sexta-feira, 26 de abril de 2019

                CELEBRAÇÃO DO “DIA DA INCONFIDÊNCIA
                                 EM OURO PRETO


Com a pompa e gala costumeiras, o “Dia da Inconfidência”, principal data no calendário cívico mineiro, foi celebrado no último dia 21 de abril em Ouro Preto, cidade monumento mundial, por iniciativa do Governo do Estado, com o apoio da Prefeitura do Município. O governador Romeu Zema presidiu a solenidade dedicada ao tradicional agraciamento de personalidades da vida pública nacional. O evento foi realizado no Centro de Convenções da Universidade Federal de Ouro Preto, reunindo público numeroso, de alta representatividade. Por generosa indicação de Elizabeth Rennó, dinâmica presidente da Academia Mineira de Letras, nome estelar na cena cultural, este escriba foi distinguido, em grau de promoção, com a Medalha de Honra da Inconfidência. Personagens ilustres na vida brasileira, civis e militares, foram homenageados no ato, que contou com a participação, brilhante como sempre, da Orquestra Sinfônica da Polícia Militar de Minas Gerais. O governador Romeu Zema, o vice-governador Paulo Brant e o prefeito de Ouro Preto Julio Ernesto de Grammont Machado de Araujo discursaram na ocasião.

As fotos abaixo estampadas foram colhidas por Alvimar Peres.


Este escriba, ladeado por Lete Beleza, presidente do
Lions BH Inconfidência, e Claudio Cesar Vanucci

Alvimar Peres, sua esposa Lete, e Cesar Vanucci














Dezenas de pessoas foram agraciadas






quinta-feira, 25 de abril de 2019


          A recomendação do coronel

Cesar Vanucci

“ Um preceito do direito (...): dar a cada um o que é seu”
(Ulpiano  - 228 d.c.)

Ocupando-nos recentemente da momentosa e polêmica questão da Previdência Social, manifestamos o ponto de vista de que a melhor fórmula, única em termos de justiça social de se promover reforma previdenciária nos devidos trinques, é a da fixação de benefícios básicos idênticos aos cidadãos, sem concessões ou vantagens especiais em função da atividade, condição social, política ou profissional. Aos doutos em direitos sociais e previdenciários tocaria a complexa tarefa de formatar um modelo previdenciário oficial que se aprestasse a todas as categorias e que, com bom senso e simplicidade, conforme os ditames democráticos e republicanos, permitisse aplicação clara e objetiva do principio da igualdade de direitos para todos. Está claro que uma demanda dessa natureza imporia tempo mais dilargado para reflexões, estudos e avaliações. Mas, com certeira convicção, no final das contas o país seria agraciado, no futuro, como tanto se almeja, com um sistema previdenciário oficial sem déficits preocupantes, contudo igualitário nos fundamentos essenciais. Ou seja, sem permitir-se concessões de privilégios a quem quer que seja. Sem interpretações difusas e confusas que impliquem em vantagens especiais para parcelas minoritárias da sociedade, provenientes do jogo penumbroso das conveniências corporativas.

