sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO


C  O  N  V  I  T  E

A Arcádia Minas Gerais, a Academia Feminina Mineira de Letras, a Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa, a Academia de Letras João Guimarães Rosa da Polícia Militar de Minas Gerais, a Academia de Letras do Ministério Público de Minas Gerais, a Academia de Letras do Triângulo Mineiro, a Academia Mineira de Leonismo, a Academia Mineira de Letras, a Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais

ao ensejo das celebrações, neste ano de 2020, do Tricentenário da Implantação da Capitania de Minas Gerais, têm a satisfação de convidar associados e amigos  para o Encontro Cultural Interacadêmico intitulado
O Brasil de JK,
evocando um momento marcante na história do desenvolvimento brasileiro.
Exposição do Economista e Acadêmico Carlos Alberto
    Teixeira de Oliveira subordinado ao tema
“Juscelino, profeta do desenvolvimento”.

Exposição do Coronel Acadêmico Klinger Sobreira de
   Almeida subordinado ao tema
“A atuação de JK na Polícia Militar de Minas”.


Data: 18 (dezoito) de fevereiro de 2020, terça-feira
Horário: 15 (quinze) horas
Local: sede da Amulmig, entidade a que pertenceu o Acadêmico Juscelino Kubitschek, rua Agripa de Vasconcelos, 81, Alto das Mangabeiras, próximo à praça do Papa, Belo Horizonte.



Os rios só pedem passagem...

Cesar Vanucci

“... Mas eu só queria passar!”
(Sheilla Lobato, escritora, no poema “Lamento de um rio”)

Faço esporádicas incursões pelo fascinante e desgastante território da internet. Procuro, precavidamente, nessas andanças, evitar os trechos minados, muito mais abundantes do que poderia supor nossa vã filosofia... Na faixa chafurdenta do território percorrido pelas multidões, zilhões de vezes, todos os dias, em todas as partes deste confuso planeta azul, vicejam, como sabido, irritantes frivolidades, atordoantes intrigas, perversas maledicências, inimagináveis falsidades. Tudo isso gerado, como também notório, por legiões de indivíduos despojados de sensibilidade social e sentimento do mundo. Ao lado dos assim (apropriadamente) chamados “idiotas da aldeia”, a coadjuvá-los eficientemente na massiva tarefa de ilaquear a boa fé das pessoas e levar o desassossego às mentes e corações, sobretudo nas camadas mais ingênuas da sociedade, colocam-se, galharda e pressurosamente, analfabetos políticos. E, ainda, anarquistas de todos os naipes, profissionais especializados em espalhar falsidades e vociferações preconceituosas. Todos a soldo de personagens e grupos maquiavélicos inebriados pelos ouropéis do poder mundano.

Nas buscas empreendidas nessas ocasionais ações como internauta, apego-me sempre a um lema: as amargas, não. A procura pessoal a que me atino, impelido pela esperança, é de lances de vida que enriqueçam a alma, fortaleçam a causa da construção humana. Esse lema remete-me a nostálgica lembrança. Falo da leitura, nos idos tempos da adolescência, de interessante livro, justamente com o título “As amargas, não”, do festejado escritor Álvaro Moreyra.

Isto posto, peço permissão, agora, ao distinto e culto leitorado que acompanha estas maltraçadas linhas, produzidas dia sim, dia não, por este desajeitado escriba, incorrigível caçador de quimeras, para aqui reproduzir, compartilhando-os prazerosamente, sugestivos e emblemáticos versos. Recolhi-os em incursão recente a áreas da internet onde sentimentos nobres, propósitos edificantes, conceitos de vida positivos costumam, afortunadamente, jorrar em compensadora profusão. São versos de Sheilla Lobato no poema intitulado “Lamento de um rio”. Narram, com envolvente lirismo, uma história de candente atualidade.

