sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Desaponto com a primeira medida de impacto


Cesar Vanucci

“Está comprovado que mais armas é igual a mais crimes.”
(Natália Pollachi, coordenadora do Instituto “Soudapaz”)

Externamos com sincera convicção a opinião de que o governo Bolsonaro laborou em estrondoso equívoco ao anunciar a sua primeira grande decisão de impacto popular. Desperdiçou parcela apreciável do alentado crédito de confiança que se lhe foi assegurado pela coletividade. Coletividade essa que se mostra ávida por ver concretizadas as transformações essenciais prometidas na campanha eleitoral com vistas à construção de um país melhor para se viver. O equívoco se configura na promulgação do decreto concernente ao que se convencionou denominar de flexibilização do comércio de armas.

A medida soa clamorosamente como um retrocesso. Não como conquista humanitária. Notório seu caráter populista. Faltou sensibilidade social e engenho político. Mais: faltou sintonia com o genuíno sentimento das ruas, ao se optar por essa decisão ruidosa, de desbordante anacronismo. O governo, sabemos bem, desfruta de considerável dose de credibilidade. Acena com estilo de administrar inovador e diferenciado, comprometido com o amanhã, não com o trasanteontem das coisas. Isso tudo favorece a conclusão de que a medida divulgada, carente de inspiração, foi de molde a trazer desaponto. A repercussão negativa vem sendo reconhecida pela quase unanimidade dos órgãos de comunicação social, como reflexo do estado de ânimo popular. A atitude assumida foi, no ver de muita gente, uma aposta enganosa. Ou seja, uma avaliação totalmente incorreta dos fatos. É falso o pressuposto de que a liberação de armas de fogo confere condições favoráveis aos cidadãos de se defenderem da violência abominada pela sociedade. A opinião pública, pelo que se observa, discorda frontalmente da interpretação oficial. Os índices de rejeição da proposta são significativos. Os argumentos que apontam o caráter temerário da resolução são bastante convincentes. Dentre as avolumadas críticas vindas à tona, nascidas das perspectivas dramáticas que a liberação engendra, levando-se em conta ainda a circunstância de que nosso país ostenta, deploravelmente, a condição de recordista mundial em matéria de assassinatos produzidos por armas de fogo, figura o alarmante e justificado receio de que a facilidade oferecida na compra de armas acabe por reforçar as ações nefastas do crime organizado. Não é preciso muita elucubração mental para supor que a bandidagem se aparelhará, rapidamente, diante da chamada “flexibilização”, no sentido de “legalizar” as aquisições de “produtos” que venham a ampliar seus arsenais clandestinos.

Lado outro, não fica difícil a previsão de que uma maior quantidade de armas em disponibilidade nos lares atraia, ainda mais, o “apetite” dos assaltantes, abrindo-se possibilidades indesejáveis de que os apetrechos adquiridos pretensamente para defesa pessoal acabem indo parar nas mãos de facções criminosas. São a perder de vista os argumentos que se contrapõem à ideia de se carrear, para as inexperientes mãos de cidadãos inseridos em rotina pacífica de vida, armas com as quais possam eles, suposta e falsamente, se proteger de malfeitores. E, ipso facto, até se arvorando em integrantes de uma espécie de força-tarefa complementar dos contingentes policiais legalmente constituídos. Contingentes aos quais é atribuída institucionalmente a importante missão de promover ações de prevenção e combate a grupos e pessoas que perturbem a ordem constituída e ameacem o sossego público.


As autoridades governamentais bem que poderiam, diante da reação desfavorável produzida pelo decreto, proceder a uma reavaliação serena das expectativas, carregadas de esperança, que povoam a alma popular. Isso lhes proporcionará, por certo, a revelação de que as mudanças prioritárias almejadas estão bem distantes do apelidado “decreto faroeste”. O foco das aspirações gerais são providências que anunciem a retomada do desenvolvimento econômico, a abertura de frentes de trabalho, por aí. De modo tal que permita ao país invadir o futuro de grandeza que a história lhe reserva em razão de suas inigualáveis potencialidades e virtualidades humanas e naturais.

Com a palavra o biógrafo de Landell

Cesar Vanucci

“Padre Landell foi pioneiro mundial na radiofonia.”
(Hamilton Almeida, biógrafo)

O jornalista e escritor Hamilton Almeida é o autor do livro “Padre Landell de Moura – um herói sem glória”. De leitura envolvente, texto primoroso escorado em pesquisa aprofundada, a obra é prefaciada pelo cientista Ronaldo Rogério de Freitas Mourão. Depois de exaltar o biógrafo pela “proeza difícil”, Mourão define o trabalho como a mais completa documentação e a mais valiosa biografia já feita a respeito do padre gaúcho inventor do radio, da televisão e do teletipo.

Do aclamado biógrafo recebo, com compreensível satisfação, um exemplar do livro e uma simpática mensagem. Reproduzo a mensagem: “Caro Cesar, muito interessante e VALIOSA      (assim mesmo, em caixa alta) a série de artigos que você escreveu. É, sem dúvida, uma excelente contribuição para a divulgação dos fantásticos feitos do padre Landell de Moura. Parabéns pela iniciativa! Estamos juntos nesta causa!” Após  referir-se aos artigos publicados no DC, Hamilton Almeida faz comentário que tomo a liberdade de reproduzir na sequência. Reputo da maior importância as considerações alinhadas, tendo em vista a qualificada procedência. Ao ilustre leitor são transmitidas informações que permitem conhecimento ainda mais completo e preciso da fascinante saga do genial padre-inventor, nosso injustiçado e esquecido patrício Roberto Landell de Moura. Suas as palavras abaixo.