O palpitante debate relativo à chamada reforma da previdência social relembra-nos causo que envolve um coronel lá das bandas do sertão, dono de um bocado de léguas de terra boa pra cultivo e criação. Personagem à antiga, desses que apalavram compromisso com fio de barba, resolveu exercer, em determinada ocasião, conduta mais branda nos negócios habitualmente conduzidos com discricionária autossuficiência. Dando-se conta das expectativas nervosas em falas reticentes e olhares interrogativos dos filhos legítimos e outros nem tanto, e também da zelosa matrona, reconhecida solenemente como “matriz”, conhecedora resignada de um punhado de “filiais”, decidiu, de hora pra outra, pelo “repartimento em vida dos haveres” do alentado e cobiçado patrimônio. A cara metade, sempre cordata no papel de dona de casa confinada às prendas domésticas, num raro momento de insubmissão, resolveu meter o bedelho “nesse assunto de homem”, induzindo o marido a utilizar, no trabalho técnico anunciado, os reconhecidos talentos do neto mais velho, economista laureado em brilhante curso, com especialização no exterior. O coronel deixou-se levar, como confessou mais tarde, pela conversa “na maciota” da patroa, acolhendo com um sentimento mesclado de orgulho, escondendo no intimo alguma insegurança, a sugestão de entregar a tarefa do “somatório e divisão dos bens” ao “apetrechado descendente de valorosa estirpe”.  “Num deu outra. Uma deceptude total. Por destraquejo do rapaz, inflado que nem bezerro gordo, bom de pasto, pelas ideias moderneiras dessa geração barbugenta, nasceu uma porqueira de documento, tudo nos desconformes, dando mais amolação que parimento de égua encruada”, comentou o coronel adiante com amigos chegados. O jeito de “consertar o desarranjo” foi convocar às pressas, para “aconselhamentos e providenciamentos reservosos e sigilentos, a peso de ouro”, causídico renomado, com quem o coronel lastimou “o excesso de leprego” do neto: “O garoto verteu mesmo fora do barranco, com baita engazopação, cheio de nove hora, explicação técnica para isso e pra aquilo, mode convencer, mas sem convencer um tiquinho.” Ignorando, por certo, que em contexto diferente algo assemelhado já houvesse sido proferido por um certo escritor chamado George Orwell, o coronel arrematou fulminantemente:     “Na divisão -  parece inté artimanha do maligno - o menino aprontou um fuzuê. Deu uma desembestada geral, desigualando o partilhamento, deixando os homens com cara de burro fugido e as mulheres com face de Madalena arrependida, a me afrontarem, prafrentemente, em defesa, com unhas e dentes, de nacos melhores do churrasco. Igualzinho esse descalabro da Previdência Social, adonde os benefícios da aposentadoria são dados de acordo com a cara do freguês. Num quero desses desajeitos previdenciários no meu negócio. A lei fala que todos são iguais perante a dita cuja. Num tem dessa, então, de alguns serem mais iguais do que os outros. Bota tento nisso, doutor. Faz arrumação justa.”

Conselho válido para os debates da hora sobre a reforma previdenciária: botar tento, para uma justa arrumação.


sexta-feira, 19 de abril de 2019

CONVITE AOS AMIGOS LEITORES DO BLOG



Conspiração cartográfica

"O mapa mente!"
(Eduardo Galeano, escritor uruguaio)


“É loucura, mas há um método nela!” A sabedoria shakespeariana explica magistralmente a insânia das manobras desencadeadas por estrategistas da geopolítica em seus nefandos propósitos hegemônicos de usurpação, subjugação e dominação. Nem os registros cartográficos escapam da conspiração montada.

Confesso, honestamente, que nunca, jamais, em tempo algum, passou-me de leve pelo bestunto a estapafúrdia ideia de que o mapa mundi utilizado em consultas, desde os começos escolares, seja inexato, incorreto nas proporções, oferecendo uma noção falsa, superavaliada, da grandeza geográfica dos países do chamado primeiro mundo. Provocado pelo que conta a respeito Eduardo Galeano no livro "De pernas pro ar – a Escola do mundo ao avesso", resolvi conferir e acabei me certificando, arregalado de espanto, que a revelação, denúncia, ou o que quer que seja a informação transmitida pelo saudoso pensador uruguaio, está absolutamente certa. A linha do equador não atravessa, realmente, a metade do mapa mundi, como se aprende na escola. O rei da geografia, como diz Galeano, está nu. E não é que isso já havia sido constatado, na moita, debaixo de silêncio sepulcral, há mais de meio século, por um cientista alemão de nome Arno Peters?

Mas o mais adequado nas circunstâncias é deixar a palavra escorrer pela boca do próprio escritor: "O mapa mundi que nos ensinaram dá dois terços para o norte e um terço para o sul. (...) A Europa é mais extensa do que a América Latina, embora, na verdade, a América Latina tenha o dobro da superfície da Europa. A Índia parece menor do que a Escandinávia, embora seja três vezes maior.

Os Estados Unidos e o Canadá ocupam no mapa mais espaço do que a África, embora correspondam apenas a duas terças partes do território africano.”

