sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O sábio que acaba de partir

Cesar Vanucci *

“A seiva gostosa da vida paroquial.”
(É como Padre Libanio se referia à sua
experiência como pároco em Vespasiano)

Uma dúzia, mais ou menos, de contatos pessoais espacejados para troca de opiniões. Outro tanto de ligações telefônicas, distribuídas ao longo de uns quinze anos. Mais a leitura constante de seus escritos em livros e artigos. Tudo isso junto concorreu para garantir-me um lugar nas fileiras da frente na legião de admiradores do saudoso Padre João Batista Libânio. Sua figura austera, de serenidade nazarena, a inteligência refulgente e a invejável sabedoria humanística, refletidas na palavra social empenhada na construção de mundo mais fraterno e igualitário, tornaram-no personagem de realce na galeria dos grandes pensadores da história brasileira contemporânea.

Libanio era formado em teologia, desfrutando de reputação mundial nessa fascinante área do conhecimento. Atuou como mestre e doutor na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma e em numerosas universidades brasileiras. Foi assessor da Conferência dos Religiosos do Brasil e do Instituto Nacional de Pastoral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB.

Escreveu “livros à mancheia”, mandando “o povo pensar”: 36 de autoria individual, 125 em coautoria. Engajado na peleja das letras sagradas, como costumava dizer, circulou pelo Brasil inteiro, pelo continente, por muitos países da Europa, pregando a teologia da libertação, da qual se fez qualificado mensageiro. Estocou experiências de cunho social valiosíssimas para o trabalho apostólico encetado. “Foram tempos muito ricos e que me fizeram mergulhar na realidade latino-americana”, registrou.

Dono de cultura e erudição incomuns foi pessoa de vida bastante singela. Sentia-se realizado em plenitude com a “seiva gostosa da vida paroquial”, sorvida notadamente nas ações pastorais cumpridas em Vespasiano, Minas Gerais.

Conviveu, nas latitudes elevadas da inteligência filosófica com algumas das cabeças pensantes mais bem aquinhoadas do mundo contemporâneo. Recolheu e transmitiu saberes, orientando as pessoas no sentido da busca de um entendimento melhor a respeito dos cruciais desafios enfrentados pela sociedade de nossos tempos. Admitia que as questões humanas estavam resumidas na tentativa de “sobrevivência diante da insânia incompreensível de uma razão enlouquecida pela ganancia e pelo poder, além de surtos fanáticos”. Propunha, como objetivos religioso e humanístico essenciais, o ecumenismo e um diálogo interreligioso de amplitude tal que permitisse “todas as religiões” convergirem numa mesma direção na construção da paz e da convivência entre os povos. Chamava a atenção para a violência imperante no mundo sob diferentes formas, sublinhando que as reações desvairadas do homem estavam “destruindo o cosmos”, fomentando guerras e guerrilhas “alimentadas principalmente pela indústria armamentista e pelo comércio da droga.”

Libanio vai fazer baita falta na difusão de boas ideias e nas ações voltadas para as transformações sociais.


Outros carnavais


“Os vícios de outrora são os costumes de hoje.”
(Sêneca - 55 a.C a 39 d.C)

O carnaval se aproxima com suas singulares e magnéticas sensações. Traz consigo, como agora costumeiramente acontece, acauteladoras recomendações da Saúde Pública, dirigida sobretudo aos jovens foliões. O conselho dado é para que não se descuidem. Carreguem sempre nos bolsos e nas bolsas, por favor, os estoques pessoais de preservativos.

Acode-me, nesta hora, à memoria velha de guerra episódio, já relatado anos atrás, referente ao Candinho. Coisa ocorrida nas ladeiras da infância, num contexto cultural que nada tem a ver com a realidade de hoje.

Candinho era o que se poderia chamar de moleque endiabrado. Nove anos de peraltices. Falo de um tipo de travessura inofensiva, tempos da escola risonha e franca, comecinho da década de 40, quando o golquiper do Uberaba Sport se chamava Yé. O danado do menino morava na rua Alaor Prata, centro de Uberaba. Colegas de escola, participávamos das peladas de rua, movidas a bola de pano, um pouco de briga, palavrões, de quando em vez interrompidas por conta de um chute mal calibrado reduzindo a estilhaços a vidraça da casa de dona Lili.