“Me perdoem por toda esta "bagunça"... Eu só queria passar. / Eu não fui feito pra Destruir... Eu só queria passar. / Já fui Esperança para os Navegantes... / Rede cheia para Pescadores... / Refresco para os banhistas em dias de intenso calor. / Hoje sou sinônimo de Medo e Dor... / Mas, eu só queria passar...// Me perdoem por suas casas / Por seus móveis e imóveis / Por seus animais/ Por suas plantações... Eu só queria passar. /  Não sou seu inimigo / Não sou um vilão / Não nasci pra destruição... / Eu só queria passar. // Era o meu curso natural / Só estava seguindo meu destino / Mas, me violentaram, / Sufocaram minhas nascentes / Desmataram meu leito... Quando eu só queria passar. / Encontrei tanta coisa estranha pelo caminho...  Que me fizeram Transbordar.../ Muros / Casas / Entulhos / Garrafas / Lixo / Pontes / Pedras / Paus.../ Tentei desviar ... Porque eu só queria passar. // Me perdoem por inundar sua história, / Me perdoem por manchar esta história... / Eu só estava passando... / Seguindo o meu trajeto / Cumprindo o meu destino: / Passar.... //


A difícil missão de Regina Duarte

Cesar Vanucci

“A cultura é a soma de todas as formas
de arte, de amor e de pensamento.”
(André Malraux)

O exercício efetivo da função de titular na Secretaria (ou Ministério) da Cultura vai exigir da simpática Regina Duarte, no escorregadio e efervescente palco político-administrativo, uma atuação que nada fique a dever aos desempenhos que a consagraram como atriz no plano ficcional encantado da dramaturgia televisiva e teatral. O enredo que lhe está sendo proposto requer da protagonista, para que a interpretação saia a contento geral, talento, tirocínio, bom senso, serenidade, sensibilidade, domínio pleno dos gestos e palavras. E “jogo de cintura”, muito “jogo de cintura”, como se costuma dizer no papear das ruas...

Na opinião de um bocado de gente familiarizada com as tricas e futricas do ambiente político e com a esfuziante lida cultural, a “namoradinha do Brasil” pegou uma parada torta. Vai ter que demonstrar enorme habilidade prá descascar o ananás que lhe foi colocado nas mãos. Terá, de um lado, a vigiar-lhe os passos com zelo sufocante, as falanges talibanistas que mantêm, permanentemente, com propósitos revisionistas, olhares de suspeita e desconfiança focados em tudo aquilo que não se enquadre nas rígidas normas de sua ortodoxia ideológica. Essa postura fundamentalista, como público e notório, entra em rota de colisão constante com a liberdade de criação artística e com a livre manifestação das ideias, comprometendo o bom diálogo democrático.

 Existe, de outra parte, em círculos humanísticos ligados às letras e artes, uma expectativa muito grande quanto ao que será executado, à frente da pasta, por alguém do ramo, provida das credenciais ostentadas pela famosa artista. O mundo cultural, em todas suas variadas modalidades de expressão, é marcado pelas diversidades no campo das ideias. Essas diversidades remetem, compreensivelmente, a divergências e antagonismos ocasionais, passageiros, que acabam sendo absorvidos, no mais das vezes, no dia a dia das realizações. Não há como desconhecer, entretanto, que, neste preciso instante, no meio cultural, nada obstante essa multiplicidade de tendências, subsiste apreensão generalizada quanto ao que será promovido, pela nova gestão, em favor de uma desejável conciliação de interesses que venha a favorecer a execução de uma política cultural realmente representativa do sentimento nacional.

De um algum tempo para cá, os setores que respondem pelas políticas culturais na esfera oficial têm se primado por ignorar  - e até mesmo hostilizar abertamente - conquistas culturais relevantes. São oferecidas, nas entrelinhas, alegações nada convincentes para esse comportamento equivocado. Comportamento esse de visível conotação político-partidária. Algo que molesta o ideal democrático e os postulados republicanos.