Adotando-se a mesma perspectiva da análise de Galeano, dá pra ver que a configuração do Brasil, detentor da quarta ou quinta maior extensão territorial entre os demais países, está igualmente desproporcional no atlas.

Isso posto, qual a razão dessa desconcertante distorção da geografia e da história, há tantos anos ignorada ou tolerada? Galeano não deixa por menos: "O mapa mente! A geografia tradicional rouba o espaço, assim como a economia imperial rouba a riqueza, a história oficial rouba a memória e a cultura formal rouba a palavra.". Ele está a falar de um processo espoliativo incessante que tem como alvo os países do hemisfério sul. Um processo, como sabido e notório, inclemente do ponto de vista econômico e social com relação ao chamado mundo subdesenvolvido, vez por outra apelidado de terceiro mundo, onde se costuma aplicar também a classificação de "emergentes", a critério dos "donos do planeta", a um que outro país provido de potencialidades impossíveis de passarem, o tempo todo, despercebidas aos olhares mundiais.

Essa cabulosa história do atlas mundial mutilado deixa-nos com aquela mesma sensação de insuportável desconforto trazida, tempos atrás, pela revelação de que alguns livros didáticos em escolas de ensino fundamental nos Estados Unidos mostram a Amazônia brasileira como região sob controle internacional. Uma coisa parece ter tudo a ver com a outra coisa. O inacreditável, imoral e ilegal redimensionamento cartográfico há que ser visto como um instrumento a mais de irradiação de mensagens subliminares insistentes com propósitos que deixam sob ameaça, em seus direitos, sua cultura, soberania e integridade, os países da banda de cá do equador. Essa a leitura a extrair dos fatos. Melhor dizendo, dos mapas.


sexta-feira, 12 de abril de 2019

CONVITE AOS LEITORES DO BLOG DO VANUCCI




Honra demasiada

Cesar Vanucci

“A cultura é uma dimensão
constitutiva da existência humana.”
(Gilberto Amado)

Na manhã do dia 30 de março passado, sábado, vivi forte e genuína emoção. Tomei posse, em concorrida assembleia de teor literário e artístico, como membro efetivo do elenco acadêmico do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, mais antiga instituição cultural mineira, fundada por João Pinheiro. Conduzida pelo presidente Aluizio Alberto da Cruz Quintão, escritor, poeta e jurista de renome, a festiva cerimônia reuniu incontável número de amigos de variados segmentos comunitários, entre eles personagens pertencentes aos quadros, além do Instituto, da Academia Mineira de Letras, Academia Municipalista de Letras de Minas, Academia de Letras Guimarães Rosa, da Polícia Militar, Academia de Letras do Triângulo Mineiro, Arcádia, Academia Mineira de Leonismo e outras entidades ligadas ao movimento literário e artístico. A participação de representantes do Lions Clube foi também bastante significativa.

A parte artística do evento ficou a cargo do famoso instrumentista Cid Ornellas, nome de projeção nacional, que brindou o público presente com recital primoroso, interpretando peças musicais de Villa Lobos, Ary Barroso, Luiz Lua Gonzaga e Ravel.
Na ocasião, deu-se o lançamento do livro “Pelos caminhos do Pescador”, romance histórico com foco na figura de São Pedro, de autoria do secretário do Instituto, Joaquim Cabral Netto. Nas palavras de Cabral “há passagens (na obra) que defluem de fatos reais e, outras, que decorrem da criação do autor”. O propósito é “realçar Pedro: o Apóstolo, o homem, o líder e sua missão.”

Minha indicação para o Instituto partiu dos eminentes companheiros Paulo Duarte Pereira, Luiz Carlos Abritta e Daniel Antunes Junior. Coube ao primeiro deles a saudação ao empossando. Cidadão de inteligência privilegiada, capacidade de liderança louvada num sem número de funções, Paulo é coronel da Polícia Militar, tendo presidido o Tribunal de Justiça Militar. Elos fraternos consistentes nos unem. Amigos de longa data, firmamos, pode-se dizer, uma “tríplice aliança acadêmica”. Estamos juntos no Lions Clube, onde ele deixou como Governador rastro luminoso. Somos companheiros na Academia de Leonismo. Passamos doravante a atuar como colegas no Instituto Histórico.

