quinta-feira, 30 de abril de 2015


Voltando aos reclames governamentais


Cesar Vanucci

“Os gastos com publicidade durante os governos tucanos em Minas
 dariam para construir duas novas cidades administrativas.”
(Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, presidente 
da Associação dos Economistas MG)


Semanas atrás andamos comentando neste espaço o despropósito dos gastos publicitários governamentais nos níveis federal, estadual e municipal. Lembramos que a opinião pública acompanha com total desagrado essa frenética disputa por espaço midiático que os setores mencionados vivem travando com anunciantes de grande porte, ao estilo do “Magazine Luiza”, “Ricardo Eletro”, “Casas Bahia”, marcas de cerveja e de veículos. Complementamos o registro com uma momentosa ilustração. Nos últimos dias do ano transcorrido, em todos os intervalos do chamado “horário nobre”, até mesmo na hora do foguetório da despedida de 2014, nos estertores a bem dizer do mandato, o Governo de Minas manteve-se ruidosamente empenhado na divulgação de peças publicitárias na televisão chamando com insistência a atenção do distinto público para o “colosso” de realizações promovidas em favor da coletividade.

Até aquele momento, espantados com o que víamos na telinha, ainda desconhecíamos os impressionantes dados oficiais sobre os exorbitantes aportes de recursos em propaganda feitos no curso das gestões administrativas do PSDB no Estado. Não sabíamos, por exemplo, que a dinheirama aplicada sob a rubrica “publicidade” entre 2003 e 2013 daria para construir duas novas “cidades administrativas” da imponência da que foi implantada à margem da rodovia que leva ao Aeroporto Internacional de Confins. Quem nos colocou a par dessa desconcertante revelação, numa análise esmiuçada das contas públicas estampada em edição do “Mercado Comum”, março de 2015, foi o conceituado economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, presidente da ASSEMG (Associação dos Economistas de Minas Gerais) e do IBEF Nacional (Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças). As informações são parte de um alentado estudo que traz outros dados desnorteantes relativos à economia brasileira e mineira. No que concerne especificamente à publicidade paga pelo Governo de Minas Gerais no período reportado, o autor do trabalho se louva em levantamento feito junto ao Tribunal de Contas do Estado. Fica demonstrado que os dispêndios a esse título, em valores atualizados de 2013, atingiram a altitude everestiana de 2 bilhões, 172 milhões e 58 mil reais. Para que se possa ter uma ideia mais ampla do significado desse incrível gasto, é bom saber que a soma apontada é 27 por cento superior ao patrimônio líquido do BDMG (Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais), ou seja, um bilhão setecentos e dez mil reais no final de 2013. A média anual dos recursos aplicados em publicidade pelo governo mineiro alcançou, nos períodos administrativos referidos, a impressionante cifra de 197 milhões, quinhentos e dez mil reais. Em 2013 o valor apurado foi de 254 milhões 180 mil reais.

A lembrança ainda muito acesa de que parte substancial dos reclames oficiais conferia ênfase toda especial aos assim chamados “choque de gestão” e “déficit zero”, fundamentais na programação administrativa dos governos tucanos, produz compreensível impacto no espírito popular diante de outras revelações surgidas da análise dos números da economia estadual.

A descomunal dívida pública deixada é, por exemplo, de apenasmente 88 bilhões 272 milhões 50 mil reais (Uai! E o “déficit zero”?). Valor superior à receita anual do Estado, que chegou em 2014 a 73 bilhões 347 milhões. Desponta aí, indisfarçavelmente, lembrando o que ocorre hoje em matéria de dívida pública na Comunidade Europeia das Nações, um certo toque de tragédia grega na vida financeira do Estado.

Mas não se restringem a esses dados os registros chocantes. Minas foi também o Estado que, nos últimos anos, mais se endividou em moeda estrangeira. Em dezembro do ano findo, o volume da dívida externa de Minas totalizava 9 bilhões 396 milhões, correspondendo a 21,8 por cento da receita corrente líquida. De outra parte, o relatório de gestão fiscal e o orçamento fiscal da Secretaria da Fazenda relativos ao período janeiro/dezembro de 2014 expuseram uma situação inesperada e extremamente penosa do ponto de vista da gestão financeira. Com receitas da ordem de 73 bilhões 347 milhões e despesas estimadas em 75 bilhões 512 milhões, as contas públicas acusaram um déficit de quase 2 bilhões. Isso foi detectado na precisa hora da mudança do comando administrativo.



