quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

ALTM COMEMOROU 55 ANOS





A Academia de Letras do Triângulo Mineiro, sediada em Uberaba, festejou seus 55 anos. Na ocasião, homenageou o Acadêmico Thomaz de Aquino Prata, decano da instituição.
Os flagrantes do evento foram enviados pela Acadêmica Marta Zednik.



Lembranças de Natal
(Publicado no Diário do Comércio, BH, no dia 3 de janeiro de 2003)

Cesar Vanucci

"Natal. Apagam-se as luzes. Acende-se a esperança."
(Eva Reis, poeta)

Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, votaram o indecoroso aumento dos próprios subsídios.

Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte. Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contrassenso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.

De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antônio e Antônia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio,  Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento. Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel  no quarto, de madrugada, pé ante pé,  para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo.


O presépio de Carlota

                         Cesar Vanucci

"Natal (...) industrializaram o tema, eis o mal."
(Carlos Drummond de Andrade)

O presépio da vó Carlota era um primor. O mais arrumado da rua, a nos louvarmos na opinião dos vizinhos. Ocupava quase a metade da sala de visita. A mesa de jantar, de razoável dimensão, recoberta de sacos de aniagem e papel pardo de textura encorpada, servia de suporte. Já o guarda-louças do conjunto precisava ser remanejado para um dos quartos, "mode" que não atrapalhar o deslocamento dos interessados em apreciar a arte e engenho empregados na montagem. Vovó Carlota preparava tudo no capricho. Despejava na empreitada o mesmo ardente fervor que punha nas práticas de religiosidade que lhe conferiam, no conceito de tanta gente, a fama de santa criatura. Ao longo de vários decênios, diariamente, de manhãzinha, acompanhada das filhas Nenê e Luzia, subia a ladeira que desembocava na bela Igreja, toda revestida de pedra tapiocanga, de São Domingos, a fim de participar das missas dos dominicanos. A cena ganhou carinhoso registro na memória uberabense. A tal ponto que acabou sendo transposta por Mário Palmério para as páginas do "Chapadão do Bugre". Antes de retornar à história do presépio, quero dizer algumas coisas mais a respeito de minha avó paterna. Essa mulher maravilhosa, presepeira criativa, amealhou em vida considerável crédito, embora humilde e pobre, pelas muitas ações, executadas no anonimato, em favor dos desvalidos. Fez parte na caminhada pela pátria terrena, sem dúvida, do mundo invejável dos corações fervorosos, um tipo de gente que engrandece a espécie. Quando adolescente, deslumbrado, descobri a poesia de Manoel Bandeira, deparei-me com texto que se encaixa admiravelmente em seu perfil. É aquele em que o poeta fala da presença na porta do céu de uma anciã carregada de dons. São Pedro, vendo-a, vai logo dizendo: - Você não precisa pedir licença pra entrar!

Volto, agora, ao presépio para explicar que aquela representação simbólica do Natal, com seu mágico fascínio, respondia à aspiração de pessoas afeiçoadas a estilo de vida singelo de comemorarem condignamente, no âmbito familiar, a data mais significativa do calendário. Era desmontado depois do "dia de Reis". A introdução das figuras centrais no cenário sagrado só acontecia depois da célebre "missa do galo", na volta de vó Carlota da igreja. As efígies dos reis magos e a decoração correspondente à reluzente "estrela de Belém" iam sendo paulatinamente deslocados, a cada manhã, em sua trajetória na direção da manjedoura, até o dia do encontro devocional histórico narrado nas crônicas do comecinho cristão. No mais, a comemoração daqueles tempos, de hábitos consumistas parcimoniosos, costumava abranger ainda, com todos reunidos, a tradicional ceia ou, no dia seguinte, almoço na base de frango recheado e arroz de forno. Sem libações alcoólicas, tá claro. E, também, na parte do ritual atribuído à criançada, sobrava para cada qual a grata obrigação de deixar os sapatos no presépio para que Papai Noel, quando a casa mergulhasse em sono profundo, largasse os presentes trazidos na carruagem puxada por renas.

Tudo diferente das comemorações destes tempos de hoje, de consumismo voraz, em que a marquetagem cria, com frenética desenvoltura, espaços para erigir como símbolos natalinos o peru da Sadia e o chester da Perdigão.

Uma baita saudade!

  Amor Total
 Cesar Vanucci

“Ame até doer.”
(Madre Tereza de Calcutá)

Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus amigos. Seguem junto meus votos de um Feliz Ano Novo pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras...

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O grã-fino  insolente, / O moço inconsequente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos. Sempre e sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos / Para se intitularem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira.

Aplicação de critérios de justiça e caridade na análise da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura. / Visão apaixonada do mundo do trabalho.

O idealizador da espaçonave, / O varredor de rua, / O pesquisador em laboratório /
E o cidadão que trata feridas em ambulatório /
O bombeiro que conserta esgoto – que profissão nem sempre é questão de gosto.

Amor que procure compreender/Pessoas e coisas como são,/
E não como poderiam ser. / Como são... /
E não como poderiam ser.

De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal! 




 (Este magnífico texto está sendo encaminhado 
por Carlos Alberto Teixeira de Oliveira aos seus amigos)

No momento em que desce sobre o mundo o espírito do Natal, que é o espírito da própria Infância, é com emoção que me dirijo ao povo brasileiro - pedindo-lhe duas coisas essenciais: paciência e esperança.

