sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O recado das urnas



“Não confio nas pessoas que a propósito do mar só me falam de enjoo.”(Louis Pauwells, escritor francês)


O povo falou, tá falado. O recado foi de clareza solar. Das urnas emergiu, inequívoca, a opção popular pela proposta de governo que enfatizou as conquistas sociais como o eixo estratégico do desenvolvimento nacional. Das muitas lições a extrair dos resultados da consulta eleitoral alguns pontos precisam ficar pra sempre gravados na mente e coração das pessoas.
Os brasileiros são bastante conscientes, por um lado, das potencialidades e virtualidades do país. E, por outro lado, de suas carências e insuficiências. Sensíveis a essas realidades, mostram-se avessos às manifestações de mórbido derrotismo derivadas da constatação óbvia dos problemas cruciais a enfrentar na caminhada do progresso. Sabem perfeitamente que, apesar dos esplêndidos avanços registrados, existem coisas demais ainda por fazer em função da colossal dívida social acumulada. Entendem que a empreitada do governo, com o apoio da sociedade, depende de trabalho, muito trabalho, de criatividade, muita criatividade, de conjugação poderosa de esforços dos segmentos produtivos para que a Nação consiga fazer florescer em plenitude sua indesviável vocação de grande potência.
Deixam expresso, no entanto, grande desconforto face às avaliações distorcidas, aos diagnósticos apocalípticos volta e meia propagados em torno da escalada desenvolvimentista levada a cabo. E desconfiam pra valer, com carradas de razão, das intenções dos que, contemplando todas essas coisas procedem invariavelmente como aquelas criaturas morbidamente subjugadas a uma interpretação pessimista da vida que, olhando o mar, só descobrem em seu empobrecido  vocabulário palavras para descrever enjoo.
O posicionamento do eleitorado levou em conta todos os fatores acima alinhados, atentemos para isso.
Do ponto de vista organizacional, a eleição foi, mais uma vez, irrepreensível. Forneceu ao mundo outra prova de nossa invejável pujança democrática.
Dilma Rousseff, a Presidenta reeleita, revelou-se mulher de fibra, cheia de coragem, à altura da missão que lhe foi outorgada pela Nação. Enfrentou, com altivez, borrascas de incompreensões. Foi alvo, o tempo todo, na mídia, de uma saraivada de críticas que extrapolaram os limites razoáveis da tolerância civilizada. Algumas dessas críticas, inspiradas em denuncismos despojados de consistência, tiveram indisfarçável feição de “terrorismo eleitoral”.
É oportuno anotar, a esse propósito, o que o jornalista Jânio de Freitas disse na “Folha de São Paulo”: “A última .investida originada na imprensa para interferir na disputa eleitoral – última, bem entendido, até a hora em que escrevo – é feita com o nome do doleiro Alberto Youssef, com abuso do condicional (“teria dito”, “teria feito”), com um hipotético delegado sem nome e com um tal depoimento de cujo teor nem o advogado do depoente ouviu falar.
Dado apenas como doleiro, Alberto Youssef é mentiroso profissional. E seu negócio são importações mentirosas para exportar dólares como pagamentos. Sua atual busca de delação premiada, em troca de liberdade apesar de criminoso confesso e comprovado, não é a primeira. Voltou a ser preso, há seis meses, porque, desfrutando de liberdade concedida pela Justiça como prêmio por antigas delações, dedicou-se aos mesmos crimes que se comprometera a não repetir. A delação premiada e o acordo com um juiz foram ambos mentirosos.”
A essa observação do jornalista merece ser juntada a declaração incisiva ao jornal “O Globo”, divulgada de forma discreta num que outro órgão da grande imprensa, de Antônio Figueiredo Bastos, advogado do doleiro citado. Segundo o causídico, em momento algum do depoimento, foi feita qualquer alusão a Lula e Dilma. “Estamos perplexos (...).É preciso ter cuidado porque está havendo muita especulação”, asseverou.
A excessiva má vontade de alguns analistas com acesso desembaraçado aos meios de comunicação em massa não poupou a candidata nem mesmo depois do consagrador triunfo eleitoral alcançado. “No coração do Brasil, no Brasil que produz, no Brasil moderno, a vitória da oposição foi acachapante”, não se vexou de dizer alguém na televisão. “O governo de Dilma sai bastante enfraquecido da eleição”, afirmou um outro elemento. “A oposição foi derrotada pela comunicação”, asseverou um outro, na maior cara de pau, certo de estar convencendo as pessoas que o ouviram.



Hora de diálogo e mudanças



“Brasil, mais uma vez, esta filha tua não fugirá da luta!”(Dilma Rousseff, na primeira fala após a reeleição)


