quinta-feira, 26 de maio de 2011

O jeito é descascar o pepino

Cesar Vanucci *

“O pepino tem mil e uma utilidades.”
(Jane Ribeiro, psicóloga)

Deparei-me na Índia, cujas ruas são carregadas de excitantes novidades, com um hábito singular: o consumo em alta escala de pepino pela gente do povo. O produto fica exposto em banquetas providas de vasilha de sal, atraindo levas de consumidores. É distribuído por vendedores ambulantes. O freguês pega o pepino, adiciona uma pitada de sal e se manda rua afora a mastigá-lo.

Dá pra deduzir, naturalmente, da repetitiva e prosaica cena, que a milenar cultura indiana reconhece nessa hortaliça fruto um composto alimentar de nutrientes substanciosos para combater as deficiências alimentares crônicas enfrentadas por parcelas ponderáveis da população. Andei falando disso com amigos. Um deles, Jane Ribeiro, leitora destas mal traçadas, desenvolta navegadora nas caudalosas ondas da internet, acabou descobrindo interessante texto sobre as propriedades do pepino, abonando de certa forma a impressão que recolhi.

Repasso as informações, com ligeiras adaptações, aos que me concedem a honra da leitura.

Ÿ Pepinos contêm a maioria das vitaminas de que carecemos: B1, B2, B3, B5, B6, C. E mais: ácido fólico, cálcio, ferro, magnésio, fósforo, potássio e zinco.

Ÿ O cansaço, com a dispensa da soda cafeinada, pode ser combatido com pepino. Ótima fonte de vitaminas B e carboidratos, a leguminosa garante ''animação'' que dura horas.

Ÿ Agora, uma receita rápida e fácil para “remover” celulite, antes da ida à piscina. Esfregue uma ou duas rodelas de pepino nas áreas afetadas por alguns minutos. Os fitoquímicos do fruto hortaliça encolhem o colágeno da pele, firmando a camada de fora e reduzindo a visibilidade da celulite. Receita aplicável também em rugas.

Ÿ Pra evitar ressaca ou dor de cabeça, nada melhor do que ingerir fatias de pepino antes de cair no sono. Ao acordar, neca de dor ou de ressaca. O açúcar, a vitamina B e os eletrólitos do produto repõem os nutrientes essenciais que o corpo perde, mantendo o desejável equilíbrio orgânico.

Ÿ Pepinos têm sido usados, por centenas de anos, em muitos lugares do mundo, como rápida e nutritiva refeição. Muita gente na Índia, não é de hoje, acredita na sua eficácia para combater a fome.

Ÿ Cansado e estressado, o cidadão não encontra tempo para uma massagem ou visita à sauna? Aconselha-se, no caso, que corte um pepino inteiro, colocando-o em uma panela de água fervente. Os químicos e nutrientes reagirão com a água, soltando-se no vapor e criando relaxante aroma, eficiente no combate à fadiga.

Ÿ Receita para depois da refeição. Tome uma fatia de pepino e a esprema no céu da boca com a língua, por 30 segundos. Os fitoquímicos liberados eliminarão as bactérias responsáveis pelo mau hálito.

Ÿ Eis aqui um processo ''verde'' para limpeza de torneiras, pias ou aço inoxidável. Esfregue uma fatia de pepino na superfície que se deseja limpar. Isto não só removerá anos de zinabre, como trará de volta o brilho. Não deixa marcas, não mancha, nem prejudica as unhas e as mãos.

Ÿ Usando a caneta, cometeu um erro? Tome a casca do pepino (o lado de fora). Aplique-a, bem devagarzinho, para desmanchar a marca. O processo também funciona bem em borrões deixados nas paredes.

Ÿ Pra desembaçamento do espelho do banheiro após o banho nada como o pepino. Esfregue uma rodela no espelho. A “neblina” é eliminada. Do ponto trabalhado exala-se tenra fragrância, própria de SPA.

Ÿ Lesmas e caramujos estão atacando as plantas? Coloque rodelas de pepino num pequeno prato, ou forma de lata (não de ferro, nem de alumínio), na horta ou no jardim. Os insetos bater-se-ão em retirada.

Ÿ Você não dispõe de tempo para engraxar sapatos? Esfregue uma fatia fresca de pepino sobre o calçado. Os elementos químicos assegurarão rápido e durável brilho.

Ÿ Sabe aquele barulhinho de porta rangendo? Pegue um pedaço de pepino e esfregue-o no ponto barulhento. Pronto, o rangido se foi!

E, por último, veja só as vantagens do suco de pepino. O pepino é um ótimo tônico para o fígado, rins, vesícula. Dá força aos cabelos e unhas, pelo seu alto teor de sílica e flúor. O suco é recomendado nas inflamações do tubo digestivo e bexiga. Tem ação purificante e serve para eliminar a gordura da pele. Deve ser consumido sempre com casca (bem lavado). Na casca, existem substâncias que favorecem a digestão. Diurético natural, é de grande ajuda na dissolução de cálculos renais. Rico em potássio e reconhecido como o "mineral da juventude", proporciona flexibilidade aos músculos e elasticidade às células da pele. Isso concorre para o rejuvenescimento da epiderme e do rosto.
Não será o caso, à vista desse tantão de informações, de mandar preparar, rápido e rasteiro, um suquinho de pepino?


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)
Ciber Guerra à vista

Cesar Vanucci *

“A guerra cibernética já começou.”
(Iain Lobban, diretor da agência
britânica de espionagem em comunicações)

A impressão geral dominante em tudo quanto é canto deste mundo do bom Deus onde o diabo costuma fincar seus enclaves é de que a bomba nuclear, com a tecnologia dos tempos de agora, constitui o mais poderoso instrumento bélico concebido pela insânia humana. Capaz, por essa irretorquível razão, de aniquilar, numa guerra de proporções universais, todos os vestígios de vida existentes. Os integrantes do chamado “clube atômico”, que congrega hoje declaradamente nove países – Estados Unidos, China, Rússia, Inglaterra, França, Israel, Índia, Paquistão e Coréia do Norte – dispõem de condições, a serem levados em conta os engenhos estocados, para devastar não uma vez apenas, mas dezenas de vezes, se isso tivesse alguma lógica, esta ilhota solta no oceano cósmico destinada a abrigar a turbulenta espécie do “homo sapiens”.

