sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020


O carnaval que passou

Cesar Vanucci

“O carnaval è a única festa nacional que consola a gente do calor,
da queda do mil-réis, da política, dos programas de salvação pública...]”
(Ribeiro Couto, 1898-1963, já naquela época)

 O carnaval que eu vi foi ao vivo e em cores. Isso mesmo, pela televisão. Os jornais ofereceram informes complementares para o que, agora, em boa e leal verdade, faço questão de registrar.

Louve-se, antes de tudo mais, a magnífica cobertura jornalística. “Imprecionante!” (deixa com “c” mesmo, no padrão ortográfico adotado por uns tantos adeptos das “teorias revisionistas contemporâneas”). A argúcia dos repórteres não deixou escapar nadica de nada. O extraordinário espetáculo de euforia popular foi retratado de forma estupenda. Quem pôde contemplá-lo, presencialmente ou à distância, tomando por base tudo aquilo que andou pintando no pedaço, do Oiapoque ao Chuí, não tem como fugir a uma inarredável constatação. O carnaval brasileiro constitui, sem qualquer vislumbre de dúvida, a maior festa popular deste planeta azul sacudido por permanentes sobressaltos.

Sei não. Por isso peço “ajuda aos universitários”, no caso representados por antropólogos, sociólogos e tarimbados foliões, para que confirmem ou discordem da tese. Mas entendo, cá com os meus botões, que a folia momesca vivida nas ruas brasileiras, neste ano da graça de 2020, suplantou nitidamente, em brilho feérico e como projeção de política cultural, esplêndidos carnavais de anos passados. Senti os indivíduos mais soltos, mais desinibidos, mais descontraídos, mais donos de si, no meio das multidões. Encontrei uma prosaica explicação, naturalmente brotada de meus apoucados conhecimentos de psicologia, para o fato. Acossado, cotidianamente, no atacado e no varejo, por incontáveis problemas, atormentado pela paralisia econômica, pelo ritmo pífio de desenvolvimento, pelo desemprego em proporções cruéis, pela danada da corrupção, pela falta de criatividade e iniciativa das lideranças em conceberem, conforme ardentemente almejado pela opinião pública, projetos de crescimento econômico e social a médio e longo prazos, o povão descobriu nas ruas um desaguadouro ordeiro e eficiente de suas maltratadas emoções. Escolheu o carnaval para catarse, para desafogo.

Usando de muita inventividade, em grupos, blocos, carros alegóricos incríveis, repletos de recados sociais e políticos altamente sugestivos, proclamou, às vezes sutilmente e noutras vezes com bastante ênfase, esperança e crença inabaláveis num Brasil mais justo, mais igual, mais fraterno, mais ecumênico, onde a cultura popular e as diversidades comportamentais sejam olhadas com respeito, como valores que enobrecem o espírito humano. A alegria espontânea despejada nas ruas e praças, ao som da batucada, conectada com sátiras bem-humoradas, envolventes cantorias, esfuziantes alegorias e sonoros refrões de conotação social, econômica e política, traduziu de forma esplêndida – não há como negar - o autêntico, o genuíno sentimento nacional.

Agora, algumas considerações específicas a respeito do carnaval de rua de Belo Horizonte. Cabe reconhecer, jubilosamente, que ele ganhou, de tempos a esta parte, desvencilhando-se de algum marasmo antigo, notável pujança. Vem deixando à mostra, em traços frisantes, o poder extraordinário da vontade popular quando canalizada em empreitadas de interesse comum. Espelhando as emoções simples da gente do povo, afastando-a por bons momentos de suas desditas, os folguedos carnavalescos serviram, certeiramente, para reaquecer as atividades econômicas, vinculadas ao comércio, ao turismo, à hospedaria. Mas, mais do que isso, as manifestações de rua na Capital mineira, denotando esmero no planejamento e organização, vale como encorajador exemplo para empreendimentos outros que exijam conjugação de vontades, concatenação de esforços com vistas a realizações voltadas para causas do bem comum. O Brasil anda bem precisado disso, não é assim?


Histórias momentosas e intrigantes

Cesar Vanucci

“Eu de nada sabia.”
(Alegação do parlamentar em cuja fazenda foi localizado e abatido um dos chefões da milícia carioca acusado de participação na trama que vitimou a vereadora Marielle.)

É extenso o cortejo de fatos intrigantes, momentosos, passíveis de gerarem perplexidade e merecedores de acompanhamento e avaliação. Temos aqui mais amostras sugestivas.

Caso Marielle. O miliciano achava-se foragido há mais de um ano. Não era o único, entre companheiros de estripulias, a perambular por locais incertos e não sabidos. Apontado como um dos chefões da temida milícia carioca, foi abatido, dias atrás, numa propriedade rural baiana, em confronto com agentes de segurança.

O dono da fazenda, parlamentar do PSL, deu uma de “Joãozinho sem braço”. Alegou, candidamente, não saber nadica de nada a respeito da circunstância de o cara ter se refugiado no local sem seu conhecimento e permissão... O miliciano pertenceu aos quadros da PM do Rio como oficial graduado, atuando no BOPE. Sua folha de serviços acusa louvores de políticos famosos, aos quais esteve por bom tempo vinculado. Ele vinha sendo procurado sob a acusação de suposto envolvimento no atentado que vitimou a vereadora Marielle Franco e assessor. No dia anterior ao da troca de tiros em que sucumbiu, o miliciano comunicou-se com o advogado. O causídico apressou-se em informar a imprensa que seu constituinte denunciou um complô para eliminá-lo assim que fosse detido, tendo em vista ser detentor de informações capazes de comprometerem outras pessoas. Sua morte, no choque armado, levantou compreensivelmente suspeita de “queima de arquivo”. E adicionou outra enigmática ocorrência à novela, composta de intermináveis capítulos, do assassinato da desassombrada vereadora.

