sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

O escândalo 
das desigualdades

Cesar Vanucci

“Oito pessoas têm mais riqueza do
que metade da população mundial”.
(Do relatório apresentado pela Oxfam,
no Fórum Econômico Mundial de Davos)

Motivos não faltam, na febricitante faina cotidiana deste nosso mundo velho de guerra sem porteira, pra gente se escandalizar em alta escala. A perícia humana para engendrar situações cabulosas é simplesmente incrível. Em tudo quanto é setor de atividade encontra-se sempre alguém suficientemente apto a articular algo desconcertante em condições de espalhar aturdimento por aí afora.

Vamos lá. Como não nos escandalizarmos, neste preciso momento, com a revelação de que 8 afortunados cidadãos – número suficiente para lotar uma limousine de luxo ou um moderníssimo “king air” – possuem, sozinhos da silva júnior, riqueza equivalente à de 3 bilhões e 600 milhões de seus semelhantes? Semelhantes esses espalhados por todos os confins deste planeta azul, destinado como se sabe no projeto da criação a garantir abrigo e proteção à raça humana.

Como não nos escandalizarmos, senhoras e senhores, com estes outros dados alinhados no relatório da organização humanitária Oxfam, divulgado no recente Fórum Econômico Mundial de Davos, Suíça, onde se diz, com todas letras, pontos e vírgulas, que os 50% viventes dos andares de baixo da população mundial detêm menos de 0,25% da riqueza global líquida? E, mais ainda que, desse grupo de deserdados da sorte, 3 bilhões vivem abaixo da “linha ética de pobreza”?

Como não nos sentirmos alvejados em nossa dignidade, como seres representativos da sociedade humana, com esta outra informação, vinda da mesma fonte, onde ainda se proclama que de cada 10 pessoas no mundo uma sobrevive com menos de 2 dólares, ou seja, pouco mais de 6 reais, por dia? Como demonstrar indiferença, ou fingir que isso não tem nada a ver com os problemas que nos açoitam, diante da notícia de que no Brasil, como acontece exatamente noutros países, ilustres patrícios detentores das maiores riquezas pessoais, digamos em número de 10 apenas, concentram haveres superiores à renda somada de 100 milhões?

Haverá, por certo, quem se anime a explicar tão atordoantes números. Apontando-os como consequência normal de um sistema de vida adotado consensualmente há tempos pela civilização. Um sistema, aceito em todos os lugares, com regras que exaltam os diferenciais da capacidade empreendedora, do talento, da habilidade negocial e por aí vai... Esses constituem, realmente, valores suscetíveis de exercer forte influência na trajetória da prosperidade individual. Mas, convenhamos, nem tanto a terra nem tanto ao mar. Nada, nada mesmo, dom especial nenhum, norma jurídica alguma, regra moral qualquer, podem justificar, respaldar, legitimar uma fórmula de distribuição das riquezas, nascidas do labor humano, tão injusta e tão perversa a ponto de favorecer diferenças tão colossais. 

Por mais que sejam os créditos em aplausos, louvores e compensações financeiras, atribuídos por justiça a personagens destacados pelo trabalho, inteligência e criatividade, não se pode perder de vista jamais o caráter eminentemente social da riqueza. Isso remete à necessidade de se adotar, neste mundo conturbado pela violência das desigualdades, novos critérios de distribuição dos bens, com fundamento no bom-senso, na justiça social e nos sentimentos humanísticos e espirituais. A partilha atual do patrimônio das riquezas coletivas não deixa de ser iniqua, como evidenciado nas desnorteantes estatísticas apresentadas pela Oxfam. Cabe aqui mais uma reflexão. Forçoso reconhecer na habilidade negocial um dom digno de registro. Mas habilidade negocial não pode desfrutar de primazia absoluta sobre outras virtualidades humanas. A pontuação atribuída no conceito comunitário ao mérito, face a tais circunstâncias, não parece correta. Figuras icônicas da história civilizatória, providas de capacidades singulares, todas muito especiais, não recebem compensações de qualquer ordem pelos feitos realizados ligeiramente comparáveis às cumuladas a elementos exponenciais no mundo dos negócios. Seria muito interessante saber, pra efeito comparativo, a quanto montaram as fortunas de Madre Tereza de Calcutá, Gandhi, Chico Xavier e outros de naipe assemelhado. Pessoal que marcou presença inconfundível no processo da construção humana em seus aspectos mais nobilitantes.