Naquele dia, Candinho entrou, esbaforido em casa, carregando uma vareta de bambu com estranhos objetos dependurados na ponta. Chegou até a cozinha, onde Gertrudes, a mãe, quitandeira de mão cheia, frequentadora da missa diária na Igreja dos dominicanos, preparava um bolo de fubá afamadíssimo, cuja receita se recusava, egoisticamente, a passar pras conhecidas. No minuto em que, ajeitando melhor os óculos, se deu conta da natureza dos objetos trazidos pelo filho, a santa criatura quase teve um troço. O que saiu da garganta foi mais um uivo de animal ferido. Ecoou por toda rua. Ameaçando o filho com o chinelo, afogada em lágrimas, a bondosa mulher quase perdeu o fôlego, recorrendo aos sais aromáticos trazidos providencialmente pela vizinha e comadre, dona Naná, ela também em estado de choque.

O que acabara de ser introduzido, pelas mãos do menino, naquele lar honrado, temente a Deus, eram mercadorias repulsivas cuja simples citação a moral e os bons costumes desaconselhavam em rodas de família. Como os tempos são outros, pra não espichar demasiadamente a curiosidade do leitor, vou dando logo nome aos artigos causadores do bafafá, artigos reservados para pecaminosas ações, em âmbitos dominados pela luxuria, despojados ali do invólucro de papel, soltos ao vento: camisinhas de vênus. Um punhado. Ficou óbvio que o guri não tinha consciência da real serventia do material. Tanto que, sem propósito de troça, assustado, sugeriu candidamente fosse "colocado ar naquilo pra virar bexiga", ou, então, que se fizesse linguiça "daquelas tripas", enchendo-as de pedaços de lombo. Na casa tomada rapidamente por pequena multidão alguém comentou com Jerônimo, pai de Candinho, convocado às pressas no serviço, que as camisinhas haviam sido dadas pelo dono da farmácia da esquina. O já transtornado Jerônimo virou bicho. Todos se assustaram ao vê-lo anunciar um acerto de contas, garrucha na cinta, a costumeira mansidão de boi transformada em fúria de leão. Guilhermina, respeitada pelos competentes dotes de benzedeira, persignando-se, bradava num canto da casa, para quem se dispusesse a ouvi-la, seu refrão predileto: "O mundo tá perdido! De mil passou, mas a dois mil não chegará!" Descobriu-se, mais adiante, com a mediação do pároco, que a história do farmacêutico tava mal contada. Os preservativos haviam sido largados, isso sim, num terreno baldio perto da farmácia. O pai injuriado foi, assim, dissuadido de tomar satisfação. Mas, por via das dúvidas, o farmacêutico tirou o time de circulação, arranjando viagem súbita a Sacramento.

Isso aí, gente boa! O hilário confronto dessas imagens da meninice com os reclames institucionais do governo para o momento carnavalesco – por exemplo, o do preservativo ajustado a robusto recipiente de suco de uva mostrado na televisão anos atrás - revela, de modo lapidar, como são desconcertantes e inesperados os rumos da história no trepidante capítulo do comportamento e costumes. Quem não se mostrar, devidamente preparado para as surpresas desconcertantes destes tempos de agora, acaba, inapelavelmente, dando uma de dona Gertrudes. Tem um troço.
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XXI Encontro Cultural da Academia






quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

CONVITE XXI ENCONTRO CULTURAL DA "ACADEMIA MINEIRA DE LEONISMO"








Espiritualidade e física quântica. 
 A psicóloga Cristina Cavalieri, do Instituto Rama, encaminhou-nos gentilmente a gravação que fez da palestra de Maria Ângela Vaz de Melo, proferida no XX Encontro Cultural da Academia. Os interessados em ouvir essa vibrante exposição poderão acessar o link a seguir.
http://www.youtube.com/watch?v=SmqE2T5F63U&feature+youtu.be


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Questão social, não policial


Cesar Vanucci *

“Não se viu, a propósito dos rolezinhos, um debate sobre as
 causas estruturais que permitiram a essas mobilizações aflorar.”
(Senador Cristovam Buarque)