Marielle, como público e notório, bateu de frente contra o crime organizado. Contrariou interesses poderosos e provocou a ira de forças clandestinas que operam na cidade considerada no passado maravilhosa, não apenas e exclusivamente pelas belezas naturais.

A Justiça do Rio de Janeiro conseguiu trancafiar dois integrantes da milícia. Indiciou-os como autores dos disparos fatais. Comprovou-se, nas apurações, que um deles, ex-sub oficial da PM, morador de majestosa vivenda num luxuoso condomínio da Barra da Tijuca, é também dono de um formidando arsenal: mais de uma centena de fuzis - metralhadoras de última geração. No dia do atentado, seu assecla foi buscá-lo onde mora. Juntos, provavelmente com outra pessoa no carro, ainda por ser identificada, saíram no encalço das inocentes vítimas. As morosas investigações registram muitos lances desnorteantes, como os dos inexperientes porteiros que confundiram vozes de moradores, bem como material bélico com instrumentos musicais...

A Polícia e o Ministério Público do Rio sustentam estar seguindo, com inabalável disposição, pistas valiosas que possam conduzir aos autores intelectuais da nefanda trama. Dá para intuir que muitos ainda serão os obstáculos a sobrepujar até chegarem aos dito cujos. Bem entendido, se chegarem...

Planos de saúde. Passando por cima, com incrível desenvoltura e demolidora arrogância, de sagrados direitos fundamentais, contando com censurável complacência dos órgãos governamentais de regulação, os planos de saúde instituíram, ao seu exclusivo alvedrio, uma tabela de taxas mais elevadas na prestação de serviços a idosos. Chegaram ao absurdo de estipular a duplicação do valor a ser pago assim que o usuário atinja 59 anos de idade. A política de preços descerimoniosamente praticada alveja em cheio - visto está – a dignidade das pessoas. Agride o Estatuto do Idoso. Constitui abominável arbitrariedade.

Não poucos usuários, em todas as partes do país, apoderados de justo inconformismo, bateram às portas da Justiça, reivindicando abolição do extravagante critério de cobrança diferenciada. Viram seus pleitos acolhidos nas instâncias judiciais inferiores. Só que, daí pra frente, a questão emperrou. A justa e almejada solução das pendências, atribuída institucionalmente aos tribunais superiores, vem sendo procrastinada, sabe-se lá por que cargas d’água, já por enervante espaço de tempo. Nas prateleiras e gavetas dos doutos julgadores vão se acumulando processos e mais processos com sentenças que dão ganho de causa aos lesados clientes dos planos de saúde. Essa situação provoca, obviamente, muita indignação. Notórios os danos causados à coletividade. A imaginável cessação do abuso permitirá economia de gastos pra muita gente. Permitirá, igualmente, que os prejudicados sejam ressarcidos de valores indevidamente apropriados.

Resumindo o papo: já passou a hora das cortes superiores da Justiça colocarem cobro nesse incômodo estado de coisas.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020


Tempos outros, tempos outros...

Cesar Vanucci

“Os vícios de outrora são os costumes de hoje.”
(Sêneca – 55 a.C a 39 d.C)

Pegando mundo e meio de surpresa, o papa que antecedeu o magnífico Francisco gloriosamente reinante, Bento XVI, do alto de sua cátedra atrelada a valores exageradamente conservadores pro gosto da maioria, mesmo católica, resolveu no finalzinho de seu curto pontificado soltar o verbo. Em entrevista transformada num livro pelo jornalista alemão Peter Seewald, opinou sobre um tema comumente encarado como espinhoso. Justificou o uso da “camisinha” quando o objetivo seja evitar a contaminação da aids. Palavras textuais do antigo Pontífice: “Trata-se de um primeiro passo na direção de uma moralização, de tomada de responsabilidade, mas não é realmente a maneira certa de enfrentar o mal da contaminação pelo HIV.” Porta voz do Vaticano complementou a declaração, dizendo ser a mesma válida para todos: homens e mulheres heterossexuais, homossexuais e transexuais. Com um porém, todavia, contudo: o veto ao preservativo para fins contraceptivos deveria permanecer...

A manifestação papal, recebida com relativo alívio por ativistas de direitos humanos, causou na época grande repercussão, como não poderia deixar de ser. Fez também aflorarem na lembrança de muita gente episódios embaraçosos, de momentos não tão distantes assim, relacionados com o uso de preservativos. No papo de hoje e no que se lhe seguirá, este desajeitado escriba irá se reportar a dois episódios retirados do baú. Soam originalíssimos e desconcertantes, quando transportados para a realidade dos tempos de agora, pontuados por decisões do Poder Público inimagináveis no passado. Estamos nos referindo à distribuição ampla, geral e irrestrita aos foliões, por iniciativa do governo dentro de uma campanha sócio-educativa bem assimilada pela população, de centenas de milhões de “camisinhas”, como medida preventiva recomendada pela saúde pública.

Candinho era o que se poderia chamar de moleque endiabrado. Nove anos de peraltices. Falo de um tipo de travessura inofensiva, tempos da escola risonha e franca, comecinho da década de 40, quando o golquiper do Uberaba Sport se chamava Yé. O danado do menino morava na rua Alaor Prata, Uberaba. Colegas de escola, participávamos das peladas de rua, movidas a bola de pano, um pouco de briga, palavrões, de quando em vez interrompidas por conta de um chute mal calibrado estourando a vidraça da casa de dona Lili.