Natural de Porto Alegre, Roberto Landell de Moura, o Padre Landell (21/1/1861 – 30/6/1928), foi precursor do rádio, da televisão e do teletipo, entre outras notáveis descobertas na área de telecomunicações. Foi ele quem transmitiu, pela primeira vez no mundo, no final do século XIX (com registros da imprensa em 1899 e 1900), a voz humana à distância através de uma onda eletromagnética, em experiências realizadas na cidade de São Paulo, entre a Avenida Paulista e o alto de Santana, numa distância de oito quilômetros. Assim nasceu o rádio.
Tal fato aconteceu antes das transmissões de voz humana do canadense Reginald Fessenden (dezembro de 1900) e do italiano Guglielmo Marconi (1914).  Também há indicativos de que Padre Landell realizou experiências de comunicação sem fio entre os anos de 1893 e 1894, o que teria acontecido antes da experiência pioneira de Marconi, em 1895.
É importante frisar que Marconi tornou-se célebre pela transmissão de sinais telegráficos (em Código Morse) à distância, sem fios, ou seja, a radiotelegrafia. Padre Landell foi mais longe, pois, além de sinais, seus aparelhos transmitiam a voz humana e sons musicais. Ele foi, portanto, o pioneiro mundial na chamada radiofonia.
Patenteou os inventos no Brasil e nos EUA e realizou experimentos. Mesmo assim, não foi reconhecido em sua época. Quis unir a religião à ciência e acabou acusado de ter pacto com o diabo. Os seus aparelhos chegaram a ser destruídos e ele foi forçado a abandonar os estudos científicos. Apesar da evidente genialidade, não recebeu apoio de ninguém, foi ignorado e perseguido.
Padre Landell aperfeiçoou o sistema de telegrafia sem fio existente na época e transmitiu pela primeira vez no mundo em ondas contínuas, que eram superiores às ondas amortecidas utilizadas nos primeiros tempos das radiocomunicações por outros cientistas. Também recomendou o emprego das ondas curtas para aumentar a distâncias das transmissões, quando elas não eram sequer cogitadas pelos outros cientistas. Para a transmissão de mensagens, o padre-cientista também se utilizava da luz, o mesmo princípio que aperfeiçoou as comunicações modernas, empregando-se o laser e as fibras ópticas.
Numa época em que as telecomunicações eram precárias até mesmo entre cidades vizinhas, ele já acreditava na possibilidade das comunicações interplanetárias. Projetou a televisão e o teletipo em 1904, décadas antes das invenções oficiais. Também descobriu e fotografou a aura humana, décadas antes dos soviéticos.
Padre Landell morreu no anonimato e sua obra até hoje é pouco conhecida. Com o tempo, as suas invenções acabaram sendo inventadas por outros cientistas. Na história oficial, o mérito da descoberta do rádio é concedido ao italiano Guglielmo Marconi. É um equívoco: ele inventou o telégrafo sem fio e não o rádio tal como o conhecemos.
A história do Padre Landell derruba este e outros mitos da história das telecomunicações.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019


“Percepção” entrou no ar

Cesar Vanucci

“O espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto.”
(Louis Pauwells e Jacques Bergier, em “O Despertar dos Mágicos”)

Já está no ar “Percepção”. Trata-se de um programa lançado no YouTube, produzido e apresentado por este amigo de vocês. No sentido de tocar de forma razoável a empreitada, este desajeitado escriba resolveu deixar correrem soltas as rédeas da imaginação, na pretensão de colher alguma resposta para interrogações suscetíveis de despertarem inquietude intelectual. A proposta encaixa-se na linha do chamado “Realismo Fantástico”. Tal denominação, por sinal, deu título a um programa que mantivemos no extinto CBH, por quase uma década, com mais de trezentas edições. O CBH (Canal de Belo Horizonte), muita gente deve se lembrar, constituiu empreendimento produzido com idealismo e ânimo desbravador pelo Sérgio Adaide, dentro do louvável propósito de fazer televisão com cara mineira. Foi muito bom, enquanto durou.

 A expressão Realismo Fantástico foi cunhada por dois pensadores de escol: Louis Pauwells e Jacques Bergier. Vem anotada no extraordinário “O Despertar dos Mágicos”. Um livro que, ainda nos dias de hoje, mais de meio século transcorrido desde a primeira edição, continua provocando fascínio nos leitores. Sobretudo em leitores ávidos por revelações que garantam acesso a conhecimentos mais aprofundados dos infindáveis enigmas que rondam a trajetória do ser humano pela pátria terrena.

Tudo quanto dito acima serve para esclarecer ao internauta interessado em acompanhar as narrativas inseridas em “Percepção” que ele irá se defrontar, toda semana, com historietas instigantes. Historietas que abarcam aquilo que pode ser catalogado sob o rótulo geral de “temática transcendente”. Casos e causos intrigantes, informações e depoimentos acerca de acontecimentos singulares (pode-se dizer mesmo insólitos, por vezes) compõem a programação à disposição no YouTube. Nesta primeira temporada de “Percepção” já foram produzidos 52 episódios. De meados de dezembro, até agora em janeiro, dez capítulos foram colocados no ar. Em “Predições fantásticas” narrou-se, com abundância de pormenores, como se deu o vaticínio, muitos meses antes, do passamento de personagem ilustre da história brasileira. E, também, do vaticínio, com prazo de 24 horas, sobre fantástica aparição ufológica nas adjacências da residência de figura famosa na televisão. Em “Uma recomendação de Chico Xavier” há o relato da ajuda essencial e totalmente inesperada proporcionada a uma grande instituição com fins humanitários, à volta, então, com problemas de sobrevivência. Credenciada porta-voz do esoterismo, conhecida por exemplar conduta profissional, a jornalista Ana Elizabeth Diniz, titular há muitos anos de uma página semanal em “O Tempo” dedicada a assuntos  esotéricos, comentou em entrevista seu edificante trabalho. O engenheiro e construtor Pedro Serra, autor de livro (recente) sobre óvnis apontado como esplêndida fonte de consulta pertinente ao desconcertante fenômeno, fez parte também do elenco de entrevistados.

A propósito de incríveis contatos extrassensoriais, Heloisa Maria Altavilla, educadora com respeitada atuação na área da orientação espiritual, foi também entrevistada. A admirada vidente e taróloga Marilena Simões compareceu ao programa com declarações sobre suas ricas vivências.

Nos programas subsequentes, nesta primeira temporada em curso de “Percepção”, o internauta estabelecerá contato ainda com depoimentos e verá imagens impressionantes, procedentes de estudos, pesquisas e ações promovidos por grupo altamente qualificado, com invejável acervo de informações acumuladas em largo tempo de exaustivas investigações. Desse grupo selecionado, pessoas de conceito inquestionável, fazem parte, entre outros, Albert Edward, Cláudio Carone, Cristiani Ferraz, Durga Shakti, Heros Campos Jardim, Jacques França, Marco Antônio Maldonado, Marli Medeiros, Raimundo Lopes, Zélia Savala Brandão.

“Percepção” projeta, naturalmente, uma postura pessoal diante da vida de alguém que se reconhece um simples repórter. Nada além. E que, por essa razão, revela-se consciente de não saber senão muito poucas coisas. O trabalho realizado sob tal premissa toma como ponto de partida o fecundo conceito, da lavra dos pensadores franceses citados pratrazmente, de que “o espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto.”

E por derradeiro aqui fica mais essa anotação: o programa conta com a inestimável colaboração de Carlos Luiz Conzi, na produção e edição, e o valioso apoio da Pousada Kokopelli, de Lavras Novas.