Em seu primeiro pronunciamento após o consagrador triunfo eleitoral, a candidata reeleita Dilma Rousseff deu voz à estadista para conclamar a Nação a conjugar ideias, emoções, ações, sentimentos e vontades na conquista do futuro. Concentrou apostas na “energia mobilizadora da sociedade” com vistas à preparação de terreno propício para a construção de “um novo momento”. Enfatizou a força do diálogo, lembrando que nas democracias maduras “união não significa ação monolítica”, mas pressupõe abertura e disposição para o saudável intercâmbio das ideias.
“Toda eleição tem que ser vista como forma pacífica e segura” - acentuou também, acrescentando que “toda eleição é uma forma de mudança” e que uma reeleição há que ser entendida como “um voto de esperança dado pelo povo na melhoria do trabalho do governo.” Asseverando ter compreendido com precisão o clamor popular por mudanças estruturais traduzido nas urnas, anunciou a disposição de se tornar “uma Presidenta muito melhor do que fui até agora.”
A fala de Dilma Rousseff encontrou simpática ressonância em diferentes setores da comunidade. Recolhemos de alguns conhecidos - que fazendo valer respeitável prerrogativa democrática optaram por não clicar o “13” na cabine indevassável - emblemáticas manifestações. Traduzem provavelmente uma média sugestiva das reações favoráveis detectadas em ponderáveis camadas da sociedade à conclamação presidencial pelo diálogo e pelas reformas. Reformas essas, como sabido, ardentemente almejadas no sentimento das ruas.
Um desses conhecidos, visivelmente impressionado com os termos do discurso, classificando-o de “propositivo, lúcido e sereno”, assegurou-nos que não teria experimentado dúvidas em dar o voto à candidata reeleita, caso tivesse ouvido, anteriormente, pronunciamento seu de igual teor.
Dilma tem agora pela frente os olhos da Nação focados em suas futuras iniciativas. Mais do que uma simples expectativa, paira no ar uma ardente esperança. Essa esperança converge para as promessas feitas pela candidata, a serem transmutadas em ações concretas imediatas pela Presidenta.
As reclamadas reformas política e tributária, o intransigente combate à corrupção, com alterações na legislação capazes de por cobro à impunidade, são alguns itens essenciais nesse processo complexo de enfrentamento das muitas questões consideradas tormentosas para a sociedade. No tocante à atividade econômica, as atenções se voltam naturalmente para o anúncio e a execução de medidas que imprimam ritmo mais acelerado ao crescimento, com garantia da sustentabilidade empregatícia até aqui mantida e a expansão de postos de trabalho derivada da abertura de mais frentes de negócios.
Dilma está coberta de razões ao afirmar, alto e bom som, que este nosso Brasil brasileiro “saiu maior desta eleição.” Isso nos remete à reconfortante certeza de que a Nação inteira – com espaço óbvio nas discussões reservado aos respeitáveis segmentos da opinião política que submeteram à apreciação do eleitorado propostas de atuação governamental diferenciadas das proposições da corrente vitoriosa - tem todo o direito de aguardar decisões que levem à construção de “um País mais moderno, mais produtivo, um País da solidariedade e das oportunidades.”
A união de todas as forças vivas do País à volta de um magno projeto de desenvolvimento, desejada igualmente no pronunciamento do senador Aécio Neves ao reconhecer os resultados do pleito, constitui na verdade um anseio nacional.O recado das urnas



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Atletas barrados no baile


“Não há problema negro. Há apenas um problema branco”(Richard Weigth, escritor negro estadunidense)

Este incidente de cunho racista vem relatado em “Um certo Dom”, livro em que conto a história de Alexandre Gonçalves Amaral. Bispo mais novo à época da sagração, ele era, ao falecer, o prelado mais idoso da Igreja em todo o mundo.

Idos de 60.

O Palmeiras acabara de conquistar o campeonato sul-americano de basquetebol. O feito do clube paulista ganhou repercussão nacional. O Jockey Club de Uberaba, possuidor já naquela época de um dos mais belos e imponentes complexos destinados ao lazer e desporto no país, resolveu convidar o sexteto vitorioso para uma exibição em seu ginásio. Evento prestigiadíssimo. Público vibrante compareceu à partida de basquete, fazendo coro com o Jockey nas homenagens prestadas na quadra aos atletas visitantes.

À delegação do Palmeiras e aos associados do Jockey ofereceu-se, depois, no assim denominado "palácio encantado", salão de festas do clube, na Praça Rui Barbosa, um baile de gala. Só que com um porém. Numa demonstração inacreditável de intolerância racial, deu-se a conhecer aos palmeirenses que não seria permitida a presença no baile dos atletas negros. Eram dois. Um deles, principal astro, cestinha do time, conhecido por Rosa Branco, desfrutava na época de admiração popular assemelhada a que veio a ter, muitos anos depois, o famoso Oscar. Ironicamente, o Rosa, chamado de Branco, foi barrado no baile justamente por não sê-lo. O abominável gesto foi acompanhado, da parte da comitiva do Palmeiras, de um ato de pusilanimidade equivalente. Os palmeirenses brancos, dirigentes e atletas, deixaram os colegas alvo da odiosa discriminação no hotel e compareceram maciçamente à festa, embasbacados com os rapapés programados, como se nada de singular tivesse ocorrido. Os atletas discriminados mostraram-se, por outro lado, aparentemente resignados com a revoltante situação. A ponto de demonstrarem grande espanto quando os procurei no hotel, sem conhecê-los pessoalmente, para levar-lhes uma palavra de solidariedade e de revolta diante do ocorrido.

Extrai-se daí uma medida exata da falta de sensibilidade social que, de forma talvez mais intensa que hoje, prevalecia naquela época nesses domínios perturbadores da convivência inter-racial.

No "Correio Católico", diário que contava com 13 mil assinantes, e na Rádio Difusora o episódio ganhou denúncia e críticas veementes. Os responsáveis pelo absurdo procedimento, tentando tapar o sol com peneira, contestaram as evidências. Veladas ameaças foram postas a circular. Falavam em eliminar dos quadros de sócios do clube a "cambada de jornalistas", todos "extremistas", este desajeitado escriba em plano destacado, comprometidos com as denúncias. Uns dois diretores mais sensatos do clube, não só se opuseram à tresloucada ideia, como se animaram, até mesmo oferecendo a mão à palmatória, a procurar o jornal e a rádio, pedindo desculpas pela besteira. As inconsistentes contestações e ameaças motivaram o jornal e a emissora a desnudar outros aspectos dolorosos do problema da discriminação racial.

Tudo quanto se fez, nesse trabalho de desmantelamento de imposturas aceitas sem maiores questionamentos por parcelas ponderáveis da comunidade, contou com o respaldo integral do então Bispo da Diocese, Dom Alexandre Gonçalves Amaral, que resolveu ocupar-se do episódio nos rodapés diários assinados nas páginas do diário católico. Levei a Alexandre, como subsídio para avaliação dos acontecimentos, um registro incrível, revelador dos surpreendentes disfarces que a discriminação racial costuma utilizar alimentando o desejo de expor-se menos ao crivo da consciência social comunitária.

