sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

A extraordinária trajetória 
de Dom Paulo

Cesar Vanucci

“No Brasil, é necessário lutar pelos
direitos de todos e pelo fim da exclusão social.”
(Dom Paulo Evaristo Arns)

Se a memória não estiver a fim de me trair foi precisamente no dia 2 de agosto de 1962 que ouvi a citação, pela primeira vez, do nome de Paulo Evaristo Arns. Foi num programa da extinta Rádio Nacional. Paulo Gracindo que, anos mais tarde, na Globo, em “O Bem Amado”, daria vida ao inesquecível Odorico Paraguaçu, prefeito da psicodélica Sucupira, fazia uma entrevista com Dom Helder Câmara. A entrevista tinha como foco questões relacionadas com as desigualdades sociais e os direitos humanos.

O entrevistador, apontando o entrevistado como desassombrado defensor das parcelas menos favorecidas da sociedade, lastimou que ele representasse voz solitária no quadro eclesiástico brasileiro nas abordagens sobre exclusões sociais. Helder Câmara, à época Bispo Auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, com mansidão na voz, mas absoluta firmeza contestou a afirmação. Fez questão de enfatizar que muitos eram os religiosos a compartilharem de suas ideias, inseridos todos eles em fecundas ações inspiradas na doutrina social da Igreja. Recomendou ao entrevistador que prestasse atenção, por exemplo, no trabalho desenvolvido por um certo Paulo. Paulo Evaristo Arns.

Não tenho como saber se Gracindo atendeu à recomendação. O que posso registrar é que, de minha parte, sensibilizei-me com a fala de Dom Helder. Repórter de jornal e rádio de cidade do interior das Gerais, achei por bem acatar a sugestão. A partir dali, passei a acompanhar, à distância, a trajetória do Bispo que se tornaria Cardeal da maior Arquidiocese do mundo, a de São Paulo.

Não demorei muito a convencer-me de que se tratava de uma figura portentosa. Um ser provido de sabedoria incomum, prodigiosa capacidade realizadora e de forte luminosidade. Uma dessas singulares criaturas que passam aos outros a repousante impressão de manter, no que dizem e fazem, papo constante com a Suprema Divindade.

Dom Paulo Evaristo Arns acaba de “partir primeiro”, diria Camões. “Deixou de ser visto”, anotaria Fernando Pessoa. Isso ocorre justamente num momento em que nos surpreendemos, os brasileiros, com a amarga constatação de uma grande carência de lideranças, notadamente políticas, no nosso pedaço de mundo. Essa partida deixa imenso vazio na alma popular.

Esse raro herói que, conforme sugestivo registro do brilhante jornalista Mino Carta, “poderia ter sido um Papa tão extraordinário quanto Francisco, com quem compartilhava o amor pelo santo”, legou-nos, a todos os seus compatriotas, imorredouras lições.

No ano em que ascendeu ao Colégio Cardinalício, fiel aos princípios franciscanos adotados como lema em sua peregrinação pela pátria terrena, teve um gesto que deixou muita gente, dentro e fora da Igreja, espantada. Vendeu o Palácio Episcopal. Os cinco milhões de dólares apurados na transação foram aplicados em centros de atividades sociais nas zonas periféricas e na instalação de comunidades eclesiais de base dedicadas ao combate da miséria. Noutra vertente de atuação apostólica, juntou a voz poderosa aos que saíram às ruas para proclamar a importância e urgência das “Diretas Já” e da anistia. Revelou-se um intérprete providencial do sentimento nacional na condenação às ignomínias praticadas nos chamados “anos de chumbo”. Enfrentou, com altivez e destemor, colocando a própria vida em risco, as arbitrariedades do trevoso período da tirania.

No auge da repressão contra os direitos fundamentais, transformou seu púlpito e os atos religiosos oficiados em memoráveis manifestações cívicas. Fez ecoar bem longe os clamores dos oprimidos, dos deserdados da sorte, dos cidadãos alvejados na dignidade humana pela inclemência e brutalidade da censura à liberdade de expressão. Em primeiro de novembro de 1975, na Catedral da Sé de São Paulo, promoveu um culto ecumênico histórico, atraindo líderes de outras importantes confissões religiosas para exaltar a memória de Wladimir Herzog, torturado e assassinado numa dependência da repressão. Desafiou abertamente o Governo, que insistia em propagar a falsa versão de que o jornalista havia atentado contra a própria vida.

Em outubro passado, no último evento público a que compareceu, numa celebração na PUC de São Paulo pelos seus 95 anos de vida, um dos religiosos que o acompanharam em sua missão pastoral, Dom Angélico Sândalo Bernardino, proferiu as seguintes palavras: “Quando imagino Dom Paulo, eu o imagino com o cheiro do povo (...), anunciando a urgência de resistirmos contra toda a mentira”. (...) “A resistência a que ele nos convidou no passado deve ser permanente no Brasil atual também.”

Exato. Confere.


Elis, um filme

Cesar Vanucci

“Hugo Prata faz uma estreia de ouro. O trocadilho é péssimo, mas o filme é ótimo.”
(André e Carioba, na “Revista de Cinema”)
   
Os estúdios de Hollywood, com distanciamento de várias décadas entre a primeira e a segunda produção, brindaram-nos com dois interessantes filmes alusivos à lenda e obra do genial Cole Porter. As tramas apresentadas contemplaram aspectos totalmente diferenciados, numa e noutra fita, da história pessoal do referido compositor. Não fossem pelos nomes das figuras centrais focalizadas, ou pelas melodias (no mais das vezes, lindíssimas) executadas, poder-se-ia até imaginar que as cinebiografias projetadas estivessem a se ocupar de personagens distintos.

Tal observação fornece amostra da imensa dificuldade existente na transposição para o cinema de um resumo da vida de alguém famoso, notadamente do mundo do entretenimento. Alguém que, como sabido, costume frequentar assiduamente a mídia em função das performances profissionais e badalações mundanas, as quais, na percepção de admiradores, se confundem com sua própria vida privada. Os realizadores de “Elis”, filme que entrelaça lances significativos da trajetória pessoal e profissional da grande intérprete Elis Regina, viram-se naturalmente às voltas com essa desafiadora questão de fazer opções nada simples no trabalho levado a termo. Tiveram que definir, obviamente, entre muitas situações relevantes do percurso palmilhado pela heroína da história em sua esfuziante e curta jornada existencial, as que melhor se ajustassem ao roteiro necessariamente sintético da filmagem. Compreende-se que isso conduza, fatalmente, fãs de Elis – gente inteirada de um bocado de coisas da carreira da estrela – a detectarem “omissões” no produto final trazido às salas de exibição. Pode-se lastimar, por exemplo, que a parte do exuberante convívio artístico da cantora com Tom Jobim e outros compositores tenha sido praticamente olvidada na narrativa. Mas, verdade seja dita, nada, sob esse prisma - ou seja, nem mesmo os eventuais, por vezes frisantes senões anotados -, é de molde a afetar os méritos desta esmerada composição fílmica.