Sei que paciência não lhe faltou até agora; sei que vivemos com os olhos fitos num dia melhor e que esse dia melhor tem custado a chegar. Mas posso dizer que ele se aproxima e que a luz da esperança não ilumina um deserto, e sim um país que, para ser dos mais fortes e seguros, não necessita de outra coisa que não seja encontrarem os seus dirigentes e o povo, o caminho que conduz à realidade. Temos a possibilidade de ser uma grande nação, e sê-lo-emos. Quero dizer, neste comovente dia de hoje, que o trecho mais dificil da caminhada do Brasil já foi vencido. Não há razão para desesperanças, nem para descrenças. Tendo de atender aos interesses do futuro da nossa pátria, pedimos à geração presente algum esforço e sacrifício; mas temos certeza de que vamos penetrar numa era nova. Podemos orgulhar-nos de não termos sido obrigados a recorrer a nenhuma espécie de constrangimento, enfrentamos horas ameaçadoras sem que um só instante a liberdade do homem, de qualquer um, tenha sido reduzida ou suspensa.
 Neste dia, é bom que os brasileiros, que festejam o seu Natal em não importa que sítio do imenso território nacional, se lembrem de que são seres humanos independentes e que ninguém tem o direito de reduzi-los a silêncio ou fazê-los renegar a sua crença, esconder o seu Deus, o mesmo Deus hoje Recém-Nascido que desde a alvorada da nacionalidade vem velando pelo Brasil.
A conquista da prosperidade e do conforto para todos impõe trabalhos novos, e aproveito a oportunidade para acentuar a noção de que a grandeza do Brasil é obra do seu povo, é uma tarefa coletiva, a que todos devem dar o seu apoio.
Desejo, neste momento, como fiz nos anos passados - e agora mais do que nunca quando atinge o seu termo a minha administração - pedir aos meus patrícios em geral, e aos meus amigos em particular, que trabalhem cada vez mais pela unidade e pela paz em nosso país.
Temos um objetivo comum - que a nação brasileira prospere, solidifique-se e vença as suas lutas.
Não há nenhum interesse maior do que o da justiça e da paz. Sem justiça e sem paz não lograremos vencer nem afirmar-nos como nação civilizada.
Somos e desejamos continuar uma nação cristã.
Ser uma nação fiel ao espírito que o Natal encarna exige estarmos vigilantes contra os que tentam intrigar uns povos contra os outros, contra os que julgam impossível a convivência entre doutrinas e ideias opostas.
Ser uma nação cristã nos dias que correm e considerar a injustiça social o que ela é realmente, um grande pecado contra o Cristo. Não é cristã a nação indiferente à miséria, ao subdesenvolvimento com todo o seu cortejo de horrores.
Se queremos ser dignos de Cristo, temos de lutar contra o aviltamento da pessoa humana pelo pauperismo e contra a ofensa aos seres nossos semelhantes pela perseguição racial.                       
 Estamos certos que na crise do mundo nada há que parece decisivo, que não possa ser solucionado dentro dos ensinamentos de Jesus Cristo. A experiência, as próprias amarguras e as decepções autorizam a concluir que a fonte de todo o mal do nosso tempo tem sua origem no afastamento do ideal do cristianismo.
Nada se disse ainda tão certo e tão lúcido como a afirmação que o nosso mundo ocidental depende de uma retomada de fé. Mais do que os engenhos mortíferos, é a fé em Deus que preservará os homens livres.
Presidente da República de um pais cristão, considero-me intérprete das aspirações de seu povo generoso ao voltar-me em espirito para o humilde sitio em que nasceu o Salvador do mundo, pedindo-lhe que atente para esta hora difícil do mundo e em que tão grandes perigos atravessa a humanidade.
Que a poesia do Natal penetre em nossas almas e nos traga um novo alento, que nos permita enfrentar a força de negação, hoje mais intensa do que nunca.
Só a Esperança em Cristo e a Fidelidade aos Seus ensinamentos hão de proteger com eficiência a nossa Pátria e ao mundo que devemos preservar da volta ao paganismo e da tirania negativista.

(Mensagem de Natal transmitida pela “Voz do Brasil "' para toda a Nação Brasileira, já em 24 de dezembro de I 960 ao final do último ano do mandato presidencial. Esta mensagem, além de outros 250 diferentes discursos proferidos durante os anos na Presidência da República constarão do novo livro intitulado JUSCELINO KUBITSCHEK - Mensagens à Nação Brasileira de autoria de Carlos Alberto   Teixeira de Oliveira - que circulará em breve)





sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Augusto Cesar e 

a liberdade de crença



Cesar Vanucci

“Ele apresentava acentuada preocupação por temática brasileira na programação.”
(Artur da Távola)

É provável que, neste acolhedor espaço do vibrante DC, nestes longos anos de enriquecedor contato, dia sim, dia não, religiosamente, com os leitores, já tenha surgido referência à admiração suscitada, ao tempo de ginasiano no Liceu do Triângulo Mineiro, Uberaba, pela erudição revelada na ação pedagógica do saudoso professor de Ciências José Peres, por sinal, excelente pianista. Eu considerava o máximo, sem intenção de trocadilho, as “máximas” com que ele enfeitava as dissertações. Guardo ainda hoje várias delas na memória velha de guerra. Revejo, saudosista, o momento em que ele - pronúncia enfática, sincronizada com a gesticulação denunciando pendor teatral não demonstrado, ao que saiba, em palco - proclama em sala de aula intrigante sentença: “Louvor em boca própria é vitupério!” Lembro-me de haver indagado: “Na boca de parente próximo, também?” Ele titubeou, mas acabou dizendo que sim.

Abuso à parte, que segundo o dicionário é a expressão branda de sinonímia para vitupério, animo-me com disposição a dar sequência aqui à louvação da obra executada, em sua peregrinação na pátria terrena, pelo saudoso mano Augusto Cesar Vanucci. Pelo que ele fez em vida não há como não classificar de justa a carinhosa manifestação de saudade que amigos, ex-colegas de ação profissional lhe prestaram no Teatro Vanucci, Rio de Janeiro, em ciclo de palestras seguidas de encenações teatrais, no findo mês de novembro, focalizando sua vitoriosa trajetória humana e profissional.

