sexta-feira, 25 de maio de 2018


Recado para o craque de bola

Cesar Vanucci

“O jogo brasileiro de futebol é como se fosse uma dança.”
(Gilberto Freire)

Copa do Mundo à vista. As tevês esmeram-se na programação esportiva. Sabem muito bem que várias centenas de milhões estarão fixados na telinha antes e durante as competições, vivendo as eletrizantes emoções proporcionadas pelo esporte da preferência das multidões. Reunindo experimentados comentaristas, atletas e outros entendidos, os debates proliferam em torno do tema futebol. Indoutrodia, acompanhei animada tertúlia sobre o chamado “futebol arte”. No bate-papo marcado por controvérsias, alguém afirmou que o “futebol-arte” pode desembocar, vez por outra, em resultados desfavoráveis. A afirmação inspirou o neto predileto de vó Carlota a mandar recado para os craques de bola. Aqui está.

Entra nessa não, irmão. Não esmoreça. Não ceda. Resista até o derradeiro alento. Que nem fez, noutro contexto, o lendário Zumbi dos Palmares. Cada ser humano é ele mesmo mais suas circunstâncias, lembra Ortega y Gasset. Você, craque de bola, trate de trabalhar bem as suas. Seus dons naturais. Não abra mão de nada. Não se deixe intimidar pela intolerância e preconceito alheios. Nem se contaminar pelas reações turbulentas de companheiros de profissão, atletas e treinadores, de apoucado engenho. A mediocridade não aguenta fitar a luminosidade ofuscante do talento.

Fique na sua, craque de bola! Rechace, sobretudo dentro das quatro linhas do gramado, toda manifestação conspiratória contra a ideia de que o futebol não é uma modalidade de arte. É arte, sim senhor. Arte de raiz. Generosa, exuberante e boa. Às vezes, simples como uma ermida. Às vezes, imponente como uma catedral. Mas, arte autêntica, com vínculos indestrutíveis em termos de paixão e arrebatamento – como nenhuma outra forma de expressão criativa consegue estabelecer – com a genuína alma das ruas.

Fique atento, craque de bola. Diga não às pressões descabidas dos que acham que futebol é chutão pra frente. É jogada ríspida, intervenção viril, tranco por vezes até sem deslealdade. Compenetre-se de uma coisa. O que um atleta em estado de graça realiza com a bola no pé não fica nada a dever, em termos de magia coreográfica, ao que Fred Astaire, Gene Kelly e suas parceiras Leslie Caron e Cid Charisse aprontavam, também com os pés, nos inesquecíveis espetáculos musicais de Hollywood.  E, ao que consta, nunca se soube de alguém que os houvesse procurado pra dizer que parassem de vez com aquelas extasiantes proezas, todas nascidas de puro talento, porque elas representassem, aos olhares dos que não sabiam fazê-las, deboche ou provocação.

Imagine só se um cidadão qualquer resolvesse, de repente, interromper o dueto magistral de Ellis Regina e Tom Jobim em “Águas de março”, alegando que a interpretação estava sendo vista como um escárnio por outros cantores e compositores. Ou se, em plena função, no “Scala” de Milão, a peruana Yma Summac fosse intimada, por alguém incomodado com sua performance, a reduzir a simples murmúrio o agudo canoro inigualável que lhe conferiu a condição de maior cantora lírica da história! Ou, ainda, se ao brasileiríssimo Ary Barroso, o mais criativo compositor popular de todos os tempos, fosse ditada ordem para parar de fazer música maravilhosa pela mera razão de que isso estaria sendo recebido como achincalhe aos colegas.

O exercício da arte não comporta peias. Não se engaiola o talento. A criatividade não suporta mordaças. Isso vale para todas as formas de manifestação do espírito. Faz parte da essência do futebol.

Sem essa, pois, craque de bola, de se sentir tolhido na livre expressão de sua arte diante das imprecações raiventas dos que se confessem molestados com esse jeito, todo seu, de conduzir a pelota com requinte e garbo nas pelejas. O “drible da foca” é parente consanguíneo da “pedalada”. Do gol de letra. Do “rabo de vaca”. Do passe de calcanhar. Do pique incontrolável em direção do gol. Da “embaixadinha”. Do “folha seca”, de mestre Didi. Da “bicicleta” com que Leônidas, pés descalços, maravilhou a Europa. Daqueles chutes de efeito do Nelinho, cheios de picardia e com estrondo certeiro de míssil.

