sexta-feira, 24 de junho de 2011

Um certo Mia Couto


Cesar Vanucci *


"Onde restou o homem, sobreviveu
semente, sonho a engravidar o tempo."
(Mia Couto, escritor moçambicano)


Espera fatigante em aeroporto estrangeiro, para pegar conexão de vôo que me trouxesse de volta ao Brasil, proporcionou-me a descoberta de um autor que escreve maravilhosamente bem no idioma falado em nosso país. E que, à parte ligeiras diferenciações, mais de forma que de conteúdo, é o idioma também falado em sua terra natal, Moçambique. Com certeira segurança, apreciadores da boa prosa literária, melhormente informados do que rola nesses domínios encantados da arte feita em letra de forma, já terão chegado, muito antes, às mesmíssimas conclusões a que este retardatário e desavisado amigo de vocês só agora está conseguindo chegar, depois da leitura embevecida das "Estórias abensonhadas", de Mia Couto. Consola-me o adágio das ruas: antes tarde do que nunca.

O modo de Mia Couto se exprimir, como craque titular do escrete da palavra, desperta no leitor um redemoinho de emoções. A começar pela forte impressão que passa de ser um apaixonado apreciador e seguidor, com brilho próprio natural, da escola de recriação da linguagem instituída por mestre Guimarães Rosa. A comparação não implica em desdouro pro escritor. Muito antes, pelo contrário. Na verdade, adiciona louvação a mais em cintilante trajetória literária. O texto destila poesia a mais genuína. As interpretações líricas dos flagrantes da vida moçambicana retratados nos contos são de lindeza única. Mia soube captar com mestria a fala sábia do povo, ditos regionalistas de extremo sabor. Transpôs para o livro experiências vividas e sofridas de sua gente, "entre as margens da mágoa e da esperança", depois da guerra que devastou o país.

Seu parentesco espiritual com Guimarães Rosa é revelado, igualmente, de forma bastante nítida, no tratamento místico dispensado aos personagens, paisagens e coisas. Por conta disso ocorreu-me até, após a leitura inteira e a releitura de alguns capítulos mais absorventes de "Estórias abensonhadas", a idéia de pedir, qualquer hora dessas, ao Professor José Maria Martins, autor de esplêndido e instigante estudo sobre a obra de Guimarães ("O alquimista do coração"), uma avaliação desses escritos e de outros mais do autor, enfeixados sob os títulos "Vozes anoitecidas", "Cronicando", "Cada homem é uma raça", "Terra sonâmbula", "Cantos do nascer da Terra".

Com seu transbordante lirismo, no toque mágico que imprime às palavras na linha do realismo fantástico, no humanismo permanentemente aflorado e no estilo arrebatante no contar causos e no desenhar perfis humanos, Mia Couto se mostra escritor com lugar de realce garantido na literatura portuguesa. Suas estórias falam de um território "onde nós vamos molhando de esperança o rosto da chuva, água abensonhada". Um território "onde todo homem é igual, assim: fingindo que está, sonhando que vai, inventando que volta".

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)


Decisão soberana


Cesar Vanucci *


“A soberania é uma forma de expressão da dignidade nacional.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

A bronca das autoridades italianas em função do incidente envolvendo o ex-ativista Cesare Battisti desconsidera um aspecto essencial da decisão objeto de sua censura. O Supremo Tribunal Federal, embasado em manifestação que não deixou de traduzir, da parte de numerosos Ministros, dúvidas ponderáveis quanto à conveniência política e também jurídica de acatar-se o pedido procedente de Roma, estabeleceu peremptoriamente que caberia ao Presidente da República a palavra final concernente à pretendida extradição.

O então chefe do governo, Luiz Inácio Lula da Silva, sob o argumento de que a vida do cidadão italiano sob a tutela do Estado brasileiro estaria em risco na terra natal, decidiu não atender a solicitação. Nos desdobramentos do caso, marcados por reações destemperadas dos chamados porta-vozes, o governo italiano entendeu de questionar a decisão, pedindo à Corte Judiciária que a anulasse. Não deu outra. O impertinente questionamento conduziu o STF a fixar-se na análise de um item prioritário de suma relevância. A indagação irrompeu inevitavelmente: um país estrangeiro desfruta de competência legal para se insurgir, via judicial, contra um ato soberano, escorado em recomendação do próprio Poder Judiciário, tomado pela mais alta autoridade do Estado brasileiro? A resposta chegou categórica, definitiva. O que estava fundamentalmente em jogo no processo sob avaliação é uma situação que diz respeito à soberania nacional. O questionamento italiano carecia, portanto, de legitimidade. E ponto final.

Inconformados, elementos do Executivo, Legislativo e Magistratura italianos voltaram à carga com exacerbadas demonstrações de arrogância e passionalismo. Afora a emblemática “convocação para consultas” do Embaixador credenciado junto ao Itamaraty, houve até quem, entre os loquazes porta-vozes oficiais, obviamente acometido de surto paranóico, ameaçasse o Brasil com “represálias fulminantes”. Tipo assim: boicote aos nossos produtos. Boicote à Copa Mundial de Futebol e, de quebra, aos Jogos Olímpicos. Uma pantomina circense, ridícula a mais não poder, armada bem provavelmente com o velhaco intuito de desviar as atenções da platéia italiana da avalancha de escândalos que estremece os redutos políticos do país na burlesca “era Berlusconi”, marcada também, como noutros períodos da história, pela presença ostensiva da Máfia em escalões dotados de poder suficiente para a tomada de deliberações cruciais na vida da grande nação. Uma nação – assinale-se prazerosamente – que tanta influência benéfica exerceu e continua exercendo na formação cultural brasileira.