Para que o mundo, na linha de aspirações dos homens e mulheres de boa vontade e das mentes mais evoluídas, consiga reconectar-se com sua humanidade mistér se faz uma reavaliação de todo esse sistema de partilha das riquezas sociais, de modo a se reduzir a estilhaços o escândalo das desigualdades.


Ainda o escândalo das desigualdades


Cesar Vanucci

“Os espanhóis têm um ditado intrigante: Entre Deus e o dinheiro,
o segundo é o primeiro! Muita gente leva isso muito a sério.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)


Restou ainda um bocado de coisas estarrecedoras sobre o relatório que a organização não governamental Oxfam apresentou no Fórum Econômico de Davos, na Suíça, a propósito da escandalosa concentração de renda existente neste convulsionado orbe terráqueo reservado para moradia da raça humana.

As afrontosas desigualdades sociais só têm feito crescer. Ano passado, os super-ricos, que acumulavam haveres correspondentes à renda de 3 bilhões 600 milhões de viventes, ou seja, a metade mais pobre da população mundial, eram em número de 62. Já agora, a assustadora comparação compreende, do lado afortunado, apenas 8 indivíduos. Vários deles, detentores isoladamente de bufunfas superiores aos PIBs (Produtos Internos Brutos) de uma porção de países, veja só se pode!...

As impactantes revelações conferem destaque aos múltiplos esquemas operacionais costumeiramente levados a cabo pelas grandes corporações no sentido da expansão contínua dos lucros, em detrimento obviamente da elevação dos alarmantes índices da desigualdade.

Redes de “paraísos fiscais” – tão magistralmente simbolizados na “neutra” Suíça, com sua alardeada, glamorosa e farisaica engrenagem bancária – são utilizados em escala descomunal para a mais deslavada sonegação de impostos. O conglomerado corporativo impõe ainda arrochos salariais nas regiões em que atua. Avilta constantemente os valores pagos às empresas prestadoras de serviços. E, conforme também denunciado pelos analistas da Oxfam, fazem uso de sua forte influência junto às autoridades governamentais em diversos países, visando o aumento sempre crescente dos ganhos, às vezes antagonizando preceitos éticos.
Dessas perversas manobras emerge a aterrorizante diferença de renda detectada entre grupos sociais, com todos aqueles desdobramentos nefastos sabidos á causa do bem estar comunitário, segundo assevera ainda a mencionada ong.


  
Dória e o fraternalismo econômico


Maria Inês Chaves de Andrade *


Tenho acompanhado o que o Prefeito João Dória vem fazendo.

Fora desta política de torcidas partidárias, conscientes de que é preciso reunir forças e desvencilhando-nos da posição de doutores em diagnósticos de toda patogenia gravíssima que nos acomete, ou de profetas na propalação de prognósticos apocalípticos, o fato é que ele vem assumindo uma posição profilática de enfrentamento dos problemas que São Paulo ostenta.  Vejo-o construindo uma política com ênfase na criatividade, em tempos de incerteza. Exemplifico: a disponibilização de produtos de higiene, através da Unilever, para a população de rua que busca os abrigos da Prefeitura. A intenção é valorizar a autoestima destas pessoas.
Ora, a fraternidade é um direito fundamental dado que fundamenta mesmo todos os direitos. Tal ação confere sentido prático à tese.  A dimensão do ser humano que hoje demanda atendimento se estende, inescapavelmente, para além da do homem apenas. Exige do Estado que não se restrinja somente à função coercitiva de garantia da ordem e do jogo de interesses. A saída para este imbróglio - já nos achegamos aí à consciência - não é um socialismo marxista que requer a luta de classes, dado que esta não mais se justifica, vez que os interesses já não são contrários. A solução é racional e acolhe a organização da produção de bens sob a lógica do mercado, quando as implicações do processo social de produção assimilam a ideia de que o ser humano deve ser humano e só em relação ao outro assim se pode reconhecer, sendo.