Sem essa de mexer em time vitorioso

Cesar Vanucci

“Esfaquear o Sistema S é um duro golpe!”
(Flavio Roscoe, presidente da Fiemg)

A ignorância ativa, denunciando autossuficiência derivada de pretensa superioridade intelectual, é de molde a produzir malefícios sem conta, por vezes irreparáveis. Agora, o já não saber o que se ignora configura circunstância capaz de atenuar, de algum modo, eventuais culpabilidades por atos irrefletidos, sempre passíveis de reconsideração. Quer nos parecer que esse embalo inicial do super Ministro da Economia, Paulo Guedes, e assessores, acenando com proposta de intervenção nas atividades do chamado “Sistema S”, encaixa-se na última alternativa pontuada. Ponho-me a imaginar que o anúncio feito a respeito da momentosa questão decorra de um inequívoco desconhecimento da real extensão dos fecundos benefícios proporcionados pelas instituições vinculadas a esse respeitável e firmemente consolidado complexo educacional e de serviços sociais.

Dos SS brasileiros pode-se garantir, sem a mais tênue sombra de exagero, que são everestiana referência na paisagem do labor e da criatividade humana voltados para o ideal do bem-estar social. Fazem parte de um conjunto invejável – que os há, mercê de Deus, em numerosas áreas de atuação legitimamente brasileiras – de empreendimentos altamente bem sucedidos. Empreendimentos – repita-se – nascidos do engenho e capacidade de nossa gente, que constituem esplêndida contribuição ao esforço global em favor do desenvolvimento.

Numa narrativa repleta de vigor, lúcida avaliação dos fatos, transbordante em matéria de argumentos convincentes, o presidente do Sistema Fiemg, empresário Flávio Roscoe, ocupou dias atrás este mesmo acolhedor espaço de ideias para abordagem magistral do papel dos SS na cena comunitária. Seu pronunciamento convida à reflexão. Deixa claro o quão justo é o desassossego que se apoderou do meio empresarial e da incalculável multidão de usuários favorecidos pelos programas dos SS, diante da ameaça que sobrepaira as entidades de desmantelamento significativo de suas estruturas. “O Sistema S acaba de se transformar em alvo de ameaças que colocam em risco a sua própria existência”, alerta Roscoe, lamentando que, em nome da necessidade da redução da carga tributária, o Ministro Paulo Guedes utilize a tribuna para dizer que é “preciso enfiar a faca no Sistema S”. Desenvolvendo sensato raciocínio, o dirigente acentua que o Ministro poderá contar com o apoio do setor produtivo nacional em iniciativas que busquem a recolocação do país na direção do crescimento sustentado, mas deixa frisado que “meter a faca no Sistema S” não se insere, jeito maneira, no rol das desejáveis providências administrativas e técnicas. Projeta, ao mesmo tempo, nas considerações alinhadas, um exuberante quadro demonstrativo das exitosas ações levadas a cabo, país afora, pelos SS.

A eloquência dos números e dados estampados explica a razão pela qual o Sistema S, composto pelo Sesi, Senai, Senac, Sest, Senat, Sesccop, Senar e Sebrae, desfruta, do Oiapoque ao Chuí, graças à  excelência dos serviços prestados, do mais elevado conceito na apreciação da sociedade. Pesquisa recentemente divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mencionada por Roscoe, dá conta da existência, praticamente, de uma unanimidade nacional em torno do que é executado pelas referidas instituições nas faixas da educação básica, educação profissional, saúde e segurança do trabalho, cultura, esporte, lazer e qualidade de vida do trabalhador.

A pergunta que não quer calar, desde que veio a público a açodada manifestação no sentido de mexida nas operações dos SS, é uma só, conforme pertinente registro do presidente da Fiemg.  Por que cargas d’água, a partir do propósito da louvável redução tributária, ganhou corpo essa imprudente disposição, destituída de bom-senso, de se desestabilizar os SS? Mesmo admitindo que muitos não saibam ainda o que se ignora, a estes mesmo, sobretudo, se recomenda cautela e prudência, pausa para reavaliações, de forma a que possam se inteirar melhor daquilo que realmente rola, não é de hoje, nos excelentes programas executados pelo Sistema S. Procedendo assim, não estarão incorrendo no risco de alvejar, clamorosa e irremediavelmente, projetos exemplares que dizem respeito à qualidade de vida do operário, inovação e desenvolvimento de tecnologia nos segmentos produtivos.

Resumo da ópera: sem essa de mexer em time que está ganhando todas. Muitas vezes, de goleada.





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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019


Em defesa dos SS  

Cesar Vanucci

 “A contribuição das empresas é importante porque garante o funcionamento de entidades que deram certo e contribuem para o bem-estar social.”
(José Alencar Gomes da Silva, de saudosa memória, à época presidente da Fiemg)

Percorrendo as ladeiras da memória, certifico-me de que há mais de duas décadas, em 1995, deflagrou-se nos bastidores governamentais uma articulação com o propósito de alterar a configuração do chamado “Sistema S”. A ideia aventada era estatizá-lo, algo que soava tremendamente incoerente numa hora em que se fazia manifesta na ação oficial a intenção de promover descontrolada privatização de ativos públicos, ainda hoje bastante criticada. Em defesa dos SS, publiquei uma série de artigos contendo respeitáveis conceitos ajustados às circunstâncias específicas daquela ocasião.
As considerações estampadas conservam ainda, de certo modo, num que outro ponto, sabor de atualidade neste momento em que a atuação das mencionadas instituições volta a frequentar, se bem que em contexto diferenciado, a agenda de debates. Eis o que então registrei.

As aparências enganam, como ensina a antiga prudência. Por isso, vou desovando logo saborosa historieta que frequenta com habitualidade e efeito garantido os encontros de sensibilização gerencial. O cidadão ia à toda na estrada. Numa curva bem fechada, quase vira manchete vistosa de página policial, ao cruzar com veículo que vinha um tanto desgovernado. Na passagem, gesticulante, alto falante gutural ao máximo volume, o outro motorista, uma mulher (“Não falei?”- pensou o nosso personagem, machismo todo aflorado), já com o controle da máquina retomado, deixou cair: - Cavalo! Cavalo!...  Não teve a menor dúvida. Sapecou incontinenti a resposta engatilhada para esses entreveros de trânsito: - Vaca! Vaca!...  Segundos depois, o carro rodopiava no asfalto, por culpa de uma tropa de cavalos atravessando a pista.

Moral da história: a palavra pode se aprestar a interpretações enganosas. Pelo que, tendo em vista o título deste comentário, nada de confusões pro meu lado. Sem essa de tentar lobrigar chifre em cabeça de cavalo. A defesa veemente assumida não é a dos notórios SS que ocupam espaço sinistro nos registros da história. Os SS de minha incondicional admiração nada têm em comum com os responsáveis pelo hediondo expurgo racista do apogeu do nazismo, tempo marcado pela destruição de apreciáveis valores humanos e espirituais. Muito antes, pelo contrário. Eficientes agentes da construção humana e espiritual, estes SS de minha apaixonada defesa compõem registro edificante da história brasileira. Os SS de que falo, evocativos de tanta coisa positiva realizada e de tantas iniciativas boas por fazer, atendem pelas sonoras e simpáticas denominações de SESI, SESC, SENAC, SENAI.

