanha eleitoral, o ilustre Governador Romeu Zema garantiu, de modo bem enfático, que ao assumir o poder o pagamento dos salários devidos à cúpula administrativa, envolvendo Secretários de Estado, só seria efetivado depois de devidamente quitados os débitos salariais acumulados com os funcionários públicos. Não satisfeito com os reiterados anúncios a respeito da “inabalável decisão”, resolveu registrar em cartório, com firma reconhecida, fotos para a posteridade etecetera e tal, o compromisso assumido em seu entusiástico desbordamento retórico. Transcorridos dois meses de gestão, o dito acabou ficando por não dito. A cúpula administrativa recebeu pontualmente em dia os vencimentos, enquanto a turma dos andares de baixo continuou amargando os tradicionais atrasos, um repeteco deplorável do que já havia sucedido na gestão anterior. E como se isso tudo já não bastasse pra semear desassossego, outra incrível “trapalhada” andou pintando no pedaço. Nas informações de rendimentos remetidas pela Fazenda aos servidores, para fins de compor a declaração de imposto de renda, consta já ter sido pago o 13º correspondente a 2018. O engano, implicando em ônus para o pessoal, levou dedicado amanuense de uma repartição do setor de saúde, carinhosamente apelidado de Jajá da Laurinda em seu aconchegante recesso familiar, a bradar alto e bom som, na hora de bater o ponto, sob manifestações incentivadoras dos colegas, que “a turma dos burocratas das finanças “abusaram”, outra vez, da patuléia”...

● A espantosa e traumatizante tragédia de Suzano concorreu, óbvia e significativamente, para robustecer a opinião dominante, no seio da opinião pública, de que um controle cada vez mais rígido na venda e porte de armas se impõe como forma razoável e civilizada, legal e moralmente compreensíveis, de se assegurar defesa comunitária preventiva contra a violência. Apesar desse majoritário entendimento, há quem, confessando-se partidário da flexibilização da comercialização e porte de armas, ouse sustentar, equivocada e contraditoriamente, a tese de que as inocentes vítimas do hediondo atentado poderiam ter se protegido melhor – vejam só a absurdidade do argumento! – se lhes tivesse sido concedida a chance de, também, poderem sacar do coldre a pistola, em revide à ação dos tresloucados atiradores.

● Por falar em burocracia, faz sentido atentar para o que andam dizendo executivos da AngloGold Ashanti. Eles se queixam da morosidade no despacho de pedido protocolado, há um tempão, na Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável – Semad. Alegam que a não aprovação, até agora, pelo órgão, de indispensáveis licenciamentos ambientais está impedindo que a empresa, como é de seu desejo e conveniência, implemente esquema técnico moderno de empilhamento de rejeitos a seco na unidade de Cuiabá, Sabará. A medida, asseguram, é recomendada como solução rápida para o crucial problema da “barragem de risco” plantada no local. Se a solicitação tivesse sido atendida na época certa, acrescentam, o trabalho programado no tocante ao empilhamento teria chegado, a esta altura, pelo menos, à metade. Isso reduziria consideravelmente, conforme a Anglo, as possibilidades de riscos.

● De onde e quando surgirá uma decisão categórica capaz de por fim à descabida e frequente exigência de apresentação de CPFs, a pretextos os mais extravagantes, em compras de produtos e serviços de significado secundário? Cadê a autoridade e a norma legal competentes para conter essa despropositada invasão da intimidade do cidadão perpetrada com nebulosos intuitos? Amigo deste escriba relata que, indoutrodia, atraído por anúncio de promoção numa das farmácias-empório da praça, viu-se obrigado a exibir o CPF para fazer jus ao preço convidativo de meia dúzia de... barrinhas de cereais. Já este outro conhecido conta que, na entrada de um parque municipal, para o qual se deslocou com familiares na manhã de um feriado, à cata de recanto acolhedor que lhes favorecesse saudável contato com a natureza, foi-lhe exigido – manjem só! - documento de identificação expedido pela Receita Federal. Ele ainda se defrontou, na ocasião, com outra situação extremamente inusitada, típico “nonsense” (vá lá, desta vez, o pedante anglicismo). Mesmo declinando a condição de septuagenário, manifesta na postura e feições e formalizada na carteira de identidade, recebeu polida recomendação no sentido de evitar estacionar o carro em trecho reservado, com placa indicativa e tudo, a “idosos”. Caso contrário, ficaria sujeito a receber multa, aplicada por zeloso fiscal, vez que não dispunha de “carteirinha especial”, fornecida no capricho por um órgão burocrático específico, atestando a idade provecta. Acredite, se quiser!


sexta-feira, 22 de março de 2019



Perda de parâmetros

Cesar Vanucci

“É a perda de parâmetros, é o descontrole, é a bagunça administrativa. É a Babel.”
(Ministro Marco Aurélio Mello, do STF)

De princípio, tamanho o espanto suscitado, imaginou-se que se tratasse, como está em moda, de mais uma “fake”. Intriga danada de maldosa nascida, certamente, em redutos ocupados por mafiosos poderosos descontentes diante da eficiente repressão ao crime organizado. Confirmada, contudo, a fidedignidade da denúncia, houve quem admitisse ser o fato de molde a estarrecer um frade de pedra, como era costume dizer-se em tempos de antanho.

A acumulação de detalhes surpreendentes sobre o ocorrido acabou criando ensancha oportunosa para a afirmação de que o estarrecimento de um único frade de pedra não seria suficiente o bastante para explicar tanto aturdimento. O mais adequado era reconhecer no censurável episódio proporção capaz de espavorecer todo o conjunto das estátuas de pedra de sabão, configurativas dos Apóstolos, enfileiradas no adrio da Matriz de Bom Jesus de Matozinhos, Congonhas do Campo, esculpidas pelo genial Aleijadinho, nosso Michelangelo barroco.

