sexta-feira, 30 de janeiro de 2015


Passando tudo a limpo

Cesar Vanucci *

“É apenas o começo.”
(Juiz Sergio Moro, comparando a “Lava Jato”
 com a operação “Mãos Limpas”, deflagrada na Itália)

Desta feita, parece que as coisas vão ser realmente passadas a limpo, doa a quem doer, de conformidade com as aspirações da sociedade. Nascida de benfazeja conjugação de forças, envolvendo Justiça Federal, Ministério Público Federal, Ministério da Justiça, Polícia Federal, a operação “Lava Jato” dá provas de manter sob pulso firme as rédeas dos acontecimentos, avançando com firmeza nas apurações das colossais maracutaias praticadas por ousado bando mafioso composto de agentes públicos, políticos e empreiteiros inidôneos, além de elementos do submundo financeiro.

No começo, ao se delinearem indícios do escabroso esquema, as operações de deslindamento dos fatos concentraram-se nas irregularidades promovidas por graduados da Petrobras, os apelidados “predadores internos”. Ao depois, surgiram pistas apontando na direção da grei política.

O vazamento de nomes, rodeado de espalhafato, sem acompanhamento de provas, enfocou em dado momento, campanha eleitoral em curso, partidários da candidatura situacionista. Adiante, o mesmo reprovável critério de denuncismo solto alvejou também alguns elementos das fileiras oposicionistas. Compreensível reação do núcleo central das investigações levou à constatação de que pessoas com acesso às diligências, em manobras escusas, empenharam-se no lançamento de lenha na fogueira política. Sindicância aberta para definição de responsabilidades conteve um pouco o açodamento acusatório.

Noutro momento, a opinião pública tomou ciência, estupefata, do indiciamento, além dos funcionários infiéis da estatal e de doleiros inescrupulosos, de outro poderoso conjunto de malversadores do bem público: empreiteiros agrupados num cartel montado com o fito de mamar à exaustão nas tetas do Tesouro. Esta foi, certeiramente, a primeira vez que a história registrou a detenção em massa de corruptores desse naipe. No passado, outras operações ligadas a delitos de “colarinho branco” deram em nada.

Chega agora, tudo indica, a hora das denúncias oficiais contra políticos emaranhados nos fraudulentos esquemas. Da lista, provavelmente, não constarão todos os nomes listados na onda sensacionalista dos vazamentos intempestivos. O que também parece em vias de ocorrer são revelações relativas ao sistema financeiro clandestino usado na desova da nota preta acumulada nos atos de corrupção e sonegação da atrevida patota.

Os brasileiros aguardam da força-tarefa coordenada pelo magistrado Sergio Moro e pelo Procurador Rodrigo Janot que o trabalho atinja as derradeiras consequências. A operação Lava Jato pode redimir o país do tantão de investigações inacabadas que resultaram em pizza e das impunidades mortificantes.



Tragédias terroristas lá e acolá

Cesar Vanucci *

“Eu sou Charlie!”
(Frase que o mundo adotou para expressar
indignação aos atos dos fanáticos do Apocalipse)

Os atentados que estremeceram Paris e comoveram o mundo produziram verdadeira conscientização universal quanto aos riscos confrontados pela humanidade diante do radicalismo terrorista. As calorosas manifestações de solidariedade e repulsa ouvidas de pronto em todos os cantos do planeta deram o tom firme e resoluto da reação aos desatinos radicais.

A caminhada que líderes mundiais, de diferentes tendências políticas e religiosas, de braços dados, empreenderam pelas ruas da capital francesa, em sinal de desagravo, à frente da  multidão, reafirmou a certeza de que a sociedade humana identifica no fanatismo incendiário, espalhado por aí, um adversário feroz. Um inimigo obcecado pelo propósito de destroçar valores caros à boa convivência. Com interpretações mórbidas de textos sagrados, atitudes preconceituosas violentas, as falanges radicais de diversificadas matizes tornaram-se, na atualidade, ameaças permanentes à estabilidade social.

O desafio está posto. O combate ao radicalismo há que ser vigoroso. Mas não pode prescindir das cautelas recomendadas pela cartilha democrática. As facções extremistas não podem lobrigar brecha alguma nas medidas de defesa social a serem adotadas que crie ensancha oportunosa a manobras perversas. Nada que venha alimentar a intolerância, a xenofobia, a discriminação contra segmentos formados por criaturas de boa paz. Confundir a imensa maioria dos seguidores do Islã com essa horda minoritária desvairada que semeia o pavor em nome de falsos conceitos religiosos é laborar em equívoco clamoroso, suscetível de afetar a convivência inter-religiosa e humanitária.  A fonte matricial dos impulsos criminosos terroristas não é religiosa. Não é étnica. Nada tem a ver com nacionalidades. É brutalidade solta. Declaração de guerra gratuita contra a dignidade humana, como fez questão de registrar, em indignado pronunciamento, o Imã da Grande Mesquita de Paris, principal hierarca da comunidade muçulmana, Dali Boubakeur.