Cesare Battisti, escritor, com 17 livros publicados, não aparenta realmente ser, ao contrário do que propagam alguns, um contestador político idealista, arrastado equivocadamente a ações radicais pelo propósito de corrigir desacertos sociais e, por essa “razão” alvo de inclemente perseguição política. Mas, pode também não ser esse extremista desalmado, responsável por hediondos crimes comuns, condenado à prisão perpétua, retratado no pedido de extradição. As autoridades brasileiras, a começar pelos representantes da Magistratura, deixaram evidenciada dificuldade enorme em estabelecer definitivo juízo de valores a respeito da natureza dos delitos atribuídos ao polêmico personagem. Daí a opção pela aplicação do princípio jurídico do “em dúvida, pro réu”.

É bom não perder de vista, na apreciação de toda essa história, dois registros assaz significativos. O primeiro deles: se se trata de mera questão de “crime comum”, e não de “crime político”, por que toda essa tremenda celeuma promovida por grupos políticos em atmosfera de indignação e ira? O segundo registro: como explicar que o cidadão em causa, foragido, condenado à revelia com base em provas obtidas por meio da controvertida “delação premiada”, antes de buscar refúgio no Brasil, haja permanecido por mais de dez anos, com atividade regular, emprego e residência fixos, em território francês, encostadinho pode-se dizer no país de onde foi emanada a ordem relativa à sua detenção? O que impediu, num cenário desses, com todas essas circunstâncias, fosse ele incomodado a qualquer título pelas autoridades do lugar em que se achava abrigado e, sobretudo, sem que os eficientes porta-vozes dos Poderes italianos exigissem, em tom esbravejante e ameaçador, do governo de Paris, como agora é feito com relação a Brasília, sua captura e extradição? O silêncio em torno da presença por tão extenso período de Battisti na França torna danado de suspeitoso o estardalhaço de agora.

Isso tudo, por certo, contribuiu fortemente para a decisão brasileira. Uma decisão soberana, legitima, incontestável. Não fica demais acentuar, também, que somos uma nação que costuma dar provas continuadas de magnanimidade na aplicação dos princípios jurídicos em não poucos momentos de relevância histórica. Pra lembrar alguns deles: anistia, no governo JK, aos revoltosos de Aragarças e Jacareacanga. Anistia aos envolvidos na luta armada dos tempos de chumbo, inclusive aos agentes da repressão acusados de tortura.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 17 de junho de 2011

O inimigo não é o fumante

Cesar Vanucci*


“O uso do tabaco é uma das principais
causas de mortes que poderiam ser prevenidas.”
(Organização Pan-americana de Saúde)


Pelo menos dois deles chiaram. Estou falando dos leitores que acompanham com alguma assiduidade estes maldigitados registros cotidianos. Acharam que andei passando da conta nas críticas ao tabagismo. Um deles não deixou por menos: - Mas logo você! Uma pessoa de mente aberta, dispondo-se a fazer coro com essa onda de satanização contra os fumantes!

Prometi-lhes retornar ao assunto, primeiramente para reiterar todo respeito e apreço pelo ponto de vista discordante dos leitores. A democracia, único regime compatível com a dignidade humana, é tecida disso mesmo, de diferenças em idéias e posturas. Faço questão de deixar clareada uma coisa. Se existem pessoas e organizações, engajadas em campanhas de arregimentação popular, que se valem de processos radicais na propagação da causa, com pregações doutrinárias na base do “crê ou morre”, tão do agrado fundamentalista, esses aí, seguramente, não frequentam a mesma praia que eu frequento. O inimigo, na batalha contra os danos à saúde, qualidade de vida e meio ambiente provocados pelo tabagismo, não é o fumante.

O viciado em cigarro é que nem o viciado em outros produtos prejudiciais que levam à dependência química. É vítima, não réu.

A indústria fumageira, com os artifícios de que lança mão continuamente, para não se ver privada das colossais receitas auferidas em cima do grave problema de saúde pública que criou no mundo inteiro, esta sim, é a grande vilã, o réu certo e sabido do processo. O entendimento de tão sonante realidade fica claramente estampado nos debates, folhetos, estudos, avaliações do problemaço relativo ao uso do cachimbo promovidos amiúde pelo pessoal engajado na causa de combate ao tabagismo. Na quase totalidade das manifestações e alertas não me deparo, falando verdade, com nada que possa dar sustentação aos receios alimentados pelos dois amigos leitores quanto à hipótese de um esquema articulado de violentação mórbida, no consagrado estilo talebã, às opções equivocadas dos fumantes.

É evidente que as advertências deixam marcas. Podem acarretar, em exames de consciência pessoal, situações impactantes. Afinal de contas, com as campanhas sistemáticas em curso, redobradas de tempos a esta parte, ninguém mais tem o direito de permanecer na ignorância quanto aos males do tabagismo. Ninguém mais desconhece a lista interminável de doenças originárias das tragadas do dia-a-dia e nem o fato de que a nicotina, como resta cientificamente comprovado, causa dependência, por processos biopsicossociais, parecidos com os da cocaína, álcool e heroína.