As superpotências bem que se esforçam, utilizando caudalosa retórica, por evitar, por meios variados acenando com sua força de persuasão, a proliferação dos arsenais atômicos. Mas, volta e meia, se vêem confrontadas pelas atitudes rebeldes de um que outro país inconformado com a exclusividade que, de certo modo, resolveram se atribuir no acesso à tecnologia nuclear. Nalguns casos, até mesmo levantando óbices a quem se disponha a utilizá-la para fins estritamente pacíficos. Como no exemplo bem configurado do Brasil. A restrição levantada com relação a alguns países, de modo a impedir possam vir a adquirir carteira de sócio no clube, bem assimilada na consciência coletiva por óbvios argumentos, é alvo por vezes de questionamentos. Questionamentos, por sinal bastante compreensíveis no caso de quem, convictamente, abomine as contendas bélicas e aposte, com sinceridade, no diálogo como caminho direto e eficaz para a solução de pendências na convivência entre nações.

Afinal de contas, as grandes potencias desmentem clamorosamente, cada hora, com atos despropositados, a boa intenção que arrotam quanto a ser firme e constante seu empenho na contenção da corrida armamentista nuclear. Fazem de conta, pro resto do mundo ver, por meio de tratados fajutos, com pródiga divulgação na midia, que irão reduzir em breve os colossais estoques letais. Mas tudo acaba, no duro mesmo, desaguando numa solene impostura. A capacidade de devastação planetária de cada qual permanece inalterada. E nem fica fora de propósito conceber esteja sendo sempre ampliada.

Dizíamos, na introdução, que um conflito nuclear é enxergado, hipoteticamente, como a mais arrasadora das guerras. Mas já começam a surgir controvérsias a respeito dessa tese. Tomando conhecimento de algumas revoluções tecnológicas incorporadas nos últimos decênios às atividades humanas, passo a conceber a teoria de que, bem provavelmente, já existam engenhos de destruição ainda mais aniquilantes. As fabulosas conquistas técnicas dos tempos modernos podem ser a origem, o que já é admitido por qualificados cientistas, de um “apocalipse cibernético”. Como a própria expressão sugere, o cenário dessa “ciber guerra” em potencial é simplesmente aterrorizante. Suponhamos que países em confronto declarado resolvam, subitamente, colocar em execução planos de ataques cibernéticos com vistas a provocar um apagão geral definitivo em tudo quanto seja operado por via eletrônica. De uma hora para outra, irrompe um apagão nunca, jamais, em tempo algum visto. Apagão das redes de distribuição de energia. Apagão que decrete a paralisação instantânea de todas as unidades operacionais do sistema financeiro, com a eliminação de qualquer tipo de registro. Apagão que implique no colapso dos esquemas de transporte aéreo, ferroviário e rodoviário. Em engarrafamentos de trânsito urbano enlouquecedores. No desabastecimento total de produtos essenciais, com saques de lojas e residências dominando em sequência tenebrosa as ruas. Os ataques cibernéticos poderiam abranger também, seguindo essa linha catastrófica, ordens de comando a equipamentos eletrônicos objetivando o superaquecimento, com danos irreparáveis, das máquinas, além de incêndios incontroláveis.

A propósito de perspectivas tão apavorantes, Ian Lobban, diretor do “Government Communications Headquarters”, agência britânica de espionagem em comunicações, emitiu recentemente uma declaração por demais elucidativa. A “guerra cibernética”, diz ele, já começou. “Vários países já estão utilizando técnicas de guerra cibernética para lançar ataques uns contra os outros, a fim de criar pressão diplomática ou econômica”, enfatizou, clamando que seja feito, com urgência,  um hercúleo esforço internacional em favor da implantação de “normas corretas de comportamento no ciberespaço para os Estados responsáveis”.



Voltando à “Ciber Guerra”


“O ciberespaço é disputado, hoje,
pelas nações, a cada hora, a cada dia,
 a cada minuto, a cada segundo.”
(Iain Lobban, (chefe do Serviço de
Espionagem do Reino Unido)

Um autor estadunidense sustenta em livro recentemente lançado que alguns países já se envolveram em ataques cibernéticos bem sucedidos. Não se trata de  alguém destituído de conhecimento de causa. Richard Clarke ocupou posição de alta relevância no combate ao terrorismo, como consultor na Casa Branca dos presidentes Clinton e Bush. O título de seu livro, “Ciber Guerra – A próxima ameaça à segurança nacional e o que fazer diante dela”, provoca muitas reflexões.

Ele garante que a China já montou, com seus melhores cérebros científicos, um complexo sistema para desenvolver ações ofensivas e defensivas nessa matéria. A Rússia, assevera, também se aparelhou nesse campo e empreendeu, com êxito, agressões às redes de computadores da Estônia e da Geórgia. Clarke cala-se, com o indisfarçável intuito de não expor segredos de Estado, sobre a atuação de seu próprio país. Mas o que não falta são evidências de que os Estados Unidos mantêm-se na vanguarda em ações desse gênero, já tendo promovido ataques cibernéticos bem sucedidos às redes de computadores de nações consideradas hostis.

Até aqui, o que vem acontecendo são batalhas cibernéticas esporádicas. Uma guerra cibernética total produziria catástrofe inimaginável. Os detentores da tecnologia capaz de desencadeá-la, membros, todos eles, do chamado “clube atômico”, fixam limites que não cogitam, à primeira vista, transpor, pela mesmíssima razão que, depois de Hiroshima e Nagazaki, não se dispuseram também a lançar artefatos nucleares em conflitos dos quais hajam participado. O receio de represálias fulminantes tem peso considerável numa decisão desse gênero.

Iain Lobban, chefe britânico de espionagem na área de comunicação, revela que “o ciberespaço é disputado, hoje, pelas nações, a cada hora, a cada dia, a cada minuto, a cada segundo.” Embora a Internet tenha reduzido “as barreiras de acesso ao jogo da espionagem”, a expansão contínua das redes potencializa os riscos de perturbações à infraestrutura dos serviços essenciais. Por exemplo, a infraestrutura das usinas de energia, do sistema financeiro e por ai vai. “A ameaça é real e digna de atenção”, afiança. Lobban, tanto quanto Richard Clarke, sabe bem do que se trata. A agência para a qual presta serviços no Reino Unido coordena gigantesca operação global de escuta. Algo semelhante, provavelmente em proporções menores, àquela que os Estados Unidos sabidamente montaram, conhecida pela denominação de “Projeto Echelon”.

Tais operações cuidam, com o emprego de satélites sofisticados e outros instrumentos eletrônicos avançados, da decifração de códigos e da coleta de informações em escala universal. Os sistemas conferem palpitante atualidade às previsões de Aldous Huxley, no “Admirável Mundo Novo”, onde nos deparamos com a projeção de arrepiante cenário em que as ações cotidianas do ser humano passam a ser controladas, o tempo todo, por engenhocas tecnológicas acionadas pelo “Grande Irmão.”