Os elementos que atuam nesses setores fingem desconhecer fatos e iniciativas culturais da maior significação e retumbância. Alinhamos abaixo, entre muitos outros, alguns frisantes exemplos. Autor e compositor brasileiro consagrado, Chico Buarque de Holanda arrebatou o cobiçado Prêmio Camões de Literatura. O talento de numerosos cineastas patrícios vem sendo cantado em verso e prosa nas mais importantes mostras fílmicas realizadas no mundo.  Artistas da televisão foram agraciados, recentemente, com lauréis do mais alto valor, em competições internacionais. Dos registros oficiais nada consta, todavia, a respeito desses feitos triunfantes, que engrandecem a cultura brasileira e enchem de júbilo a alma popular. Forçoso e penoso admitir que se trata de uma mesquinha desconsideração para com brasileiros que enaltecem sua pátria.

A cultura é uma projeção luminosa dos saberes, sentimentos, costumes que os seres humanos conduzem em sua caminhada existencial. É um elemento imprescindível no processo da evolução civilizatória. Desdenhar a cultura é típico de gente com inclinação autoritária. Herman Goehring, segundo em graduação na sinistra cúpula nazista, deixou uma frase tristemente célebre sobre como a cultura é encarada em ambientes onde são rejeitados os preceitos democráticos e humanísticos: “Quando ouço alguém falar em cultura, puxo do meu revólver.” A imbecilidade proferida provocou magistral réplica do pensador Louis Pauwels: “Quando me falam em revólver, puxo a minha cultura.”

Os desejos mais ardentes da sociedade brasileira é de que não falte apoio a Regina Duarte para levar a bom termo sua missão. Mas não deixa de ser sintomática a circunstância de ela ver-se obrigada, já no primeiro ato de gestão, a abrir mão do concurso de uma colaboradora, de sua própria indicação, pessoa ao que tudo indica vinculada à aguerrida turma fundamentalista e que, já na primeira hora, revelou-se inablitada para o cargo.

Esse pessoal não brinca em serviço. É só lembrar das aprontações, indoutrodia,  dos “quase titulares” da Secretaria da Cultura e da Fundação Palmares, ambos os dois militantes de carteirinha do grupo...


Rogério Faria Tavares *



Essa gente, de Chico Buarque




Vencedor do respeitado Prêmio Camões de 2019, Chico Buarque será lembrado como um dos mais notáveis artistas brasileiros de todos os tempos. Sua densa e vasta produção como compositor inclui canções eternas como “Pedropedreiro”(1965), “A banda” (1966), Apesar de Você” (1970), “Construção” (1971) e “Cálice” (1973). São de sua lavra peças teatrais como “Roda Viva”(1968),“Calabar”(1973),“Gota D’água”( 1975), e “Ópera do Malandro”(1979), quando apresentou ao público a travesti Geni, um de seus tipos inesquecíveis.

Fundamental para entender a cultura brasileira da segunda metade do século vinte, o estudo de sua obra exige um olhar profundo e elegante, que seja capaz de alçar-se à altura em que se situa. Filho de Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico “Raízes do Brasil” e sobrinho de Aurélio Buarque de Holanda, filólogo e lexicógrafo inesquecível, que nos legou o famoso ‘Dicionário Aurélio’, Chico  herdou de sua linhagem uma aguda habilidade para compreender as estruturas sociais e políticas, uma inegável sofisticação vocabular e um absoluto  domínio de seu ofício. Seu trato com as palavras – como acontece com os grandes criadores – acaba por renovar a potência do idioma em que se comunica, confirmando a imensa capacidade de expressão da língua.

A dedicação à música e ao teatro, no entanto, não o impediu de também enveredar, com êxito, pelos caminhos da literatura.A estreia de Chico em livro se deu em 74, com a novela “Fazenda Modelo”. Depois, vieram os romances “Estorvo” (1991), “Benjamim”, (1995), “Budapeste”, (2003), “Leite Derramado” (2009), “O irmão alemão” (2014), e, agora, “Essa Gente”, que li em poucos dias, como se passou com os demais livros.