Fixei a atenção por momentos nos assim denominados rolezinhos. Precisei de curto tempo para concluir que a questão levantada é social, não policial. Pitadas de preconceito e de despreparo profissional é que andam conferindo ao caso dimensão despropositada. A contribuição da mídia sensacionalista revelou-se significativa para o espalhafato criado a respeito. Ou seja, desses encontros marcados em “shoppings” por jovens da periferia socialmente desguarnecida.
A história reclama diálogo urgente para que sejam desfeitos mal-entendidos. O debate terá que ser calcado num bom começo de conversa. Isso implica no reconhecimento taxativo do direito à livre circulação de qualquer cidadão, independente da categoria social, em todo e qualquer centro comercial. Em tudo quanto é lugar de convergência pública. A vedação pura e simples dessa prerrogativa cidadã, que está atrelada à liberdade constitucional de ir e vir, caracteriza inapelavelmente apartação social. Agressão a um direito fundamental, à democracia. Rescende a “apartheid”, para relembrar, desgostosamente, vocábulo repulsivo empregado para designar práticas segregacionistas ainda aplicadas em certas paragens deste nosso mundo velho de guerra sem porteira.
Assim vistos os acontecimentos, o melhor a fazer é partir imediatamente para a construção do diálogo. Comungo do ponto de vista do Prefeito Fernando Haddad, de São Paulo, quando propõe que “as cidade têm de ser discutidas”, sugerindo sejam abertos espaços públicos para que seus habitantes de todas as faixas etárias e classes possam desfrutá-las. E, quando também pontua que a incompreensão de muita gente face ao assunto tem suscitado reações marcadas por exageros. “Mas nada, que uma boa conversa não resolva”, como sublinha.
O que os rolezinhos vêm fazendo é, na verdade, denunciar uma sociedade desumana, injusta e segregadora, como também constata o filósofo Leonardo Boff, entre outros categorizados observadores da conjuntura social. Cristovam Buarque, senador da República, é outra voz respeitada a partilhar da mesma percepção. Admite: os rolezinhos “desnudam o sistema de apartação implícita, sem leis.” Alerta ainda: “Daqui para a frente, os “shoppings” (...) terão um papel positivo no conforto social, mas a “guerrilha cibernética” (o senador refere-se aí às redes sociais utilizadas para a programação dos encontros dos jovens) é uma realidade com a qual vamos conviver. Ou assume-se a segregação explicita, ou promove-se a miscigenação social.”
Não era pra ser, mas virou problema, por ausência de bom senso no trato da questão. Moças e rapazes das camadas menos aquinhoadas financeiramente, a exemplo de rapazes e moças das camadas afortunadas, possuem todo o direito do mundo em programar pelas redes sociais encontros em lugares de afluência pública, os shoppings incluídos. Despiciendo registrar que ninguém, nenhum poder articulado, pode estabelecer restrições a esses contatos via internet, nem tampouco impedir sejam os encontros realizados em consequência de posturas preconceituosas de classe. De outra parte, habitualmente inábil na lida social, como fartamente demonstrado, a polícia não pode adotar na vigilância contra eventuais excessos praticados em locais públicos, o estilo “leão de chácara” de boate. Não se ajusta ao seu papel institucional exigir de quem frequente centros comerciais carteirinha indicativa de capacidade pecuniária como consumidor.
Deixe-se claro, ainda, por outro lado, aos jovens que seus encontros em lugares públicos não podem se aprestar a palco de arruaças e confusões. E sejam as autoridades competentes lembradas que lhes cumpre a obrigação de distinguir, com precisão e equilíbrio, a diferença de comportamento entre quem compareça a tais locais para papear com amigos, usufruir momentos de lazer, adquirir mercadorias e os que – certeiramente, uma minoria insignificante – estejam ali a fim de infringir regras de convivência social. Confundir, por puro preconceito, jovens das periferias com marginais é insano e injusto. A turma dos rolezinhos dispõe de aparelhos de TV e de acesso aos demais veículos de comunicação de massa. Como os jovens de lares abonados financeiramente, são submetidos também a um bombardeio midiático massivo, que chama sua atenção para as ofertas de produtos nas vitrinas multienfeitadas e coloridas das lojas dos shoppings. Adquirir produtos ou simplesmente admirá-los nas prateleiras, por singelo prazer, hábito de tanta gente, não configura de maneira alguma ato passível de condenação.
O Poder Público precisa saber extrair dos fatos as lições devidas. A abertura de espaços comunitários para a convivência humana é de grande significação nas politicas de integração social. A escola de tempo integral, com boa qualidade cultural, faz parte dessas politicas.
Resumindo toda essa “melódia”: em se tratando do Brasil, corremos riscos maiores com o “rolezão” da exclusão social acionado a partir de atitudes precipitadas e de intolerâncias descabidas, do que com os tais rolezinhos, manifestação juvenil que pode ser perfeitamente escoimada de algum possível exagero na base de um papo legal.
                             
