sexta-feira, 23 de dezembro de 2016



Amor Total

Cesar Vanucci

“Ame até doer.”
(Madre Tereza de Calcutá)

Este despretensioso poemeto foi cometido para recitação em coro. Resolvi, depois, compartilhar as singelas emoções nele inseridas com os meus amigos. Seguem junto meus votos de um Feliz Ano Novo pra todos.

Natal, poema de nazarena suavidade; / Instante predestinado com timbre de eternidade. / Festa do amor total! / Cântico de amor pela humanidade. / Exortação solene à fraternidade. / Festa do amor total!

Mensagem que vem do fundo e do alto dos tempos, / A enfrentar, galharda e objetivamente, os bons e os maus ventos. / Amor pelas coisas e amor pelas criaturas, / Serena avaliação das glórias e desventuras...

Um cântico de amor total! / Amor pelo que foi, /Pelo que é e será. / Quem ama compreenderá!

Cântico de fé e de confiança; / O amor gera sempre a esperança. / Quem ama compreenderá!

Amor que salta da gente pros outros; / Amor que procura compreender os humanos tormentos, / Os pequenos dramas e os terríveis sofrimentos, / As tristezas dilacerantes e as aflições incuráveis. / Os instantes de ternura que se foram, irrecuperáveis.

Amor que procura entender / Pessoas e coisas como são. / E não como poderiam ser. / Quem ama compreenderá!

Amor que soma e fortalece. / E não subtrai e entorpece. / Visão compreensiva das humanas deficiências e imperfeições... / Aquele indivíduo sugado pelo desalento. / Aquele outro, embriagado pelas ambições... / O enfermo desenganado. / O menor desamparado. / O chefe prepotente, / O empregado indolente, / O servidor negligente, / O grã-fino  insolente, / O moço inconsequente, / O orgulho de gente / Que não é como toda gente...

Não esquecer as pessoas amargas e solitárias, / As criaturas amenas e solidárias. / Os homens e as mulheres com carência afetiva, / A mulher que, como esposa, se sentiu um dia Amélia, / A infeliz que da prostituição se tornou cativa...

O rapazinho esquisito, / A mocinha desajustada, / O pai que, de madrugada, / Espera pelo filho, insone e aflito.

Amor que envolve amigos e inimigos / E que se dá a todos os seres vivos. Sempre e sempre, interpretação caridosa e serena do cenário humano. / O jovem revoltado, / O político ultrapassado, / O servidor burocratizado, / O boêmio, desconsolado e sem rumo, / que vagueia só pela madrugada.

O irmão oprimido e desesperançado, / O favelado humilhado, / O individuo fanatizado.

Compreensão para com essa mocidade de veste berrante, / De som estridente, / Que se intitula pra frente...

Compreensão também diante da geração que se recusa a aceitar o comportamento jovem do presente...

Solidariedade para o que crê nas coisas em que acreditamos. / Tolerância absoluta para o que acredita fervorosamente em coisas das quais descremos.

Amor sem ranço e sem preconceito, / Que dê a todos o direito / De se intitularem irmãos...

Irmão cristão, irmão budista... / ... de se intitularem irmãos / Irmão palestino, irmão judeu... / ... de se intitularem irmãos / Irmão atleticano, irmão cruzeirense... / ... de se intitularem irmãos / A se darem as mãos / Para se intitularem irmãos...

Acolhimento à mãe solteira, / Protegendo-a dos que a picham, em atitude zombeteira. / Benevolência para com o profissional fracassado que não fez carreira.

Aplicação de critérios de justiça e caridade na análise da postura daquele que feriu enganando / E daquele que maltratou negando / Do que machucou informando e do que magoou sonegando informação.

Amor sem conta. / Amor que conta. / Amor que se dá conta / Da palavra terna com feitio de oração. / Do gesto desprendido com jeito de doação.

Amor por toda a criatura, / A desprovida de ternura / E a cheia de candura. / Visão apaixonada do mundo do trabalho.

O idealizador da espaçonave, / O varredor de rua, / O pesquisador em laboratório /
E o cidadão que trata feridas em ambulatório /
 O bombeiro que conserta esgoto – que profissão nem sempre é questão de gosto.

