sexta-feira, 27 de setembro de 2019


Cemig: privatização fora de propósito

Cesar Vanucci

“O povo (...) vai ter energia fornecida por uma empresa privada,
que vai piorar a qualidade do serviço e vai cobrar mais caro”
(Engenheiro Aloisio Vasconcelos, ex-diretor da Cemig”)

Razões mais do que convincentes. Ousamos mesmo afirmar: irrespondíveis. À luz do bom senso, do sagrado interesse público, das respeitáveis conveniências políticas, sociais e econômicas, a pretendida privatização da Cemig é simplesmente inaceitável.

A entrevista que o engenheiro Aloísio Vasconcelos, ex- diretor da estatal de energia e ex-presidente das Centrais Elétricas Brasileiras (Eletrobras), concedeu, a propósito da flamejante questão, ao “Diário do Comércio”, edição de 18 de setembro passado, fundamenta impecavelmente o estridente equivoco em que o governo de Minas Gerais labora, com estimulante apoio de alguns setores da administração federal, ao colocar em andamento conjunto de ações com o fito de transferir para grupos privados um bem público valiosíssimo, de extraordinária importância estratégica para o Estado e para o País.

Quem se der ao trabalho de ler, com a devida atenção, os lúcidos argumentos alinhados no citado depoimento, chegará, inapelavelmente, de forma serena e objetiva, à intransponível conclusão de que a anunciada desestatização constitui, em termos definitivos e de forma irreplicável, um baita de um péssimo negócio. Se chegar a ser efetivado, por algum imperdoável descuido administrativo ou parlamentar, redundará numa operação desastrada. Mais uma, por sinal, na encorpada lista das privatizações desnecessárias. Privatizações impostas, como sabido, ao todo da sociedade, por força de insensibilidade política associada à ambição desmesurada de minoritários grupos de mercadores oportunistas.

Depois de indagar se o governo, “que é passageiro e acaba daqui a 3 anos”, tem o direito de passar para terceiros um patrimônio dessa magnitude, “que é de longo alcance e já tem quase 70 anos”, Vasconcelos explica que, em apenas 2 anos, Minas Gerais terá condições de receber em dividendos, como fruto das operações da Cemig, todo o dinheiro equivalente ao valor a ser supostamente apurado nessa transação que a opinião pública mineira maciçamente repudia. Nas considerações críticas levantadas pelo engenheiro, reconhecido especialista na temática energética, é anotada também a circunstância de que as empresas privadas de eletrificação se recusam, invariavelmente, a participar de projetos sociais do gênero “Luz para todos”, por não serem lucrativos. Com tal postura, impedem sejam levados às zonas campestres os tão almejados benefícios da chamada “eletrificação rural”. Outra contraindicação à privatização da Cemig, uma empresa de alta eficiência e esplendida lucratividade, está configurada, segundo Aloísio Vasconcelos, na constatação de que “as empresas privadas ou que foram privatizadas, todas elas, sem uma única exceção, aumentaram o custo da energia após a privatização”. E, ainda, o que é muito preocupante para a população mineira, “... tiveram uma piora nos índices que medem a qualidade da energia”. Em Goiás, num caso recente de privatização, a população sai às ruas, todos os dias, brigando e protestando. A privatização, no episódio relativo ao vizinho Estado, favoreceu uma empresa italiana. O entrevistado garante: “O povo de Minas Gerais, que aprova a Cemig por 84% e 16%, vai passar a ter sua energia fornecida por uma empresa privada, que vai piorar a qualidade do serviço e cobrar mais caro por isso. Isso é inaceitável. A Cemig tem hoje 8,5 milhões de consumidores. Claro que não vão ser ouvidos”.

O ex-diretor da Cemig e ex-presidente da Eletrobras é ainda de opinião que a chance de vender a Cemig é mínima. Primeiro, devido ao fato da esmagadora rejeição popular à despropositada ideia. Segundo, pela contingência de que a Constituição estadual exige seja a transferência aprovada em dupla votação na Assembleia Legislativa, com quorum qualificado (50 deputados a favor). E, ainda assim, caso o Parlamento ceda a pressões do governo, aprovando a privatização, a decisão final só poderá ser adotada depois de um referendo popular.