Dá pra entender que, no supremo ardor de uma partida, a jogada de arte possa ser bruscamente contida. O que não dá pra entender é que se queira, com intervenção faltosa e alegações ridículas, chutar pra fora de campo a arte e o talento. Aceitar tal despropósito, interpretação dos acontecimentos regida por tão assustador primarismo, equivale a negar a genialidade eterna de Pelé, a legendária trajetória, puro êxtase e virtuosismo, de Garrincha.

Por esses motivos todos, você que é craque, não se apoquente. Não queime a mufa. Com bola ou sem bola, use a cabeça. Continue a desarmar, com lances desconcertantes, de deleite e encantamento, os adversários desleais. Ensine-lhes a proverbial lição de que os incomodados com o “futebol arte” é que devem se retirar. Deles, sim, a prerrogativa de tirar o time de campo.


Cá estão as perguntas. 
E as respostas?

Cesar Vanucci

“Juros de 300 por cento? 
Uma palavra basta pra definir isto: indecência.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Ocupamo-nos, novamente, nestas maltraçadas, de questões indesejáveis que tornam mais atribulada a vida da gente do povo. Levantamos mais uma lista de perguntas que traduzem a apoquentação que tira do sério o cidadão comum diante de atos comportamentais destituídos de bom senso. Frustrados com a sonegação de respostas, ou com a insuficiência de argumentos dados nas tentativas de respostas, vemo-nos impelidos, volta e meia, a lançar perguntas no ar, visando esclarecer os porquês de tanta coisa perturbadora. Aqui vão as indagações de agora.

Tempos estranhos, sem dúvida. Como explicar que, em Minas, aqui e agora, numa Capital que tão bem simboliza o sentimento democrático brasileiro, uma manifestação reivindicatória pacífica de professores de unidades educacionais voltadas à assistência de garotinhos venha a ser enfrentada, não com o diálogo, mas com sufocantes jatos de água, em cenas que remetem a desditosas lembranças de um passado autoritário que ninguém deseja de volta? Por quê isso aconteceu?

A chamada taxa Selic chegou, recentemente, ao índice mais reduzido (6.5%). Nada obstante, pra estupefação geral, o sistema bancário brasileiro, usufrutuário há décadas da prática de juros mais rendosa vigorante na Via Láctea, não se toca nadica de nada com relação ao assunto. Faz de conta, marotamente, que a taxa básica de juros nada tem a ver com as taxas cobradas em negócios de empréstimos e financiamentos. Dá sequência, assim, inabalável, possuído de embriagadora autossuficiência, ao seu ousado projeto de acumulação de lucros descomedidos, sem paralelo na história dos países de economia emergente, afetando contundentemente a cadeia produtiva responsável pelo crescimento econômico, através do “oferecimento” de crédito à desprotegida clientela na base de indecentes taxas. Em certas operações passam dos 300 por cento ao ano, minha Nossa Senhora da Abadia! Por quê? Por quê? 

A opinião pública toma conhecimento, perplexa, da notícia de que os emolumentos cobrados nos cartórios da praça acabam de ser majorados em mais de 1.000 por cento. Quem permitiu tamanho despropósito?  Como pode ocorrer algo desse gênero sem uma reação enérgica, firme, decidida dos poderes encarregados de zelar pelos sagrados interesses da coletividade?

Os pontos de estacionamento que enxameiam a zona urbana da Capital exploram, a bel prazer, ávidos por ganhos fáceis, os indefesos motoristas que recorrem a essa modalidade de prestação de serviços. Abusam, a mais não poder, das circunstâncias penosas impostas por congestionamentos caóticos. Na administração despoliciada do rendoso negócio não poupam nem mesmo – pasmo dos pasmos! – clientes de hospitais que, desavisadamente, em situações de emergência, conduzem os veículos às garagens dos citados estabelecimentos, arcando, por conta disso, com extorsivos ônus. As autoridades, a seu turno, optam por guardar distância considerável do assunto, como se não lhes competisse o dever de regulamentar e fiscalizar essa atividade. Mas por quê mesmo?