Amor que procure compreender/Pessoas e coisas como são, /
E não como poderiam ser. / Como são... /
E não como poderiam ser.

De tudo sobra a certeza de que o importante na vida / É entender o sentido deste recado: / O Amor total, / Mensagem definitiva do Natal!


O espírito invejável 
do Natal

 Cesar Vanucci

"Natal. Apagam-se as luzes, 
acendem-se as esperanças”
.(Eva Reis)

O Natal é, por excelência, a época que melhor se identifica com o conceito ideal de vida proposto por Akira Kuruosawa, quando fala, com fascínio na voz e no olhar, do “mundo invejável dos corações fervorosos”. O cineasta, sem propósito preconcebido, de vez que emprega a harmoniosa expressão num contexto cultural não influenciado pelo sentimento dominante nas celebrações natalinas, confere ressonância humanística à mensagem de definitiva beleza que chega do fundo e do alto dos tempos. A transcendência desta mensagem, de origem divina e conteúdo cósmico, abrasa os corações e concita as criaturas de boa vontade a se empenharem na construção de um mundo melhor, não apenas com vistas à conquista, aqui e agora, da pátria terrena.

Como conceber, com os olhos da esperança, esse mundo invejável? Ele será, seguramente, povoado de amor fraterno e não de ódio destruidor, de apaixonante solidariedade social e não de desapiedado utilitarismo. De justiça removedora de desigualdades e não de injustiça que só faz, o tempo todo, aguçá-las. De contemplação ecumênica e democrática dos contrastes de opinião existentes no relacionamento das ruas e não de imposição autoritária, nascida em ambientes fechados e acinzentados, em favor de doutrina política única ou de pensamento religioso sectário. De crença nos valores espirituais, garantidores da dignidade e não de desprezo solene a preciosos dons humanos, em nome de posturas preconceituosas e desagregadoras. Não fosse tudo isto tradução fiel das condições de vida imaginadas em sua peregrinação de amor pela mais sábia e poderosa das criaturas, o Deus que há dois mil anos se fez carpinteiro.

A realidade impiedosa de nossos tempos mostra que a distância do alvo a atingir, na aspiração dos corações fervorosos, é medida por consideráveis anos-luz. Muitas as estruturas da convivência humana em estado de desarranjo. Esquecida das lições do saber eterno, a humanidade tem avançado celeremente na edificação de um mundo mecanicista, onde a tecnologia assume, na encruzilhada de decisões cruciais, caminhos de duvidosa eficácia para o atingimento da promoção humana. O exemplo é contundente e não é único. Nas preocupações políticas e científicas, o conhecimento da desintegração do átomo está mais próximo da fabricação de artefatos bélicos do que da criação do bem-estar. Percebe-se, em muitos países e de forma clara no Brasil, que as políticas econômicas objetivando o desenvolvimento relegam a plano inferior a amplitude humana e os aspectos sociais.

Vem sendo esquecida a lição singela de que o homem é o princípio, meio e fim de tudo. Não existe para servir à política ou à economia. Estas é que foram colocadas em seu caminho para servi-lo.

A sabedoria cristã – o mesmo se pode dizer da sabedoria de outras correntes do pensamento religioso – orienta o ser humano no sentido de que se apegue a um ponto de equilíbrio, em meio às naturais discordâncias provocadas pela efervescência intelectual, inerente à vida. Essa busca pressupõe o domínio da serenidade. É reveladora da incompatibilidade visceral da mensagem cristã, ou espiritual, com as posições extremadas e fanatizadas. Um economista britânico, Fritz Schmacher, lembra que “o ponto essencial da vida econômica e da vida em geral é que ela exige constantemente a conciliação ativa dos opostos”. Arremata magistralmente: “Há na vida econômica e social muitos problemas de opostos que, embora de difícil solução, podem ser transcendidos pela sabedoria”. Nada mais exato. É na sabedoria eterna que se encontram lenitivo e solução para conflitos existenciais do tipo desenvolvimento técnico versus desemprego, ou versus poluição ambiental. Ou o ponto de equilíbrio que garanta, a um só tempo, a desejável estabilidade e as transformações reclamadas pelo progresso; o respeito à tradição e o apreço às propostas renovadoras.