Nesta perspectiva, vejo Dória imbuído da percepção de que se faz necessária a responsabilização social das empresas e dos partícipes do mercado. Estabelecendo parcerias com a iniciativa privada, em vez de remover cobertores de moradores em situação de rua, como fazem alguns prefeitos, atua para a melhoria das condições dos albergues. Fez parceria com a rede hoteleira Accor, com a rede de alimentos orgânicos Mundo Verde, com a Procter & Gamble e com a Tintas Coral. A primeira, por exemplo, irá ajudar a prefeitura a configurar os quartos dos albergues e oferecer cursos de capacitação. A Mundo Verde providenciará a alimentação e a Procter & Gamble, produtos de higiene. Além de melhor qualidade de vida, a ideia do projeto de revitalização dos albergues é oferecer oportunidades de emprego e estudo, além de disponibilizar estrutura para que famílias sejam acolhidas juntas. O SENAC, por sua vez, entra na parceria com cursos profissionalizantes.

O fato é que já estamos cansados deste embate que, ainda, tantos insistem por aí em promover, opondo-se, de um lado, os que creem que a solução provém do fortalecimento do capitalismo selvagem, como se este já não se tenha degenerado o suficiente, conforme expressam as estatísticas, indicando que já chegamos ao ápice da exploração do homem pelo homem; e de outro, os que proclamam como fórmula ideal um socialismo marxista, com estribo na crença, ainda, de que o motor da história continua sendo o conflito de classes.

A razão humana reconhece a inadequação da deglutição do Outro para a satisfação de apetites econômico-financeiros. Ademais, sustento em tese a ideia de que as lutas de classes não mais se justificam, porquanto a atuação revolucionária se volta não mais para a conquista de direitos, mas para a efetivação de direitos já positivados. A aparência que se observa na divisão da sociedade de homens em classes não compromete, de modo algum,  a essência humana de se manifestar, mas, contrariamente, potencializa essa essência na humanidade comum a todos.

Aponto o fraternalismo como síntese entre o capitalismo e o socialismo e Jorge Dória como sujeito de história, no chamamento do empresariado para ações concretas de intervenção e responsabilização social, ao concitar a empresa cidadã a participar de uma nova organização política.

A infraestrutura de nossa sociedade está ruindo e a superestrutura, ou seja, as instituições jurídicas, políticas e ideológicas, até então, influenciada por ela, encontra-se em frangalhos. Em meu modo de ver, João Dória busca pela efetivação dos direitos humanos já constitucionalizados, dado que direito não é favor, sendo esta a grande demanda de nosso tempo. Reside nesse conceito a fonte matricial da atuação revolucionária transformadora que ora empreende.

*  Vice-Presidente da ONG “O Proação”; autora de “A fraternidade como direito fundamental” e de “O fraternalismo como síntese entre o idealismo e o materialismo histórico-dialético”.




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Enfim, uma bela 
comédia musical

Cesar Vanucci


“Os produtores de filmes andam meio esquecidos
  dos espetáculos musicais, o que é uma pena.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)


Os apreciadores das fantasias musicais cinematográficas – forçoso reconhecer, um mundão de gente de gosto refinado – reencontram num lançamento recente a chance de novamente se embevecerem com impecável espetáculo do gênero. O período de estiagem em matéria de produção de entretenimento de qualidade, nessa vertente específica da criação artística, estendeu-se um bocado. Na verdade, muitos anos se passaram desde a última sessão oferecida ao público de uma comédia romântica musical envolvente.

O esfuziante, lírico e enternecedor “La La Land: cantando estações”, em cartaz, suspende de maneira esplêndida esse prolongado jejum dos espectadores. Chega às telas com bastante impetuosidade, garantindo na memória fílmica lugar marcante entre os clássicos musicais. Do que se está a falar é daqueles clássicos guardados na saudade dos cinemeiros. Eis aqui sugestivos títulos de uma lista, obviamente, não muito extensa: Sinfonia em Paris, Cantando na Chuva, Amor – Sublime Amor, Carmem Jones, Minha Bela Dama, Chorus Line, Cabaré, Kamandu, O Show deve Continuar, Noviça Rebelde (não, evidentemente, a segunda versão filmada, exibida há pouco, de mau gosto supremo), Quando Hollywood Dança - esses todos trazendo marca de nascença “hollywoodiana”; e mais, seguramente, os franceses Retratos da Vida e Guarda-chuvas do Amor. São filmes que evocam momentos de culminante genialidade artística. Interpretações, coreografias, melodias, cenografias, fotografias e truques de filmagem inesquecíveis. Nos elencos figuram atores e atrizes que arrebataram multidões por conta de enorme talento. Listemos alguns: Fred Astaire, Gene Kelly, Bob Fosse, Donald O’Connor, Rita Hayword, Carmem Miranda, Ginger Rogers, Leslie Caron, Cid Charisse, Julie Andrews, Judy Garland, Audrey Hepburn, Dorothy Dandridge, Liza Minelli e por aí vai...