Naquele dia, Candinho entrou em casa carregando uma vareta de bambu com estranhos objetos dependurados na ponta. Chegou até a cozinha, onde Gertrudes, a mãe, quitandeira de mão cheia, assídua e pontual frequentadora da missa das seis na Igreja dos dominicanos, preparava um bolo de fubá afamadíssimo, cuja receita se recusava, egoisticamente, a passar pras conhecidas. No minuto em que, ajeitando os óculos, se deu conta da natureza dos penduricalhos trazidos pelo filho, a santa criatura quase teve um troço. O que saiu da garganta foi mais um uivo de animal ferido. Reboou por toda rua. Ameaçando o filho com o chinelo, afogada em lágrimas, a bondosa mulher perdeu o fôlego, tendo que recorrer aos sais aromáticos. O que se introduzira naquele lar honrado, guardador de acrisoladas virtudes, temente a Deus, eram mercadorias repulsivas cuja citação a moral e os bons costumes desaconselhavam em roda de família. Como os tempos são outros, prá não espichar a curiosidade do leitor, vou dando logo nome aos artigos causadores do bafafá, artigos reservados para pecaminosas ações, despojados ali do invólucro de papel, soltos ao vento: camisinhas de vênus. Um punhado. Ficou óbvio que o guri não tinha consciência da real serventia do material. Tanto que, sem propósito de fazer troça, assustado, sugeriu candidamente fosse "colocado ar naquilo prá virar bexiga", ou, então, que se fizesse linguiça "daquelas tripas", enchendo-as de pedaços de lombo. Na casa tomada por pequena e alvoroçada multidão alguém comentou com Jerônimo, pai de Candinho, convocado às pressas no serviço, que as camisinhas haviam sido dadas pelo dono da farmácia da esquina. O já transtornado Jerônimo virou bicho. Todos se assustaram ao vê-lo anunciar um acerto de contas, garrucha na cinta, a costumeira mansidão de boi transformada em fúria de leão. Guilhermina, respeitada pelos dotes de benzedeira, persignando-se, bradava para quem se dispusesse a ouvi-la, seu refrão predileto: "O mundo tá perdido! De mil passou, mas a dois mil não chegará!" Descobriu-se, adiante, com a mediação do pároco, que a história do farmacêutico tava mal contada. Os preservativos haviam sido largados, isso sim, num terreno baldio perto da farmácia. O pai injuriado foi dissuadido de tomar satisfação. Por via das dúvidas, o farmacêutico saiu de circulação, arranjando viagem súbita a Sacramento até a poeira baixar.

Isso aí, gente boa! O hilário confronto dessas imagens da meninice com o pronunciamento pontifício ou com os costumeiros reclames institucionais do governo para os momentos carnavalescos – o do preservativo ajustado a robusto recipiente de suco de uva, de alguns anos atrás, é um deles - revela, de modo impecável, como são desnorteantes e inesperados os rumos da história no trepidante capítulo do comportamento e costumes. Quem não cuida de se preparar para as novidades à espreita, dá uma de dona Gertrudes. Tem um troço.


Incidente carnavalesco de outrora

Cesar Vanucci

"Uma ocorrência escabrosa!"
(Palavras do presidente do clube a respeito

Mais uma historietazinha relacionada com preservativos nos usos e costumes populares.

Foi pouco antes de um animado "tríduo momesco" de meia dúzia de anos atrás. Como sabido, o tríduo momesco deixou de ser assim chamado quando em tudo quanto é canto a folia acabou sendo esticada por mais dias. Na Bahia de Todos os Santos e dos atabaques ininterruptos, até por tempo indeterminado. Sem hora pra começar nem acabar. O carro de um conhecido emparelhou-se com o meu na descida da Afonso Pena, de frente ao "farol", como se diz em dialeto paulistês. Ele jogou pela janela uma pergunta que, por força das circunstâncias, não pude responder na hora: - Escuta aqui, meu chapa, o que há de tão engraçado pra você aí, sozinho da Silva no fusca, cair de repente na risada?

Explico, agora, respondendo à pergunta, a razão do riso solitário no flagrante da avenida. Eu havia acabado de guardar no porta-malas uma sacola atulhada de preservativos, a serem entregues a uma organização que dá guarida a excluídos sociais. Ao transportar o material, bateu-me a lembrança de uma festa carnavalesca de uns 60 anos atrás. O episódio relembrado naquela hora, inspirando confrontação com os costumes vigorantes em épocas bastante distanciadas, deu causa à reação que tanto intrigou meu amigo. História seguinte.

A batucada carnavalesca ia à toda no suntuoso clube, "frequentado pela nata de nossa progressista sociedade," segundo a abalizada opinião do festejado colunista do jornal da cidade. A moçada rodopiava pelo salão  ricamente decorado, entregando-se com animação às relativamente bem comportadas brincadeiras, típicas dos folguedos, toleradas nas posturas morais dominantes. Das mesas, ao redor da regurgitante pista de dança, pais zelosos acompanhavam as graciosas evoluções das filhas donzelas com suas fantasias multicoloridas, de apurado gosto. De súbito, percorreu o salão, de mesa em mesa, trazido pelo vento do espanto e da indignação, um chocante relato. A esposa do diretor social, dama de peregrinas virtudes e de alta respeitabilidade, acabara de testemunhar, entre soluços e lágrimas, na sala de estar do reservado feminino, algo "super indecente". A "escabrosa ocorrência", tomando emprestadas palavras do presidente do clube na reunião de emergência montada para uma tomada enérgica de providências, consistiu na descoberta, largadas sobre o confortável divã onde madame se refestelava depois de haver retocado a maquiagem, de algumas "camisinhas de vênus" com indícios de uso recente. A primeira versão extraída dos fatos dizia que um casalzinho "prafrentex" havia resolvido mandar pra cucuia, na cara e na coragem, ali mesmo, valendo-se de momento de distração da vigilância, as sadias regras da moral e dos bons costumes. Chegou-se mesmo, com certo açodamento, à citação de nomes de supostos autores da "sórdida proeza". O que acabou acendendo comentários maledicentes e, mais tarde, malquerenças familiares insanáveis. Outra versão posta nas especulações arguia a hipótese de que "aquelas indecências" houvessem sido lançadas por um estudante, malcaratista juramentado de cidade vizinha, depois de encher a cara com umas e outras. O auê à volta do "ato de depravação", cujos pormenores ficaram para sempre inexplicados, afetou de modo irreparável a festa. Honrados chefes de família, batendo duro os calcanhares, convocaram as distintas consortes e amuados rebentos para se recolherem mais cedo aos respectivos domicílios. A orquestra recolheu também os instrumentos antes da hora. A presença de foliões no baile seguinte, "terça-feira gorda", sem intenção de trocadilho, foi magra. Bastante aquém das expectativas.