Como preconiza o pensador, “nossa felicidade e nossa saúde” podem depender de “buscarmos simultaneamente atividades ou metas mutuamente opostas.”

Isso tudo remete, na idealização de um mundo melhor, mais justo e generoso, à necessidade de se dar à técnica uma feição humana, de se fortalecer os avanços econômicos com a ampliação dos benefícios sociais, de se estabelecer cooperação com a natureza, em vez de desbaratar as dádivas deixadas por Deus no solo e subsolo deste planeta azul.

Comecei estas maldigitadas com o pensamento do cineasta japonês. Vou concluí-las com a evocação da cena de um filme americano, dirigido por John Ford, que focaliza uma batalha na Guerra da Secessão. Num dado instante, as tropas rivais, com suas emoções ensandecidas, guarnecendo trincheiras separadas a tiro de fuzil, são arrebatadas por um misterioso e avassalador sentimento de ternura. Baixam as armas, abandonam as posições e se confraternizam ruidosamente. Voltam a se engalfinhar mais adiante, na maior das truculências. O que interessa aqui é captar a atmosfera daquele momento mágico da pausa conciliatória, da temporária cessação das hostilidades. Ele tem a ver, simbolicamente, com o espírito de Natal. Que mais, muito mais do que o “espírito do Natal”, deveria ser, para todo sempre, estado de espírito indissociável da aventura humana.


O presépio de Carlota


Cesar Vanucci


"Natal (...) industrializaram o tema, eis o mal."
(Carlos Drummond de Andrade)

O presépio da vó Carlota era um primor. O mais arrumado da rua, a nos louvarmos na opinião dos vizinhos. Ocupava quase a metade da sala de visita. A mesa de jantar, de razoável dimensão, recoberta de sacos de aniagem e papel pardo de textura encorpada, servia de suporte. Já o guarda-louças do conjunto precisava ser remanejado para um dos quartos, "mode" não atrapalhar o deslocamento dos interessados em apreciar a arte e engenho empregados na montagem. Vovó Carlota preparava tudo no capricho. Despejava na empreitada o mesmo ardente fervor que punha nas práticas de religiosidade que lhe conferiam, no conceito de tanta gente, a fama de santa criatura. Ao longo de vários decênios, diariamente, de manhãzinha, acompanhada das filhas Nenê e Luzia, subia a ladeira que desembocava na bela Igreja, toda revestida de pedra tapiocanga, de São Domingos, a fim de participar das missas dos dominicanos. A cena ganhou carinhoso registro na memória uberabense. A tal ponto que acabou sendo transposta por Mário Palmério para as páginas do "Chapadão do Bugre". Antes de retornar à história do presépio, quero dizer algumas coisas mais a respeito de minha avó paterna. Essa mulher maravilhosa, presepeira criativa, amealhou em vida considerável crédito, embora humilde e pobre, pelas muitas ações, executadas no anonimato, em favor dos desvalidos. Fez parte na caminhada pela pátria terrena, sem dúvida, do mundo invejável dos corações fervorosos, um tipo de gente que engrandece a espécie. Quando adolescente, deslumbrado, descobri a poesia de Manoel Bandeira, deparei-me com texto que se encaixa admiravelmente em seu perfil. É aquele em que o poeta fala da presença na porta do céu de uma anciã carregada de dons. São Pedro, vendo-a, vai logo dizendo: - Você não precisa pedir licença pra entrar!
Volto, agora, ao presépio para explicar que aquela representação simbólica do Natal, com seu mágico fascínio, respondia à aspiração de pessoas afeiçoadas a estilo de vida singelo de comemorarem condignamente, no âmbito familiar, a data mais significativa do calendário. Era desmontado depois do "dia de Reis". A introdução das figuras centrais no cenário sagrado só acontecia depois da célebre "missa do galo", na volta de vó Carlota da igreja. As efígies dos reis magos e a decoração correspondente à reluzente "estrela de Belém" iam sendo paulatinamente deslocados, a cada manhã, em sua trajetória na direção da manjedoura, até o dia do encontro devocional histórico narrado nas crônicas do comecinho cristão. No mais, a comemoração daqueles tempos, de hábitos consumistas parcimoniosos, costumava abranger ainda, com todos reunidos, a tradicional ceia ou, no dia seguinte, almoço na base de frango recheado e arroz de forno. Sem libações alcoólicas, tá claro. E, também, na parte do ritual atribuído à criançada, sobrava para cada qual a grata obrigação de deixar os sapatos no presépio para que Papai Noel, quando a casa mergulhasse  em sono profundo, largasse os presentes trazidos na carruagem puxada por renas.