Depois de tudo isso devidamente trazido à reflexão, rogo agora um minuto da preciosa atenção dos poucos (mas leais) leitores deste desajeitado escriba para o registro de outra tragédia terrorista de dias atrás.

Aconteceu na mesma semana dos incidentes em território francês acima comentados, parece até que no mesmo dia. A Nigéria, país com a maior população do continente africano, foi cenário de atos perpetrados com dose de crueldade inaudita por outro grupo radical. A grande mídia internacional, concentrada absorventemente na cobertura dos acontecimentos de Paris, não reservou no relato dos episódios tempo e espaço correspondentes à sua gravidade.

Seguinte: vinte pessoas morreram estraçalhadas e outras dezenas ficaram feridas num shopping popular em consequência da detonação da carga de dinamite presa ao corpo de uma – anotem aí - garotinha de apenas dez anos de idade. Dois dias depois, provocando igualmente grande número de vítimas inocentes, mais duas menores, uma de 11 e outra de 13 anos, “explodiram” noutro local de intensa movimentação popular. As ocorrências foram praticadas a mando da arrepiante facção terrorista “Boko Haram”. Organização que também se diz “porta-voz” do pensamento maometano, no que é veementemente contestada pelas lideranças dessa corrente religiosa majoritária no país. Os responsáveis pela horripilante façanha se notabilizam, tanto quanto os selvagens adeptos do Isis, por barbaridades sem fim nas regiões em que atuam.

Este registro comporta uma interrogação de certo modo incômoda, que insistimos em fazer a nós mesmos: será que a diferença de tratamento dispensado pela mídia, atinente à divulgação das tragédias na França e na Nigéria, pode induzir a suposição de que, do ponto de vista da comunicação internacional, uma tragédia horrenda em terras d’África não teria o mesmo peso de uma tragédia horrenda acontecida em terras europeias? E como uma coisa puxa a outra, será que as lideranças mundiais não poderiam promover também em Lagos, capital da Nigéria, uma outra emblemática e memorável manifestação pública, como a de Paris, para expressar seu desagravo e repulsa a esses fanáticos do apocalipse?



Onde já se viu?

Cesar Vanucci *

“Não se espantar é toda a arte que
conheço para tornar e manter a gente feliz.”
(Pope)

Os juros cobrados aos consumidores que recorrem a financiamentos continuam a escalada estratosférica. Calcula-se que a taxa média anual nas operações bancárias andem próximas dos 45 por cento, mais do que o triplo do aumento dos juros básicos (Selic), fixados pelo Banco Central. No tocante aos juros do cheque especial, apontando índice de crescimento superior a 15 por cento no exercício passado, a taxa anual já ultrapassa os 200 por cento. A mais elevada dos últimos anos, mesmo considerada a circunstância de a Selic, utilizada como referência pelo sempre voraz sistema bancário, ser agora menor do que era em períodos anteriores. Dados tão desestimulantes - a serem fatalmente agravados com esta mais recente elevação da Selic - incitam os observadores a sair gritando por ai como certamente faria o saudoso Joelmir Beting com aquela verve e domínio do assunto que tanto o distinguiam no colunismo econômico: “Cruz crédito!”

Namorados virtuais. Observando por aí esse mundão de gente, em tudo quanto é canto, a toda hora, em circunstâncias as mais inesperadas e improváveis, a clicar incríveis engenhocas eletrônicas, recebendo, passando e repassando informações, filmando, fotografando, batendo papos intermináveis, fofocando, adquirindo e desvencilhando-se de coisas, num pandêmico esforço de comunicação global, não cheguei a me espantar nadica de nada com uma reportagem do Fantástico. Mostrando mudanças viscerais de comportamento ocorridas, ultimamente, na sociedade japonesa, a repórter entrevistou alguns rapazes, que se proclamam de saída heterossexuais, mas que se dão por plenamente realizados hoje, nos relacionamentos “com o outro sexo”, em manter enraizados elos afetivos com personagens virtuais. Eles trocam confidências com as “namoradas”. Chamam-nas carinhosamente pelo nome ou apelido. Demonstram zelo e carinho na incrementada “convivência”. Dizem sentir falta delas. Admitem até nutrir um certo sentimento de posse que os leva, às vezes, ao ciúme. As revelações, comportando indicadores de rematada babaquice, um maná para estudiosos de antropologia e psiquiatria, não chegaram ao ponto de uma explicação suficientemente clara sobre se paixonite tão tórrida é capaz de arrastar os enamorados, nalgum momento, a atos de intimidade conjugal. Onde já se viu!...

