sábado, 27 de junho de 2020


Zote e o Marechal

Cesar Vanucci

“Zote é fino observador e psicólogo do sertão.”
(João Gilberto Rodrigues da Cunha)

Estou vindo de uma releitura prazerosa. Crônicas do cotidiano boladas em tom alegre. “O Triângulo de bermudas”, de João Gilberto Rodrigues da Cunha, médico, empresário, ex-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, é um livro que reúne acontecencias de refinado sabor. Numa narrativa vivaz e cabritante, que se espicha por 150 páginas, são trazidos ao deleite dos leitores pitorescos causos de personagens que povoam aquelas bandas do mapa das Gerais onde um “narigão esquisito se intromete entre Goiás e São Paulo, cheirando os fundos de Mato Grosso”, conhecidas por Triângulo Mineiro. O autor, dono de talento e verve, sabe jogar bem com a imprevisibilidade que é a própria essência do humor. Já teve romance selecionado para a finalíssima do “Jabuti” de literatura.

O cidadão chamado Zote que faz dupla com um marechal no título destas maldatilografadas, é mostrado no livro de corpo inteiro, num sem número de proezas folclóricas. O autor deixa escapar afetuosa simpatia pelo dito cujo. Explica que “nem nas piores aperturas o Zote perdeu sua audácia comercial nem seu senso de humor”. Conta que em tempo de crise “ele construiu na rodovia o seu Motel Zote, durante anos ponto de parada para refeição ou sono daqueles que iam de São Paulo para Brasília”, acrescentando que “o motel do Zote era motel mesmo e não ponto de sacanagem, como os seus futuros sucessores.” Dito o que, recorda passagem em que seu irmão José Humberto, médico famoso, deputado federal, num domingo setembrino, participou no local do apreciado rodízio de churrasco, disputado costumeiramente por considerável número de clientes “Bebeu, comeu, festivo, e no final recebeu na mesa a visita alegre de Zote, orgulhoso de sua visita e presença.”

Conversa vai, conversa vem, o irmão do João Gilberto que, segundo ele, “sempre foi de certas prosopopeias em elogios”, resolveu gastar “sem economizar no Zote”, entoando louvação à beleza do lugar, à excelência dos comes e bebes, por aí. “Zote ficou feito mosquito em tampo de xarope”. Na continuidade do papo ameno, o Zé Humberto, “com seu jeito confidente e sério”, perguntou: “Zote, e o ambiente aqui é sempre sadio?” João Gilberto ainda falando: “Zote, conhecia o compadre, mas por via das dúvidas achou que devia devolver os agrados: - Sadio é, doutor. Mas, se o senhor quiser, nós adoecemos ele em meia hora!” Não deu outra. “Zé Humberto, bom médico, horror à doença e similaridades zotianas, não esperou clarear o tipo de epidemia programada, bateu em retirada.” Um amigo que o acompanhava, “Elias, ainda espantado, rindo escondido da audácia do Zote, setenciou o acontecido com a exclamação do povinho do Irara: - Vote!”

O causo acima coloca o leitor em condições de ficar sabendo quem é o Zote. Já o marechal dispensa apresentações. Cidadão ilibado e discreto, intelectual, comedido nos gestos, Humberto Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente do ciclo de militares catapultados às culminâncias do poder político com o golpe de 64.

No dia 3 de maio de 1964, os caminhos do Zote e do marechal se cruzaram. Este amigo de vocês estava lá. Viu, anotou e registra aqui o ocorrido. Castelo Branco visitava Uberaba, pouco depois de assumir o governo. Manteve acesa tradição implantada por Getúlio: a participação presidencial na solenidade de abertura da feira de zebu. Desceu do avião em meio a forte aparato de segurança, recebendo os cumprimentos protocolares. Dirigiu-se à porta de saída do aeroporto. Nas imediações, ao contrário de outros anos, a presença de público, contido por cordões de isolamento, era reduzida. À hora em que transpunha a distância até o veículo que o conduziria ao parque da Exposição, uma voz esganiçada, em meio aos populares, passou a chamá-lo: - Castelo, Castelo! O marechal e o pessoal à volta, trazendo nos semblantes claros sinais de tensão, voltaram-se pra o ponto de onde provinha a inesperada chamada. Era o Zote: “- Castelo, vê se dá pra manerar. A barra tá pesando.” Posso garantir, como testemunha ocular, que na cara habitualmente sisuda do marechal ganhou contorno um sorriso.


Zote e a penhora previdenciária

Cesar Vanucci

“O amigo Zote tornou-se figura lendária nas finanças da cidade.”
(João Gilberto Rodrigues da Cunha, em “O Triângulo de bermudas”)

O Zote, com sua matreirice roceira, seu filosofar maroto em sintonia com a fala das ruas, esmerilhado nas duras refregas da vida, foi personagem que fez lenda no cenário de Uberaba. São muitos os causos engraçados, recolhidos nas rodas de prosa, que o apontam, com seu jeitão acaipirado, como protagonista. No livro “Triângulo de bermudas”, do João Gilberto Rodrigues da Cunha - meu companheiro de Academia de Letras do Triângulo Mineiro -, que faço questão de recomendar, como leitura de qualidade, rica em colorido humano, aos meus confessos 25 leitores, alguns desses causos são relatados com graça e senso de humor.