Ocupo-me agora de um trabalho que ele realizou, como líder carismático e cidadão possuidor de arraigadas convicções ecumênicas, em favor da liberdade de consciência e de crença. Recorro a esplêndido testemunho dado a respeito por ninguém mais, ninguém menos, do que Artur da Távola, influente jornalista e parlamentar já não mais entre nós. Oportuno anotar, antes desse testemunho acerca da atuação de Augusto Cesar em defesa dos valores humanísticos e espirituais sublinhados, o retrato que ele, Artur, fazia de meu irmão como ser humano e como exponencial figura na área da comunicação social e do entretenimento. “Um iluminado!” Assim o descrevia. Completava: “Sente-se na palavra de Augusto Cesar Vanucci comovente fé, vivida e exercida em tempos aparentemente impróprios, pois materialistas; e numa atividade, a artística, marcada por inusitadas expansões existenciais, busca de prazer e mergulho nas patologias contemporâneas como corajosa forma de viver os impasses, dores e esperanças de tempos agônicos.” (...) “Vanucci viveu realidades paralelas aparentemente estranhas entre si, mas particuladas: intensa ação como homem de televisão (um dos mais importantes, acrescento eu) e a atividade espiritual, marcada por contrição permanente, fé inabalável, tendo que conciliar em seu interior, as exigências do meio externo com recebimento de mensagens espirituais permanente.”

Artur da Távola assevera ainda haver acompanhado, de perto e de dentro, em análises diárias na televisão, o percurso de Augusto como diretor de programas, “completamente diferente dos demais”. Augusto “possuía estilo (que a televisão insiste em não permitir); apresentava acentuada preocupação por temática brasileira no conteúdo; buscava um formato para um show brasileiro de televisão e sempre encontrava alguma forma engenhosa de colocar matéria de natureza mística.” Levava ao ar programas sobre a paranormalidade e a espiritualidade sem sensacionalismo, acrescenta.

O papel desempenhado por Augusto Cesar nas lutas pela liberdade de crença entra agora no registro de Artur da Távola. Na Constituinte, magno momento da vida brasileira, Augusto ocupa a tribuna da Câmara. “Falou bonito, forte e comovente”, acusa o deputado Távola. Prossegue: “A Constituição não saiu exatamente como queríamos, mas foi aprovado, graças a emenda de minha autoria e por influência dele, Augusto, um texto que lá está, oxalá para sempre, o que garante a liberdade da prática religiosa. Diz o seguinte: “Artigo 5, inciso VI – É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias.” Távola relembra ainda que o texto sofreu ameaça de uma restrição que entregava à polícia a possibilidade de impedir, em avaliação inevitavelmente subjetiva, “práticas religiosas que viessem a ser consideradas perigosas.” Explica: “A restrição abriria porta ao arbítrio. Qualquer autoridade poderia (...) impedir a plena liberdade de culto.” E arremata: “Derrubamos a restrição, graças a emenda minha em íntima articulação com Vanucci e outros.”


Testemunhos e

episódios sugestivos


Cesar Vanucci

“Distribuiu esperança apaixonadamente. Tudo com força e bondade.”
(Borjalo)

Eva Tudor, a grande atriz que recentemente, quase centenária, passou a não mais ser vista, por já haver transposto a curva da estrada - indesviável para todos os mortais -, como descrito num poema de Fernando Pessoa, no começo de sua refulgente carreira, anos 40, encenou uma peça no Cine Teatro Royal, Uberaba. A produção do espetáculo viu-se compelida a convocar às pressas, por imposição do enredo, como ator improvisado, para rápida passagem no palco, um garoto com menos de 10 anos. Mano Augusto Cesar o escolhido. Essa participação na trama protagonizada por artistas de renome vindos da capital, a “Cidade Maravilhosa, de encantos mil, coração do meu Brasil”, rendeu-lhe o primeiro cachê artístico.

Ninguém envolvido na improvisada cena, engendrada pelo caprichoso destino, seria capaz de imaginar, naquele instante, que a atriz e o guri, muitas décadas transcorridas na marcha da vida, figuras já consagradas no mundo fascinante do entretenimento cultural, se reencontrariam em atividades cotidianas como fraternais amigos. Não sei dizer ao certo se o episódio ora narrado chegou a aflorar algum dia nos bate-papos de Eva e Augusto, no extenso período de uma convivência profissional pontilhada por admiração e simpatia recíprocas. O que sei muito bem é que Eva Tudor fez questão de anotar um depoimento extremamente carinhoso a respeito do colega, quando de sua partida em 30 de novembro de 1992. Suas as palavras seguintes: “Pela fama, o nome Vanucci já inspirava fé. Foi uma dádiva de Deus conhecê-lo. Tenho certeza de que, onde estiver, ele estará brilhando com sua luz própria. E olhando por nós.” O que sei também dizer, valendo-me de guardados familiares, é que são bastante numerosos os testemunhos de episódios sugestivos, guardando a mesma tonalidade afetuosa e terna, transmitidos em diferentes ocasiões por alguns personagens exponenciais do cenário artístico brasileiro a respeito da trajetória pessoal e profissional de Augusto Cesar.

Como prometido a amigos e colegas do mesmo, responsáveis pela promoção, no Rio de Janeiro, no ciclo de palestras mencionado em meus mais recentes artigos, sirvo-me agora deste acolhedor espaço para, prazerosamente, anotar algumas dessas manifestações. É Bibi Ferreira, primeira dama do teatro (ouvi certa feita, numa entrevista na tevê, a magnífica Fernanda Montenegro admitir isso), quem conta: “Um dia, o Vanucci esteve aqui em casa. Levei-o ao meu quarto para ver um quadro, ele levou um susto e perguntou, por quê? Disse-lhe: porque você é um grande amigo, porque está e estará sempre no meu coração e na minha lembrança. A surpresa de Vanucci foi porque no meu quarto eu tinha mandado emoldurar uma foto colorida dele, arrancada de uma revista, colocando-a sobre minha escrivaninha. Nós éramos dois grandes amigos. É só isso.”