“Viva Hitler!” Comandante do Batalhão de Choque da PM carioca até recentemente, o coronel Fábio de Souza vem de ser exonerado das funções que ocupava no gabinete do Secretário da Segurança naquele Estado. Adepto confesso do nazismo, o militar, junto com colegas da corporação, fazia apologia das ideias hitleristas na internet, propagando mensagens deste teor: “Viva Hitler!”; “Viva a raça sem defeitos!”; “Coronel Fábio pela instauração do Reich!” Incitava, ainda, em ordens de comando aos subordinados, a violência policial para coibir manifestações de protesto. Entrou em discordância com outro coronel, Márcio Rocha, ex-comandante do Batalhão de Choque. Pouco depois de uma troca de mensagens suas com outros militares criticando o colega, a residência do referido coronel foi alvejada com rajada de tiros. Tá danado.

Atlas desfigurado. Uma editora britânica conceituada socorreu-se de um expediente indigno para movimentar vendas de seus produtos no Oriente Médio. Lançou um Atlas omitindo a existência do Estado do Israel. “Justificou-se” com a afirmação, ridícula a mais não poder, que sua decisão obedece a “preferências locais”. Consta que, após o malfeito praticado, a editora fez um mea-culpa, desculpando-se. Tá danado.




GALERIA DE ARTE



DI CAVALCANTI,

CIDADÃO DO MUNDO 

Di Cavalcanti

                                                                 Para mim, a principal função
                                                          da arte é a conscientização”
(Di Cavalcanti)

Mais conhecido como Di Cavalcanti, Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo foi um grande pintor, desenhista, ilustrador e caricaturista brasileiro.
Um dos idealizadores da semana de Arte Moderna de 1922, foi dos primeiros a retratar elementos da realidade urbana brasileira, como favelas, festas populares, operários.
Juntamente com outros nomes de valor, como Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Graça Aranha, foi um dos mais representativos artistas do modernismo brasileiro.
Di Cavalcanti contava em sua obra o que via e o que vivia, seja no desenho, na caricatura ou na pintura. Mostrava o cotidiano das pessoas comuns. Sua obra contempla a sociedade brasileira de seu tempo, aquilo que seu olhar pôde perceber.
Di Cavalcanti notabilizou-se ainda como escritor, jornalista e poeta. Transportou para a arte brasileira a complexa efervescência social e política do século 20.
Boêmio, cidadão do mundo, trazia na alma três capitais – Rio de Janeiro, São Paulo e Paris. Uma das principais figuras da Semana de Arte Moderna, foi, apesar de sua natureza indisciplinada, um artista engajado. Cultor da beleza feminina, fez das mulheres o tema principal de sua obra. 
(Fonte: “Mercado Arte”)

Na ilustração, amostras do poder criativo do artista

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

VISTO NA INTERNET



Viva a democracia!

Cesar Vanucci

“A democracia é boa, principalmente porque
todos os outros sistemas são piores.”
(Nehru)

Acompanhei com toda atenção os lances alusivos às festividades da posse do Governador Fernando Pimentel e da Presidenta Dilma Rousseff. No primeiro caso, marcando presença na Assembleia Legislativa e na Praça da Liberdade.

A circunstância de haver votado em ambos nas últimas eleições - por identificar sintonia em suas propostas com as aspirações da sociedade, no sentido da execução de políticas desenvolvimentistas que enfatizem o resgate da colossal dívida social brasileira - concorreu evidentemente para explicar o entusiasmo pessoal diante das cenas contempladas. Mas, o que mais me comoveu e sensibilizou, na verdade, foi sentir-me engolfado, naqueles exatos momentos, ao lado naturalmente de milhões de patrícios, pelo turbilhão cívico produzido por mais este frisante capítulo da epopeia democrática brasileira.

Como bem assinalou Pimentel na fala aos parlamentares, a emoção provinda da certeza de que o processo eleitoral recém-findo faz parte, mercê de Deus, de nosso trivial democrático é única, incomparável, insubstituível.