Exorbitando em suas atribuições institucionais, superestimando à desmesura o papel, sem dúvida relevante, que lhes toca representar no enredo administrativo, político e jurídico, ilustres componentes da coordenação da “Lava Jato” entenderam, de modo próprio, ao arrepio da lei, de articular a implantação de uma fundação privada abastecida com recursos vultosos pertencentes ao Tesouro Nacional, a ser por eles próprios gerida. A mufunfa, equivalente a um orçamento inteiro da Unicamp, à metade do orçamento do Ministério Público, seria aplicada em iniciativas voltadas “para proteção e promoção de direitos fundamentais afetados pela corrupção, como os direitos à saúde, à educação e ao meio ambiente, dentre outros.”

Em “acordo”, pra dizer o mínimo esdrúxulo, firmado pela turma de Curitiba diretamente com a Petrobras, sem passar pelo crivo de qualquer órgão superior qualificado, como a PGR, o Tribunal de Contas e a Controladoria Geral da União, o Congresso, a estatal, atendendo a recomendação exclusiva do grupo, carreou a avultada soma de 2 bilhões 560 milhões de reais para uma conta bancária a ser movimentada com os intuitos propalados.

A dinheirama proveio de acertos procedidos pela petrolífera com a Justiça dos Estados Unidos. Do ponto de vista institucional, moral e legal, o correto seria que tais recursos fossem capitalizados pela empresa, ou destinados a finalidades de interesse público definidas naturalmente por órgãos constitucionalmente competentes, e não por grupo isolado de agentes públicos que se auto-proclame investido de poderes situados consideravelmente além de sua alçada. A grita provocada pela invulgar ocorrência, implicando magistrados, juristas, lideranças políticas e de outros setores da sociedade, foi de tal monta que à Procuradora Geral Raquel Dodge não sobrou outra alternativa que não pedir ao STF a anulação do “acordo”, por nele enxergar inconteste violação dos preceitos constitucionais. Na justificativa do saneador procedimento, ela evocou a autonomia dos Poderes, a necessidade de preservação das funções essenciais à Justiça e os princípios da legalidade, da moralidade, além de se reportar à exorbitância de atribuições constatada na atitude dos subordinados.

Esclareça-se, ainda, a respeito da candente questão que os procuradores envolvidos, após o pronunciamento da Procuradora Geral, requereram a suspensão da criação do fundo privado bilionário que se propuseram a implantar com recursos recuperados da Petrobras.  No pedido de adiamento, formulado perante a Justiça Federal, confessaram-se dispostos a consultar, agora, a Advocacia Geral, a Controladoria Geral e o Tribunal de Contas da União, na busca de soluções adequadas para que os valores restituídos aos cofres públicos sejam usufruídos pela comunidade.

As vigorosas reações à desnorteante atitude dos procuradores acham-se emblematicamente traduzidas em declarações como as reunidas na sequência. Jornalista Élio Gáspari: “A turma da Lava Jato acertou muito e errou pouco, mas tropeçou na soberba”. Jurista Marcelo Mascarenhas: “Se um prefeito ou um governador desviasse a arrecadação de multas para uma ONG escolhida por ele, era condução coercitiva na hora”. Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo: “A mistura entre público e privado, sem a devida fiscalização, não interessa à sociedade. É ato pernicioso, fazendo surgir “super órgãos”, inviabilizando o controle fiscal financeiro. É a perda de parâmetros, e o descontrole, é a bagunça administrativa. É a Babel”.

Encurtando papo: uma incompreensível e desedificante forçação de barra.



“Incidente” em carnaval de outrora

Cesar Vanucci

"Uma ocorrência escabrosa!"
(Palavras do presidente do clube a respeito
dos preservativos largados na sala de estar)



As reviravoltas nos usos e costumes mundanos são desconcertantes. Falamos disso em narrativa anterior. Voltamos ao assunto trazendo do baú episódio ocorrido há mais de meio século, em período carnavalesco, tendo sob mira objeto que, no passado, todo mundo considerava de pecaminosa serventia e que, em tempos de hoje, é alvo de intensas campanhas educativas, de teor profiláxico, nos veículos de comunicação em massa.

Em dias recentes, próximos de uma folia carnavalesca, o carro de um conhecido emparelhou-se com o meu na descida da avenida, de frente ao "farol", como se diz em dialeto paulistês. Ele jogou pela janela uma pergunta que, por força das circunstâncias, não pude responder na hora: - Escuta aqui, meu chapa, o que há de tão engraçado pra você aí, sozinho no fusca, cair de repente na risada?

Explico, agora, respondendo à pergunta, a razão do riso solitário no flagrante de rua. Eu havia acabado de guardar no porta-malas uma sacola atulhada de preservativos, a serem distribuídos por ONG envolvida em campanha preventiva de saúde. Ao transportar o material, bateu-me a lembrança de uma festa carnavalesca dos anos 50. O fato relembrado, inspirando confrontação dos costumes vigorantes em épocas bastante distanciadas, deu causa à reação que tanto intrigou o conhecido. História na sequência relatada.

A batucada carnavalesca ia à toda no suntuoso clube, "frequentado pela nata de nossa progressista sociedade," segundo a abalizada opinião do festejado colunista do jornal da cidade. A moçada, trazendo nas mãos lança-perfume, serpentina e saco de confete, rodopiava pelo salão  ricamente decorado, entregando-se com animação às relativamente bem comportadas brincadeiras, típicas dos folguedos, toleradas nas posturas morais dominantes. Das mesas, ao redor da regurgitante pista de dança, pais zelosos acompanhavam as graciosas evoluções das filhas donzelas com suas fantasias multicoloridas, de apurado gosto.