O homem que, conforme já contei aqui, pediu ao marechal-presidente no aeroporto, para manerar mode que a barra tava pesando coisa que preste, era considerado, no consenso comunitário, um phd em astúcia. Como vem revelado noutro saboroso episódio que extraio do “Triângulo de bermudas”. Episódio esse – constato aliviado – que cai na medida certeira para preencher o número de toques digitados necessários ao fechamento deste meu arrazoado de hoje.

Antes de passar à descrição de artimanha bolada pelo Zote para enfrentar uma penhora previdenciária, João Gilberto reconhece-o como figura lendária nas finanças. “Vindo de uma bicicletaria, onde ganhou seus primeiros trocados, ascendeu por méritos próprios e enorme trabalho” a uma invejável posição de saúde e tranquilidade financeiras. Não foi nada mole. “Das bicicletas que consertava e alugava, rodou por postos de gasolina até ter a sua empresa de ônibus interestadual, uma usina de açúcar e suas fazendas de cana e boi.”

Os detalhes da tal penhora são narrados na sequência.

“O caso da penhora previdenciária na usina de açúcar do Zote serve para ilustrar a sua astúcia nos seus apertos. Foi pouco depois de vender sua empresa de ônibus e comprar a açucareira. Apertado pelo rabo de muitas dívidas, Zote ia pagando as urgentes e fatais. Como explicou depois, centralizou no Cartório de Protestos os seus pagamentos – para evitar dispersão bancária, afirmou. Com isso, o Inps da usina ficou esquecido, e veio a execução e pedido de penhora, justo na hora em que ia moer a sua primeira safra e última esperança. Zote ponderou como receber a intervenção e penhora de jeito a continuar vivo e combatente. Nos fundos da sua usina, encontrou um velho e obsoleto motor alemão, tamanho duma locomotiva da Mogiana, ainda cheio de canos de bronze e latão, selo e armas da República. Iluminou a cara. Mandou puxarem o mondrongo pra casa das máquinas, deu-lhe uma guaribada feroz, lustro e óleo dos mais bonitos. De mentira, ligou-lhe fios e canos, relógios e manômetros os mais brilhantes e modernos. Por cima meteu-lhe uma lona, e na porta, um grande cadeado.

O fiscalzinho chegou no dia seguinte, sentença e sorriso a bordo, aquela cara de importância de quem vai puxar a alça da guilhotina, novo no serviço e virgem de Zote. A mostra da usina foi geral. Com cuidados e mesuras, Zote ia mostrando as dornas, o secador, moendas, tudo serve pra penhora, dizia. E toda hora passando em frente ao barracão, que jamais abria. Nos finais da visita, o neofiscal sorriu: Tudo bem, seo Zote, estou avisado das suas tretas e sabedorias. Agora, o senhor faz o favor de abrir aqui este barracão. Quero ver o que tem dentro.

Zote fez cara de desespero. Tem nada moço. Aqui fora tem tudo que o senhor precisa pra garantir minha dívida!
- Abra seo Zote!
Trêmulo, Zote errou três botes da chave no cadeado. Afinal abriu.
- A lona, seo Zote!
A lona saiu, e o motorzão reluziu quase tanto quanto a cara do fiscal.
Zote ainda arriscou:
- Doutor, esse é o pai e a mãe dos meus filhos...
- Penhorado! Penhorado!
Dias depois, verificado o desatino, o mocinho fiscal voltou, pedindo ajuda e mudança.
Zote faz sentença final:
- Doutor, de negócio ruim eu arrependo fácil. De negócio bom, nunca. O motor é seu.”

quinta-feira, 18 de junho de 2020


O fundamentalismo nazista
                                                                               
Cesar Vanucci

“A nossa revolução é uma nova etapa, ou antes, a etapa
 definitiva da evolução que conduz à supressão da história.”
(Adolf Hitler)

Categorizados analistas da história contemporânea registram, com justificada apreensão, no cenário político mundial, sinais ruidosos de surtos neonazistas, com propensão pandêmica. Não são tão pouco numerosas assim, que não motivem preocupação, as manifestações desencadeadas pelos simbolicamente chamados “camisas pardas”. Ou seja, adeptos de uma seita que prega o ódio, o preconceito. a intolerância e a derrubada das instituições democráticas. A incômoda constatação cria ensancha oportunosa para a recondução a este “minifúndio de papel”, dedicado à produção de singelas e bem intencionadas ideias, algumas considerações sobre o personagem central de um movimento tenebroso que ficou conhecido por “fundamentalismo nazista”.  

Uma faceta menos explorada da personalidade de Adolf Hitler revela-nos, instigantemente, o comprometimento visceral do líder nazista, desde os começos de sua trajetória política, com tresloucados conceitos e ações de cunho místico. É daí que emerge sua convicção pessoal insana, compartilhada com devoção por fanáticos seguidores, do papel messiânico que a história lhe teria reservado. O “Fuhrer” se apresenta e é aceito pela sociedade alemã como o homem capaz de redimir a sua gente. Nas furibundas manifestações em que deixa entrevista sua paranóica exaltação mística, ele se coloca na condução de um movimento diferente, sem similar em época alguma, para que possa executar “missão redentora”.