A película de Hugo Prata, mineiro de Uberaba, estreante no ramo longa-metragem, justifica os aplausos colhidos e os prêmios arrebatados em mostras cinematográficas. Credencia-se a outras conquistas. Toca fundo a sensibilidade das plateias.  É oportuno ressaltar o que o cineasta anota a respeito da obra: “Achei que valia ser mais abrangente e mostrar um espectro maior da vida dela. Grandes episódios e personagens ficaram de fora porque não se enquadravam no arco dramático que pensamos. Esse não é "Elis, o filme", mas "Elis, um filme". Precisamos fazer outros. A vida dela é muito rica. Com as músicas, foi parecido. Usamos algumas não tão conhecidas, mas que foram escolhidas por levar a história para a frente.”

O desempenho da atriz Andréia Horta no papel-título é simplesmente magistral. Ocorre-me, a propósito, aqui mencionar uma historinha de anos atrás. Acompanhando meu saudoso irmão, Augusto Cesar Vanucci, assisti a encenação no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, do musical “Bibi canta Edith Piaf”. O desempenho da primeira dama do teatro brasileiro extrapolou todas as medidas. Deixou o público eletrizado. Num certo momento, o mano - à época, diretor da linha de shows da Rede Globo, parceiro de Bibi, no começo de carreira, idos de 50, no arrebatante musical “Alô Dolly” -, resumiu numa frase a emoção que sobrepairava no ambiente: - “A Piaf reencarnou na Bibi!”

Pois bem, a impressão gravada em meu espírito, diante da protagonização de Andréia Horta, foi de que Elis Regina reencarnou na atriz, com seus trejeitos e dengos. Mas, além dessa interpretação carregada de magnetismo, a fita “Elis” acumula outros trunfos. A saber: roteiro (Hugo Prata, Luiz Bolognesi e Vera Egito) vigoroso e atraente; fotografia (Adrian Teijido) do melhor nível; inspirada reconstituição de época; excelentes desempenhos de Gustavo Machado no papel de Ronaldo Bôscoli, de Lúcio Mauro Filho como Luiz Carlos Miele, de Júlio Andrade como o coreógrafo Lennie Dale e de Caco Ciocler interpretando Cesar Camargo Mariano. Tem mais: seleção impecável de memoráveis sucessos do repertório da cantora, com trilha sonora original e dublagem muito bem sincronizada. A narrativa contempla, de outra parte, momentos dramáticos da biografia de Elis Regina. Entre eles, as manifestações críticas por ela feitas ao regime ditatorial e a pesada pressão sofrida em decorrência desse posicionamento.

Encurtando razões: vale a pena ver o filme.


sexta-feira, 23 de dezembro de 2016



Amor Total

Cesar Vanucci

“Ame até doer.”
(Madre Tereza de Calcutá)

Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus amigos. Seguem junto meus votos de um Feliz Ano Novo pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras...

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O grã-fino  insolente, / O moço inconsequente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos. Sempre e sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos / Para se intitularem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira.

Aplicação de critérios de justiça e caridade na análise da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura. / Visão apaixonada do mundo do trabalho.

O idealizador da espaçonave, / O varredor de rua, / O pesquisador em laboratório /
E o cidadão que trata feridas em ambulatório /
 O bombeiro que conserta esgoto – que profissão nem sempre é questão de gosto.

Amor que procure compreender/Pessoas e coisas como são, /
E não como poderiam ser. / Como são... /
E não como poderiam ser.

De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal!


O espírito invejável 
do Natal

 Cesar Vanucci

"Natal. Apagam-se as luzes, 
acendem-se as esperanças”
.(Eva Reis)

O Natal é, por excelência, a época que melhor se identifica com o conceito ideal de vida proposto por Akira Kuruosawa, quando fala, com fascínio na voz e no olhar, do “mundo invejável dos corações fervorosos”. O cineasta, sem propósito preconcebido, de vez que emprega a harmoniosa expressão num contexto cultural não influenciado pelo sentimento dominante nas celebrações natalinas, confere ressonância humanística à mensagem de definitiva beleza que chega do fundo e do alto dos tempos. A transcendência desta mensagem, de origem divina e conteúdo cósmico, abrasa os corações e concita as criaturas de boa vontade a se empenharem na construção de um mundo melhor, não apenas com vistas à conquista, aqui e agora, da pátria terrena.

Como conceber, com os olhos da esperança, esse mundo invejável? Ele será, seguramente, povoado de amor fraterno e não de ódio destruidor, de apaixonante solidariedade social e não de desapiedado utilitarismo. De justiça removedora de desigualdades e não de injustiça que só faz, o tempo todo, aguçá-las. De contemplação ecumênica e democrática dos contrastes de opinião existentes no relacionamento das ruas e não de imposição autoritária, nascida em ambientes fechados e acinzentados, em favor de doutrina política única ou de pensamento religioso sectário. De crença nos valores espirituais, garantidores da dignidade e não de desprezo solene a preciosos dons humanos, em nome de posturas preconceituosas e desagregadoras. Não fosse tudo isto tradução fiel das condições de vida imaginadas em sua peregrinação de amor pela mais sábia e poderosa das criaturas, o Deus que há dois mil anos se fez carpinteiro.

A realidade impiedosa de nossos tempos mostra que a distância do alvo a atingir, na aspiração dos corações fervorosos, é medida por consideráveis anos-luz. Muitas as estruturas da convivência humana em estado de desarranjo. Esquecida das lições do saber eterno, a humanidade tem avançado celeremente na edificação de um mundo mecanicista, onde a tecnologia assume, na encruzilhada de decisões cruciais, caminhos de duvidosa eficácia para o atingimento da promoção humana. O exemplo é contundente e não é único. Nas preocupações políticas e científicas, o conhecimento da desintegração do átomo está mais próximo da fabricação de artefatos bélicos do que da criação do bem-estar. Percebe-se, em muitos países e de forma clara no Brasil, que as políticas econômicas objetivando o desenvolvimento relegam a plano inferior a amplitude humana e os aspectos sociais.

Vem sendo esquecida a lição singela de que o homem é o princípio, meio e fim de tudo. Não existe para servir à política ou à economia. Estas é que foram colocadas em seu caminho para servi-lo.

A sabedoria cristã – o mesmo se pode dizer da sabedoria de outras correntes do pensamento religioso – orienta o ser humano no sentido de que se apegue a um ponto de equilíbrio, em meio às naturais discordâncias provocadas pela efervescência intelectual, inerente à vida. Essa busca pressupõe o domínio da serenidade. É reveladora da incompatibilidade visceral da mensagem cristã, ou espiritual, com as posições extremadas e fanatizadas. Um economista britânico, Fritz Schmacher, lembra que “o ponto essencial da vida econômica e da vida em geral é que ela exige constantemente a conciliação ativa dos opostos”. Arremata magistralmente: “Há na vida econômica e social muitos problemas de opostos que, embora de difícil solução, podem ser transcendidos pela sabedoria”. Nada mais exato. É na sabedoria eterna que se encontram lenitivo e solução para conflitos existenciais do tipo desenvolvimento técnico versus desemprego, ou versus poluição ambiental. Ou o ponto de equilíbrio que garanta, a um só tempo, a desejável estabilidade e as transformações reclamadas pelo progresso; o respeito à tradição e o apreço às propostas renovadoras.