De súbito, percorreu o salão, de mesa em mesa, trazido pelo vento do espanto e da indignação, um chocante relato. A esposa do diretor social, dama de peregrinas virtudes e de alta respeitabilidade, acabara de testemunhar, entre soluços e lágrimas, na sala de estar do reservado feminino, algo "danado de indecente". A "escabrosa ocorrência", tomando emprestadas as palavras do ilustre presidente do clube na reunião de emergência montada para uma tomada enérgica de providências, consistiu na descoberta, largadas sobre o confortável divã onde madame se refestelava depois de haver retocado a maquiagem, de duas "camisinhas de vênus" com indícios de uso recente. A primeira versão extraída dos fatos dizia que um casalzinho "prafrentex" havia resolvido mandar pra cucuia, na cara e na coragem, valendo-se de momento de distração da vigilância, as sadias regras da moral e dos bons costumes. Chegou-se mesmo, com certo açodamento, à citação de nomes de supostos autores da "sórdida proeza". O que acabou acendendo comentários maledicentes e, mais tarde, malquerenças familiares insanáveis. Outra versão posta nas especulações arguia a hipótese de que "aquelas indecências" houvessem sido lançadas por um estudante, malcaratista juramentado de cidade vizinha, depois de encher a cara com umas e outras. O auê à volta do "ato de depravação", cujos pormenores ficaram para sempre inexplicados, afetou de modo irreparável a festa. Honrados chefes de família, batendo duro os calcanhares, convocaram as distintas consortes e amuados rebentos para se recolherem mais cedo aos respectivos domicílios. A presença de foliões no baile seguinte, "terça-feira gorda", sem intenção de trocadilho, foi magra. Bem aquém das expectativas, tamanha a dimensão do escândalo.

A história rendeu outros ruidosos desdobramentos. Numa assembléia religiosa, dias depois, devotos piedosos acompanharam, compenetrados, incandescente prédica tendo como foco o "abominável caso", com o pregador caprichando nas citações das passagens bíblicas que se ocupam de Sodoma e Gomorra.

Quem, dentre as testemunhas oculares do bololô armado no salão, ousaria imaginar que os "indecorosos artefatos de látex", mercadoria clandestina incogitável nos hábitos de consumo das pessoas de bem, passariam num futuro não tão distante a ser maciçamente distribuídos, com expressas recomendações paternas aos mancebos e moçoilas em flor no sentido de que soubessem conservá-los ao alcance das mãos, guardadinhos nos bolsos e nas bolsas, pra acudir a quaisquer emergências?

sexta-feira, 15 de março de 2019


Vanucci tomará posse no IHGMG

O jornalista Cesar Vanucci estará assumindo, no próximo dia 30 (trinta) de março, sábado, às 9h30 (nove e meia da manhã), uma cadeira efetiva no Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais.
O evento contará com a participação artística do consagrado instrumentista, concertista e compositor Cid Ornellas.
Os amigos do “Blog do Vanucci” estão convidados a comparecerem ao ato.
A sede do Instituto fica localizada na Rua dos Guajajaras, 1268 - Santo Agostinho, BH.


A grama tiririca...

Cesar Vanucci

“Simplesmente inventaram o que seriam “candidatos laranjas”,
cuja única função aparente era receber verbas e transferi-las.”
(Editorial do “Diário do Comércio”, dois de março)

A corrupção, sempre com as mandíbulas expostas à desmesura, é mais antiga do que a Serra da Canastra. “Rome omnia venalia esse” (“Em Roma tudo está à venda”), já denunciava Salústio, bocado de anos antes do advento do Cristianismo. O registro pertence ao esplêndido “Dicionário de Citações” organizado no supremo capricho por Paulo Rónai. Outras frases, também inseridas na mencionada publicação, atestam a perversa longevidade da abominável prática. Aqui estão: “A corrupção do melhor é a pior das corrupções” (“Corruptio optimi pessima”). Autor? S.Gregório, O Grande, que viveu entre 504 e 604. William Shakespeare (1564-1616) bate forte, como de costume: “Ah, se as propriedades, títulos e cargos/Não fossem fruto da corrupção! E se as altas honrarias/Se adquirissem só pelo mérito de quem as detêm!/Quantos, então, não estariam hoje melhor do que estão?/Quantos, que comandam, não estariam entre os comandados?” Isso aí...

A corrupção, já foi dito também noutra ocasião, é que nem grama tiririca. Extraio de um poema composto no saboroso dialeto roceiro sugestiva descrição dessa planta daninha. Ilustra bem a comparação arguida. Vamos lá: a tiririca “a gente pode arrancá, virá de raiz pro ar, mais qua! Um fiapo escondido no torrão faiz a peste vicejá...” A citação do verso cobra deste desajeitado escriba uma explicação. Por bom pedaço de tempo andei admitindo que os dizeres sobre a matreira gramínea fossem da lavra do notável Catulo da Paixão Cearense, Primeiro Violão inconteste da Sinfônica Poética Brasileira. Dei-me conta do equívoco, certo dia, ao ouvir o Rolando Boldrin declamar o poema por inteiro em seu magnífico programa na televisão. Contudo, lastimavelmente, não houve como reter na memória velha de guerra o nome do verdadeiro talentoso autor.