Entre as inúmeras manifestações de solidariedade chegadas ao jornal figurou a de um dirigente destacado de outro clube da cidade. Cidadão muito simpático trazia definidos na epiderme amorenada traços de sua ancestralidade negra. Ao cumprimentar efusivamente o pessoal do "Correio" "pela corajosa atitude assumida no incidente Rosa Branco", ele esclareceu que "em seu clube um absurdo desses jamais ocorreria." Acrescentou, triunfante: "– Lá, não proibimos pretos de frequentar bailes. O que eles não podem é sair dançando. Cada um no seu devido lugar..."

Como assinala o escritor norte-americano mencionado no introito, fixando o assunto da segregação em seu enfoque correto, o que realmente existe é "um problema branco."


O convite desfeito

“O preconceito é filho da ignorância.”
(Willian Hazlitt, escritor, citado por Paulo Rónai)

 

 Trago mais um relato de manifestação racista. A historieta não foi vivida em Berlim, Londres, Paris, Viena, Washington ou Pretória. Coisa nossa mesmo.

Um líder comunitário de Uberlândia, progressista cidade do Triângulo Mineiro, recebeu em sua residência a visita de luzidia delegação de benfeitores de um clube da maior projeção na vida citadina, dono de um dos mais imponentes complexos de lazer existentes no país. O cidadão em causa, de notória expressão social e econômica, dava início na época, idos de 60, a uma cintilante carreira política que acabaria conduzindo-o a numerosas funções públicas de relevo. Os visitantes, recepcionados com tapete vermelho, explicaram logo a que chegavam. Haviam procedido recentemente a exaustivas consultas, envolvendo o quadro de associados, chegando por tal processo à conclusão de que o anfitrião reunia, no conceito geral, as qualificações requeridas para assumir, no próximo mandato da diretoria, a presidência da agremiação. Por causa de seus méritos pessoais, de sua evoluída percepção dos acontecimentos e coisa e loisa... Estavam ali, por conseguinte, para obter aquiescência ao lançamento de seu nome como candidato à honrosa investidura. Desvanecido com a lembrança, aceitando a indicação debaixo de aplausos, o futuro presidente do clube, pessoa de reconhecida sensibilidade social, falou de seus planos, por sinal muito bem acolhidos na hora. Pediu permissão, na sequência, para um registro a mais sobre seus projetos: gostaria de franquear o acesso ao quadro de sócios, na gestão que lhe tocaria comandar, de pessoas da comunidade negra. Frequentador assíduo das magníficas instalações da agremiação, intrigava-o o fato de não ver cidadãos de cor presentes aos eventos e rodas de amigos, nos fins de semana. Baixou no recinto, naquele preciso instante, um silêncio de tumba etrusca. O gelo não foi quebrado nem mesmo quando o garçom deixou escorregar do balde, nos copos abastecidos do legítimo, as pedras de gelo restantes. Entre os visitantes, alguns deram pressa de se mandar.

Convite solenemente formulado e explicitamente aceito, o diálogo findou ali. Poucas semanas passadas, o ilustre convidado a assumir a presidência tomou conhecimento, atônito, pelo noticiário, de que as eleições no clube haviam sido realizadas. E que seu nome não havia figurado, nem como suplente de vogal, na chapa única vitoriosa.

Os relatos de que nos ocupamos, nestes últimos artigos, retratam flagrantes exemplares do preconceito racial vigente em tantas partes. O racismo é tão ou mais repulsivo quanto outras manifestações de intolerância detectadas por aí afora. Dá voz ao egoísmo, ao radicalismo, à prepotência e ambição de grupos e pessoas avessas à convivência fraterna dos integrantes da sociedade humana.


Num mundo regido pelas leis da sabedoria universal, onde os direitos fundamentais não fossem pisoteados, não conseguiriam, por certo, sobreviver tantas condições propícias a esse exercício rotineiro dessas práticas discriminatórias. São ações que alvejam a mulher, a criança de rua, o índio, os despossuídos, as pessoas marginalizadas por preconceitos raciais, étnicos, religiosos e de gênero. Revelam-se mais intensas nuns lugares, menos noutros. Mas, para a desventura humana, resistem, raivosamente, em tudo quanto é parte, a todo tipo de censura e de condenação nascidas do bom senso e dos ideais humanitários. O genocídio de que os judeus foram alvo na era nazista representa símbolo tétrico da insensatez e fanatice que tiranizam os procedimentos de tantos em muitos rincões. E nem é o caso de admitir, para se combater racismo, a adoção, como justificativa, de posturas de igual caráter intolerante, que nem fazem, estranhavelmente, com morbidez, alguns grupos étnicos que se sentem marginalizados. Racismo é sempre racismo. Preconceito é sempre preconceito. Algo abominável, não importa as motivações e origens.



sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Campanha eletrizante




“Quero dizer ao povo que é muito importante o direito
de votar e que tudo  está ocorrendo na maior tranquilidade.”
(Ministro José Antônio Dias Toffoli, presidente do Tribunal Superior Eleitoral)



Alinhamos abaixo lances marcantes dessa campanha eleitoral memorável, carregada de vibração, que nos acena neste momento com epilogo eletrizante.

Soberbo, magnifico, fabuloso! Qualquer desses vocábulos, bem como outros de tom equivalente, pode ser empregado com precisão para definir o desempenho da Justiça Eleitoral. O aparato institucional montado para a coleta de votos e a apuração em tempo recorde dos resultados da colossal consulta popular de cinco de outubro alça-nos a uma condição invejável no panorama internacional. Nenhum país do mundo realiza, em tempos de hoje, processo eleitoral comparável. Em que pese o escasso noticiário a respeito, representantes de numerosas nações acompanharam de perto o competente trabalho executado, recolhendo subsídios para a implantação de algo assemelhado.

Temos aqui outro bom motivo para exercitar nossa ufania: a sociedade brasileira deu, uma vez mais, no comparecimento tranquilo e ordeiro às seções eleitorais, provas exuberantes de fervor cívico e de vitalidade democrática.