Tensões e distensões

Cesar Vanucci

“Na tarde de 2 de abril, o Irã e as seis potências anunciaram uma
proposta de acordo, para satisfação declarada de quase todo o mundo...”
(Antônio Luiz M. C. Costa, jornalista)


As coisas azedaram no Iêmen, dilacerado por mais um desses conflitos intermináveis que deixa os observadores com dificuldades para explicar quem está brigando com quem e por qual razão e onde, também, as posições dos ferozes contendores mudam que nem as dunas do deserto varrido pelos ventos.

Nas regiões sírias, iraquianas, líbias, nigerianas, somalis  dominadas pelo “califado do terror” e noutros territórios do Oriente Médio e da África sacudidos por contendas tribais insolúveis, repetem-se a cada dia as costumeiras cenas de atrocidades. Se tudo isso, por um lado, alimenta justificados temores e produz compreensível angustia, outros acontecimentos no plano internacional, ocupando as atenções, produzem de outra parte algum alívio e o desanuviamento de tensões acumuladas.

A reaproximação dos Estados Unidos e Cuba, depois de meio século de desentendimentos, é motivo, sem dúvida alguma, para comemoração. O surgimento de condições propicias para a concórdia entre americanos de todos os países ganha razoável amplitude. Remove desconfianças que se desenhavam, para contragosto geral, insanáveis. Abre perspectivas promissoras de intercâmbio cultural e econômico. Não se pode olvidar a intermediação eficaz do Papa Francisco nesse alentador processo que levou Obama e Raul Castro a se sentarem lado a lado numa mesa para proveitoso diálogo.

O pacto firmado pelos Estados Unidos e países da Comunidade Europeia com o Irã é um outro evento a ser saudado, também, com vivo entusiasmo. Exceção feita aos radicais que governam Israel, às facções extremistas do Partido Republicano estadunidense e a alguns elementos da chamada “linha dura” iraniana, todo mundo, em todas as latitudes, aplaudiu a iniciativa. A imprensa internacional destacou como lance positivo a manifestação de concordância, até certo ponto surpreendente, da Arábia Saudita, cujo governo não esconde as desavenças político-religiosas nutridas com relação aos dirigentes iranianos. Os sauditas expressaram, ao mesmo tempo, a expectativa de que possa ocorrer, em futuro próximo, a “completa desnuclearização” do Oriente Médio. A referência teve por alvo o Israel, país possuidor de arsenal atômico e que vem oferecendo toda sorte de empecilhos à implantação do Estado da Palestina. Posicionamento que contraria abertamente determinação da ONU e que colide frontalmente com a aspiração da comunidade internacional das nações.

A propósito do acordo mencionado, vale recordar que a diplomacia brasileira, no governo Lula, com a ajuda da Turquia e, conforme se noticiou na ocasião, com o incentivo confesso da Casa Branca, conseguiu definir as premissas básicas do entendimento só agora consolidado. Se os Estados Unidos não tivessem, estranhavelmente, por algum nebuloso motivo estratégico qualquer, retirado o apoio ostensivo que vinha emprestando às diligências promovidas pela chancelaria brasileira, então sob o comando do Ministro Celso Amorim, bem provavelmente o pacto que vem de ser celebrado poderia ter sido antecipado de alguns anos.






 GALERIA DE ARTE


 álvaro apocalypse,


OUTRO GRANDE NOME 

DAS ARTES PLÁSTICAS

   


Álvaro Brandão Apocalypse é outro grande nome das artes plásticas brasileiras. Nasceu em 1937, Ouro Fino, Minas Gerais. Foi pintor, ilustrador, gravador, desenhista, diretor de teatro, cenógrafo, professor, museólogo, publicitário. É um dos fundadores do Grupo “Giramundo”.
O artista iniciou os estudos em Belas Artes em 1950. Graduou-se em direito na Universidade Federal de Minas Gerais. Convidado a produzir desenhos animados para campanhas publicitárias, ilustrou revistas e jornais. As festas típicas populares inspiraram sua criatividade. Ele aperfeiçoou a técnica de pastel e passou a produzir gravuras.
O surrealismo marca sua obra. Seu trabalho rendeu-lhe prêmio de viagem ao exterior para participar do Terceiro Salão da Aliança Francesa em 1969. Em Paris, fez curso na Escola do Louvre. Ganhador de vários prêmios. Entre eles, o Molière e o Troféu Mambembe.