Num estudo em que assestam a claridade dos holofotes sobre as raízes da filosofia hitleriana, apropriadamente classificada de luciferina, os pensadores Jacques Bergier e Louis Pauwells mostram que a ambição e a “sagrada missão” de que o mesmo se crê investido ultrapassam infinitamente os domínios da política e do patriotismo. Dão a palavra a Hitler para uma melhor explicação dessa assertiva: “A ideia de nação – diz lá o “Fuhrer” – tive de me servir dela por razões de oportunidade, mas já sabia que ela não podia ter mais do que um valor provisório. Dia virá em que pouca coisa restará, mesmo aqui na Alemanha, daquilo que chamamos o nacionalismo. O que haverá no mundo será uma confraria universal dos mestres e dos senhores.”

Fica evidenciado, como esclarecem lucidamente os pensadores mencionados, que a política representou para o autor de “Minha luta” apenas um instrumento retórico. Reduziu-se a aplicação prática e momentânea de uma cartilha de conceitos deformados, de tétrica inspiração esotérica, concernentes às leis da vida. A humanidade seria aquinhoada, dentro dessa linha de ideias mórbidas, com um destino que os homens comuns não seriam nem de leve capazes de conceber, nem mesmo suportar. Só mesmo os homens superiores, os da “raça ariana pura”. Seres que ele, Hitler, procurava fervorosamente preservar da “contaminação com seres impuros”, de maneira a garantir supremacia dos “valores prodigiosos” contidos em sua perversa doutrina.

Adolf Hitler – as evidências estridentes de seus posicionamentos doutrinários estão aí pra confirmar – foi um fundamentalista extremado. O mais radical de todos, na interpretação das leis espirituais que regem a conduta humana e dos fatos sociais que compõem nosso precioso e inalienável patrimônio humanístico. Tinha-se na conta de vidente portentoso. Valia-se de conceitos extraídos de pseudociência para expor alucinadas teorias. Contava com o fanatismo apocalíptico de profetas como o austríaco Hans Horbiger, seu guru de cabeceira, e de companheiros tão insanos quanto o chefe, integrantes de sociedades herméticas engajadas na construção de um “admirável mundo novo”, composto de “semideuses”...

Essa condição de fundamentalista desvairado, perceptível em seus modos de pensar, falar e agir, não pode deixar de ser relembrada na ocasião em que nos acercamos dos setenta e cinco anos da derrocada da Alemanha nazista. Sobretudo, quando se tem sob foco preocupante, nos círculos sinceramente devotados às práticas humanísticas e espirituais autênticas, onde a humanidade bebe inspirações para uma vida digna, a movimentação deletéria, em tantos lugares, de grupos radicais, que fazem do fundamentalismo político ou religioso uma bandeira de luta carregada de ameaças e riscos explosivos.


O fanatismo místico de Hitler

Cesar Vanucci

“Quanto ao frio, o assunto é comigo. Ataquem!”
(Adolf Hitler, aos seus generais)

Adolf Hitler, vimos no comentário anterior, acreditava-se um ser iluminado. Um messias dos novos tempos. Um vidente extraordinário, incumbido de redimir a humanidade e construir uma nova civilização. Confessou a Rauschning, intelectual alemão a quem expunha confidências, disposições as mais tresloucadas: “A nossa revolução é uma nova etapa, ou antes, a etapa definitiva da evolução que conduz à supressão da história”. Vejam até onde chegavam suas delirantes concepções! Sua proposta era simplesmente suprimir a história... Apagar todos os vestígios do patrimônio espiritual, cultural e humanístico edificado ao longo dos tempos.

São de autoria também do supremo dirigente nazista, mencionadas pelo mesmo Raushning, as palavras que se seguem: “Não sabem nada de mim. Os meus camaradas do partido não fazem a menor idéia dos sonhos que carrego comigo e do edifício grandioso do qual pelo menos os alicerces estarão edificando quando eu morrer. (...) Há uma curva decisiva do mundo. Eis-nos na charneira dos tempos. (...) Haverá uma alteração do planeta que vós, os não iniciados, sois incapazes de compreender. (...) O que se passa não é mais do que o aparecimento de uma nova religião.”

Quando se referia à hipotética transformação do planeta, ele se inspirava em previsões apocalípticas transmitidas por “forças ocultas”, em seus estados de transe. Strasser, antigo colaborador do chefe nazista, captou um flagrante desse comportamento doentio: “Aquele que escuta Hitler vê surgir, de súbito, o Fuhrer da glória humana. Aparece uma luz atrás de uma janela escura. Um senhor com um cômico bigode em vassoura transforma-se em arcanjo. Depois o arcanjo levanta vôo: apenas resta Hitler, que se volta a sentar, alagado em suor, com os olhos vítreos.” Anotaram a observação? Um arcanjo! Tudo é paranóia à volta do “messias” nazista.