Os corruptores e corruptos de carteirinha de todos os tempos não esmorecem em seus nefandos propósitos. Imaginação fertilíssima, valem-se de todos os estratagemas já inventados para burlar a boa fé coletiva. No andamento da operação “Lava Jato” tivemos amostras disso. Quando começaram a vir a lume as primeiras informações acerca dos malfeitos cometidos, a impressão que se tinha era de que os atos ilícitos estavam circunscritos à esfera petista. Com o andar da carruagem comprovou-se que não era bem assim. O “propinoduto” atendeu a gregos e troianos. Despejou “agrados” em todas as bandas. Por mais inverossímil que pareça, oposicionistas extremados, entre os tucanos, emedebistas e outros, que se gabavam em tom triunfal de sua conduta ilibada em meio à pororoca de denúncias, se viram, também, de hora para outra, clamorosamente pilhados com a “boca na botija”. A opinião pública, estarrecida, deu-se conta, então, das reais proporções do asfixiante problema. Empreiteiros desonestos, agentes públicos infiéis, políticos inidôneos, das mais diferentes tendências, achavam-se enredados num colossal esquema de desvio de recursos públicos.

A vigorosa expectativa e mesmo a ardente esperança da sociedade brasileira, focadas em mudanças fundamentais que consigam opor barreiras a desvios de conduta geradores de fraudes no manuseio dos dinheiros públicos, expressamente evidenciadas na campanha sucessória, já se vêem molestadas por ardilosas manobras indicativas do reflorescimento da “tiririca”. O nosso DC, no editorial estampado na edição de 2 de março, pontua magistralmente, ao se reportar à “invenção” dos “candidatos laranja”, que “mais uma vez, para desilusão talvez dos mais crédulos, a diferença entre o desejável e o acontecido foi grande e não foi preciso muito tempo para que se percebesse como partidos políticos e candidatos – nem todos é de se supor – se adaptaram aos novos tempos e com assustadora agilidade”.

Há mais coisas inconvenientes relacionadas com o vasto “laranjal”. A bancada parlamentar convocada a apoiar projetos governamentais, tal qual acontecia no passado, impôs condições - ao que parece já devidamente acertadas – para que tudo se enquadre no enredo costumeiro. Ou seja, para que tudo permaneça “como dantes no quartel de Abrantes”. O propalado “banco de talentos” não passa de rótulo novo para a antiga distribuição de cargos a cupinchas na administração pública. A liberação de “bônus” nada mais é do que a tradicional e generosa oferenda de verbas para ações de interesse estrito dos representantes parlamentares. Encurtando razões: mais do mesmo.

Um fiapo escondido no torrão faz mesmo a peste vicejar...


Carnaval, clarão de esperança

Cesar Vanucci

“O Brasil cultiva concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida.”
(Domenico de Masi, sociólogo italiano)

Na pauta, outra vez, carnaval. No desfrute do vigor físico e mental proporcionado por quatro decênios de vida útil, já festejados pela segunda vez consecutiva, confesso-me, em boa e lisa verdade, adepto entusiasta do carnaval. Não me animo, tá claro, no curso dos ruidosos folguedos, a vestir “uma camisa listrada e sair por aí (...) carregando um pandeiro na mão”, como proposto na canção de Assis Valente, tornada famosa na magistral interpretação de Carmem Miranda. Minha participação na “algazarra momesca” se adstringe a acompanhar, lá de casa mesmo, com discretas batidas de pés, batucando à distância, as multicoloridas evoluções coreográficas na base do improviso ou ensaiadas no capricho por escolas de samba, blocos, trios elétricos e foliões isolados, projetadas na telinha. Tão manifesta simpatia pela causa carnavalesca – mostra pujante da autêntica cultura brasileira – leva-me a adotar, como articulista, o estilo baiano de celebrar o carnaval, qual seja, começando bem antes e espichando o ronco das cuícas além do prazo institucionalmente designado para tanto.  Este papo introdutório ajuda explicar a razão pela qual as maltraçadas de hoje retomam o tema, mesmo depois do carnaval que passou...

O carnaval brasileiro, “uma tradição venerável, adorada”, conforme assinala Gilberto Amado, constitui sempre uma explosão feérica de alegria espontânea, propícia à confraternidade social. Incomparável em relação a qualquer outra manifestação cultural capacitada a atrair multidões, estremece de contaminante entusiasmo ruas e lares, mentes e corações. Merece ser apontado como um clarão de esperança.

Dá pra perceber que a festividade carnavalesca deste ano de 2019, com sua democrática e brejeira interpretação das coisas da vida, acionando dezenas de milhões de pessoas em tudo quanto é canto, quebrou padrões, superou expectativas. Alcançou retumbância maior do que em outros momentos, embora isso pudesse ser pratrazmente enxergado como inatingível proeza. Consideradas as inusitadas proporções assumidas pelo chamado “tríduo momesco” - que na quase totalidade dos lugares, a começar pela Bahia de inesgotável fôlego, deixou há muito de ser apenas um “tríduo” -, contrariou em cheio prognósticos acerca de eventual retração na participação popular. Alguns sustentavam a hipótese, como natural consequência inevitável da crise.

O que se viu foi algo diferente do que se imaginou. O transbordamento de emoções genuínas extrapolou os limites concebíveis. Escancarou as inexauríveis potencialidades humanas que fazem da Nação brasileira um pedaço de mundo tão especial.  Para os especialistas em Ciências Sociais afigura-se, agora, indeclinável a tarefa de interpretar adequadamente esse possante sopro de energia que costuma acionar a gente do povo nessas estupendas afirmações culturais e humanísticas. Material abundante para reflexões de sociólogos e antropólogos foi despejado, durante a celebração, nas praças públicas, do Oiapoque ao Chuí, sugerindo a conveniência de explicações por parte dos mencionados estudiosos dos fenômenos sociais. Fica bem evidenciado que as manifestações flagradas se contrapuseram à atmosfera pesada, sombria, de timbre derrotista ininterruptamente propagada no noticiário nosso de cada dia.