No pronunciamento que fiz, ao receber o diploma, a medalha e o distintivo oferecidos aos que são investidos na honrosa titulação de sócio do Instituto, registrei, entre outras, as seguintes palavras: “Suceder Oiliam José na cadeira número 18, tendo como patrono José Pedro Xavier da Veiga, representa – como diria saudoso professor de História aos tempos da escola risonha e franca no Liceu Triângulo Mineiro, dirigido pelo genial Mário Palmério – honra demasiada da conta para pobre vassalo. Vassalo, por força das circunstâncias, catapultado por misteriosos, tanto quanto generosos desígnios, aos domínios encantados de uma realeza dotada de invulgar sabedoria, descrição mais que ajustada a este sodalício”.

Reportando-me ao patrono, lembrei que Xavier da Veiga, mineiro de Campanha, foi alguém de estatura everestiana no cenário intelectual. Jornalista, historiador, poeta, atuou destacadamente na política no século XIX. Exerceu funções como Deputado Provincial e Senador Estadual, tornando-se arauto da causa municipalista. Nutrindo por Ouro Preto verdadeira veneração, opôs-se à transferência da capital mineira para Curral Del Rey. Reconhecido pelo traquejo na administração da coisa pública, atuou como negociador em contenda do Governo de Minas com o Governo do Rio alusiva às divisas territoriais entre as duas províncias. O parecer por ele emitido influenciou decisivamente a conciliação que pôs fim na pendência. Com desempenho brilhante, fez parte do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Organizou o Arquivo Público Mineiro. Foi seu primeiro diretor, entre 1895 e 1900. Criou a Revista do Arquivo Mineiro, onde se acha estampada parte considerável de sua efervescente produção literária. No trabalho executado no Arquivo colocou a salvo de desmantelamento e destruição parte significativa da documentação provincial mineira. A rica e vasta bibliografia de Veiga enfeixa inspirados poemas, textos de primorosa feição, pujantes narrativas de conteúdo histórico.

Referi-me, ainda, no discurso, à refulgente trajetória de meu antecessor Oiliam José, educador, escritor, historiador, poeta e pensador, decano de organizações do porte do Instituto Histórico e Geográfico, Academia Mineira de Letras e Academia Municipalista de Letras. Recordei o fato de que mantínhamos, Oiliam e eu, cordial relacionamento. A atividade literária fazia parte de nosso substancioso intercâmbio de opiniões. Era enxergada como instrumento eficiente de narração da historia humana e como fator de irradiação dos valores humanísticos e espirituais que constituem nossa própria razão de viver.




Flagrantes da solenidade


(Fotos gentilmente oferecidas por Silvia Araujo Motta e Tania Diniz)

Discurso de posse




Saudação de Paulo Duarte Pereira

Presidente Aluízio Quintão e Cesar Vanucci



Mesa dirigente dos trabalhos, composta de representantes
das principais instituições culturais de Minas


Entrega da Comenda. Presidente Aluízio Quintão e
secretário Joaquim Cabral Netto


Cena da plateia





quinta-feira, 11 de abril de 2019

A poetisa Silvia Araujo Motta honrou-me, a propósito de minha posse no IHGMG, com o poema reproduzido abaixo.

-
Acróstico-especial nº 6858
Por Silvia Araújo Motta/BH/MG/Brasil
-
C-Com alegria, registramos nesta data,
E-Em trinta de março/2019, empossado,
S-Solenemente, o Dr. CESAR VANUCCI-
A-Advogado, jornalista-hoje, no IHGMG.
R-Referendado à Cadeira nº 18 de José
 -
P-Pedro Xavier da Veiga, o Patrono jornalista
E-E historiador. Saudação ao novo Associado,
R-Referências do historiador e Associado
E-EfetivoCel Paulo Duarte Pereira, Cad. 63, do
I-Inesquecível Barão Manoel Teixeira de Souza.
R-Reconhecido e dinâmico Vanucci, está a presidir
A-Academia Municipalista de Letras de MG, desde 2016.