sexta-feira, 18 de maio de 2018


A beleza feminina 
e as passarelas

Cesar Vanucci


“O seu balançado é mais que um poema...”
(Vinicius de Moraes e Tom Jobim, em “Garota de Ipanema”)

Nada como o modismo inconsequente para gerar reações descontroladas, até mesmo mórbidas. Os caras que inventaram, soberanamente, um padrão estético específico, imutável, para as passarelas, além de produzirem, como é sabido, estragos consideráveis com sua aprontação, deixaram à mostra, de modo irretorquível, não estarem com nada num tema que, esbanjando embriagadora autossuficiência, supõem dominar. Entendem bulhufas de beleza. Bulhufas de mulher. De gosto masculino.

Ao apontarem, mal comparando, a tábua de passar roupa como símbolo a ser obstinadamente perseguido no aperfeiçoamento das graciosas formas femininas, concorreram para que despontassem em numerosos desfiles de moda frisantes exemplos de contrafação da beleza. Réplicas caricaturais da beleza autêntica, cultuada na preferência universal das ruas. Incutiram, inadvertidamente, no espírito desavisado de algumas moçoilas incautas, ávidas pela fama instantânea, concepções distorcidas, grotescas mesmo às vezes, do que seja a formosura feminina.

E de que tipo de beleza se está mesmo a falar aqui? Ofereço como resposta uma referência estética extraída do “Livro dos Cantares”. Em forma de louvação à mulher, o texto abre um leque de opções na busca da versão que melhor se ajuste aos conceitos de beleza aceitos pelas pessoas. “A mulher bonita é uma graça. Espanta melancolias e consola mágoas de amor”. A gente ouve a lírica definição e sabe precisamente do que se trata.

Igualzinho acontece, aliás, quando retiramos dos versos de Vinicius, imortalizados na melodia em parceria com Tom Jobim, que conquistou as plateias do mundo, essa outra primorosa definição: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela a menina, que vem e que passa, em seu doce balanço, a caminho do mar.”

Confrontemos a imagem projetada na arrebatadora criação musical – onde se fala de um gingado de corpo “que é mais que um poema” e que deixa um rastro de encantamento - com aqueles desfiles desengonçados, mostrados com certa constância na telinha em lançamentos de modas de vestuário. Roubando a espontaneidade e faceirice das moças, despojando-as de sua graciosidade natural, transformando-as de quando em quando em versões robôs, para que possam cumprir satisfatoriamente burocrática missão profissional, em muitas passarelas costuma-se vender ao respeitável ao público, junto com trajes bolados por figurinistas famosos, uma noção falsa, enganosa, de beleza feminina. Os traços faciais harmoniosos de várias modelos são substituídos por toques crispados nos semblantes à hora da caminhada pela passarela. Uma caminhada que, em não poucos momentos, se converte num trote feioso, de musculaturas enrijecidas, ao gosto duvidoso das “recomendações técnicas” provindas dos bastidores. Por trás de toda uma encenação burlesca, fora de compasso, existem ainda, trazendo notórios riscos à saúde das desprevenidas jovens, os aconselhamentos imprudentes em favor do culto desvairado à magreza exacerbada. Quanto menos peso, melhor. Quanto menor a massa corporal, tanto maior a chance de se chegar ao almejado estrelato.

Esse modismo amalucado, de enaltecimento à magrelice, pode provocar danos irreparáveis. Aqui e alhures. Tanto isso é verdade que, de forma pra meu gosto tímida, nalguns círculos da moda sofisticada há quem já esboce reações contra os abusos praticados. Abusos esses estimulados ou, quando pouco, tolerados por setores, como dito anteriormente, totalmente desinformados do conceito que se tem, nas ruas, da autêntica beleza feminina. O padrão de beleza verdadeiro não dispensa, na configuração corporal da mulher, aqui e ali, uma ou duas polegadas a mais, um certo arredondamento generoso de formas, um manejo de corpo que desabroche num requebrado de alegrar a vista. Em suma, uma forma garbosa de movimento que deixa pendurada no ar a sensação deleitosa de que quando ela, mulher bonita, em seu meigo gingado, se põe a caminhar, ela mais parece, na verdade, executar mavioso passo de dança.


