segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma pesquisa surpreendente

Cesar Vanucci

“Os entrevistados foram ouvidos em um ambiente de opinião desfavorável a Lula.”
(Marcos Coimbra, diretor da “Vox Populi”)


Recente pesquisa de opinião promovida pelo Instituto “Vox Populi” trouxe dupla surpresa. A primeira surpresa correu por conta do silêncio quase unânime, em relação aos dados anunciados, observado por parte dos grandes veículos nacionais de comunicação, sabidamente fissurados em divulgações desse gênero. A unanimidade só não ocorreu em função de matéria a respeito do assunto estampada nas páginas da revista “CartaCapital”.

O outro motivo de surpresa decorreu dos próprios números apontados na pesquisa. Abstemo-nos de comentá-los, deixando para o leitor a análise das informações apuradas. Segundo a “Vox Populi”, entre 11 e 15 de dezembro passado, 2 mil  eleitores foram entrevistados em todo país. Seguindo formato padrão tradicionalmente utilizado pelos institutos de pesquisas, o levantamento abrangeu um conjunto de perguntas com o fito de estabelecer comparação de desempenho governamental entre los ex-Presidentes da República Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, em diferentes áreas de atuação. As pessoas consultadas apontaram qual deles se saiu melhor em cada uma das situações propostas. Deu Lula na cabeça em praticamente todos os itens. As diferenças percentuais foram sempre altas. Nos temas sociais, bastante altas.

Vale a pena tomar conhecimento dos índices registrados. O único tópico do confronto que se mostrou desfavorável ao líder petista foi aquele em que se formulou indagação sobre em qual administração “houve maior volume de corrupção”. Estas as respostas dadas: 47% quanto ao Governo Lula. 18% quanto ao Governo FHC e 15% quanto “aos dois governos, igualmente”. No tocante aos demais quesitos, os índices comparativos foram os que se seguem: a) Quem gerou mais empregos? - Lula 65%, FHC 19%; b) Quem investiu mais em educação? - Lula 60%, FHC 18%; c) Quem teve maior preocupação com os pobres? - Lula 74%, FHC 9%; d) Quem investiu mais em saúde? - Lula 46%, FHC 18%; e) Quem controlou melhor a inflação? - Lula 52%, FHC 28%; f) Quem mais concorreu para melhorar a imagem do Brasil no exterior? - Lula 55%, FHC 20%; g) Quem mais estimulou o crescimento econômico? - Lula 55%, FHC 21%; h) Quem investiu mais em segurança pública? - Lula 37%, FHC 17%; i) Quem mais combateu a corrupção? - Lula 32%, FHC 18%. É interessante frisar, no que concerne ao último item anotado, que esta foi a única parte da consulta onde a resposta correspondente a “nenhum dos dois”, com 38%, revelou-se superior aos índices atribuídos a cada ex-Chefe de Governo.

Marcos Coimbra, diretor da “Vox Populi”, destaca aspecto relevante da pesquisa: a circunstância especial do momento em que a mesma  se realizou. “Ninguém ignora – sublinha – o que se passou em 2015 e a intensidade da campanha (...) contra o Governo Dilma Rousseff e o PT. (...) Os entrevistados foram ouvidos, portanto, em um ambiente de opinião desfavorável a Lula”.



A charge, o filme, o candidato

Cesar Vanucci

“Vivemos no tempo mais esquisito de todos os tempos!”
(Duke, chargista)

Em charge magistral, o talentoso Duke conta em “O Tempo” uma história bem típica da alucinatória incongruência econômica e social desses tempos amalucados. No primeiro rabisco, o aparelho de televisão informa ao telespectador refestelado na poltrona: “Estamos na maior crise de todos os tempos!” Na cena retratada no quadrinho seguinte, a notícia passada ao telespectador é esta aqui: “Bancos registram os maiores lucros de todos os tempos!” No derradeiro registro, com o olhar perplexo fixado na telinha, o telespectador sapeca: “Vivemos no tempo mais esquisito de todos os tempos!”
Uma charge apenas. Vale por uma grosa de comentários a respeito dessa tremenda distorção do comportamento social que privilegia o lucro descomedido na escala dos valores proporcionados pelo labor humano.  E já que se está a falar de ganhos himalaianos, queira o distinto leitor aí, por favor, anotar: as taxas dos cartões de crédito já andam pelas altitudes irrespiráveis dos 410.97%, o cheque especial já chegou a 248.34% e o “spread” bancário a 87%, em decorrência, ao que se alega, do aumento da taxa básica Selic de 2%. Dá procês?