                            Lideranças despreparadas

Cesar Vanucci *

“O mundo tornou-se mau por ser malgovernado
e não porque a natureza humana seja pervertida.”
(Dante Alighieri, sempre atual)


“Tamo n’água!” Esta singela expressão era bastante empregada em papos cotidianos de outrora. Servia como registro de uma forte decepção ou temor diante do proceder de alguém importante depositário de nossa confiança que, de repente, contrariasse as expectativas gerais à volta de uma questão palpitante.

Certas reações patéticas de personagens que se viram alçados a posições de relevo, com caneta cheia na mão para decisões capazes de influenciar a vida de multidões, levam—nos, hoje também, reconferindo atualidade à expressão, a exclamar: “tamo n’água, gente boa!”

A cena mundial aponta-nos alguns vultos eminentes providos de enorme força moral que ninguém em sã consciência ousa contestar. O conceito se aplica ao papa Francisco, ao Dalai Lama e a não mais do que uma meia dúzia de outros dois ou três cidadãos. Todos reverenciados pela liderança exercida com lucidez e espírito público. Mas nenhum, verdade seja dita, com plena legitimidade politica para impor suas propostas essenciais de transmutação oferecidas à humanidade com o nobre objetivo de acelerar a conquista de patamares mais elevados na convivência social.

As sábias recomendações que traçam arrancam entusiásticos aplausos. Mas cadê coragem e vontade política das elites para implementá-las? Da retórica não se consegue passar jamais para as ações concretas. Conexões ocultas de uma conjuntura perversa, que concede ao dinheiro o privilégio de governar, não de servir ao homem, não permitem possam as ideias generosas, expressas por cérebros iluminados, germinarem nos frutos almejados. Em virtude disso os avanços na direção de estágios de vida mais fraternais ocorrem num ritmo mais moroso do que o cobiçado nas esperanças que povoam a alma das ruas.

Um punhado de cidadãos poderosos, senhores de prerrogativas suficientes para alterar os rumos das coisas que pintam no pedaço, recusa-se intransigentemente a promover as mudanças desejadas nos sonhos globais de construção de um mundo melhor. Age assim por comodismo, despreparo, abomináveis conveniências.

Foquemos a atenção em aprontações recentes dos dois dirigentes com maior poder de fogo nos conciliábulos internacionais. Quando mencionamos “poder de fogo” incluimos, obviamente, o formidando arsenal bélico das potencias que representam. Em patéticos episódios ambos deixam à mostra, outra vez, inimaginável indigência intelectual, ausência de sensibilidade social em questões momentosas. Revelam-se despojados do sentimento de mundo que pode contribuir para um processo de construção consentâneo com a dignidade humana.

A imagem de Vladimir Putin está associada a gestos truculentos, mesmo que, num e noutro momento de sua atuação, como nos casos da desativação do arsenal de armas químicas da ditadura síria e da reaproximação do Irã com o ocidente, ele se tenha revelado hábil negociador. A opinião pública não se esquece dos métodos brutais empregados na repressão radical às operações dos rebeldes chechenos ocorridos num teatro de Moscou e numa escola do interior de seu país, que levou ao extermínio de alguns culpados e centenas de inocentes. Ele passa a impressão de sentir dificuldades em se desvencilhar das amarras de militante ativo da tenebrosa KGB.

Indoutrodia fez uso dos meios de comunicação para uma proclamação tipicamente imperial. Lembrou éditos dos antigos tzares. Dirigindo-se aos atletas que participarão dos Jogos Olímpicos de Inverno, deixou cair; solene, sem meias palavras, essa desconcertante declaração: “Venham para os Jogos, mesmo se vocês forem homossexuais. Nada acontecerá com vocês, sempre que deixem as crianças em paz!” A estapafúrdia afirmação pode ser assim interpretada: para o chefe do governo russo toda pessoa com orientação sexual não tradicional é pedófilo de nascença. Está claro que uma afirmação temerária dessas cairia melhor na boca de algum radical religioso fundamentalista do que na boca de alguém em condições de anunciar decisões de relevância crucial para a sociedade de nossos tempos.