Foi numa dessas circunstâncias alucinatórias, respaldadas por teorias horbigerianas de cunho pseudocientífico, embebidas de fanatice mística, que Adolf Hitler, segundo Jacques Bergier e Louis Paulwells, embarcou na frustrada aventura bélica que assinalou a reviravolta nos rumos da guerra. Apoderado da convicção de que era capaz de prever com muita antecedência as variações da temperatura no planeta, o dito cujo encasquetou a idéia maluca de que o inverno iria ser relativamente suave, quando suas temíveis legiões, que vinham de vitórias fulminantes nas frentes européias, adentrassem o território russo. Bergier e Pauwels com a palavra: “Enquanto o Fuhrer prestava, habitualmente, particular atenção no equipamento das suas tropas, limitou-se apenas a entregar aos soldados da campanha da Rússia suplemento de vestuário derrisório: uma echarpe e um par de luvas. E, em dezembro de 1941, o termômetro desceu bruscamente a quarenta graus negativos. As previsões eram falsas. As profecias não se concretizaram. Os elementos naturais insurgiam-se (...), cessavam bruscamente de trabalhar para o “homem justo”. (...) As armas automáticas pararam. (...) Na retaguarda, as locomotivas gelavam. Sob seu capote e as botas do uniforme, os homens morriam. A mais ligeira ferida os condenava. Milhares de soldados, ao acocorarem-se sobre o gelo para satisfazer as necessidades fisiológicas, caiam com o ânus congelado. Hitler recusou-se a acreditar nesse desacordo entre a mística e o real. O general Guderian, arriscando-se a ser destituído e mesmo condenado a morte, foi de avião à Alemanha para por o Furher a corrente da situação e pedir-lhe que ordenasse a retirada. Quanto ao frio – disse Hitler – o assunto é comigo. Ataquem!”

O resto está nos livros de história da guerra. Os exércitos blindados que conquistaram numerosos países em questão de dias, as legiões dos “super-homens invencíveis”, golpeados pela inclemência glacial, desapareceram no deserto frio, na tentativa vã de provar que a mística, o fanatismo pudessem ser mais reais que o curso da vida.


Fundamentalismo rima com racismo

Cesar Vanucci

“...Estão afastados de nós como as
espécies animais da verdadeira espécie humana.”
(Adolf Hitler)

Terminada a segunda guerra mundial, em vários lugares, notadamente na Alemanha, Áustria e Itália, muitas pessoas, entre impactadas e temerosas diante da avalancha das atrocidades nazistas, procuraram vender a ideia de que Adolf Hitler enganou todo mundo. Disfarçou-se de cordeiro, embora fosse lobo voraz. Nada menos real. O Fuhrer chegou ao palco mundial – que nem uma bateria de escola de samba adentrando avenida com tonitruantes tambores –, fala e pose “messiânicas”, anunciando, alto e bom som, a que vinha. Quem, dentre os líderes políticos, militares, religiosos da época, conservou os olhos acesos para enxergar e os ouvidos atentos para escutar, cansou de ver e ouvir, com sonora clareza, o recado assustador por ele transmitido.

Sem essa, portanto, de se querer – como fizeram numerosos alemães - confundir omissão e conivência com desconhecimento de causa. O chefão nazista escancarou, desde o comecinho de seu tenebroso itinerário, as garras afiadas do movimento luciferino de que se fez arauto. Apregoou, com palavras e atos, seu pérfido propósito de desmantelar estruturas de vida nucleadas nos valores humanísticos. Impulsionado por misticismo mórbido, com a cumplicidade de multidões de fanáticos aglutinadas em torno de sua desvairada doutrina, prometeu uma “nova era” refulgente para os “puros da raça ariana”. Intitulava-se o “redentor” prometido, numa “curva decisiva do mundo”. Uma “hora mágica”, em que a “biologia mística” iria confrontar a “falsa rota do espírito”. A humanidade, segundo tão tresloucada linha de pensamento, abandonaria a crença nas coisas divinas, “ascendendo” a novos patamares em sua “evolução”...

Nas Olimpíadas de Berlim, o Fuhrer deixou a tribuna furibundo, à hora em que um soberbo atleta negro, dos Estados Unidos, subiu ao pódio, depois de derrotar os oponentes “arianos”. Hitler não jogava com meias palavras para traduzir seu odioso racismo. Propagava sandices como esta: “Judeus, negros e ciganos estão afastados de nós como as espécies animais da verdadeira espécie humana”. As perseguições ignominiosas aos judeus, que desembocaram no holocausto, irromperam antes mesmo de haver se apoderado do poder. Fica impossível admitir que a enlouquecedora conspiração contra os direitos humanos pudesse ser posta em marcha sem apoios ponderáveis da sociedade alemã, compreendidos aí militares, intelectuais, cientistas, políticos etc. No plano internacional, a grande maioria dos que viram e não gostaram, preferiu calar-se. O Fuhrer agregou simpatias declaradas ou prudentemente silenciadas em várias estruturas de poder. A Itália e o Japão renderam-se ao seu “fascínio”. Na Espanha, Franco assumiu o comando com ostensiva ajuda militar germânica.  Salazar, em Portugal, não ocultava admiração pelo ideário hitleriano. No Brasil, vários elementos da cúpula do “Estado Novo” deram demonstrações seguidas de simpatia ao nazismo. Os integralistas bolaram um modelo de atuação de nítida concepção hitlerista. Nas vestes, no símbolo e na ridícula saudação. Aconteceu também, no sul do país, de a suástica ser desfraldada em alguns núcleos de imigrantes alemães. A polícia política da ditadura estabeleceu, em certa época, cooperação com a famigerada Gestapo. Também nos Estados Unidos e Inglaterra, figuras influentes na política e nas finanças chegaram, nalguns instantes, a confessar admiração pelo déspota alemão. A Argentina de Perón, premida pela pressão internacional, só aquiesceu em considerar a Alemanha inimiga da humanidade no instante da capitulação do “Reich”. A ditadura bolchevista russa firmou com a ditadura nazista alemã um pacto de não beligerância. O território polonês foi dividido entre os dois países. Comunistas franceses chegaram a recepcionar as tropas alemãs na chegada triunfante a Paris. Caíram, mais adiante, na clandestinidade e tiveram papel de destaque na resistência à ocupação. Na França ainda, houve o colaboracionismo da “República de Vichy”, liderada pelo marechal Petain, herói da primeira guerra mundial...