Filme 3D. Falaram tanto desta fita! Disseram coisas e loisas do desempenho do Leonardo DiCaprio, da direção de Alejandro Inãriptú, da narrativa empolgante recheada de tiradas inovadoras e efeitos especiais inigualáveis etecetera e tal! Tão persuasivo trabalho marqueteiro incentivou-me a trocar no final de semana a programação de filmes exibidos na tv pela fila de uma sessão noturna em sala de projeção do shopping.
Aqui pra nós, esse “oba oba” em torno de “O Regresso”, no modesto parecer deste desajeitado escriba, guarda desproporção com a ideia de uma obra de qualidade superior vendida na propaganda  do filme. Tendo em vista as 12 indicações para o “Oscar”, é provável que o celuloide arrebate estatuetas na grande festa hollywoodesca. Mas nem por isso ele faz jus à classificação de “fora de série” .
Essa superprodução ambientada em florestas da América do Norte foi rodada em paisagem invernal deslumbrante com temperaturas abaixo de zero. Dos desempenhos pode-se dizer que são marcantes. Das tomadas de cena pode-se dizer que são criativas. Até aí tudo bem. O espectador atento não consegue, entretanto, libertar-se da sensação de que DiCaprio, encarnando o personagem central responsável por inacreditáveis proezas, recebeu instruções para se comportar, na trepidante aventura encenada, como um êmulo de James Bond misturado com Capitão Marvel. Os grandes e inesquecíveis espetáculos de cinema costumam tatuar na lembrança uma marca de “quero mais”. Nasce aí aquele prazer especial que sempre se sente ao revê-los. “O Regresso” não tem como entrar numa lista do gênero. Encurtando razões: trata-se de filme mediano com 3D: desinteressante, desagradável, desnecessário.

O candidato a candidato. Esse Donald Trump, magnata estadunidense com pretensões presidenciais, que ora disputa a preferência dos republicanos nas eleições primárias em curso, vou te contar... Congregando apoios em setores que se primam pelo radicalismo mais exacerbado, o homem defende propostas aterrorizantes. Revela-se impecável versão talebã ocidental. Pra se ter uma ideia do que anda ruminando nas andanças pré-eleitorais, vejam só algumas de suas propostas.  Se eleito, expulsará imigrantes, coibirá o culto muçulmano, construirá muro igual ao de Berlim dos tempos da “guerra fria” separando os Estados Unidos do México. Não bastasse tudo isso, declara-se totalmente de acordo com o emprego de tortura em moldes medievais para arrancar confissões. Deus salve a América e o mundo!



Torcer pra não ser verdade...

Cesar Vanucci

“Prestarão imenso desserviço ao Brasil os indivíduos que se atreverem a propagar que carecemos de condições favoráveis para acolher os atletas e turistas atraídos pelas Olimpíadas.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Torço ardorosamente para que não seja verdade. Roço os limites máximos da boa vontade, compreensão e tolerância ao admitir que tudo não passa mesmo de lamentável mal-entendido. Puro e simples equívoco. Essa estranha e desagradabilíssima sensação percebida por tanta gente com relação a que estaria ocorrendo empenhado esforço dos incorrigíveis “plantonistas do pessimismo”, encastelados na grande mídia, no sentido de desacreditar, nas vésperas do magno evento esportivo, a capacidade do Brasil para promover os Jogos Olímpicos deve representar, tão somente e apenasmente, uma incorreta leitura dos fatos.

Isso mesmo! Só pode ser “exagero de imaginação” supor que existam por aí indivíduos mal intencionados à frente de uma central de boatos concentrada no nefasto propósito de espalhar que o nosso país esteja incapacitado a acolher os atletas e turistas das Olimpíadas por causa de mortíferos mosquitos...

Os temores de que esse procedimento perverso esteja sendo realmente mostrado, dito e lido na hora presente talvez possa ser explicado como eco distante daquilo que aconteceu em 2014, por ocasião da Copa, quando o negativismo midiático atingiu as raias do paroxismo, projetando um tipo de manifestação conhecido como “complexo vira-lata”. Algo que, seja enfatizado,  não tem a ver nadica de nada com o verdadeiro sentimento nacional. Seja também relembrado que aquele evento, noves fora o desempenho ridículo do escrete tremedeira do Felipão, notabilizou-se por  retumbante sucesso. Revelou-se incomparável em termos de organização, tomadas como referência todas as competições do gênero anteriormente ocorridas.

Proclamava-se, antes dos jogos, a torto e a direito, que os hotéis, os aeroportos, a rede de serviços de entretenimento e lazer eram totalmente desaparelhadas para dar respostas minimamente satisfatórias às exigências das levas turísticas aguardadas. Mas tudo, tudo mesmo, desmentindo maus agouros, funcionou a pleno contento. No tocante à segurança, colocada em xeque o tempo todo em antecipadas críticas maldosas, ela se revelou eficiente de tal forma que conseguiu a proeza de desbaratar um esquema fraudulento de muitos anos na venda de ingressos. O esquema estava nucleado nos bastidores da própria FIFA e funcionou impunemente em todos os campeonatos mundiais precedentes patrocinados pela entidade.

Resumindo a ópera: o Brasil aborrece a versão pessimista da vida. A opinião pública recusa espaço para quem, negando ou desconhecendo as virtualidades da brava gente brasileira, incida na imprudência de propalar a ideia falsa de que não reunimos condições para promover empreendimentos de dimensão universal. Falar verdade, com pedido de desculpas pela gabação, não há quem possa nos superar nesse mistér. Isso aí, gente boa!


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Os ponteiros do relógio

Cesar Vanucci

“A Dinamarca resolveu, no melhor estilo nazista, confiscar bens
 dos refugiados como compensação para o asilo concedido.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Para os numerosos (e fervorosos) adeptos das teorias catastrofistas essas notícias de pé de página vêm bem a calhar. O nível dos oceanos, em consequência do aquecimento global, continua se elevando. Os ponteiros do chamado “Relógio do Juízo Final” estão bastante próximos das badaladas fatídicas da meia noite.