Como preconiza o pensador, “nossa felicidade e nossa saúde” podem depender de “buscarmos simultaneamente atividades ou metas mutuamente opostas.”

Isso tudo remete, na idealização de um mundo melhor, mais justo e generoso, à necessidade de se dar à técnica uma feição humana, de se fortalecer os avanços econômicos com a ampliação dos benefícios sociais, de se estabelecer cooperação com a natureza, em vez de desbaratar as dádivas deixadas por Deus no solo e subsolo deste planeta azul.

Comecei estas maldigitadas com o pensamento do cineasta japonês. Vou concluí-las com a evocação da cena de um filme americano, dirigido por John Ford, que focaliza uma batalha na Guerra da Secessão. Num dado instante, as tropas rivais, com suas emoções ensandecidas, guarnecendo trincheiras separadas a tiro de fuzil, são arrebatadas por um misterioso e avassalador sentimento de ternura. Baixam as armas, abandonam as posições e se confraternizam ruidosamente. Voltam a se engalfinhar mais adiante, na maior das truculências. O que interessa aqui é captar a atmosfera daquele momento mágico da pausa conciliatória, da temporária cessação das hostilidades. Ele tem a ver, simbolicamente, com o espírito de Natal. Que mais, muito mais do que o “espírito do Natal”, deveria ser, para todo sempre, estado de espírito indissociável da aventura humana.


O presépio de Carlota


Cesar Vanucci


"Natal (...) industrializaram o tema, eis o mal."
(Carlos Drummond de Andrade)

O presépio da vó Carlota era um primor. O mais arrumado da rua, a nos louvarmos na opinião dos vizinhos. Ocupava quase a metade da sala de visita. A mesa de jantar, de razoável dimensão, recoberta de sacos de aniagem e papel pardo de textura encorpada, servia de suporte. Já o guarda-louças do conjunto precisava ser remanejado para um dos quartos, "mode" não atrapalhar o deslocamento dos interessados em apreciar a arte e engenho empregados na montagem. Vovó Carlota preparava tudo no capricho. Despejava na empreitada o mesmo ardente fervor que punha nas práticas de religiosidade que lhe conferiam, no conceito de tanta gente, a fama de santa criatura. Ao longo de vários decênios, diariamente, de manhãzinha, acompanhada das filhas Nenê e Luzia, subia a ladeira que desembocava na bela Igreja, toda revestida de pedra tapiocanga, de São Domingos, a fim de participar das missas dos dominicanos. A cena ganhou carinhoso registro na memória uberabense. A tal ponto que acabou sendo transposta por Mário Palmério para as páginas do "Chapadão do Bugre". Antes de retornar à história do presépio, quero dizer algumas coisas mais a respeito de minha avó paterna. Essa mulher maravilhosa, presepeira criativa, amealhou em vida considerável crédito, embora humilde e pobre, pelas muitas ações, executadas no anonimato, em favor dos desvalidos. Fez parte na caminhada pela pátria terrena, sem dúvida, do mundo invejável dos corações fervorosos, um tipo de gente que engrandece a espécie. Quando adolescente, deslumbrado, descobri a poesia de Manoel Bandeira, deparei-me com texto que se encaixa admiravelmente em seu perfil. É aquele em que o poeta fala da presença na porta do céu de uma anciã carregada de dons. São Pedro, vendo-a, vai logo dizendo: - Você não precisa pedir licença pra entrar!
Volto, agora, ao presépio para explicar que aquela representação simbólica do Natal, com seu mágico fascínio, respondia à aspiração de pessoas afeiçoadas a estilo de vida singelo de comemorarem condignamente, no âmbito familiar, a data mais significativa do calendário. Era desmontado depois do "dia de Reis". A introdução das figuras centrais no cenário sagrado só acontecia depois da célebre "missa do galo", na volta de vó Carlota da igreja. As efígies dos reis magos e a decoração correspondente à reluzente "estrela de Belém" iam sendo paulatinamente deslocados, a cada manhã, em sua trajetória na direção da manjedoura, até o dia do encontro devocional histórico narrado nas crônicas do comecinho cristão. No mais, a comemoração daqueles tempos, de hábitos consumistas parcimoniosos, costumava abranger ainda, com todos reunidos, a tradicional ceia ou, no dia seguinte, almoço na base de frango recheado e arroz de forno. Sem libações alcoólicas, tá claro. E, também, na parte do ritual atribuído à criançada, sobrava para cada qual a grata obrigação de deixar os sapatos no presépio para que Papai Noel, quando a casa mergulhasse  em sono profundo, largasse os presentes trazidos na carruagem puxada por renas.

Tudo diferente das comemorações destes tempos de hoje, de consumismo voraz, em que a marquetagem cria, com frenética desenvoltura, espaços para erigir como símbolos natalinos o peru da Sadia e o chester da Perdigão.

Uma baita saudade!

 
Lembranças de Natal

Cesar Vanucci

“Natal. (...) E era sempre melhor o que passou.”
(Fernando Pessoa, poema “Natal”)


Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas proposições atentatórias aos interesses da coletividade, às vezes até, aumento dos próprios subsídios.
Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança  de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto  de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte. Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.
De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio,  Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento. Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel  no quarto, de madrugada, pé ante pé,  para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. 


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016


E o Banco do Brasil, hein?

Cesar Vanucci

“Não confio nas pessoas que, a propósito do mar, só me falam de enjoo.”
(Loius Pauwells, em “Carta aberta às pessoas felizes”)

Os resultados auferidos pelo sistema bancário brasileiro, com realce para as cinco maiores instituições do ramo, revelam à saciedade que não existe, hora alguma, cenário desfavorável para o setor, mesmo que a conjuntura econômica esteja sob ameaça de devastadores vendavais. Faça chuva, faça sol, a atmosfera dominante nessa rendosa atividade produtiva é sempre amena, remansosa, tranquila. Ao contrário do que, volta e meia, ocorre noutros segmentos empresariais, a abonada classe dos banqueiros se habituou a não ter que confrontar dissabores e sérios riscos em sua atuação operacional.

Aqui estão números e dados comprobatórios da invejável situação vivida permanentemente pelo complexo bancário brasileiro. O total de ativos das cinco maiores organizações bancárias do país elevou-se, em 30 de junho de 2015, à altitude everestiana de 5,5 trilhões de reais. O índice de aumento em 12 meses foi de 12,6 por cento. O patrimônio líquido do mesmo conjunto de bancos expandiu, no já citado espaço de tempo, em 21,3 por cento.  O valor atingido é de 389,5 bilhões. Só na Caixa Econômica Federal a alta registrada foi de 72,5 por cento.