Para J.B. de Oliveira Sobrinho, o Boni, “Augusto Cesar Vanucci foi realmente especial. Foi a pessoa mais carinhosa com quem já trabalhei. Um ser humano iluminado, pleno de amor e paz, pronto para distribuir afeto e ajudar material e especialmente a todos, sem distinção (...) jamais será esquecido.” Segundo Borjalo, “Augusto era chuva, cachoeira, fogo, terra, água, vento. Tinha o vento forte que varre, tinha a brisa que beija, o fogo que queima e purifica, o fogo que aquece (...) Distribuiu esperança apaixonadamente. Fazia tudo com força e bondade.”

A palavra está agora com a apreciada atriz Beth Faria: “Em horas difíceis da minha vida, foi um amigo maravilhoso que me deu a mão. (...) Em 1978, fizemos juntos, na TV Globo, o musical “Brasil Pandeiro”, um programa mensal lindo.” (...) “Por causa desse programa fizemos algumas viagens com o corpo de baile da TV onde tivemos oportunidade de firmar nossa amizade.” (...) “Para mim, Augusto virou um anjo, uma estrela.”

“Augusto Cesar foi um pedaço de céu que caiu na terra. No meio artístico poucos souberam (ou conseguiram) ter sua grandeza e bondade. Sua competência e humildade, seu talento e seu coração magnânimo.” Este trecho é de um texto de Chico Anísio. Na palavra de Agildo Ribeiro, “a figura extra notável” do amigo de dezenas de anos gerou um pensamento que sempre acompanha o aplaudido comediante: “Eu convivia com um santo e não sabia”. Dercy Gonçalves, considerava “fácil trabalhar com o querido Vanucci, um cara iluminado e cheio de talento.” Por ela amado, “principalmente por entender minhas broncas”.

Se o espaço comportasse, poderia alongar ainda mais os registros trazidos sobre Augusto Cesar, dentro desta mesma linha de apreço e reconhecimento profissional, por outras personalidades de relevo nas áreas cultural e espiritual da vida brasileira. Entre outros, Roberto Carlos, Roberto Marinho, João Jorge Saad, Aloyzio Legey, Guio Moraes, Paulo Figueiredo, Mário Lúcio Vaz, Chico Xavier, Divaldo Franco.


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG





Mano Augusto

Cesar Vanucci

“Augusto Cesar Vanucci, um iluminado!”
(Artur da Távola, jornalista)

Amigos diletos, ex-colegas de trabalho, companheiros dedicados em bem sucedidas empreitadas culturais e de solidariedade humana reverenciaram a memória de Augusto Cesar Vanucci, ao ensejo do transcurso do 25º aniversário de sua passagem para outro plano da existência. Uma série de palestras, tendo como foco a vida e obra do vitorioso diretor de televisão, acompanhada de representações teatrais, compôs a programação levada a efeito no “Teatro Vanucci”, Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, nas noites das quartas-feiras de novembro passado. Coube-me, por deferência dos promotores do evento, a honra de fechar o ciclo de exposições diante de plateia numerosa, de expressão afetiva e intelectual.

Sintetizo, a partir de agora, as considerações feitas na ocasião, naturalmente impregnadas de forte emoção. Mano Augusto foi uma criatura iluminada. Um contemporâneo do futuro, pode-se dizer. Alguém notoriamente provido de dons deveras singulares. Tanto na vida mundana, de modo geral, como na profissão abraçada, de modo particular. Desde meninote deu mostras de percepções invulgares. Passava sempre a sensação de saber das coisas. Madrugou no conhecimento dos assuntos considerados essenciais ao processo de construção humana.

Considerado “garoto prodígio”, pelos pendores artísticos aflorados desde cedo, arrancava entusiásticos aplausos das plateias nas apresentações que fazia, como cantor no rádio, teatros e outros locais abertos a manifestações culturais. Com 12 anos de idade, levado de Uberaba pelos pais ao Rio de Janeiro, concorreu à premiação para cantores no programa “Hora do pato”, conduzido por Heber Boscoli, na Tupi carioca. Não deu outra: colocou o auditório em delírio interpretando a canção “Canta Brasil”, de Alcir Pires Vermelho e David Nasser. Passou a exibir o troféu conquistado na rádio em espetáculos a que era convidado a participar em cidades do Triângulo Mineiro. O pintor Cândido Portinari apreciava ouvi-lo nas visitas que fazia a amigos muito chegados em Uberaba. Convidou-o, certa feita, para apresentação em sua terra natal.

Deu-se na sede da União da Mocidade Espírita de Uberaba o primeiro encontro de Augusto Cesar, ginasiano, com Chico Xavier, de quem acabou se tornando, vida afora, fraternal amigo. O célebre sensitivo, ainda residindo em Pedro Leopoldo (só muitos anos depois transferiu o domicílio), visitava Uberaba pela vez primeira. Mano Augusto foi convidado para um espetáculo em sua homenagem. Décadas mais tarde, já tendo se tornado nome vitorioso na área do entretenimento artístico, primeiro brasileiro a ser agraciado com um “Emmy” nos Estados Unidos e um “Ondas” na Europa (pelo programa “Arca de Noé – Vinicius para criança”, levado ao ar pela “Globo”), Augusto Cesar coordenou a campanha em favor da outorga do “Nobel da Paz” a Chico Xavier. A documentação a respeito da história legendária do mais famoso médium brasileiro continha assinaturas de dois milhões de cidadãos. Com o documentário “Um homem chamado amor”, Augusto deu amplitude notável nos meios de comunicação à obra de Chico. Ao mesmo tempo, adaptando para o teatro textos extraídos de livros do mesmo, lançou a peça “Além da vida”. Esta peça vem sendo encenada há um bocado de tempo, com público garantido, por grupos diferentes, em palcos de todo o país.

Voltarei, adiante, a falar da ligação estreita de amizade entre Augusto e Chico, detendo-me num episódio pra lá de inexplicável à luz do mero conhecimento consolidado que temos das coisas deste mundo.