Informações assim não podem deixar de ser passadas aos fumantes, educadores, pais, legisladores, concitando-os a uma reflexão. É uma maneira que as pessoas sinceramente preocupadas com a qualidade de vida e a convivência humana encontram de ajudar na construção de um mundo melhor.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)


Falou sem dizer



“Palocci não deu explicações, deu desculpas.”
(Senador Demóstenes Torres)


O Ministro falou, mas não disse. Rodeou toco, como se diz na saborosa linguagem roceira. Na entrevista da tevê lembrou-me, em muito, dois personagens famosos dos anos 50. O primeiro, do mundo dos espetáculos. O segundo, da cena política internacional. Cantinflas, grande comediante mexicano, o primeiro deles, encantava o público com o jeito engabelador, prosa encachoeirada, uma espécie de “rosca sem fim” que não levava a nada. Gromiko, o outro personagem, porta-voz da política externa nos “anos de chumbo” do fechadíssimo império bolchevista, carregava no semblante um enigma de difícil decifração.

Antônio Palocci incorporou, no papo com o repórter, um pouco de cada qual. Ouviu, com imperturbabilidade esfíngica, às perguntas. Respondeu-as até de forma copiosa, sem perder a fleuma e sem passar qualquer toque de emoção às palavras. Restou subentendida a disposição de empurrar a história com a barriga.

Sua saída do Ministério trouxe – como não? - alivio. Conquanto se possa vislumbrar nas denúncias formuladas uma dose de indesejável passionalismo político, o episódio é de molde a proporcionar desdobramentos didáticos que não devem deixar de ser enfatizados. É preciso ficar bem claro, agora e sempre, a todo ocupante de função pública, que o exercício democrático implica na sujeição a regras de rigorosa transparência quanto a atos praticados pertinentes ao interesse comunitário.

Por conseguinte, um pedido de explicações, acerca do crescimento súbito, exagerado, do patrimônio pessoal de alguém faz parte da normalidade institucional. Traduz, naturalmente, louvável preocupação e zelo pela lisura dos negócios feitos em nome da coletividade. A regra se aplica a qualquer agente público, em quaisquer escalões. O episódio Palocci sugere, por sinal, aos órgãos de controle social que se conservem sempre alertas no acompanhamento das ações dos servidores públicos, de maneira a refrear aqueles que cometam a ousadia de extrapolar, com gastos e aquisições patrimoniais suspeitosos, os limites da renda declarada. Quando irregularidade desse jaez ocorre, o sinal de alerta precisa soar. Alguma coisa provavelmente danosa ao interesse social pintou no pedaço. É hora de esclarecimento convincente. Esclarecimento que não pode, jeito maneira, ser sonegado à opinião pública.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)


A Bolsa e a Petrobras



“Prefiro a segurança dos míseros
0,6% da poupança, à miragem dos ganhos bursáteis.”
(Alzira Maria Fagundes, costureira)


Vezes sem conta, ouço alguém ligado ao mundo dos negócios lastimar a parca participação popular no mercado de ações. Aplicações em ações não fazem parte, realmente, das cogitações preferenciais (em matéria de investimento) da grande maioria dos brasileiros. Poupadores de todas as categorias costumam carrear para outras diversificadas modalidades que acenem com ganhos financeiros o fruto de suas economias.

Não me sinto, com máxima sinceridade, preparado para explicar convincentemente a razão, ou as razões, das coisas funcionarem entre nós desse modo. Em desacordo, ao que se proclama por aí, com a tendência observada noutras partes do planeta, nos países de economia consolidada, onde a formação de carteiras pessoais de ações frequenta sempre a agenda dos investidores, independentemente de seu porte econômico. Imagino existirem respeitáveis motivações culturais e sociológicas a serem invocadas como justificativa para esse comportamento comunitário avesso à compra de ações. Escriba de vôos limitados, deixo entretanto essa justificativa a cargo de pessoal provido de conhecimento mais dilargado da realidade trepidante do mundo dos negócios.

Mesmo assim, por vezo profissional do qual não consigo, jeito maneira, desvencilhar-me, arrisco a palpitar algo acerca do assunto. Meter a colher de pau em panelas alheias é parte, aliás, do ofício de repórter. A relação da gente do povo com as assim denominadas atividades bursáteis é regida, reconheçamos, por certa suspeição. O cidadão comum nutre dose avultada de desconfiança com relação a Bolsa. Considera tudo, nesses domínios, enigmático. Distanciado demais da conta do entendimento trivial das ruas. Em seu modo pragmático de apreciar e definir os fatos do cotidiano, imagina que os bastidores do negócio de ações sejam ocupados por peagadês em manipulações de dados e números. A serviço, provavelmente, de megaespeculadores. O sobe e desce das cotações seria ditado, dentro dessa linha de raciocínio, por jogo de conveniências com acesso total facultado a pouquíssimos e privilegiados personagens. O espesso invólucro de mistério que recobre tais atividades leva as pessoas a se intrigarem, a se espantarem mesmo, por exemplo, com a evolução insatisfatória da movimentação comercial das ações de uma empresa como a Petrobras. Uma empresa que, obviamente, vive instante incomparável no plano das descobertas e das realizações. (Ou, até mesmo, de outra empresa brasileira, também em triunfante ascensão, como a Vale do Rio Doce, que em momento declinante de inspiração cívica veio a ser recentemente  rebatizada como Vale). Voltando para o caso da Petrobras, fica difícil pacas para o homem comum entender a linguagem empregada no mercado de ações, quando o noticiário referente aos negócios do setor registra quedas repetitivas surpreendentes da estatal petrolífera no frenético movimento do mercado acionário. Ora, a Petrobras, é sabidamente a organização que maior expansão acusa no cenário energético internacional. É, reconhecidamente, a maior empresa brasileira e latinoamericana em receita bruta, lucro líquido, patrimônio, detentora de inigualável potencial, no plano mundial, na exploração de energia. Como entender, Deus do céu, a minguada cotação de suas ações?