“La La Land...” diz a que vem logo de cara. As cenas iniciais, focadas em estressante congestionamento de veículos numa autoestrada, são simplesmente eletrizantes. Fixam marco antológico na história da dança no cinema. Dão o tom das imagens a chegarem na sequência, compostas dentro de um roteiro bem urdido, que conduz o espectador a um mergulho extasiante na fantasia, como só o cinema consegue proporcionar.

Ryan Goslina (Sebastian) e Emma Stone (Mia), par romântico do caprichado musical, brindam-nos com desempenhos magistrais. Saem-se admiravelmente bem nos bailados e sapateados. Ele, como um pianista fissurado em jazz (mas obsessivamente resistente à incomparável cadência do samba); ela, vivendo o papel de uma aspirante a atriz, protagonizam figuras comuns da gente do povo, movidas pela ânsia de crescimento humano em ambientes altamente competitivos. Seus desempenhos nada ficam a dever aos dos atores acima citados, os quais, antes deles, também escreveram capítulos frisantes na crônica dos musicais.

“La La Land: cantando estações” - candidatíssimo a todas as estatuetas do Oscar colocadas em disputa - desperta por outro lado nos cinemeiros, que não lhe regateiam aplausos, baita vontade de rever os clássicos musicais de todas as épocas. A televisão, cá pra nós, bem que poderia cuidar de responder a esse nostálgico desejo. Com seu significativo contingente de canais especializados, vários ligados a estúdios cinematográficos famosos, praticamente assumiu volume maior na projeção sistemática de filmes. Causa estranheza, por conseguinte, o fato de ela, televisão, não demonstrar, sabe-se lá por que cargas d’água, disposição de inserir na programação, sobrecarregada a mais não poder com repetições de celuloides antigos, esses filmes lindos e inebriantes, pura magia artística com seus ternos diálogos românticos, suas música e dança requintadas que costumam transportar as pessoas a uma latitude de sonhos.



Palavras malditas

Cesar Vanucci

"Um golpe com uma palavra,
fere mais fundo que um golpe de espada."
(Robert Burton)

Num papo descontraído de velhos conhecidos alguém andou contando os dissabores enfrentados por conta de uma “palavra maldita”. Ocupo-me adiante do assunto, garantindo de antemão que seu componente hilário é forte.

Antes, porém, considero de oportunidade lembrar que essa coisa de "palavra maldita" reaviva cenas da meninice em que me vi às voltas, surpreso, com relatos circunstanciados de episódios classificados de malditos no bestunto de pessoas adultas. Relembro, primeiro, uma certa "música maldita". A história foi ouvida da boca de um cidadão respeitável, bem posto na vida, num papo com grupo de fedelhos do qual o neto, aqui, de dona Carlota fazia parte. O tom de voz resvalando o lúgubre, selecionando palavras como se a temer algo fortuito, de consequências terríveis, ele deixou claro, para plateia assustada, que a tal melodia espalhava malefícios, sempre que executada. Recomendando se evitasse sequer assobiá-la, passou para seus transtornados ouvintes o nome da música: "Ramona". A "melodia maldita" – afirmou, persignando-se - havia sido a derradeira do repertório executado pela orquestra do transatlântico "Titanic" antes do adernamento na viagem inaugural. Já indaguei aos botões de meu pijama, algumas vezes, se não teria sido por conta de crença tão insólita que a ramona caiu em desuso como sinônimo de grampo.

Recorda-me, depois, um "xingamento maldito", contemporâneo dessa "música maldita". A expressão "excomungado", concentrando carga blasfema infinitamente superior à da injúria (por muitos sintetizada nas letras fdp) assacada contra a honra materna, era capaz de atrair – diziam, então, compenetrados e sábios cidadãos – raios fulminantes desfechados pela suprema cólera divina. Pelo sim, pelo não, ninguém ousava, naqueles tempos cordatos, despejar pra cima de ninguém o atemorizante insulto.