A democracia é, antes de tudo, um estado de espirito, já disse alguém em instante iluminado. Ninguém, em sã consciência – já foi sublinhado também –, imagina seja ela, a democracia, um sistema perfeito. Um regime sem defeitos, que consiga eliminar, no encadeamento dos processos políticos e administrativos inerentes, as falíveis condições do comportamento humano, as contradições e conflitos que permeiam, a débito de nossas tremendas incongruências, a convivência social. Só que, apesar de tudo, em tempo algum na trajetória da vida, em lugar nenhum, ninguém se mostrou até aqui suficientemente sábio e capaz para colocar no papel e muito menos na prática qualquer outro modelo de condução da atividade política que se lhe possa ligeiramente equiparar. Todas as desastradas tentativas, aqui e alhures, visando substituir a democracia por sistema de governança autoritário resultaram invariavelmente em verdadeiras tragédias coletivas e pessoais. Em catástrofes humanas irreparáveis. Em momentos de trevas densas e de pavor contaminante e duradouro. Liberdade de opinião, de reunião e de expressão sufocada; direitos básicos espezinhados; escolha dos dirigentes pelo voto majoritário popular suprimida: esses, os frutos daninhos das experiências antidemocráticas espalhadas mundo afora.

Saber que a democracia rege agora os destinos brasileiros é saber que o regime dominante contribui, com todos os percalços inerentes às diversidades comportamentais humanas, para elevar o nível moral e cívico da sociedade e exaltar o autêntico sentimento nacional. Isso impulsiona-nos, todos os cidadãos, a não esmorecer no esforço de garantir continuidade, no dia a dia, pelo somatório dos labores individuais, à tarefa de fazer o Brasil cumprir sua vocação de grande potência no cenário mundial.

Consagrados pela votação alcançada, legitimados para o exercício das funções a que se candidataram por força dos ritos democráticos irrepreensivelmente conduzidos pela Justiça Eleitoral, rodeados da simpatia e da expectativa esperançosa das ruas, a Presidenta e o Governador reafirmaram, na posse, o seu solene compromisso com a democracia e com a causa superior do desenvolvimento econômico e social brasileiro. É compromisso que exige gigantesco esforço, com o apoio de todos, em prol do bem estar comunitário, da execução de reformas essenciais, há tanto reclamadas. Reformas defendidas com abrasante ardor nos palanques partidários e que acabam sempre ignoradas nos gabinetes executivos e tribunas parlamentares. E nem é o caso de insistir, dando bastante ênfase à lembrança, que esse compromisso compreende também combate sem tréguas à corrupção e a qualquer outra mazela capaz de obstaculizar ações positivas de construção humana, ancoradas na justiça, na fraternidade e nos preceitos éticos.

Que Deus ilumine o trabalho dos governantes brasileiros empossados e que não lhes falte, no curso da caminhada, a colaboração solidária e, sempre que necessário, crítica da sociedade que representam.
Viva a democracia!


Episódios surrealistas


Cesar Vanucci

“Algumas bizarrias destes confusos
tempos são mais surrealistas que
as telas de Salvador Dali.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Vereadores de Belo Horizonte reavivaram recentemente uma versão, com toque bem sofisticado, do “curral eleitoral” dos tempos do voto na base do “bico de pena” ou da “marmita de cédulas”. Mode evitar eventuais deserções de última hora, que pudessem prejudicar o triunfo, tido como “favas contadas”, no pleito para a composição da mesa dirigente da Câmara, os edis comprometidos com a chapa apoiada pelo Executivo foram confinados num hotel confortável, cumulados de mordomias, até a hora de depositar os votos nas urnas. O esquema funcionou a pleno contento e apresentou, além da vantagem comparativa das comodidades oferecidas aos eleitores, um outro diferencial com relação aos “currais” de antanho. O eleitor confinado sabia de antemão dos nomes a serem sufragados. No passado, as coisas não corriam bem assim. Os votantes agrupados em “currais” desconheciam, quase sempre, as pessoas para as quais seriam destinados os votos. Se alguém, dentre eles, se aventurasse a indagar pelos nomes dos personagens a serem votados, ouviria como resposta dos encarregados em manter o “moral” da turma concentrada nos “currais”, protegendo-a de malsãs influências externas, o seguinte: - “Mas como é que a gente vai saber dos nomes, se o voto é secreto?”