Abaixo, algumas criações desse grande artista, 

extraídas dos sites “Pinturas em tela” e 

“Enciclopédia Itaú Cultural”



sexta-feira, 24 de abril de 2015

Os “zelotes” e as “contas secretas”

Cesar Vanucci

“Operação Zelote: o desvio é duas vezes
maior do que o escândalo do Lava-Jato!”
(Fábio Serapião, jornalista,
em reportagem na “CartaCapital”)


A grande mídia tupiniquim tem razões que a própria razão desconhece. O faro investigativo e os impulsos denuncistas dos repórteres e comentaristas espicham ou encolhem, volta e meia, de conformidade com imperscrutáveis desígnios.

Peguemos para averiguação a chamada “Operação Zelotes” e o caso das “contas secretas” do HSBC. Ambos os episódios fornecem elementos em demasia para corroborar a tese de que o comportamento de parte dos veículos de comunicação de massa é regido por critérios insondáveis, incompreensíveis à luz do senso comum.

As proporções das falcatruas praticadas na esfera do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (CARF), da Receita Federal, a tomar como ponto de partida os indícios já levantados pela Policia Federal, são de estarrecer não apenas um frade de pedra, mas todo o conjunto de estátuas de pedra sabão esculpidas por Aleijadinho no adro do Santuário de Congonhas.

Os valores sonegados ao Fisco, ao que dizem as investigações em andamento, chegarão a cifras estrondosas, nunca vistas dantes. Na alçada de avaliação da CARF acumulam-se, presentemente, 105 mil processos, implicando num montante de 520 bilhões de reais. A fraude tributária de início detectada ultrapassa a casa dos 6 bilhões de reais. O somatório das dívidas de bancos, montadoras de veículos, siderúrgicas e outros grandes devedores de diferenciados segmentos sob a mira das autoridades policiais, correspondendo num primeiro instante a 74 processos, chega às alturas himalaianas dos 19 bilhões de reais.

Não padece dúvida alguma, a esta altura, que se está a falar da maior fraude tributária já descoberta. Um verdadeiro “balcão de negócios” foi montado por alguns conselheiros inidôneos – uns, recrutados nos quadros burocráticos da Receita, outros indicados como representantes dos contribuintes -, com o fito de beneficiar sonegadores contumazes. O esquema criminoso assegurou a “redução”, mediante a generosa concessão de propinas, dos impostos devidos por gente engravatada “acima de qualquer suspeita”. Empresas de fachada, estruturadas pelos agentes infiéis, intermediaram o esquema dos favorecimentos indevidos.

A apreensão gerada nalguns setores específicos da vida econômica, comprometidos nessa tramoia criminosa dos “zelotes”, diante da ação fulminante das autoridades competentes no sentido de deslindá-la, é muito grande. Chega a ser mais intensa, no entender de observadores categorizados, do que até mesmo o susto e os temores provocados pelo “Lava Jato” junto às empreiteiras criminalmente enquadradas nesta operação.

À vista desse tantão de coisas, não deixa de causar espécie o comedimento exagerado, a cautela inusual que a mídia vem se impondo na divulgação dos fatos ligados às apurações sobre a questão. A opinião pública mostra-se surpresa com a ausência de “furos”, de reportagens “exclusivas”, de “vazamentos” assegurados por “fontes idôneas”, de revelações de nomes de projeção empresarial ou política apontados como integrantes da engrenagem mafiosa desarticulada.

A mesma estranheza que se tem quanto à cobertura midiática relativa à gigantesca fraude fiscal cabe ser igualmente aplicada ao noticiário e comentários dedicados às tais “contas secretas” do HSBC. Quase 9 mil cidadãos brasileiros, o quarto  contingente por nacionalidade do conjunto de pessoas investigadas por haverem cometido presumivelmente crimes de evasão fiscal, constam da lista fornecida por investigadores estrangeiros. O máximo a que o assim denominado “jornalismo investigativo”  animou-se a chegar, em matéria de informação antecipada concernente ao assunto, foi a citação de uma meia dúzia de três ou quatro personagens do meio artístico, sabe-se lá, logo eles, por que cargas d’água.

A impressão que sobra é de que não será empreitada tão simples assim a liberação geral da lista. E isso pelo “motivo” de que ela contempla, na realidade, figurões badalados no mundo dos negócios. Poderosos interesses estariam provavelmente atuando nos bastidores mode assegurar que a história das “contas secretas” acabe sendo encoberta, para tranquilidade de muita “gente respeitável”, pelas névoas do esquecimento. Isso aí.