Sedutor, “Essa gente” conduz os leitores pelo universo de Manuel Duarte, um escritor às voltas com duas ex-mulheres, algumas namoradas, um filho pré-adolescente e problemas financeiros decorrentes de uma carreira literária em decadência. O pano de fundo é formado pelo bairro do Leblon e a paisagem urbana do Rio de Janeiro, em toda a sua complexidade. Não ficam de fora referências à violência (em suas diferentes formas e seus múltiplos agentes), à desigualdade social, à expansão do poder das igrejas e ao acirramento de ânimos que caracterizam o país hoje, dividido entre a aposta na civilização e o poder da barbárie. É antológica a cena em que o personagem Fúlvio Castello Branco, advogado de prestígio, espanca um mendigo encostado no muro do Jockey Clube, de onde é sócio: “Acerta-lhe um pontapé nos rins, e depois de um chute nas fuças deixa o homem estatelado e arquejante no meio da calçada. Mal o Fúlvio vira as costas, o índio velho rola devagar no chão e volta a se ajeitar com a bunda no muro do clube” (pp. 47- 48).

A narrativa não é contada de modo linear. Ela vai e volta no tempo. Não há apenas um narrador, mas vários, incluindo um que fala em terceira pessoa. Os textos são reunidos sob as datas de sua elaboração, quase todas de 2019, o que comprova o quanto o livro fala do Brasil contemporâneo. Vários deles são apresentados como se fossem cartas. Uma das reflexões principais do livro é justamente sobre o processo da escrita e as fronteiras, muitas vezes embaralhadas, que ela estabelece entre ficção e realidade.


*  Jornalista e Presidente da Academia Mineira de Letras



quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Testemunha ocular da tormenta

Cesar Vanucci

“Sabemos que canalizações e tamponamentos
 são conceitos ultrapassados em política urbana.”
(Maria Caldas, Secretária de Política Urbana da PBH)

Fui testemunha ocular, ao vivo e no escuro de breu da noite, de um “tsunami” em miniatura. E olhem que eu estou distanciado, cá no pedaço de chão domiciliar, consideráveis léguas das ondas mais próximas do mar bravio! A amostra das águas em fúria, por horas a fio, foi aterrorizante, falar verdade. Conto como foi, “começando pelo comecim”, conforme se diz no saboroso dialeto capiau...

Naquela terça-feira, 27 de janeiro, cheguei em casa, largado o batente, mais cedo do que de costume. A antecipação de horário surpreendeu um conhecido que cruzou meu caminho na entrada do prédio: - “Uai! Você por aqui uma hora dessas? Aconteceu alguma coisa?” Não, não havia acontecido nada diferente, pelo menos até aquele preciso momento. Acabou mesmo acontecendo, só que depois. Tivesse chegado mais tarde teria sido impedido, como ocorreu com outros, de entrar no prédio. Por mais de dois dias ninguém entrou, ninguém saiu.

O edifício em que moro, doze andares, setenta e oito apartamentos, acha-se plantado no sopé da barragem Santa Lúcia, finalzinho da movimentadíssima avenida Prudente de Morais, praticamente num ponto de convergência de várias vias de acesso, com tráfego intenso, aos bairros Santo Antônio, São Bento, Lourdes e aglomerado conhecido por Morro do Papagaio.