Trocando em miúdos esse papo meio chegado ao agourento. Pesquisadores europeus sustentam haver equívoco nas estimativas científicas a respeito dos efeitos do aumento da temperatura sobre os mares deste nosso planeta constituído de três quartos de volume líquido. O índice de crescimento já é duas vezes maior do que os cálculos divulgados. Em função desse – chamemos assim – erro de cálculo, a subida das águas, projetada em dados colhidos por satélites, não é tão somente de 0,7mm a 1mm por ano, como propagado, mas de 1,4mm por ano. Essa revisão numeral prenuncia a incidência daqui pra frente de tempestades cada vez mais devastadoras, modificações atmosféricas com grau de periculosidade sempre crescente.

Já no que diz respeito aos “presságios” do famoso “Boletim dos Cientistas Atômicos”, BPA na sigla em inglês (“The Bulletin of the Atomic Scientists”), a má notícia reservada aos vulneráveis cidadãos terráqueos é de que restam apenas 3 minutos para os ponteiros do “Relógio do Juízo Final” cruzarem na casa dos 12, fazendo soar as trombetas apocalípticas. Há dois anos a marca  horária não é mexida nem pra frente nem pra trás. Fica no mesmo lugar. Os indicadores constituem o patamar mais próximo do “momento fatal” a que se chegou nas atemorizantes previsões dos cientistas desde 1984, época das tensões produzidas na fervente “guerra fria”. Criado em 1945 por cientistas estadunidenses, o “Relógio” é alterado de horário à medida que a insanidade humana demonstra desejos de expansão. Quanto mais perto da “meia noite” maior se faz o risco da eclosão de uma hecatombe capaz de extinguir a vida humana neste dadivoso planeta azul dilacerado por desatinos sem conta.

Numerosos fatores concorrem para que os ponteiros do “Relógio” estejam onde estão. Anotemos alguns deles. Os ameaçadores arsenais nucleares e bacteriológicos mantidos por um punhado de países que se dizem “fiadores da paz”. A saber, Estados Unidos, Rússia, China, França, Inglaterra, Índia, Paquistão, Israel, Coreia do Norte e, quem sabe lá, outros mais deste mundo tão pródigo em artimanhas geopolíticas. Basta apertar meia dúzia de botões para tudo ser reduzido a estilhaços. Os virulentos atentados à Natureza também figuram no rol dos indesejáveis fatores. Tal qual, aliás, os conflitos bélicos sem perspectiva de solução e os flagelos a que se acham expostas multidões socialmente excluídas. A movimentação dos ponteiros do relógio está sujeita ainda à barbárie belicosa terrorista e ao desapiedado terrorismo proveniente da intolerância, da injustiça e da indiferença, configurado em não poucas posturas emblemáticas. Dá pra citá-las: discriminações de cunho racista expressas em atos como esse do inimaginável confisco de bens (?), à moda hitlerista, dos infelizes refugiados, adotado (ora, veja, pois!) pela Dinamarca como “compensação” pelo “asilo concedido”; propostas republicanas de proibição do culto e do ingresso de cidadãos muçulmanos nos Estados Unidos e de construção de “muro fortificado” na fronteira com o México.

Eta mundo velho de guerra sem porteira!


Coisas desse mundo de Deus

Cesar Vanucci

“Soa estranho que as manchetes sobre tragédias com perdas humanas, ocorridas em partes diferentes do planeta, ganhem intensidade maior ou menor conforme o peso político, econômico e social do país.”
(Domingos Justino Pinto, educador)

Essas imperscrutáveis sendas percorridas nos domínios geopolíticos! O papo com o Irã dos raivosos aiatolás agora é outro. Mudou da noite pro dia. Com a retirada das sanções, que se estenderam por décadas, a diferença de tratamento oscilou de 8 pra 80. O presidente iraniano Hassan Rohani, de perfil moderado e aparência simpática, sobretudo se confrontado com o antecessor Mahmoud Ahmadinejad, famoso pela catadura inamistosa, acaba de ser recepcionado com todos os salamaleques diplomáticos, com direito a tapete vermelho e dobrados retumbantes, impecavelmente executados por guardas militares em roupagens de gala.

Mirando o potencial de promissores negócios existente no país do Golfo, detentor de respeitáveis jazidas petrolíferas e com voraz apetite por modernização tecnológica, os governos europeus abriram suas portas de par em par para acolher a primeira delegação oficial persa a pisar, depois de longo tempo, o solo do “Velho Mundo”.  Em meio a mesuras requintadas nasceram operações comerciais de monta. E na troca de gentilezas entre os amigos recentes pipocaram impensáveis concessões. Na Itália, nús greco-romanos dos chamados museus capitalinos foram pudicamente cobertos, às pressas e temporariamente, pra não ferir melindres. A hipótese de se suprimir vinho no banquete, de mode também a não ocasionar suscetibilidades, chegou a ser cogitada. Mas o que acabou prevalecendo mesmo, no final das contas, foi a supressão do próprio banquete oficial que o governo francês ofereceria nos “Champs Elisees” aos puritanos delegados iranianos. O acordo nuclear celebrado, que teve seu começo –interessante lembrar - em negociações conduzidas pela diplomacia brasileira com contribuição turca, estabeleceu a ensancha oportunosa para que se pudesse operar essa benfazeja metamorfose no relacionamento da comunidade europeia com os atuais dirigentes persas. E já que se falou acima em boas perspectivas de negócios, cabe encaixar aqui uma perguntinha ao nosso Itamaraty: será que não vai sobrar alguma chance para uma ofensiva comercial brasileira de jeito nesse mercado persa tão sedutor, disputado agora por países que, ao contrário do Brasil, se mostraram até tempos bem próximos refratários a aproximações com Teerã?