As operações dos “hackers” e as invasões de redes pelos assim chamados “cibercriminosos”, com suas táticas cada vez mais sofisticadas, podem ser interpretadas, neste instigante contexto, como meras escaramuças bélicas. Escaramuças que só fazem antecipar a ameaça da guerra cibernética. Uma guerra que pode, hipoteticamente – Deus livre e guarde – ser desfechada, contra os interesses da humanidade, não apenas pela ganância por poder deste ou daquele país, mas também, nestes tempos de convulsão sob múltiplas formas, por grupos terroristas interessados em estabelecer o caos.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

quinta-feira, 19 de maio de 2011

A eliminação do terrorista nº 1


Cesar Vanucci *


“A justiça foi feita!”
(Presidente Barack Obama)

A eliminação de Osama Bin Laden, numa ação militar fulminante, provocou compreensível euforia cívica, com certo sabor de desforra, misturada com um sentimento de relativo alívio no seio da sociedade norte-americana. Afinal de contas, a caçada de muitos anos ao feroz dirigente da sinistra Al Qaeda foi encarada sempre como questão prioritária por parte das autoridades governamentais do mais poderoso país do mundo, no combate ao terrorismo.

Os pormenores da operação, executada com impressionante eficiência e precisão, liberados em meio às celebrações, deixaram uma pá de interrogações em suspenso. Enigmas que, mais pra frente, quem sabe, acabarão sendo devidamente decifrados.

Bin Laden foi executado sumariamente ou foi conduzido a prisão para interrogatórios? Seu corpo foi atirado ao mar? Como explicar o fato de elemento tão influente nas aguerridas hostes terroristas não dispor de qualquer segurança armada para fazer frente a um eventual ataque adversário? Sua segurança era garantida por militares paquistaneses, incompreensivelmente ausentes dos postos de vigilância à hora da chegada da força especial americana? O Paquistão, os militares desse “confiável aliado”, responsáveis pela guarda de respeitável arsenal atômico, qual será mesmo a deles nessa colossal encrenca? As perguntas se amontoam. Sem respostas satisfatórias, por enquanto.

O que se tem mesmo como certo, por agora, é que a morte do “inimigo público nº 1” não significará, inapelavelmente, o fim (tão almejado) das ações desencadeadas pelo terror. As falanges fundamentalistas radicais que atendiam à voz de comando de Bin Laden permanecem com as estruturas intactas. Aglutinam – tudo leva a crer – outras fanáticas lideranças. Pessoal firmemente propenso a dar continuidade a incendiários projetos.

Contam também para a consecução de seus pérfidos desígnios – e nisso aí se descortina cruel paradoxo - com a contribuição inestimável de insuspeitados parceiros. Um complexo político poderoso que um filósofo norueguês radicado nos EUA, Jon Elster, rotula de “força civilizadora da hipocrisia”. Que outra coisa não aponta senão os tortuosos caminhos (e descaminhos) geopolíticos percorridos, não é de hoje, em patético relacionamento com o mundo árabe, pode-se dizer islâmico, pelas potências ocidentais, os Estados Unidos em incontrastável primazia no cenário.

A localização do refúgio (com certeira certeza um dos numerosos refúgios) de Bin Laden naquela mansão da zona urbana de uma cidade populosa, a curta distância de importante base militar, a poucos quilômetros da sede do governo paquistanês, apresentado na estranha retórica oficial como poderoso e decisivo aliado norte-americano na ofensiva contra o terrorismo, é um dado revelador a mais (de eloquente contundência) de que o comportamento ocidental no relacionamento com o universo árabe anda clamando por urgente reconsideração. O que é dito em comunicados, o que se alardeia na propaganda disseminada por uma mídia cúmplice, complacente, não se coaduna, jeito maneira, com a estarrecedora realidade dos fatos. A prevalência de interesses econômicos estratégicos (com destaque para a ganância pelo controle da exploração petrolífera) nos pactos políticos firmados com reconhecidos déspotas árabes, coloca-se em flagrante colisão com a apregoada disposição de incremento das práticas democráticas na região. Esse jogo de maquiavélicas conveniências, carregado de artimanhas, dissimulações, equívocos, faz-de-conta, não atende, está na cara, aos justos anseios e clamores das populações sob o jugo opressivo dos tiranos escalados em espúrios arranjos.

Anotem aí: a “primavera árabe”, que brotou espontaneamente nas ruas impulsionada pelo inconformismo da juventude e que ainda não rendeu os frutos democráticos almejados, poderá implacavelmente, imperdoavelmente sucumbir diante dessas marotas e incongruentes estratégias geopolíticas. O combate eficaz ao brutal e anacrônico complô terrorista, ninguém se iluda, há que passar indesviavelmente pela total reformulação do esquema de atuação, desastrado e hipócrita, levado a cabo pelas potências ocidentais no conturbado cenário árabe.



Aliado “confiável”


“A política pode arruinar o caráter.”
(Bismarck)

Os finados Osama Bin Laden e Sadan Hussein, tal como Mubarack, Kaddafi, Idi Amin Dada e outros menos votados, tiveram também seus bons momentos de fastígio na corte, proporcionados pelas superpotências em suas sempre inextricáveis manobras geopolíticas, sobretudo em regiões onde o petróleo costuma, por coincidência, jorrar com abundância. Um e outro dispuseram, nos períodos em que desempenharam as funções de “aliados confiáveis”, de todo o aparato logístico necessário para estruturar aguerridas forças políticas e militares.

O ex-dirigente supremo da sinistra Al Qaeda, príncipe da casa real saudita, desfrutou por bom tempo das regalias atribuídas a um “leal combatente” da causa da liberdade. Jogaram-lhe nas mãos recursos ilimitados para sustentar a guerra contra os invasores russos no eternamente convulsionado Afeganistão.

O tratamento a pão de ló que lhe foi concedido nessa época – os de boa memória hão de se lembrar – rendeu louvações em verso e prosa na mídia (com direito até a filmes de grande bilheteria) aos feitos heróicos de seus comandados. Os chamados “mujahedeens”, que outros não eram senão os notórios guerreiros terroristas das mundialmente conhecidas milícias talebãs. A tevê costuma projetar, com freqüência, nas constantes “super estréias” das fitas de sempre, um filme estrelado pelo Silvester Stalone, onde o feroz Rambo aniquila, com a habitual competência, os inimigos da ordem democrática, no caso específico soldados russos. O imbatível herói conta alí com decisiva ajuda dos milicianos talebãs, impertérritos defensores das liberdades e dos direitos humanos, na elogiável empreitada em prol da reinstauração da democracia no território afegão... Taí interessante amostra dos contrassensos históricos colossais que movem as pedras no xadrez político internacional. São equívocos e contradições do gênero que vêm assegurando a permanência no poder, como se está a ver agora mais nitidamente, desses personagens assustadores colocados na alça de mira das multidões árabes que, nas ruas, declaram-se neste momento ávidas por mudanças.