A história rendeu outros ruidosos desdobramentos. Numa assembleia religiosa, dias depois, devotos piedosos acompanharam, compenetrados, incandescente prédica tendo como foco o "abominável caso", com o pregador caprichando nas citações das passagens bíblicas que se ocupam dos pecaminosos malfeitos ocorridos em Sodoma e Gomorra.

Quem, dentre as testemunhas oculares do bololô armado no baile carnavalesco poderia supor na época, mesmo dando trela ao mais ousado voo de imaginação que os "indecorosos artefatos de látex", mercadoria clandestina incogitável nos hábitos de consumo das pessoas de bem, passariam num futuro não tão distante a ser maciçamente distribuídos na praça, com beneplácito oficial? Mais ainda: e com expressas recomendações paternas e maternas, aos mancebos e às moçoilas em flor, no sentido de que cuidassem de conservá-los sempre ao alcance da mão, guardadinhos nos bolsos e nas bolsas, pras eventuais emergências?...

Eta mundo velho de guerra sem fronteira!


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO


C  O  N  V  I  T  E

A Arcádia Minas Gerais, a Academia Feminina Mineira de Letras, a Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa, a Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais, a Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, a Academia Mineira de Leonismo, a Academia Mineira de Letras, a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

ao ensejo das celebrações, neste ano de 2020, do Tricentenário da Implantação da Capitania de Minas Gerais, têm a satisfação de convidar associados e amigos  para o Encontro Cultural Interacadêmico intitulado
O Brasil de JK,
evocando um momento marcante na história do desenvolvimento brasileiro.
Exposição do Economista e Acadêmico Carlos Alberto
    Teixeira de Oliveira subordinado ao tema
“Juscelino, profeta do desenvolvimento”.

Exposição do Coronel Acadêmico Klinger Sobreira de
   Almeida subordinado ao tema
“A atuação de JK na Polícia Militar de Minas”.


Data: 18 (dezoito) de fevereiro de 2020, terça-feira
Horário: 15 (quinze) horas
Local: sede da Amulmig, entidade a que pertenceu o Acadêmico Juscelino Kubitschek, rua Agripa de Vasconcelos, 81, Alto das Mangabeiras, próximo à praça do Papa, Belo Horizonte.



Os rios só pedem passagem...

Cesar Vanucci

“... Mas eu só queria passar!”
(Sheilla Lobato, escritora, no poema “Lamento de um rio”)

Faço esporádicas incursões pelo fascinante e desgastante território da internet. Procuro, precavidamente, nessas andanças, evitar os trechos minados, muito mais abundantes do que poderia supor nossa vã filosofia... Na faixa chafurdenta do território percorrido pelas multidões, zilhões de vezes, todos os dias, em todas as partes deste confuso planeta azul, vicejam, como sabido, irritantes frivolidades, atordoantes intrigas, perversas maledicências, inimagináveis falsidades. Tudo isso gerado, como também notório, por legiões de indivíduos despojados de sensibilidade social e sentimento do mundo. Ao lado dos assim (apropriadamente) chamados “idiotas da aldeia”, a coadjuvá-los eficientemente na massiva tarefa de ilaquear a boa fé das pessoas e levar o desassossego às mentes e corações, sobretudo nas camadas mais ingênuas da sociedade, colocam-se, galharda e pressurosamente, analfabetos políticos. E, ainda, anarquistas de todos os naipes, profissionais especializados em espalhar falsidades e vociferações preconceituosas. Todos a soldo de personagens e grupos maquiavélicos inebriados pelos ouropéis do poder mundano.

Nas buscas empreendidas nessas ocasionais ações como internauta, apego-me sempre a um lema: as amargas, não. A procura pessoal a que me atino, impelido pela esperança, é de lances de vida que enriqueçam a alma, fortaleçam a causa da construção humana. Esse lema remete-me a nostálgica lembrança. Falo da leitura, nos idos tempos da adolescência, de interessante livro, justamente com o título “As amargas, não”, do festejado escritor Álvaro Moreyra.

Isto posto, peço permissão, agora, ao distinto e culto leitorado que acompanha estas maltraçadas linhas, produzidas dia sim, dia não, por este desajeitado escriba, incorrigível caçador de quimeras, para aqui reproduzir, compartilhando-os prazerosamente, sugestivos e emblemáticos versos. Recolhi-os em incursão recente a áreas da internet onde sentimentos nobres, propósitos edificantes, conceitos de vida positivos costumam, afortunadamente, jorrar em compensadora profusão. São versos de Sheilla Lobato no poema intitulado “Lamento de um rio”. Narram, com envolvente lirismo, uma história de candente atualidade.