Querem acabar com eles. São inimigos dissimulados, ostensivos. Entregam-se, obsedantemente, a esse propósito demolidor. O objetivo é perseguido com implacável obstinação. O carro-chefe das tropas de assalto empenhadas na inglória missão está agora representado pela proposta de eliminação da contribuição compulsória dos encargos sociais nas folhas de pagamento, ao pretexto ridículo de que os pouco por cento reservados a tão nobres intuitos sobrecarregam os custos empresariais. Atrás disso se escondem argumentos inconsistentes oriundos de desconhecimento de causa, oportunismo, estreiteza intelectual para descobrir o óbvio. Parte-se, assim, para a negação sistemática da filosofia social embutida na programação das entidades. Para a não aceitação de sua condição de instrumento eficaz na promoção comunitária. Para a ideia de jerico, acolhida de modo embevecido nalguns ambientes, de transformar as instituições em meros departamentos burocráticos de um Ministério qualquer, como novas e defeituosas versões da LBA.

O que se pretende é a mudança de regra no jogo em andamento, onde os atletas se deslocam em campo em estado de graça, proporcionando com arte e criatividade espetáculo deslumbrante, ao agrado de numerosa e exigente torcida. Vê se pode! Mexer na regra é distorcer o resultado. Cabe à opinião pública identificar nos adeptos dessas esdrúxulas teses pessoas descompromissadas com o sentido social da vida. Gente que coloca à deriva das preocupações, como indissociáveis das ações econômicas, as cogitações sociais.

Pelo teor da ofensiva, percebe-se que é intenso o empenho em acabar com a obra que vem dando certo desde o começo. Obra que pode ser apontada como modelo de atuação. Produto exportável em condições de arrebatar tantos certificados ISO criados nos foros internacionais de qualidade.

Nossos SS nasceram de inspirada combinação do zelo oficial com a sensibilidade empresarial e aspiração laboral. Funcionam em moldes eficientes, sendo sustentados por recursos provindos das empresas, células dinâmicas do desenvolvimento. Para que o projeto nascido dessa poderosa conjugação de vontades se consolidasse muito concorreu a lucidez revelada por uma legião admirável de líderes. Empresários evoluídos, contemporâneos do futuro, souberam captar a envolvente mensagem social inserida no bojo das velozes transformações deste tempo. Assumiram, com saudável disposição, o comando dos SS, encaixando-os nos esquemas operacionais das entidades representativas das categorias econômicas. Acertaram em cheio. Souberam definir arrojadas linhas de ação social e educacional para o trabalho levado a efeito.

São nomes que fazem parte do panteão da história do desenvolvimento.  Reverenciá-los é preciso. Roberto Simonsen, Euvaldo Lodi, Morvan Figueiredo, Américo Giannetti, entre outros, souberam tornar melhores as relações entre o capital e o trabalho. Deixaram valiosa contribuição à causa da paz social.



Um homem adiante do seu tempo


Cesar Vanucci

“Cabe ao padre Landell toda a glória da invenção.”
(Registro de jornal sobre a transmissão pioneira de som num aparelho sem fio)

A trajetória percorrida pelo padre Landell Moura em sua peregrinação pela pátria terrena é recheada de referências cintilantes. Há um acervo muito precioso de feitos científicos e de manifestações de exaltação do espírito humano, provindos de seu talento criativo e capacidade empreendedora, com mira na evolução civilizatória. Esse brasileiro genial, já revelamos aqui, foi a primeira pessoa a fotografar a aura humana. Mas a sua participação foi muito além. Suas marcas digitais acham-se impressas na ciência, tecnologia, psicologia, pesquisas de fenômenos transcendentes inexplicáveis à luz do conhecimento consolidado na época em que viveu. É o que mostra farta documentação coletada pelo Núcleo de Pesquisas e Estudos Landell de Moura, pelo Movimento e Memorial batizados com o seu nome, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul. Numerosos trabalhos desenvolvidos por pesquisadores e historiadores, notadamente gaúchos, reforçam a tese. Mesmo assim, à falta de alarde maior de suas portentosas realizações, como seria justo almejar, a história desse notável personagem permanece ainda, para a maioria de seus compatriotas, envolta nas brumas do esquecimento. E um tanto quanto ignorada pelo resto do mundo.

Landell Moura é apontado, por figuras de alta qualificação na área da telecomunicação, como pioneiro nos experimentos que abriram caminho para a transmissão de sons e sinais telegráficos sem fio por meio de ondas eletromagnéticas. Há quem admita ter sido ele o primeiro, entre os inventores, a acenar com o surgimento do telefone e do rádio. De seus registros biográficos consta que ele realizou testes muito bem sucedidos em ambas as modalidades de transmissão a partir de 1893. Enfrentando dificuldades técnicas e financeiras para movimentar as pesquisas, confrontando tenaz resistência e cáustica incredulidade por parte das autoridades, opinião pública e superiores eclesiásticos, o padre-inventor conseguiu mesmo assim conceber aparelhos emissores de sons e sinais. Elaborou também inúmeros projetos classificados por gente do ramo como inéditos na projeção de imagens. O fato remete à admissão do caráter precursor de suas intervenções nos fascinantes domínios da televisão e fibras óticas.

A “Wikipédia” fornece a propósito da vida e obra de Landell Moura informações interessantíssimas. Alinhamos abaixo, condensadas, algumas delas. Ele previa a possibilidade da comunicação com inteligências de outros mundos. Defendia a quebra do celibato sacerdotal. Promovia estudos sobre as chamadas manifestações mediúnicas. Valia-se dos instrumentais da psicologia para aprofundar-se na avaliação das reações comportamentais humana. Sustentava a eficácia da homeopatia. Por conta de suas ideias e realizações levantou, em diversos momentos, vociferações iradas de fanáticos fundamentalistas. A intolerância com relação ao seu trabalho chegou a tal ponto que, em certa oportunidade, vândalos destruíram o laboratório em que promovia experimentos em Campinas. Em 1892, antes mesmo de Marconi anunciar êxito nos testes que o consagraram mundialmente, o inventor brasileiro construiu o primeiro transmissor sem fios de mensagens. De acordo com Fornari, seu contemporâneo, autor da primeira biografia do padre, Landell conduziu, entre 1893 e 1894, a primeira transmissão pública de som por meio de ondas hertzianas. O evento aconteceu entre pontos identificados como o Alto da atual avenida Paulista e o Alto do Santana, na capital paulistana, cobrindo distância de 8 quilômetros. Na mesma ocasião, ele ainda testou um transmissor de ondas, um equipamento de telégrafo sem fio e um aparelho telefônico sem fio. Depoimentos atribuídos a um sem número de personalidades da época, estampados no “Correio do Povo”, resgatados por Hamilton Almeida, colocam suas primeiras demonstrações trazidas a público no período que medeia os anos 1890 e 1896. Os registros das bem sucedidas ações foram se acumulando. Por volta de 1899 o “Jornal do Commércio” divulgou façanha mundial pioneira de Landell no tocante à transmissão do som sem fio. O texto vindo a seguir é extraído do referido órgão: “Nas diversas experiências executadas recentemente notou o inteligente inventor, que a zona que à mercê das vibrações do éter percorrem o som articulado, se vai alargando à medida que se aproxima do receptor, de modo que, colocando-se vários desses receptores dentro do mesmo campo de recepção, alguns metros separados um dos outros, todos eles recebem ao mesmo tempo com a mesma clareza a palavra transmitida. Deste resultado, que se saiba, não o obteve sábio algum, nem no velho nem no novo mundo. Cabe ao padre Landell toda a glória da invenção. Para tal alcançar não se pense que o infatigável homem de ciência foi de um salto. Há muitos anos que faz experiências e estuda metodicamente, entregando-se inteiramente à construção do triunfo que acaba de conseguir, sujeito por certo às leis da mais esquisita precisão, das quais fez nascer o seu pequeno aparelho transmissor e seu pequeníssimo receptor.”