Mas eis que chegada a hora de falar dos contratempos vividos pelo nosso conhecido em razão de "palavra maldita" desavisadamente proferida. Professor de Moral e Cívica em colégio do interior, ele foi escalado para  uma dissertação, em reunião do grêmio literário, sobre a questão sexual na vida dos jovens. "Pisando em ovos", como sublinhou, evitando ferir suscetibilidades, procurou transmitir aos adolescentes uma orientação consentânea com os padrões culturais vigentes na localidade. Às tantas, tornou explícita sua condição de heterossexual. Do fundo da sala, brotou uma inquirição: - Assumido, professor? A resposta chegou sem hesitação:
 - Claro, heterossexual assumido!

Veja como são as coisas. Poucos dias depois, raivosos representantes da Associação de Pais pediram dois dedos de prosa com o diretor do colégio, a fim de expressar seu inconformismo com a atitude descabida do professor que “anunciou”, em sala de aula, para imberbes criaturas, sua "inclinação obscena, escabrosa, por atos atentatórios à moral e bons costumes". Inteirado dos fatos corretos, o diretor fez ver aos interlocutores de que estava havendo um tremendo equívoco de interpretação. Comprometeu-se a explicar tudo, tintim por tintim, aos alunos. Explicou. De forma bem didática, mostrou pra garotada a diferença entre heterossexualidade e homossexualidade. Adiantou nada. Na boataria que se seguiu, a intervenção do diretor ganhou contornos de tentativa frustrada de consertar a "bobagem" praticada pelo "professor assumido".

Na roda de conhecidos, o professor arrematou: "Não houve jeito de ser desfeito o mal-entendido. Além do disse me disse maledicente, todo mundo passou a me olhar de esgueira, como se eu fosse mesmo culpado de algum delito. Tudo por causa de haver declarado ser heterossexual convicto. Palavra maldita! Tenho receio, até hoje, de enunciá-la."





sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


Coisas desse 
admirável mundo novo

Cesar Vanucci

“O grande perigo da tecnologia é implantar no
homem a convicção enganosa de que é onipotente.”
(Hermógenes, no livro “Mergulho na Paz”)

Nesta fase outonal das andanças pela pátria terrena, ponho-me às vezes a matutar, com os botões do pijama, que pertenço a uma geração de certa maneira “preparada”, sutil e subliminarmente, nos ditos tempos da “escola risonha e franca”, para o advento das assombrosas conquistas tecnológicas de agora. Dentro desse enfoque instigante, não há como deixar de admitir que as historietas de quadrinhos exerceram papel de singular importância na abertura de consciência da meninada. Tanto, ou talvez mais até do que os próprios livros de Júlio Verne e de outros fomentadores de ideias de igual quilate. Tal constatação impele-nos a reconhecer a necessidade de se promover um resgate cultural dos gibis.

Como sabido, as historinhas narradas em tiras, que tanto excitavam a imaginação dos leitores mirins, figuravam num index montado por implacáveis guardiães dos bons costumes. Eram amaldiçoadas por compenetrados educadores e amorosos pais. Combatidas com extravagante ardor nos púlpitos. Apreendidas nas bancas, às vezes com truculência, a mando dos Juizados de Menores. Mas, apesar de tudo, apesar da repressão talebanista dos adultos, contavam com a fidelidade de um público tomado de encantamento, que sabia absorver, sem se escandalizar, as fantásticas revelações transmitidas, muitas delas, como o futuro comprovaria, de tom inexplicavelmente profético.

O “relógio de pulso falante” do ardiloso detetive Dick Tracy constituiu – como não? – premonição extraordinária da incorporação do celular aos hábitos comportamentais modernos. E o que não dizer das proezas de Flash Gordon e Buck Rogers? Suas formidáveis espaçonaves eram equipadas com telões visuais para comunicação a longa distância. Transportavam armamento na base do laser e da energia nuclear (lembram-se das “pistolas atômicas” penduradas nos cinturões dos heróis?). Tudo isso vinha estampado nos desenhos e nas lacônicas frases dessas publicações proscritas, várias décadas antes da implantação, no mundo real, dos colossais arsenais bélicos compostos desses apetrechos que as grandes potências utilizam como cacife no pôquer político. Os astronautas dos quadrinhos singraram os caminhos das estrelas muito antes do russo Yuri Gagarin e do americano John Glenn.