“Me perdoem por toda esta "bagunça"... Eu só queria passar. / Eu não fui feito pra Destruir... Eu só queria passar. / Já fui Esperança para os Navegantes... / Rede cheia para Pescadores... / Refresco para os banhistas em dias de intenso calor. / Hoje sou sinônimo de Medo e Dor... / Mas, eu só queria passar...// Me perdoem por suas casas / Por seus móveis e imóveis / Por seus animais/ Por suas plantações... Eu só queria passar. /  Não sou seu inimigo / Não sou um vilão / Não nasci pra destruição... / Eu só queria passar. // Era o meu curso natural / Só estava seguindo meu destino / Mas, me violentaram, / Sufocaram minhas nascentes / Desmataram meu leito... Quando eu só queria passar. / Encontrei tanta coisa estranha pelo caminho...  Que me fizeram Transbordar.../ Muros / Casas / Entulhos / Garrafas / Lixo / Pontes / Pedras / Paus.../ Tentei desviar ... Porque eu só queria passar. // Me perdoem por inundar sua história, / Me perdoem por manchar esta história... / Eu só estava passando... / Seguindo o meu trajeto / Cumprindo o meu destino: / Passar.... //


A difícil missão de Regina Duarte

Cesar Vanucci

“A cultura é a soma de todas as formas
de arte, de amor e de pensamento.”
(André Malraux)

O exercício efetivo da função de titular na Secretaria (ou Ministério) da Cultura vai exigir da simpática Regina Duarte, no escorregadio e efervescente palco político-administrativo, uma atuação que nada fique a dever aos desempenhos que a consagraram como atriz no plano ficcional encantado da dramaturgia televisiva e teatral. O enredo que lhe está sendo proposto requer da protagonista, para que a interpretação saia a contento geral, talento, tirocínio, bom senso, serenidade, sensibilidade, domínio pleno dos gestos e palavras. E “jogo de cintura”, muito “jogo de cintura”, como se costuma dizer no papear das ruas...

Na opinião de um bocado de gente familiarizada com as tricas e futricas do ambiente político e com a esfuziante lida cultural, a “namoradinha do Brasil” pegou uma parada torta. Vai ter que demonstrar enorme habilidade prá descascar o ananás que lhe foi colocado nas mãos. Terá, de um lado, a vigiar-lhe os passos com zelo sufocante, as falanges talibanistas que mantêm, permanentemente, com propósitos revisionistas, olhares de suspeita e desconfiança focados em tudo aquilo que não se enquadre nas rígidas normas de sua ortodoxia ideológica. Essa postura fundamentalista, como público e notório, entra em rota de colisão constante com a liberdade de criação artística e com a livre manifestação das ideias, comprometendo o bom diálogo democrático.

 Existe, de outra parte, em círculos humanísticos ligados às letras e artes, uma expectativa muito grande quanto ao que será executado, à frente da pasta, por alguém do ramo, provida das credenciais ostentadas pela famosa artista. O mundo cultural, em todas suas variadas modalidades de expressão, é marcado pelas diversidades no campo das ideias. Essas diversidades remetem, compreensivelmente, a divergências e antagonismos ocasionais, passageiros, que acabam sendo absorvidos, no mais das vezes, no dia a dia das realizações. Não há como desconhecer, entretanto, que, neste preciso instante, no meio cultural, nada obstante essa multiplicidade de tendências, subsiste apreensão generalizada quanto ao que será promovido, pela nova gestão, em favor de uma desejável conciliação de interesses que venha a favorecer a execução de uma política cultural realmente representativa do sentimento nacional.

De um algum tempo para cá, os setores que respondem pelas políticas culturais na esfera oficial têm se primado por ignorar  - e até mesmo hostilizar abertamente - conquistas culturais relevantes. São oferecidas, nas entrelinhas, alegações nada convincentes para esse comportamento equivocado. Comportamento esse de visível conotação político-partidária. Algo que molesta o ideal democrático e os postulados republicanos.

Os elementos que atuam nesses setores fingem desconhecer fatos e iniciativas culturais da maior significação e retumbância. Alinhamos abaixo, entre muitos outros, alguns frisantes exemplos. Autor e compositor brasileiro consagrado, Chico Buarque de Holanda arrebatou o cobiçado Prêmio Camões de Literatura. O talento de numerosos cineastas patrícios vem sendo cantado em verso e prosa nas mais importantes mostras fílmicas realizadas no mundo.  Artistas da televisão foram agraciados, recentemente, com lauréis do mais alto valor, em competições internacionais. Dos registros oficiais nada consta, todavia, a respeito desses feitos triunfantes, que engrandecem a cultura brasileira e enchem de júbilo a alma popular. Forçoso e penoso admitir que se trata de uma mesquinha desconsideração para com brasileiros que enaltecem sua pátria.

A cultura é uma projeção luminosa dos saberes, sentimentos, costumes que os seres humanos conduzem em sua caminhada existencial. É um elemento imprescindível no processo da evolução civilizatória. Desdenhar a cultura é típico de gente com inclinação autoritária. Herman Goehring, segundo em graduação na sinistra cúpula nazista, deixou uma frase tristemente célebre sobre como a cultura é encarada em ambientes onde são rejeitados os preceitos democráticos e humanísticos: “Quando ouço alguém falar em cultura, puxo do meu revólver.” A imbecilidade proferida provocou magistral réplica do pensador Louis Pauwels: “Quando me falam em revólver, puxo a minha cultura.”

Os desejos mais ardentes da sociedade brasileira é de que não falte apoio a Regina Duarte para levar a bom termo sua missão. Mas não deixa de ser sintomática a circunstância de ela ver-se obrigada, já no primeiro ato de gestão, a abrir mão do concurso de uma colaboradora, de sua própria indicação, pessoa ao que tudo indica vinculada à aguerrida turma fundamentalista e que, já na primeira hora, revelou-se inablitada para o cargo.

Esse pessoal não brinca em serviço. É só lembrar das aprontações, indoutrodia,  dos “quase titulares” da Secretaria da Cultura e da Fundação Palmares, ambos os dois militantes de carteirinha do grupo...