Enquanto isso, na Nigéria e Paquistão...
Na maltratada Nigéria e no enigmático e conturbado Paquistão, refúgio derradeiro do chefão terrorista Bin Laden, as sinistras falanges fundamentalistas islâmicas produziram, de novo, dias atrás, espantosas tragédias. Os atentados tiveram custos em vidas humanas equiparáveis aos dos fatídicos acontecimentos registrados no território francês no final do ano que passou. Mas o relato jornalístico internacional dedicado aos apavorantes episódios foi muitíssimo diferente. Em razão das manchetes e comentários excessivamente comedidos não houve, como seria lógico admitir, aquela mesma avassaladora comoção mundial dos momentos anteriores. Motivos de sobra – há de se ver – não faltam a africanos e povos de outras paragens do terceiro mundo pra se queixarem do tratamento ostensivamente diferenciado que o ocidente costuma dispensar, em suas manifestações de preocupação com os dramas humanos, às coisas angustiantes, doloridas que acontecem na parte de lá e na parte de cá deste mundo do bom Deus onde o tinhoso zela pela preservação dos espaços apropriados para suas lúgubres maquinações.



Escritos de ontem ainda atuais

Cesar Vanucci

“Recordar é viver.”
(Adágio popular)


Graças ao zelo da dedicada secretária Clélia Ferreira, conservo nas estantes de minha biblioteca, devidamente encadernados, textos produzidos ao longo de mais de meio século de atividade jornalística. De quando em vez, passo os olhos no copioso material publicado. Das releituras feitas costuma emergir a sensação de que os fatos enfocados, guardando similitude com situações agora vividas, não perderam ainda de todo sua atualidade.

Juntando aqui algumas amostras desses registros, espero de meus poucos e benevolentes (posto que leais) leitores uma avaliação acerca da procedência do que acabo de assinalar.

Catorze anos atrás, dois de fevereiro de 2002, lancei no papel, sob o título “Caneta cheia”, o comentário abaixo reproduzido.

“Caneta. O jornalista Cláudio Humberto, que tem bom acesso aos bastidores do poder, acaba de informar que o ex-presidente da Petrobras, Henri Reichstul, ao deixar o cargo, presenteou o fundo de pensão da empresa, a Petros, com 5,2 bilhões de reais. Dinheiro pra encardir, saído dos cofres de uma instituição que é propriedade do povo brasileiro. Esperei alguns dias pra ver se alguém desmentia ou esclarecia melhor o fato. Nada mais li, nem ouvi. Pus-me, então, a recordar episódios parecidos onde a imprensa documentou o poder ilimitado de que desfrutam, neste nosso país, alguns tecnocratas em posições-chave. Dispõem eles, sempre, de caneta cheia para assinar. Vamos registrar aí, por favor, que 5,2 bilhões de reais representam quase o dobro dos recursos que o governo teme perder na receita deste ano, em decorrência da decisão do Congresso – que exigiu meses de discussões e negociações – atualizando a tabela de descontos do Imposto de Renda. É superior também, em cerca de 1,2 bilhões, ao valor das aplicações anuais previstas na proposta do senador Antônio Carlos Magalhães de estruturação de uma campanha para erradicar a fome, conforme, aliás, lembra o próprio Carlos Humberto.

Dever. O governo do Estado de São Paulo está no indeclinável dever de trazer a público, com rapidez, uma explicação cabal e convincente sobre todas as circunstâncias que envolvem o deplorável episódio do sequestro da filha de Sílvio Santos. As coisas estão, até aqui, à hora em que batucamos estas linhas, muito mal ajambradas, como se costuma dizer em papo de rua. As extravagantes versões da troca de tiros entre o sequestrador e os policiais e da morte recente, altamente suspeitosa, do delinquente na casa de custódia precisam ser devida e competentemente esclarecidas. A opinião pública agarra-se, à falta de comunicado consistente, à desagradável sensação de estar sendo montada mais uma armação, no mesmo e manjado formato da morte de PC Farias. A honorabilidade das autoridades paulistas não pode alimentar, pela omissão, acomodação, conivência, mórbido espírito corporativista, qualquer deslize de comunicação.”


sábado, 13 de fevereiro de 2016

Aumento da concentração da riqueza

Cesar Vanucci

“A elevada função social da riqueza
não pode ser jamais subestimada.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

O ranking anual de trilionários compilado pela revista “Forbes” atinente a 2015 faz espantosa revelação. As 62 pessoas mais ricas deste nosso planeta azul acumulam juntas fortuna em dinheiro e bens equivalente a renda total de metade da população global.  Em termos numéricos: 3 bilhões 600 milhões de viventes.