As fontes em que nos louvamos para compor esta narrativa sobre o fulgurante itinerário do genial brasileiro assinalam que em 3 de junho de 1900 ocorreu a primeira inequívoca e consagradora demonstração pública dos extraordinários inventos  atribuídos a Landell Moura.


Landell teve seu momento de Galileu

Cesar Vanucci

“Os inventos não mais me pertencem!”
Padre Landell Moura)


Como revelado em comentário anterior, Roberto Landell Moura requereu e obteve as patentes de alguns inventos durante sua permanência nos Estados Unidos. A divulgação de seus feitos atraiu a atenção de empresários norte-americanos, que lhe propuseram parceria para a produção industrial dos aparelhos concebidos. O padre-inventor brasileiro recusou, entretanto, a chance que se lhe ofereceram de tornar seu fabuloso trabalho conhecido em ampla escala. A atitude assumida contrastou com a de outros inventores geniais, como Thomas Edison e Alexander Graham Bell, que se fizeram celebridades mundiais graças a portentosas criações técnicas naquele preciso momento de pronunciada efervescência científica vivido pela nação norte-americana. Assinalou, candidamente, a propósito, o seguinte: “Os inventos já não mais me pertencem! Por mercê de Deus, sou apenas o depositário deles. Vou levá-los para minha pátria, o Brasil, a quem compete entregá-los à humanidade”.

Fica difícil avaliar o tamanho de sua frustração! As lideranças brasileiras não se sensibilizaram nadica de nada com essa manifestação de idealismo, desprendimento e civismo. De volta ao Brasil, designado pároco de Botucatu, requereu, esperançoso, recursos oficiais para a continuidade do trabalho e lançamento dos inventos em proveito comunitário. Os apelos não encontraram eco. Reivindicou do governo Rodrigues Alves que disponibilizasse dois navios da Marinha para um teste pioneiro no mundo de transmissão sem fio a longa distância. O pedido foi rejeitado com desdém. Houve no alto escalão quem classificasse Landell de “maluco”. Abra-se aqui parêntese para anotar que, mais ou menos na mesma época, navios da Marinha dos Estados Unidos foram cedidos a inventores estadunidenses para pesquisas assemelhadas.

Os obstáculos antepostos à ação vanguardeira de Landell causaram-lhe compreensível desgosto. Mas não o esmoreceram. Sua capacidade inventiva manteve-se incólume. Seu diálogo com o poder político e superiores religiosos mostrou-se, inúmeras vezes, tumultuado e tenso. Mas ele conservou-se confiante na empreitada de contribuir para o engrandecimento da ciência e a inclusão do Brasil “na ampla e ilimitada esfera dos modernos cometimentos científicos”. Dizia sempre que seu trabalho visava abolir superstições e fortalecer a fé. A declaração vinda abaixo é emblemática: “Desejo mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é uma inimiga da ciência e do progresso humano. Indivíduos da Igreja podem num e noutro caso ter se oposto à luz, mas fizeram-no na sua cegueira pela verdade católica. Eu próprio já deparei com grande oposição de meus companheiros de fé. No Brasil, um populacho supersticioso, afirmando que eu tinha partes com o diabo, invadiu o meu gabinete e destruiu o meu aparelho. Quase todos os meus amigos de educação e camaradas intelectuais, seculares e leigos indiferentemente, consideram as minhas teorias contrárias à ciência. Sei bem o que é sentir como Galileu e exclamar como ele: “E pur si muove”. Quando todos eram contra mim, eu contentava-me em conservar-me no meu terreno, e dizia: É assim; não pode ser de outro modo”.

A “Wikipédia” registra outros trechos eloquentes e sugestivos da visão científica desbravadora de Landell. Estes ditos seus são de 1893. “Todo movimento vibratório que até hoje, como no futuro, pode ser transmitido através de um condutor, poderá ser transmitido através de um feixe luminoso; e, por esse mesmo fato, poderá ser transmitido sem o concurso desse agente. (...) Todo movimento vibratório tende a transmitir-se na razão direta de sua intensidade, constância e uniformidade de seus movimentos ondulatórios, e na razão inversa dos obstáculos que se opuserem à sua marcha e produção. (...) Dai-me um movimento vibratório tão extenso quanto a distancia que nos separa desses outros mundos que rolam sobre nossa cabeça, ou sob nossos pés, e eu farei chegar minha voz até lá.



Preparativos de Natal

Cesar Vanucci

“E o menino da manjedoura, onde é que ele entra nisso?”
(Dona Candinha, arrematando discussão)


- Manda chamar os meninos pra resolver o assunto. Pra mim, domingo pela manhã está de bom jeito.

Porfírio definiu, desse modo, com Emerenciana, a cara-metade, a reunião com os filhos, noras e genros para discussão dos preparativos das comemorações natalinas. Nem todos familiares convocados para o encontro puderam comparecer. Lavico, o mais novo, solteiro, alegou haver assumido com companheiros do clube dos motoqueiros, no mesmo dia e horário aprazados, compromisso irrevogável de percorrer uma trilha recém-aberta na zona rural de São José do Mantimento. Flavinha, amargando a recente separação conjugal, mandou pedir desculpas pela ausência, motivada por viagem pra Trancoso onde pretende flanar até o carnaval. Os demais filhos, Laurita, Segismundo e Betão, acompanhados dos respectivos cônjuges, Celinho, Arminda e Gerusa, atenderam à convocação, trazendo contribuições para o debate acerca da organização do festejo.