Os argumentos de Guido

Cesar Vanucci

“O perigo de engessamento do pensamento e da cultura é evidente.”
(Guido Bilharinho, historiador)


Guido Bilharinho tem presença marcante na paisagem intelectual mineira. Escritor, historiador, professor, jurista, poeta, membro da conceituada Academia de Letras do Triângulo Mineiro, é autor de obra literária pujante. Tem-se por certo que, na área de ensaios cinematográficos, ninguém de sua geração produziu sequência de livros tão alentada e diversificada. Noutra vertente de sua polimorfa atuação, surpreendemo-lo concentrado em tarefas de pesquisa histórica relacionadas com a região em que vive, o Triângulo Mineiro.

O trabalho executado com talento e persistência tem-lhe permitido dar vida à memoria de fatos e fastos regionais que poderiam permanecer encobertos pelas névoas do esquecimento.

A contribuição que, por força de irrefreável inquietação cultural, traz ao conhecimento público sobre significativas experiências humanas de tempos já transcorridos, confere-lhe suficiente autoridade para postular, como aconteceu dias atrás, a atenção especial dos Senadores da República sobre o candente tema da regulamentação da função de historiador.

Sugiro aos leitores que se inteirem dos respeitáveis argumentos de Guido Bilharinho a respeito do assunto, alinhados na correspondência encaminhada à apreciação do Senado Federal. São considerações que enriquecem o debate.

“Exmos. Senadores da República, O projeto de Regulamentação da Profissão de Historiador, já votado no Senado e na Câmara Federal e agora de retorno ao Senado, ao dispor, no caput do artigo 4º e em seus incisos II e VI, que são atribuições dos historiadores a “organização de informações para publicações, exposições e eventos sobre temas de História” (II) e a “elaboração de (...) trabalhos sobre temas históricos” (VI) e que só os diplomados em curso superior de História podem efetuar tais medidas, implica na vedação aos demais cidadãos brasileiros de fazê-lo, além de constituir cerceamento de sua livre manifestação de pensamento, ferindo o disposto nas normas constitucionais constantes dos incisos IV e IX, do artigo 5º, já que impossibilita a todo cidadão brasileiro no gozo de seus direitos de pesquisar, estudar, analisar, opinar e discorrer no território nacional sobre qualquer tema histórico, nacional e universal, devendo-se levar em conta ainda, no caso, que todo acontecimento “histórico” o é, simultânea e às vezes preponderantemente, político, econômico e social. Em consequência, alijando no território nacional os brasileiros não diplomados em História de pesquisa, estudos, elaboração e publicação de temas históricos nacionais e universais, só lhes deixa alternativa de fazê-lo no exterior. Além disso, se estendida regulamentação semelhante aos formandos em artes plásticas música, letras e cinema por exemplo, ninguém mais, a não ser os privilegiados formandos nessas áreas, poderá publicar análises ou mesmo simples comentários e até noticiários sobre livros, filmes, composições musicais e quadros. O perigo de engessamento do pensamento e da cultura brasileira e seu anquilosamento em nichos ou corporações são evidentes. Assim, face ao exposto, sugere-se e pleiteia-se que os dispositivos citados sejam eliminados do projeto, que, no mais, escoimado dessas medidas cerceadoras, certamente virá contribuir para incrementar o interesse da juventude pela profissão de historiador. Uberaba, 8 de abril de 2015. Guido Bilharinho”.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

CONVITE AOS AMIGOS DO BLOG



Marquetagem escondeu déficit

Cesar Vanucci


“A repetição é a melhor retórica.”
(Napoleão Bonaparte)´

Napoleão dizia que a repetição é a melhor retórica. A marquetagem política dá provas seguidas da precisão do conceito.

O impactante diagnóstico das condições sofríveis das contas públicas mineiras, que vem de ser divulgado pelo recém-empossado governo Pimentel, revela que uma propaganda oficial ardilosa manteve a comunidade por muito tempo desinformada de fatos cruciais. O famoso “choque de gestão”, que “produziu” o chamado “déficit zero”, ilustra bem o que aconteceu. O bombardeio midiático sobre o “déficit zero” durou anos. Parcelas ponderáveis da opinião pública acreditaram piamente no que foi alardeado pelas administrações tucanas.

Sou testemunha ocular de episódios bem ilustrativos gerados pela falsa revelação. Acompanhando o então deputado estadual Adelmo Carneiro Leão, hoje parlamentar federal, em visitas a figuras exponenciais do mundo oficial e classista, convidadas a aderirem à campanha desencadeada pelo mesmo na Assembleia Legislativa de Minas, em favor da renegociação da dívida pública, deparei-me, mais de uma vez, com reações de espanto das pessoas contatadas diante da revelação de que a dívida pública mineira, a mais alta entre os Estados da Federação, havia atingido patamares insuportáveis, colocando em risco toda a política de investimentos oficiais.