Apreciaria muito que especialistas na matéria se dignassem a explicar, com exatidão, essa história, pra lá de desconcertante,  dos resultados insatisfatórios anunciados com frequência pelo Ibovespa a propósito das ações da Petrobras.

Taí charada que clama por decifração!


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Cigarro e esporte

Cesar Vanucci*


“O compromisso do esporte é com a saúde.”
(Jacob Kligerman, do INCA)


A indústria tabagista emprega todos os artifícios imagináveis e inimagináveis na busca da expansão de seu rendoso negócio. Como acontece com outras estruturas oligopólicas, a bélica, por exemplo, não usa freios na disparada pela conquista dos alvos. Faz de um tudo, a goela profunda escancarada, para faturar sempre mais. É capaz de realizar até procedimentos, à primeira vista respeitáveis, para alcançar compreensão e aceitação.

Não sei se é de seu conhecimento, mas nos Estados Unidos, num lance que o “Guiness”, por certo, catalogou como o marco recorde da hipocrisia, grande corporação tabagista resolveu patrocinar, pelos meios de comunicação, uma campanha de alerta, manjem só, contra os perigos do fumo para adolescentes. Ao mesmo tempo, Deus louvado, instituiu fundos substanciais para centros de reabilitação de viciados. Madeira de dar em doido, hein? Alguém aí já pensou em casas de apoio para dependentes químicos, usuários de cocaína, mantidas com polpudas contribuições graças à “sensibilidade social” dos cartéis de Medelim e Cáli? É a mesma coisa. E dá até, num vôo de imaginação, pra bolar as cenas de inauguração de uma unidade assistencial do gênero. Vamos lá: banda de música, balões multicoloridos, fita simbólica; “benfeitores” e familiares, expressões compungidas, sobriamente trajados, como conveniente às circunstâncias; uma lagrimazinha furtiva deslizando no rosto do porta-voz dos “beneméritos”; o discurso emocionado, as palavras de eterna gratidão do representante dos abrigados.

Pena que o Felini não esteja vivo para se apropriar de história assim e nos presentear com obra-prima cinematográfica sobre mais essas facetas modernosas do eterno farisaísmo.

A indústria de cigarro aposta pesado em eventos culturais e esportivos. Invoca razões nobres. Mas o que quer realmente é estimular o consumo. É a iniciação dos jovens no vício. A mensagem subliminarmente transmitida por pilotos de corrida vestidos de maços de cigarro, mulheres sensuais envoltas em baforadas glamorosas, jovens saudáveis inebriados pelas emoções do “carro do momento”, é de que o cigarro é um cântico à vida, uma celebração permanente da vida, e não um agente tóxico letal.

Como disse, certa feita, um presidente do Instituto Nacional do Câncer, Jacob Kligerman, é preciso que a sociedade se proteja das manobras insidiosas da indústria do tabaco, quando esta intensifica o vínculo de suas marcas com as atividades esportivas. A resposta da comunidade deve ser a mesma que foi dada, anos atrás, na Copa Mundial de Futebol. Criar medidas restritivas a tais enganações, impedindo seja desvirtuado, aos olhos da população, o verdadeiro compromisso do esporte. Um compromisso com a saúde e o bem-estar.


O povo e os analistas


“Esses aí que, contemplando o mar,
só têm palavras para o enjôo!”
(Louis Pauwells)

Em comentário anterior, falamos da notória dicotomia existente entre o modo de pensar do cidadão comum e o de alguns analistas, comentaristas e cientistas políticos renomados que se valem de privilegiados espaços na grande mídia para sovadas observações derrotistas a respeito dos acontecimentos que rolam na cena brasileira. A esses últimos, pelas reações que comumente adotam, parece pouco importar se os episódios analisados se revestem, por inteiro, ou parcialmente, de algum mérito. Os registros dos episódios são quase sempre negativos. Escorados, ao que tudo indica, naquele manjado preconceito elitista de que o brasileiro passa por ser um povo menos aquinhoado de dons. Reflexo daquela historinha imbecil, de conotação colonialista, que fala da existência ao sul do Equador de um vastíssimo território, dadivosamente contemplado (como nenhum outro) no projeto da Criação, mas povoado por um tipo de gente desafeiçoada ao trabalho, irremediavelmente desligada das grandes empreitadas que conduzem ao progresso.

Não adianta nada, em seu invejável esforço no dia-a-dia, a sociedade brasileira documentar, altiva, ruidosa e festivamente, com espírito de independência e apego à liberdade, sensatez, inteligência e criatividade, sua capacidade de construção humana. Os plantonistas do desalento continuarão imperturbáveis, a trilhar caminhos suspeitosos, entoando seus cânticos pessimistas, contrariando o sentimento das ruas.