Enquanto Emerenciana servia os saborosos tira-gostos e bebidas requisitados para a ocasião, Porfírio tomou da palavra para explicar o objetivo da reunião. Lembrou que o Natal é, por excelência, um momento de congraçamento familiar. Gostaria, portanto, que todos marcassem presença numa única festividade. Para isso queria ouvir sugestões e propostas. A primeira intervenção foi de Laurita, filha mais velha. Na opinião da dita cuja, “deveríamos, todos, adquirir um número necessário de mesas num hotel de classe “A” para uma comemoração verdadeiramente condigna”. Largada no ar a sugestão, dirigiu-se ao esposo, professor de Português, indagando: “comemoração condigna, é assim mesmo que se diz?” A resposta de Celinho, com o olhar, tranquilizou-a, animando-a a partir pros detalhes de uma “oferta supimpa de serviços natalinos” encaminhada por “um estabelecimento de categoria”, conforme folheto ilustrado em mãos. Rega-bofe do melhor, espumante francês autêntico, árvore de Natal carregada de caixas de chocolate importado, a serem distribuídas entre os convivas, conjunto musical de renome com repertório carnavalesco de primeira pra execução a partir da meia noite.

A mulher de Betão, Gerusa, como de praxe, discordou da cunhada. Sustentou que Natal “é pra ser comemorado em casa”. Tanto é que ela, marido e filhos já haviam deliberado passar a noite de 24 na residência dos pais dela, o que não significava não pudessem reservar, também, noutra faixa de horário, um tempinho pra confraternização com os sogros. O Betão adicionou à explicação da patroa a notícia de que seu filho Tininho, integrante de uma banda “que já se apresentou até na televisão reservou espaço no enorme jardim do casarão dos avós maternos, onde se dará a folia, para show especial, na base do roque bate-estaca, já tendo, por sinal, convidado toda sua agitada patota.”

Chega a hora de Segismundo e Arminda opinarem. Eles são pela realização da festa na casa de Porfírio e Emerenciana. “Afinal de contas, a casa-matriz de nós todos”, ponderam, felizes com a manifesta demonstração de concordância do casal anfitrião à ideia. Mas, em seu entendimento, o sucesso da comemoração só ficará devidamente assegurado com a contratação do bufê mais requintado da cidade. “Aquele dirigido por um famoso “chefe” belga, que atuou no casamento mais badalado da temporada, conforme saiu no jornal. Tinha faisão, javali, caviar, cascata de camarão. Nada dessa coiseira de peru, chester, sardinha, onde já se viu!”

“Quanto à decoração – anotou-se ainda – pra ficar mais em conta, a gente mesmo assume, com a ajuda, tá claro, de uma arquiteta, nossa vizinha. Ela cobra quantia razoável pela iluminação do jardim, num estilo que possa lembrar, guardadas as proporções, a praça da Liberdade”.

O papo, bastante acalorado, avançou nesse diapasão por bom pedaço de tempo, com excessivos “comes e bebes”, mais “bebes do que comes”, sem se chegar a uma conclusão sobre como fazer o Natal. Dado momento, Emerenciana atentou para a circunstância de que dona Candinha, sua veneranda genitora, quietinha da silva no canto da sala, aboletada na poltrona cativa, bastante lúcida para seus bem vividos 90 anos, embora acompanhando com atenção a prosa da corriola familiar, ainda não havia emitido nenhum ponto de vista sobre a momentosa questão debatida. Resolveu provocá-la: - E a senhora, aí, mamãe, o que acha?

A resposta parecia já estar engatilhada na pontinha da língua: - O que eu penso é que vocês estão jogando muito palavrório fora sem falar bulhufas no aniversariante.

“Mas alguém aniversaria na data?” – perguntou num rompante, sem se dar conta do vexame, a despachada Celinha. “O menino da manjedoura, sua tolinha, o menino da manjedoura. Cumé que ele entra nisso?”. Dona Candinha falou e disse assim, assim se calou. Ninguém se aventurou a mais perguntas. E a movimentada reunião terminou sem qualquer definição sobre a comemoração.






O bicho-homem e o ser humano.
Maria Inês Chaves de Andrade*

Na mitologia grega, Croto é um sátiro considerado o inventor dos aplausos, tendo sido colocado por Zeus entre as constelações, tanto reconhecimento ao talento alheio promovia. O excroto, então, definamo-lo como aquele que perdeu a capacidade de perceber a excepcionalidade, fomentando o contra-espetáculo da humanidade, tão indisposto ante os sujeitos de direitos em atuação. Ora, tomemos o espetáculo da humanidade como aquele em que ensaia o ser humano, contracenando com o bicho-homem, sob o mesmo figurino aparente, mas essencialmente distintos em seus papéis. Ao ser humano cabe-lhe fomentar a efetivação dos direitos humanos – estejam todos positivados - para que assim se reconheça humano, através do Outro, sendo. Ao bicho-homem interessa-lhe saciar sua fome quando, para a satisfação de seu apetite subjetivo, autoriza-se a deglutir o quê e quem for preciso, gente e meio ambiente. O ser humano privilegia a Razão enquanto o bicho-homem, a animalidade; o primeiro, pela consciência de si como animal racional, e o segundo, ignorante desta dialética, subjugado pelos influxos da natureza, ostenta uma racionalidade amiudada. A fome do ser humano tem profundidades; a do bicho-homem, profundezas. O apetite do bicho-homem é vário: moral, econômico-financeiro, sexual. É quando a moralidade promove a supressão ou adequação do Outro que não comunga consigo, consciência e “igreja”; quando o capitalismo ampara a selvageria e, recepcionando o homem como lobo do homem, convive com a escravidão, a exploração do trabalho infantil, a ofensa aos direitos individuais e sociais; quando o fazer amor se degenera em estupro e sevícia. O ser humano sabe-se imagem e semelhança do Ser Humano primevo, o Verbo tornado, então, carne de homem, mas distinto dele, essencialmente. O bicho-homem manufatura Deus à sua imagem e semelhança. Ambos embatem no teatro da vida, social e politicamente. O bicho-homem elege bancadas e o político excroto que o representa desconhece a pluralidade do elenco de atores que somos e a nenhuma demanda aplaude, senão as de seu roteiro fatigante. Sua egolatria releva o “eu” enquanto primeira pessoa e de tão singular, conjuga espelhos morais para que nenhum reflexo social não seja o sEu. No bicho-homem, a essência humana se corrompe e apesar da aparência, revela-se imprestável à representação. É quando do político excroto, ainda, diz-se dele que corrupto. A deterioração pública da essência humana revela a potência daquele bicho-homem enquanto predador, demonstrando que a aparência não o sustém no propósito que assume, legal e constitucionalmente. O bicho-homem se imiscui por toda a sociedade, mas é a relação dele com o poder que o denuncia. O ser humano sabe que o poder, qualquer que seja ele, é uma força a serviço da liberdade e por ela labora enquanto o bicho-homem o crê adstrito a si e, de tão complexa esta sua relação, na senda psicanalítica, diz-se dele que complexado. Os excrotos são muitos, mas foi Croto quem foi colocado entre as constelações porque, de tanto aplaudir, mereceu estrelas. As luzes da ribalta estão acesas e ascendida a essência humana na expectativa de sua efetividade. O espetáculo da humanidade precisa ser encenado por todos os homens de boa vontade – de vontade de povo, na peça “A Constituição da República Federativa do Brasil”, em palco de cidadania. Croto quer aplaudir enquanto o excroto vai a... Vaia sempre. Ora, a homofonia sugere mesmo o calão, mas muito mais cala fundo e não temos como dizer. O neologismo é nossa revanche.