As pessoas procuradas relutavam em aceitar, de principio, as informações acerca dos números apresentados. “Uai! E o déficit zero?” A pergunta irrompia com frequência nesses momentos exigindo explicações claras e didáticas, com dados técnicos irretorquíveis, extraídos sobretudo de um livro, trazido na pasta, de autoria dos professores Fabricio Augusto e Claudio Gontijo, onde a história da construção da dívida pública mineira é devidamente esmiuçada.

Presenciei, noutra oportunidade, num contexto diferente, manifestação ruidosa de surpresa de participantes de um concorrido encontro de lideranças sociais, quanto à informação, anotada só de passagem pelo expositor, a respeito desses mesmos atordoantes números da dívida.

Para muita gente só agora é que a ficha caiu. O “déficit zero” da retórica demagógica, da marquetagem abusada, de custos estrondosos e estampada em toda espécie de mídia, “alcançou” no frigir dos ovos valor que roça os 100 bilhões. Se Minas fizesse parte da comunidade econômica europeia estaria a ostentar atualmente situação quase tão aflitiva quanto a da Grécia. A liquidação desse colossal endividamento, mesmo com o abrandamento de algumas cláusulas em função de renegociações prestes a serem definidas, vai reclamar pesados sacrifícios sociais.

No seio da opinião pública começam a se erguer vozes indignadas a indagarem por qual razão, antes da efetivação do pagamento das exorbitantes parcelas instituídas como obrigações do Estado de Minas, não se monta uma auditoria a respeito de toda essa situação. Um estudo amplo, transparente, que explique tintim por tintim à sociedade como a tal dívida foi, afinal de contas, constituída, quando, por quem, pra que. Trata-se, sem sombra de dúvida, de um nebuloso capítulo da história brasileira que carece ser destrinçado, nesta hora em que a Nação dá demonstrações cabais de querer ver as coisas de interesse público claramente passadas a limpo.


A chamada crise hídrica



Cesar Vanucci

“A culpa não é do meu banho!”
(Tirada bem humorada das lideranças
ambientalistas a propósito da chamada “crise hídrica”)

Não importa que, nesta hora, a frase “a culpa não é do meu banho” esteja sendo utilizada como refrão de propaganda por uma agremiação política. Multidões não filiadas partidariamente, mesmo solicitamente dispostas a colaborar com os esquemas propostos de racionalização do abastecimento, estão convencidíssimas de que nem seu banho de chuveiro ou de banheira, nem tampouco a descarga do vaso sanitário em suas casas merecem ser onerados de culpa nessa questão da escassez da água. O buraco, como era de costume dizer-se em tempos de antigamente, é mais embaixo.

Em termos práticos pode-se até afirmar que se trata, de certa maneira, de buracos profundos e extensos, escavados nas entranhas da terra com o objetivo de que neles sejam inseridos tubulões capazes de permitir o escoamento, em grandes quantidades, de riquezas minerais valiosas. Riquezas essas, por sinal, como sabido, extraídas do solo dadivoso a preço de banana nanica refugada em final de feira na periferia. É o caso também de lembrar que o preço pago pela imensa caudal do precioso líquido canalizado nessas operações é ainda mais aviltado, se é possível conceber tamanho absurdo.

Há mais buracos a registrar. São os sulcos e encanamentos em terreno lavrado, tomado por irrigações. O uso da água nessas atividades é incessante, descomedido. Sua aquisição custa, igualmente, uma ninharia. Todo esse descontrole resulta de outorgas despropositadas. Outorgas essas que carecem ser, de conformidade com corretas avaliações técnicas, urgentemente reexaminadas.

As considerações acima já haviam sido lançadas no papel quando nos inteiramos dos elucidativos dados e informações debatidos numa concorrida reunião promovida por especialistas em questões hídricas. O encontro foi coordenado pelo respeitado líder ambientalista Apolo Heringer Lisboa, idealizador e fundador do famoso “Projeto Manuelzão”. Aprovou-se na oportunidade, como ponto de partida para estudos e ações, um conceito fundamental destinado a balizar atuação dos interessados no enfrentamento da momentosa questão do denominado “colapso hídrico”. Os estudiosos afiançam, apegados a uma visão ecossistêmica da vida e da gestão pública, que a sobrevivência da fauna dos rios e dos animais silvestres compõem parte inegociável das metas que se tem em mira atingir num processo de preservação ambiental voltado para a qualidade de vida melhor.