O resultado de toda essa “melódia” sabemos bem todos qual acabou sendo. Assim que os invasores russos deixaram o solo afegão, a criatura (leia-se Bin Laden) resolveu voltar-se contra o criador. Danou a aprontar horrores. As falanges fanáticas sob sua liderança compuseram atemorizante rede terrorista. Espalharam os tentáculos por tudo quanto é canto, alterando pra sempre os relacionamentos na esfera internacional. Apontado como inimigo público nº 1, cabeça a prêmio, detentor de currículo sanguinário, Bin Laden não se defrontava com dificuldades, incompreensivelmente, nos deslocamentos pelas regiões onde ditava suas palavras de ordem aos tresloucados seguidores. E pelos territórios dos países vizinhos.

Bastante fortes eram os indícios de que recebia apoio permanente de setores supostamente comprometidos com a gigantesca e dispendiosa operação político-militar articulada com o fito de localizar-lhe o paradeiro e desbaratar as forças que conseguia arregimentar. As dificuldades encontradas em sua captura alimentavam graves suspeitas. A ação que acabou resultando em sua retirada de cena comprovou a procedência das suspeitas.

As complicadas maquinações geopolíticas em que se acham enredadas as superpotências, apostando obsessivamente em alianças nada confiáveis no mundo árabe, tornam a interpretação das coisas bastante difícil. Bin Laden prova isso. E quanto a Sadan Hussein? História um tanto quanto parecida com a de Bin Laden. Tema pra próximo capítulo.


Outro aliado “confiável”


“Uma das fontes da política externa é a perversidade”
(Voltaire)

E quanto a Sadan Hussein? Esta indagação arrematou o comentário anterior, onde lançamos algumas informações concernentes às espúrias alianças que as superpotências, com suas alopradas estratégias geopolíticas, destituídas de preocupações éticas, na base do vale-tudo, têm estabelecido, ao longo dos tempos, nas convulsionadas paragens árabes. Ocupamo-nos nas considerações alinhadas de um sinistro personagem, Osama Bin Laden, alguém que, por longo período, desfrutou das boas graças de seus arquiinimigos.

Sadan, antigo senhor feudal do Iraque, também protagonizou, por longo período, em intrigante enredo, o reluzente papel de valoroso “combatente da causa da liberdade”. Cumpriu, parece que satisfatoriamente, a missão que se lhe atribuíram. Para executá-la recebeu todo apoio logístico requerido. Sustentou uma guerra demorada com o vizinho Irã na tentativa de conter as ameaças expansionistas da revolução islâmica patrocinada pelos aitolás raivosos e fanáticos seguidores. Sem que ficasse exposto na ocasião, como merecido, por omissão da mídia, aos holofotes da opinião pública mundial pelas felonias cometidas, usou os armamentos que lhe foram dados para dizimar também adversários no plano doméstico. Apagou de seus domínios qualquer tênue traço de oposição. A paranóia em torno da segurança interna montada em seu governo era de tal ordem que uma simples máquina de escrever manual ou um mero mimeógrafo, peças hoje recolhidas ao museu das invenções, eram considerados provas arrasadoras no enfrentamento pelas forças de segurança de ações subversivas contra o Estado constituído. Como as ditaduras de todos os matizes se parecem, Santo Deus!

Houve um instante, porém, em que Sadan Hussein - talqualmente ocorreu com Osama Bin Laden, com Idi Amin Dada - resolveu, como se diz no popular, trocar de lado. Deu no que deu... Avançou estrepitosamente o sinal no Kuwait, tentando anexá-lo ao Iraque. Topou pela frente poderosa coalizão de forças dos antigos aliados. Atraiu, de quebra, o repúdio da opinião pública. Viu-se naturalmente obrigado a retroceder.

Nessa invasão iraquiana ao Kuwait aconteceu um episódio singular, clamorosamente desprezado pela grande mídia. Vale a pena rememorá-lo, uma vez que ilustra com adequação a natureza sibilina e perversa do relacionamento desde sempre mantido pelas grandes potências com os regimes despóticos do universo árabe. Assim que as tropas de Sadan pintaram no pedaço kuwaitiano, a família real deu no pé. Carregou o que pôde de seus respeitáveis haveres, buscando refúgio na Arábia Saudita. Quem cuidou de montar, valentemente, uma linha de resistência aos invasores foram palestinos residentes no país. O esforço defensivo estabelecido retardou um tanto a marcha das tropas em direção aos poços petrolíferos. As forças da coalizão apareceram e os iraquianos tiveram que se bater em retirada.

Recuperado o controle do país, a realeza do Kuwait reempossou-se solenemente das funções. Mais do que depressa, sem conceder tempo para manifestações de simpatia popular aos palestinos combatentes, tratou de eliminá-los, na acepção mais completa da palavra. Os monarcas kuwaitianos cuidaram “prudentemente”, com o truculento recado, de proclamar sua inabalável discordância quanto à possibilidade de despontarem, eventualmente, na cena pública, aureolados ou não com fama de heróis, novos, incômodos e certamente contestadores líderes. Silêncio sepulcral baixou sobre o expurgo. Nenhum governo da coalizão que libertou o Kuwait chiou. Ninguém cobrou dos augustos soberanos explicações pela pérfida façanha. A grande mídia, a seu turno, deu preciosa demão na ocultação dos fatos. Isso aí...

É sempre assim. As coisas que rolam nesses misteriosos recantos árabes do orbe terráqueo dominados por monarquias feudais e tiranias militares e religiosas brutais e corruptas desafiam sempre a lógica comum.

Voltando a Sadan. O que sobreveio após a frustrada tentativa da anexação do Kuwait, todos conhecemos razoavelmente bem. O antigo e prestimoso aliado de Washington, que se acreditou, em desvario provocado por ambições pessoais doentias, suficientemente forte para enfrentamentos mais pesados e desafiadores, veio a ser apeado do poder, anos depois, na guerra suja, sem fim à vista, desencadeada pelo xerife George Bush com a prestimosa ajuda de seu fiel aspençada Tony Blair.

O homem forte do Iraque foi julgado, condenado e executado. Os registros históricos relacionados com esses fatos fazem parte da memória de nossos tempos.


* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sábado, 14 de maio de 2011

Laços solidários

Cesar Vanucci *


“Somos todos testemunhas oculares (...)
dos prodigiosos resultados sociais.”
(Trecho de manifestação levada a José Alencar)

Poucas ligações telefônicas bastaram. Antigos companheiros de trabalho, há tempos sem se avistarem, agarraram com entusiasmo a sugestão do encontro. Haviam integrado, anos antes, a equipe de colaboradores mais próximos do então presidente José Alencar no Sistema Fiemg.

Com as alterações ocorridas na condução das entidades da indústria, depois da revolucionária e esplendorosa gestão do grande líder empresarial, todos se achavam vinculados naquele preciso momento a outros misteres profissionais. Neles aplicavam conhecimentos, habilidades, experiências adquiridos ou aprimorados naqueles bons tempos profissionais em que atuaram juntos nos belos projetos de cunho social e desenvolvimentista comandados por JA.

O encontro marcado serviria para a reafirmação da solidariedade, nascida do respeito e admiração, que nunca deixou de existir por parte dos colaboradores em relação ao líder maior, mesmo diante das circunstâncias de não mais existirem contatos constantes com o mesmo, caso da maioria. Alencar estava saindo candidato a Vice na chapa de Lula. Os colaboradores diretos de sua administração na Fiemg, nenhum deles com militância político-partidária, fizeram questão fechada, em rápida troca de idéias, de procurá-lo para externar - como já haviam feito quando se candidatou ao governo do Estado – vibrante apoio. Sabiam perfeitamente do alcance restrito da proposta de ajuda do grupo, mas propunham-se a executar algum trabalho em seu campo de ação pessoal. Traduziram tal disposição num texto, cuja cópia conservei, que atraiu, ainda, em poucos dias, espontaneamente, centenas de assinaturas de outros companheiros das jornadas profissionais deixadas pra traz.

Este o texto: “Manifestação de apoio à candidatura de José Alencar a Vice-Presidente da República. Os signatários, seus colaboradores no período em que esteve à frente do Sistema Fiemg, registram neste documento integral e irrestrita solidariedade ao estimado chefe e grande líder, na campanha eleitoral em que se acha empenhado como companheiro de chapa do eminente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva.
Somos, todos, testemunhas oculares, por extenso período, dos prodigiosos resultados sociais alcançados mercê de sua atuação como dirigente daquele Sistema. O que foi construído em proveito dos trabalhadores e da comunidade é de enorme dimensão social. São obras a perder de vista nas áreas da educação, cultura, saúde, lazer, ensino profissional, industrialização, criação de empregos,

interiorização do desenvolvimento, associativismo no plano profissional. Estamos, à vista disso, inabalavelmente convencidos de que o ilustre Senador dará, na Vice-Presidência da República, uma contribuição valiosa, sumamente importante, à causa do bem-estar social da gente brasileira. Seus dons de liderança e capacidade empreendedora, suas qualificações intelectuais, morais e éticas, sua probidade, sensibilidade social e visão brasileira dos problemas que afligem a nossa sociedade, suas crenças cívicas e vocação inconteste para a vida pública asseguram-nos a reconfortante garantia de que, a partir destas eleições, o Brasil saberá encontrar os caminhos certos na utilização dos potenciais de crescimento com que foi aquinhoado por Deus no projeto da Criação. Até a posse!”

Mas, afinal de contas, qual a razão deste singelo registro, alusivo a uma manifestação de apoio de peso político irrelevante do ponto de vista eleitoral, considerada a magnitude do fato de que a decisão do pleito presidencial a que Alencar estava concorrendo só emergiria da manifestação maciça da vontade de dezenas de milhões?

Do registro o que conta mesmo é uma coisa incomensuravelmente mais expressiva, sob o prisma humanístico e da convivência social, do que um mero somatório de votos. O encontro dos leais colaboradores com o estimado líder valeu como reconfortante evidência de que os laços do relacionamento, por largo período de caminhadas compartilhadas, não haviam sido desfeitos com a passagem dos anos. Permaneceram indissolúveis, como casamento antigo. Incólumes aos desgastes naturais derivados da ausência de uma rotina na aproximação pessoal. A amizade e o apreço permaneceram.

Convenhamos, algo nada comum de se ver numa relação dessa natureza.

Mas, na história legendária de JA, esse exemplo raro de ligação amistosa com funcionários pode ser invocado, certeiramente, para descrever o clima de convivência dominante, também, nos outros demais ambientes profissionais e sociais em que o nosso saudoso Vice costumava circular.




Complementando uma informação



“... constato a absoluta inevitabilidade de substituição presidencial.”
(José Alencar, em pronunciamento feito na CNI)

No artigo “Destemor cívico de JA”, de dias atrás, aludi ao fato de que o então presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais foi o primeiro dirigente classista brasileiro, empresário de grande expressão, a se pronunciar favoravelmente à aplicação de medidas legais que pusessem cobro aos desmandos flagrados na administração federal, que acabaram desembocando na saída (constitucional) de Fernando Collor da Presidência da República.

Na reunião programada, naquela ocasião, pela CNI (Confederação Nacional da Indústria), com o propósito de examinar a crise constitucional que o país enfrentava e que havia levado pras ruas o inconformismo dos “caras pintadas”, Alencar disse com todas as letras, o desassombro no estilo que o celebrizou, o que pensava de tudo aquilo que estava rolando, dirigindo-se a uma platéia ansiosa por fórmulas de contemporização.

Este o pronunciamento feito e que acabou fixando, depois de acaloradas discussões das lideranças com assento no Conselho, a posição da Confederação Nacional da Indústria:

“Diante dos acontecimentos irrefutáveis que maculam a figura do Presidente da República, retirando-lhe as condições mínimas e indispensáveis ao exercício do cargo – respeitabilidade e autoridade moral -, constato a absoluta inevitabilidade da substituição presidencial.
A incapacidade de resistência do campo social, enfraquecido como nunca pelo prolongado período de inflação elevada que a nação experimenta, com recessão, desemprego e até fome, em país tão rico como o Brasil, recomenda sucessão a curtíssimo prazo, observando-se, obviamente, rigoroso respeito às bases institucionais em que se assenta o Poder Político Nacional.
Acredito que o Senhor Presidente Fernando Collor possa ainda optar pela renúncia, decisão circunstancial mais aconselhável e judiciosa. Menos dolorosa para o povo e, quem sabe, até honrosa para o Presidente. Descartada, porém, essa alternativa, prevalece a medida constitucional. O “impeachment”, absolutamente inevitável, exige apoio da sociedade.
Há um Vice-presidente eleito legitimamente, Itamar Franco.
Pelo seu passado, sua cultura, sua experiência e sua aguda sensibilidade política e social, saberá conduzir a Nação brasileira rumo ao Bem Comum. Além do mais, Itamar significa a restauração da probidade governamental.
José Alencar, Presidente da Fiemg.”