Não é difícil levantar amostras dessa discordância fundamental. Peguemos como exemplo, colocando-os sob o foco das atenções, acontecimentos recentes ligados à bem sucedida história da Petrobrás. Como é mesmo que costumam ser, de parte a parte, as reações suscitadas por tais acontecimentos? No que toca à opinião pública, ocorrerão compreensíveis celebrações ao redor das realizações vitoriosas da empresa. Haverão louvações ao célere avanço que vem efetuando com vistas a se tornar a maior de todas no setor energético. Aos feitos tecnológicos atingidos com a exploração das jazidas em águas profundas. Às fabulosas descobertas do pré-sal. Essa mesma opinião pública não vacilará, ainda, em manifestar seu desagrado com relação a coisas que carecem ser alteradas nas atividades da estatal. Por exemplo, o indigesto corporativismo burocrático, que implica custos exorbitantes. A política de preços dominante no abastecimento. No entendimento popular, essa política poderia ser perfeitamente alterada com o barateamento dos produtos em benefício dos consumidores. Bastaria que a Petrobrás resolvesse exercitar seu poder de regulação de mercado, reforçando os vínculos sociais que tem com a nação.

Com relação à Petrobrás, seguindo o raciocínio, o que se recolhe de boa parte da mídia, habitualmente, são opiniões radicalmente inversas. Além de carregarem pesado nos aspectos passíveis de críticas da estatal, tais comentaristas comportam-se como se não vissem significado algum nos feitos por ela acumulados. Quando o país, como resultado de um trabalho altamente elogiável de muitos anos chegou à almejada autossuficiência na produção de petróleo, as palavras dedicadas ao fato por parte dessa “turma do contra” não estiveram, definitivamente, à altura do marco histórico conquistado. A exploração das reservas do pré-sal sob a coordenação (óbvia) da Petrobrás é vista com severas restrições nesses setores. A impressão que deixam não poucos comentaristas é de que, em seu estrábico modo de enxergar o Brasil, o melhor seria traçar para a Petrobrás o mesmo destino dado à Vale do Rio Doce. Transferi-la, porteira fechada, para a iniciativa privada, “bem mais competente, com toda certeza”...

Nosso país viu o PIB crescer, ano passado, em 7.5%. O ritmo da expansão econômica nos últimos sete anos alcançou média de 5%. Vários setores produtivos, com destaque para o imobiliário, o agronegócio e o automotivo, crescem numa cadencia costuma-se dizer chinesa. As vendas de carros aumentaram, de 2003 pra cá, quase 150%, num índice médio de crescimento de quase 14%. A italiana FIAT tem hoje no Brasil seu melhor mercado. Isso está prestes a se repetir com outras montadoras, como a GM e a Volks. A explosão na área da construção civil talvez só encontre paralelo na China. E por ai vai...

Nada disso, nada das conquistas do passado, do presente e das já antevistas conseguem, no entanto, sensibilizar os céticos. Arrefecer a disposição autofágica dos profetas do derrotismo. Uma turma, pra fazer uso de expressão muito de seu próprio agrado pessoal, que vive perdendo o bonde da história. Enquanto o povo nas ruas acha que as coisas vão razoavelmente bem e poderiam ir, percalços à parte, um pouco melhor, eles consideram que tudo vai de mal a pior inexoravelmente. Raciocinam como aquele candidato a Presidente (felizmente derrotado) que, nos idos de 2006, não se enrubescia nem um tiquinho em comparar nossa economia com a do Haiti. Deus nos proteja desse tipo de gente, como lembra Louis Pauwells, que ao contemplar o mar só encontra palavras para o enjôo.


Assim falou Einstein


“A imaginação é mais importante que o conhecimento.”
(Albert Einstein)

Alguém pediu, certo dia, a Albert Einstein que explicasse, de forma didática, acessível à patuléia ignara, a famosa “Teoria da Relatividade”. O fabuloso cientista, como é sabido, foi autor de ditos e feitos salpicados de refinado humor. Seu estilo literário de dar voz às idéias, outra faceta cintilante de sua extraordinária e incomparável capacidade intelectual, situava-o no mesmo patamar de alguns mestres consagrados do ofício do humor, como Charles Chaplin, Woody Allen, Mark Twain, Bernard Shaw, Millor Fernandes. A definição achada para a Teoria da Relatividade, baseada numa metáfora saborosissima, é reveladora dessa faculdade assombrosa na lida da palavra: “Se você permanecer, por duas horas seguidas, ao lado de uma linda garota, parecerá que se passaram apenas dois minutos. Se você encostar o bumbum numa chaleira quente por dois minutos parecerá que se passaram duas horas. Isso é a Relatividade.”

E não é que me chega às mãos, neste justo momento, pela Internet, uma coletânea preciosa de frases, extraídas de livros, discursos, entrevistas, deste fascinante personagem da história! A leitura de cada uma dessas frases constitui lucro certo para o espírito. Donde a incontrolável tentação de aqui reproduzi-las.

Ÿ Sobre o fato de ser alemão e judeu: “Se minha teoria da relatividade resultar exitosa, a Alemanha me reclamará como alemão, e a França declarará que sou um cidadão do mundo. Se minha teoria resultar equivocada, a França dirá que sou alemão, e a Alemanha declarará que sou judeu.”

Ÿ Sobre os ensinamentos recebidos: “Quando recebemos um ensinamento devemos receber como um valioso presente e não como uma dura tarefa. Eis aqui a diferença que transcende.”
“A educação é aquilo que permanece quando alguém esquece tudo o que aprendeu no colégio.”

