sexta-feira, 21 de outubro de 2016


O medo nosso de cada dia


Cesar Vanucci

“A cada dia, a cada hora, a gente
aprende uma qualidade nova de medo”.
(Guimarães Rosa)

Uma era, como a atual, favorecida por conquistas tecnológicas esplendorosas e por solenes compromissos nascidos do consenso universal em torno da propagação dos direitos fundamentais, teria tudo para fazer deste maltratado planeta azul uma morada privilegiada em termos de bem-estar social e de convivência amorável e venturosa. Mas isso, desafortunadamente, não acontece. Tudo por culpa das armadilhas traiçoeiras, ciladas perversas e dos ardis inesperados engendrados pela prepotência, obscurantismo, arrogância, egoísmo e insanidade de setores muito bem identificados, com poderes decisórios sobre os rumos das engrenagens comunitárias.

As utopias positivas que jorram dos corações dos homens e mulheres de boa-vontade acenam com transformações comportamentais garantidoras de relacionamentos entre nações e indivíduos consentâneos com a dignidade humana. Elas tropeçam, todavia, a cada instante, em reações que outros propósitos não descortinam senão o retardar da evolução do processo civilizatório. Todos nos damos plena conta disso. A poderosa e extensa fileira das articulações nefastas contínuas contra as generosas aspirações humanas focadas no desenvolvimento espiritual e material é acrescida, volta e meia, de lances insensatos e cruéis elevados ao paroxismo.

O noticiário nosso de cada dia – sabe-se lá por que cargas d’água!  – não se ocupou de uma candente e momentosa questão com o destaque crítico que ela faz por merecer. Assustadora, muito assustadora, a revelação trazida a lume, indoutrodia. Encaixa-se, com perfeita adequação naquilo que Guimarães Rosa proclama: “A cada dia, a cada hora, a gente aprende uma qualidade nova de medo”. No caso em foco, tenebroso fruto de jogo de conveniências espúrias do Governo dos Estados Unidos com uma multinacional de comunicação na tecnologia de ponta, o medo vem associado – pasmo dos pasmos! – ao eficiente e complexo sistema de comunicação que, bilhões de vezes ao dia, proporciona a avalancha de mensagens telefônicas e registros eletrônicos que a rede mundial de computadores põe pra correr o mundo de ponta a ponta.

A agência “Reuters”, exibindo convincente material probatório, acaba de dar ciência à sociedade humana, debaixo de compreensível estupor, que a agência de espionagem NSA e a empresa “Yahoo!”, conluiadas, adaptaram programas para favorecer uma ampla, geral e irrestrita bisbilhotagem das mensagens aglutinadas nas caixas de entradas de mais de meio bilhão de clientes. O sórdido esquema de xeretagem montado abre espaço aos arapongas da NSA para que vasculhem, de cabo a rabo, a torto e a direito, todo o conteúdo das manifestações feitas pelos desavisados usuários.

Não fica fora de propósito, por conseguinte, imaginar que neste preciso momento, compenetrados agentes especializados em contraespionagem, numa repartição qualquer daquele vigilante órgão oficial estadunidense, estejam concentrados na tentativa de decifrar o significado oculto de um recado que dona Sulamita Hallal, moradora em Santana do Jacaré, libanesa, dama de peregrinas virtudes, doceira de mão cheia, encaminhou ao filho Jamil, residente em Ann Arbor, Michigan, falando de coisas do trivial variado familiar. Esposa de Chafir Hallal, sírio, comerciante de secos e molhados, Sulamita recomenda zelosamente a Jamilinho que, em sua próxima visita a Nova Iorque, pra conhecer a Estátua da Liberdade, não se esqueça, por causa do clima invernoso, de levar o felpudo capote coreano, tecido com lã paquistanesa que ela adquiriu “para o filhinho querido” quando de recente peregrinação ao Egito para um retiro espiritual na mesquita central do Cairo. Atenta ainda à circunstância de o filho estar cursando escola de gastronomia no Tio Sam, transmite-lhe, na mesma mensagem, receita caseira sobre a fabricação de bombas de baunilha, enfatizando a necessidade de hidratação por doze horas do damasco utilizado como recheio, para que o produto atinja o ponto certo.

Como consequência da sofisticada avaliação dos competentes sherloques debruçados sobre o diálogo originário de Santana do Jacaré, não constituirá surpresa possam as prosaicas atividades da família Hallal ser reviradas, de repente, de cabeça pra baixo. Bastará para tanto que o desconfiômetro da arapongagem institucionalizada, à cata de chifre em cabeça de cavalo, acuse desconforto com algumas expressões vocabulares suspeitosas empregadas por dona Sulamita. Isso já ocorreu com outros usuários de internet. A imprensa americana informa, por exemplo, que um advogado muçulmano de Portland teve, de hora para outra, seu telefone grampeado e seu histórico de navegação na internet investigado, sua casa e seu escritório revolvidos, com dissabores sem conta como é óbvio imaginar, antes que as autoridades chegassem à conclusão de terem se enredado num tremendo dum equívoco. Uma outra família americana também passou por vexames ao falar de bomba... escolar.

Da desagradável situação criada por essa maquiavélica conjugação de forças brotam mais indagações perturbadoras. Será que a torpe invasão de privacidade em termos escandalosamente globais ficou adstrita tão somente aos entendimentos, aqui narrados, dos serviços de espionagem da Casa Branca com apenas um único provedor da gigantesca rede mundial de computadores? Hein?