Sabedores de que a tese da privatização não encontra eco no seio da comunidade mineira, as forças empenhadas em levar a cabo, a qualquer preço, a empreitada desestatizante, concentram todo esforço na tentativa, agora, de persuadir os integrantes da Assembléia Legislativa a alterarem o dispositivo constitucional que remete a decisão a escrutínio público. Vasconcelos prognostica que, se esse absurdo prevalecer, a Cemig acabará sendo adquirida, provavelmente, por uma estatal estrangeira, da China, da Itália ou da França. Sem dúvida alguma, um contrassenso risível que poderemos ser compelidos a engolir como consequência de deliberações políticas inteiramente despojadas de sentimento nacional.

Por derradeiro, convidamos o leitor a por tento em mais este outro argumento levantado na entrevista comentada. A privatização da Cemig é desaconselhável por causa do controle sobre os rios. “Para se ter uma idéia da importância do domínio dos rios, nos Estados Unidos, as usinas que têm domínio do rio, como as do Tennessee, Chattanooga, são administradas pelo Exército americano. Não é nem pela engenharia privada ou estatal. São controladas militarmente por causa do domínio do rio”, esclarece Vasconcelos.

Encurtando razões: diante de tudo quanto aqui exposto, só mesmo o excesso de má vontade, de desconhecimento de causa e de arrogância poderá tentar encontrar “sentido” na tese da privatização de uma empresa com as características da Cemig. Fim de papo.


Evocações do meu passaporte (I)

Cesar Vanucci

“Delhi foi fundada pelos deuses. O Mahabharata, com suas 90 mil estrofes, conta a história.”  
(De um folheto distribuído aos turistas)

Retiro hoje do baú sugestivas anotações de viagem, de duas décadas atrás, que ainda conservam frescor de atualidade.

O guia turístico que nos acompanha numa visita a Agra garante, num portunhol caprichado. Nessa lindíssima cidade indiana, famosa pelo Taj Mahal e outras deslumbrantes referências arquitetônicas, existe um conjunto de edificações milenares que suplanta, em grandiosidade – pasmo dos pasmos – o próprio santuário brotado da paixão do califa (destronado pelo filho) autor do gesto de veneração à mulher amada mais famoso da história. Da edificação desconhecida, avistam-se ao longe as reluzentes e majestosas cúpulas de mármore. Ela é, entretanto, interditada aos turistas estrangeiros e indianos. Tudo por culpa de terroristas ligados ao fundamentalismo muçulmano, que alegam estar a edificação plantada em solo sagrado, hoje em poder de infiéis.

Também o Taj Mahal, pelo que revela o guia, é alvo de atenções permanentes por parte das forças de segurança, à vista das ameaças dos radicais religiosos. Nas três guerras com o Paquistão, os militares criaram à sua volta artifícios de camuflagem visando protegê-lo de eventuais ataques, inclusive aéreos.

Já noutra região menos conhecida da Índia, Monte Abu, Rajastão, não inserida nos circuitos turísticos tradicionais, localiza-se mais um incrível complexo arquitetônico, construído em mármore, na mesma linha suntuosa do Taj Mahal. É o “Delwara Jain Temples”, composto de cinco santuários lindíssimos. Do ponto de vista de esculturas, o conjunto chega a suplantar o Taj. Pode ser apontado entre as grandes maravilhas da antiguidade. 

É o mesmo caso da Cidade Abandonada localizada na planície entre Jaipur e Agra, com seus palácios, templos e cidadelas de  beleza impressionante. Ou da Cidade Rosada, do Fort Amber e do incrível Observatório Astronômico de Jaipur (capital do Rajastão). Todos têm posição de justificado relevo, no patrimônio cultural da humanidade, ao lado de outras obras portentosas indianas e não indianas.

Nos relatos dos guias indianos, a caverna de tesouros acumulados por Ali Babá não é lenda. A caverna existe. Está situada na região de Fort Amber. E, pelo menos numa ocasião, em tempos recentes, o “abre-te Sézamo” aconteceu. Foi no governo de Indira Gandhi. O Exército vasculhou as encostas das fortificações, num trabalho extenso de escavações, conseguindo desenterrar parte do tesouro.