Barack Obama, que não mais se preocupa em preservar as anotações humanísticas de sua biografia, convocou também a midia para “explicações” sobre a arapongagem eletrônica dos órgãos de segurança estadunidenses. Falou, falou e nada disse que pudesse significar tênue arrependimento pelas violações aos direitos humanos praticadas. Lembrou Cantinflas com todo aquele papo furado. Não evidenciou a mais leve disposição de formalizar pedido de desculpas aos “aliados” e cidadãos que tiveram as vidas devassadas pela bisbilhotice paranoica e comercialmente interesseira. Junto com o pronunciamento, que vendeu a ideia arrogante da existência de um esquema de comando acima do bem e do mal, desejoso de fazer de leais amigos apenas obedientes vassalos, irrompeu no noticiário nova leva de denúncias sobre abusos da espionagem. Outras ocorrências inacreditáveis sobre ações desencadeadas pelos serviços secretos americanos e britânicos. O rastreamento eletrônico voltou-se também para os usuários de aplicativos de smartphones. As coletas de informações penetram na vida pessoal das vítimas, não poupando nem detalhes de seu alinhamento político e religioso ou de sua orientação sexual.

O monitoramento tem como alvos o “Google Maps” nos smartphones, listas de contatos, registros de telefones e dados geográficos em fotos postadas pelos celulares nos aplicativos do “Facebook”, do Flicker”, do “Linkedin” e do “Twitter”, do jogo infantil “Angry Birds”, entre outros, minha Nossa Senhora d’Abadia!

Falar verdade. Com esses caras por aí, embaralhando e dando as cartas, comandando de forma tão irresponsável, pra dizer o mínimo, os destinos do planeta, sentimo-nos, indo do espanto para o temor, impelidos a ressuscitar o simplório desabafo dos tempos de infância:”Tamo n’água, minha gente!”

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014


Pingos nos iis

 “A imprensa coloca o lado do copo meio vazio.”

(Empresária Luiza Trajano)

A vitoriosa empresária Luiza Trajano, do “Magazine Luiza”, numa performance impecável, bateu de frente com comentaristas do programa “Manhattan Connection”, da Globo News, mostrando a irrealidade do quadro pessimista pintado nas intervenções dos interlocutores, entre eles o Diogo Mainardi, conhecido por sua fala invariavelmente rançosa. Na troca de opiniões registrada um representante altivo da atividade produtiva brasileira pingou os devidos pontos nos iis nas observações derrotistas e palpites infelizes de alguns partidários da tese de que o Brasil vai (sempre) de mal a pior.
O episódio televisivo veio a calhar como ilustração nas considerações que venho fazendo a respeito de certas análises despropositadas da realidade econômica e social brasileira.

A propósito deste mesmo assunto, andei alinhando pratrazmente mais dados e números sugestivos para a série de artigos lançados sobre nossa situação econômica e social. Nos comentários aludidos – como sabido - discordo das profecias apocalípticas de parte da mídia, agências de classificação de riscos e de setores despojados de sentimento nacional que, com intuitos os mais variados, demonstram incomum agilidade em acionar a três por quatro a tecla do “quanto pior, melhor”.

Faço a divulgação dos dados coletados, na certeza de que constituem manifestações vigorosas de uma saudável atividade produtiva levada avante pelas forças vivas da Nação na busca do progresso social.

Esses outros indicadores da econômicos positivos foram anunciados por porta-vozes dos próprios ramos de negócios citados: Œ O capital privado para saneamento/obras de infraestrutura registrou forte alta no ano transcorrido. Os valores expressivos alcançados resultaram de concessões assinadas ao longo do período. Tais concessões deram origem a elevação significativa no patamar dos investimentos. As cinco maiores concessões totalizaram 8 bilhões e 600 milhões de investimentos contratados. O montante foi superior em tão somente 240 por cento aos valores de 2012:  Outro recorde: o número de participantes ativos do sistema de consórcios. Os créditos comercializados aumentaram em cerca de 56 por cento com relação ao total movimentado há cinco anos passados: Ž O sistema bancário, como de praxe, acumulou em 12 meses resultados positivos de 61 bilhões 300 milhões no terceiro trimestre, com alta de 12 por cento na comparação anual de 2012. É o melhor da história. Outra vez.  Já o setor farmacêutico preconiza incremento para este ano de 12 a 13 por cento;  Foi superior a 71 bilhões, constituindo novo recorde, a captação líquida da poupança. Só em dezembro os números totalizaram mais de 11 bilhões, o maior já anotado em todos os meses da série histórica do Banco Central; Pesquisa do Ibope/You Pix assinala que o Brasil emerge como uma “potencia” no campo das redes sociais. O tempo gasto na rede garantiu-nos segunda colocação no ranking de passes do Facebook, ultrapassando a Índia, que congrega número bem maior de usuários. Nosso país é também o segundo classificado em usuários no Facebook e no Twitter, atrás apenas dos Estados Unidos. Esses resultados derivam, na avaliação dos pesquisadores, da acentuada melhoria das condições socioeconômicas nacionais. O setor de “outlets” sublinha que vai passar das seis unidades, hoje em operação, para 14. Em 2013 entraram em operação mais 10 milhões de celulares. O país dispõe hoje de 211 milhões 580 mil de linhas a acessos pré-pagos e 103 milhões 110 mil de linhas relativas a serviços pós-pagos; A arrecadação fiscal federal em 2013, a mais alta da história, foi de R$ 1 trilhão 130 bilhões.