O incremento das carteiras de crédito correspondentes às cinco maiores instituições bancárias, ainda no mesmo período, foi de 10,9 por cento. O montante em dinheiro chegou a 2,8 trilhões. A expansão da carteira da Caixa Econômica Federal, para exemplificar, foi da ordem de 17,4 por cento. Nos demais bancos a expansão em operações de crédito oscilou entre 6,5 e 15 por cento. De 17,9 por cento, comparativamente com o mesmo período do ano anterior, o lucro líquido registrado no primeiro semestre de 2015 dos cinco bancos melhor posicionados no ranque somou 33,6 bilhões.

A contabilidade do Banco do Brasil acusa lucro de 6 bilhões, com crescimento de 11,5 por cento. Esse resultado – isto está devidamente comprovado - é ainda mais expressivo, desde que considerados os efeitos extraordinários incidentes sobre os lucros provenientes do acordo de associação entre o BB, a ELO Cartões e a Cielo, relativos às operações processadas via pagamento eletrônico, como assinala análise recente do Dieese. Os lucros do Banco do Brasil saltam aí para 8,8 bilhões, “elevaçãozinha tão somente” de 60,3 por cento no confronto entre os primeiros semestres de 2014 e 2015. Cabe acrescer a informação de que, levados em conta os efeitos extraordinários projetados não apenas nos lucros do BB, como também noutro banco da lista dos cinco maiores (Santander), o lucro líquido desse conglomerado de instituições dá um salto de 33,6 bilhões para 37,6 bilhões, acusando incremento de 40,7 por cento no semestre.


Tudo quanto aqui exposto oferece argumentos copiosos e convincentes para classificar como questionável do ponto de vista empresarial, incorreto do ponto de vista político e repudiável sob o prisma social, um anúncio recente da alta direção do Banco do Brasil. Trata-se daquele desconcertante comunicado, transmitido a uma opinião pública obviamente perplexa, acerca da demissão em massa de servidores e do fechamento de centenas de unidades de trabalho em vários pontos do país. Esquecida de que o Banco do Brasil é, por excelência, o banco do Brasil - criado para fomentar desenvolvimento, encorajar empreendimentos, expandir negócios, ajudar o crescimento brasileiro em todos os sentidos, abrir perspectivas de trabalho, consolidar a riqueza nacional -, a direção da instituição resolveu, nesta quadra cabulosa da vida nacional, aderir de chofre, insensatamente, à deletéria onda derrotista que sobrepaira sobre nós e que persevera no impatriótico propósito de encolher o Brasil e desviá-lo da rota de sua vocação histórica.

O estarrecedor anúncio, ao som de clarins, como se fosse feito retumbante, a respeito de se colocar no olho da rua milhares de chefes de família e de se cerrar as portas de centenas de agências, constitui prova de chocante insensibilidade social. Significa sinal de desalento que deixa na alma das ruas a desagradável sensação de haver se originado em domínios tomados por inadmissível complexo de viralatice e por estridente desapreço ao sentimento nacional.

Os setores lúcidos da Nação, alarmados com essa sequência ininterrupta de desatinos praticados contra os interesses brasileiros, inseridos num processo desagregador de negação sistemática de nossas esplêndidas potencialidades e virtualidades, alimentam ainda uma positiva expectativa. A expectativa de que um lampejozinho qualquer da política progressista, com visão de futuro, executada à pamparra no governo que primeiro ocupou o Palácio da Alvorada, melhor dizendo, nos tempos dourados de JK, possa ainda brotar, qualquer momento desses, nas reflexões e estudos processados pela alta administração governamental, de maneira a impedir que o Banco do Brasil, contrariando clamorosamente suas origens e filosofia de trabalho, venha a consumar o amalucado projeto derrotista divulgado.


Acima do teto 
e do bom senso

Cesar Vanucci

“A situação clama por urgente solução.”
(Domingos Justino Pinto, educador, aludindo ao desrespeito à legislação que estipula teto salarial no Serviço Público)

Ninguém, ninguém mesmo nessa nossa Pindorama continental, incluídos os membros das remanescentes tribos da Amazônia ainda a serem contatadas pelos sertanistas da Funai, desconhece seja o senador Renan Calheiros, como diriam os antigos, “flor que se cheire”... Tudo, na conduta de Sua Excelência, projeta o perfil abominável de uma espécie de homens públicos que a sociedade almeja, ardentemente, ver defenestrada da cena política.

Mas, em que pesem todos os elementos desabonadores constantes do currículo do parlamentar, alvo neste preciso momento de polêmica decisão judicial que o afasta temporariamente da presidência do Senado, não há como deixar de reconhecer, em reta e lisa verdade, que os descabidos atos por ele praticados, investigados com todo rigor, não são de molde, jeito maneira, a desfazerem a legitimidade de uma causa de teor moralizante, circunstancialmente e com certo empenho abraçada pelo mencionado cidadão. As reações provocadas pelos malfeitos que lhe são atribuídos, estridentemente divulgados, mostram-se perfeitamente justificáveis, não cabe dúvida. Isso é uma coisa. Outra coisa, bem diferente, é a “indignação” suscitada – nalguns redutos, até superior em intensidade às justas reações levantadas em função dos graves delitos imputados ao parlamentar – pela bandeira que desfraldou contra abusos detectados na política salarial, em determinados setores públicos.

Sua manifesta disposição de colocar em “pratos limpos” essa escandalosa questão do despudorado desrespeito à lei do teto salarial, instituída pelos Poderes da República, não pode ser confundida, em simplória e oportunística interpretação, com uma atitude desafiadora contraposta ao saneador processo de combate à corrupção. Sem essa – a opinião pública vigilante assim recomenda – de misturar alhos com bugalhos. Repita-se, pra que tudo fique bem claro, ganhe a transparência solar exigida: uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Tanto quanto as transgressões das quais é acusado o Senador, emaranhado em mais de um processo da Lava Jato, criticado por atos pessoais altamente lesivos ao interesse nacional, os excessos apontados nas folhas de pagamento de servidores, envergando vistosas indumentárias de marajás, envolvidos em maquinações relacionadas com a extrapolação, traduzida às vezes em números atordoantes, do teto legalmente estipulado, precisam ser objeto de severa avaliação e corrigenda. A questão carece ser encarada com máxima seriedade. Inserida na mesma linha dos ditames éticos e propósitos moralizantes perseguidos no tenaz combate movido pela Justiça à corrupção. As boas cabeças pensantes dos Poderes constituídos, as lideranças providas de lucidez da vida nacional não podem mais se furtar ao dever de uma amadurecida reflexão a respeito dessa história. Cabe-lhes a missão de saber extrair dos estudos e diálogos procedidos uma solução urgente para esse caso dos salários embolsados indevidamente por tanta gente e há tanto tempo.