Face ao exposto dá, então, pra perceber melhor aquilo que o sociólogo italiano Domenico de Masi proclama: a cultura da inteligência e a contemplação da beleza desvelam, no caso brasileiro, atrás de motivos de medo, radiosas ocasiões de esperança. E isso graças à benfazeja circunstância de que, ainda no entender do pensador, o modelo de vida brasileiro acena sempre com perspectivas alentadoras no tocante às conquistas do futuro. Representa exemplo eloquente de proposta de vida bela e colaborativa. Mas o melhor mesmo é deixar que o próprio Domenico se encarregue de explicar, com a paixão que nutre pelas coisas brasileiras e encantamento que sente pelo jeito de ser de nossa gente, no que consiste realmente esse estilo de vida enaltecido. “O Brasil, apesar de assolado pela violência, pela escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, pela corrupção, pela carência de infraestrutura, cultiva uma concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade”.
O que ele falou e disse parece primorosamente retratado no carnaval brasileiro, não é assim mesmo?

sexta-feira, 8 de março de 2019


Brasil, país do carnaval

Cesar Vanucci

“O carnaval é a única festa nacional
que consola a gente (...) da queda do mil-réis,
da política, dos programas de salvação pública!”
(Ribeiro Couto – 1898-1963)

Abram alas. Deixem o carnaval passar. Com seu fascínio irresistível, com sua exuberância multicolorida, com suas ruidosas e inconfundíveis manifestações, a assim denominada folia momesca cria condições, por paradoxal que possa parecer, para uma pausa no torvelinho da existência. E se o ritmo das ocorrências rotineiras vem sendo marcado por desafinações perturbadoras, como as que estão sendo dadas a perceber na cena brasileira nestes dois primeiros meses de acumulação de problemas no nada bento, até aqui, ano de 2019, o intervalo aberto revela-se propício para descontração, apaziguamento de ânimos, diversão, meditação, por ai, de acordo com as diversificadas opções de gosto de uma freguesia acossada por tanto sufoco. O melhor a fazer, foliões ou não, é tirar partido do bem-vindo recesso.

 Brasil, país do carnaval! Há quem demonstre algum ou mesmo forte desconforto com a designação. Franzindo a testa em sinal de quem comeu e não gostou, coloca desdém na voz sempre quando chamado a falar da feérica celebração popular. Deixa cair a opinião de que tudo isso não passa de baita despropósito. Algo que, em seu distorcido parecer, empobrece pra valer a cultural nacional.

É claro que a turma partidária desse ponto de vista está rotundamente equivocada. Como também é notório que parte dessa minoria de viventes preconceituosos em relação ao carnaval não encontra motivos para se  rejubilar com o fato de que sermos reconhecidos como o “país do futebol”. Não é improvável, ainda, que se sintam mais a vontade numa comemoração, por exemplo, do “halloween”, do que numa festa junina com aquele sabor típico roceiro descrito nos poemas e no canto de Catulo da Paixão Cearense, primeiro violão da Sinfônica poética brasileira. Ou até mesmo que achem naturalíssimo o emprego pedante, num trivial papo com conhecidos, de expressões em “inglês moroless”, como “feedback”, “brunch”, “feeling” (e por aí segue...), empregadas abusivamente para classificar situações obvias do cotidiano.

Não nos importemos, todavia, com o que alguns poucos pensam e dizem do carnaval. As vibrações ricas em calor humano, magnéticas, contagiantes desse inigualável festejo, aqui por nossas bandas, são únicas, têm marca registrada. Exprimem admiravelmente, como acontece também no reino do futebol, o modo de ver e sentir de nossa gente. Estampam, de forma magistral, as múltiplas faces da genuína cultura nacional.

Disponho-me a contar, em seguida, coisas amenas de outros carnavais. Naquele tempo, sabe seu moço, a criação musical revelava-se mais pujante. O carnaval era época geralmente reservada para lançamento de belos sambas e marchas, boa parte deles até hoje com lugar assegurado na memória das ruas.

“Alalaô”, “Chiquita Bacana”, “A Jardineira”, “Não me diga adeus” são alguns clássicos da incomparável canção popular brasileira nascidos nos teatros-revistas e nas rádios, por ocasião do então chamado “tríduo momesco”. Essa expressão aí, por sinal, acabou caindo em desuso em tudo quanto é parte, mas, na verdade, um pouco mais mesmo na Bahia, já que o carnaval na “boa terra” costuma começar bem antes e acabar muito depois, como é sabido por todos e desfrutado por muitos.

Autores e intérpretes musicais se preparavam, então, para o carnaval com o mesmo capricho e cuidado de qualquer artista na antevéspera de uma temporada de espetáculos. O concurso das melodias carnavalescas fazia parte do show. Servia de trampolim para a glória.

Naquele tempo, o lança-perfume não era considerado esguicho alucinógeno. Todo folião digno do nome trazia-o sempre ao alcance da mão, nos salões e nas ruas. Os mais abonados adquiriam artefatos metálicos. Os outros consumiam os de vidro, mais em conta. Tinha-se por certo, na consciência coletiva, que o dano extremo que o emprego do lança-perfume conseguia produzir era um ardor incômodo, quando o gélido jato das bisnagas atingia o olho de algum desprevenido folião. Vez por outra, alguns poucos carnavalescos, debaixo da reprovação da maioria, se compraziam em promover duelos de lança-perfume. Contrariavam, assim, a regra pacificamente aceita de que o lança-perfume nada mais devia ser do que forma galante de aproximação.