Todos esses registros – tornamos a dizer – fazem-se oportunos nesta proximidade da comemoração dos 75 anos do término da segunda guerra mundial. Até mesmo pela circunstância do surgimento, na atualidade, em várias partes do mundo, de núcleos fundamentalistas neonazistas ativos, empenhados em propagar, com muito rancor e manifesta belicosidade, as concepções racistas e antidemocráticas da “nova civilização” projetada por Hitler para durar milhares de anos...

Alvissareiro comprovar que esse radicalismo terrorista é veementemente repudiado pela consciência cívica e democrática. Pelo sentimento universal.

sexta-feira, 12 de junho de 2020


Depois do amanhã

Cesar Vanucci

“Nascidos um para o outro.”
(Editorial do “O Estado de São Paulo” criticando
 atitudes do Presidente Jair Bolsonaro e do ex-Presidente Lula)

· Das profundezas do abismo em que a humanidade se viu mergulhada emergem lições valiosas e definitivas. O mundo não poderá continuar a ser o mesmo depois de amanhã. A ordem das coisas no plano econômico terá que ser reformulada com embasamento na justiça social. As indecentes desigualdades detectadas no partilhamento das riquezas produzidas pelo labor coletivo terão que desaparecer da conturbada paisagem social. Formatar novo modelo de convivência entre pessoas, grupos e países, não cogitados até agora nas numerosas e equivocadas políticas econômicas e sociais adotadas mundo afora, em diversificados momentos e circunstâncias, representa escopo grandioso. As aspirações das ruas são no sentido de que esse objetivo seja perseguido com santa obsessão. A importante tarefa de conectar o processo civilizatório em marcha com as diretrizes de vida traçadas pelo humanismo e espiritualidade há que ser agarrada com vontade política, sensibilidade social aguçada pelas lideranças verdadeiramente comprometidas com a causa da elevação dos padrões de bem-estar humano. Impõe-se a implantação de estruturas de convivência capazes de compatibilizar os extraordinários avanços tecnológicos contemporâneos com os ardentes anseios populares por melhorias nas condições de vida comunitária. A dissociação dessas conquistas, em caráter inteiriço, com o conforto humano global provoca lesões difíceis de serem tratadas na cruel realidade enfrentada por bilhões de criaturas. Todas elas com inalienáveis direitos aos benefícios que a ciência e o desenvolvimento estão potencialmente capacitados a oferecer aos povoadores deste planeta azul. A miséria, sob quaisquer de suas horrendas configurações, carece ser banida da face da terra. Constitui ignominia e insulto à dignidade do ser humano. É imperioso seja posta a funcionar, a pleno vapor, sem tergiversações, nem contemplação acomodada para com omissões, ganância e conveniências espúrias, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. O acesso a moradia, emprego, saúde e educação terá que ser assegurado a todos, em todos os lugares. A história do desenvolvimento reclama, das cabeças pensantes mais privilegiadas dos quadros dirigentes, envolvendo formadores de opinião e tomadores de decisão, que participem, ativa e solidariamente, de diálogos que consolidem projetos sociais transformadores. Projetos inspirados, obviamente, nas recomendações da justiça social, de modo a que se possam colher, de conseguinte, frutos compensadores. O clamor da sociedade por dias mais bonançosos exige posturas renovadoras. A harmonia social, solenemente pregada na retórica dos palanques políticos, terá que deixar de ser, no depois do amanhã, teoria vazia, cantilena falaciosa, para se converter em prática de vida plena e estuante.

· Editorial do jornal “O Estado de São Paulo”, de dias atrás, bate pesado nos dois personagens mais notórios da atualidade política brasileira. “Nascidos um para o outro” é o que se proclama, na referida matéria, com foco no Presidente Jair Messias Bolsonaro e no ex-Presidente Luiz Ignácio Lula da Silva. “Tanto o presidente da República quanto o chefão petista se associam na mais absoluta falta de escrúpulos em níveis que fariam até Maquiavel corar”, anota ainda o comentário.