A saúde dos rios não é apenas do interesse da espécie humana. Existe para ser observada uma “lógica ecológica” e os setores de vanguarda do pensamento preservacionista vêm procurado colocar as autoridades a corrente dessa circunstância. Assinalam não fazer sentido algum a majoração das tarifas de água ou aplicação de multas aos consumidores comuns quando se tem em vista o fato de não serem eles, definitivamente, os responsáveis pela crise de abastecimento detectada.

O diagnóstico de especialistas renomados sobre o desabastecimento constata não estarem sendo dadas, por quem de direito, respostas convincentes sobre o que vem rolando no pedaço. Informações cruciais – garantem - têm sido sonegadas ao público. Isso alimenta perguntas preocupantes. Uma delas: onde foram parar as águas de Minas, se apenas 20 por cento delas estariam sendo consumidas nos aglomerados urbanos e nas pequenas atividades comerciais e de produção doméstica? Cadê as explicações pertinentes ao alentado conjunto das outorgas de água distribuídas pelo IGAM?

Tem-se por certo que 80 por cento do volume da água retirada da natureza beneficiam as atividades econômicas. Tal abundância de água, adquirida a preço simbólico é utilizada descontroladamente. Não se vê por aí ninguém falando em investimentos tecnológicos, de irretorquível relevância, que forcem a economia no emprego do valioso produto. São notórios os abusos derivados dos minerodutos e do rebaixamento continuo dos lençóis subterrâneos que vem secando as nascentes dos rios. O alarmante quadro traçado mostra que a retirada desabrida de águas dos mananciais, com ou sem outorgas, por meio de poços artesianos e canalização direta dos rios, esvazia os lençóis freáticos, seca as nascentes e reduz o volume dos rios.

No entendimento dos estudiosos o regime insuficiente de chuvas não seria causa do desabastecimento. Assim como as eventuais inundações não decorreriam também do excesso chuvoso. Outras causas menos focalizadas e mais importantes estariam na origem dos problemas. A chuva representaria – asseveram eles – apenas uma gota d’água a mais ou a menos em toda a complexa equação. O tema se apresta a muitas outras considerações. E questionamentos.



sexta-feira, 10 de abril de 2015

Razões para criticar e para celebrar

Cesar Vanucci 

“O financiamento conseguido pela Petrobras junto ao banco chinês é superior ao valor pago pela aquisição da Vale no leilão de 1997. Uma nota preta!”
(Antônio Luiz da Costa, educador)
  