Ÿ Diante de Deus e do mistério da vida: “Ante Deus somos todos igualmente sábios, igualmente tontos.”
“A coisa mais perfeita que podemos experimentar é o misterioso. É a fonte de toda arte e de toda ciência verdadeira.”

Ÿ Sobre o valor da matemática: “Uma razão pela qual a matemática goza de especial estima sobre todas as demais ciências, é que suas leis são absolutamente certas e indiscutíveis, enquanto que as das outras são, até certo ponto, debativeis e com o perigo constante de ser derrotadas por fatos recém descobertos.”

Ÿ Sobre o sentido das coisas: “É possível que tudo possa ser descrito cientificamente, mas não teria sentido. É como se uma sinfonia de Beethoven fosse descrita como uma variação nas pressões de onda. Como seria descrita a sensação de um beijo ou o “te amo” de uma criança?”

Ÿ Sobre a força da imaginação: “A imaginação é mais importante que o conhecimento.”

Ÿ A respeito das coisas infinitas: “Só há duas coisas infinitas: o Universo e a Estupidez Humana, mas não estou muito seguro da primeira. Da segunda pode-se observar como nos destruímos só para demonstrar quem pode mais.”

Ÿ Sobre a estupidez das guerras: “Não sei com que armamento se combaterá a Terceira Guerra Mundial, mas a Quarta Guerra Mundial será combatida com paus e pedras.”

Ÿ Sobre o preconceito: “É mais fácil destruir um átomo do que um preconceito.”

Ÿ Sobre a conveniência de se manter a boca fechada: “Se A é igual ao êxito, então a fórmula é A=X+Y+Z, onde: X é trabalho, Y é julgar e Z é manter a boca fechada.”

Ÿ A respeito dos sonhos: “O segredo da criatividade está em dormir bem e abrir a mente às possibilidades infinitas. O que é um homem sem sonhos?”

Ÿ A respeito da inteligência e da mediocridade: “Os grandes espíritos sempre encontrarão violenta oposição por parte dos medíocres. Estes últimos não podem entender quando um homem não sucumbe impensadamente a prejuízos hereditários senão quando, honestamente e com coragem, usa sua inteligência.”

Ÿ Descrição da verdade: “Se vais sair à frente para descrever a verdade, deixa a elegância para o alfaiate.”

Ÿ A respeito dos segredos da Terra: “Cada um de nós visita a Terra involuntariamente sem ser convidado. Para mim é suficiente perguntar-me por seus segredos.”

Ÿ Ciência e religião: “A ciência sem religião, é aleijada: a religião sem ciência é cega.”


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Ultrapassando o limite

Cesar Vanucci*

"A linguagem é a única demonstração autêntica da alma nacional"
 (Karel Capeck - 1890-1938 - escritor tcheco)

O “Banco do Choro”, bem no coração da cidade, na confluência dos dois principais logradouros, era palco de broncas, fofocas, lamúrias e, também, de diálogos edificantes, tendo por base candentes temas da atualidade. O cenário permaneceu, anos a fio, o mesmo: um banco com tiras de madeira inteiriça, encaixadas em sólida estrutura metálica, plantado no passeio fronteiriço à porta de entrada de uma agência bancária. O que variava era a platéia. Havia a hora do fazendeiro, dedicada a informações agropecuárias. Havia a hora dos aficionados em futebol, com prolongados e inflamados bate-bocas. E havia, também, o momento consagrado ao trivial variado, uma conversa solta, sem agenda definida, sobre generalidades. Todos os públicos, bem específicos, escalonavam- se nos períodos certos. Nesse último pedaço de tempo é que ele costumava aparecer, impecavelmente trajado, quase sempre de branco, no rosto simpático o realce das maçãs cor de carmim. Ouvia, palpitava, aconselhava, trazendo engatilhada na ponta da língua, ao jeito de inapelável sentença, sua frase predileta: - Há um limite pra tudo!

A frase virou jargão, explorado no papo coloquial da gente da cidade. No meio de uma conversa qualquer, traduzindo surpresa, espanto, ou condenação, ela irrompia impetuosa: - Pera lá, assim também não. Há um limite pra tudo!

“Banco do Choro” não tem mais. Os rumos trepidantes da cidade interiorana, sacudida pela vertigem do progresso, fizeram dele um mero registro nostálgico, “peça tombada” apenas no saudosismo de uns poucos. Mas a sentença, sem render direitos autorais, ainda frequenta com assiduidade as conversas de rua, como exclamação peculiar do lugar, uma espécie de expressão típica regional.