V-Vanucci, Cidadão Honorário/BH e em 12 Municípios/MG,
A-Atuante dedicação, há décadas, na área sociocultural;
N-No Sistema FIEMG, foi brilhante Superintendente, na
U-UTRAMIG foi Presidente. Na PBH; Ouvidor Geral e
C-Como Secretário de Abastecimento, em Belo Horizonte.
C-Com muita honra, foi Assessor do Dr. José de Alencar, com
I-Importante atuação, em Brasília, no Senado Federal, e

N-Na VICE-PRESIDÊNCIA da REPÚBLICA do BRASIL.
O-O Dr. Cesar Vanucci é fundador da Academia de Letras que
 -
I-Integra o Triângulo Mineiro. Líder, idealizador, este
H-Homem Dr. Cesar Vanucci, coordenou a famosa “Ação
G-Global” sendo Fundador da CASFAM/ FIEMG.
M-Merecedor de efusivos aplausos festivos neste
G-Grande dia: Parabéns HISTORIADOR Dr. Cesar Vanucci.

- -SAUDAÇÕES ROSIANAS DE SILVIA E ESPOSO KLINGER-
BH, MG, Brasil, sábado,  30 de março de 2019.

sexta-feira, 5 de abril de 2019


Junção de processos terapêuticos

Cesar Vanucci

“Não é ter saúde que é bom; não a ter é que é ruim.”
(Abgar Renault)

Quem tem olhos pra enxergar e ouvidos pra escutar percebe com clareza o que anda acontecendo. A criação e o funcionamento de organizações brotadas no seio da comunidade, sem fins predominantemente lucrativos, consagradas a ações assistenciais escoradas nas chamadas terapias alternativas vêm ocorrendo em ritmo sempre crescente, em tudo quanto é canto. Dá pra perceber em todas as camadas da população, um certo fascínio pela (re)descoberta de recursos terapêuticos naturais, representados pela homeopatia, fitoterapia, pelas técnicas, algumas milenares, de aplicação energética.

Sentindo-se molestados pela, não raras vezes, precária assistência à saúde que se lhes é oferecida, pela conspiração contra a vida configurada em clamorosas desatenções a problemas fundamentais de saúde pública, pelos elevados custos dos medicamentos e, até mesmo, como acontece em alta escala, sobretudo na África abandonada, pelas falsificações de remédios, segmentos significativos da sociedade, aqui em nossos pagos e alhures, focam olhares esperançosos em processos que possam abrir, para o ser humano, outras possibilidades de tratamento e cura de aflitivos males físicos e psicológicos. É só por tento no considerável volume de pessoas permanentemente atraídas aos locais de prestação desses atendimentos terapêuticos diferenciados.

Recentemente, a televisão mostrou uma experiência indicativa do que poderá vir a ser uma provável junção dos métodos terapêuticos convencionais com os recursos inovadores acenados pelas chamadas terapias alternativas. Em hospital católico, pertencente à congregação das irmãs beneditinas, numa importante cidade americana, foram adotados processos de assistência sinalizadores de procedimentos que poderão, talvez, identificar a medicina a ser no futuro praticada. As imagens mostraram uma sequência de ações médicas convencionais, rodeadas de instrumentos tecnológicos avançadíssimos e, também - residindo aí a singularidade do processo -, de aplicações energéticas, através da imposição de mãos, praticadas por paranormais, místicos, sensitivos, ou que outra denominação se queira dar a alguém  enquadrado nessa instigante modalidade de atuação terapêutica. Uma intervenção cirúrgica complexa foi acompanhada, o tempo todo, por uma senhora provida de poderes de energização, com o cirurgião chefe recorrendo, volta e meia, aos seus préstimos e intervenção como complemento do procedimento executado no paciente. Noutra sugestiva sequência de cenas, um psiquiatra confessou, sem relutância alguma, haver abolido praticamente a medicamentação de natureza química ministrada aos enfermos, afiançando, com ênfase nas palavras, que o emprego de terapias naturais, inclusive a energização, vem proporcionando resultados amplamente satisfatórios nas demandas de seu consultório. A reportagem apresentada na tevê é de molde a estimular, obviamente, reflexões por parte de todos que se achem empenhados em estudos e pesquisas relacionados com os rumos da assistência à saúde.
Esses registros conferem refulgente atualidade a conceitos esposados por Fritjop Capra. No arrebatante livro “Sabedoria Incomum”, o famoso físico reconhece, maravilhado, fazendo uso de sua clarividente visão das coisas do mundo, a revolucionária eficácia dessa conjugação dos conhecimentos científicos consolidados, absorvidos pela medicina tradicional, com as propostas advindas da assim chamada medicina natural. A fusão dessas técnicas, como demonstrado na experiência do hospital norte-americano, representa muito bem a corporificação daquilo que Capra, em suas percepções de ordem humanística e espiritual, preconiza – como não? – para o amanhã da vida.