A comoção nacional provocada pela retirada da disputa, de maneira trágica, do candidato Eduardo Campos deu origem, ao que tudo faz crer, à ascensão meteórica de Marina Silva nas intenções de votos. Não saberíamos dizer com convicção se o declínio na caminhada da candidata teve a ver com propostas consideradas inconsistentes, ou com ausência de um suporte partidário adequado. Apontada repetidamente como favorita a concorrer ao segundo turno, Marina acabou, na hora do “vamos ver” eleitoral, deslocada para terceiro lugar na tábua de classificação. Acumulou, apesar disso, votação expressiva.

Pela vontade soberana das urnas, a competição presidencial voltou a ficar polarizada entre PT e PSDB. Aécio Neves conseguiu, nos derradeiros instantes da primeira etapa da corrida, assenhorear-se de votos que pareciam destinados à candidata do PSB e da REDE.

O triunfo de Dilma Rousseff em termos nacionais foi significativo, com destaque para os números alcançados em Minas Gerais, Bahia, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Norte e Nordeste. Em São Paulo, Paraná, Distrito Federal, Espirito Santo, o desempenho de Aécio Neves foi também muito bom.

Para quem tem olhos pra enxergar e ouvidos pra escutar, não passa despercebida, a esta altura do campeonato, a opção da grande mídia pela candidatura oposicionista. O “Jornal das 10” e o “Manhattan Connection”, da “Globo News” no domingo da eleição traduziram emblematicamente essa tendência nas falas preconceituosas, crivadas de deboche e chacota, de parte dos comentaristas encarregados de  analisar a marcha das apurações. 

As falhas dos institutos de pesquisa recolocam a urgência de um debate em torno dos métodos de consulta tradicionalmente empregados nesse valioso trabalho informativo. Nenhum setor comprometido com o processo eleitoral pode mais se furtar a avaliações e reflexões concernentes ao momentoso tema.

São perfeitamente compreensíveis as especulações que partidários dos candidatos fazem, nesta reta final, a respeito de para quem convergirão, majoritariamente, os votos atribuídos no primeiro turno aos candidatos derrotados. Revela-se também bastante lógico o grande esforço que as forças promovem com vistas a atrair a simpatia dos que se abstiveram de votar no primeiro turno, 27 milhões em todo o país, 3  milhões só em Minas. Bem como dos 4,4 milhões (mais de 1 milhão em Minas), que votaram em branco; e dos 6,6 milhões (em Minas também acima de 1 milhão) que anularam o voto. São números pra sacudir qualquer eleição.    



Nesta fase final da campanha, a opinião pública não esconde o receio de que o passionalismo político possa alimentar uma indesejável onda de baixarias e de denuncismos inconsequentes. Como, aliás, já aconteceu em outras jornadas eleitorais. Mas, nada obstante, resoluta na sua aversão às interpretações pessimistas da realidade nacional, a mesma opinião pública conserva acesa a esperança de que as propostas, ideias e palavras de caráter construtivo acabem se sobrepondo, no frigir dos ovos, às ocasionais desavenças, de modo a orientarem a soberana decisão popular no dia 26. O que a Nação realmente almeja é assegurar-se de que o Brasil venha a incorporar, no futuro, mais avanços sociais, econômicos, educacionais, tecnológicos no cumprimento de seu indesviável destino de progresso.

Dados dignos de atenção


Os avanços são significativos,
mas há muitos avanços ainda por fazer.”
 (Antônio Luiz da Costa, professor).

Nem tanto a terra, nem tanto ao mar. O barco, na rota econômica, pode não estar navegando num mar de rosas. Mas, nem tampouco em águas encapeladas. Os “boletins meteorológicos” emitidos por manjados “catastrofistas de plantão” divulgam um mundaréu de informes equivocados e conclusões precipitadas. Dados abundantes apontam para realidade diferente.

O cientista politico e historiador Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira andou coletando elementos que colocam em  realce aspectos sugestivos da atualidade social, econômica e cultural brasileira. As revelações se contrapõem ruidosamente a diagnósticos e analises costumeiramente publicados na grande mídia. As fontes utilizadas desfrutam de conceito técnico. Ei-las: ONU, OMS, UNCF, Banco Mundial, IBGE, Ministério da Educação, “Washington Post”, Índice de GIN.

O PIB brasileiro era em 2002 de R$1,48 trilhões. Saltou para R$ 4,84 trilhões em 2013. Tal avanço alçou-nos a sétima posição entre as economias nacionais mais pujantes. Já o PIB “per capita” pulou de R$7,6mil em 2002 para R$ 24,1 mil no ano passado. Em 2013, a dívida liquida do setor público correspondia a 34 por cento do PIB. Houve melhora acentuada também nesse item, uma vez que o valor da divida de 2002 equivalia a 60 por cento do PIB.

O Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal e o BNDES, instituições oficiais com destacada participação no processo de desenvolvimento, elevaram expressivamente a lucratividade nos períodos cotejados (2002 e 2013). Aqui estão os resultados registrados nos balanços anuais de cada um deles: BB – R$ 2 bilhões e R$ 18,8 bilhões; Caixa Econômica Federal – R$ 1,1 bilhões e R$ 6,7 bilhões; BNDES – R$ 540 milhões e R$ 8,15 bilhões.

Mercado sempre atraente para investimentos estrangeiros diretos, o Brasil acusou em anos recentes extraordinário avanço nessa modalidade de captação de recursos. Em 2002, o dinheiro aplicado por investidores externos atingiu a cifra de 16,6 bilhões de dólares. Em 2013, o montante apurado foi de 64 bilhões de dólares. Também no tocante às reservas internacionais nossos indicadores são formidáveis. Chegaram, no final do ano passado, a 375,8 bilhões de dólares. É oportuno saber que tais números mostram-se superiores aos Produtos Internos Brutos de vários países importantes em diferentes continentes. É bom não perder de vista também que essas reservas giravam em torno de 37 bilhões de dólares há 12 anos. “O índice Bovespa”, volta e meia lembrado nas avaliações econômicas, fechou em 2013 com 51.507 pontos. A pontuação no final de 2002 era de 11.868. A dívida externa em relação às reservas, calculada em 557 por cento ante de 2003, é estimada agora em 81 por cento.

O volume da safra agrícola brasileira colhida em 2013 (180 milhões de toneladas) praticamente dobrou em relação à safra de 2002 (97 milhões de toneladas).