Em todos os lugares que preservam tesouros arquitetônicos de eras remotas, como o Egito, Peru, Bolívia, México, Tibet, China, para ficar nalguns exemplos, os guias  trazem na ponta da língua as explicações sobre a origem misteriosa  das maravilhas contempladas. São, geralmente, explicações pouco convincentes. Sobra sempre a impressão de que ficaram faltando muitas coisas, até mesmo por compreensível falta de um conhecimento técnico mais aprofundado da realidade pesquisada. Assim também nos pontos turísticos fabulosos da Índia. Com uma diferençazinha. Os relatos ali são mais coloridos. Mais cheios de imaginação e de filigranas retóricas. Afinal, a Índia é o país das mil e uma noites!


Evocações do meu passaporte (II)

Cesar Vanucci

“A pechincha, entre nós, é uma arte”.
(Raful Rasweh, comerciante indiano)

É tudo na base da pechincha.
Fazer compras na Índia é um maná, como se costumava dizer em tempos de antigamente. Se os sacoleiros tupiniquins se dessem conta das ofertas incrivelmente convidativas daquelas bandas, muitos voos encomendados com o destino de Nova Iorque e Miami (hoje, por sinal, reduzidos a pessoas com resistência de Hercules, com saco para enfrentar as barreiras burocráticas e racistas montadas pela imigração estadunidense) seriam deslocados para Nova Delhi, Calcutá e Bombaim. As agências teriam, nesse caso, que se aparelhar para orientar os compradores na milenar prática da pechincha.

A pechincha adquire, nos domínios indianos, prerrogativa de arte. Nem bem o freguês toca, disfarçadamente, uma mercadoria na prateleira e já o vendedor, olhar de lince a acompanhar todas as suas reações, dispara: - Dez dólares!  Vendedor e comprador passam para o enfrentamento a partir daí, ambos sentados, o primeiro com os pés descalços no piso acolchoado da loja, que varia em conforto na proporção da importância do artigo estocado. A aceitação pura e simples da proposta sem revide pode deixar suspenso no ar um toque de desconforto. Pechinchar é preciso. Faz parte da essência do negócio. Ignorar esse pressuposto negocial pode soar como insulto. Numa transação conduzida nesses conformes, o lance inicial acaba despencando. Caindo barbaridade. Com mil dólares na carteira, o turista promove verdadeiro carnaval em matéria de compras, sobretudo se seu interesse estiver fixado em tecidos, objetos decorativos, ourivesaria. Um desses belíssimos tapetes que custa por aqui, nas lojas do ramo, os “olhos da cara”, é adquirido lá, na fábrica ou loja, na “bacia das almas”, que nem acontece, volta e meia, nos esquemas brasileiros relacionados com as tais privatizações.  O arcabouço instalado para atender ao turismo cobra, em termos brasileiros, preços bem razoáveis. Isso vale para hotelaria, transporte, alimentação etecetera e tal.

Os vendedores ambulantes, os famosos camelôs, são um capítulo à parte no comércio indiano. Atacam em bandos. Aprontam uma tremenda duma algazarra à volta do cliente.  Arriscam propostas em tudo quanto é idioma, para ver se acertam o do freguês. A este recomenda-se assumir, na incômoda circunstância, postura de bonzo. Permanecer mudo e quedo que nem penedo. Cara fechada, “estilo nada sei, nada vi, nada ouvi e rejeito papo”. As operações de compras, a preços sempre atraentes, quando se deixa o ponto turístico visitado, acabam sendo fechadas com o cliente já devidamente instalado em sua poltrona no ônibus. O guia dá uma de intermediário nas propostas e contrapropostas derradeiras. Tudo faz parte do show da vida indiana. Mas, num primeiro momento, quando a chusma de vendedores irrompe à frente, no auge do desconforto, pode bater no espírito a ideia incrível de que houve equívoco quanto à escolha do lugar da viagem. O melhor teria sido talvez optar por uma biboca perdida nos cafundós do judas despojada de qualquer tipo de atração não pela cidade indiana visitada. O mal-estar dura pouco. Pela frente, explode muita coisa assombrosa pra ver, sentir e tocar. A Índia proporciona, na verdade, um bombardeio sensorial que imprime na imaginação duradouras e extasiantes imagens.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019