Mico” atrás de “mico” A histeria de talibãs tupiniquins continua gerando o que, no popular, é considerado “pagar mico”. Em Goiás, cidadão investido da condição de procurador revelou-se possesso ao tomar conhecimento de que o governo brasileiro estaria enviando jovens à Venezuela para receberem treinamento em prol da incendiária proposta da tal “revolução bolivariana”. Pediu em altos brados a instauração de rigoroso inquérito contra a União, exigindo do Itamaraty as explicações devidas face à gravíssima denúncia. Pouco depois de toda sua frenética movimentação, ficou sabendo que a “exportação” dos jovens mencionada pela fonte em que se louvou para fazer as veementes denúncias dizia respeito a uma região de Sucre denominada “Brasil”, e não ao país do mesmo nome. País onde vive, trabalha e desfruta de liberdade para cometer toda sorte de asneiras. Pelo que consta, o referido cidadão se recusa, até aqui, a estender a mão à palmatória, mode retratar-se da vexação.

Já esta outra aqui, também militante de falange radical, vereadora carioca, achou por bem usar da tribuna para desancar colegas “comprometidos” com o tal “movimento bolivariano”, seja lá o que isso signifique, centrando incandescentes críticas no bigodudo presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Toda explosão retórica teve como fulcro manifestação simpática de companheiros no parlamento à figura do lendário Chaves, personagem da televisão, recentemente falecido. O “carlitiano” artista mexicano foi confundido pela raiventa parlamentar com outro Chaves famoso.  Hugo, ex-presidente venezuelano, também já desencarnado.

GALERIA DE ARTE
A paixão de
Guignard
por Minas
Alguns trabalhos do mestre Guignard

Alberto da Veiga Guignard (Nova Friburgo, 25 de fevereiro de 1896 - Belo Horizonte, (25 de junho de 1962)  foi um pintor que ficou famoso por retratar paisagens mineiras.
A formação do artista foi alicerçada em bases européias, pois viveu na Alemanha dos onze aos 33 anos, frequentando as Academias de Belas Artes de Munique e de  Florença (Itália).
No Brasil, tornou-se um nome representativo dessa década e da seguinte, juntamente com Cândido Portinari, Ismael Nery e Cícero Dias .
Ainda jovem, orientou um grupo do qual participavam Iberê Camargo, Vera Mindlin e Alcides da rocha Miranda. Nessa época  (1944), a convite de  Juscelino Kubitschek, instalou um curso de desenho e pintura no recém-criado Instituto de Belas Artes. A partir daí, apaixonou-se pela cidade e mudou-se para cá.
Foi um artista completo, atuando em todos os gêneros da pintura – de naturezas mortas, paisagens, retratos até pinturas com temática religiosa e política, além de temas alegóricos.
Guignard amava as montanhas de Minas Gerais, seu céu e suas cores, seu povo. Colaborou para a formação de artistas que romperam com a linguagem acadêmica e ajudou a consolidar o modernismo nas artes plásticas em Minas. O período vivido em Minas está representado também no Museu Casa Guignard.
Seu corpo repousa na Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, onde viveu até 1962. 
(Fonte: Wikipédia, a Enciclopédia livre).




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Truco, Ministra! 

 “Não há mais latifúndio no Brasil.”
(Ministra da Agricultura, Kátia Abreu)

 O truco é um jogo de baralho de vasta aceitação nas camadas populares, aqui no Brasil, noutros países da América Latina, Portugal e Espanha, onde, concebido por influências mouras, parece ter tido origem. O engano, o blefe, a algazarra bem humorada, sintonizada com as variações do comportamento psicológico dos entusiasmados participantes, fazem da disputa divertido entretenimento.  Tenho lembranças, recuadas no tempo, de torneios de truco animadíssimos que mobilizavam legião de aficionados em cidades interioranas. Não sei dizer se isso ainda acontece hoje.

O auge da emoção no lançamento das cartas era atingido naquele preciso instante em que o jogador, ligando ao máximo o amplificador da voz, agitando mãos e balançando o corpo teatralmente, fazia ecoar pelo recinto o brado de guerra característico da jogada supostamente triunfante: “Truco!” O “truco” berrado a plenos pulmões significava brado contestatório, questionador. Projetava no ar estrondosamente uma interrogação. Levantava dúvida a respeito da verdadeira composição do valor das cartas empalmadas pelo adversário.

Ao ouvir, outro dia, a peremptória declaração da simpática Ministra Kátia Abreu, da Agricultura, de que não mais há latifúndio no imenso território continental brasileiro – onde, ao que consta, pra ficar num exemplo, existem ainda propriedades rurais com extensão superior à da conturbada faixa de terra disputada por judeus e palestinos no Oriente Médio – pus-me a imaginar que, naquele justo momento, um punhado de patrícios, conhecedores a fundo da questão agrária, não conseguiu, por certo, resistir à tentação de deixar escapar do peito, bem alto para ser devidamente ouvida, a exclamação típica do jogo de cartas mencionado: “Truco, Ministra, truco!...”