O assunto não pode continuar sendo “empurrado com a barriga”, como se diz no idioma das ruas. As situações inconvenientes já comprovadas não podem ser blindadas por sofismas fajutos. Constitui razão de constrangimento para a comunidade perceber que os problemas das remunerações desproporcionais e ilegais sejam continuamente jogados pra debaixo do tapete. A preocupação no sentido de se definir, vez por todas, a palpitante questão, é parte indissociável do salutar processo de se escoimar da vida nacional cabulosas situações e deploráveis vícios que tanta influência exercem no desequilíbrio das contas públicas e na disseminação da injustiça social.


A corrupção tem várias faces. Colocar no bolso salários indevidos, pagos pelo contribuinte, é indisfarçavelmente, sem choro nem vela, uma delas.

sábado, 10 de dezembro de 2016

VANUCCI FAZ PALESTRA E
LANÇA LIVRO NA
“CIDADE MARAVILHOSA”

No último dia 23 de novembro o jornalista Cesar Vanucci esteve no Rio de Janeiro, que, segundo ele, continua lindo apesar dos pesares. Fez palestra e lançou livro no Teatro Vanucci, casa de espetáculo de 650 lugares, localizada no Shopping Center da Gávea.

“Realismo Fantástico, anotações de um repórter”, o tema da palestra proferida para centenas de pessoas, com numerosos jornalistas e escritores presentes.

O livro “Realismo Fantástico”, editorado pela “Impressões de Minas” e prefaciado pela jornalista Ana Elizabeth Diniz, foi autografado pelo autor após a exposição.

O Teatro Vanucci foi implantado há trinta anos pelo saudoso Augusto Cesar Vanucci, irmão de Cesar Vanucci, à época diretor da linha de shows da Rede Globo de Televisão. Augusto Cesar foi o primeiro brasileiro a arrebatar o “Emmy” em Hollywood e o prêmio “Ondas” conferido em Londres a figuras de projeção no cenário artístico internacional.

As fotos (de Luismar Ornelas de Lima) são do encontro cultural reportado.





























De repente, um clarão de esperança

Cesar Vanucci

“A comovedora tragédia envolvendo a Chapecoense e as reações em cadeia de solidariedade humana por ela suscitadas proporcionaram ao mundo uma chance de reencontrar-se com sua essência humana.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

De repente, nos horizonte plúmbeos das frustrações dilacerantes e do desalento conformado, um clarão de esperança.

Turbulentos caminhos trilhados durante décadas de feroz antagonismo político colocaram a Colômbia numa encruzilhada histórica, na busca pelo desarmamento de espíritos e almejada conciliação nacional. Vejam só como são as tramas do destino! Pois foi justamente em Médelin, polo de irradiação cultural, econômica e demográfica de relevância, em momento perturbador, faminto de tolerância e sedento de fraternidade, vivido pela nação irmã, que a gente simples do povo deflagrou, na esteira de uma dolorida tragédia aérea, a mais empolgante manifestação coletiva de teor humanístico e espiritual de que se tem notícia nos tempos contemporâneos.

A avassaladora demonstração de misericordiosa solidariedade acontecida dentro e fora do estádio, nascida de espontaneidade que conserva pureza cristalina comparável à água de um regato intocado de montanha, foi compreendida em todas as latitudes do planeta como uma chance dada a mais ao mundo de poder reconectar-se com sua humanidade.

O sentimento de confraternidade aflorado, produzindo intensa reação em cadeia, contagiando mentes e corações por aí afora, forneceu uma medida exata do fabuloso potencial que a sociedade humana carrega dentro de si e que está em condições de poder empregar, em não poucos instantes, em suas tentativas de solucionar angustiantes questões. Questões essas que abarcam, como sabido, todas as formas imagináveis (ou inimagináveis) de sofrimento.

A dor coletiva suscitada pelo drama do voo fatídico do avião sem combustível, que ceifou vidas preciosas, retirando de nosso convívio promissores atletas, dinâmicos dirigentes esportivos e talentosos jornalistas, teve o condão de despertar reações formidáveis, reveladoras da grandeza do espírito humano. Pena que a insensatez e insanidade dominantes no jogo existencial consigam na maior parte do tempo sofrear sentimento tão nobre, tão poderoso, apto – fácil perceber - a operar transformações prodigiosas no cenário mundano. A verdade verdadeira é que, no mais recôndito da alma das ruas, palpita, ardente, ancorada em valores éticos e morais autênticos, uma energia construtiva com fabulosas propriedades. Uma energia capacitada a oferecer a este mundo de Deus cansado de guerra o instrumental necessário à remoção de toda sorte de obstáculos impeditivos da celebração da vida plena, mesmo os considerados intransponíveis pela inconsciência humana.

Uma energia em condições de assegurar, algum dia, para todo o sempre, a prevalência da concórdia, da harmonia, da tolerância, do respeito às diversidades, da justiça social, da paz na convivência entre pessoas, entre nações, entre etnias, entre crenças religiosas e políticas.

As generosas emoções que compeliram milhões de criaturas, desde Médelin até Chapecó, ao exercício sincero dos atos de comovedora solidariedade projetados em duradouras e impactantes imagens, estimularam a expansão de espaços reservados às práticas fraternais. Representaram, ao mesmo tempo, de certo modo, uma catarse que pode auxiliar o ser humano a repensar muitas coisas essenciais relativas à aventura da vida.

Fortaleceram os corações fervorosos, os viventes de índole pacífica, os homens e mulheres de boa-vontade em seus esforços diuturnos de construção de um mundo melhor. As energias criativas criam – como não? – ocasiões de esperança.

Vozes céticas questionarão, por certo, os argumentos alinhados por este desajeitado escriba com suas quiméricas interpretações dos lances da vida. O registro aqui produzido do acontecimento que enlutou o Brasil e que desencadeou essa arrebatante onda universal de solidariedade, não se aprestaria,  jeito maneira, a essas ruminações de pura utopia, contra argumentarão, com certeza, alguns. Recorro, na procura de resposta, a dois poetas: Mário Quintana e Thiago de Mello.

Diz o primeiro: “Se as coisas são inatingíveis... ora! – não é motivo para não querê-las... – que tristes os caminhos, se não fora / a presença distante das estrelas!”.

O segundo diz: “É preciso que o homem aprenda a confiar no homem, assim como a palmeira confia no vento, o vento confia no ar, o ar confia no campo azul do céu.”


Registros desconcertantes

Cesar Vanucci

“Alguma coisa, com toda certeza, deve estar funcionando mal na vida comunitária quando um comunicado referente a desemprego em massa contribui para elevar os índices da Bolsa de Valores!”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Um punhado de registros desconcertantes. São extraídos do noticiário nosso de cada dia. Alguns comunicam a sensação de que este mundo de Deus, onde o tinhoso tem por costume fincar alguns enclaves, está mesmo virado de cabeça pra baixo.