Há um limite pra tudo! A observação se ajusta a todas as esferas da atividade humana. Ganha forte retumbância, por exemplo, nessa incrível história da invasão de vocábulos estrangeiros em nosso atribulado cotidiano brasileiro. Todos os limites vêm sendo clamorosamente ultrapassados. É saudável constatar que no papo de rua o abuso está menos evidenciado do que nas conversas de gabinete povoados por tecnocratas. Ou mesmo nos redutos empresariais e técnicos ocupados por adeptos desse neoliberalismo de fancaria que tanta besteira anda aprontando aqui por tudo quanto é lado e que se notabiliza por saber desovar, com frequência, regras pra tudo, com fundamento na insensibilidade social e na falsa erudição. Mas há outras áreas, importantes na formação da opinião pública, que estão se deixando também envolver pela sorrateira e ardilosa infiltração. É só por tento nos dizeres utilizados na divulgação de eventos, nos letreiros de lojas, na propaganda e em outros meios de manifestação corriqueira das idéias e sentimentos da comunidade. O desfile impertinente e impróprio de vocábulos desajustados ao clima brasileiro agride-nos em cada esquina. Processa-se de modo sutil, subliminar, com aparência inofensiva, diante dos olhares complacentes dos formadores de opinião, sem que consiga ocultar, todavia, dos mais atentos e inconformados, as características intrínsecas do estupro cultural perpetrado. Não consigo imaginar nada mais afrescalhado do que ver e ouvir, em escritos e pronunciamentos, o emprego afetado, cheio de calhordice, de expressões estrangeiras para falar dos atos e fatos corriqueiros do dia-a-dia das pessoas comuns. A substituição de expressões vernaculares óbvias, precisas, por arrepiantes termos extraídos de outros idiomas, não traz contribuição alguma na melhoria do entendimento e compreensão do que se pretenda transmitir. Uma coisa, bastante salutar por sinal, é o domínio de idiomas, notadamente o inglês, reconhecidamente uma língua universal. É o uso adequado e pertinente de termos técnicos, ainda sem tradução correta, aplicáveis às realidades tecnológicas e científicas recentes. Coisa já bem diferente é poluir o papo coloquial, no trabalho, nas relações de negócio e sociais, com palavras arrevesadas que perturbem a clareza da comunicação, como as reunidas nessa coletânea aleatória, extraída de flagrantes cotidianos da Greenville pessoal fabricada pela basbaquice solta na praça: outdate, full-time, establishment, staff, managers case, home, book, feedback, top-dow, working groups, folder, follow-up. Está claro que não estão limitados aos termos arrolados os “impropérios” cometidos pelos fervorosos cultores desse execrável modismo. E o que não dizer dos convites para os inefáveis cooffe break e happy hour? Até pra brunch, que parece ser uma mistura indigesta de breakfast com lunch, estão agora convidando, descerimoniosamente, pessoas de bem, BRUNCH? Deus do Céu!

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Baboseiras emergentes


Cesar Vanucci *

"Civismo é (...) zelar pela pureza
do idioma e dos costumes herdados"
(Coelho Neto)


Um dos vinte e cinco leitores assíduos destes maldatilografados escritos abastece-me de informação que serve, alentadoramente, para enriquecer as considerações a propósito das agressões contínuas sofridas pela economia e cultura brasileiras.

Segundo ele, os restaurantes que mais faturam na praça, vale dizer, que mais fregueses atraem, são os de denominação – às vezes, tão saborosa quanto os pratos do cardápio – com som, jeito e cara de Brasil. O leitor explica que na avaliação pessoal procedida deixou de levar em conta, como estabelecimentos classificados na "lista estrangeira", as casas típicas cujos nomes fantasia se mostrem vinculados, por óbvios motivos, à natureza essencial do negócio. E tira animadora conclusão para quem se disponha a defender, com espírito cívico, o apreço na lida cotidiana ao idioma do país: o povo sabe assumir, instintivamente, a proteção dos valores culturais da nação. Imagino seja mesmo assim que as coisas rolem nos redutos populares. E me ponho a pensar quão proveitosa poderia vir a ser em revelações uma pesquisa aprofundada das preferências comunitárias, nessa linha de averiguações seguida no caso dos restaurantes.


As desfigurações e o achincalhe linguísticos, bem como outras habituais modalidades de agressão cultural, têm origem no pauperismo intelectual subjacente a ambientes sofisticados onde a falsa erudição reina e onde muitos se entregam, embriagadoramente, ao  jogo  fantasioso de pertencer às chamadas "elites emergentes". Nesse território de pedantismo elevado ao cubo é de bom tom o emprego de estrangeirismos no papo trivial. Não se trata aí do uso pertinente de vocábulos ainda não traduzidos, indispensáveis ao entendimento de um processo tecnológico relevante. Nem de citações, perfeitamente compreensíveis, em idioma alheio, capazes de definirem com melhor precisão uma circunstância típica ligada a realidade cultural de outros lugares. Nada disso. O que merece condenação é o emprego de estrangeirismos forçados, roçando o desrespeito. A expressão decorada fica engatilhada no canto da língua ou armazenada na gaveta da memória, aguardando hora e vez de ser lançada, com pernosticismo, em manifestações orais e escritas.

Correspondências, convites, discursos, entrevistas, painéis de rua, folhetos e volantes contendo ofertas de ocasião: a situação é de puro surrealismo, concorre para a poluição sonora e visual, sendo vivenciada na indigência cívica e intelectual de uns e outros.

Dia desses, uma comerciante da praça recebeu carta de fornecedor, salpicada, como é de praxe em certas áreas, de frescurinhas vocabulares. Do impresso, bem cuidado do ponto de vista gráfico, cores harmoniosamente distribuídas, caracteres de letras sugestivos, o escambau, constou proposta à destinatária para cooperar com o missivista no sentido de que, juntos, pudessem "alcançar nossa gestalt". A dama agraciada com a desconcertante proposta, pessoa muito temente a Deus, desafeiçoada à terminologia alienígena solta por ai, só se tranquilizou mesmo quando a filha, estudante de Psicologia, rindo à bandeiras despregadas, explicou o significado da instigante palavra. Constatou-se, então, que gestalt, expressão alemã, sem tradução no vernáculo, de conteúdo substancioso, identifica uma técnica utilizada em Psicologia, transmitindo idéia aproximada de totalidade, abrangência, por aí. Descobriu-se, também, que o termo vem trafegando com crescente desenvoltura pelos descaminhos das incontinências verbais. Foi adotado, com entusiasmo iconoclasta, para o uso impróprio costumeiro, pela turma que considera o máximo, em matéria de saber, a capacidade para introduzir de enfiada num diálogo de cinco minutos as palavras "book", "inside", "feeling", "feedback" e outras do gênero. Ou que considere uma suprema bem-aventurança receber em casa, com o nome grafado de próprio punho pelo anfitrião, um "emergente" qualquer, convite para um "brunch" ou "happy hour".