Tudo diferente das comemorações destes tempos de hoje, de consumismo voraz, em que a marquetagem cria, com frenética desenvoltura, espaços para erigir como símbolos natalinos o peru da Sadia e o chester da Perdigão.

Uma baita saudade!

 
Lembranças de Natal

Cesar Vanucci

“Natal. (...) E era sempre melhor o que passou.”
(Fernando Pessoa, poema “Natal”)


Acho uma baita falta de consideração e muito pouco ético esse negócio das pessoas desencarnarem no Natal ou nas imediações do Natal. Falar verdade, a observação se aplica também a outros instantes de sublimação coletiva, como, por exemplo, vitória na Copa do Mundo. Horas assim não se aprestam a adeuses doloridos, nem separações bruscas. Natal é celebração de vida e não momento de partida. Suas evocações simbólicas falam alvissareiramente de chegada e de permanência. Dependesse de minha vontade, o governo editaria medida provisória proibindo, em caráter irrevogável, que as pessoas morressem nesse dia. As lideranças partidárias no Congresso seriam convocadas para aprovar a peremptória decisão com a mesma ligeireza com que, no apagar das luzes da temporada parlamentar, costumam votar indecorosas proposições atentatórias aos interesses da coletividade, às vezes até, aumento dos próprios subsídios.
Esse meu inconformismo com o "encantamento" que acomete alguns no período de comemoração natalina está associado à lembrança  de um Natal da meninice. Um episódio que deixou marca nas ladeiras da memória. Preparávamo-nos, todos, na mais santa alegria, para os festejos. Os semblantes eram dominados pela idéia da trégua, do repouso, da confraternização em seu significado mais puro e autêntico. O aspecto mercantil do evento não havia atingido ainda patamar que permitisse essas ousadas e modernosas tentativas de se substituir, como símbolo natalino, a meiga figura nazarena da manjedoura pelo peru da sadia. De repente, o impacto  de uma ocorrência brutal. Vieram nos contar que um garotinho da vizinhança, companheiro de inocentes estripulias, havia perdido a vida numa enchente de córrego provocada por chuva forte. Sentimos, todos, uma dificuldade grande para absorver aquele aparente triunfo da morte sobre a vida, justamente num momento de celebração da vida em plenitude. O incidente, naquela precisa hora, não passava de um tremendo contra-senso. Claro, que a rolagem dos anos trouxe a explicação. Mas o sinal daquela brusca ruptura com a vida ficou.
De outro Natal da infância já trago lembrança doce e terna. Meus pais, Antonio e Antonia, me levaram pelo braço pra ver as prateleiras apinhadas de brinquedos da Livraria São Bento, na rua do Comércio,  Uberaba. Pelo que entendi, o local era uma espécie de entreposto usado por Papai Noel para guardar os presentes que iria enfiar chaminé abaixo nas casas dos meninos de bom comportamento. Deixei minha cartinha, com pedido, nas mãos de da. Sinhá Brasil, gerente do estabelecimento. Em casa, antes do sono chegar, as mãos postas e a alma feliz, renovei na oração que mamãe ensinou o pedido ao velhinho do trenó. Na manhã seguinte, ao lado da cama avistei o pequeno bilhar que desejava receber como presente. O mano Augusto Cesar jurava haver testemunhado a chegada de Papai Noel  no quarto, de madrugada, pé ante pé,  para fazer a entrega dos presentes encomendados. As reverberações mágicas daquele precioso instante estão presentes em todas as celebrações natalinas deste amigo de vocês. Que se vale do grato ensejo para desejar-lhes um Feliz Natal e um próspero Ano Novo. 


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