O carnaval bem diferente de agora projetou nos últimos anos, graças sobretudo à cobertura da televisão, uma visão panorâmica impressionante da capacidade artística brasileira. A alegria, que costuma explodir franca e espontânea em tudo quanto é espaço ocupado pelos foliões, serve de pano de fundo para que sejam expostas – repetimos - as múltiplas e arrebatantes faces da cultura nacional.

As tradições, os símbolos folclóricos, os mitos, os costumes de cada região, trabalhados por carnavalescos criativos, ganham colorido e vibração nas manifestações. E deixam no espírito popular a certeira certeza de que, seja no Rio, ou em São Paulo, ou Belo Horizonte, nas cidades históricas de Minas, na Bahia, em Pernambuco, ou no Amazonas, vive-se, todos os anos, nessa época, em todo o Brasil afinal, um festejo incomparável em matéria de promoções a envolver multidões. Produto pra desfrute turístico que nenhum outro país do planeta tem condições, vontade e capacidade de oferecer.

País do carnaval, sim! Com orgulho.


Ora, veja, pois!

Cesar Vanucci 

“Chico Mendes foi irrelevante.”
(Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles)


Coisas do arco da velha pipocando. As acontecências detectadas parecem, ao primeiro olhar, petas. Quer dizer: lorotas, patranhas, ou como virou moda dizer-se em tempos de agora “fake news”.

Chico Mendes “foi irrelevante” e, além do mais, “grileiro”. Quem proclama isso, com ar triunfal, sem se enrubescer, do topo de embriagadora autossuficiência, é o ilustre Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Ele deixa cair essa opinião perante a estupefação de uma plateia de jornalistas no programa “Roda Viva”, da TV Cultura. Demonstra conhecer bulhufas, ou, o que é pior, menosprezar absurdamente a história legendária do desassombrado brasileiro que, em admirável trajetória profissional como líder seringueiro, enfrentando riscos e dissabores descomunais, pagando com a própria vida tributo à defesa intimorata de causas cívicas e humanitárias nobres, granjeou o respeito e a admiração universal. O Ministro menoscaba a importância das honrarias concedidas, em todas as partes do mundo, a alguém que se transformou, ao tempo de vida, em símbolo itinerante na árdua batalha em favor da preservação do meio ambiente. O registro infeliz é desses que, num primeiro momento, a gente toma por informação falsa.

Outra que também andou falando pelos cotovelos foi a ilustre Ministra da Família, Mulher e Direitos Humanos Damares Alves. As palavras, a seguir reproduzidas, de sua lavra, provocaram reações de autoridades holandesas. “Na Holanda – asseverou – os especialistas ensinam que o menino tem que ser masturbado com sete meses de idade, para quando chegar à fase adulta ele possa ser um homem saudável sexualmente. Já a menina tem que ter a vagina manipulada desde cedo para que desfrute de prazer na fase adulta.” Da dita cuja também, pessoa que vem ganhando notoriedade por afirmações bombásticas, é a revelação anotada na sequência: “A gente recebeu uma pesquisa que (mostra que) o Brasil é o pior país da América do Sul para criar menina. Se eu tivesse que dar um conselho para quem é pai de menina, mãe de menina: foge do Brasil. Você está no pior país da América do Sul para criar meninas” — afirmou a ministra em entrevista ao jornalista Reinaldo Oliveira.

Também centrado na vertente educacional, o ilustrado Ministro da Educação Ricardo Vélez emitiu declaração sustentando que “as universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”... Ora, veja, pois!

Outro surpreendente pronunciamento chegado ao conhecimento público decorre da apresentação, no Parlamento Federal, de um projeto do Deputado Márcio Labre, estipulando a proibição da venda de anticoncepcionais, do DIU e da chamada “pílula do dia seguinte”. Dizendo contar “com a proteção de Deus”, ele assevera que sua proposição “tem por finalidade combater frontalmente uma farsa e fazer valer, na prática, a inviolabilidade do direito à vida”. Acrescenta que a proposta “visa proteger a saúde da mulher”...

Num contexto diferenciado dos fatos acima relatados, o leitor atento se deparou ainda com notícia, pra dizer o mínimo incrível, recolhida em canto de página de jornal. Como se já não bastasse a avalancha de informações impactantes e dolorosas referentes à predação bestial institucionalizada das riquezas minerais existentes nas entranhas de um Estado apontado, nos livros didáticos dos tempos de meninice, como sendo “coração de ouro, num peito de ferro”, somos inopinadamente “brindados” com mais essa outra informação aqui concernente a uma ousadíssima ação clandestina de vandalização de jazidas em áreas que integram o patrimônio público. A Polícia Federal acaba de desmantelar esquema criminoso voltado para a extração não autorizada de um manancial mineral valioso, que vinha funcionando há mais de um decênio. A operação “SOS Canastra”, levada a efeito no Parque Nacional da Serra da Canastra, Minas Gerais, identificou 9 locais, alguns com mais de 2 quilômetros de extensão, “reservados” pela quadrilha desbaratada à exploração do quartzito. Em consequência das atividades criminosas detectadas na região mencionada, a Justiça Federal de Passos, sul de Minas, expediu – vejam só o tamanho da encrenca! - 160 mandados, sendo 77 de busca e apreensão, 73 de prisão e 10 de apreensão de caminhões e equipamentos. As maquinações ilícitas envolvem grupo de elementos domiciliados em Belo Horizonte, Alpinópolis, Passos, Itaú de Minas, Carmo do Rio Claro, São João Batista do Glória, Piumhi e, também, Batatais (interior de São Paulo). O sistema ilegal desarticulado, responsável por consideráveis danos ambientais, dispunha de frota de veículos, depósitos para guarda de minério, oficinas de lapidação e atividades intensas de vendas dos produtos trabalhados nos diversos Estados e no exterior.