Retorno à cintilante carreira de Augusto no mundo das artes, para dizer que ele, aos 18 anos, foi tentar a sorte no Rio de Janeiro. Passou em primeiro lugar num teste no “Teatro do Estudante”, de Pascoal Carlos Magno. Não concluiu o curso. “Olheiros” do setor teatral atraíram-no para a lida profissional, importante para ele como meio de sobrevivência. Estreando numa peça produzida pelas grandes vedetes Renata Fronzi e Mara Rubia, ele foi chamado para o papel principal, logo depois, em “Feitiço na Vila”, musical com repertório de Noel Rosa. Teve como parceiras no elenco Elizeth Cardoso e Mary Gonçalves. Contracenou, adiante, com Bibi Ferreira no musical “Alô, Dolly”. Estrelou outra peça originária da Broadway: “Como vencer na vida sem fazer força”. “Vamos brincar de amor em Cabo Frio” foi uma outra comédia musical por ele protagonizada. Enveredando pelo cinema, atuou em 18 filmes. “Eles não voltaram”, primeiro celuloide sobre a participação da FEB na campanha militar da Itália, foi um deles. Obteve numerosos prêmios como ator de cinema e teatro. Assumindo na nascente Rede Globo de Televisão a função de diretor da linha de shows e programas humorísticos, alcançou notoriedade nacional e arrebatou, como já dito, prêmios internacionais. Foi um craque de seleção na atividade a que se consagrou. Outras coisas que merecem ser ditas a respeito de sua marcante peregrinação pela pátria terrena, inclusive, o episódio instigante acima aludido, ficam para a sequência, já que esgotado o espaço de hoje destas maldatilografadas.


Chico Xavier e 
Augusto Cesar

Cesar Vanucci

“Estou perplexo! O querido Chico anteviu este nosso encontro.”
(Augusto Cesar Vanucci)

Vejam só como são armadas nas latitudes transcendentes, imperceptíveis ao olhar humano, as sincronicidades capazes de influenciar atos decisivos na conduta cotidiana. Encontro casual, na sala de espera de uma companhia aérea, no aeroporto de Congonhas, São Paulo, numa manhã de setembro de 1980, criou as condições propícias para que uma recomendação especial, de características pode-se dizer mágicas, desembocasse numa campanha humanitária de efeitos altamente positivos na história de benemérita instituição.

Os apoucados, posto que assíduos e atentos, leitores destes mal alinhados escritos recordam-se, por certo, do registro feito no comentário passado a respeito de um episódio instigante que me propus a novamente relatar. Eu estava falando da palestra que proferi no Rio de Janeiro, no Teatro Vanucci, Shopping da Gávea, na última quarta-feira de novembro, ao ensejo da celebração dos 25 anos de passamento do mano Augusto Cesar Vanucci, promovida por seus amigos e colegas de trabalho.  Referindo-me às estreitas relações de amizade de Augusto com o célebre sensitivo Chico Xavier – relações de amizade essas que, ambos, fiéis às suas crenças, costumavam dizer remontar a tempos bastante recuados –, comprometi-me a contar, neste acolhedor espaço, a historieta que se segue. Nada demais repeti-la. O toque edificante e, ao mesmo tempo, comovente que a envolve legitima o repeteco.

A convite do Lions, Augusto Cesar, à época diretor do núcleo de musicais e humorísticos da Rede Globo, fez uma exposição, no mês e ano acima citados, para público numeroso, no auditório da “Casa da Indústria”. Abordou as infinitas perspectivas que se estavam abrindo, na área da comunicação, em decorrência dos velozes e inimagináveis avanços tecnológicos da era eletrônica. Palestra já em andamento, os dirigentes do Lions foram procurados por Adalberto e Beatriz Ferraz, casal de saudosa memória, que se fazia portador de uma postulação para apreciação de Augusto. No pleito era descrita a situação aflitiva vivida, naquela fase, pelo Hospital Mário Penna. Pedia-se ao destinatário do apelo que se engajasse na busca de uma solução para a tormentosa questão, já que a organização citada via-se ameaçada em sua sobrevivência. Encerrada a exposição, grupo reduzido rodeou Augusto para rápida troca de ideias sobre o angustiante problema enfrentado pelo Mário Penna, um centro assistencial, como ele pode comprovar em visita feita na manhã seguinte, mantido na base do idealismo e abnegação por um punhado de pessoas abrasadas pelo sentimento da solidariedade. Augusto Cesar ficou tomado de contaminante emoção com o relato ouvido na “Casa da Indústria”. Saiu com uma revelação que deixou todos à sua volta boquiabertos.

Começou por dizer que desconhecia, até aquele momento, a existência do Mário Penna. Informou, ao depois, que cruzando com Chico Xavier no aeroporto em São Paulo, este lhe pedira, com empenho, naquele tom suave de voz todo seu, que não deixasse de atender pedido angustiado que lhe iria ser formulado em favor de uma organização consagrada a assistir enfermos oncológicos carentes. “Estou perplexo!”, asseverou.  “O querido Chico anteviu este nosso encontro”.

Estes os desdobramentos do incrível caso. Augusto atirou-se com ardor e entusiasmo a serviço da causa. Tornou-se um de seus benfeitores. O “Fantástico”, programa que criou e dirigia, focalizou em edições sucessivas as coisas do Mário Penna, enfatizando suas dificuldades para sustentar-se financeiramente. A instituição foi inserida entre as beneficiárias do “Criança Esperança.” No Palácio das Artes e no Mineirinho foram levados a efeito, um atrás do outro, espetáculos de artistas famosos, inclusive do exterior, com renda destinada à obra. A série de palpitantes reportagens na televisão estimulou o aporte de recursos do governo federal. O hospital Luxemburgo surgiu dentro desse favorável contexto.