quinta-feira, 4 de abril de 2019


O fundamentalismo saudita

Cesar Vanucci


“Na Arábia Saudita, basta ser homossexual para ter o pescoço cortado.”
(Gilles Lapouge, jornalista)

História recente. Um jornalista saudita, asilado nos Estados Unidos, de passagem pela Turquia, resolve procurar o Consulado de seu país natal para regularização de documentos. Nunca mais foi visto. O governo turco faz uma denúncia terrível: o jornalista foi detido, torturado, esquartejado. Seus despojos repousam em local incerto e não sabido. A bárbara ocorrência foi ordenada por alguém muito poderoso da realeza da Arábia Saudita.

A grita de protesto durou pouco tempo. O governo de Riad, uma ditadura cruel de configuração feudal, continuou a ser tratado a “pão de ló”, como se costuma dizer. Tudo por conta do petróleo e interesses negociais subjacentes. As conveniências geopolíticas fazem com que dirigentes de países poderosos não se enrubesçam, tiquinho que seja, em apontar a Arábia Saudita como nação moderna, baluarte da democracia na conturbada região em que se acha localizada, fechando os olhos ao cortejo de horrores ali praticados contra os direitos fundamentais. Tem-se por certo que no país, entre outras absurdidades, subsista ainda a escravatura. O tratamento dispensado à mulher atinge inimaginável paroxismo machista.

Na verdade, a Arábia Saudita é tão ou mais fundamentalista, na extensão mais retrógrada do termo, que o Afeganistão do tenebroso ciclo talebã. Mas, como frisado, é inexplicavelmente poupada nas críticas internacionais feitas às fanatices atribuídas a grupos religiosos coléricos. Quando abre espaço para denunciar despropósitos praticados por intérpretes alucinadamente confusos do Alcorão, um livro sagrado digno de respeito, a mídia se omite escandalosamente face a qualquer lance em que a Arábia Saudita figure como protagonista. Ou, pelo menos, trata com indulgente discrição os desatinos que proliferam naquele país.

São objeto de proibição, nos ermos sauditas, entre outras coisas, o álcool, a dança, a astrologia, o emprego das perigosas expressões “papai” e “mamãe” no convívio familiar, a pecaminosa participação mista em cinemas e educandários. Uma mulher, mesmo ocidental, que ouse sair na rua com trajes despojados, considerados afrontosos à moral e costumes, é açoitada publicamente pelos “guardiães da fé”.

O obscurantismo das leis chega a extremos inconcebíveis. A Arábia é o único país a punir com pena de decapitação os chamados desvios sexuais. Pessoas condenadas sumariamente pelo “crime da homossexualidade” são decapitadas em praça pública, a golpes de sabre. Houve ano em que esse processo bárbaro de avaliação da conduta social produziu 80 vítimas. Os registros dessas atrocidades passam à deriva da divulgação midiática. A ONU, as grandes potências, as próprias organizações consagradas à defesa dos direitos humanos fecham-se, estranhavelmente, em copas diante dos clamorosos acontecimentos.