A memória velha de guerra conserva cenas de forte conteúdo ilustrativo do combate sem tréguas desencadeado naqueles tempos às “perniciosas revistinhas”. As publicações apreendidas nas sacolas de livros dos alunos eram juntadas nos pátios das escolas e, diante da comunidade, transformadas em piras. Os semblantes dos responsáveis pelo “alerta pedagógico”, instituído com o “louvável propósito” de impedir influências malsãs na formação dos jovens, traduzia uma certa sensação de “dever cumprido”. Tal estado de espírito contrastava com o sentimento de inconformismo e impotência da garotada por suposto beneficiada pela saneadora providência “educativa”.

A marcha impetuosa da história definiu, entretanto, que o clarão derivado das “labaredas didáticas” traduzisse não a eliminação de tendências (de resto questionáveis) de leituras perniciosas, mas a iluminação de clareiras abundantes de insuspeitada localização na floresta do conhecimento humano.

Multidões que se eletrizaram, na infância, com as aventuras mirabolantes dos “mocinhos” dos quadrinhos, percebem que um bocado das coisas fabulosas então curtidas – de inconcebível materialização, a se levar em conta os padrões tecnológicos predominantes naquela época – faz parte de seu cotidiano nos tempos de hoje. Já os mais moços, mesmo que se espantem com a visão, por exemplo, de uma máquina de escrever manual, da década de 60 (isso pôde ser detectado recentemente na visita de alguns adolescentes ao meu escritório), demonstram incrível familiaridade com toda essa parafernália bolada pela tecnologia destes efervescentes tempos. Uma tecnologia despojada num que outro momento de percepção humanística. E que enveredou decididamente por inimaginável ousadia vanguardeira.

Disponho-me a falar disso mais vezes.


Esses acidentes pavorosos...

Cesar Vanucci

"Se não construírem escolas, faltará
 dinheiro para construir presídios."
(Darcy Ribeiro, em 1982) 

Tempos estranhos. “Acidentes pavorosos” no Amazonas e em Roraima, na douta avaliação do catedrático em letras jurídicas escalado pelas forças políticas pra velar por nosso destino. Manifestação vociferante de personagem do alto escalão, sustentando a tese de que o problema dos presídios pode ser “solucionado” com “uma chacina por semana”. Anúncio oficial acerca da implantação de um Plano Nacional de Segurança, sem o esclarecimento adicional de que três outros (planos), batizados com a mesma pomposa denominação, cercados do mesmo estrépito midiático, foram lançados nas gestões FHC, Lula e Dilma. Massacres extras, com menos vítimas e nem por isso menos trágicos, noutras cadeias. Revelação desconcertante de que, por negligência operacional, 2 bilhões e 400 milhões liberados pelo Fundo Penitenciário deixaram de ser investidos no combate às condições degradantes das penitenciárias, e outros 100 milhões, igualmente disponibilizados pelo Erário, permaneceram retidos no cipoal burocrático, ao invés de serem empregados na repressão às drogas. Comprovação de “equívoco ministerial” no caso da negativa peremptória de que o Planalto houvesse recebido pedido de ajuda de Roraima antes do morticínio. Suspensão em alguns Estados, por conta de “recessos judiciais”, das providenciais “audiências de custódia”.

Eis um conjunto de fatos que clamam reflexões. Não é difícil juntar mais exemplos reveladores de um contexto perverso, que escancara o descomunal escândalo das políticas executadas na área da segurança. O sistema presidiário reflete a inconsistência das políticas sociais. As calamidades detectadas derivam de atuações deficientes, acumuladas anos a fio, na gestão dos negócios nacionais.