Carradas de razão assistia a Schiller, quando asseverava que "com a tolice os próprios deuses lutam em vão".

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)
O povo sabe

Cesar Vanucci *

“Saber que sabe é um dom da gente do povo.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

O cidadão comum brasileiro denota possuir grau de percepção social infinitamente superior ao de ponderável grupo de analistas, comentaristas, cientistas políticos eruditos e renomados que frequentam habitualmente colunas da grande mídia com interpretações pessoais dos fatos socioeconômicos. O sentimento popular, expresso via de regra em manifestações de satisfação e de sempre esperançosa expectativa, bate de frente a toda hora com a obsedante mensagem negativista lida e ouvida no noticiário nosso de cada dia. O crescimento acelerado dos últimos anos, que concedeu ao Brasil posição de enorme realce no cenário internacional, revela sem margem a contestações que, nessa divergência de opinião, o povo é que está com a razão.

Apontando a medida como indispensável no combate inflacionário, o governo federal anunciou um corte orçamentário de 50 bilhões. Anunciou, também, respaldado em pareceres dos tecnocratas de sempre, novas e questionáveis elevações na taxação dos juros. A redução de investimentos impacta naturalmente várias iniciativas na área social, que terão de ser sobrestadas. A decisão não vai afetar, todavia, como não poderia, aliás, deixar de ser, o Bolsa-Família, programa da maior relevância no resgate paulatino da colossal dívida social acumulada anos a fio pela nação. As alterações para mais nos valores despendidos com esse item específico da ação governamental, estão estimados, ao que se informou, em 2,5 bilhões. O comunicado dessa majoração nas verbas do Bolsa Família provocou, por incrível que pareça, reações zangadas de não poucos elementos com acesso à divulgação midiática. Não deixa de ser intrigante anotar que esses comentários críticos sobre a palpitante matéria são emitidos numa mesma ocasião em que, por força da pujança econômica brasileira, negada sistematicamente por esses mesmíssimos setores, grandes organizações empresariais sobretudo bancárias, tornam público estrondosos recordes em lucratividade nos negócios em que atuam. Soa estranho que a nenhum dos responsáveis pelas despropositadas restrições ao Bolsa-Família não ocorra a idéia de sugerir que pequena parcela dessa espiral de bons resultados financeiros – algo, diga-se de passagem, incomparável em qualquer outro canto do mundo – possa ser carreada, por meio de um pacto tributário sério, aos programas sociais, com a eliminação, quem sabe até, da necessidade de se operar cortes no orçamento federal. Cuidemos de aquilatar a dimensão dessa lucratividade recordista, atingida pelas eficientes empresas do ramo bancário, para ficar num exemplo. Os números somados de não mais que meia dúzia delas são suficientes para superar a cifra de 50 bilhões correspondentes à redução de gastos orçamentários feita pela União.

Tá aqui, escancarado em jornal, outro exemplo talqualmente sugestivo. Diz respeito a uma grande empresa industrial. No período de apenas três meses (julho a setembro de 2010), como fruto de eficaz gestão administrativa, ela conseguiu incorporar ao patrimônio lucro líquido, em dólares, de 6.229 bilhões. O nome da empresa é Vale (do Rio Doce), segunda maior organização produtiva brasileira. Em seu segmento, a maior do mundo. É interessante frisar que a dinheirama auferida é bem maior do que o valor recebido pelo Estado no leilão, anos atrás, referente à sua privatização. Essa privatização foi considerada como o melhor negócio jamais feito no orbe terráqueo desde que os índios pele-vermelha, antigos povoadores dos Estados Unidos, transferiram para os cara-pálidas os direitos de propriedade sobre o território hoje conhecido por Manhatan.

Isto tudo posto, irrompe uma pergunta. Será que não dá pra tentar uma reavaliação, por meio evidentemente de negociações, da contribuição dessas empresas, tão prodigamente remuneradas no contexto produtivo, na formação dos recursos investidos nas políticas sociais? Por que nas observações, insistentemente pessimistas, que fazem a respeito dos rumos que o Brasil percorre em sua busca frenética do desenvolvimento visando garantir melhores índices de prosperidade social, os especialistas em previsões catastróficas de nossa mídia não se animam a propor, como formadores de opinião que são, um debate esclarecedor a respeito da conveniência de um novo pacto regulatorio na esfera tributária? Um pacto que concorra para a diminuição, em nome da justiça social, das cotas de participação no bolo fiscal de quem possua capacidade menor de produzir renda. Com compensação, evidentemente, na elevação proporcional do contributo das organizações de altíssima lucratividade.

O povo, que entende melhor das coisas do que certos comentaristas, aceita de bom grado esse raciocínio. Se alguém duvida, que se dê ao trabalho de sair perguntando por aí, mode se esclarecer.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...