Sinto muito, muito mesmo!

Cesar Vanucci

As criaturas estão no caminho entre o Nada e o Tudo.
Encontram o que está acima de todos (...) pela via da oração.”
(Alceu Amoroso Lima)

Ouvi a oração, um bocado de tempo atrás, numa representação teatral. Anotei na memória velha de guerra as ideias básicas contidas no sugestivo recitativo. Resolvi aqui reproduzi-lo. Não tenho dúvida quanto à fidelidade aos conceitos. Mas, não consigo garantir o mesmo quanto à qualidade da reprodução. Peço a todos, por isso, que levem em conta a (boa) intenção.

Estou falando de uma mensagem havaiana de cunho religioso. Lembra a arrebatante Oração de Francisco de Assis, na parte em que exorta as pessoas ao exercício do perdão. Perdão concebido, numa e noutra prece – claro está - dentro da perspectiva da humildade, “base e fundamento de todas as virtudes”, sem a qual “não há nenhuma virtude que o seja”, como atesta Cervantes.

Por atravessarmos época pra lá de conturbada, carregada de tensões oriundas do ódio, intolerância, injustiça social,  propicias por tudo isso a reflexões acerca do sentido da aventura humana, considerei de oportunidade compartilhar essa oração com os amáveis leitores.

O texto que dei conta de rememorar diz (mais ou menos) o que vem alinhado na sequência. Sinto muito, muito mesmo, por tudo aquilo que, partindo de mim, haja provocado, em qualquer época e qualquer lugar, sofrimento, decepção, frustração, ira, desalento, perturbação, contrariedade em pessoas de meu ambiente familiar; em pessoas de meu círculo afetivo; em pessoas de minhas ligações profissionais; em homens e mulheres, adultos e jovens, conhecidos ou desconhecidos, que cruzaram meus caminhos no curso desta caminhada pela pátria terrena. Sinto muito, sinceramente, por tudo aquilo que, em decorrência de atos ou palavras de minha autoria, possa ter dado causa a reações de pessoas de minha roda familiar, de minha esfera afetiva, nas minhas vinculações profissionais e comunitárias, que despertassem em mim rancor, tristeza, inconformismo, irritação, desejos de vingança. Rogo da Suprema Divindade que transmute todas essas emoções negativas em energias positivas. Energias que tenham o mérito de comunicar sensações de bem-estar e conforto a todos e que possam contribuir para a construção de relacionamentos humanos harmoniosos, fraternais e duradouros.

Eu sinto muito por tudo isso. Peço, humildemente, perdão por todas as reações desagradáveis que, consciente ou inconscientemente, ajudei a fomentar na convivência com os semelhantes.

Escancaro o coração à prática do amor, da fraternidade, da solidariedade e agradeço, reverentemente, por esta chance de poder lamentar, pedir perdão e exprimir o avassalador sentimento de mundo que me invade a alma.

Não resisto, por último, à tentação de pedir a atenção dos leitores para algo que, certamente, não lhes passa desapercebido todas as vezes em que tomam conhecimento, como agora no caso desta oração do Havaí, de uma forma de diálogo com o Absoluto nascida de concepção cultural da vida diferenciada da nossa. No fundo, independentemente de tempo e lugar, o que dá pra perceber é que a linguagem é sempre igual. Os cânticos de louvor ao Altíssimo alcançam sempre o entendimento universal. Brotam dos mais generosos impulsos da alma humana. Revelam que os homens, não importam a etnia, o idioma, o lugar em que vivem, os hábitos, são na essência tremendamente parecidos.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

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Escravidão em era de “esplendor tecnológico”

Cesar Vanucci

“Dizei-me vós (...), se é loucura... 
se é verdade, tanto horror perante os céus?!”
(Castro Alves, ainda atual)

Por mais espantoso que possa parecer, a maldição do trabalho escravo ainda é detectada em numerosas paragens deste paradoxal planeta azul. Difícil pacas engolir algo tão tenebroso assim nestes tempos que tanta gente considera áureos em razão de uma extraordinária evolução tecnológica. Nos sonhos das conquistas civilizatórias, o desenvolvimento técnico a que chegamos estaria potencialmente apto a implantar, com razoável rapidez, em todas as latitudes terrenas, para a humanidade inteira, o reinado do bem-estar social.