“PERCEPÇÃO – UM PROGRAMA CESAR VANUCCI”


Já estão à disposição no YouTube quase 50 programas da série 
(1ª temporada). As instigantes abordagens do programa contemplam
a temática enquadrada na linha do chamado “Realismo Fantástico”.
É só clicar: percepção – um programa cesar vanucci

Beleza espanta melancolia e consola mágoas


Cesar Vanucci

“O seu balançado é mais que um poema...”
(Vinicius de Moraes e Tom Jobim, em “Garota de Ipanema”)

Nada como o modismo inconsequente para gerar reações descontroladas, até mesmo mórbidas. Os caras que inventaram, soberanamente, um padrão estético específico, imutável, para as passarelas, além de produzirem, como é sabido, estragos consideráveis com sua aprontação, deixaram à mostra, de modo irretorquível, não estarem com nada num tema que supõem dominar. Entendem bulhufas de beleza. Bulhufas de mulher. De gosto masculino.

Ao decretarem, mal comparando, a tábua de passar roupa como símbolo a ser obstinadamente perseguido no aperfeiçoamento das formas femininas, concorreram para que despontasse nos desfiles de moda uma contrafação da beleza. Uma contraposição caricatural da beleza autêntica, cultuada na preferência universal das ruas. Incutiram, irresponsavelmente, no espírito desavisado de algumas moçoilas incautas, ávidas pela fama instantânea, concepções distorcidas, grotescas mesmo, do que seja a formosura feminina.

E de que tipo de beleza se está mesmo a falar aqui? Ofereço como resposta uma referência estética registrada no “Livro dos Cantares”. Sob forma de louvação, ela abre um leque infindo de opções na busca da versão que melhor se ajuste aos conceitos de beleza aceitos pelas pessoas. “A mulher bonita é uma graça. Espanta melancolias e consola mágoas de amor”. A gente ouve essa lírica definição e sabe precisamente do que se está mesmo a dizer.

Igualzinho acontece, aliás, quando retiramos dos versos de Vinicius, imortalizados na melodia feita em parceria com Tom Jobim, que conquistou as platéias do mundo, essa outra primorosa definição: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina, que vem e que passa, em seu doce balanço, a caminho do mar.”

Confrontemos a imagem projetada na arrebatadora criação musical – onde se fala de um gingado de corpo “que é mais que um poema” e que deixa um rastro de encantamento - com aqueles desfiles desengonçados, mostrados na telinha por ocasião do lançamento de modas de vestuário. Roubando a espontaneidade e faceirice das moças, despojando-as de sua graciosidade natural, transformando-as numa espécie de robôs, para que possam cumprir satisfatoriamente sua burocrática missão profissional, as passarelas estão vendendo ao público, junto com os trajes bolados por figurinistas famosos, uma noção falsa, enganosa, de beleza feminina. Os traços faciais harmoniosos de várias modelos são ofuscados pelo toque crispado dos semblantes, à hora da caminhada pela passarela. Uma caminhada que não passa, via de regra, de um trote feioso, de musculaturas enrijecidas, ao gosto duvidoso das “recomendações técnicas” dos bastidores. Por trás de toda essa encenação burlesca, fora de compasso, existem ainda, trazendo notórios riscos à saúde das desprevenidas jovens, os aconselhamentos imprudentes em favor do culto desvairado à magreza exacerbada. Quanto menos peso, melhor. Quanto menor a massa corporal, tanto maior a chance de se chegar ao estrelato.

Esse modismo amalucado, que enaltece a magreza, tem provocado danos irreparáveis. Aqui e alhures. Tanto isso é verdade que, de forma pra meu gosto ainda tímida, nos círculos da moda sofisticada já começa a se esboçar uma reação contra os abusos praticados. Abusos esses estimulados ou, quando pouco, tolerados por setores, como dito anteriormente, totalmente desinformados do conceito que se tem, nas ruas, da autêntica beleza feminina. O padrão de beleza verdadeiro não dispensa, na configuração corporal da mulher, aqui e ali, uma ou duas polegadas a mais, um certo arredondamento generoso de formas, um manejo de corpo que desabroche num requebrado de alegrar a vista. Em suma, uma forma graciosa de movimento que deixa suspensa no ar a sensação deleitosa de que quando ela, mulher bonita, em seu meigo gingado, se põe a caminhar, ela mais parece, na verdade, executar um mavioso passo de dança.