Após a reunião (Rio de Janeiro) dos dirigentes das Federações de Indústria, o presidente da CNI, Albano Franco, incumbiu Alencar de relatar o que fora decidido aos jornalistas que se acotovelavam, à espera de notícias, nas imediações da sala onde transcorreu o encontro. A ata daquela histórica reunião sintetiza em tópico sugestivo a tese ardorosamente defendida pelo presidente da Fiemg. “Do triste episódio, resta-nos o exemplo de que o país pode conviver no estado de Direito, havendo todo o processo de impeachment sido realizado com a estrita observância da Constituição e das leis, com pleno exercício do direito de defesa do presidente acusado.”

A relembrança desse episódio transporta-me a uma outra reunião, anos antes, da diretoria da Fiemg, quando a questão do comportamento governamental, bem no comecinho da administração Collor, foi objeto também de avaliações críticas. Um dos vices da casa solicitou espaço, digamos assim,”sigilento e reservoso”, nos trabalhos em andamento para uma revelação estarrecedora. Junto com outros companheiros do segmento, fora convidado a participar de encontro em São Paulo com um cidadão chamado PC Faria. O supracitado, dispensando rodeios, sem tempo pra espichar conversa, “ofereceu”, de pronto, aos atônitos convidados, seus valiosos préstimos para “apressar”, com participação percentual tá claro, a liberação de recursos devidos às empresas do setor. Após ouvir a chocante narração, José Alencar, tomado de indignação, declarou-se disposto, com a indispensável concordância dos empresários interessados, a dar publicidade a protesto com relação ao caso. O autor da denúncia apelou para que fosse levada em conta a condição de sigilo declinada no início de sua manifestação. Falaria a respeito, de qualquer maneira, com seus pares. Tanto quanto sei, não deu noticia posteriormente dos desdobramentos do assunto. O pessoal parece que optou, prudentemente, por se manter, dali pra frente, mudo e quedo que nem penedo, como se costumava dizer em tempos de outrora.



Um verdadeiro humanista



“Quem não gosta do Brasil não me interessa.”
(Gilberto Amado)

Tantas coisas ditas e tantas ainda a dizer sobre JA. Reservo-me o direito de, pra frente, voltar a registrar, atos, fatos, ditos e feitos que possam ser incorporados à saga desse personagem fascinante.

O que desejo, por agora, no arremate desta sequencia de dezessete artigos, em que me esforcei por pincelar algumas facetas de sua cintilante trajetória, é sublinhar o caráter humanístico que norteou as fecundas ações nesta sua peregrinação pela pátria terrena. Já foi falado, mas não fica demais repetir (a repetição, como atestava Napoleão, é sempre a melhor retórica): o legado deixado por Alencar servirá, com certeza, de inspiração pra muita gente.

Do povoado de Itamuri ao Palácio do Jaburu, chão a perder de vista na extenuante caminhada, o cidadão de infância humilde daquela paisagem roceira, que veio a exercer nos cenários majestosos e refinados do poder funções que tão forte influência tiveram nos destinos de seus compatriotas, soube conservar íntegros os valores e crenças adquiridos no aconchego familiar. Manteve-se fiel às raízes. Os aconselhamentos paternos valeram-lhe de farol na caminhada. “O importante na vida, meu filho, é poder voltar”, foi o que lhe disse o pai, Antônio, no dia em que o abençoou em sua partida rumo a centro maior na busca de “lugar ao sol.”

Alencar madrugou no trabalho, começando por tarefas bem modestas. À custa de invulgares talento e capacidade empreendedora, construiu, palmo a palmo, reluzente carreira. De balconista a pequeno comerciante. Na atividade industrial, despontada adiante, percorreu longo e árduo itinerário até chegar à posição de realce assumida no panorama empresarial.

A crença humanística impregnava seu comportamento. No trabalho, pontilhado de conquistas sociais enriquecedoras. No lar, construído com a ajuda inestimável e decisiva de dona Marisa, companheira resoluta, dama de acrisoladas virtudes, mulher forte na inteireza evangélica. Na vida pública inatacável, reconhecida na reverência das ruas, a partir, sobretudo, do momento em que galgou a Vice-Presidência e criou, com sua inteligência descortinadora, uma forma muito peculiar, descontraída, franca, bem humorada, de dialogar com a sociedade em torno de questões palpitantes. Na doença inclemente, em que tocou a todos com sua inabalável disposição de seguir em frente.

Alencar preencheu com atitudes e palavras, botando pra fora seu apego a valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura humana, um espaço na paisagem política que é hoje percebido pelos seus patricios como uma referência de vida, valendo de exemplo e inspiração.

Foi um compatriota que soube olhar o Brasil, o jeito de ser de sua gente, com sentimento de brasilidade. Pensava como Gilberto Amado: “Quem não gosta do Brasil não me interessa.” Sentia-se em desagrado com essas pessoas que, contemplando nossa realidade, nossas lutas e conquistas, procedem como aqueles indivíduos mórbidos pela própria natureza que, diante da magnitude do mar, só têm palavras para o enjôo, conforme a anotação crítica de Louis Pauwells.

Deixei por último uma revelação danada de intrigante, de certo modo inédita, já que nunca registrada publicamente, envolvendo uma previsão feita por Neila Alckmin a este desajeitado escriba numa manhã nevoenta de fevereiro do ano de 1990. As circunstâncias que me colocaram frente a frente com a famosa sensitiva, de saudosa memória, em Conceição do Rio Verde, foram, pra dizer o mínimo, intrigantes. Deixo para outra ocasião essa parte do relato. O que desejo sublinhar é o seguinte: Neila antecipou, surpreendentemente, num papo com duração bastante extensa, que o dirigente maior da entidade em que eu trabalhava – a Fiemg – estava vocacionado a cumprir, num futuro próximo, uma missão de notável relevo na cena pública brasileira. Lembro-me de ter-lhe indagado, na ocasião, relutando, inconscientemente, de certa maneira, em acatar seu vaticínio, por que não dera certo a previsão que fizera acerca da eleição do Afif Domingos no pleito presidencial recém-findo. Ela não demonstrou melindrar-se com a pergunta. Limitou-se a explicar que fora mal interpretada no tocante ao fato, que rendeu, como é sabido, vasto comentário crítico na época.

