quinta-feira, 4 de junho de 2020



O PERIGO NUCLEAR
Guido Bilharinho *



          Além de pandemias e outros males, mais letal do que elas e eles, muito mais letal, total e definitivamente destrutivo da vida no planeta constitui o permanente e onipresente perigo nuclear.
          Desde que os cientistas, movidos e pagos pelas classes dominantes e seus representantes legais dos países mais desenvolvidos (e mais ambiciosos), estabeleceram a “cizânia entre os átomos” conforme o poeta de Patos de Minas, Ricardo Marques, a terra perdeu sua incolumibilidade e possível infinitude, passando a correr perigo, real e factível.
          Conforme o diplomata Sérgio Duarte, “uma das maiores autoridades mundiais no tema” (Folha de S. Paulo, 06/03/2020), em depoimento ao citado jornal, “embora a quantidade total dessas armas [nucleares] tenha diminuído consideravelmente ao longo do tempo, os arsenais existentes são suficientes para inviabilizar completamente a civilização humana caso sejam utilizados, por desígnio ou acidente”.
          Não obstante, por meio de acordos e convenções, o arsenal nuclear tenha diminuído, “o mundo hoje corre mais riscos de ver um conflito atômico do que há 50 anos [....] não há dúvida de que nos tempos de hoje o mundo é mais perigoso do que em qualquer época desde o início da era nuclear”, afirma ainda o citado especialista.
          Com o término, por volta de 1990, da Guerra Fria entre EE.UU. x URSS, pensava-se que o latente perigo nuclear teria passado e o mundo caminharia para distensão, destruição de arsenais e mísseis e, finalmente, desarmamento.
          Isso, no entanto, não ocorreu, demonstrando que a situação de animosidade e beligerância entre nações não foi nem é decorrência da antinomia entre regimes econômicos (capitalismo x “soi-disant” socialismo), mas, é endógena, de dentro do próprio capitalismo, o que a torna permanente enquanto esse regime subsistir e predominar. E quem irá pôr o guizo no pescoço do gato?
          A rivalidade entre os EE.UU. e a Rússia capitalista continua acesa, não apenas retirando-se os EE.UU. de acordo de contenção nuclear celebrado com a Rússia como, ainda, acelerando a produção de artefatos nucleares e aperfeiçoando cada vez mais a eficácia e alcance de mísseis transportadores.
          A efetiva ocorrência dessa contradição intercapitalista tomou vulto e ganhou ênfase com a atual “guerra” comercial abertamente declarada e implementada pelo Governo dos EE.UU. contra a capitalista China (só nominalmente denominada “socialista”), “guerra” que nada tem de ideológica ou de divergente cunho organizacional.
          A concorrência, princípio básico e até certo ponto salutar do capitalismo, possui efeitos colaterais (ou até centrais) perniciosos quando exacerbados, como vem sendo o caso por parte dos declinantes EE.UU., que não querem perder sua hegemonia mundial, econômica e militar.
          Que o caso não é nem nunca foi ideológico nem de princípios (morais, religiosos e democráticos), basta lembrar a sincera afirmação de John Foster Dulles, antigo ministro das Relações Exteriores dos EE.UU. (lá denominadas Departamento de Estado), de que “os EE.UU. não tem amigos, tem interesses”.
          As assertivas de “mundo livre”, “democracia”, “valores cristãos” e outras não passam de meros chavões pretextuais para encobrir e disfarçar as verdadeiras razões de campanhas publicitárias e intervenções militares, que visam defender interesses econômicos e/ou estratégicos concretos, dos quais seus detentores não abrem mão em hipótese alguma. Aí é que mora o perigo!
          Tais interesses é que dominam, direcionam e encaminham o mundo para ultrapassar os extremos limites da autodestruição planetária, ponto a que se está sempre muito próximo, como o citado embaixador Sérgio Duarte adverte:
          “Todos os nove [nove já!] possuidores de armas nucleares, sem exceção, vêm aumentando seus arsenais ou acrescentando novas tecnologias destruidoras, como mísseis várias vezes mais velozes que o som, uso de técnicas cibernéticas, lasers, inteligência artificial e outras inovações, numa verdadeira proliferação tecnológica.”
*
          Diante desse quadro macabro e dantesco, o que fazer?
          Essa a questão, já que a necessidade de se fazer alguma coisa se impõe, sob pena de omissão suicida.
          Mesmo assim, como se nota no mundo todo, ninguém se move ou, se se move, constitui apenas (e por enquanto?) movimentos isolados, desconectados de rede internacional de organizações pacifistas e desarmamentistas, sem a indispensável divulgação e apoio de uma mídia interesseira, oportunista e negocista.
          Essa omissão deriva do desinteresse, que se diria mórbido, por qualquer coisa que ultrapasse a luta pela sobrevivência pessoal e familiar e, também, por comodismo e preguiça, sob a conveniente alegação de que não se tem poder nem influência sobre a questão.
          O primeiro caso é de difícil solução, já que tirar a população de sua crônica letargia e pasmosa indiferença para o que não seja imediato e restrito, seria o décimo-terceiro trabalho de Hércules.
          Já a preguiça e o comodismo podem ser superados pela conscientização e pela introjeção de objetivo realmente grandioso para vidas desmotivadas.
          Apesar disso, e até por isso, é necessário que se faça alguma coisa para tentar interferir e obstaculizar o desatino e a loucura de inúmeros detentores do poder econômico e de seus representantes na direção (executivos, legislativos e judiciários) das nações, cada vez mais armadas.
          Enganam-se os que julgam impossível influenciar e redirecionar esse e outros desvarios.
          Contudo, é necessário, primeiro, que se interessem e se importem com o problema. Segundo, que se informem, minimamente que seja, sobre ele. Depois, que partam para se organizarem em grupos de debates e atuação, em cada cidade ou em cada bairro, visando batalhar (essa, sim, batalha humanística) pelo desarmamento mundial, primeiro, de armas nucleares e, numa segunda etapa, quem sabe? até mesmo de armas convencionais, com as quais os países gastam bilhões sob o pretexto de defesa, que poderiam e deveriam ser direcionados à infraestrutura, saneamento, saúde, educação e outros gastos imprescindíveis. Armas não são imprescindíveis.
          Aliás, tais grupos poderiam ser organizados para debates, estudos e atuação não apenas em torno do desarmamento, porém, visando todas as questões fundamentais para a sociedade: políticas, econômicas, organização administrativa, sistema partidário-eleitoral, democracia, drogas, saúde, educação, segurança, etc., etc.

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Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, fotografia, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/




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