(Ainda bem que o ilustre Ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, com a lucidez e bom senso costumeiros, ao empossar-se, retomou o tema nos termos apropriados, deixando explícito que o latifúndio improdutivo constitui ainda hoje uma amarga realidade na paisagem rural do país).


Radicalismo versus Humanidade


“O fanatismo é mais perigoso que o ateísmo e mil vezes mais
 prejudicial, pois este não inspira paixões sanguinárias,
enquanto que aquele pode levar à prática de crimes.”
(Voltaire)

Os disparos que ceifaram vidas de celebrados cartunistas franceses, produzindo comoção universal, representaram um lance abominável a mais na fieira de atrocidades praticadas por fanáticos religiosos e políticos de diferenciados matizes e tendências. Gente movida por instintos de brutalidade inauditos, firmemente empenhada no proposito nefando de convulsionar o mundo com incessantes manobras de terror voltadas para a desestabilização social.
Usam do terror verbal e da ferocidade em ações que subtraem vidas inocentes e reduzem a escombros patrimônios valiosos para tentar apavorar pessoas e submeter comunidades inteiras e até mesmo países ao reinado despótico do obscurantismo e das trevas. Disseminam o caos por onde passam. Sequestram, mutilam, escravizam, estupram, decapitam, desdenham de todas as normas civilizatórias. Agem no Oriente Médio, na África do Norte, na Nigéria, no Paquistão, no Afeganistão e muitos outros pontos de ebulição, bélica permanente. Agem também, conforme visto agora na França, na Europa, na América, enfim em todas as partes, com maior ou menor intensidade. Apropriam-se de conceitos pseudo-religiosos, que, na verdade, agridem virulentamente a essência do credo de que se autoproclamam arautos.
Embora menos desenvoltos ou mais contidos nalguns lugares, pregam sempre abertamente o ódio, a desavença, o preconceito, o racismo, a ruptura democrática, a violação dos direitos fundamentais, o ataque desabrido a todos os valores garantidores da dignidade que deve recobrir a aventura humana.
Esses fanáticos de carteirinha, não importam suas diferenças ideológicas, culturais, religiosas, são todos eles farinha do mesmo saco. Temos ali extremistas que se dispõem, num país onde funcionam satisfatoriamente as instituições democráticas, a combatê-las com ardor iconoclasta para que em seu lugar seja implantado regime tirânico. Temos acolá, noutras paragens de estruturas políticas despojadas de solidez, êmulos seus, possuidores do mesmo perverso instinto, psicologicamente habilitados a lançar granadas numa sala aula de modo a impedir sejam “desrespeitados” falsos textos sagrados sobre a instrução feminina. Uns e outros são movidos, na verdade, por um mesmo surto de insanidade que deles faz indivíduos irremediavelmente nocivos à convivência social.
O clamor universal contra o fanatismo terrorista é precioso suporte numa conjugação poderosa de vontades, envolvendo lideranças politicas e religiosas, com vistas a ações bem articuladas e eficazes no combate a essas facções incendiárias que fazem estremecer de pavor à sociedade humana de nossos tempos. Tais ações, não prescindindo obviamente nesta hora de vigorosa repressão em termos de defesa social, terão que contemplar, naturalmente, para que possam oferecer os resultados almejados, a busca empenhada de novos modelos de convivência social, inspirados na solidariedade e na fraternidade, entre nações, etnias, correntes ideológicas e crenças religiosas. 

GALERIA DE ARTE
Lavadeiras
A descoberta da Terra

Portinari, 
o grande pintor 
do Brasil



Cândido Portinari foi um dos pintores brasileiros mais famosos. Nasceu em Brodowski (interior do estado de São Paulo), em 29 de dezembro de 1903. Destacou-se também nas áreas de poesia e política.
Ele estudou na Escola de Belas-Artes do Rio de Janeiro; visitou muitos países, entre eles, a Espanha, a França e a Itália.
No ano de 1935, recebeu uma premiação em Nova Iorque pelo painel "Café". Deste momento em diante, sua obra passou a ser mundialmente conhecida.
Dentre suas obras, destacam-se: mural “Gerra e Paz”, exposto na sede da ONU; "A Primeira Missa no Brasil"; "São Francisco de Assis" e "Tiradentes". Seus retratos mais famosos são: seu autorretrato, o retrato de sua mãe e o do famoso escritor brasileiro Mário de Andrade.
Características principais de sua obra:
- Retratou questões sociais do Brasil;
- Utilizou alguns elementos artísticos da arte moderna europeia;
- Refletiu influências do surrealismo, cubismo e da arte dos muralistas mexicanos;