Forçoso reconhecer que, de momento, é impossível atacar nas raízes com pronta eficiência as graves questões que concorrem para que essas tragédias aconteçam. Mas não se afigura, todavia, impraticável que ações elementares, emergenciais, com efeitos preventivos aceitáveis, sejam adotadas. Com criatividade, muito trabalho e poderosa conjugação de vontades, os setores com responsabilidades definidas no processo poderão, para tanto, atrair na empreitada outras forças da comunidade aptas a contribuírem com ajuda relevante.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Óvnis, assunto sério 

Cesar Vanucci

 “O problema dos discos-voadores
 merece ser tratado com seriedade.”
(Brigadeiro João Adil de Oliveira)

O dia 16 de janeiro de 1958 ficou gravado de forma memorável por centenas de oficiais e marinheiros da Força Naval brasileira.  Eles participavam de manobras no litoral capixaba, imediações da Ilha da Trindade. Por volta das 16 horas, as atenções de todos se voltaram estrepitosamente à contemplação de um desconcertante espetáculo aéreo. Gigantesco objeto, de formato discoidal, promovia espantosa coreografia diante de extasiada plateia, militares na quase totalidade. As evoluções do aparelho desafiavam todas as leis conhecidas da física. A nave, de aparência metálica, não lembrava em nada nenhum tipo de artefato aéreo concebido pelo engenho humano.

No convés do navio capitânea, o “Almirante Saldanha”, um fotógrafo profissional civil, Almiro Barauna, dedicava-se a documentar os exercícios navais em curso. Assestando o foco da objetiva no estranho aparelho, bem visível a olho nu, obteve estupenda sequência fotográfica, que acabou merecendo registro na crônica ufológica mundial como um dos mais extraordinários documentários pertinentes à presença dos óvnis na atmosfera terrestre. Com a circunstância, sumamente positiva, de encontrar respaldo num testemunho ocular irrefutável, numérica e qualitativamente da maior respeitabilidade. As fotos chegaram logo aos jornais e agências noticiosas, alcançando impactante ressonância mundial. A autorização para que fossem liberadas partiu do próprio Presidente da República, Juscelino Kubitschek de Oliveira, um estadista de mente aberta e visão de futuro. Decisão de caráter vanguardeiro. O Brasil notabilizou-se como o primeiro país a exibir, com a chancela oficial do governo, uma documentação nítida e incontestável das aparições dos misteriosos “objetos voadores não identificados”, de suposta origem extraterrena.

O “Incidente Trindade” está registrado como instante de alta relevância da participação militar nas investigações ufológicas. Sabe-se, com certeza, que anos antes a Aeronáutica já vinha se dedicando a estudos pertinentes ao enigmático tema. Conservo em arquivo uma sonora comprovação desse trabalho. Cópia integral de impressionante depoimento: a conferência proferida, em 2 de novembro de 1954, na Escola Superior de Guerra, para plateia constituída por centenas de oficiais graduados das três Armas, pelo coronel aviador João Adil de Oliveira, à época chefe do Serviço de Informações do Estado Maior da Aeronáutica. Esse oficial, mais tarde promovido a Brigadeiro, ganhou notoriedade nacional, na década de 50, por haver presidido a Comissão Militar de Inquérito sobre o atentado da rua Toneleros, em que foi assassinado o Major Vaz e saiu baleado o jornalista Carlos Lacerda. O dramático episódio, como se recorda, detonou grave crise política, culminada com o suicídio do Presidente Getúlio Vargas.

O expositor proclamou, sem vacilações, que “o problema dos “discos-voadores” polariza a atenção do mundo inteiro, é sério e merece ser tratado com seriedade”. Disse mais: “os governos das grandes potências se interessam pelo problema e o tratam com seriedade e reserva, dado seu interesse militar.” Enumerou, com abundantes pormenores, instigantes ocorrências ufológicas e convincentes depoimentos de cientistas, pesquisadores e contatados. Após a conferência, foram apresentadas “algumas testemunhas de casos comprovados pelas investigações da Aeronáutica”.

No fecho do encontro na Escola Superior de Guerra, o Brigadeiro Guedes Muniz, então presidente da ADESG, fez uma observação ultra intrigante. Aludindo às compreensíveis dificuldades confrontadas por técnicos e engenheiros militares em arriscar pareceres acerca da viabilidade técnica e científica “desses vagabundos do espaço”, ele recorreu a uma fábula que tem o besouro como personagem, “oportuna de ser lembrada aqui”.

A sugestiva historinha do besouro fica para a sequência.