* Vice presidente da ONG "Proação"

sexta-feira, 4 de janeiro de 2019


Resgatar a memória de Landell é preciso


                                                        Cesar Vanucci


“Aquele momento festivo cristalizou (...)
 a funcionalidade do invento do padre Landell”.
(Jornalista Hamilton Almeida, biógrafo)

Estudiosos da fabulosa obra do padre Roberto Landell de Moura não vacilam, um instante sequer, no reconhecimento de seu pioneirismo como inventor. Incluem-no, sem titubeios, na galeria dos mais geniais  criadores de  instrumentos agregados  ao  bem-estar e conforto da humanidade. Deploram, naturalmente, que o obscurantismo cultural oposto ao portentoso trabalho haja impedido a utilização, em dimensão planetária, de seus engenhos vanguardeiros. A indesejável  circunstância  concedeu a  outros personagens obstinados e talentosos a chance de despontarem como pioneiros, em seu lugar, na área das descobertas tecnológicas importantes. Está  positivado  que  Landell chegou  primeiro  até  em inventos que garantiram Nobel para cientistas detentores de renome que ele, Landell, viu-se impossibilitado de alcançar.


Elucidativo documentário levado ao ar pela TV Senado divulga informações preciosas sobre a saga Landell Moura. No citado trabalho acham-se enfileirados depoimentos de esplêndido conteúdo. São jornalistas, biógrafos e historiadores contando o que sabem, empenhados num acerto de contas indispensável com a história. Entre outros: Hamilton Almeida, Heródoto Barbeiro, Ivan Dorneles Rodrigues, Daltro D’Arisbo, Reinaldo Tavares, Francisco Assis de Queiroz, Vânia Abatte, Etevaldo Siqueira, José Marques de Melo, Ana Amélia Lemos e Sérgio Zambiasi, os dois últimos com presença no Senado.

Na “Wikipédia”, colhemos breve descrição, de autoria do padre-inventor, sobre as propriedades de suas invenções precursoras. Aqui está: “O aparelho Telauxiofono é última palavra, sobre telefonia com fio, não só pelo vigor e inteligibilidade com que transmite a palavra, mas também porque, com ele, se obtêm todos os efeitos do telefone alto-parlatore e do teatrofono. Com esta notável diferença, que se tratando da teatrofonia, é suficiente um só transmissor, por maior que seja o número dos concertantes. Além disso, com o Telauxiofono, o problema da telefonia ilimitada tornar-se-á uma realidade prática e econômica. O Caleofono, como o precedente, trabalha também com fio, e é original porque, em vez de tocar a campainha para chamar, faz ouvir o som articulado ou instrumental. É muito apropriado para escritórios. O Anematofono, com o qual, sem fio, obtêm-se todos os efeitos da telefonia comum, porém com muito mais nitidez e segurança, visto funcionar ainda mesmo com vento e mau tempo. É admirável este aparelho, pelas leis inteiramente novas que revela. O Teletiton, espécie de telegrafia fonética com o qual, sem fio, duas pessoas podem-se comunicar, sem que sejam ouvidas por outra. Creio que com este sistema poder-se-á transmitir por meio da energia elétrica a grandes distâncias e com muita economia, sem que seja preciso usar-se de fio ou cabo condutor. O Edifono finalmente serve para dulcificar e depurar as vibrações parasitas da voz fonografada, reproduzindo-a ao natural. Este aparelho tornar-se-á o amigo inseparável dos músicos compositores e dos oradores".

No memorial elaborado para obtenção, em março de 1901, da patente brasileira de um aparelho destinado à transmissão fonética à distância, com fio ou sem fio, Landell anotou que o invento permite “projetar pelo espaço a voz a distâncias bem regulares. Funciona com sol, chuva, tempo úmido e forte cerração, como também com vento contrário se usarmos de placas automáticas e, nestes dois últimos casos, a distância a que se pode chegar é verdadeiramente prodigiosa. No mar, quando há cerração, e nas regiões calmas, esse aparelho pode prestar muito bons serviços”.

Analisando recentemente as propostas científicas do sacerdote, o engenheiro Carlos Guerra Lima emitiu parecer salientando que, sem sombra de dúvidas, o equipamento concebido para transmissões revelou-se “muito mais complexo tecnicamente do que os desenvolvidos por Marconi e Rhumer”.

Em 1984, a Fundação de Ciência e Tecnologia de Porto Alegre reconstruiu o transmissor de ondas patenteado por Landell em 1904 nos Estados Unidos. Os testes foram muito bem sucedidos. Hamilton Almeida, biógrafo, conta que o aparelho foi exibido, pela primeira vez, em 1984, num ato comemorativo da Semana da Pátria. “Aquele momento festivo cristalizou de maneira incontestável a funcionalidade do invento do padre Landell”, registrou.

O leitor já percebeu claramente que a obra do padre Moura possui uma amplitude tal que se configura impraticável descrevê-la satisfatoriamente numa mera sequência de despretensiosos artigos. O que essencialmente importa, todavia, é chamar a atenção das pessoas para o indeclinável dever cívico que se impõe, perante a história, de se fazer o resgate da memória deste sábio, autêntico contemporâneo do futuro. Alguém, de fulgurância invulgar, injustamente encoberto pelas espessas brumas do esquecimento. No comentário vindouro, concluiremos nossa modesta participação no elogiável esforço em que se acham empenhados ilustres patrícios, no sentido de inserir o rico legado do padre-inventor no acervo oficial dos mais notáveis avanços científicos da civilização.