Em matéria de produção de veículos, atentemos para esses números: 1,8 milhões de unidades em 2002; 3,7 milhões de unidades em 2013.

Maior empresa do Brasil e da América Latina, a Petrobras alcançava em 2002 valores de mercado estimados em R$ 15,5 bilhões. As estimativas atuais colocam-na no patamar dos R$ 104,9 bilhões. De outra parte, o lucro médio anual auferido pela estatal petrolífera chegava até 2002 a R$ 4,2 bilhões. De lá pra cá passou a ser de R$ 25,6 bilhões.


Nossas exportações somavam, em 2002, 60,3 bilhões de dólares. Em 2013, os valores atingidos com exportações foram de 242 bilhões de dólares. A taxa SELIC era de 18,9 por cento em 2002. Ainda bastante elevada, é hoje de 10,90 por cento.

O notável incremento do transporte aéreo registrado no Brasil de alguns anos para cá, vem traduzido nestes números: 33 milhões de passagens aéreas vendidas em 2002; 100 milhões, em 2013.

No artigo vindouro, iremos nos reportar aos dados de inclusão social levantados no trabalho do cientista social acima mencionado.




Avanços sociais respeitáveis



“As politicas sociais (...) possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.” 
( Leonardo Boff, filosofo)



Carradas de razão assistem ao teólogo e filósofo Leonardo Boff num registro em artigo recente onde se reporta ao momento político, social e econômico. É quando assevera que se, por um lado, a sociedade não pode se privar de criticas ao governo por falhas cometidas, por outro lado, estaríamos todos nós omitindo a verdade caso não dispuséssemos reconhecer os avanços sociais significativos derivados da ação governamental nesses últimos anos. Suas as palavras: “A inclusão social realizada e as politicas sociais benéficas para aqueles milhões que sempre estiveram à margem possuem uma magnitude histórica cujo significado ainda não acabamos de avaliar.”  

O trabalho do cientista social Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, mencionado em nosso artigo anterior, corrobora essa avaliação de Leonardo Boff, apontando dados eloquentes. Os indicadores sociais mostrados no estudo, tanto quanto os informes econômicos já divulgados, fazem jus a toda atenção. Pedem reflexão. São reveladores de uma conjugação poderosa de esforços que desembocou, auspiciosamente, em conquistas dignas de comemoração.

Segundo a ONU, o Brasil, por força de politicas sociais inclusivas, deixou recentemente de fazer parte do “Mapa da fome”. Milhões de patrícios ascenderam a patamares mais elevados na pirâmide social, passando a desfrutar de condições mais propícias ao acesso a bens de consumo. As estimativas são de que, num período de 12 anos, 42 milhões de pessoas saíram da miséria extrema. Boa parte delas passou a compor a chamada “classe C”. 

Os indicadores coletados no estudo com respeito à “taxa de extrema pobreza” dizem o seguinte: 2002 - 34 por cento; 2012 - 5,2 por cento.  Os “índices de desenvolvimento humano” oferecem os números abaixo alinhados: ano 2000 – 0,669; ano 2005 – 0,699; ano 2012 – 0,730.

A mortalidade infantil acusava antes de 2003 o índice de 25,3 para mil crianças nascidas. Em 2012, a proporção passou a ser de 12,9 por mil. Os gastos púbicos com a Saúde somaram 106 bilhões em 2013. Em 2002, eram de 28 bilhões. Com a Educação, os gastos públicos elevaram-se de 17 bilhões em 2002 para 94 bilhões em 2013.

Outra revelação interessante no estudo citado: até 2003 funcionavam no país 100 Varas da Justiça Federal. O numero de Varas em 2010 era 513.

O salário mínimo de hoje, de 724 reais corresponde ao valor de 2,24 cestas básicas. Antes de 2003, fixado em 200 reais, dava para adquirir 1,42 cestas básicas. O piso salarial de hoje corresponde a mais ou menos 300 dólares. Por volta de 2002 era de 86,21 dólares.

O programa “Minha Casa, Minha Vida” beneficiou, nos últimos anos, 1,5 milhões de famílias. O “Luz para Todos” favoreceu 8,5 milhões de pessoas, a um só tempo que a capacidade de produção energética do país elevou-se de 74.800 MW em 2001 para 122.900 MW em 2013.

O PRONATEC beneficiou 6 milhões de pessoas e o FIES garantiu em anos recentes financiamento universitário a 1,3 milhões de estudantes. O numero de estudantes matriculados no ensino superior, que era de 583.800 em 2003, chegou a 1.087.400 em 2012. Nos últimos 12 anos foram criadas 18 novas Universidades Federais e 214 novas Escolas Técnicas. Seja anotado que até o ano de 1994 funcionavam no Brasil 144 instituições semelhantes, e que, até 2002, foram implantadas outras 11. Enquanto isso, o programa “Ciência sem Fronteiras” proporcionou bolsas no exterior a 100 mil pessoas. O “PROUNI”, a seu turno, concedeu 1,2 milhões de bolsas. A implantação de creches, num projeto que prevê 6.427 unidades das quais mais de 2 mil já em operação, representa junto com o programa “Mais Médicos para o Brasil”, outro indicador positivo no plano das políticas sociais. A proposito desse último item, o Ministério da Saúde deslocou para áreas desprovidas de assistência médica 14 mil profissionais.  
Isso aí...

    







sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Desatinos racistas

Cesar Vanucci*

“Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas estorvam
e inundam as avenidas para fazer com que se demore duas horas para chegar em casa. E tudo para ver um macaco. Brasileiro, mas ainda macaco.” (Carlos Manuel Treviño Núñez, politico mexicano, em ofensa racista a Ronaldinho Gaúcho)


O racismo é praga daninha. Uma espécie de tiririca. Essa graminha manhosa descrita num saboroso poema roceiro magistralmente recitado pelo Rolando Boldrim. Lamentavelmente, não consigo guardar o nome do autor desse poema. Os versos, de singelo lirismo, falam que “a gente pode arrancar a grama tiririca, sacudi-la, virá-la de raiz pro ar, mas qua! – um fiapo escondido no torrão faz a peste vicejar...”.