De repente, não mais que de repente, precedido desses flashes descomunais que são os relâmpagos, em profusão nunca dantes vista, e de trovões que emitiam sons de artilharia pesada, irrompeu formidando aguaceiro. O que desabou das nuvens carregadas foram pingos d’água cortantes, em quantidade infinitamente superior aos previstos nos boletins meteorológicos. Deu pra perceber, logo de cara, não se tratar de uma chuva forte qualquer. Não era mesmo. Em curta fração de tempo, precipitada de diferentes pontos, de tudo quanto é lado, inclusive copiosamente esguichada das frestas rompidas dos canais de cimento armado subterrâneos das ruas, praças e avenidas, despencou avassaladora caudal. Garagens de prédios ficaram inundadas. Algumas moradias também. Veículos foram arrastados. Até trator. Camadas de asfalto foram revolvidas. Tampos de bueiros foram arremessados longe. Árvores foram partidas ao meio. De meu posto de observação, uma janela do terceiro andar, presenciei o deslocamento de incontável quantidade de carros, uns colidindo com os outros. Muitos deles achavam-se estacionados num habitualmente bucólico trecho da avenida, dotado de canteiros de árvores ao centro, contornado por encostas gramadas com passeios voltados para a avenida Arthur Bernardes e barragem Santa Lúcia. O verdadeiro rio de águas revoltas avistado lá embaixo arremetia tudo que boiava contra muros e portões. Despejava por onde passava lama e detritos de toda ordem. Quando a chuva cessou, transcorridas quase quatro tormentosas horas, e o “rio”, de certo modo, se aquietou, “improvisando” um “leito” para o escoamento da água represada nalguns trechos, demo-nos conta, tomados compreensivelmente de apreensões e temores, de nos encontrarmos “ilhados” em nosso “território doméstico”. Os estragos à volta deixaram todos chocados.

O isolamento forçado durou quase três dias em numerosas residências da área impactada. E, ao que se ficou sabendo, isso não foi registrado apenas na região centro-sul. Outros locais da capital mineira foram desafortunadamente atingidos, também, por inundações. Caso das áreas adjacentes ao Arrudas, onde ocorrem transtornos frequentes, produzidos por chuvas até de menor intensidade.

Retomando o relato pertinente ao que rolou na região centro-sul, onde parte das ocorrências ficou ao alcance de meu atônito olhar: o cenário ao redor, passada a tormenta, projetou-se assustador. Mercê de Deus, esse “incidente geológico” em específico, que deixou impressas na paisagem marcas de destruição contundentes, não registrou vítimas fatais, sabe-se lá por quais misericordiosos desígnios. O inverso sucedeu, doloridamente, enlutando a comunidade, noutros lugares e noutros momentos deste janeiro chuvoso que tanto castigo infligiu às Minas Gerais. Mas já os danos materiais, esses foram bem vultosos. De acordo com estimativas confiáveis, não menos de quinhentos veículos foram destruídos pela implacável avalancha líquida.

Em dias posteriores, o desfile de caminhões de reboque na avenida Prudente de Morais, por exemplo, mostrou-se ininterrupto. O transbordamento pelos lados da barragem Santa Lúcia gerou inesperada torrente nas ruas João Junqueira e Zoroastro Torres. Edificações e calçamento ficaram severamente danificados. Garagens alagadas, elevadores parados, fornecimento de gás interrompido, passeios obstruídos, grossas camadas de lama malcheirosa, tudo isso compôs o quadro dramático que este escriba contemplou.

Animo-me a anotar, sem vacilações, com atenção focada óbvia e estritamente na zona sul de Belo Horizonte, que a Prefeitura se houve com elogiável presteza no esforço de minimizar o desconforto dos moradores e dos que circulam pelos logradouros afetados. Montou uma operação de envergadura para acudir às emergências.
Incidente geológico, negligência e aquecimento

Cesar Vanucci

“Uma relação amigável de convivência
da engenharia ambiental com a natureza.”
(Recomendação do ambientalista Apolo Heringer Lisboa)

Na história mais que centenária de BH nunca jamais se viu coisa ligeiramente parecida. De um céu carrancudo despencou inopinadamente um aguaceiro que vou te contar... Amostrazinha diluviana, com certeza. Afortunadamente para o grande contingente de pessoas afetadas, a duração do “tsunami em miniatura” foi de “apenas” três “intermináveis” horas. Imaginar o que poderia ter advindo como consequência funesta de um temporal dessa envergadura, espichado no tempo, representa um esforço mental desagradável com feitio de sufocante pesadelo.