Existem, sim, sobejas razões para que a mídia, no saudável exercício democrático que lhe é inerente de avaliar o comportamento da economia brasileira, se ocupe com comentários críticos de vários procedimentos governamentais que contribuíram para os pífios resultados alcançados ultimamente.
O crescimento de apenas 0.1 por cento do PIB, os números das contas públicas, das contas relativas aos negócios com o exterior, a tendência inflacionária altista, os indicadores macroeconômicos mais recentes compuseram um quadro, pode-se afiançar, bastante aquém do potencial produtivo da Nação. Ocorreu ainda, entre outras situações perturbadoras, clara desaceleração no ritmo da produção de bens, o que configurou um indesejável sinal de “desindustrialização”.
Sem que isso possa, de maneira alguma, servir-nos de consolo face ao desempenho desfavorável registrado, conseguimos manter-nos, entretanto, na posição de sétima potencia global entre os países detentores de economia pujante. A constatação deixa naturalmente realçado que o mundo continua a enfrentar uma crise de grande proporção. Essa crise projeta-se, como não fica difícil deduzir, no esforço que o país promove na busca de novos patamares de desenvolvimento.
Mas, por outro lado, existem também fortes motivos para que, apesar de todos os pesares, sem abrir mão de suas legitimas prerrogativas institucionais, a mídia aprenda a destinar espaço mais dilargado, nas apreciações feitas sobre nossa conjuntura econômica, a revelações animadoras que porventura aportem o noticiário nosso de cada dia, chutando pra fora do gramado a cantilena exageradamente derrotista adotada.
O financiamento de 3.5 bilhões de dólares que o Banco de Desenvolvimento da China acaba de conceder à Petrobras, nesse momento delicado enfrentado por sabidos fatores pela estatal, é acontecimento de extraordinária relevância. Sinaliza, de forma irretorquível, que a empresa, como almejado pelos que comandam agora seus destinos e pela sociedade brasileira, tem condições plenas, dispõe das potencialidades necessárias para reencontrar-se em sua trajetória de progresso. O valor do financiamento anunciado – bom relembrar – é superior à soma que, em maio de 1997 foi utilizada na aquisição, em leilão de privatização, por grupos particulares, da antiga Vale do Rio Doce. Marcada por controvérsias, a operação – recorramos novamente à memória - foi considerada por respeitáveis setores da mídia como a maior transação da história econômica nacional. Os ativos da organização foram transferidos, na época, por 3.3 bilhões de dólares, com financiamento subsidiado pelo BNDEs.
Esse aporte de agora do Banco de Desenvolvimento da China para a Petrobras faz ainda jus a destaque todo especial quando se tem sob mira mais outra elucidativa informação. Os 3.5 bilhões de dólares superam, por exemplo, a ajuda que a Comunidade Europeia, depois de muitas e acaloradas negociações, resolveu dias atrás conceder à Grécia para retirá-la da enrascada financeira em que se acha mergulhada. A quantia liberada, em euros, corresponde a 2 bilhões,158 milhões e 400 mil dólares.
Temos aqui mais informação econômica recente que reivindica, pela mesma forma, pelo teor positivo de que se reveste, atenção dos comentaristas midiáticos. Contrariando diagnósticos de especialistas com acesso aos veículos de comunicação, a balança comercial brasileira, agora em março, apresentou saldo positivo de 458 milhões de dólares. A cifra é quatro vezes maior à anotada no mesmo período do ano de 2014, quando o saldo registrado acusou 118 milhões de dólares.
Outro dado digno de nota que não merece passar desapercebido: no primeiro bimestre deste ano, já em decorrência do chamado ajuste, o erário acumulou saldo fiscal positivo de 18 bilhões de reais. A dívida líquida manteve-se estável.



Balde de piche

Cesar Vanucci 

“Quem com piche picha, com piche será pichado!”
(Frase cunhada por um delegado de polícia após
haver desarticulado um grupo de pichadores de prédios)


O apreciado articulista e renomado jurista Aristóteles Atheniense lançou em 27 de março passado, sexta-feira, nesta página franqueada pelo DC para o fecundo exercício democrático das ideias, um comentário sobre a deletéria ação clandestina dos pichadores de prédios. As considerações alinhadas, traduzindo sensata e oportuna avaliação de um problema urbano que incomoda bastante a todos, inspiraram este desajeitado escriba a retirar do baú, para republicação, a crônica trazida na sequência.

O cidadão identifica-se no telefone como frequentador assíduo destes escritos. Não contendo a satisfação pelo aumento do número de leitores, exprimo-me de forma um tanto desajeitada:
-   Você é o 24.
- Mas, como? Reage ele, o tom de voz contrafeito.
Demoro um pouquinho a explicar que em artigo de dias atrás andei recenseando 23 leitores pras coisas que escrevo. Com sua manifesta adesão, o número está se elevando, naturalmente, a 24.
-  Pula o número.
-  Como?
-- Passa para 25. Nesse negócio de número, sou que nem os “brothers” ianques: tenho lá minhas superstições. Eles são cismados com o 13. Tanto é que o excluem da numeração de andares e elevadores nos edifícios. Minha cisma é com o 24, tá bem?
Foi assim o começo de conversa com o 25º cidadão que se declarou disposto a fazer parte de meu seleto, inteligente e culto público leitor. Na continuidade do papo ele comenta artigo onde deixei consignado meu inconformismo com relação a atos rotineiros de vandalismo praticados por pichadores de prédios.
Conta-me que, há alguns anos, na cidade do interior onde morava, problemas de depredação do patrimônio comunitário foram enfrentados e coibidos de forma assaz original.
Caso é que o delegado do lugar, depois de campana bem sucedida, identificou o bando de desocupados que, nas caladas da noite, enfeiava muros e paredes com garatujas traçadas a piche, revelando especial predileção por superfícies recentemente pintadas.
Representantes do jornal e da rádio locais, ao lado de outros interessados, foram convidados a conhecer, na Delegacia, os autores dos malfeitos. Ficaram sabendo que eram quatro rapazes de famílias bem postas na sociedade. À hora em que os moços entraram na sala, os convidados se deram conta de que todos eles, possuidores de cabeleiras esparramadas ombro abaixo, dois deles com vistosas madeixas, ostentavam, constrangidos, um penteado pra lá de extravagante. O arranjo capilar resultara da aplicação de um laquê diferente, na base do piche. Os cabelos eriçados, da cor do azeviche, ficaram petrificados. A versão dada pelo delegado, sem maiores questionamentos da plateia, era de que, flagrados em delito, em desabalada carreira, os desordeiros acabaram tropeçando no balde de piche, mergulhando, por incrível que pudesse parecer, as cabeças na substância viscosa.
O responsável pelo relato lembra que o delegado era chegado à citação de máximas de pensadores famosos. E não perdeu a ensancha oportunosa de encerrar as explicações com uma frase de efeito, obviamente de sua lavra: -- Quem com piche picha, com piche será pichado!
Segundo ainda o leitor, o corretivo policial pode não ter observado as recomendações pedagógicas adequadas. Mas deu certo. 
A pichação parou.