O racismo contamina, produz devastadores estragos. Na escala dos defeitos humanos mais abjetos atinge topo everestiano. Quer dizer, situa-se acima, muito acima, da dose máxima de tolerância caridosamente suportável.   

O que o babaca mexicano acima citado andou dizendo, na boçal ofensa a Ronaldinho Gaúcho, referindo-se à aglomeração de torcedores na apresentação do jogador em seu novo clube, o Querétaro, é uma amostra loquaz da maneira abominável de ver as coisas demonstrada por indivíduos de maus bofes, com suas doentias regras discriminatórias.

Todos os dias, aqui e alhures, defrontamo-nos com ferozes manifestações de intolerância merecedoras de vigoroso repúdio. A constatação impele-nos a ir buscar no baú histórias já narradas anos atrás neste mesmo espaço. Servem elas para documentar a incômoda permanência da temática racista no rol das preocupações humanas mais angustiantes. Vamos principiar os relatos por um incidente estarrecedor ocorrido nos Estados Unidos.    

O autor do desatino, racista empedernido, milita seguramente numa das facções fundamentalistas que, volta e meia, tornam mais ostensivas suas interpretações radicais e preconceituosas da vida. Um pessoal da pesada que costuma povoar de sobressaltos as mentes de personagens que representam condignamente o pensamento liberal e as vivências democráticas estadunidenses. Ocupando cargo oficial relevante, o cara mencionado cismou de botar pra fora, tempos atrás, toda ferocidade de seu credo racista. A plenos pulmões bradou, com todas as letras, que os casos de aborto no seio da comunidade negra são a maneira mais eficaz de reduzir os índices da criminalidade no país. Minha Nossa Senhora da Abadia d’Água Suja! Como é que pode?

A extensão do desvario provocou, entre compreensíveis reações de indignação, uma manifestação burocraticamente comedida de censura da alta cúpula governamental, agarrada à inconsistente tese de que episódios do gênero constituiriam, em tempos de agora, ações isoladas no contexto comunitário. Uma tese, visto está, enganosa. Estrepitosamente desmentida na rotina cotidiana, como comprova o noticiário nosso de cada dia que relata confrontos de rua sangrentos produzidos constantemente pela virulência racista.

Às pessoas atentas não passa despercebido, por outro lado, o fato de que, em aeroportos dos EUA e Europa, guardas aduaneiros estabelecem pelo olhar carregado de desconfiança uma triagem prévia dos passageiros desembarcados. Em momentos de surto histérico, muitos viajantes são impedidos até de desembarcar. As pessoas claras desfrutam, de modo geral, nesses portais de chegada, de tratamento especial, com garantia de circulação ágil pelos guichês, direito a mesuras e acenos cordiais. Quando chega a vez do grupo dos amorenados, das pessoas de tez escura, pele amarela, aparência oriental, desvanece-se o sorriso cúmplice, substituído por polidez glacial, e por trique-triques que fazem a glória da rotina burocrática. Os semblantes crispados lembram os mal-humorados guardas russos e alemães de fronteira escalados para conferirem passaportes, revistar passageiros e bagagens dos antigos filmes de guerra e de espionagem. Não havia quem na poltrona do escurinho do cinema não sentisse, ao avistá-los, um baita calafrio na espinha.


Mais desatinos racistas

Cesar Vanucci*


“Há realmente raças humanas? (...) Não se trata de raças, senão
 da variedade de uma mesma raça, de uma mesma espécie.”
(Anatole France).


Voltamos a falar de preconceito racial, essa praga daninha difícil de ser extirpada.
Vamos deslocar agora o holofote das atenções para perturbadoras cenas de rua captadas por câmeras indiscretas. Elas foram mostradas num soberbo trabalho de investigação jornalística por uma tevê americana. Escancaram de modo inapelável faceta inimaginável de intolerância.

Interessados em apurar tendências do comportamento das ruas, experimentados repórteres postam-se numa movimentadíssima avenida de Nova Iorque. Na calçada, acompanhados em seus movimentos pelas câmeras, um negro e um branco disputam, aos berros, fazendo uso de toda a gesticulação e mímica a que têm direito, as atenções dos motoristas que trafegam pela via entupida de carros. A totalidade dos motoristas, entre eles alguns negros (atentem para o desconcertante pormenor), faz questão fechada de ignorar por completo a ruidosa encenação do cidadão de tez escura, posicionado alguns metros à frente do branco. Rendem-se, incondicionalmente, à opção de carregar o passageiro de cútis clara.

Os repórteres não se dão por satisfeitos. Partem para outro esquema. O cidadão branco é deslocado para a posição em que estava o cidadão negro e vice-versa. Os carros de praça (como é que fomos deixar expressão tão saborosa ser substituída pela feiosa denominação de táxi?) da leva seguinte não vacilam: atendem, pressurosos, todos eles, à chamada do cidadão claro. Fica evidenciado, de forma irrespondível, não se tratar, positivamente, de uma simples questão de melhor visibilidade ambiente à média distância.

Dispostos a avançar mais fundo no estudo comportamental abordado, os argutos repórteres bolam mais uma estratégia. Branco e negro retomam as posições do início da experiência. O negro é visto envergando um traje requintado. O branco aparece com roupas despojadas. Nem assim. Todos os veículos, sem exceção, passam ao largo do suplicante apelo do cidadão de cor para se deterem diante dos acenos, dessa vez mais comedidos, do outro. Na sequência, os participantes do teste são oficialmente apresentados ao público telespectador. O negro é um ator famoso, ganhador de “Oscar”. O branco, um traficante de drogas condenado pela Justiça.