Rogério Faria Tavares *



Essa gente, de Chico Buarque




Vencedor do respeitado Prêmio Camões de 2019, Chico Buarque será lembrado como um dos mais notáveis artistas brasileiros de todos os tempos. Sua densa e vasta produção como compositor inclui canções eternas como “Pedropedreiro”(1965), “A banda” (1966), Apesar de Você” (1970), “Construção” (1971) e “Cálice” (1973). São de sua lavra peças teatrais como “Roda Viva”(1968),“Calabar”(1973),“Gota D’água”( 1975), e “Ópera do Malandro”(1979), quando apresentou ao público a travesti Geni, um de seus tipos inesquecíveis.

Fundamental para entender a cultura brasileira da segunda metade do século vinte, o estudo de sua obra exige um olhar profundo e elegante, que seja capaz de alçar-se à altura em que se situa. Filho de Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil” e sobrinho de Aurélio Buarque de Holanda, filólogo e lexicógrafo inesquecível, que nos legou o famoso ‘Dicionário Aurélio’, Chico  herdou de sua linhagem uma aguda habilidade para compreender as estruturas sociais e políticas, uma inegável sofisticação vocabular e um absoluto  domínio de seu ofício. Seu trato com as palavras – como acontece com os grandes criadores – acaba por renovar a potência do idioma em que se comunica, confirmando a imensa capacidade de expressão da língua.

A dedicação à música e ao teatro, no entanto, não o impediu de também enveredar, com êxito, pelos caminhos da literatura.A estreia de Chico em livro se deu em 74, com a novela “Fazenda Modelo”. Depois, vieram os romances “Estorvo” (1991), “Benjamim”, (1995), “Budapeste”, (2003), “Leite Derramado” (2009), “O irmão alemão” (2014), e, agora, “Essa Gente”, que li em poucos dias, como se passou com os demais livros.

Sedutor, “Essa gente” conduz os leitores pelo universo de Manuel Duarte, um escritor às voltas com duas ex-mulheres, algumas namoradas, um filho pré-adolescente e problemas financeiros decorrentes de uma carreira literária em decadência. O pano de fundo é formado pelo bairro do Leblon e a paisagem urbana do Rio de Janeiro, em toda a sua complexidade. Não ficam de fora referências à violência (em suas diferentes formas e seus múltiplos agentes), à desigualdade social, à expansão do poder das igrejas e ao acirramento de ânimos que caracterizam o país hoje, dividido entre a aposta na civilização e o poder da barbárie. É antológica a cena em que o personagem Fúlvio Castello Branco, advogado de prestígio, espanca um mendigo encostado no muro do Jockey Clube, de onde é sócio: “Acerta-lhe um pontapé nos rins, e depois de um chute nas fuças deixa o homem estatelado e arquejante no meio da calçada. Mal o Fúlvio vira as costas, o índio velho rola devagar no chão e volta a se ajeitar com a bunda no muro do clube” (pp. 47- 48).

A narrativa não é contada de modo linear. Ela vai e volta no tempo. Não há apenas um narrador, mas vários, incluindo um que fala em terceira pessoa. Os textos são reunidos sob as datas de sua elaboração, quase todas de 2019, o que comprova o quanto o livro fala do Brasil contemporâneo. Vários deles são apresentados como se fossem cartas. Uma das reflexões principais do livro é justamente sobre o processo da escrita e as fronteiras, muitas vezes embaralhadas, que ela estabelece entre ficção e realidade.


*  Jornalista e Presidente da Academia Mineira de Letras



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Testemunha ocular da tormenta

Cesar Vanucci

“Sabemos que canalizações e tamponamentos
 são conceitos ultrapassados em política urbana.”
(Maria Caldas, Secretária de Política Urbana da PBH)

Fui testemunha ocular, ao vivo e no escuro de breu da noite, de um “tsunami” em miniatura. E olhem que eu estou distanciado, cá no pedaço de chão domiciliar, consideráveis léguas das ondas mais próximas do mar bravio! A amostra das águas em fúria, por horas a fio, foi aterrorizante, falar verdade. Conto como foi, “começando pelo comecim”, conforme se diz no saboroso dialeto capiau...

Naquela terça-feira, 27 de janeiro, cheguei em casa, largado o batente, mais cedo do que de costume. A antecipação de horário surpreendeu um conhecido que cruzou meu caminho na entrada do prédio: - “Uai! Você por aqui uma hora dessas? Aconteceu alguma coisa?” Não, não havia acontecido nada diferente, pelo menos até aquele preciso momento. Acabou mesmo acontecendo, só que depois. Tivesse chegado mais tarde teria sido impedido, como ocorreu com outros, de entrar no prédio. Por mais de dois dias ninguém entrou, ninguém saiu.

O edifício em que moro, doze andares, setenta e oito apartamentos, acha-se plantado no sopé da barragem Santa Lúcia, finalzinho da movimentadíssima avenida Prudente de Morais, praticamente num ponto de convergência de várias vias de acesso, com tráfego intenso, aos bairros Santo Antônio, São Bento, Lourdes e aglomerado conhecido por Morro do Papagaio.