GALERIA DE ARTE



     CHANINA   

 obra pujante e original 




Natural da Polônia, nascido em 1927, Chanina emigrou para Belo Horizonte, com os pais, aos nove anos de idade. É considerado um dos mais representativos artistas da chamada “Geração Guignard”. Em 1946 ingressou na escola de arte então dirigida por Guignard na capital mineira.
Marcada por intenso colorismo e apoiada numa visão poético-onírica em que a fantasia e a criatividade formam a tônica dominante, a obra de Chanina projeta paisagens, figuras, palhaços, cavalos, abstrações, retratos.
 As mulheres - apontadas pelo crítico Frederico Moraes como "as mais fascinantes de toda a pintura brasileira" - ocupam lugar especial nesse processo criativo.
Mais amplas informações sobre o grande artista poderão ser encontradas no livro Chanina: arte e trajetória, de autoria de Renato Sampaio, publicado em julho de 2003, em Belo Horizonte, pela Rona Editora. 
Fonte: Projeto Chanina

Outras informações:
Pintor, desenhista, ilustrador, gravador, ilustrador e professor. Luwisz Szejnbejn Chanina (1927: Zofjowce, Polônia).
Praticou figurativismo, recorrendo a cores intensas e figuras e animais fantásticos.
“Seu forte é a percepção de um opulento, formidável, espantoso mundo interior que impõe sua presença, que se extravasa irresistivelmente sobre a realidade externa e a despedaça.” (Malomar Lund Edelweiss).
1946 – Frequentou o Instituto de Belas Artes de Belo Horizonte, depois Escola Guignard, no qual viria a ser professor.
1955 – Formou-se em medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais. Teve aulas de gravura com Anna Letycia e de litografia com João Quaglia.
1966 – Ganhou o 1º Prêmio de pintura no Salão de Belas Artes de Belo Horizonte.
1967 – Participou do Salão Nacional de Arte Moderna, Rio de Janeiro.
2003 – Foi lançado o livro Chanina: arte e trajetória, de autoria de Renato Sampaio.
Exposições individuais:
1961 – União Israelita, Belo Horizonte.
1965 – Galeria Tijuco, Belo Horizonte.
1971 – Mini Gallery, Rio de Janeiro.
1972, 75 e 77 – Galeria AMI, Belo Horizonte.
1979 – Galeria Guignard, Belo Horizonte.
1982 – Palácio das Artes, Belo Horizonte.
Participou das seguintes coletivas:
1964 – Artistas Mineiros, Galeria Atrium, São Paulo, SP; e Galeria Guignard, Belo Horizonte.
1967 – Artistas Brasileiros, Ohio, EUA.
1970 – Artistas Mineiros 60/70, V Festival de Inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, Ouro Preto.
1981 – Minas Arte Atual, Palácio das Artes, Belo Horizonte; Museu de Arte de São Paulo e Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro.
1996 – Consolidação da Modernidade em Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha. Belo Horizonte.
Tem obras nos acervos do Museu de Arte da Pampulha, da Universidade Federal de Minas Gerais e da Escola Guignard, todos em Belo Horizonte; e no do Museu de Araxá, MG.
Fontes:
CAVALCANTI e Ayala. Dicionário Brasileiro de Artistas Plásticos. MEC/INL, 1973-77.
LEITE, José Roberto Teixeira. Dicionário Crítico da Pintura no Brasil. p. 120, Artlivre, Rio de Janeiro, 1988.
SAMPAIO, Márcio. Chanina. Suplemento Literário Minas Gerais, nº 1095, 5 mar 1988. 
http://www.chanina.com.br 




      Algumas amostras do talento excepcional do grande artista

 
ccx


  






A SAGA LANDELL MOURA

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