·Depois de sinalizar abundantemente que acabaria adotando a medida extrema, o presidente Donald Trump tornou efetiva a decisão de proibir a entrada no território estadunidense de viajantes procedentes do Brasil. A argumentação oferecida é de que está havendo, neste instante, em nossos pagos, completo descontrole nas ações de combate ao coronavírus. A proibição coincide com o fato de o Brasil haver assumido, desconsoladoramente, o segundo lugar entre os países do mundo, nas alarmantes estatísticas da impiedosa enfermidade. Até a hora em que estas anotações adquiriam - como era de costume dizer-se no passado – “letra de forma”, a única manifestação conhecida de alguém ligado ao Planalto consistia na afirmativa de que “o governo americano está seguindo parâmetros quantitativos previamente estabelecidos, que alcançam naturalmente um país tão populoso quanto o nosso, não havendo nada específico contra o Brasil”. O registro estava complementado pela seguinte frase: “Ignorar a história da imprensa”. Cabe aduzir, a propósito, que os Estados Unidos são, acima do Brasil, o país que apresenta os mais volumosos indicadores de propagação do surto pandêmico. Da parte de Brasília não houve qualquer decisão de se restringir, no território nacional, a entrada de pessoas provindas dos Estados Unidos.


                          

quinta-feira, 4 de junho de 2020


A inverossímil reunião ministerial

Cesar Vanucci

“Por mim colocava estes vagabundos todos na cadeia; começando no STF.”
(Abraham Weintraub, Ministro da Educação)

O vídeo divulgado garantiu suporte para desconcertante constatação. Na escala da sinuosa atuação governamental, as coisas não são tão espantosas quanto a gente imagina. São bem mais espantosas do que a gente jamais conseguirá imaginar. O incrível enredo da reunião ministerial mostrado ao vivo e a cores, graças à autorização emanada do STF, deixou evidenciado muito mais do que aquilo que foi objeto de denúncia do ex-Ministro Sérgio Moro. Ex-ministro esse - assinale-se de passagem - que acabou sendo abruptamente rebaixado à condição de “traíra” e “vilão” pelos mesmíssimos setores que, indoutrodia, faziam questão de apontá-lo, em tom retumbante, como ídolo nacional inconteste.

As demais revelações trazidas a lume são de estarrecer não tão somente um frade de pedra, como é de hábito dizer.São capazes de estarrecer, também, todas juntas, as sagradas estátuas de pedra do fabuloso conjunto barroco esculpido por Mestre Aleijadinho no átrio do majestoso Santuário do Bom Jesus de Matozinhos, em Congonhas do Campo. Verdade verdadeira, ficaria praticamente impossível encaixar o que foi visto e ouvido no tal encontro do Presidente da República com ministros e outros convidados, num roteiro de estudo e diálogo realmente concentrado no propósito saudável de definir ações voltadas para o interesse público e a construção humana.

Se tudo quanto visto em detalhes pela televisão tivesse sido apenas relatado oralmente, com certeira convicção a grande maioria das pessoas – incluindo mesmo adversários do Governo tomados por paixão política –colocaria em dúvida boa parte das informações. Chegaria mesmo a admitir tratar-se de uma nova e indigesta “fake” da avalancha diuturnamente produzida pela horda de desatinados que age nas redes sociais. As baixarias, impropérios, os ataques desabridos à liberdade de imprensa, manifestações exacerbadas de rancor e prepotência, argumentos e propostas impertinentes formuladas por alguns dos participantes, a começar do principal personagem da mesa, traduziram despreparo político e cívico, bem como esgares de autoritarismo inconciliáveis com o regime democrático e as normas republicanas.

É oportuno ainda registrar que, para mal dos pecados e ampliação do grau de perplexidade da opinião pública, a pauta da inverossímil reunião abrangeu itens relevantes suprimidos na divulgação procedida por conterem – ora, veja, pois! - outros ingredientes considerados mais perturbadores.A um cidadão qualquer que não tenha acompanhado a transmissão poderá ocorrer, naturalmente, a seguinte indagação: e quanto à dramática questão da crise humanitária que nos assola, com seus perversos efeitos na saúde pública e nas áreas econômica e social, o que foi mesmo abordado e definido no encontro? A única e aturdidora resposta é esta: nada, vezes nada. O lance mais próximo do assunto ficou por conta de uma observação do Ministro do Meio Ambiente, sugerindo mobilização de esforços no sentido de “passar a boiada” enquanto as atenções das ruas estiverem focadas no corona. Ou seja, “tratemos” de baixar atos, decretos, normas que permitam a “flexibilização” – como está na moda dizer nestes confusos tempos - das determinações vigorantes nas políticas de proteção ambiental.

Esse episódio liliputiano, falto de grandeza, que alcançou reverberação negativa até internacional, empobrece nossos foros de cidadania, amesquinha a vida pública e ofende as instituições democráticas.


                                                    


Meus óculos, cadê eles?

 

Cesar Vanucci


“Raramente você encontra um texto que informe e

distraia ao mesmo tempo. Martha Lear faz as duas coisas.”

(Mary Tyler Moore, crítica literária estadunidense)

Sala de espera na clínica de olhos. Um paciente movimenta-se de um lado pra outro, com visível preocupação, à cata dos óculos. Dá-se conta, de repente, explodindo em gargalhadas, que o “objeto perdido” estava pendurado no pescoço o tempo todo. O episódio cria ensancha para um bate-papo animado, com relatos bem- humorados de casos parecidos. Participante da conversa, comprometo-me a falar, neste acolhedor espaço, de um livro que trata justamente lapsos de memória envolvendo pessoas comuns em suas vivências cotidianas.