O que anda rolando por ai

Cesar Vanucci

“Esse sentimento de desavença (...) dividiu o país”.
(Bruno Covas, prefeito de São Paulo)


Como anota o escritor e ensaísta britânico Gilbert Chesterton, as idéias antecedem as palavras e as palavras antecedem as ações. Lícito deduzir-se daí que as palavras desencadeiam sentimentos e emoções capazes de influenciar atitudes e procedimentos na vida cotidiana. Conseguem esculpir conceitos de vida.

Pinçadas a esmo, as manifestações alinhadas na sequência abaixo, algumas bastante insólitas, fornecem boa amostragem do que vem rolando, na atualidade, no pedaço brasileiro.

Diálogo, pra dizer o mínimo, desconcertante, dia desses travado pelo presidente Jair Bolsonaro com um repórter do jornal “Valor Econômico”: - Presidente, é possível crescer com preservação? / - Lógico que sim. / - Como? Se tem que alimentar e ... / - É só você deixar de comer menos um pouquinho. Você fala pra mim, por exemplo, em poluição ambiental, é só você fazer cocô, dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também.

A declaração que se segue foi dada também pelo presidente Bolsonaro no ato da entrega, em Pelotas, Rio Grande do Sul, de um trecho duplicado da BR-116. “Há anos um terminal de conteiner no Paraná, se não me engano, não sai do papel porque precisa agora também de um laudo ambiental da Funai. O cara vai lá, se encontrar – já que está na moda – um cocozinho petrificado de um índio, já era, não pode fazer mais nada ali”.

Do jornalista e ex-embaixador Tilden Santiago: “Em vão, o colega e amigo Ricardo Noblat continuará a suplicar ao presidente do Supremo: “Conta tudo, Toffoli!” Quem leu o seu blog ou a revista Veja, sabe do que estamos falando. Nada mais grave que as revelações do ministro Toffoli. Entre abril e maio últimos, houve uma tentativa de golpe para depor o presidente Bolsonaro, mas que ele (Toffoli) se intrometeu e, junto com outros nomes de peso da República, conseguiu abortar. Noblat tem razão! O presidente do STF tem obrigação de dar nomes aos bois.”

Jornalista Miriam Leitão: “O problema não é a direita ou a esquerda. Em qualquer democracia há alternância do Poder. O risco vem do populismo e do autoritarismo. Eles produzem crises econômicas, ameaçam instituições, emburrecem o debate. Na Argentina, na Venezuela e no Brasil, o problema sempre foi o autoritarismo, e piora quando ele vem vestido com as cores do populismo”. (...) “O maior risco de Bolsonaro é o autoritarismo. É da sua natureza e ele não vai mudar”.

Patrícia Abravanel, filha do empresário e apresentador de televisão Silvio Santos, do SBT, registra, numa entrevista, “que o SBT é muito pró-governo.” Acrescenta: “Independente do governante, a gente acredita que tem que estar apoiando”. (...) “a gente tem que estar perto dos nossos governantes, para eles poderem, sim, tomar boas decisões. Que a gente influencie eles para coisas boas. Que a gente acredite neles e torça por cada um deles. Então, aqui, eu, como meu pai, a gente é pró-governo. Sempre.”

Bruno Covas, prefeito de São Paulo, comenta o crescimento preocupante da situação de moradores de rua na capital bandeirante: “Os prefeitos pagam a conta desses cinco anos de crise e recessão”. (...) “Antes a gente tinha, basicamente, homens nas ruas. Hoje vemos mulheres, crianças, famílias inteiras. Outra questão é a explosão do número de indivíduos que buscam a rede pública de saúde. Nos últimos anos, a cidade de São Paulo viu crescer de 6,5 milhões para 7,5 milhões o número de dependentes do SUS, muitos perderam o convênio”.