Greve japonesa


Cesar Vanucci


“Um radical é um homem com os
dois pés firmemente plantados no ar.”
(Franklin Delano Roosevelt)

Há mais de 20 anos lancei neste espaço um artigo intitulado “Greve japonesa”. Relendo-o, constatei que ele conserva ainda sonora atualidade.

Fazendo turismo no Japão, um cidadão brasileiro precisou recorrer a uma operação bancária de emergência. Foi quando ficou sabendo que os bancários nipônicos haviam entrado em greve, exigindo reposição de perdas salariais, mais isto, mais aquilo, tudo de acordo com o figurino sindicalista mundial. Comentou, desolado, com a cara-metade: - “Eles entram em greve e eu entro em parafuso. Como é que vou me arranjar, minha nega?” A resposta à sua inquietação veio sob a forma de uma revelação tranquilizadora, recebida por ele entre espantado e aliviado. A “greve japonesa” se regia por critérios totalmente diversos de tudo aquilo que havia aprendido no Brasil e ficado conhecendo sobre o assunto em outros países.

Os bancos não cerrariam as portas um minuto sequer. A prestação de serviços à clientela não sofreria a mais leve alteração. A diferença fundamental entre o dia normal de atividade e o dia sacudido pelo movimento de discordância trabalhista consistia no fato de que os grevistas, atraindo por eficaz esquema de divulgação a atenção da opinião pública, aproveitando para criticar com veemência os patrões, haviam espalhado, por tudo quanto é canto, sistema de som, faixas e cartazes e exibiam ostensivamente braçadeiras em que se proclamava o estado de greve. A assistência aos clientes fluiu tranquila, plena em eficiência, recheada de todas aquelas mesuras que fazem parte da cultura do país e que já renderam deliciosos momentos em comédias cinematográficas americanas. Ao solícito caixa que o atendeu, o nosso brasileiro, deslumbrado, perguntou que diabo de greve era aquela em que as pessoas trabalhavam com o entusiasmo e dedicação de sempre. A resposta arremessou-o na lona: - “O objetivo é atrair simpatia para a causa, não o contrário”.

Já que no Brasil, a começar das chamadas elites, espichando por outras camadas da população, existe uma compulsiva inclinação para copiar (em numerosos casos, mal e porcamente) modelos de atuação que presumivelmente deram certo em outros lugares, fico a matutar, cá com os meus botões, se não seria de bom alvitre patrocinar a ida ao Japão de alguns próceres sindicais do lado de cá do Equador. Eles poderiam conhecer ao vivo essa e outras experiências interessantes dos sindicalistas locais, em suas lutas por benefícios sociais. Nem seria o caso de sonhar com a incorporação de tal greve sem paralização aos nossos hábitos na contenda trabalhista.

Mas de se imaginar, com o exemplo que vem da Ásia, um tipo de manifestação, sem servilismo, sem a abjuração de princípios, que não representasse, em hora alguma, contrafação daquilo que verdadeiramente importa numa greve: a busca pelo reconhecimento de prerrogativas classistas e da cidadania. Porque, pra falar mesmo a verdade, sem que se possa com isso alvejar as motivações legítimas que povoam o inconformismo dos assalariados, diante do solene desprezo que o governo e outros setores votam às questões sociais, não há como deixar de condenar enfaticamente certas reações de protesto, trazidas às ruas por grupos anárquicos, comandados por líderes primários e radicais.

Não há uma única pessoa de bom senso disposta a dar um ceitil de apoio a movimentos reivindicatórios, mesmo considerados justos e pertinentes no apelo de origem, quando representantes desse movimento passam a agir que nem fossem uma horda de vândalos, ocupando repartições, destruindo instalações, sitiando autoridades nos ambientes de trabalho. Ou quando, na briga natural pela recomposição de um direito espezinhado, um bando de despreparados, infensos ao diálogo, cismam de paralisar e até de sabotar o funcionamento de serviços vitais para comunidades inteiras, fabricando o caos nas ruas e nas casas, ou, ainda, quando em posturas antiprofissionais que clamam aos céus, se negam a dar atendimento à gente humilde que enfileira o seu sofrimento nas portas de casas de saúde construídas como garantia de socorro ao semelhante.

A greve é um importantíssimo item democrático. Não se adapta aos limites geográficos dominados por versões despóticas, de quaisquer colorações. Na Rússia tzarista e na União Soviética bolchevista, para ficar com um único exemplo, foi sempre tratada como caso de polícia, resolvido na pata da cavalaria cossaca ou nas lagartas blindadas dos sovietes. A desfiguração da greve, por vesguice mental, ou por induzimento de origem suspeitosa, à margem do sentimento profissional, agride a essência da democracia. Desserve a causa dos direitos humanos. Engrossa o caldo de ressentimentos e maldades que os eternos inimigos botam para cozinhar, a fogo lento, no caldeirão em que lançam ingredientes colhidos nas debilidades, fraquezas e fragilidades humanas e operacionais do regime.

Fazer greve pela greve é rematada imbecilidade. Quem não entende os limites impostos às ações dentro da regência democrática, não se mostra digno de desfrutar das franquias inerentes à liberdade de expressão e movimentos. O grevismo desvairado, que não consegue ou que demora para alcançar seus objetivos, bem que poderia promover uma pesquisa junto à população, investigando se ela está de acordo com a anarquia, com a desordem e com a violentação de outros direitos, que têm marcado alguns movimentos e tornado ainda mais aflitiva e angustiante a situação do homem da rua. A consulta apontará, fatalmente, a necessidade de uma mudança de mentalidade e de rumo. O Brasil aborrece o histerismo radical, que, além de afrontar a cidadania, é uma boçal, intolerável e inaceitável encheção de saco.


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