1) Renomados especialistas do mercado financeiro deixaram os leigos em assuntos bursáteis pra lá de confusos com as luminosas explicações fornecidas, dia desses, a respeito das razões de significativa alta ocorrida na Bolsa de Valores de São Paulo. Segundo eles, a elevação foi motivada pelas notícias “favoráveis” acerca da eliminação de milhares de postos de trabalho e fechamento de mais de uma centena de agências do Banco do Brasil. É o caso de juntar as mãos em atitude de oração e bradar: Valha-nos Deus, Nossa Senhora!

2) Todos se recordam daquela Turma de magistrados paulistas que absolveu os policiais militares indiciados pelo “massacre do Carandiru”, estarrecendo até mesmo as estátuas de pedra dos apóstolos de Aleijadinho plantadas no adrio do Santuário do Bom Jesus do Matosinhos, em Congonhas. Pois bem! Esses mesmos cidadãos, foram autores, indoutrodia, de uma outra desnorteante decisão. Negaram provimento a um recurso da Defensoria Pública no sentido da redução da pena de réu condenado pelo furto de cinco rodelas de salame numa mercearia. Das alegações submetidas à douta apreciação dos ilustres juristas constou a revelação de que o delito foi praticado sob forte emoção, à vista da circunstância de que o apenado, vivendo o drama do desemprego, apoderou-se dos alimentos para saciar a fome dos filhos menores...

3) Por duas vezes seguidas, em curto espaço de tempo, a Petrobras anunciou a redução do preço da gasolina na fonte. As redes dos postos de abastecimento não fizeram nadica de nada no sentido de repassar para a distinta clientela qualquer vantagem, mínima que fosse, decorrente da queda havida no custo da mercadoria. Pouquíssimo tempo depois, melhor dizendo, há poucas horas atrás, a estatal retornou a público para informar que o preço do combustível iria sofrer nova alteração, desta feita para mais. A majoração chegou às bombas quase que instantaneamente. Nalguns casos, até antes de concluída a leitura do comunicado do porta-voz da empresa petrolífera.

4) Ao olhar atento de observadores do momento político (todos, obviamente  preocupados com o mundão de coisas cabulosas que andam pintando no pedaço) não passou desapercebido um lance pouco comentado, concernente à invasão da Câmara dos Deputados  por meia dúzia de gatos pingados que se autodenominaram “patriotas” e “defensores da democracia”. Entre as faixas carregadas pelo bando, uma pelo menos continha frenética conclamação sugerindo intervenção militar na vida democrática brasileira.

5) Motoristas que, amiúde, compelidos pelos estressantes congestionamentos nas áreas urbanas, recorrem aos serviços privados de estacionamento não escondem sua indignação diante dos valores que lhes vêm sendo cobrados. Comodamente posicionados, à deriva de qualquer regulamentação ou fiscalização, os assim denominados “flanelões” praticam, com o maior desembaraço e desfaçatez, tabelas de remuneração pode-se dizer afrontosas pelo trabalho prestado. Aqui está uma história bastante emblemática do que anda rolando. Cliente antigo de um dos maiores planos de saúde da praça resolveu colocar o veículo, à falta de opção de estacionamento em logradouros próximos, no pátio do hospital pertencente à mesma organização de que é usuário. Concluídas as consultas, cerca de duas horas depois, viu-se compelido a desembolsar a módica soma de R$36,00 pela zelosa guarda do veículo. Ora, epa! 

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016


             
(Esta sugestiva gravura foi extraída do blog Relicário Eclético)
 GUIMARÃES ROSA
60 anos do lançamento da 
obra-prima
"GRANDE SertãO: Veredas”      
    


Guimarães Rosa são muitos


Cesar Vanucci

“Mexendo em velhos papéis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa...”
(Luiz de Paula Ferreira, escritor)

Entendi oportuna a reprodução neste espaço de uma sequência de artigos que publiquei tempos atrás, focalizando o lado místico da obra de Guimarães Rosa. O mundo literário está celebrando, nestes dias, os 60 anos do lançamento do clássico “Grande Sertão, Veredas”. Na Amulmig, 19 de novembro, sábado, num concorrido encontro interacadêmico, a que estiveram presentes o Secretário de Estado da Cultura Ângelo Oswaldo e outros destacados personagens da seara intelectual mineira, a memória do célebre escritor foi devidamente reverenciada.

O primeiro artigo da série acima mencionada é o que se segue: Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de “Grande Sertão: Veredas”, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.

Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar - categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata - essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.

Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.

E eis aqui, agora, devidamente apresentado ao respeitável público, um Guimarães Rosa de insuspeitados (e confessos) envolvimentos com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante revelação chegou-me por intermédio de um respeitado intelectual, com apreciável contribuição à causa da cultura. O meu dileto amigo, Luiz de Paula Ferreira, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas, figura de relevo na cena empresarial. A carta que me enviou diz tudo: “Prezado Cesar, Mexendo em velhos papeis, encontrei um texto precioso de Guimarães Rosa, publicado décadas atrás  no “Estado de Minas”, citando fenômenos paranormais presentes na vasta produção literária que lhe valeu merecidamente ser incluído na relação dos 100 maiores escritores de todos os tempos. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza, estou anexando o texto que é muito rico e merece ser avaliado e divulgado em suas crônicas. Referindo-se ao “Grande Sertão: Veredas”, ele diz: “Quanto ao “Grande Sertão: Veredas”, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito estranhas.” Do amigo, Luiz de Paula Ferreira”.

No artigo em questão, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.” Um texto preciosíssimo que deixa evidenciados, em boa interpretação parapsicológica, os dons paranormais de que o escritor era, indiscutivelmente, possuidor.

Na sequência, a reprodução desse texto notável.

  
O lado místico de Guimarães

Cesar Vanucci

“Sua obra suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor.”
(Paulo Rónai)

Conforme contado pratrazmente, Guimarães Rosa confessou, anos atrás, em artigo no “Estado de Minas”, seu entranhado envolvimento com fenômenos ligados às percepções extra-sensoriais. Do inusitado texto ressalta claro que sua obra literária – obra que “suscita mais tentativas de decifração do que a de qualquer outro escritor”, segundo Paulo Rónai – foi marcada, desde sempre, por intuições e impulsos mágicos, de nítida configuração parapsicológica, inexplicáveis à luz do conhecimento convencional.

Mas já é tempo de satisfazer a curiosidade do leitor a respeito da confissão do autor de “Sagarana”, falando de seus singulares dons. O artigo de Guimarães Rosa tem por título “Vida – arte – e mais?”.

“Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em principio rechace a experimentação metapsiquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentemente necessárias.

No plano da arte e criação – já de si em boa parte suplinar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substuindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta. A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando em brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e ligação de suas partes. O tema de O Recado do Morro (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava, talvez também sob razoável ação do vinho ou do conhaque. Quanto ao Grande sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido – por forças ou corrente muito estranhas.