Você já se perguntou hoje, um tantinho ansioso, “Cadê meus óculos?” Já? Saiba, então, cá entre nós, que não foi o único a fazer essa pergunta. Milhões de criaturas, em tudo quanto é canto, tanto quanto você, perdem sempre, momentaneamente, a noção de onde deixaram os óculos durante a execução de alguma tarefa em casa ou na rua.

Isso aí. Todos nos defrontamos, no curso da lufa-lufa cotidiana, com esses inesperados lapsos de memória. Uns mais, outros menos. Martha Weinman Lear, jornalista estadunidense, especializada em comportamento, cultura e ética na medicina, com clareza e esfuziante bom humor, propõe-se no livro “Onde deixei meus óculos?” a explicar tintim por tintim muita coisa que apreciaríamos saber sobre a perda da memória e como minimizar e conviver com os problemas dela derivados.

A leitura deixa nitidamente precisa a distinção entre perda normal da memória - fenômeno natural que ocorre, até um determinado grau, a partir da meia idade - deficiência cognitiva branda e demência. Milhões de pessoas, em todo o mundo, repetimos, são vítimas de pequenos lapsos de memória. Esquecem nomes de conhecidos, o que provoca, amiúde, indesejáveis constrangimentos. Não se lembram nadica de nada do que estavam prontos pra dizer instantes atrás. Perdem a ideia do lugar em que deixaram, inda agorinha mesmo, os óculos, as chaves, a pasta com documentos.

Quem lida diuturnamente com a palavra vê-se às voltas, às vezes, de modo repentino e intempestivo, com a dificuldade de encontrar um termo adequado pra encaixar no texto em elaboração. Os registros da memória revelam-se, nessa hora, claudicantes. Toma tempo, gera fadiga mental, reencontrar a palavra procurada.

Situações assim, corriqueiras, costumam esquentar a cachola de não poucos viventes. Os mais tensos deixam escapulir uma preocupação: será que isso é prenuncio de “Alzheimer”?

Ancorada em penetrante trabalho de pesquisa, valendo-se de depoimentos valiosos de especialistas renomados, reportando-se a histórias reais bastante ilustrativas, a autora do livro aglutina um volume substancioso de informações que ajudam a passar certa tranquilidade às pessoas, sobretudo àquelas com propensão hipocondríaca que se crêem enfermiças mentais irrecuperáveis diante de ligeiros sinais de esquecimento, próprios da etapa etária vivida.

As dicas e truques ensinados como contribuição para que os interessados, exercitando a memória, suplantem os transtornos decorrentes desses indesejáveis momentos, são parte valiosa do trabalho.

“– Querido – ela pede -, quando você levar o cachorro para passear, poderia por esta carta no correio para mim?
- Claro.
- E apanhar meu vestido na lavanderia?
- OK.
- Sabe o que eu realmente queria? Um sundae de baunilha com castanha e cobertura de morango.
- OK.  – Ele vai em direção à porta.
- Espera aí! Escreva senão você vai esquecer.
- Não vou esquecer. Sundae de baunilha com castanha e cobertura de morango. – Ele sai.
Logo ele retorna, carregando uma pequena sacola de papel. Lá dentro só tem uma baguete.
- Eu bem que disse! – ela reclama. – Você esqueceu o requeijão”.

“Onde deixei meus óculos” despeja nos leitores revelações interessantes sobre os recursos realmente eficazes para deixar a memória mais afiada, anotando os eventuais benefícios que podem ser proporcionados pelos exercícios físicos e hábitos saudáveis de alimentação. Conclama-nos a ser mentalmente ativos, fisicamente ativos, socialmente ativos, para desfrutar com alegria as prendas da vida.

Um livro, sem sombra de dúvida, encantador e instrutivo.