De repente, não mais que de repente, precedido desses flashes descomunais que são os relâmpagos, em profusão nunca dantes vista, e de trovões que emitiam sons de artilharia pesada, irrompeu formidando aguaceiro. O que desabou das nuvens carregadas foram pingos d’água cortantes, em quantidade infinitamente superior aos previstos nos boletins meteorológicos. Deu pra perceber, logo de cara, não se tratar de uma chuva forte qualquer. Não era mesmo. Em curta fração de tempo, precipitada de diferentes pontos, de tudo quanto é lado, inclusive copiosamente esguichada das frestas rompidas dos canais de cimento armado subterrâneos das ruas, praças e avenidas, despencou avassaladora caudal. Garagens de prédios ficaram inundadas. Algumas moradias também. Veículos foram arrastados. Até trator. Camadas de asfalto foram revolvidas. Tampos de bueiros foram arremessados longe. Árvores foram partidas ao meio. De meu posto de observação, uma janela do terceiro andar, presenciei o deslocamento de incontável quantidade de carros, uns colidindo com os outros. Muitos deles achavam-se estacionados num habitualmente bucólico trecho da avenida, dotado de canteiros de árvores ao centro, contornado por encostas gramadas com passeios voltados para a avenida Arthur Bernardes e barragem Santa Lúcia. O verdadeiro rio de águas revoltas avistado lá embaixo arremetia tudo que boiava contra muros e portões. Despejava por onde passava lama e detritos de toda ordem. Quando a chuva cessou, transcorridas quase quatro tormentosas horas, e o “rio”, de certo modo, se aquietou, “improvisando” um “leito” para o escoamento da água represada nalguns trechos, demo-nos conta, tomados compreensivelmente de apreensões e temores, de nos encontrarmos “ilhados” em nosso “território doméstico”. Os estragos à volta deixaram todos chocados.

O isolamento forçado durou quase três dias em numerosas residências da área impactada. E, ao que se ficou sabendo, isso não foi registrado apenas na região centro-sul. Outros locais da capital mineira foram desafortunadamente atingidos, também, por inundações. Caso das áreas adjacentes ao Arrudas, onde ocorrem transtornos frequentes, produzidos por chuvas até de menor intensidade.

Retomando o relato pertinente ao que rolou na região centro-sul, onde parte das ocorrências ficou ao alcance de meu atônito olhar: o cenário ao redor, passada a tormenta, projetou-se assustador. Mercê de Deus, esse “incidente geológico” em específico, que deixou impressas na paisagem marcas de destruição contundentes, não registrou vítimas fatais, sabe-se lá por quais misericordiosos desígnios. O inverso sucedeu, doloridamente, enlutando a comunidade, noutros lugares e noutros momentos deste janeiro chuvoso que tanto castigo infligiu às Minas Gerais. Mas já os danos materiais, esses foram bem vultosos. De acordo com estimativas confiáveis, não menos de quinhentos veículos foram destruídos pela implacável avalancha líquida.

Em dias posteriores, o desfile de caminhões de reboque na avenida Prudente de Morais, por exemplo, mostrou-se ininterrupto. O transbordamento pelos lados da barragem Santa Lúcia gerou inesperada torrente nas ruas João Junqueira e Zoroastro Torres. Edificações e calçamento ficaram severamente danificados. Garagens alagadas, elevadores parados, fornecimento de gás interrompido, passeios obstruídos, grossas camadas de lama malcheirosa, tudo isso compôs o quadro dramático que este escriba contemplou.

Animo-me a anotar, sem vacilações, com atenção focada óbvia e estritamente na zona sul de Belo Horizonte, que a Prefeitura se houve com elogiável presteza no esforço de minimizar o desconforto dos moradores e dos que circulam pelos logradouros afetados. Montou uma operação de envergadura para acudir às emergências.
Incidente geológico, negligência e aquecimento

Cesar Vanucci

“Uma relação amigável de convivência
da engenharia ambiental com a natureza.”
(Recomendação do ambientalista Apolo Heringer Lisboa)

Na história mais que centenária de BH nunca jamais se viu coisa ligeiramente parecida. De um céu carrancudo despencou inopinadamente um aguaceiro que vou te contar... Amostrazinha diluviana, com certeza. Afortunadamente para o grande contingente de pessoas afetadas, a duração do “tsunami em miniatura” foi de “apenas” três “intermináveis” horas. Imaginar o que poderia ter advindo como consequência funesta de um temporal dessa envergadura, espichado no tempo, representa um esforço mental desagradável com feitio de sufocante pesadelo.

Fatores geológicos, totalmente alheios à vontade humana, concorreram, naturalmente, para o que aconteceu. Como asseverado pelas autoridades competentes, um chuvaréu dessas proporções é de molde a “bagunçar o coreto”, a produzir transtornos de monta em qualquer centro urbanizado, mesmo naqueles que souberam, ao longo dos anos, compatibilizar adequadamente, em favor do bem-estar social, seus projetos de desenvolvimento e expansão com a imperiosa necessidade de zelar pela preservação ambiental. Admitir a veracidade desse tipo de ponderação não significa, entretanto, de maneira nenhuma, que se possa olvidar ou rechaçar evidências clamorosas da desastrosa e condenável contribuição humana para que calamidades do gênero ocorram. E, pelo visto, em escala cada vez mais acentuada.

Pegando o exemplo de Belo Horizonte, dá para o cidadão comum perceber e sentir na própria pele, mesmo sem entender bulhufas de técnicas modernas de planejamento urbanístico, que a gestão dos cursos d’água existentes tem sido implacavelmente negligenciada. Constato, espantado, numa reportagem de Jéssica Almeida, Lara Alves e Letícia Fontes, em “O Tempo”, que no projeto de nossa querida Capital, onde córregos e rios foram tamponados por asfalto e cimento para dar lugar a ruas, praças e avenidas, as canalizações de cursos d’água já procedidas, chegam a 700 quilômetros, as de rios e córregos a 208 quilômetros, enquanto se estendem por 165 quilômetros os mananciais “enclausurados” em canais subterrâneos. O geógrafo Alessandro Borsagli, autor do livro “Rios invisíveis da metrópole mineira”, denuncia, no trabalho jornalístico, os efeitos danosos produzidos por conta dessa equivocada concepção de “urbanismo moderno” (modernoso talvez seja expressão mais apropriada). Diz ele: “Os cursos d’água, nesse novo planejamento rodoviarista, entraram em rota de colisão com a cidade.”