É isso mesmo que você (esfregando bem os olhos de maneira a se certificar de não estar laborando em equívoco na interpretação da noticia) acaba de ler. Um grupo reduzido de cidadãos magnificamente postados na vida que, reunidos, não chegam a completar a lotação de um desses ônibus circulares das congestionadas ruas de qualquer centro urbano, é dono da metade do patrimônio da riqueza universal. Dois brasileiros, por sinal, compõem a lista. Está pra ser inventada, em qualquer idioma, expressão capaz de traduzir com certeira precisão o impacto que uma revelação dessas produz no espírito do homem  comum.

Não, nada disso. Não passa pelo bestunto das criaturas lúcidas descartar a riqueza como instrumento reconhecidamente fecundo na edificação do bem estar social. Os méritos inerentes ao labor criativo, exercido com ética e competência, em condições de propiciar crescimento pessoal, merecem ser devidamente celebrados. Isso faz parte do fascinante, posto que conturbado, jogo da vida. “O trabalho persistente vence tudo. O trabalho ferve”, proclama Virgílio, nas “Geórgicas”.  É bom para o homem, representando um “remédio soberano que faz bem à ética e à estética”, repica Anatole France. “O trabalho é o amor feito visível”, arremata magistralmente Kalil Gibran. De tão edificantes conceitos reflui remansosa a constatação de que o trabalho tudo pode. Constitui fórmula pacificamente admitida no processo civilizatório de se chegar à prosperidade, coisa por todo mundo almejada. Onde o bicho pega é na desproporção colossal que se observa nas frações do partilhamento da riqueza coletiva. Pouquíssimos com muito. Muitos com pouquíssimo. Alguns com quase nada. A concentração em poucas mãos dos frutos do esforço humano no astronômico volume apontado no ranking citado, gerando inimaginável e aterrorizante quadro de desigualdades, não encontra amparo nas leis naturais. Expõe brechas inconcebíveis nas leis humanas. Não se ajusta em nada ao projeto de construção de um mundo melhor. 

Fica claro, para quem tem olhos pra enxergar e ouvidos pra escutar, que o sistema econômico vigente no mundo contemporâneo carece ser repensado, ser refeito. Das melhores cabeças pensantes espera-se um despertar consciente no sentido da descoberta de processos inteligentes, criativos que, preservando em limites aceitáveis pelo bom senso e justiça os frutos conquistados pelo labor e engenho pessoais, assegurem distribuição mais equânime e justa da riqueza comunitária.

Segundo a “Oxfam”, ong britânica que anda acenando com a perspectiva de agravamento da crise econômica e social no mundo em consequência de fatores complexos, com ênfase para a crescente disparidade, essa tormentosa questão da concentração de riqueza está saindo do controle. A quantidade de afortunados cidadãos com riqueza correspondente àquela da metade da população mundial, repetindo, 3.6 bilhões, passou de 388 em 2010 para 80 em 2014 e, agora em 2015, para 62. Noutro extremo da equação o rendimento médio anual dos 10% mais pobres elevou-se, nos últimos 25 anos, em apenas 3 dólares. Tá danado!

Carnaval, explosão de esperança

Cesar Vanucci

“O Brasil cultiva concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida.”
(Domenico de Masi, sociólogo)


O carnaval brasileiro, “uma tradição venerável, adorada”, conforme anota Gilberto Amado, constitui sempre uma explosão feérica de alegria espontânea, propícia à confraternidade social. Incomparável em relação a qualquer outra manifestação cultural capacitada a atrair multidões, estremece de contaminante entusiasmo ruas e lares, mentes e corações.

Acontece que a festividade carnavalesca deste ano da graça de 2016 foi mais longe. Quebrou padrões. Superou bastante as expectativas. Alcançou retumbância bem maior do que em outros momentos, embora isso pudesse representar para a grande maioria das pessoas proeza inatingível a qualquer tempo. Consideradas as inusitadas proporções assumidas pelo chamado “tríduo momesco” - que na quase totalidade dos lugares, a começar pela Bahia de inesgotável fôlego, deixou há muito de ser apenas um “tríduo” -, contrariou em cheio os prognósticos de que haveria retração de participação popular nos festejos. Muita gente sustentava essa hipótese, apontando-a como consequência inevitável da crise que açoita o País.

O que se viu foi algo diferente do que se imaginava pudesse vir a ocorrer. O transbordamento de emoções genuínas extrapolou todos os limites concebíveis. Escancarou as inexauríveis potencialidades humanas que fazem da Nação brasileira um pedaço de mundo tão especial.  Para os especialistas em Ciências Sociais afigura-se, agora, indeclinável a tarefa de interpretar adequadamente esse possante sopro de energia que costuma acionar a gente do povo nessas estupendas afirmações culturais e humanísticas. Material abundante para reflexões de sociólogos e antropólogos foi despejado, durante a celebração carnavalesca, nas praças públicas, de norte a sul do País, sugerindo a conveniência de explicações por parte desses estudiosos dos fenômenos sociais. Fica bem evidenciado que as manifestações flagradas se contrapõem à atmosfera pesada, sombria, de timbre derrotista ininterruptamente propagada no noticiário nosso de cada dia.