O PERIGO NUCLEAR
Guido Bilharinho *



          Além de pandemias e outros males, mais letal do que elas e eles, muito mais letal, total e definitivamente destrutivo da vida no planeta constitui o permanente e onipresente perigo nuclear.
          Desde que os cientistas, movidos e pagos pelas classes dominantes e seus representantes legais dos países mais desenvolvidos (e mais ambiciosos), estabeleceram a “cizânia entre os átomos” conforme o poeta de Patos de Minas, Ricardo Marques, a terra perdeu sua incolumibilidade e possível infinitude, passando a correr perigo, real e factível.
          Conforme o diplomata Sérgio Duarte, “uma das maiores autoridades mundiais no tema” (Folha de S. Paulo, 06/03/2020), em depoimento ao citado jornal, “embora a quantidade total dessas armas [nucleares] tenha diminuído consideravelmente ao longo do tempo, os arsenais existentes são suficientes para inviabilizar completamente a civilização humana caso sejam utilizados, por desígnio ou acidente”.
          Não obstante, por meio de acordos e convenções, o arsenal nuclear tenha diminuído, “o mundo hoje corre mais riscos de ver um conflito atômico do que há 50 anos [....] não há dúvida de que nos tempos de hoje o mundo é mais perigoso do que em qualquer época desde o início da era nuclear”, afirma ainda o citado especialista.
          Com o término, por volta de 1990, da Guerra Fria entre EE.UU. x URSS, pensava-se que o latente perigo nuclear teria passado e o mundo caminharia para distensão, destruição de arsenais e mísseis e, finalmente, desarmamento.
          Isso, no entanto, não ocorreu, demonstrando que a situação de animosidade e beligerância entre nações não foi nem é decorrência da antinomia entre regimes econômicos (capitalismo x “soi-disant” socialismo), mas, é endógena, de dentro do próprio capitalismo, o que a torna permanente enquanto esse regime subsistir e predominar. E quem irá pôr o guizo no pescoço do gato?
          A rivalidade entre os EE.UU. e a Rússia capitalista continua acesa, não apenas retirando-se os EE.UU. de acordo de contenção nuclear celebrado com a Rússia como, ainda, acelerando a produção de artefatos nucleares e aperfeiçoando cada vez mais a eficácia e alcance de mísseis transportadores.
          A efetiva ocorrência dessa contradição intercapitalista tomou vulto e ganhou ênfase com a atual “guerra” comercial abertamente declarada e implementada pelo Governo dos EE.UU. contra a capitalista China (só nominalmente denominada “socialista”), “guerra” que nada tem de ideológica ou de divergente cunho organizacional.
          A concorrência, princípio básico e até certo ponto salutar do capitalismo, possui efeitos colaterais (ou até centrais) perniciosos quando exacerbados, como vem sendo o caso por parte dos declinantes EE.UU., que não querem perder sua hegemonia mundial, econômica e militar.
          Que o caso não é nem nunca foi ideológico nem de princípios (morais, religiosos e democráticos), basta lembrar a sincera afirmação de John Foster Dulles, antigo ministro das Relações Exteriores dos EE.UU. (lá denominadas Departamento de Estado), de que “os EE.UU. não tem amigos, tem interesses”.
          As assertivas de “mundo livre”, “democracia”, “valores cristãos” e outras não passam de meros chavões pretextuais para encobrir e disfarçar as verdadeiras razões de campanhas publicitárias e intervenções militares, que visam defender interesses econômicos e/ou estratégicos concretos, dos quais seus detentores não abrem mão em hipótese alguma. Aí é que mora o perigo!
          Tais interesses é que dominam, direcionam e encaminham o mundo para ultrapassar os extremos limites da autodestruição planetária, ponto a que se está sempre muito próximo, como o citado embaixador Sérgio Duarte adverte:
          “Todos os nove [nove já!] possuidores de armas nucleares, sem exceção, vêm aumentando seus arsenais ou acrescentando novas tecnologias destruidoras, como mísseis várias vezes mais velozes que o som, uso de técnicas cibernéticas, lasers, inteligência artificial e outras inovações, numa verdadeira proliferação tecnológica.”
*
          Diante desse quadro macabro e dantesco, o que fazer?
          Essa a questão, já que a necessidade de se fazer alguma coisa se impõe, sob pena de omissão suicida.
          Mesmo assim, como se nota no mundo todo, ninguém se move ou, se se move, constitui apenas (e por enquanto?) movimentos isolados, desconectados de rede internacional de organizações pacifistas e desarmamentistas, sem a indispensável divulgação e apoio de uma mídia interesseira, oportunista e negocista.
          Essa omissão deriva do desinteresse, que se diria mórbido, por qualquer coisa que ultrapasse a luta pela sobrevivência pessoal e familiar e, também, por comodismo e preguiça, sob a conveniente alegação de que não se tem poder nem influência sobre a questão.
          O primeiro caso é de difícil solução, já que tirar a população de sua crônica letargia e pasmosa indiferença para o que não seja imediato e restrito, seria o décimo-terceiro trabalho de Hércules.
          Já a preguiça e o comodismo podem ser superados pela conscientização e pela introjeção de objetivo realmente grandioso para vidas desmotivadas.
          Apesar disso, e até por isso, é necessário que se faça alguma coisa para tentar interferir e obstaculizar o desatino e a loucura de inúmeros detentores do poder econômico e de seus representantes na direção (executivos, legislativos e judiciários) das nações, cada vez mais armadas.
          Enganam-se os que julgam impossível influenciar e redirecionar esse e outros desvarios.
          Contudo, é necessário, primeiro, que se interessem e se importem com o problema. Segundo, que se informem, minimamente que seja, sobre ele. Depois, que partam para se organizarem em grupos de debates e atuação, em cada cidade ou em cada bairro, visando batalhar (essa, sim, batalha humanística) pelo desarmamento mundial, primeiro, de armas nucleares e, numa segunda etapa, quem sabe? até mesmo de armas convencionais, com as quais os países gastam bilhões sob o pretexto de defesa, que poderiam e deveriam ser direcionados à infraestrutura, saneamento, saúde, educação e outros gastos imprescindíveis. Armas não são imprescindíveis.
          Aliás, tais grupos poderiam ser organizados para debates, estudos e atuação não apenas em torno do desarmamento, porém, visando todas as questões fundamentais para a sociedade: políticas, econômicas, organização administrativa, sistema partidário-eleitoral, democracia, drogas, saúde, educação, segurança, etc., etc.

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Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/




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