Acerto de contas histórico

Cesar Vanucci

“Roberto Landell de Moura foi o protagonista dessa façanha e pouca gente sabe disso.”
(Hamilton Almeida, biógrafo de Landell, sobre a invenção do rádio)

2019 assinalará o transcurso dos 120 anos da primeira transmissão mundial da voz humana por ondas radiofônicas. O sitio “Jornalistas&Cia”, engajado em campanha de mobilização de segmentos representativos da Nação brasileira com vistas ao reconhecimento dos extraordinários feitos científicos do padre Roberto Landell de Moura, está anunciando a disposição de intensificar o trabalho de divulgação da obra do genial inventor. Esclarece, a propósito, que muitas foram as conquistas na primeira fase da campanha, em 2010, ao ensejo da celebração do sesquicentenário do nascimento de Landell. Mas, mesmo assim, a fascinante saga do inventor do rádio e de outros instrumentos eletrônicos incorporados ao bem-estar humano continua ignorada pela grande maioria das pessoas. Anota alguns resultados expressivos já alcançados: o lançamento do selo comemorativo pelos Correios; a inclusão do nome de Landell no panteão dos Heróis da Pátria; a introdução da história padre-inventor no currículo escolar do ensino fundamental em Porto Alegre; a instituição do Prêmio Landell de Moura de Jornalismo, em São Paulo.

O jornalista Hamilton de Almeida, biógrafo de Roberto Landell de Moura, em depoimento ao “Jornalistas&Cia”, explica, com detalhes, porque considera 2019 importante na história radiofônica. Frisa: “Será ocasião para lembrar dois marcos do rádio no país. Em 16 de julho se completarão 120 anos da mais antiga experiência documentada de transmissão de voz humana por ondas de rádio. O padre Roberto Landell de Moura foi o protagonista dessa façanha e pouca gente sabe disso, infelizmente. Outro fato marcante será o centenário da radiodifusão. A Rádio Clube de Pernambuco foi fundada em 6 de abril de 1919 por um grupo que, na época, intitulava-se “amadores de telegrafia sem fio”.

Hamilton Almeida conta, na sequência, lances da primeira transmissão mundial da voz humana, produzida graças ao engenho criativo de Landell de Moura, marco histórico da invenção do rádio. “Se estivéssemos agora na São Paulo de 1899, a mídia se resumiria a jornais e revistas, cujo noticiário do exterior chegava por meio de cabos submarinos. Para as comunicações pessoais e empresariais teríamos apenas o telefone com fio e o telégrafo sem fio. Pesquisava-se, mas nenhum cientista em qualquer lugar do mundo havia tido êxito na transmissão da voz sem fio. A chamada radiotelefonia era um sonho dourado. Mas eis que surge um brasileiro, padre, com sólidos conhecimentos de física e uma dose considerável de genialidade, que acreditou que aquele sonho poderia tornar-se realidade. Após muitos estudos e testes ele convidou diversas autoridades públicas, empresários e jornalistas, e exibiu o inovador aparelho de rádio. Isso aconteceu nas dependências do Colégio Santana, na zona norte da capital paulista. Para fazer uma transmissão wireless da voz humana, com muitas testemunhas, Padre Landell construiu o mais primitivo aparelho de rádio do mundo de que se tem registro.”
“Jornalistas&Cia” interroga o biógrafo do sacerdote-cientista:“Qual a diferença básica das experiências de Landell e de Marconi, a quem hoje, inclusive em grande parte do Brasil, se atribui a invenção desse veículo de comunicação?” Resposta: “A grande diferença é a voz; e os sons musicais. En­quanto o brasileiro mostrava que era possível fazer transmissões de rádio ponto a ponto e de radiodifusão, o italiano usava as ondas de rádio para transmitir sinais em código Morse. Portanto, quando se cogita da invenção de um veículo de comunicação como o rádio, em que escutamos vozes e músicas, quaisquer sons, não há como tirar o mérito do padre Landell. Os dois souberam empregar as ondas de rádio para enviar e receber mensagens. Foram grandes conquistas da humanidade. Mas um inventou o rádio e o outro, o telégrafo sem fio. Ambos foram pioneiros da era “wireless”, que tem pouco mais de um século, assim como (Nikola)Tesla, com o controle remoto.”

Cabe registrar que muitas outras louváveis iniciativas têm sido promovidas, de tempos a esta parte, no sentido de assegurar a Landell a glória que lhe foi negada em vida. O “Movimento Landell de Moura”, que batalha incansavelmente pelo reconhecimento de seu nome em larga escala, propôs ao Governo que reivindique internacionalmente o pioneirismo do brasileiro na invenção do rádio. Os radioamadores brasileiros têm Landell como patrono. Porta-vozes da Igreja Católica deixaram consignada, em mais de uma ocasião, chegando até mesmo a formularem pedido de perdão, sua fabulosa contribuição para o progresso da ciência, para os avanços civilizatórios e para a conciliação dos valores esposados pela ciência e pela fé.

Configura-se assim, de forma estrondosa, a justiça, que outra coisa não representa a verdade em ação, de toda esta acumulação de esforços em torno da ideia de um resgate, à altura de sua grandeza como ser humano, da memória do genial brasileiro. O Brasil não pode furtar-se ao dever de promover este acerto de contas com a história em torno da vida e obra do padre-inventor. Por força de numerosos fatores adversos, entre eles o obscurantismo cultural, várias invenções de Landell, apontadas em nossas singelas narrativas, acabaram sendo “inventadas” por outros cientistas, como salienta o biógrafo Hamilton de Almeida.




Gentilmente enviado pelo amigo Silviano Cançado Azevedo, belo texto de autoria de Bruno Pitanga, doutor em neuroimunologia, neurocientista, professor universitário e palestrante. 


"ORE

Pra viver melhor, não se preocupe, *se ocupe.* Ocupe seu tempo, ocupe seu espaço, ocupe sua mente. Não se desespere, *espere.* Espere a poeira baixar, espere o tempo passar, espere a raiva desmanchar. Não se indisponha, *disponha.* Disponha boas palavras, disponha boas vibrações, disponha sempre. Não se canse, *descanse.* Descanse sua mente, descanse suas pernas, descanse de tudo. Não menospreze, *preze.* Preze por qualidade, preze por valores, preze por virtudes. Não se incomode, *acomode.* Acomode seu corpo, acomode seu espírito, acomode sua vida. Não desconfie, *confie.* Confie no seu sexto sentido, confie em você, confie em Deus. Não se torture, *ature.* Ature com paciência, ature com resignação, ature com tolerância. Não pressione, *impressione.* Impressione pela humildade, impressione pela simplicidade, impressione pela elegância. Não crie discórdia, *crie concórdia.* Concórdia entre nações, concórdia entre pessoas, concórdia pessoal. Não maltrate, *trate bem.* Trate bem as pessoas, trate bem os animais, trate bem o planeta. Não se sobrecarregue, *recarregue.* Recarregue suas forças, recarregue sua coragem, recarregue sua esperança. Não atrapalhe, *trabalhe.* Trabalhe sua humanidade, trabalhe suas frustrações, trabalhe suas virtudes. Não conspire, *inspire.* Inspire pessoas, inspire talentos, inspire saúde. Não se apavore, *ore.* Ore a Deus! Somente assim viveremos dias melhores.”

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...