Face ao exposto dá, então, pra perceber bem aquilo que o sociólogo italiano Domenico de Mais registra: a cultura da inteligência e a contemplação da beleza desvelam, no caso brasileiro, atrás de motivos de medo, radiosas ocasiões de esperança. E isso graças à benfazeja  circunstância de que, ainda no entender do mesmo pensador, o modelo de vida brasileiro acena sempre com perspectivas alentadoras no tocante às conquistas do futuro. Representa exemplo eloquente de proposta de vida bela e colaborativa. Mas o melhor mesmo é deixar que o próprio Domenico se encarregue de explicar, com a paixão que nutre pelas coisas brasileiras e encantamento que sente pelo jeito de ser de nossa gente, no  que consiste realmente esse estilo de vida modelar. “O Brasil, apesar de assolado pela violência, pela escandalosa desigualdade entre ricos e pobres, pela corrupção, pela carência de infraestrutura, cultiva uma concepção poética, alegre, sensual e solidária da vida, uma propensão à amizade e à solidariedade, um comportamento aberto à cordialidade”.
                        
O que ele falou e disse está primorosamente documentado no carnaval brasileiro, não é assim mesmo?


Noticiário nosso de cada dia

Cesar Vanucci

“As coisas boas não fazem notícia.”
(Papa Francisco)

A expressão “Papa gloriosamente reinante”, dos tempos risonhos e francos do catecismo, ressurge toda sonora na fala das pessoas quando se referem a Francisco como líder espiritual e estadista. O Sumo Pontífice – taí outra designação de época antiga aplicada à figura mais importante na hierarquia da Igreja – sabe suficientemente bem a que veio.

Ergue destemidamente a voz para condenar a injustiça social, a arrogância do mal em todas suas aterradoras vertentes, o radicalismo ideológico e, também, a indiferença glacial cortante da vida contemporânea. Não desvia jamais o olhar misericordioso, referto de solicitude paternal, das condutas humanas sombrias, egoísticas e ultrajantes. Guarda sempre palavra serena e lúcida, para temas de interesse da sociedade.

Na mensagem de fim de ano, conclamou os meios de comunicação a abrirem espaço mais avantajado para histórias inspiradoras e positivas, de maneira a contrabalançar a preponderância do mal, da violência e do ódio. Lembrou que o ano findo foi marcado por espantosas tragédias. Condenou a “sede insaciável de poder e a violência gratuita que o mundo contemplou em 2015”. Descreveu-as: brutalidades inimagináveis, sofrimento indizível de inocentes, refugiados forçados a deixarem os lares, seres humanos sem moradia, sem alimentos, sem meios de subsistência. Ressaltou que, nada obstante, ocorreram também no período gestos de ajuda aos necessitados, lastimando que tais demonstrações construtivas não apareçam na televisão, “por que as coisas boas não fazem notícias”. Exortou a mídia a não permitir que a solidariedade, a generosidade sejam “ofuscadas pela arrogância do mal”.

Anteriormente, também focado na ação midiática, o Papa pediu aos profissionais de comunicação que fujam dos “pecados da desinformação, calúnia e difamação”, fixando prioritariamente a atenção em assuntos que tornem melhor a vida das pessoas. Registrou que “o clima midiático comporta muitas formas de envenenamento”. Prosseguiu: “As pessoas percebem, mas infelizmente se acostumam a respirar dos meios de comunicação ar que não faz bem”. Completou: “É preciso fazer circular ar mais limpo”. Admitiu que a desinformação é o mais perigoso desses “pecados”, impedindo que os fatos cheguem completos ao conhecimento público. “Desinformação é dizer coisas pela metade, aquilo que é mais conveniente. Assim quem recebe a informação incompleta não pode formar opinião devido ao fato de não possuir os elementos necessários”.

Estridentemente oportunas, as palavras de Francisco encerram o mérito de chamar as lideranças em todos setores, as pessoas sensatas com capacidade de intervenção em acontecimentos do cotidiano e, sobretudo o pessoal da nobre atividade jornalística a reflexões profundas a respeito das pulsantes questões aventadas.

Conscientes de que a liberdade de expressão é prerrogativa democrática inalienável, uma qualidade essencial à prática do jornalismo, nem por isso deixamos, todos nós, de nos afligir e sentir desassossego ao confrontar atos que signifiquem doídas contrafações ao direito da manifestação das ideias. Abominando inequivocamente qualquer tipo de censura, acreditando firmemente nos remédios legais propiciados pelas instituições republicanas que nos regem para conter os abusos no emprego da palavra, nem por isso deixamos de nos apoquentar com os sinais volta e meia detectados do mau uso da comunicação.

Fica claro ainda que, retratando por dever de ofício hábitos e costumes de seu tempo, o jornalismo não pode se furtar à divulgação das coisas desagradáveis que pululam por ai. Não pode, sem dúvida, empurrar pra debaixo do tapete imundícies provenientes de condutas públicas condenáveis.