Bruno Covas (neto do ex-governador bandeirante Mário Covas, um dos fundadores do PSDB e concorrente, no passado, à presidência da República), noutra recente manifestação: “Esse sentimento de desavença, de anti-isso, de antiaquilo, dividiu o país. Precisamos superar isso, construir pontes”.

Marcos André Costa, médico pesquisador, diretor geral do Centro de Oncologia do Hospital Oswaldo Cruz, catedrático da USP, lamenta a queda acentuada no número de médicos pesquisadores, em seu modo de entender peças-chave na engrenagem das conquistas científicas ligadas à cura de enfermidades. “Há dez anos – diz ele – ocupávamos a 17ª posição no ranking mundial de pesquisa clínica. Hoje caímos para o 24º lugar e participação de apenas de 2,1% das pesquisas em curso. Apesar de sermos o 5º mercado farmacêutico do mundo, perdemos espaço para países com menores PIBs, população e relevância em vendas (...)”. “É preciso repensar as estratégias do Brasil no que tange às pesquisas em saúde. Onde queremos estar posicionados e qual relevância queremos ter no tabuleiro científico mundial. Incomoda a representatividade ainda modesta das pesquisas brasileiras em congressos internacionais relevantes”.

Antônio Delfim Neto: “O Brasil deveria prestar mais atenção à adesão incondicional de Bolsonaro à administração de Trump, que, estrategicamente falando, tem sido incapaz de responder com sucesso aos movimentos de Vladimir Putin e Xi Jinping na Venezuela.”


MARAVILHAS DA NATUREZA

(Imagens colhidas em publicação divulgada no facebook)



sexta-feira, 6 de setembro de 2019


Magníficos eventos culturais

Cesar Vanucci

“A cultura é nossa tomada de conhecimento do melhor
do que se tem sabido e dito (...) da historia do espírito humano.”
(Matthew Arnold, pensador britânico)

Numa única semana, encarrilhados, três magníficos eventos culturais. A posse de Luiz Carlos Abritta na presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. A palestra de Maria Inês Marreco na Amulmig, focando o tema “Minas Gerais: Celeiro de Talentos”. O relançamento do livro “O Pequeno Jornaleiro”, de Maria Inês Chaves de Andrade, ilustrações de Son Salvador, com os direitos autorais cedidos pela autora a uma obra social instituída pelos inesquecíveis Pedro Aleixo e Helena Antipoff.

Na festividade mencionada em primeiro lugar, que teve por palco o Instituto Histórico e Geográfico, junto com a posse da nova diretoria ocorreu a celebração do 112º aniversário da instituição. Frei Evaldo Xavier Gomes oficiou a Ação de Graças pela efeméride. No discurso de despedida da função, Aluizio Alberto da Cruz Quintão apresentou, com a colaboração da vice-presidente Regina Almeida, relatório das fecundas atividades levadas a efeito no mandato trienal encerrado. Um quadro com retrato do ex-presidente foi descerrado na galeria do salão nobre. Os acadêmicos Paulo Ramiz Lasmar e Joaquim Cabral Netto também fizeram uso da palavra. O primeiro enumerou iniciativas culturais relevantes executadas no curso da gestão finda. O segundo saudou, em nome do sodalício, o novo presidente, seu companheiro de muitos anos nas lidas do Ministério Público. O pronunciamento do novo presidente foi antecedido de lance que deixou forte emoção. Dois filhos do empossado recitaram poemas de Osvaldo Abritta e de Maria da Conceição Antunes Parreiras Abritta. Ele, magistrado, intelectual vinculado ao movimento modernista liderado por Oswald Andrade, pai de Luiz Carlos Abritta. Ela, poeta consagrada, integrante de várias academias literárias, esposa de Luiz Carlos. Ambos, de saudosa memória.

Apontando os nomes dos componentes da diretoria, conselho fiscal e comissões que darão suporte administrativo e técnico às ações, o dirigente empossado detalhou seus planos de trabalho. Anunciou, como primeiro ato, a constituição de grupo de acadêmicos para coordenar programa, previsto para 2020, comemorativo do terceiro centenário da criação da capitania das Minas Gerais. A festa no Instituto Histórico, por inúmeros lances, pelos discursos ouvidos, de excepcional conteúdo intelectual, revestiu-se de fulgor difícil de ser igualado em cerimônias do gênero.