Conclamando a comunidade das nações a combater a nefasta prática, a ONU reconhece, em estudo recente, que o “trabalho forçado” afeta, nada mais, nada menos, que 40 milhões de seres humanos, valha-nos Deus, Nossa Senhora!

A estarrecedora revelação veio a furo pouco depois da chocante apresentação, nas redes de televisão, de um documentário contendo inverossímeis cenas das operações “livres e desembaraçadas” de um mercado de escravos em funcionamento na Líbia oferecendo como “mercadoria” indefesos imigrantes africanos. Não se trata, pra vergonha da espécie humana, de caso isolado, assegura o estudo, com o acréscimo da  desnorteante informação de que um quarto da mão de obra submetida a esse ultrajante regime de servidão é composta de crianças. Pelos conceitos de “escravização moderna”, adotados por especialistas, tem-se por certo que 25 milhões de pessoas são vítimas inocentes, nos diferentes continentes, do chamado “trabalho forçado”. Já outras 15 milhões de “casamento forçado”. O modelo de “casamento” enfocado advém de injunções terrivelmente machistas. Reveste-se, às vezes, de falso cunho religioso. Impõe exigências despóticas, na base da absoluta submissão, às mulheres enredadas no degradante processo. Mas mesmo esses números – pasmo dos pasmos! – podem ainda não traduzir a perversa realidade em toda sua dimensão. São subestimados, admitem unanimemente os responsáveis pelo levantamento, a Organização Mundial do Trabalho (OIT), o “Walk Free Fundation”, instituição de defesa dos direitos humanos internacionalmente acatada e a Organização Internacional das Migrações (OIM).

Noutras palavras, o problema não é apenas tão arrasador quanto se possa imaginar a princípio, mas bem mais arrasador do que se consiga jamais imaginar. As modalidades do “trabalho escravo” comportam infinitas crueldades. Mais da metade do contingente humano explorado enquadra-se no asqueroso “sistema da servidão por dívidas”. As ligações de abjeto servilismo aos algozes podem resultar de dependência química, o que implica para os viciados permanentes abusos físicos e psicológicos. Significativa parcela dos “escravos”, com predominância feminina no caso, é forçada a se prostituir. Em campos de refugiados, na culta Europa, grupos mafiosos costumam recrutar “mão de obra”. A ONU constata ainda que somam mais de 4 milhões os seres humanos sob a tutela de “trabalho obrigatório” instituído pelos próprios governos de certos países onde os direitos humanos são clamorosamente espezinhados. E, no fecho destas considerações, um último indicador estatístico, pinçado entre outras dezenas de chocantes informações: mulheres e meninas representam 71 por cento dos casos avaliados, quase 29 milhões de pessoas.

A brutalidade das revelações faz surgir, em mentes bem formadas, comprometidas com os valores humanísticos e espirituais que conferem dignidade à aventura da vida, clamor semelhante ao que levou o genial Castro Alves a arremeter-se, em seu tempo, contra a ignominia da escravidão legalmente aceita no Brasil império. O brado de revolta por ele emitido conserva, ainda, desafortunadamente, inadmissível frescor de atualidade: “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura... se é verdade, tanto horror perante os céus?!”


 “Brasil, a Reconstrução”,
o livro

Cesar Vanucci

“A autora conta como um país que pareceu ter 
tudo para dar certo acabou perdendo o caminho.”
(Thomas J Trebat, diretor da Columbia Global Centers)

Depois de Paris, Porto Alegre e Rio de Janeiro, o livro “Brasil, a Reconstrução” – da jornalista Maria Paula Carvalho - será lançado em Belo Horizonte. A palestra, seguida de sessão de autógrafos e coquetel, acontece nesta quinta-feira, 19 de abril, às 19h30 na Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, alto das Mangabeiras. A repórter e apresentadora de televisão tem realizado debates sobre os rumos do país, após 30 anos de democracia. Os encontros, em universidades, refletem sua atuação no jornalismo e no mundo acadêmico, onde nasceu a ideia de produção desse livro-reportagem.