- Arte figurativa, valorizando as tradições da pintura.(Fonte: Wikipédia)





Eu não sabia

“Portinari realiza o milagre da arte muda:
exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!”
(Otto Maria Carpeaux)

Vou buscar, na meninice descontraída e na adolescência irrequieta, lembranças soltas de pura nostalgia. Estive bem próximo, em alguns poucos momentos, nessas fases risonhas da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Com acanhada visão das coisas, na mais santa ingenuidade, revelei-me carente de um mínimo de capacidade de percepção para avaliar, na hora certa, o real significado dessas aproximações singulares, generosamente proporcionadas pelo acaso.
Seguinte: guris, ainda nos começos ginasianos, eu e o mano Augusto Cesar frequentávamos, com assiduidade, a residência de Alberto e Dute Sabino. Nossos pais eram fraternos amigos do casal. Sentiamo-nos ali como em nossa própria casa. O Albertinho, como era conhecido, atuava na área de seguros. Apreciador das artes, possuía um amigão do peito. Um cidadão de alta projeção no mundo fascinante da pintura. Morador de cidade do interior paulista. Seu nome: Cândido Portinari. Candinho pros íntimos. Os dois amigos se visitavam com frequência. Numerosas as ocasiões, quando das idas de Portinari à casa do Albertinho, Uberaba, em que Augusto Cesar e eu recebemos convite para montar um pequeno espetáculo lítero-musical homenageando o ilustre visitante. Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de um “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal anfitrião pela dupla mirim. Tanto isso é verdade que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e da. Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui.

Todo mundo passou batido. O Albertinho, eu não sei. Mas a ninguém, de meu núcleo familiar, acudiu a idéia, naqueles instantes de contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo um punhado de obras primas, brotadas de seu pincel mágico.
Falo, agora, da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Seria de se imaginar que, já adolescente, possuísse um pouco mais de discernimento em relação a certas coisas. Foi quando de minha primeira tentativa de fixar moradia em Belô. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades profissionais. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Departamento de Trânsito, graças à incrível Anita Rosa de Magalhães Góes, esposa do culto coronel Américo Góes, ambos de saudosa memória. Fui morar numa pensão ali na rua Rio de Janeiro, esquina com Tupis. A paisagem arquitetônica da região se compunha de casas de feição brejeira, muito diferente dos caixotes de cimento armado de hoje. Dividia quarto com colega do interior. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, diariamente, por horas, a extrair do pincel os frutos coloridos de sua pujante criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saiam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo. Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive, momento algum, percepção de que estava a desfrutar do privilégio de compartilhar de um mesmo espaço residencial com um mestre da pintura. De nada sabia. Ninguém, ao redor, parecia também saber. De nenhum dos outros moradores ouvi, a qualquer tempo, a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard. Querem saber duma coisa? Dá vontade, às vezes, de pedir públicas desculpas por tão supina alienação.



sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A repulsa mundial com relação ao atentado à redação do semanário francês "Charlie Hebdo", vem retratada abaixo pelo talento de chargistas mineiros, que com verve e espírito crítico enriquecem as páginas de nossos jornais.
Os traços são dos cartunistas Son Salvador, Duke, Quinho, Janey Costa, Mario Vale.



O Papa e o Dalai Lama


“Apenas os que dialogam podem construir pontes e vínculos.” (Papa Francisco)


Confesso em boa e lisa verdade, das altitudes everestianas em que se aloja minha incondicional admiração pelo Papa Francisco, haver experimentado uma pontinha de preocupação e desconforto com a notícia de que o Vaticano não descobriu na agenda pontifícia espaço de tempo, mínimo que fosse, mode permitir ao Dalai Lama bater papo reservado com Chico. Imagino que só mesmo razões poderosas demais da conta, um tanto quanto também misteriosas, poderiam influenciar tão desconcertante atitude. Os temores de que o autoritário governo chinês pudesse vislumbrar no cordial gesto da Igreja, em recepcionando o líder budista, sinal “inamistoso” capaz de perturbar a evolução dos entendimentos diplomáticos em marcha no sentido de que a China conceda maior liberdade religiosa às minorias cristãs, parecem-me, de princípio, insuficientes como argumento para explicar aquilo que, de fato, rolou nos bastidores.