sexta-feira, 1 de março de 2019

CONVITE AOS AMIGOS



Cheguei a pensar que fossem “fakes”

Cesar Vanucci 

“Não se espantar com nada talvez seja o único meio...”
(Horácio, 65-8 a.C)

Tempos danados de confusos. Tempos sujeitos a inimagináveis chuvas e trovoadas, a súbitos dilúvios lamacentos. A berros esganiçados de sirenes anunciando o apocalipse, concitando pacatos cidadãos a deixarem suas casas em desabalada carreira sem saber ao certo quando ou se a elas poderão retornar. Tempos amalucados de insidias apelidadas de “fakes”, disseminadas com impetuosidade sorrateira de grama tiririca. Tempos de insanidades propagadas via eletrônica por vespas anônimas que vêm das sombras e que nas sombras se refugiam. Tempos de perplexidade nutrida por realidades incômodas e dilacerantes, impostas por diversificadas modalidades de desvario comportamental. Tempos de confusão de espírito que dificulta para muitos diferenciar na avalancha de notícias circulantes o que é verdadeiro do que é falso.

Divulgou-se intensamente, nos últimos dias, que a alta direção da Vale estava careca de saber que a represa de Brumadinho poderia romper a qualquer momento, mas furtou-se a adotar qualquer medida preventiva tecnicamente recomendável em tentativa que pudesse evitar a brutal tragédia que enlutou a Nação. Priorizando a conveniência de garantir lucros mais polpudos para abonados acionistas, ignorou solenemente suas responsabilidades humanitárias, sociais e institucionais, as regras éticas mais comezinhas, concorrendo assim para que a catástrofe ocorresse, ceifando vidas preciosas, devastando propriedades e desfigurando o meio ambiente. Ao tomar conhecimento de tão insólita informação, este desajeitado escriba, tanto quanto uma legião imensa de ingênuos cidadãos, pôs-se a conjecturar se tais  revelações não seriam fruto de nauseante perfídia. De  alguma “fake” revestida de suprema crueldade. Todos nos equivocamos. Pasmo dos pasmos! Não se tratava de “fake” coisíssima alguma...

Em entrevista a revista de grande circulação, o ilustríssimo  Ministro da Educação Ricardo Véles Rodrigues, colombiano naturalizado brasileiro em 1955 aos 54 anos, teria deixado cair espantosa afirmação: “O brasileiro viajando é um canibal. Rouba coisas dos hotéis, rouba o acento salva-vidas no avião, ele acha que sai de casa e pode carregar tudo.” Acreditei, piamente, num primeiro momento, na mais cândida inocência, que se tratasse de “intriga da oposição”. A frase atribuída a Sua Excelência jamais teria sido proferida. Tudo se resumiria a mais uma “fake”, decorrente de sensacionalismo jornalístico barato. Torci pacas para que assim “sesse”. Não era.    

Li, nas assim denominadas redes sociais - que nalguns instantes provocam perturbadoras reações na mente das pessoas – e, ao depois, em jornal, que o ilustre senador Renan Calheiros, ex-governador, ex-presidente da Câmara Alta, teria sido acometido de reação furibunda, botando pra fora insuspeitada prepotência machista, diante da crítica de uma jornalista que o chamou de arrogante. Assim teria se pronunciado o conhecido parlamentar, figura de proa, há anos, na cena política brasileira: Ela (a jornalista) “acha que sou arrogante. Não sou. Sou casado e por isso sempre fugi ao seu assédio. Ora, seu marido era meu assessor e preferi encorajar Geddel (Vieira Lima, ex-deputado baiano, aquele cara que guardava fortuna em caixas de sapato num apartamento alugado em Salvador) e Ramez (Tebet, senador já falecido), que chegou a colocar um membro mecânico para namorá-la. Não foi presunção. Foi fidelidade.” Li, reli, tornei a ler e a reler. Inclinei-me fortemente a admitir que se tratasse de “fake” de supremo mau gosto. Acredite, se quiser! Não, não era “fake”...

Conhecida de muitos anos, modesta funcionária pública estadual comenta seu desaponto com relação a uma decisão que alega ter sido tomada pelo governo recém-empossado. Ela está se referindo ao Excelentíssimo Governador Romeu Zema, que chegou ao Palácio da Liberdade lastreado em apoio popular impressionante, autor de uma declaração recente que tem dado o que falar, a respeito da catástrofe de Brumadinho, da qual resultaram mais de 300 mortos e desaparecidos: “Parece que desta vez eles reconheceram o erro apesar do incidente”. Referia-se à Vale... Referia-se, ora, veja, pois, à Vale...

Voltemos agora à decisão que molestou a funcionária. Ato do Executivo teria determinado, em função do pesado endividamento recebido como legado dos antigos administradores do Estado, que o décimo-terceiro salário correspondente a 2018, ainda não quitado, fosse pago em 11 parcelas mensais, para todos os servidores. Retificando: para o grosso do contingente de servidores. Algumas categorias especiais de agentes públicos, por sinal os mais bem remunerados, seriam poupadas dessa desagradável contingência. Redargui, com certa veemência, ao que estava sendo transmitido pela funcionária. “Duvido que isso possa acontecer”, sustentei, argumentando com a tese de que todos são iguais perante a lei. Cheguei a dizer que a revelação não passaria, no duro da batatolina, de outra “fake”. Pois não é que tornei a me equivocar?  Tive que me curvar perante a contundente evidência de que a notícia transmitida não era “fake”, servindo para comprovar, de novo, que agora como sempre tem sido alguns são mais iguais perante a lei ...  