É isso aí, gente boa. Recordam-se daquele empedernido racista do começo do papo no artigo passado? O imbecil que andou acenando com uma politica abortiva no seio da comunidade negra de modo a “estabelecer” um “processo eficaz” para reduzir os índices da criminalidade nos EUA?  É duro ter que admitir. Mas, desafortunadamente, ele não anda sozinho em sua sinistra empreitada. Constatação desoladora. Há muito mais trogloditas comprometidos com a paranoia racista, espalhados por este mundo velho de guerra sem porteira, do que jamais conseguirá imaginar nossa vã filosofia.
Nos artigos que se seguirão contaremos mais casos de intolerância registrados na área esportiva. Relataremos outros incidentes ocorridos em clubes apoderados de “complexo ariano”, refratários à ideia de abrir as portas a membros da comunidade negra.






sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Os “perniciosos” quadrinhos

 “Eles eram, despropositadamente, considerados atentado violento à moral e bons costumes!”(Antônio Luiz da Costa, educador, relembrando os tempos de rejeição inquisitorial aos gibis)



Tomo conhecimento, apoderado de nostálgica amargura, de que neste ano da graça de 2014 edições antigas de revistas em quadrinhos vêm sendo arrematadas em leilões, nos Estados Unidos, por uma nota preta. Uma simples historieta, narrando espetaculosa aventura do “Super Homem”, rendeu indoutrodia 6 milhões e 500 mil reais para o feliz proprietário do exemplar.

A sensação amarga embebida de saudosismo desloca-me para tempos de uma meninice até certo ponto risonha e franca. Naquele tempo, saibam todos, os quadrinhos já exerciam fascínio muito grande no espirito infantil. Mas uma avaliação educacional distorcida, obscurantista mesmo, equivocadíssima – insista-se – quanto ao verdadeiro significado cultural das revistinhas, apontava tal gênero de publicação como deletério à moral e aos bons costumes. Juizado de Menores, Inspetorias de Ensino, direções das escolas, muitos professores e alguns pais entenderam de firmar, num dado momento, consenso em torno do fato de que os gibis causavam danos irreparáveis à boa formação escolar. Lançando mão de expedientes inquisitoriais, resolveram por conta disso colocar o “malsinado” produto “fora da lei”. Diziam-se persuadidos de que com atitude tão saudável estariam preservando valores éticos e intelectuais muito caros à sociedade. Acenavam com severas punições para os alunos que, desavisadamente, ousassem transportar nas pastas os conteúdos impressos pecaminosos.

Os pertences da garotada eram alvo, na entrada da sala de aula, de sistemática e rigorosa revista. Ái do pobre coitado que fosse flagrado com a mercadoria proibida no meio dos cadernos e livros! As iras dos encarregados em zelar pelas boas regras disciplinares instituídas desabavam estrepitosamente sobre sua cabeça. Em tempos de palmatória, o menino podia ser convocado ao temido gabinete da diretoria para receber implacável castigo. Noutros momentos, poderia ser exemplarmente punido com milhares de “linhas” após o expediente escolar, ou ser impedido de deixar a sala de aula no recreio ou, ainda, até mesmo, ganhar uma suspensão. Adicionalmente, teria que enfrentar o vexame de avisar aos pais a respeito da intenção da diretora da escola de levar um papo legal com eles, para comentários críticos alusivos ao seu comportamento indisciplinado. O combate sem tréguas aos quadrinhos atingia seu ponto culminante quando a comunidade escolar, os pais convidados, o inspetor de ensino infalivelmente presente, era chamada a participar no pátio de um ato cívico reparador: a destruição pelo fogo do “material inconveniente”. Ou seja, os gibis apreendidos. As labaredas andaram consumindo preciosas historietas que o neto aqui de dona Carlota cuidava de colecionar. As historinhas narravam, tanto quanto me recordo, feitos assombrosos do “Super Homem”, do Flash Gordon e do Buck Rogers, pioneiros astronautas, do Tarzan, do “Sombra”, do Dick Tracy e de tantos outros “heróis”.
Inadvertidamente, na mais santa ingenuidade, deixei o valioso acervo, montado com capricho e sacrifício, parar um dia nas mãos dos implacáveis guardiões da conduta estudantil careta recomendada pelos ditames disciplinares vigentes. Recordo-me muitíssimo bem de que as lágrimas a escorrerem copiosas pela face não foram provocadas, jeito maneira, pela fumaça desprendida do fogaréu.

Nasce aqui uma interrogação. Se aqueles exemplares devorados pelas chamas houvessem sido conservados, como algumas outras publicações da infância ainda hoje existentes na biblioteca lá de casa, será que eles estariam figurando agora nessa relação de preciosidades que colecionadores apaixonados passaram a adquirir por somas elevadas? Dá pra manjar por aí o baita prejuízo que sofri por culpa do pessoal da escola primária que frequentei...

Mas, verdade dita, o prejuízo amargado em consequência daquele lance recuado da escola da meninice tinha conotações diferentes. Não se tratava de perda material. O que se esvaiu, como bolha de sabão, deixando marca de sofrimento na alma, foram sonhos. Sonhos maravilhosos inspirados nos desenhos e dizeres produzidos pela imaginação fecunda dos autores dos “abomináveis” quadrinhos, com suas propostas ousadas despertando fantasias, antecipando o futuro e alargando as fronteiras do conhecimento.

Ainda bem que o tempo – senhor eterno da razão – se encarregou de desfazer o monumental equívoco contido nas restrições apostas naquela época a essa modalidade de expressão cultural tão pujante.



A semântica das urnas

“Descubra como separar o joio do trigo – ou entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral.”(Nirlando Beirão)



Nirlando Beirão, titular absoluto no escrete do jornalismo de qualidade comprometido com o sentimento nacional, herdou do pai (dirigente empresarial de saudosa lembrança), além do nome, a inteligência arguta e a verve faiscante. Deixa isso evidenciado num saboroso texto publicado na “CartaCapital”. Intitulado “Dicionário Eleitoral (para ingênuos)”, o trabalho fornece dicas que ajudam a decifrar a semântica das urnas, ou, conforme frisa, “entender o que é verdade e o que é só interesse no calor da temporada eleitoral”.