O voo do besouro

Cesar Vanucci

“Estou convencido de que dentro das próximas décadas haverá um contato entre nossa Humanidade e alguma civilização extraterrestre”.
(Brigadeiro Moreira Lima, ex-ministro da Aeronáutica)

Como prometido, trago hoje, em versão resumida, a história do besouro, invocada pelo brigadeiro Guedes Muniz no fecho de memorável conferência sobre “discos-voadores” do então coronel Adil de Oliveira, na Escola Superior de Guerra, no dia 2 de novembro de 1954. Volto a registrar que conservo em meus arquivos cópia dessa conferência.

Aludindo às dificuldades que os engenheiros militares teriam que forçosamente enfrentar no afã de explicar alguma coisa acerca da viabilidade científica dos óvnis, o brigadeiro recorreu metaforicamente a uma anedota. “A anedota do besouro, muito velha, mas muito oportuna de ser lembrada aqui.” Caso é que os melhores especialistas em aeronáutica no mundo inteiro foram convocados a participar de um encontro com o fito de estudar a complexidade do sistema de voo do besouro. Examinaram com afinco a forma aerodinâmica do inseto, considerada tremendamente errada; sua superfície alar, espantosamente deficiente; sua potência para decolagem, reconhecidamente impossível. Depois de infinitos cálculos e demonstrações científicas exaustivas, chegaram à inabalável conclusão de que o besouro não tem condições, definitivamente, de voar. Mas como não se interessasse pelo conclave, não se inteirasse de suas doutas conclusões e nem, tampouco, seja dado a acompanhar noticiário de televisão, o besouro continuou a voar.

Com os “discos voadores” as coisas se passam, mais ou menos, como nessa anedota, que merece ser vista como uma fábula. “Eles não existem coisíssima nenhuma”, asseveram alguns. “Mera ilusão de ótica, fruto de cabeças ruins, de charlatanice pura e simples”, garantem outros, envoltos em embriagadora autossuficiência. “A ciência refuta a hipótese”, bradam, às vezes em tom colérico, figuras respeitáveis em conceituados redutos do conhecimento humano. Indiferentes, porém, à artilharia pesada das contestações infrenes ou da negação sistemática e preconceituosa praticada por atacado por incrédulos, os óvnis não param de dar o ar da graça nos céus, nos mares, na terra. E isso ocorre, segundo asseguram renomados pesquisadores, desde tempos imemoriais.

Exemplo frisante dessa notável incidência casuística, para lembrar um caso de repercussão na esfera militar entre milhares de ocorrências devidamente documentadas, é a célebre “revoada dos ufos” acontecida na madrugada de 19 de maio de 1986 no espaço aéreo brasileiro, entre Brasília, Belo Horizonte e São Paulo. Pilotos das esquadrilhas de interceptação da Defesa Aérea, comandantes de aviões de carreira, um ministro de Estado especialista em aviação, aviadores civis a bordo de aeronaves de pequeno porte, técnicos do Sistema de Controle do Tráfego Aéreo figuram como testemunhas das desnorteantes aparições. Os fatos ganharam estrondosa divulgação e o comando da FAB sentiu-se na obrigação de emitir comunicado, prometendo explicações detalhadas para outro momento. As explicações demoraram vir a público. Mas a declaração enfática dada tempos depois pelo brigadeiro Moreira Lima, à época do incidente Ministro da Aeronáutica, revigorou a certeza de que, conforme anos antes sustentado por um outro Brigadeiro, João Adil de Oliveira, “disco-voador é assunto que merece ser tratado com a máxima seriedade.” Entrevistado no programa “Mistério”, da extinta Rede Manchete, pela jornalista Rejane Schumann, na presença do ufólogo Marco Antônio Petit, Moreira Lima assinalou, ao lado de outras surpreendentes revelações, estar “convencido de que dentro das próximas décadas haverá um contato entre nossa Humanidade e alguma civilização extraterrestre.”

A famosa “Operação Prato”, executada pela FAB na Amazônia, não pode deixar de ser mencionada neste capítulo das revelações surpreendentes trazidas pelas pesquisas e investigações de militares brasileiros a propósito do enigma dos “discos voadores”. Trata-se de um dos mais extraordinários documentos oficiais mundialmente produzidos concernentes ao fascinante tema. Assumo o compromisso de, qualquer dia desses, discorrer sobre o mesmo. 

A SAGA LANDELL MOURA

O ser humano em primeiro lugar Cesar Vanucci “A economia é um meio pra se atingir um fim social.” (José Alencar Gomes da Silva, ...