O evento, na Amulmig, que teve Maria Inês Marreco como expositora, alcançou igualmente incomum brilhantismo. Ancorada em rica pesquisa, prevalecendo-se de opulenta bagagem de conhecimento e de invejável fluência verbal, a conferencista brindou a plateia com narrativa atraente sobre a vida e feitos de mineiros que, ao longo da história, despontaram em posições de realce em diferentes áreas da atuação comunitária. O trabalho apresentado arrancou aplausos e suscitou, por parte dos presentes, observações que serviram para robustecer a tese do protagonismo decisivo assumido por cidadãos nascidos nas Gerais na construção do desenvolvimento nacional. Assim é que foram citados, como personagens de proa no cenário brasileiro, entre outros, os nomes de Joaquim José da Silva Xavier, Juscelino Kubitscheck de Oliveira, Sobral Pinto, Santos Dumont, Carlos Drummond de Andrade, Henriqueta Lisboa, Ary Barroso, Carlos Chagas, João Guimarães Rosa, Edson Arantes do Nascimento, Darci Ribeiro.

Também na Amulmig – Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais – aconteceu outra assembléia repleta de significação cultural, com a participação de convidados ilustres, entre eles descendentes e amigos do notável político e jurista Pedro Aleixo e admiradores da renomada educadora Helena Antipoff. A festejada acadêmica Maria Inês Chaves de Andrade, escritora, poeta, professora, advogada, figura de presença realçante na cena literária mineira, promoveu o relançamento do livro “O Pequeno Jornaleiro”, doado à “Associação do Pequeno Jornaleiro”. Essa organização, criada há 85 anos pelos saudosos Pedro Aleixo e Helena Antipoff, administrada na atualidade por Mauricio Aleixo e Úrsula Aleixo, filho e neta de Pedro Aleixo, desdobrou-se no curso do tempo transcorrido em outros núcleos operacionais de caráter assistencial. Na solenidade, os 90 anos de produtiva existência de Mauricio Aleixo foram festivamente celebrados. Em seu discurso, Maria Inês sublinhou a importância social da “Associação do Pequeno Jornaleiro”, lembrando que Pedro Aleixo deu a partida, Mauricio Aleixo tocou a obra adiante, Úrsula Aleixo ampliou-a “e eu me deixo, dessarte participar desta narrativa linda, fazendo a minha para brincarmos juntos nossa alegria interior”.



Faces do Brasil brasileiro

Cesar Vanucci

“Meu Brasil brasileiro (...) vou cantar-te nos meus versos.”
(Ary Barroso, em “Aquarela do Brasil”)

1)   Considerada pela Academia Brasileira de Letras como a obra musical que melhor reflete o espírito nacional, a “Aquarela do Brasil”, de autoria do genial Ary Barroso, mineiro de Ubá, completou este mês 80 anos. Seus lindos acordes e imponentes versos tornam-na amada e conhecida, no sentimento popular, como uma espécie de segundo hino nacional. Não tem como não sentir certo frêmito cívico na espinha quando se alteiam os sons inconfundíveis do “Brasil brasileiro”, do mulato inzoneiro, do samba e do pandeiro, exaltado em expressões de perene beleza e colorido humano. Cabe aqui rememorar singular emoção que vivi, em 2003, nas altitudes himalaianas de Lhasa, Tibete, ao ouvir, inesperadamente, num bar, um pianista extrair do teclado a nossa “Aquarela”. O grau de comoção que experimentei alcançou tal magnitude que cheguei a imaginar a hipótese de não conseguir resistir aos batimentos acelerados do coração. Passei até a criar na mente os transtornos que poderiam resultar de indesejável eventual traslado de meu corpo, daquelas lonjuras, até Belo Horizonte. O estado de espírito alterado foi, felizmente, desfeito com um chá terapêutico. Cedeu lugar a prazerosa serenidade. Recomposto do abalo, pude até mesmo desfrutar da alegria de acompanhar, aplaudir, a ponto de cantar, outras melodias da incomparável música popular brasileira, saídas magicamente do piano. Para quem eventualmente ignore o fato, seja revelado ainda que Ary Barroso, seguramente o maior compositor brasileiro de todos os tempos, com lugar garantido no panteão universal da criação musical, compôs quase 500 lindíssimas canções. A “Aquarela do Brasil” nasceu de um impulso único, num momento de súbita inspiração. Numa reunião em sua casa, diante de reduzida plateia composta de familiares e amigos, ele sentou-se ao piano, arrancou da cachola fértil a linha melódica, foi encaixando sem vacilações as palavras e, pronto, em curto espaço de tempo, inventou para embevecimento do mundo a melodia imortal.