Abaixo, de forma adaptada e resumida por este desajeitado escriba, alguns “verbetes” do divertido “dicionário”. 1)Alternância de Poder – só é essencial à democracia quando o nosso adversário está no poder. 2) Aparelhamento do Estado – os adversários nomeiam apaniguados. Nós, os melhores quadros técnicos. 3) Corrupção. Os outros a praticam de forma perene. Nossos aliados cometem apenas pequenos deslizes. 4) Visão de Deus. Todos os candidatos dizem ter fé. Os mais fervorosos são aqueles que não acreditam. 5) Delação premiada. Ela só tem valor se vazada para atingir o concorrente. Se no meio do lamaçal, surgir o nome de um aliado, o correto é dizer que as denúncias são açodadas e precisam ser apuradas a fundo, doa a quem doer. Quanto ao fato de o vazamento da delação premiada constituir também crime (...), bem esqueça.” Cenário internacional. Se uma administração aliada vai mal, a culpa é do cenário externo. Inverte-se a lógica no caso dos adversários. Se a gestão inimiga vai bem, as condições internacionais a favoreceram. 7) Marquetagem. Se o adversário sobe nas pesquisas isso se deve a ação mistificadora dos marqueteiros. Sem essa de lembrar que o nosso candidato igualmente possui um exército de especialistas em marquetagem. 8) Ano eleitoral. As ações do adversário não passam de medidas eleitoreiras. As nossas ações são decisões de governante seriamente comprometido com suas funções. 9) Velha política. Só os adversários a praticam. 10) Coligações. Promovidas por nós, deixam estampada aguda sensibilidade política, negociação de fino trato. Promovida pelos outros, denotam falta de escrúpulos, atroz barganha de princípios por conveniências.
Tamos falados.
· Dinheirama desviada para “paraísos”.
Anotem a cifra: 77 bilhões e 500 milhões de reais. Segundo a “Global Financial Integrity”, tal valor representa estimativa confiável do dinheiro ilicitamente amealhado (evasão de impostos, emissão ilegal de divisas para o exterior, atividades negociais clandestinas, corrupção e por aí vai) desviado pela bandidagem que opera no Brasil para os assim denominados “paraísos fiscais”. Com destaque especial, evidentemente, para o sistema bancário suíço, reconhecidamente um refúgio de “altíssima confiabilidade”, ao longo dos tempos, para fortunas adquiridas em inimagináveis patifarias. Essa dinheirama toda circulante fora dos controles legais equivale, presumivelmente, a 1,5% da produção econômica brasileira. Ajuda a “explicar”, no entendimento de muita gente, o motivo pelo qual o CPMF foi tão ferozmente combatido até a extinção.


Tolerância zero

“Nenhuma qualidade humana é maisintolerável na vida comum (...) que a intolerância.”(Leopardi)



Incidentes de teor antidemocrático, indicativos de gestos repudiáveis de intolerância, criaram ainda recentemente ensancha oportunosa, como diziam os antigos, para saudáveis lições de cidadania.

A suprema boçalidade de um grupo numeroso de torcedores presentes ao estádio do Grêmio, em Porto Alegre, no jogo com o Santos, desencadeou reações contra o racismo que poderão perfeitamente, daqui pra frente, desestimular a prática asquerosa da ofensa a atletas negros, tão disseminada por aí. Sabe-se que a punição aplicada pela Justiça Esportiva, implicando na exclusão do clube da Taça Brasil, foi encarada em respeitáveis ambientes jurídicos como demasiadamente severa. Mas, cá pra nós, não se pode negar à decisão o mérito de haver fixado uma advertência clara no sentido de que acaba de ser instituída a “tolerância zero” mode interromper a sequência de atos racistas em nossas arenas futebolísticas. De outro lado, a fulminante ação da polícia, identificando os responsáveis pelas agressões verbais ao atleta Aranha, também merece ser reconhecida como elemento pedagógico com relação às deploráveis manifestações racistas de intolerância em competições esportivas.

Anotamos adiante outro episódio desagradável com desfecho bastante positivo. Referimo-nos à pronta reação da Casa Civil da Presidência da República ao instaurar sindicância e apontar, sem titubeios, o autor daquelas alterações feitas, com intuitos indesculpáveis, por meio da utilização de equipamentos públicos, dos perfis de jornalistas na Wikipédia. Assim que levantada a questão, rodeada de compreensível repercussão, o Governo Federal determinou a constituição de um grupo de investigação, estipulando prazo para parecer final. O grupo atuou com rapidez, trazendo ao conhecimento da opinião pública a identidade do responsável pelo delituoso procedimento. Nota da Casa Civil esclareceu também que o servidor, afastado do cargo comissionado, responde a processo administrativo disciplinar, o que pode levar à sua demissão do serviço público.

Há mais caso a registrar, dentro dessa linha reveladora do salutar inconformismo expresso pela sociedade diante das atitudes radicais de pessoas e grupos lesivas à boa convivência humana. Numa carta aberta à Presidenta da República, estampada na primeira página dos jornais, o Grupo Santa Casa de Belo Horizonte apresentou pedido formal de desculpas por “lamentável ato de sabotagem ocorrido na Clínica de Olhos da instituição”. A sabotagem consistiu na ampla divulgação de um refrão de cunho político pejorativo à figura de Dilma Rousseff, distribuído a pacientes em material impresso com o timbre da instituição. A veemente reação provocada por esse ato radical constitui também louvável gesto de exaltação da cidadania. Pelo teor do pronunciamento, percebe-se, que os dirigentes da Santa Casa se dispõem a transmitir à opinião pública informações complementares concernentes ao detestável incidente, tão logo encerrada a sindicância aberta para a apuração dos fatos e identificação do responsável pelo malfeito.

Isso aí. A construção democrática exige das lúcidas lideranças da sociedade posicionamentos, a exemplo dos mencionados, que denotem inarredável compromisso com o sentimento nacional. O sentimento das ruas rejeita posturas radicais de toda e qualquer origem.


A SAGA LANDELL MOURA

Nestes tempos de coronavírus Cesar Vanucci “Brasília poderia ter sido (desde o começo da pandemia) uma fonte de informações e de...