Os ataques neoliberais ao Pontífice

“O dinheiro deve servir e não governar.”
(Papa Chico)

O núcleo mais radical do neoliberalismo colocou sob a mira furibunda de exaltados porta-vozes a figura suave, austera e carismática do Papa Francisco. Insurgiu-se contra os “erros” que o Santo Padre “vem cometendo” com suas críticas às desigualdades sociais deste mundo de Deus onde o diabo aprecia fixar chamejantes enclaves.

O “Financial Times”, da Inglaterra, publicação que reflete melhor do que qualquer outra o sentimento das ideologias extremadas que defendem escancaradamente autonomia sem restrições ao chamado mercado e à especulação financeira, escolheu simbolicamente a celebração natalina para descarregar, no dia 25 de dezembro passado, suas baterias contra as “incômodas” posições pontifícias. Escalou time titular de articulistas para cuidar com capricho da questão.

Os conceitos sobre a ordem social e econômica expendidos por Francisco no “Evangeli Gaudium” (Gaudio do Evangelho), divulgado no final de novembro de 2013, são criticados com azeda veemência. “O Papa está errado!”, garante enfaticamente a publicação britânica, revelando baita inconformismo com relação às ponderações constantes da “Exortação Apostólica” onde se deplora a “idolatria do dinheiro” incentivada pelo sistema econômico. Idolatria essa responsável por situações que agridem incessantemente a dignidade das pessoas. “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz”, diz o Papa. Para acrescentar em seguida: “Tal desequilíbrio provem de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira”. Avançando um pouco mais, o documento da Santa Sé acusa o sistema financeiro de negar “o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum”.

Um outro “braço armado” da neoliberalice botou também a cara pra fora, por sinal de maneira bem agressiva, na exprobração à palavra sábia do Papa. Trata-se do célebre “Tea Party”, agrupamento ultraconservador estadunidense com atuação destacada nas fileiras políticas republicanas. Esses extremistas, tal como acontece no combate sem tréguas movido a Barack Obama “por suas ideias subversivas”, consideram Chico nada mais, nada menos que um perigoso bolchevista.

Sua conduta “herética” foge ao padrão, quando martela com firmeza, apoderado de certeza evangélica derivada de sua apostólica missão, alguns pontos essenciais da avassaladora crise de comportamento destes convulsionados tempos. Chico “ousa” propalar coisas que soam imensamente desagradáveis em círculos dominados pela ganancia sem limites e por despudorada insensibilidade social. Coisas “absurdas” desse teor: “Para apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com esse ideal egoísta, desenvolveu-se uma globalização da indiferença. Quase sem nos darmos conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, já não choramos à vista do drama dos outros nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse responsabilidade de outrem, que não nos compete. A cultura do bem-estar anestesia-nos a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda não compramos, enquanto todas essas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem mero espetáculo, que não nos incomoda de forma alguma”.

Dá, sim, perfeitamente, “pra entender” o mal-estar espalhado nos redutos neoliberais por esse Papa vindo dos confins do mundo, quando ele chama a atenção das elites para a necessidade de se encontrar saída justa, solidária e fraternal para a humanidade. Quando ensina que “o dinheiro deve servir e não governar”. Quando acentua “que numa reforma financeira que levasse em conta a ética” deveria surgir “vigorosa mudança de atitudes por parte dos dirigentes políticos”, de modo a enfrentarem com disposição o “jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco.” Ou ainda quando mostra que a situação caminha para desembocar inexoravelmente “num beco sem saída”, com “grandes massas da população excluídas e marginalizadas”.

Isso ai, gente boa e bem intencionada. É preciso reconhecer sem vacilações que o verbo de Francisco tem mesmo o dom de estremecer os alicerces de um sistema econômico injusto e de despertar consciências entre viventes acomodados.



A SAGA LANDELL MOURA

Os supremacistas e os protestos antirracistas Cesar Vanucci “O clamor das ruas exige vacina eficaz contra o vírus do racismo”. (...