O Papa, pelo que todos nos habituamos a observar, não é alguém que contenha os impulsos generosos de seu dna diante de desafios tormentosos nascidos das incompreensões e intolerâncias mundanas, que se anteponham à caminhada em favor de uma construção humana fraterna.

Mas, diante do episódio já consumado, nada me compete fazer além deste despretensioso registro. Quem, afinal de contas, pensa ser este desajeitado escriba, com suas quimeras em torno da vida, pra querer adivinhar o que exatamente ocorreu nessa tentativa frustrada de aproximação, para diálogo inequivocamente positivo, dos dois carismáticos personagens? Maior estadista destes modernos e conturbados tempos, Francisco - desfazendo rançosos padrões de comportamento nas relações inter-religiosas e políticas - tem consagrado atenção especial à conciliação universal, a práticas ecumênicas em condições de reconectarem o mundo com sua essência espiritual e humana. Isso pesa na interpretação dos atos que promove como líder da Igreja.

Pecados jornalísticos. Recebendo no Vaticano um punhado de comunicadores ligados à televisão europeia, o Papa Francisco relacionou para os visitantes os grandes pecados da atividade jornalística no mundo contemporâneo. São estes: calúnia, difamação, desinformação. O Pontífice condenou também o alarmismo catastrófico, a falta de sensibilidade social e a tendência para relatos dos acontecimentos pela metade.
Noutra manifestação palpitante, o Pontífice conclamou as pessoas a enfrentarem por meio do diálogo respeitoso, da vivência ecumênica, os dramáticos problemas suscitados pelo fanatismo, pelo radicalismo, pelos preconceitos e intolerância existentes neste mundo tocado pela pluralidade de ideias.

  

Episódios surrealistas


“Algumas bizarrias destes confusos tempos são
mais surrealistas que as telas de Salvador Dali.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Vereadores de Belo Horizonte reavivaram recentemente uma versão, com toque bem sofisticado, do “curral eleitoral” dos tempos do voto na base do “bico de pena” ou da “marmita de cédulas”. Mode evitar eventuais deserções de última hora, que pudessem prejudicar o triunfo, tido como “favas contadas”, no pleito para a composição da mesa dirigente da Câmara, os edis comprometidos com a chapa apoiada pelo Executivo foram confinados num hotel confortável, cumulados de mordomias, até a hora de depositar os votos nas urnas. O esquema funcionou a pleno contento e apresentou, além da vantagem comparativa das comodidades oferecidas aos eleitores, um outro diferencial com relação aos “currais” de antanho. O eleitor confinado sabia de antemão dos nomes a serem sufragados. No passado, as coisas não corriam bem assim. Os votantes agrupados em “currais” desconheciam, quase sempre, as pessoas para as quais seriam destinados os votos. Se alguém, dentre eles, se aventurasse a indagar pelos nomes dos personagens a serem votados, ouviria como resposta dos encarregados em manter o “moral” da turma concentrada nos “currais”, protegendo-a de malsãs influências externas, o seguinte: - “Mas como é que a gente vai saber dos nomes, se o voto é secreto?”

“Mico” atrás de “mico” A histeria de talibãs tupiniquins continua gerando o que, no popular, é considerado “pagar mico”. Em Goiás, cidadão investido da condição de procurador revelou-se possesso ao tomar conhecimento de que o governo brasileiro estaria enviando jovens à Venezuela para receberem treinamento em prol da incendiária proposta da tal “revolução bolivariana”. Pediu em altos brados a instauração de rigoroso inquérito contra a União, exigindo do Itamaraty as explicações devidas face à gravíssima denúncia. Pouco depois de toda sua frenética movimentação, ficou sabendo que a “exportação” dos jovens mencionada pela fonte em que se louvou para fazer as veementes denúncias dizia respeito a uma região de Sucre denominada “Brasil”, e não ao país do mesmo nome. País onde vive, trabalha e desfruta de liberdade para cometer toda sorte de asneiras. Pelo que consta, o referido cidadão se recusa, até aqui, a estender a mão à palmatória, mode retratar-se da vexação.

Já esta outra aqui, também militante de falange radical, vereadora carioca, achou por bem usar da tribuna para desancar colegas “comprometidos” com o tal “movimento bolivariano”, seja lá o que isso signifique, centrando incandescentes críticas no bigodudo presidente da Venezuela Nicolás Maduro. Toda explosão retórica teve como fulcro manifestação simpática de companheiros no parlamento à figura do lendário Chaves, personagem da televisão, recentemente falecido. O “carlitiano” artista mexicano foi confundido pela raiventa parlamentar com outro Chaves famoso.  Hugo, ex-presidente venezuelano, também já desencarnado.

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...