Maria Paula, mestre em jornalismo político pela Columbia Graduate School of Journalism (Nova Iorque), vale-se de seu senso crítico de análise e reflexão para abordar os desafios da conjuntura atual. Com linguagem acessível, o livro examina temas intrincados, como recessão econômica, o impacto da corrupção para o desenvolvimento, a relação entre o comportamento fatalista da população e os desmandos detectados, o papel da imprensa na democracia e a forma como a máquina do Estado vem se estruturando na busca por mais transparência nos negócios públicos.

A autora sustenta ser preciso reavaliar os conceitos sobre como atingir um crescimento sustentável com avanços sociais, investimento na infraestrutura, aumento de produtividade, a eliminação das alianças entre corruptos e corruptores, danosas às aspirações brasileiras no tocante à evolução civilizatória. Com clareza literária, a autora relata a tumultuada história brasileira dos anos recentes.  Conta como um país que parecia ter tudo para dar certo acabou perdendo o rumo e também como poderá reencontrar sua vocação de progresso no futuro, conforme anota o diretor da Columbia Global Centers Rio de Janeiro”, Thomas J Trebat.

Mais do que uma compilação de dados e opiniões, “Brasil, a Reconstrução” oferece um reordenamento das principais questões focalizadas pela jornalista em aprofundada pesquisa. Retrata de forma ampla a situação brasileira, com base em entrevistas e fatos históricos. Para um país que se sentia prestes a ingressar numa nova era política, diplomática, social e econômica, o amanhã parece agora um tanto incerto. “Apesar da taxa de crescimento maior finalmente alcançada em 2017 - cerca de 1% - e das estimativas de expansão futura, ainda há muito a ser feito. Especialmente em relação ao aumento súbito do endividamento público e o desaparecimento do superávit pessoal como compensação dos déficits fiscais. Uma maneira significativa de controlar as receitas públicas, além de aumentar os impostos”, explica o economista de Columbia, Albert Fishlow, no prefácio do livro.

Além de uma solução para os desafios socioeconômicos, os brasileiros esperam por reformas estruturais e mudanças de comportamento que sejam capazes de extirpar o clientelismo. Isso ainda não acontece no ritmo desejado. Consoante a autora, repetitivos fracassos de governança provocam a sensação de ilusão, enquanto uma sequência de escândalos deprimentes tem levado desassossego às ruas. Maria Paula avalia com clareza os riscos de eventuais apatia popular e perspectiva de ascensão de forças socialmente retrógradas. Ao abordar fatos que analisam o movimento anticorrupção e o impacto das condenações de agentes públicos, parlamentares e empresários, “Brasil, a Reconstrução” examina em que grau os malfeitos praticados concorrem para uma cultura de impunidade. Ou, pelo contrário – coloca o livro -, será que finalmente chegou o momento em que esses comportamentos possam ser anulados por ações mais participativas da sociedade, à medida que a população se organiza para clamar melhora nas condições de vida do país?

“Para o cidadão comum, que quer saber se o Brasil sairá diferente dessa experiência traumática, Maria Paula oferece o convincente argumento de que o Brasil está em uma conjuntura crítica, mas que pode mudar sua trajetória através da depuração de costumes, da reorientação de seus valores, e da busca por novas lideranças”, escreve Matthew Taylor, professor da American University de Washington, na apresentação do livro.

Recomendo, com ênfase, a leitura da obra.