Mas o exercício correto dessa relevante missão não abona sensacionalismo mórbido, exploração contínua degradante no comportamento social. Cabe aos veículos de comunicação a obrigação de reservar espaço permanente para divulgação de gestos construtivos, empreendidos o tempo todo em tantos lugares. Refazer critérios na escolha das abordagens dos temas jornalísticos afigura-se tarefa de enorme significado. Interessa, por certo, bem mais à sociedade conhecer o que anda rolando de positivo no sentido de melhorar as condições de vida do povão, do que ser bombardeada, enervantemente, sobre o que fazem, mesmo depois de devidamente encarcerados por crimes repulsivos, os Cerverós da vida. Que interesse jornalístico, afinal de contas, está apta a exprimir uma tomada de cena especial, a partir de ruidoso helicóptero, apontando carro que esteja conduzindo os “ultra badalados” Paulo Cesar, Duque, Baiano, Youssef e outras figuras do mesmo naipe moral, tratadas como “celebridades”, por ruas congestionadas para um destino qualquer, acompanhados de escolta policial? Toda hora, imagens desse gênero espetaculoso são projetadas, pra desconforto e espanto geral, como “furos exclusivos” de reportagem. Isso nada tem a ver, façam-me o favor, com cobertura jornalística de qualidade. Muito antes, pelo contrário.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Chorando de barriga cheia

Cesar Vanucci

“Se colocarmos 2 milhões, 569 mil veículos um atrás do outro o tamanho da fila dará para cobrir o percurso entre os limites extremos, no sentido norte-sul, Oiapoque ao Chui, do continente brasileiro.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Acontece, por vezes, de os números e as estatísticas embaralharem o entendimento no trepidante mundo dos negócios. Isso dá causa a temerárias conclusões, interpretações que pecam por não exprimir com justeza a realidade.

As avaliações ouvidas acerca do desempenho do setor automobilístico no momento documentam a pertinência da observação. A impressão que se procura passar ao respeitável público, da parte de uns com matreirice, é que neste nosso Brasil – país, sem dúvida, um tanto quanto fora de ritmo na atualidade -, o importante segmento vê-se às voltas com devastadora intempérie, alvejado em cheio pela turbulência econômica. Mas, bem medidos, os fatos não sustentam pessimismo. Os índices estampam, verdade, declínio de produção. Nem por isso, entretanto, a atividade deixa de ostentar senhora vitalidade. O Brasil posiciona-se em honroso sétimo lugar no ranking global da fabricação. É superado apenas pela China, Estados Unidos, Japão, Alemanha, Índia, Inglaterra. Estivemos, em tempos recentes, na frente dos três últimos países. Já a Rússia, França, Itália. Espanha, Canadá, Coreia do Sul, Austrália, Turquia, México, Argentina aparecem na relação com volumes de unidades inferiores.

Apesar dos pesares a quantidade de carros comercializados em 2015 mostrou-se elevada: 2.569.000. Comparativamente com  2014, a variação pra baixo foi de 25%. Os emplacamentos a partir de 2006, excluídas as motos, proporcionam visão assaz positiva sobre comportamento mercadológico. Em 2006, foram 1.927.318 carros. Em 2007, 2.462.410; ano depois, 2.819.909. A expansão levou em 2012 a recorde histórico: 3.801.180 veículos. De lá pra cá, ligeiras quedas. Em 2013, o emplacamento apontou 3.767.188 veículos. Já em 2014 a soma apurada foi de 3.497.805.

Os dados dizem respeito a carros novos. O avantajado esquema de vendas de seminovos, usados de modo geral, movimentou nesses anos todos, 2015 incluído, um mundão de dinheiro. A elevação percentual relativa a esse tópico tem sido sempre significativa. De outra parte, as exportações, tanto de veículos leves quanto de caminhões e ônibus, acusaram ano findo robusto incremento: 19%.

À vista de tudo isso, qualquer sinal de desalento em torno da performance do setor, desprezando-se elementos analíticos tão preciosos, carece  totalmente de fundamento. Anos a fio, o Brasil tem representado para as montadoras verdadeiro “eldorado”. Parece até, em termos de rentabilidade, que suas sedes centrais acham-se aqui localizadas. Não há como olvidar também que as fábricas, desde os inolvidáveis tempos de JK, foram instaladas graças a abundantes benefícios governamentais. Falar verdade, apoio exagerado. Deu origem, nalguns casos, a abusos. O crescimento, na produção e comercialização, no curso dos tempos, não encontra paralelo em canto algum. Não se pode ainda desconsiderar a circunstância de que os valores praticados na comercialização interna foram e continuam sendo infinitamente superiores aos padrões universais. Vêm daí os balanços invejáveis das empresas. E não se venha com a manjada cantiga de que os preços elevados decorrem de taxação fiscal pesada. Estamos todos carecas de saber que isso não passa de papo furado. O carro custa mais caro, nestas bandas do sul do Equador, pela simples razão de que a cadeia de negócios do segmento acostumou-se a auferir bem maiores ganhos aqui do que noutras paragens.