Os poetas sabem das coisas (II)


Cesar Vanucci

“Minha/ casa/ minha/ vida/ lama/ tomou!”
(Andreia Donadon Leal, poeta aldravianista)

Volto a explicar. Inspirado no tsunami de lama que varreu do mapa, em 2015, o povoado de Bento Rodrigues, e produziu danos irreparáveis noutras paragens, um grupo de versejadores de escol, filiado à corrente literária aldravianista, deu forma poética, num livro de 300 páginas intitulado “Mineralamas”, ao inconformismo e à revolta brotados da alma popular. Lamentou o acontecido em Mariana e o lamento se ajusta, também, ao que ocorreu, três anos depois, em Brumadinho.

O grupo ergueu mais do que um protesto. Valeu-se da poesia, “repórter milenar dos feitos heroicos ou dos fracassos humanos”, conforme acentuado na publicação, para emitir um brado de alerta contra a predação desatinada, com consequências sempre catastróficas, dos recursos naturais colocados à disposição do ser humano para celebrar a vida. E não para espalhar morte e destruição.

A Aldravia nada mais é do que uma forma de expressão lírica sintética, escorada em apenas seis palavras. Despontou para a vida literária na primaz da manifestação poética mineira, Mariana, por obra, arte e espírito vanguardeiro de um senhor time de intelectuais criativos e talentosos. Conquistou adeptos em todas as partes do território continental brasileiro, alcançando, ao depois, plagas outras d’além mar.

Para apreciação do culto leitorado, selecionei mais aldravias divulgadas no já citado livro. Antes, porém, de repassá-las quero aqui reproduzir texto poético de um personagem genial da literatura brasileira que, pelo visto, também sabia das coisas que costumam rolar no pedaço da exploração minerária, quando esta se processa em termos de abominável vandalização. Estou falando de Carlos Drummond de Andrade e de um poema seu de mais de trinta anos atrás: “O rio? /É doce./ A Vale?/ amarga./ Ai, antes fosse/ Mais leve a carga./ Entre estatais/ e multinacionais,/ quantos ais!/ A dívida interna./ A dívida externa. / A dívida eterna./ Quantas toneladas exportamos/ de ferro?/ Quantas lágrimas disfarçamos/ Sem berro?”

Chegam, agora, as aldravias. 
Gabriel Bicalho: “mineiro/vira/minério:/cimenta/seu/cemitério”; “dinheiro/ 
apaga/ essa/ praga/ da/ lama?”; lama/ não/ lava:/ leva/ a/ lavoura!”; “quanto/ vale/ um/ vale/ de/ lama?”. Else Dorotéa Lopes: “Nem/ casa/ de/ Deus/ lama/ perdoou.”; “reescrevam/ a/ geografia/ pois/ lama/ modificou”.Elizabeth Rennó: “nada/ mais/ restou/ além/ do/ telhado.”; “Na/ triste/ madrugada/ Mariana/ desacordada/ enlameada.”; “memórias/ apagadas/ águas/ contaminadas/ localidades/ inundadas.”Dilma Rocha de Athayde: “lama/ descendo/ apressada/ cidade/ morrendo/ soterrada.”. Cyro Mascarenhas Rodrigues: “mineradora/ insana/ haja/ lucro/ morte/lama.”; “vale/ estéril/ pela/ vale/ quanto/ vale?”Claydes Regina Ricardo Araújo: “silêncio/ dos/ pássaros/ clamor/ da/ natureza.”; “perseverança/ solidariedade/ doação/ assobio/ de/ luz.”Auxiliadora de Carvalho e Lago: “impiedade/ incapacidade/ irresponsabilidade/ gerando/ terrificante/ imagem.”Anício Claves: “lama/ abandona/ carro/ em/ telhado/ alheio.”; “mar/ de/ lama/ lama/ ao/ mar.”Joreani Adalmar Netto: “se/ todo/ mundo/ sabe/ ninguém/ viu?”; “semáforo/ diz/ adiante/ verde/ em/ extinção.”Luiz Carlos Abritta: ‘mortos/ choram/ pelos/ vivos/ à/ deriva.”; “aí!/ Mariana/ jazida/ de/ história/ mutilada!”Marcus Stoyanovith: “tragédia/ anunciada/ ganância/ confirmada/ Homem/ denunciado.”; “óxido/ vivo/ marreco/ morto/ homem/ solto.”Matusalém Dias de Moura: “jaz/ sob/ lama/ pedaço/ de/ Mariana.” “rio/ doce/ corre/ sujo/ de/ ganância.”Miriam Stella Blonski: “meio/ ambiente/ chora/ lágrimas/ de/ barro.”; “Natureza/ morta/ imagem/ petrificada/ de/ barro.”Luiz Fernando dos Santos: “pintaram/ nosso/ rio/ de/ outra/ cor.”; “lavam/ casas/ com/ lama/ altamente/ concentrada.” Luiz Poeta: “só/ rios/ secam.../ lágrimas/ nunca/ evaporam.”; “quantas/ lamas/ ainda/ teremos/ que/ chorar?”; “são/ marcos/ são/ marcas/ são/ corpos.” Maria Beatriz Del Peloso Ramos: “ganância/ econômica/ moldou/ lágrimas/ de/ barro.” Maria Lopes: “lamento/ tormento/ muito/ sofrimento/ pelo/ rompimento.” Nilze Monteiro: “abriu/ comporta/ inferno/ doce/ lembrança:/ passado.” J.B.Donadon-Leal: “sobre/ rejeitada/ lama/ sol/ resseca/ esperança.”;J.S.Ferreira: “um/ dia/ trem/ emudece/ cidade/ acorda.”

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...