Gilles Lapouge, jornalista, critica acerbamente o comportamento da sociedade internacional em relação ao que rola. O assassinato dos homossexuais mostra a dinastia saudita, por trás de sua vitrina suntuosa de magnatas do petróleo, amiga e sócia de personalidades mundiais influentes, numa versão de inaudita ferocidade. O jornalista afirma ainda que naquele canto do mundo ocorrem coisas piores que noutros lugares dominados por regimes absolutistas. A dinastia Saud, família real encastelada no poder, desfruta de total imunidade quanto aos malfeitos incessantes. A realeza saudita, afirma ainda o bem informado jornalista, anda a reboque da seita religiosa mais extremada e incendiária do fundamentalismo muçulmano. Os sunitas ou xiitas, mesmo os mais radicais, não passam de meros cordeiros perto do wahhabitas. Alá proteja quem, desventuradamente, venha a cruzar os caminhos desses tresloucados religiosos!

Michael Moore, cineasta e jornalista estadunidense, é outro autor renomado que já denunciou, em livro e filme, os delitos contra a humanidade registrados nas áreas sauditas. Ele assegura que a trama relativa à derrubada das torres gêmeas em Nova Iorque foi urdida por fundamentalistas religiosos de presença marcante no governo saudita em conluio com Bin Laden. Um dos indícios de que se vale ao sustentar tal assertiva é este aqui: os pilotos dos aviões arremessados pertenciam aos quadros da Força Aérea da Arábia Saudita.





 APELO AO INVENTOR


Célia Laborne
Já inventaram o trem, o avião, a matéria-plástica e a bomba-atômica. Até a coca-cola..., que de inventores o mundo anda cheio. Felizmente.
A imaginação humana é incansável e copiosa. Despontam descobridores entre homens e mulheres de ciência, entre mecânicos, químicos e artistas, figurinistas e físicos. Já se criou tanta coisa nova, boa ou má, que estatística alguma poderia enumerá-las.
Mas convoca-se hoje, um técnico moderno e muito aperfeiçoado, um inventor capaz de redescobrir. Sim!
--- Quem quer inventar agora um silêncio sólido e confortante? Igual àquele silêncio antigo e amplo que, aos poucos, vai se tornando lenda?
--- Quem pode devolver o sossego à cidade da máquina e do torvelinho? Ao solo do trator e ao espaço do avião? Já transpuseram a velocidade do som, mas quem o deterá?
De repente, a gente precisa muito do silêncio e não o encontra. Procura-se, indaga-se, mas tudo inútil. Grita-se por ele, faz-se um chamado, um convite, sempre em vão. Vai-se comprá-lo, ninguém o vende.
--- Que fizeram dele? Quem o levou?
Perdemos o carinho pelo silêncio e ele vinga-se furiosamente de todos os lados. Cada máquina moderna cobrou dele o seu preço.
Hoje, só o barulho anda solto, faz comício e ganha posto. Não o expulsam, pelo contrário, fizeram-no dono do mundo. Ele vem do martelo escandaloso, construindo um prédio, corre maluco acompanhando os automóveis e motocicletas. Grita nas esquinas, brinca com as crianças, invadindo céus e terra. Faz ponto na cidade, no vizinho, na nossa casa.  Entrou nas fábricas e nos autofalantes, é chefe das ruas e das praças. Não nos deixam refúgio algum.
Até na música ele vai fazendo suas incursões, às vezes perigosas, às vezes descaradas.
Suplantado, o silêncio retraiu-se. Procurou o interior, virou caboclo, passou de moda. Está agora escondido nas fazendas, encabulado, espezinhado, arredio.

Por isso é justo que se pergunte:
--- Quem quer inventar um silêncio forte e gigantesco, que resista a tudo?
Um silêncio, certamente atômico, que cale os ruídos, saiba repousar e não se envergonhe de aparecer numa cidade grande! Um silêncio provinciano, que possa ser nosso, ao menos num dia de trabalho exagerado ou numa noite teimosa de insônia?

(Do livro Luz sobre o Mar, p.45, 1967, de Célia Laborne)


A SAGA LANDELL MOURA

Não precisava ser assim   Cesar Vanucci “Esse nosso infernal cotidiano!” (Domingos Justino Pinto, educador) Carga pesada. Isso...