Desnecessário, a esta altura, sublinhar que, em momento algum, Chico Xavier veio a ser procurado, por quem quer que seja, para atuar como intermediário no auxílio prestado à organização. Sua misteriosa intercessão nasceu de desígnios superiores. Desígnios que constituem charada de difícil decifração para quem resista a admitir a infinitude dos territórios do conhecimento extra-sensorial a serem ainda desbravados pela inteligência, percepção e curiosidade humanas.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG




Lions celebra 100 anos 
em Ouro Preto

Cesar Vanucci

“Nossa instituição está presente hoje em 220 países.”
(Maria das Graças Campos Amaral, governadora do Lions Clube)

A encantadora “Casa da Ópera” de Ouro Preto, mais antigo teatro em funcionamento das Américas, foi o palco escolhido pelo Lions Clube para magnífica celebração de seu Centenário, envolvendo simbolicamente as laboriosas comunidades em que atuam as dezenas de clubes de Lions pertencentes à jurisdição do distrito LC-4, sediado em Belo Horizonte. Com o apoio inestimável da municipalidade da capital cívica do Brasil, cidade monumento mundial, que assegurou todo o arcabouço logístico para o êxito da empreitada cívico-cultural levada a efeito, o movimento leonístico conseguiu atrair ao evento prefeitos e outras autoridades, ou representantes, dos municípios de Belo Horizonte, Betim, Bom Despacho, Conceição do Mato Dentro, Confins, Conselheiro Lafaiete, Corinto, Curvelo, Diamantina, Divinópolis, Esmeraldas, Itabirito, Janaúba, Lagoa Santa, Mariana, Montes Claros, Nova Lima, Nova Serrana, Papagaios, Pedro Leopoldo, Pirapora, Pompéu, Santa Luzia, Sete Lagoas, Três Marias e Vespasiano, além, naturalmente, de Ouro Preto.

As comunidades mencionadas receberam das mãos da governadora do LC-4, Maria das Graças Campos Amaral, o troféu “Lions-Gratidão”, de bela concepção da lavra da artista plástica Lete Beleza, instituído para a ocasião. Os representantes das comunidades foram acompanhados, à hora da outorga das láureas, por representantes dos clubes de Lions engajados na promoção. Companheiros e companheiras leões das localidades prestigiaram em número elevado o acontecimento, que contou ainda com a participação de representantes de diferentes segmentos sociais dos municípios.

O prefeito de Ouro Preto, Júlio Pimenta, na condição de anfitrião, saudou homenageados, convidados e visitantes, enfatizando as produtivas parcerias existentes entre sua administração e o Lions. Maria das Graças, na mensagem de reconhecimento às comunidades em que o movimento leonístico promove ações assistenciais, culturais e educacionais, ressaltou o papel relevante que a instituição ocupa, por meio de serviços voluntários desenvolvidos em 220 países por quase dois milhões de associados, em favor da construção humana e do bem-estar social.

A tradicional “Invocação a Deus”, da ritualística do leonismo, foi proferida por Marise Santana de Rezende, do Lions Lafaiete Centro. Eficientes na condução dos trabalhos, Paulo Marcos Xavier da Silva de Cachoeira do Campo e Marcília Chaves dos Santos, de Ouro Preto, ambos da Academia Mineira de Leonismo, atuaram como mestres de cerimônia. O ex-governador do Lions, Luciano Guimarães Pereira, de Mariana, fez uso da palavra, pontuando expressivas realizações da gestão do prefeito Júlio Pimenta em Ouro Preto.

Solicitado a pronunciar-se, este escriba de antiga militância leonistica, salientou que a história contemporânea está a reclamar, dos homens e mulheres de boa vontade que canalizem energia e criatividade no sentido de ajudar o mundo a reconectar-se com sua humanidade, com os valores essenciais que conferem dignidade à aventura da vida. Como sempre ocorre em sessões solenes patrocinadas pelo Lions, a programação contemplou o público presente com espetáculo musical requintado, a cargo de artistas regionais, entre eles os “Violeiros de Queluz”.

Um outro momento de alto significado cívico e cultural da festa de sábado, 25 de novembro, parte da manhã, na “Casa da Ópera”, Ouro Preto, ocorreu quando a Academia Mineira de Leonismo, representada pelo vice-presidente Vespasiano de Almeida Martins Neto, entregou ao Secretário de Estado da Cultura de Minas Gerais, Angelo Oswaldo de Araújo Santos, a comenda “JK-Cultura, Desenvolvimento e Civismo”, anualmente conferida a personagem de realce na vida nacional. O agraciado, expressando-se também em nome dos homenageados com o troféu “Lions-Gratidão”, fez aplaudido discurso. Frisou que, no Brasil dos dias de hoje, a vida e obra de JK, como líder progressista, devotado à causa do desenvolvimento social, como cidadão que soube cultivar a tolerância no trato político, devem servir de inspiração a quantos se achem empenhados na retomada do crescimento econômico e no propósito de ver o país consolidar sua vocação de grandeza.

Almoço de confraternização, transcorrido no mesmo clima de alegria e companheirismo, concluiu a memorável celebração do Centenário do Lions em Ouro Preto.

Haja percevejo
 pra fincar no mapa

Cesar Vanucci


"Vendo o trânsito das grandes cidades dá para entender  
porque tantos pilotos brasileiros brilham nas pistas de corrida".
(De um turista norueguês, citado por jornal carioca)

Não são muitos, mesmo entre os mais chegados, que sabem, mas eu já fiz parte, com muito orgulho profissional, em idas primaveras, do Serviço de Trânsito. Conto aqui como isso se deu. No comecinho da década de 50, JK Governador, fui trazido de Uberaba mode tentar a vida na Capital, pelas mãos de uma prima querida, Anita Rosa de Magalhães Goes. Figura humana extraordinária, mulher de dinamismo incomum e bravura cívica. Era casada com um homem culto, de maneiras refinadas, com brilhante passagem pela Polícia Militar, coronel Américo de Magalhães Goes. Juscelino nutria pelo casal o maior apreço e acolheu pedido de Anita para que eu fosse nomeado. Deram-me o cargo de escrevente datilógrafo no nascente serviço de estatística de acidentes de trânsito, instalado na avenida João Pinheiro, no prédio onde ainda hoje funciona o Detran. O chefe de Polícia na época era Davidson Pimenta da Rocha, dono de forte personalidade. Era visto, amiúde, naqueles tempos remansosos da segurança urbana, a transitar pelos corredores, inteirando-se das atividades dos subordinados. A equipe da Estatística, composta de três funcionários, tinha como chefe o engenheiro Heráclito, cidadão idealista e talentoso. Vim a revê-lo, anos mais tarde, em funções de relevo na atividade política. Essa grata passagem de minha vida profissional recorda-me também que o ato de minha designação foi publicado no "Minas" no mesmo dia da nomeação, para cargo idêntico, de uma pessoa de grande valor intelectual cujo nome acha-se inscrito com letras reluzentes na história da Polícia, Jesus Trindade Barreto, saudoso presidente da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, instituição que com muita honra hoje presido.