Mais coisas podem ser ditas. De anos pra cá, a movimentação de veículos nas ruas está associada às imagens das frenéticas coreografias de cardumes em época de desova nas águas de nossos caudalosos rios. Noves fora, obviamente, para o rio Doce por lamacentos motivos. Pergunta inevitável: Onde, então, responda quem se animar, enfiar mais carro nessas ruas apinhadas, de fluxo complicado e estressante, com espaços insuficientes para parar, com vagas de estacionamento custando o olho da cara por força da despudorada ganância dos que exploram tão despoliciado ramo de serviço? Outra indagação: Será que com tanto veículo rodando, não chega fatalmente uma hora em que a cadência de vendas tende a diminuir? E, por derradeiro, se o negócio não é mais sedutor, por que cargas d’água, então, mal pergunte, a indústria continua acenando com a implantação de mais fábricas a curto prazo?

Chororô de barriga cheia não cola. Lamúria de mentira atrai ziquizira. Dá incontinência urinária e intestinal e depressão. Tudo amontoado.


Os investimentos estrangeiros

Cesar Vanucci

“O fluxo de investimentos globais não retornou aos índices de 2007.”
(Luiz Afonso Lima, analista econômico)

Em que pesem os solavancos do acidentado percurso econômico, com seus indesejáveis desdobramentos no campo social, o Brasil ainda não perdeu, em termos relativos, a condição de mercado atraente para investimentos. Esta a leitura correta a ser feita, malgrado o colosso de informações negativas circulantes sobre a conjuntura econômica, em função de dados liberados recentemente pela UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento).

Na acumulação de 12 meses, os investimentos diretos aportados no Brasil atingiram, em dólares, no ano de 2014, a soma de 62 bilhões e 500 milhões. Comparativamente com os números de 2013, houve na verdade uma ligeira queda (2.35 por cento). O valor alcançado foi de 64 bilhões de dólares. Entretanto, ao proceder-se a uma análise meticulosa do fluxo de investimentos estrangeiros no mundo segundo o destino do capital, chega-se à constatação de que o retrocesso nas aplicações teve caráter global. Todos os países com potencial para aplicações se viram afetados. A marcha à ré não foi apenas nos domínios brasileiros. Foi geral.

Alinhamos na sequência os indicadores demonstrativos da situação real enfrentada pela economia. No mundo inteiro o volume de investimentos estrangeiros totalizou, em 2013, 1 trilhão, 467 bilhões e 200 milhões de dólares. Em 2014, a redução chegou a quase 17 por cento: 1 trilhão 228 bilhões e 300 milhões de dólares.

Fixando o olhar nas frações canalizadas para os chamados países desenvolvidos, a relação entre os dois períodos foi essa aqui: 696 bilhões e 900 milhões de dólares em 2013; 498 bilhões e 800 milhões de dólares em 2014. Redução, por conseguinte, de 28,43 por cento. Utilizando o mesmo modelo de avaliação no tocante à América Latina e Caribe, detectamos  investimentos da ordem de 186 bilhões e 200 milhões de dólares em 2013 e de 159 bilhões 400 milhões de dólares em 2014, queda de 14.37 por cento. Desses totais, como já explicado, 64 bilhões foram carreados para o Brasil em 2013 e 62 bilhões e 500 milhões em 2014. Ressalte-se que, no nosso caso, o índice de redução foi bem menor do que nos demais cenários analisados.

Pelos elementos divulgados pela UNCTAD revela-se que apenas no item “países em desenvolvimento” ocorreu ligeira elevação (1.58%) de investimento estrangeiro segundo o destino. As aplicações no caso foram de 670 bilhões e 800 milhões em 2013 e 681 bilhões e 400 milhões no ano seguinte.

Uma outra indicação de que o Brasil conservou a condição de mercado sedutor para investimentos estrangeiros está representada na circunstância de o País haver galgado em 2014, segundo também a UNCTAD, o sexto lugar no ranking dos países mais procurados para investimentos, posição superior à do ano precedente.

Há um outro aspecto interessante a ser considerado nessa modalidade de análise. O Banco Central do Brasil adota, ao que parece, uma metodologia diferente da UNCTAD no que diz respeito à captação de investimentos estrangeiros. É o que se pode deduzir de um quadro estatístico por ele divulgado, no qual se comprova que a situação, como se imagina, já foi melhor, mas onde os números mostrados, relativos a 2014, diferem dos números apresentados pela agência da ONU. De acordo com esse quadro, em dezembro de 2014 os investimentos diretos no Brasil em bilhões de dólares, na acumulação de 12 meses, alcançaram a cifra de 96 bilhões e 900 milhões, bem superior aos 69 bilhões e 200 milhões de dólares registrados em dezembro de 2013 e, igualmente, maior do que os números anotados, agora, em outubro de 2015: 70 bilhões e 700 milhões de dólares.

A respeito do que rola atualmente no plano internacional, no capítulo dos investimentos, é oportuno conhecer elucidativo comentário de Luiz Afonso Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), em depoimento à jornalista Juliana Elias, da “CartaCapital”: “O fluxo de investimentos globais não retornou aos níveis de 2007, anteriores à crise. As economias centrais ainda estão com capacidade ociosa, demanda fraca e alguns países continuam muito endividados. É uma crise sistêmica do capitalismo. E isso, agora, se espalha para os países emergentes.”




A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...