Aqui, porém, o caso é um romance, que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas Gerais, e para ele fora já ajuntada e meditada à massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter principalmente, cenário interno, num sobrado, do qual – inventado fazendo realidade – cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado. Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e o que se referia, trouxou-se em gaveta. Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano – adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam. Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa – onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara, e decorara, visualizado freqüentando-o por oficio. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”


Acontecências paranormais


Cesar Vanucci

 “...forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido por forças ou correntes muito estranhas.”
(Guimarães Rosa, em artigo publicado décadas atrás)

Restou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor, reproduzido neste acolhedor espaço, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades. Energias essas ainda indecifráveis do ponto de vista do conhecimento científico aceito.

Depois de anotar que, por formação ou índole costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos.” E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas? A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas: “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”

Foi, por exemplo, num sonho premonitório, “duas noites repetido”, que a estória de “Buriti”, constante de “Noites do Sertão”, tomou forma em 1948. É o que atesta, com franqueza e sem rebuços, o autor de “Tutaméia”. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons singulares do escritor. E qual classificação atribuir ao relato de Guimarães concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(...) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha o autor. O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse mesmo processo intrigante de “recepção”, dir-se-á (à falta de definição melhor) mágica, ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo informações dele próprio. É assim em “A terceira margem do rio” (“Primeiras estórias”). Assim, igualmente, em “Campo Geral”. (“Miguelim e Manuelzão”). Uma das estórias brotou na rua, “em inspiração pronta e brusca”, vinda “de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (...) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”. Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de alguma maneira, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J.J.Benitez? Perguntei-lhe em quais fontes se inspirara para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia.” Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente num plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extra-sensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado. Guimarães Rosa parece querer dizer coisa parecida em seu artigo, quando fala de “Grande Sertão: Veredas”: “(...) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi (o livro) ditado, sustentado e protegido – por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de um outro romance que “faz anos, comecei e interrompi”: (“A fazedora de velas”). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Não há como negar: as desconcertantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.


Mais um texto inédito 
de Guimarães

Cesar Vanucci

“... este soneto é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.”
(Carta de Guimarães Rosa ao amigo Honório Armond, cognominado “Príncipe dos Poetas”)

Diletos amigos os responsáveis pela dadivosa ajuda, em ocasiões distintas, à tarefa cotidiana afanosa (posto que prazenteira) assumida por este articulista de colocar em letra de forma, três vezes por semana, suas prosaicas interpretações das coisas da vida. A primeira colaboração veio do conceituado escritor e empresário Luiz de Paula Ferreira. Pertence-lhe o mérito da “redescoberta” de um texto todo especial, publicado a mais de meio século, em que Guimarães Rosa confessa sem rebuços suas entranhadas vinculações com a chamada temática transcendente. O recorte de jornal que Luiz teve a gentileza de enviar-me, contendo a  intrigante revelação, rendeu as considerações alinhadas nos três últimos artigos estampados neste acolhedor espaço.

De outro estimado amigo, o respeitado escritor e professor José Dias Lara, recebi também cópias de outros textos inéditos de Guimarães Rosa, datados de 1932. Não se trata de escritos caracterizadamente literários, mas de saborosas mensagens coloquiais, com timbre bastante afetuoso, assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa. Cuidarei de reproduzi-las adiante.

O texto de Guimarães Rosa do qual me ocuparei neste comentário chegou-me às mãos trazido pelo companheiro Roberto Henrique Corrieri, engenheiro renomado. Trata-se da cópia de uma outra manifestação, igualmente inédita, do autor de “Grande Sertão: Veredas”. Numa correspondência de próprio punho, datada de 11 de janeiro de 1935, endereçada ao fraternal amigo Honório Armond, Guimarães reporta-se a dois poemas, redigidos em francês, que lhe foram dedicados pelo grande vate barbacenense, reconhecido no mundo literário como “Príncipe dos Poetas”.

O primeiro dos poemas de Armond tem introdução em latim. Rosa, na carta, reproduz os sonetos de Armond, acrescentando comentários com toques bem humorados. Os registros que se seguem são do autor de “Tutaméia”.

Honório ingrato,

(Seguem formidáveis peças da poesia nacional):

Une femme passa (complainte)
“Tibi, carissime Johannes,
in memoriam fraternae,
amicitiae, dicat, offert,
conscient certus memor
que amicus, Honorie

 (Depois da dedicatória, em latim, vista acima, vem o poema em francês).

O soneto seguinte tem como título Mon âme a tou âme, todo, também em francês.  Guimarães Rosa capricha na caligrafia ao transcrevê-lo.  Registra, após, as considerações abaixo, que obedecem à ortografia vigente na época.

Nota do copiador: este soneto é simplesmente admirável, “chef-d´ouvre”, é uma rajada apocalyptica, um vôo de águia.

Prompto! Estou fremindo de enthusiasmo, e nem comprehendo como foi possível que duas maravilhas dessas pudessem ter sido dedicadas a mim!  Milagres da amizade!...

É escusado dizer que faço absoluta, terminante, feroz questão de que sejam publicados com as dedicatórias!  Veja lá!  Recomende expressamente aos seus amigos da revista!  Quando muito, você poderá, si achar melhor, encurtar a dedicatória latina da “Complainte”, si a achar muito louca!  Si forem sem dedicatória, irei ahi para desafial-o em duelo!...

Outra coisa: faço questão de receber o número da revista que os publicar!  Olhe que isso é um assumpto muito sério...  essas poesias são minhas!  Não escrevo carta, porque e ainda estou esperando resposta da minha!...

Recomendações à exma. sra.  Abraços para Zezé e Beatriz.  Um apertado abraço de seu Guimarães Rosa.

Na sequência, a reprodução dos textos de Guimarães Rosa enviados pelo professor Lara.
 
  
Receitas do médico 
Guimarães Rosa

Cesar Vanucci

“Uma pequena preciosidade!”
(Professor José Dias Lara, estudioso da obra de Guimarães Rosa)

Retorno prazerosamente a Guimarães Rosa. Ocupo-me agora de uma outra faceta da fascinante saga vivida pelo genial compatriota.

Registrei pratrazmente que o ilustre escritor e educador José Dias Lara, ex-governador do Lions Clube, membro da Academia Mineira de Leonismo, onde ocupa cadeira que tem Rosa como patrono, presenteou-me há tempos, consoante suas próprias palavras, com uma verdadeira preciosidade. Uma sequência de cartas assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa.

Datadas de 1932, redigidas em tom saborosamente coloquial, foram endereçadas a um amigo dileto do missivista, fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político na região de Itaguara. A fazenda Mambre, várias vezes mencionada nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara com Itatiaiuçu.