Depois deste encontro, antes de sua partida, falei com Neila por mais três vezes. Todas por telefone. Ela sustentou, convictamente, o que havia dito acerca do futuro papel político de Alencar na história brasileira.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Empresa, patrimônio social

Cesar Vanucci *


“Sempre tive o social como fim
e o econômico com meio.”
(José Alencar)

A primazia do interesse social, a prevalência do interesse comunitário, do interesse coletivo, digamos assim, sobre quaisquer conveniências de ordem corporativista, utilitarista, classista constituiu traço comportamental marcante na trajetória de José Alencar. De minha convivência (de vários anos na Fiemg) com esse mineiro de origem humilde do povoado de Itamuri que, à força de enorme talento e muito trabalho, ergueu o maior conglomerado têxtil do planeta e, ao inclinar-se pelos caminhos da política, tornou-se um dos homens públicos mais admirados da história brasileira, conservo bem nítidas amostras reveladoras da coerência aos princípios que pautava suas posturas e decisões.

JA definia em lapidar conceituação a missão da empresa no contexto das empreitadas humanas. Em linhas gerais, este o conceito básico que, didaticamente, costumava propagar: a empresa é patrimônio social. Pertence à comunidade por representar uma fração da economia. Micro, pequena, média ou grande, estatal ou privada, todas as empresas são frações da economia. A economia em si mesma não é fim. É meio – como meios são a tecnologia, a educação, assim por diante – para se atingir um fim. Ou seja, para se chegar à consecução dos objetivos. Sempre sociais. Para que os objetivos sociais possam ser certeiramente alcançados precisamos assegurar, nas atividades comunitárias, que a economia se mantenha próspera, forte e independente. Tal alinhamento de idéias acaba remetendo ao reconhecimento de que as frações da economia (em outras palavras, as empresas) têm que ser prósperas, fortes e independentes para que o bem estar social possa predominar no jogo da vida. Não importa o tamanho, a origem do capital, a natureza acionária, se privada, mista ou estatal, o que vale e o que pesa, antes de tudo mais, é que as empresas – repita-se – mostrem-se prósperas. Revelem-se aptas, na condução dos negócios, a produzir com qualidade e lucratividade, contribuindo como instrumento relevante no esforço orquestrado da sociedade por meio da cadeia produtiva para a consecução dos nobres objetivos sociais.

Foi em decorrência de sua conscientização social atilada e percepção humanística que JA questionou, com autoridade, já na primeira hora em que eclodiram comentários a respeito do assunto, a momentosa privatização da Usiminas. O desassombrado dirigente do Sistema Fiemg deixou claramente explícito, naquele preciso instante, um posicionamento diametralmente oposto, como não é difícil imaginar, ao da grande maioria dos companheiros das lideranças empresariais. Sobretudo daqueles muitos que, laborando incuravelmente em tremendo equívoco, não hesitam, a três por quatro, em apontar na tese da privatização sem freios e na base da pechincha uma receita providencial para todos os males econômicos e sociais existentes.

O aflorar do tema privatização neste relato me transporta, agora, escorregando pelas ladeiras da memória, a um episódio assaz instigante, ocorrido em Brasília nos começos do governo Collor. Na condição de presidente da Fiemg e vice-presidente da CNI, José Alencar foi convidado a participar de um encontro com técnicos do Bird e do Banco Mundial destinado a transmitir tintim por tintim, como era de costume dizer-se noutros tempos, a receita que havia sido utilizada na desestatização de empresas na Europa. A idéia era mostrar que o esquema poderia ser bom para o Brasil. Acompanhei-o na ocasião. Foi a reunião mais psicodélica que a crônica burocrática brasileira jamais registrou. Os participantes, dirigentes empresariais brasileiros na quase totalidade, foram saudados pelos coordenadores brasileiros – vejam só! - em inglês. Sem tradução simultânea, esclareça-se. Esse idioma foi empregado com excesso de pedantismo para introduzir o pretendido diálogo com os doutos d’além-mar. Ao depois, a palavra foi passada aos expositores. Estes expressaram-se, também, em inglês, um tanto menos em francês, com inesperados apartes, de uns para com os outros, numa língua difícil de identificar. De mim para comigo, estupefato com a inusitada situação, considerei a hipótese de tratar-se de algum dialeto falado na banda setentrional da Etiópia. Do evidente desagrado da platéia os tecnocratas brasileiros e estrangeiros, embriagados pela autossuficiência, aparentemente não se deram conta. JA não se conteve. Tomou da palavra e em duas ou três frases polidas, mas de modo incisivo e cortante, justificou a necessidade de sair tendo em vista um outro compromisso. Lembro-me de que, posteriormente, nos inevitáveis comentários críticos a respeito do surreal momento, ele deixou sentenciado que, com um começo desses, esse negócio de privatização podia acabar não dando certo...



Defesa dos interesses de Minas


“Afinal, foram 360 milhões de dólares aportados pelo Estado...”
(Trecho da carta de Jose Alencar à Fiat)


Reportamo-nos, nesta sequência de comentários, a outro palpitante lance revelador da consciência plena que o cidadão José Alencar tinha das responsabilidades sociais afetas às lideranças.

Março de 1987, dia 20. Sob o título “Federação não apóia negócio da Fiat”, o jornal “Folha de São Paulo” estampou notícia contando que a Federação das Indústrias de Minas Gerais se manifestara contrária à transação realizada entre o ex-governador Hélio Garcia e a Fiat Internacional, “pela qual o Estado trocaria sua participação de 18,7% no capital da fábrica mineira da empresa por 49,1% das ações da “Betim Participações” – uma nova indústria de autopeças, a ser instalada pelo grupo italiano em Minas.” Chamado a opinar, José Alencar, presidente em exercício da Fiemg (substituía Nansen Araújo nas funções, temporariamente), havia afirmado, sem tergiversações, que “uma transação de tal interesse para o Estado teria que ser melhor discutida.” Pedia, ao mesmo tempo, à Fiat que revisse o acordo, “em retribuição aos favores de todo tipo que já recebeu do governo mineiro.”

A alta direção da empresa, na mesma data, encaminhou oficio à Fiemg, num tom meio chegado ao insolente, pedindo “confirmação ou negação da declaração”. Na primeira hipótese (confirmação), solicitava fosse considerada “plena e totalmente desvinculada da entidade, bem como de suas comissões todos os representantes da empresa.” “Na segunda hipótese, que imaginamos ser a verdadeira – assinalava o oficio -, manifestamos nossa firme vontade de ver desmentida a declaração no mesmo órgão de imprensa (...).”