Tocava-nos na seção organizar os dados estatísticos, com base nos boletins de ocorrências. Num mapa da cidade fincávamos percevejos coloridos. As cores serviam para diferenciar a natureza dos acidentes. Os registros, naqueles tempos anteriores aos da implantação da indústria automobilística, deixavam forte impressão. Nenhum de nós, nem de leve, conseguiria adivinhar o que o incremento automobilístico iminente desencadearia na geografia da cidade e que acabaria, comparativamente, tornando inexpressivas e, até mesmo, amenas as nossas "impressionantes" estatísticas. A incidência maior de ocorrências era na Bahia e na Jacuí. Na primeira das ruas por conta dos postes centrais que, dia sim outro também, faziam vítimas entre passageiros de bondes. Na segunda rua, as colisões eram diárias num cruzamento com outros logradouros. Nada, porém, ligeiramente parecido com as tragédias automobilísticas da atualidade.

Fiquei pouco mais de um ano no Trânsito, sendo deslocado, ao depois, para servir na Delegacia Geral de Polícia do Triângulo Mineiro, em Uberaba. Mas isso já são outros quinhentos.

Dos tempos do Trânsito, conservei aceso um interesse especial pela problemática da circulação de veículos e transeuntes nas ruas , cada dia mais congestionadas da cidade em que vivo e que, por generosidade do vereador José Domingos, me fez seu cidadão honorário. Adicionei, à vista disso, recentemente, às preocupações rotineiras que carrego como homem do povo, com relação ao trânsito, o temor de que estejam para ser produzidas mortandade e mutilações sem conta entre os motociclistas. O que vivo presenciando por aí, a toda hora, em matéria de manobras ousadas, executadas pelos intrépidos ocupantes dessas ziguezagueantes viaturas, é enlouquecedor. As motos pintam na frente dos carros, subitamente, lembrando cena de filme de suspense, sempre em velocidade imoderada, surgidas dos trechos de percurso mais inesperados. Não tenho acesso às estatísticas de acidentes com motos. Suponho, entretanto, que já estejam a confirmar o meu indesejável prognóstico. Haja percevejo pra fincar no mapa.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O que aconteceu 
era de fácil previsão

Cesar Vanucci

“A Justiça é a verdade em ação.”
(Joseph Joubert, pensador francês)

Tempos estranhos, deveras estranhos. A confusão é geral, comentaria Machado de Assis. Ilustres Ministros do Supremo embaralham ainda mais, no capricho, o entendimento das coisas. Confessam-se “perplexos” diante de recente decisão da enxovalhada Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Cabe recapitulação dos fatos. Os parlamentares cariocas, contaminados pelo fisiologismo dominante na praça, resolveram, numa ação fulminante, de intensa repercussão, revogar o ato judicial que ordenou a prisão preventiva, bem como o afastamento do mandato do presidente da Casa e de outros dois deputados acusados de beneficiários num esquema de “propinas milionárias”. Manda a verdade reconhecer a forte inconsistência desse alardeado espanto. Uai! Pois não foi o próprio STF, em histórica deliberação tomada na sessão plenária de 11 de outubro passado, que andou criando a oportunosa ensancha – ardentemente almejada por expressiva parcela da comunidade política – permitindo a detentores de mandatos eletivos, comprometidos em maracutaias estrondosas, livrarem a cara em casos de indiciamento, hein? O que simplesmente pintou no pedaço estava claramente previsto. Trata-se do óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues.

A decisão em causa produziu, como todo mundo sabia que iria acabar acontecendo, vertiginoso “efeito cascata”, que não vai parar por aí. A “jurisprudência firmada” renderá ainda outros episódios danados de desconcertantes, não há descrer.

A Alta Corte, relembremos, definiu que caberia ao Senado Federal dar uma palavra final a respeito das medidas punitivas impostas pelo Ministro Edson Fachini ao Senador mineiro Aécio Neves. Os pares do Senador, valendo-se da prerrogativa que se lhes foi atribuída, optaram então por tornar sem efeito as sanções determinadas pelo relator da “Lava Jato”. Emergiu assim o “fundamento jurídico”, por sinal já suscitado em mais de uma ocasião, que o corporativismo político tanto esperava mode que poder blindar-se em eventuais casos de diligências coercitivas ordenadas pela Justiça no curso de investigações que tenham parlamentares de todas as esferas como alvo.

Tudo quanto exposto leva a uma conclusão. Parece chegada, a esta altura do campeonato, a hora de o Supremo Tribunal Federal promover no âmbito doméstico uma aprofundada reflexão sobre a verdadeira natureza e sentido de seu papel na atual conjuntura brasileira. A sociedade reconhece que o órgão é integrado por luminares do saber jurídico. Conserva acesa a esperança em sua atuação. Os sagrados ditames da missão de que se acham investidos recomendam aos dignos togados permaneçam distanciados das refregas políticas. Aconselham procurem se resguardar quanto as circunstâncias suscetíveis de gerar paixões com toque partidário. A opinião pública não esconde desaponto e desconforto quando percebe que algum magistrado de alta preeminência se deixa seduzir pelas efêmeras cintilações da notoriedade instantânea, proporcionada pelos holofotes midiáticos, e se aventura, falando às vezes pelos cotovelos, a opinar sobre tudo quanto se lhe é perguntado. Às vezes, até mesmo, antecipando posicionamentos alusivos a questões que possa vir a julgar. A majestade da função é aí inclementemente alvejada e receios naturalmente afloram às preocupações gerais quanto à condição isenta necessária para garantir do magistrado que faça cumprir com fidelidade a justiça.