Fatores geológicos, totalmente alheios à vontade humana, concorreram, naturalmente, para o que aconteceu. Como asseverado pelas autoridades competentes, um chuvaréu dessas proporções é de molde a “bagunçar o coreto”, a produzir transtornos de monta em qualquer centro urbanizado, mesmo naqueles que souberam, ao longo dos anos, compatibilizar adequadamente, em favor do bem-estar social, seus projetos de desenvolvimento e expansão com a imperiosa necessidade de zelar pela preservação ambiental. Admitir a veracidade desse tipo de ponderação não significa, entretanto, de maneira nenhuma, que se possa olvidar ou rechaçar evidências clamorosas da desastrosa e condenável contribuição humana para que calamidades do gênero ocorram. E, pelo visto, em escala cada vez mais acentuada.

Pegando o exemplo de Belo Horizonte, dá para o cidadão comum perceber e sentir na própria pele, mesmo sem entender bulhufas de técnicas modernas de planejamento urbanístico, que a gestão dos cursos d’água existentes tem sido implacavelmente negligenciada. Constato, espantado, numa reportagem de Jéssica Almeida, Lara Alves e Letícia Fontes, em “O Tempo”, que no projeto de nossa querida Capital, onde córregos e rios foram tamponados por asfalto e cimento para dar lugar a ruas, praças e avenidas, as canalizações de cursos d’água já procedidas, chegam a 700 quilômetros, as de rios e córregos a 208 quilômetros, enquanto se estendem por 165 quilômetros os mananciais “enclausurados” em canais subterrâneos. O geógrafo Alessandro Borsagli, autor do livro “Rios invisíveis da metrópole mineira”, denuncia, no trabalho jornalístico, os efeitos danosos produzidos por conta dessa equivocada concepção de “urbanismo moderno” (modernoso talvez seja expressão mais apropriada). Diz ele: “Os cursos d’água, nesse novo planejamento rodoviarista, entraram em rota de colisão com a cidade.”

O professor Apolo Heringer Lisboa, a propósito do tema, sublinha que a chuva não carece ser criminalizada pelo que vem rolando. Ratifica opinião externada em outras oportunidades: Belo Horizonte vai acabar explodindo. A destruição vista agora nos logradouros, segundo ele, significa “uma grande energia de baixo pra cima, nas laterais, empurrando a terra e as estruturas, rachando tudo. E vai continuar se nada for feito”. Para Heringer Lisboa é preciso estabelecer, sem delongas, uma relação amigável de convivência da engenharia ambiental com a natureza. Isso aí...

Não são poucos, de outra parte, os especialistas – gente de elevada qualificação profissional e reconhecida sensibilidade social – que lançam a débito do aquecimento global, em boa parte, os “incidentes geológicos” que, inesperadamente, como sucedeu nestas nossas bandas, produzem mortes de inocentes e avolumados prejuízos patrimoniais. Fruto daninho da irresponsabilidade, da prepotência, da arrogância, da volúpia de estruturas políticas e econômicas, que grassam soltas em tantas paragens deste atormentado planeta azul, o aquecimento global é um dos fatores de risco que levam cientistas renomados a alertarem a sociedade humana para a circunstância alarmante de que, na atualidade, os ponteiros do célebre “relógio do juízo final” estão distanciados apenas 120 segundos do soar da trombeta apocalíptica. Assinale-se, de passagem, por oportuno, que a posição dos ponteiros, nesse monitoramento científico permanente das tensões universais, é, no momento, a mesma atingida à época da chamada “crise dos mísseis”  em Cuba, que quase gerou um conflito entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética.

Causa pasmo sem limites, à vista das sensatas observações dos cientistas, que o aquecimento global pareça ao olhar estrábico de numerosos e desatinados  talibanistas de indumentária ocidental, espalhados por aí, uma subversiva “invenção de moda”. Algo maquiavelicamente concebido por “cientistas e ambientalistas de araque”, mancomunados no “nefando propósito” de alvejar a ordem, a moral e os costumes... Seja acrescentado, para melhor conhecimento de causa, que a negação dos riscos enfrentados pela humanidade em decorrência do contínuo adelgaçamento da camada de ozônio que recobre a Terra faz parte de um processo cultural fundamentalista empenhado numa “revisão da história”. É fomentado por segmentos política e economicamente poderosos, que agregam vários adeptos da estapafúrdia teoria da terra plana. Ou seja, a teoria de que nosso planeta possua formato de um disco fixo no centro do universo, provavelmente sustentado nas extremidades nos dorsos de descomunais elefantes - como se concebia em círculos obscurantistas da era medieval. Em torno dele, presumivelmente também, giram as constelações estelares com seus séquitos de planetas, nebulosas, satélites, cometas e asteróides. Ufa!