A resposta dada por José Alencar foi simplesmente impecável. Bem ao seu estilo. Os pingos devidamente colocados nos iis. Polida, mas incisiva. Cortez, serena, mas altiva e definitiva. Enfatizando que a convivência da Fiemg com a empresa “engrandece a crônica de nossas lutas em favor de Minas”, registrou que, ufanos da grande conquista industrial representada pela Fiat, os mineiros sentiam-se sócios da empresa, “donos de quase a metade do colossal empreendimento.” Lembrou que, pelas tratativas iniciais, “seu Presidente seria um mineiro, o que vale dizer o mandatário maior era um representante da sociedade mineira. E por aí afora.”

Mais adiante: “Esse entendimento (...) confere sentido à declaração que tivemos oportunidade de dar (...), quando procurado pela repórter, (...) e que mereceu comentários impróprios, tendo em vista o nível em que sempre se posicionou a nossa convivência, na carta que nos encaminhou. Na referida matéria, justificamos a necessidade de que a transação ocorrida, de tão grande interesse para o Estado, teria que ser melhor discutida e que seria perfeitamente razoável esperar-se da Fiat uma reavaliação do assunto face ao que o seu parceiro no grande empreendimento, o povo de Minas, representado pelo Governo, canalizou em recursos para que o projeto se implantasse e pudesse se tornar vitorioso. Afinal, foram 360 milhões de dólares aportados pelo Estado, que buscou recursos no exterior, pagando juros e “spreads” durante estes últimos 10 ou 12 anos de existência da operação. Provavelmente, o valor aportado signifique hoje soma superior ao valor da dívida externa mineira, estimada em 800 milhões de dólares.”

Dizendo ainda não existir “a mais leve razão para que nos sintamos na condição de estar a praticar agravos contra a respeitabilidade da empresa como se procura fazer crer na correspondência”, JA reiterou, no oficio de resposta, a necessidade de um debate aprofundado em torno do assunto. “A fuga ao debate – pontuou - significa o desconhecimento de regras comezinhas dentro da convivência democrática.” Arrematou as considerações frisando que “o nosso propósito, ontem, hoje e sempre, em relação à Fiat, permanece inalterado. A prosperidade sempre crescente da empresa é importante. A participação da sociedade mineira nos resultados econômicos e sociais que derivam dessa prosperidade é também muito importante.”

O desfecho de toda a história ficou por conta da magistral argumentação de Alencar. O relacionamento da Fiemg com a empresa não sofreu abalo. Manteve-se incólume, em termos de “alvissareira aliança”, tal como JA expressou na manifestação.



Ditos e feitos


“Sempre tive o social como fim.”
(José Alencar Gomes da Silva)


A citação repetitivamente de frases sugestivas atribuídas a personagens que frequentam com desenvoltura a cena pública traduz, em várias situações, o apreço e carinho que os circundam no relacionamento com a comunidade, com a sua gente. A sabedoria provinda dos livros, das experiências existenciais acumuladas, ou da interpretação serena e propositiva dos acontecimentos do dia-a-dia; as circunstâncias marcantes de uma vida pautada pela constante redescoberta de valores essenciais à boa convivência concorrem para que exista “uma arte da citação”, mencionada por Valery Larbaud.

A “arte da citação” pode ser, na verdade, descrita como uma propagação de idéias que convocam as pessoas à reflexão. Como uma divulgação de estimulantes receitas de vida. Verdadeiras lições de conduta pessoal, coragem, dignidade, exercício de cidadania, enfim.

Em sua caminhada pela vida pública, José Alencar disparou um colosso de frases que acabaram ganhando notoriedade no período em que ocupou a vice-presidência, sobretudo, na dramática quadra em que enfrentou, com estoicismo e bravura raros de se ver, a doença inclemente que o arrebatou ao nosso convívio. As frases deixadas ajudam a compor muito bem seu perfil humano. No caso, os ditos correspondem aos feitos. Vale a pena registrá-los.

Vida e morte
Ÿ “Se Deus quiser me levar, ele não precisa de câncer para isso. E se ele não quiser que eu vá, não há câncer que me leve.”

Ÿ “Não tenho medo da morte. Da desonra sim. O homem público que perde condição moral, mesmo em vida, pode se considerar morto. Ao passo que aquele que procede corretamente, mesmo depois de morto, continua vivo.”

Ÿ “Que seja feita a vontade de Deus em qualquer circunstância.”

Ÿ “A vida que não passamos em revista não vale a pena ser vivida.”

Ÿ “A vida é realmente uma luta. A vida para qualquer um de nós não tem apenas vargem, não. Tem curvas, morro, atoleiro, tem de tudo. Mas vamos lutando.”

Ÿ “O homem deve viver preparado para morrer a qualquer instante. E deve proceder como se não fosse morrer nunca.”

Ÿ “É triste não poder oferecer aos brasileiros o que eu recebi.”

Ÿ “Vamos lá, gente, temos muita coisa para fazer.” (Conclamação à equipe médica no momento da chegada à sala de cirurgia, por ocasião de uma das intervenções médicas a que foi submetido).

Sentido da vida
Ÿ “A gente vai compreendendo a verdadeira dimensão das coisas. E passa a encarar a vida com um pouco mais de humildade, de amor ao próximo. Isso tem me ajudado.”

Humildade
Ÿ “O câncer me ensinou a ser mais humilde. A todo momento peço a Deus para me conceder  graça da humildade.”

Primazia social
Ÿ “Sempre tive o social como fim e o econômico como meio. Você quer uma economia próspera, forte, independente para quê? Para que se alcancem os objetivos sociais, que culminam no bem comum.”

Política
Ÿ “Eu e Lula somos muito ligados. Até do ponto de vista espiritual.”

Ÿ “O Poder Executivo às vezes isola a gente. No Senado, não. Você tem contato com representantes dos Estados e sabe tudo o que acontece no país.” (Manifestação feita durante visita aos ex-colegas de Senado, no final do primeiro ano de governo)

Ÿ “Assim, o Lula é meu aliado, um aliado que é líder sindical e representante dos trabalhadores, enquanto eu sou um líder sindical e representante dos empregadores.” (Defendendo a importante aliança política que o povo consagrou nas urnas por duas vezes)

Juros
Ÿ “O governo adota uma política monetária de taxa de juros elevados para combater a inflação quando grande parte dela é inflação administrada.”

Ÿ “A taxa básica média real dos 40 países que têm bancos centrais e de 0,9% ao ano. Se a nossa está em 7%, ela é de sete a oito vezes maior do que a taxa básica média real do mundo. Isso é um despropósito.”

Diplomas
Ÿ “O único diploma que tenho é de aluno emérito. Ganhei da escola onde fiz o primeiro ano ginasial, depois de me tornar empresário.”

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...