Justiça essa que, na essência, outro valor não representa senão a verdade em ação, como propunha, já em seu tempo, o pensador francês Joseph Joubert.


ALTM, ano 55

Cesar Vanucci

“Contista, jornalista, conferencista, crítico literário, 
Edson Gonçalves Prata é um autêntico homem de letras.”
(José Mendonça, primeiro presidente da 
Academia de Letras do Triângulo Mineiro)


Meu fraternal amigo João Eurípedes Sabino, presidente da Academia de Letras do Triângulo Mineiro (ALTM), pede-me uma palavra sobre os 55 anos da valorosa instituição. No afã de atendê-lo, ligo o vídeo cassete da memória, fixando-me em imagens em que apareço como protagonista e testemunha ocular relativas ao começo da história.

O nome do sempre lembrado Edson Gonçalves Prata, é o primeiro a aflorar nas ternas recordações. Ele foi o principal artífice na construção da grande obra cultural da ALTM na fase prefacial a que me reporto.

Naquele tempo, o diário “Correio Católico” (12 mil assinantes, recorde na atividade jornalística no interior) circulava com um suplemento literário aos sábados em formato tabloide. Eu era o editor geral do jornal. Entre os ilustres colaboradores do suplemento lá estava o Edson, advogado e professor conceituado, alto funcionário do Banco do Brasil, estudioso da obra de Machado de Assis. Seus artigos sobre o autor de Dom Casmurro eram apreciadíssimos. Muita gente os colecionava. Ressalte-se que o caderno literário nº 2, fevereiro de 1964, lançado pela Academia, enfeixa alguns desses trabalhos.

Numa das visitas frequentes que fazia ao jornal, Edson participou-me, solicitando colaboração e sugestões, que estava a se ocupar, já algum tempo, da coleta de dados e informações necessários para a elaboração da proposta de constituição de uma Academia literária com abrangência regional. Engajei-me, de pronto, na empreitada. Numerosas reuniões preparatórias foram feitas, a partir dessa troca de ideias, na redação do “Correio Católico” e no escritório de Edson, instalado ao lado de sua residência, a poucos metros de distância da sede atual da Academia, imediações da Casa da Criança. Quando a proposta ganhou formato nas linhas gerais, contatos foram feitos com os grandes personagens que vieram compor e engrandecer o quadro dos sócios fundadores. O notável pensador Juvenal Arduini foi o primeiro consultado. Padre Antônio Thomaz Fialho, doutor Augusto Afonso Neto, Padre Tomaz de Aquino Prata foram, na sequência, os intelectuais de projeção procurados. Todos aderiram com entusiasmo à ideia. Por sugestão do Edson, infatigável no afã de tornar realidade palpitante seu ardente sonho, o nome de José Mendonça foi apontado como ideal, pelos incontáveis méritos de inteligência, cultura, liderança, para comandar o processo de estruturação da Academia. A sugestão foi levada ao conhecimento do inesquecível Arcebispo Alexandre Gonçalves Amaral. Ele considerou a escolha excelente. O grande romancista Mário Palmério também ofereceu decisivo apoio à iniciativa.

Para a residência de José Mendonça, onde também funcionava seu escritório de advocacia, foram então deslocadas as reuniões preparatórias com vistas ao lançamento oficial da Academia. O quadro de fundadores, o estatuto, a forma de atuação, a formação da primeira diretoria, os convites a escritores, poetas e jornalistas de Uberaba, de Uberlândia e de outros lugares para que viessem a integrar os quadros acadêmicos, tudo isso foi sendo laboriosamente delineado numa sucessão de proveitosos encontros até o momento decisivo da implantação solene da Academia.

Apraz-me registrar, nessa sequência de lembranças, que o título da futura revista oficial da ALTM, “Convergência”, foi por mim sugerido numa das primeiras reuniões. O modelo dos cadernos literários da Academia, editados nos primeiros anos da instituição, foram também concebidos também nessas reuniões preliminares.

Esse esforço preparatório germinou, floresceu, rendeu frutos compensadores. Marcou o ponto de partida do avultado trabalho, de singular fecundidade, que ao longo de décadas, desencadeado na gestão de José Mendonça, desdobrou-se nas gestões de Augusto Afonso Neto, Edson Gonçalves Prata, Guido Bilharinho, Maurílio Cunha Campos de Moraes e Castro, Jacy de Assis, José Soares Bilharinho, Mário Salvador, Terezinha Hueb Menezes, José Humberto Henriques, Jorge Nabut, Ilcéa Borba, de modo a que pudesse vir a ser entregue, na administração João Eurípedes Sabino, inaugurada sob os melhores auspícios, uma obra consolidada, repositório precioso e perene de saberes acumulados, de riquíssimas experiências, verdadeiramente representativa, como se preconizou bem lá atrás, da inteligência e da cultura da gente do Triângulo Mineiro. Uma obra com positiva ressonância no cenário cultural mineiro e brasileiro. E, por derradeiro: caçula, entre os fundadores da Academia, faço parte hoje da dupla remanescente do quadro de intelectuais que a compuseram em seus primórdios. O outro sócio fundador, de cujo convívio todos os Acadêmicos prazerosamente participamos, é o grande sacerdote e pensador Thomaz de Aquino Prata.



A SAGA LANDELL MOURA

Não precisava ser assim   Cesar Vanucci “Esse nosso infernal cotidiano!” (Domingos Justino Pinto, educador) Carga pesada. Isso...