O professor Apolo Heringer Lisboa, a propósito do tema, sublinha que a chuva não carece ser criminalizada pelo que vem rolando. Ratifica opinião externada em outras oportunidades: Belo Horizonte vai acabar explodindo. A destruição vista agora nos logradouros, segundo ele, significa “uma grande energia de baixo pra cima, nas laterais, empurrando a terra e as estruturas, rachando tudo. E vai continuar se nada for feito”. Para Heringer Lisboa é preciso estabelecer, sem delongas, uma relação amigável de convivência da engenharia ambiental com a natureza. Isso aí...

Não são poucos, de outra parte, os especialistas – gente de elevada qualificação profissional e reconhecida sensibilidade social – que lançam a débito do aquecimento global, em boa parte, os “incidentes geológicos” que, inesperadamente, como sucedeu nestas nossas bandas, produzem mortes de inocentes e avolumados prejuízos patrimoniais. Fruto daninho da irresponsabilidade, da prepotência, da arrogância, da volúpia de estruturas políticas e econômicas, que grassam soltas em tantas paragens deste atormentado planeta azul, o aquecimento global é um dos fatores de risco que levam cientistas renomados a alertarem a sociedade humana para a circunstância alarmante de que, na atualidade, os ponteiros do célebre “relógio do juízo final” estão distanciados apenas 120 segundos do soar da trombeta apocalíptica. Assinale-se, de passagem, por oportuno, que a posição dos ponteiros, nesse monitoramento científico permanente das tensões universais, é, no momento, a mesma atingida à época da chamada “crise dos mísseis”  em Cuba, que quase gerou um conflito entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética.

Causa pasmo sem limites, à vista das sensatas observações dos cientistas, que o aquecimento global pareça ao olhar estrábico de numerosos e desatinados  talibanistas de indumentária ocidental, espalhados por aí, uma subversiva “invenção de moda”. Algo maquiavelicamente concebido por “cientistas e ambientalistas de araque”, mancomunados no “nefando propósito” de alvejar a ordem, a moral e os costumes... Seja acrescentado, para melhor conhecimento de causa, que a negação dos riscos enfrentados pela humanidade em decorrência do contínuo adelgaçamento da camada de ozônio que recobre a Terra faz parte de um processo cultural fundamentalista empenhado numa “revisão da história”. É fomentado por segmentos política e economicamente poderosos, que agregam vários adeptos da estapafúrdia teoria da terra plana. Ou seja, a teoria de que nosso planeta possua formato de um disco fixo no centro do universo, provavelmente sustentado nas extremidades nos dorsos de descomunais elefantes - como se concebia em círculos obscurantistas da era medieval. Em torno dele, presumivelmente também, giram as constelações estelares com seus séquitos de planetas, nebulosas, satélites, cometas e asteróides. Ufa!

Guido Bilharinho *

                                               DIALETO CAPIAU
Não bastou ao historiador Hildebrando Pontes pesquisar, conhecer e escrever sobre futebol, imprensa, fatos e bastidores da política uberabense. Não lhe bastou efetuar o hercúleo trabalho de medição, arrolamento e descrição minuciosa de todo o sistema fluvial de Uberaba e região, bem como de proceder à pesquisa, levantamento e ementário de toda a legislação municipal de Uberaba (leis, decretos, portarias e resoluções de 1892 a 1933).
Além disso, também pesquisou, estudou, analisou e discorreu sobre todos os demais aspectos e setores do município.

Contudo, embora enciclopédico e diversificado, tudo isso foi pouco para ele, curioso de todos os saberes. Seu interesse por tudo que é humano, uberabense e regional ultrapassou todos os limites e o fizeram perquirir, pesquisar, estudar e escrever até sobre assunto completamente alheio e estranho à sua formação científica e técnica de engenheiro agrônomo, egresso do lendário Instituto Zootécnico de Uberaba.

Faltava-lhe, ainda, estudar e escrever sobre o dialeto regional.

Faltava. A partir de 1932 não faltou mais. E para sempre. Pelo trabalho meticuloso, rigoroso e altamente filológico do Dialeto Capiau.

Esse ensaio - ora publicado no blog https://bibliografiasobreuberaba.blogspot.com/ em edição fac-similar do manuscrito vazado na ortografia da época - não só pela dificuldade de sua digitação, como também para permitir o acesso direto ao texto sem nenhuma intermediação que pudesse, por mínima que seja, alterar ou afetar suas meticulosas disposições, esteve até agora em lugar ignorado, desde quando Hildebrando, por volta do ano de seu término ou logo em seguida, enviou os originais ao escritor Coelho Neto.
Falecidos Coelho Neto em 1934 e posteriormente seu filho Paulo Coelho Neto, responsável pelo espólio intelectual e material de seu célebre pai, como localizá-los? Onde procurá-los?

Até que por informações correntes no circuito cultural, aventou-se a possibilidade desses originais estarem na Biblioteca Nacional. E estavam. E estão. E que, com a máxima boa vontade e diligência de autênticos servidores públicos, foram reproduzidos e remetidos a Uberaba.

O Dialeto Capiau, de Hildebrando Pontes, como se pode verificar no Sumário, espelho sincrético do texto, é obra de alta linhagem intelectual, cultural e técnica. Certamente, ninguém poderia fazer melhor e nem com tanta consciência e conhecimento do falar regional. Tanto que ninguém o fez. Só Hildebrando, sedento de todos os saberes. Por isso, o fez. Nenhum, mas nenhum mesmo, profissional da área (professor, filólogo, gramático, escritor) se abalançou a tal cometimento. Possivelmente nem ao menos dele cogitou. Hildebrando, porém, dele não só cogitou como o realizou. Ninguém faria melhor.

A partir desta edição, que o divulga e disponibiliza erga omnes, os estudos filológicos na área dialetal brasileira terão acesso a essa contribuição de capital importância, que os deverão influenciar e nortear de ora em diante.
* Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/








A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...