2)   Está certo, não há como desconhecer que as denúncias do presidente Jair Bolsonaro foram feitas em instante de descomedida irritação. Bem naquele manjado estilo belicoso, de feição revanchista, por ele comumente empregado quando das dificuldades pessoais que encontra na lida com o contraditório. Mas, mesmo postas assim as coisas, impõe-se admitir que os fatos narrados na fala do chefe do governo foram recebidos com visível desencanto pela opinião pública. Essa história, não devidamente contestada pelos interessados, de que alguns influentes personagens na área da comunicação social se deixaram também envolver em mutretas do tipo das que são praticadas por políticos inescrupulosos, objeto naturalmente de condenações em suas pautas de divulgação, soou mal prá valer. E com agravante. O silêncio tumular, de iniludível cunho corporativista, que a mídia eletrônica entendeu de estabelecer a propósito do assunto. Tá danado!

3)   Integrantes dos poderes Executivo e Legislativo de Minas Gerais parecem mesmo firmemente empenhados em tocar pra frente, em que pese a manifesta discordância da comunidade, a manobra da privatização da Cemig. Deixam explícita, em reiteradas declarações, a disposição de atropelar a norma constitucional que rege a matéria, na consecução de seus objetivos. Terão que enfrentar, em determinada hora, um baita problema. Não será nada fácil explicar ao respeitável público a transferência para o setor privado, de mão beijada, de ativos estimados em 4 bilhões de reais pertencentes a uma empresa estratégica e de conceito que, num um único semestre apenas, acusa no balanço, lucro superior à metade desse valor. Ora, epa!

4)   “Empresas não são corruptas”, este o título de sugestivo artigo, estampado na “CartaCapital”, de autoria do jornalista Pedro Serrano. O cerne da argumentação é o seguinte: “Quem comete crimes, muitas vezes por meio ou em nome das organizações, são pessoas físicas, que podem e devem ser punidas criminalmente ao praticar delito.” Sublinhando que nos países mais desenvolvidos, em casos de corrupção, os indivíduos que representam as empresas são severamente punidos, mas essas, em função de respeitáveis interesses econômicos e sociais, são sempre preservadas, o comentarista se reporta ao tratamento totalmente diferenciado que o Brasil adota em circunstâncias análogas. As sanções aqui aplicadas são de um impacto tal que acabam excluindo as empresas de participar de processos licitatórios, obterem crédito, tornando-as, irremediavelmente, insustentáveis. O Sindicato Nacional de Construção Pesada e Infraestrutura promoveu, recentemente, um levantamento a respeito do que andou acontecendo com as maiores organizações do setor que figuraram, pela irresponsabilidade de seus executivos, na lista das atividades ilícitas investigadas pela Justiça. A potencialidade econômica e social dessas companhias, todas legitimamente nacionais (esse é um dado relevante a registrar), sofreu drástico encolhimento. Em quatro anos, a receita líquida despencou cerca de 85 por cento. Um milhão de empregos formais foram riscados do mapa. Sobrou a contundente evidência de que o peso maior das punições aplicadas recaiu sobre a mão de obra das companhias, alvejando trabalhadores comuns, chefes de família, não implicados, em instante algum, nas condenáveis praticas desonestas perpetradas. O correto será cogitar de uma reavaliação na metodologia do combate intransigente, do qual não se pode abrir mão, à corrupção. Atenderá ao interesse nacional assegurar a empresas legitimamente brasileiras condições de sobrevivência. Garantia de espaço no mercado de negócios, de modo a que possam se inserir no processo da necessária e urgente retomada do desenvolvimento.

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...