Guido Bilharinho *

                                               DIALETO CAPIAU
Não bastou ao historiador Hildebrando Pontes pesquisar, conhecer e escrever sobre futebol, imprensa, fatos e bastidores da política uberabense. Não lhe bastou efetuar o hercúleo trabalho de medição, arrolamento e descrição minuciosa de todo o sistema fluvial de Uberaba e região, bem como de proceder à pesquisa, levantamento e ementário de toda a legislação municipal de Uberaba (leis, decretos, portarias e resoluções de 1892 a 1933).
Além disso, também pesquisou, estudou, analisou e discorreu sobre todos os demais aspectos e setores do município.

Contudo, embora enciclopédico e diversificado, tudo isso foi pouco para ele, curioso de todos os saberes. Seu interesse por tudo que é humano, uberabense e regional ultrapassou todos os limites e o fizeram perquirir, pesquisar, estudar e escrever até sobre assunto completamente alheio e estranho à sua formação científica e técnica de engenheiro agrônomo, egresso do lendário Instituto Zootécnico de Uberaba.

Faltava-lhe, ainda, estudar e escrever sobre o dialeto regional.

Faltava. A partir de 1932 não faltou mais. E para sempre. Pelo trabalho meticuloso, rigoroso e altamente filológico do Dialeto Capiau.

Esse ensaio - ora publicado no blog https://bibliografiasobreuberaba.blogspot.com/ em edição fac-similar do manuscrito vazado na ortografia da época - não só pela dificuldade de sua digitação, como também para permitir o acesso direto ao texto sem nenhuma intermediação que pudesse, por mínima que seja, alterar ou afetar suas meticulosas disposições, esteve até agora em lugar ignorado, desde quando Hildebrando, por volta do ano de seu término ou logo em seguida, enviou os originais ao escritor Coelho Neto.
Falecidos Coelho Neto em 1934 e posteriormente seu filho Paulo Coelho Neto, responsável pelo espólio intelectual e material de seu célebre pai, como localizá-los? Onde procurá-los?

Até que por informações correntes no circuito cultural, aventou-se a possibilidade desses originais estarem na Biblioteca Nacional. E estavam. E estão. E que, com a máxima boa vontade e diligência de autênticos servidores públicos, foram reproduzidos e remetidos a Uberaba.

O Dialeto Capiau, de Hildebrando Pontes, como se pode verificar no Sumário, espelho sincrético do texto, é obra de alta linhagem intelectual, cultural e técnica. Certamente, ninguém poderia fazer melhor e nem com tanta consciência e conhecimento do falar regional. Tanto que ninguém o fez. Só Hildebrando, sedento de todos os saberes. Por isso, o fez. Nenhum, mas nenhum mesmo, profissional da área (professor, filólogo, gramático, escritor) se abalançou a tal cometimento. Possivelmente nem ao menos dele cogitou. Hildebrando, porém, dele não só cogitou como o realizou. Ninguém faria melhor.

A partir desta edição, que o divulga e disponibiliza erga omnes, os estudos filológicos na área dialetal brasileira terão acesso a essa contribuição de capital importância, que os deverão influenciar e nortear de ora em diante.
* Guido Bilharinho é advogado em Uberaba e autor de livros de literatura, cinema, estudos brasileiros, História do Brasil e regional editados em papel e, desde setembro/2017, um livro por mês no blog https://guidobilharinho.blogspot.com.br/








A SAGA LANDELL MOURA

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO

C   O   N   V   I   T   E A Arcádia Minas Gerais, a Academia Feminina Mineira de Letras, a Academia Cordisburguense de Letras Guimarãe...