Ouçamos o que diz a propósito o professor Lara: “Sabe-se que Guimarães era de falar pouco e escrever muito, particularmente cartas. Era um missivista de escol. E isto já fazia bem antes de tornar-se o notável escritor que todos conhecemos. Ainda era o doutor João, médico em Itaguara nos idos de 1932; são desse tempo as cartas de que lhe envio algumas cópias – uma pequena preciosidade -, uma delas até com uma fórmula medicamentosa para manipular. Linguagem simples para seu povo muito simples. Eram os primeiros passos de um bom médico, que se fez grande nas letras nacionais.”

O destinatário de todas as cartas, redigidas pela ortografia vigente na época, em caligrafia firme e desenvolta é – com já dito – um cidadão de nome Manoel, de Itaguara, local onde o médico Guimarães Rosa clinicou. O grau de amizade do autor das cartas com o fazendeiro era bastante acentuado, como se pode deduzir dos dizeres registrados. Acompanhando, como médico, o tratamento de alguém próximo ao amigo Manoel, o doutor João Guimarães Rosa recomenda procedimentos terapêuticos a serem observados. Adiciona, até mesmo, receitas caseiras, de uso corrente naqueles tempos.

A reprodução das duas primeiras cartas-receitas vem na sequência. As outras ficam pra depois.

A primeira carta-receita: “Itaguara, 22 maio 932. Prezado Manoel, Abraços, Seguem os apetrechos. Faça o serviço com jeito, e mande-me a ferramenta logo depois. Explique ao povo da casa o modo de usar os remédios.
Recomende quanto à hygiene. Mande fazer também uma lavagem intestinal. Será bom você mandar-me uma informaçãozinha por escripto. Recomendações aos seus. Abrace por mim o velho. Estou com saudade do agradável Mambre e, principalmente, dos seus bondosos moradores. Muito grato por todas as finezas; desculpe-me os incômodos. Do amigo J. Guimarães Rosa”.

A segunda carta-receita: “Prezado Manoel, cumprimentos aos seus. Continue a mandar fazer as lavagens intestinaes, bem como as vaginaes. A doente deve tomar, na maior quantidade possível, chá de cabellos de milho adoçado. A alimentação deve ser reforçada, com prudência, porém. Um apertado abraço do amigo Guimarães Rosa!”


Mais receitas do doutor 
Guimarães Rosa

Cesar Vanucci

“... aplicar angús quentes no logar da dor.”
(Prescrição para paciente tratada pelo escritor-médico)

Esta crônica, assinalando o epílogo de uma série produzida com o objetivo de celebrar singelamente os 60 anos do lançamento da obra prima “Grande Sertão: Veredas”, ocupa-se de novos textos inéditos de Guimarães Rosa. Não se trata, como visto no artigo anterior, de escritos literários, mas de mensagens coloquiais, em tom afetuoso, na ortografia vigente à época, assinadas pelo médico doutor João Guimarães Rosa. Ele exercia a profissão em Itaguara, interior deste imenso país das Gerais. O destinatário, amigo dileto, era o fazendeiro Manoel Carvalho, chefe político conceituado na região. A fazenda Mambre, citada várias vezes nas correspondências, ficava localizada na divisa de Itaguara e Itatiaiuçu.

Em carta de 25 de maio de 1932, Guima refere-se ao amigo como “um bom enfermeiro e um bom informador” e recomenda à paciente sob seus cuidados “lavagem intestinal” com “água fervida, ou cozimento de rosas”. Este o texto:

“Itaguara, 25 de maio de 932 Prezado Manoel, Um abraço apertado. Primeiramente, ardorosos parabens, pois você tem sido um bom enfermeiro e bom informador. Quanto à doente: deve ir se alimentando com canjas, caldo de frango, mingáu de fubá com leite, café com leite, sopa de macarrão bem cozido etc, porque a moléstia é demorada e a doente necessita de manter as forças. Mesmo sem appetite, deve insistir. Deve fazer nova lavagem intestinal, com litro de água fervida, ou cozimento de rosas. Vão novos papeis para lavagens vaginaes. A injecção não póde falhar nenhum dia, amanhã póde falhar a informação, só isso. Quando a febre estiver mais alta, a doente deverá tomar um banho morno de corpo todo, enxugando-se bem depois. Os remédios (poções) devem ser tomados sem interrupção, e, terminado o conteúdo dos vidros deve vir o portador para reformal-os. Continue: - Hygiene.... Hygiene.... si fôr possível. Abrace todos os seus em meu nome. Do amigo Guimarães Rosa.”

Na carta seguinte, 29 de maio do mesmo ano, o médico Guimarães Rosa fala de seu imenso carinho pelo pessoal da fazenda.

“Distinto Manoel, Gloria! Fico bem satisfeito de saber das melhoras apresentadas pela doente – melhoras devidas em parte aos cuidados enérgicos do amigo, que tem sabido informar-me magnificamente da marcha da moléstia. Si as dores nas pernas continuarem, veja si há alguma novidade no local dolorido (inchação branca e dura), pois pode tratar-se de uma phlebite puerperial. De qualquer maneira, caso a dôr continúe, a doente deverá manter-se em repouso rigorosissimo, podendo applicar angús quentes no logar da dor. No mais, continue, que está bem orientado. Distribua um punhado de abraços entre o pessoal do Mambre, sendo um abraço maior para o seu Chico e um outro para você. Até outra vez. Guimarães Rosa.”

Na missiva posterior (03.06.1932), o médico Guimarães Rosa prescreve uma receita caseira, indicando os ingredientes da manipulação a ser feita.

“Prezadissimo Manoel, cordiais cumprimentos. Seguem novos remédios para a enferma. É preciso que ella vá se alimentando bem, com as devidas cautelas, naturalmente, para que a causa não desande em vez de andar. Não deixe de mandar informações por mais uns três dias, principalmente temperatura e pulso. Mande fazer diariamente uma lavagem intestinal. E, fallo sem intuito de envaidecel-o, póde você estar certo de que a cura da doente deverá, em grande parte, ser agradecida ao enfermeiro. Pudesse eu ter sempre á mão um auxiliar assim! Quanto á crioula, si você quizer experimentar ainda, póde dar a ella: Uso interno Elatério  -  0,50 .....; Rhuibarbo preto  -  1,0 gr; Estr. de fel de boi  -  qsp para 20 pilulas. Dar 1 de 2/2 horas. Conjuntamente devem ser dadas umas 3 injecções de óleo camphorado. Provavelmente o resultado será bom. Até breve. Abraça por mim a todos os mambrenses, principalmente o velho. Do amigo Guimarães Rosa  Itaguara, 3 de junho de 932.”

Interessantíssima, sem dúvida, essa série de cartas-receitas que o professor José Dias Lara, estudioso da vida e obra de Guimarães Rosa, teve a gentileza de enviar-me e que com satisfação trago ao conhecimento de meu reduzido, posto que leal e assíduo, leitorado.

A SAGA LANDELL MOURA

ENCONTRO CULTURAL INTERACADÊMICO - 18 DE FEVEREIRO

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