Dia das mães

Acadêmica Maria Inês Chaves de Andrade *

Dia das mães. O coletivo individualizar-se-á no Domingo. Então, a mãe de seu filho estará com ele à mesa, no hospital, na penitenciária, na rua. A mãe de seu filho se lembrará dele e será lembrada. O dia terá presente e ausência. Para a emoção haverá indulto, licença e alta. A memória fará álbum e postagem. Todas as pazes serão feitas. Pudesse a paz ter mãe! Os filhos da mãe se assentarão com ela. A Mãe será lembrada na missa e nossa missão será entender a Palavra do Filho e pediremos que Ela interceda por nós. As mães solteiras reconhecerão o semblante do amor que tanto não antecedeu a face do menino como ficou brocado nele. O pai viúvo dirá da beleza da menina de onde ela a puxou. O marido vai agradecer pelos filhos que aquela mulher lhe deu. A avó vai emocionar-se com tanta família. A empregada vai servir a saudade dos seus no prato de hora extra com necessidade. Nas maternidades outras mães chegarão ao mundo. Nos velórios haverá mães que descobrirão que nunca deixamos de sê-lo, mesmo quando já não somos mais. As mães seremos homenageadas, seja como for e como der. Nós olharemos para nossos filhos, sejam eles quem forem. E quereremos que fiquem bem e que consigam realizar seus sonhos e enfrentar a realidade. E esperaremos que os filhos de outras mães não os ofendam e muito menos sob a guarida delas. Afinal, nossos filhos são múltiplos e tantos. E todos eles merecem viver deixando que os outros vivam também. As mães precisamos aprender a ser, verdadeiramente, maternais e conosco e umas com as outras porque a fêmea do bicho-homem tem-nos sido insuficiente à humanidade que queremos realizada para os nossos filhos. Nenhum filho mais haverá de ser crucificado porque houve Naquele o limite para o perdão de nossos pecados. O Planeta lar precisa que nossa igualdade na diferença faça diferença. Somos mães e mães sabem o que fazer por sua família humana e pela humanidade de sua família, quase seja o mesmo, eco e toada. Dia das mães. Todas seremos únicas. O coletivo, singular. A responsabilidade, grave. Especialmente, porque Domingo é a primeira chance que teremos depois de tanto para fazer deste mundo um lugar melhor e mais bonito para todos os nossos filhos. Dia seguinte será a segunda ou só segunda-feira.


* Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais - Amulmig


sexta-feira, 4 de maio de 2018


O radicalismo não tem limites

Cesar Vanucci

A salvação do homem não vem do leste nem do oeste, vem do Alto.”
(Tristão de Athayde)

Usei, em fala recente, a expressão “radical fanático”. “Isso é pleonasmo!” - anotou, de pronto, estimada amiga, presença realçante em atividades voltadas à defesa da democracia e direitos fundamentais. O papo girava em torno dos destemperados posicionamentos de indivíduos e grupos radicais, de diferenciados matizes, que vêm dando o “ar da graça” no conturbado cenário brasileiro, botando pra fora, em gestos e vociferações raivosos, suas propostas incendiárias.

A sinalização dos “façanhudos atos” dos extremistas de carteirinha revela-se abundante. Nas redes sociais, o pessoal deita e rola. Os radicais realimentam o febeapá de que falava o irreverente Stanislaw Ponte Preta. Mas, mais do que isso, lançam no ar mal estar e desassossego sociais. Propagam falsidades, constroem versões insanas de histórias em evidência, falsificam dados, deturpam as coisas, fazem de tudo para implantar a inquietação nos lares e nas ruas. Não enxergam limites nos nefandos propósitos. Tentam intimidar autoridades envolvidas em investigações criminais; agridem verbalmente e fisicamente pessoas de cujos pontos de vista discordem; picham fachadas de prédios e obstruem acessos rodoviários em retaliação contra decisões que lhes desagradem; disparam tiros contra veículos que conduzem caravana de dirigente político em campanha eleitoral; até mesmo, no auge da paranoia, eliminam vidas preciosas, como sucedeu no caso da destemida vereadora carioca e assessor, um atentado que comoveu a Nação sem solução à vista, pelo menos até o momento em que estes escritos são datilografados.

Entre vários outros lances de natureza radical há um episódio recente, no mínimo intrigante, não noticiado pela grande mídia com o alarde de que se faz merecedor, carecedor ainda de esclarecimentos suficientes por parte das autoridades, compreendendo declarações ameaçadoras confusas, de origem não identificada, interceptadas pelos serviços de escuta do tráfego aéreo durante a operação do voo que transportava o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva a Curitiba, no cumprimento da ordem de prisão determinada pela Justiça.

Tudo quanto dito acima, amostra representativa de condutas radicais produzidas - repita-se - por extremistas de diferentes falanges, antagônicas, com toda certeza em não poucos posicionamentos, configura febril atividade de um punhado de indivíduos e núcleos empenhados em promover estragos de proporções. É certo que as lateralidades ideológicas incendiárias, em suas distorcidas percepções das coisas do mundo, pouco se lixam para os sentimentos das ruas. Sabem-se insignificantemente minoritárias, mas persistem na ilusória concepção de exercerem “redentora missão” como “salvadores da pátria”. Sentem ojeriza da democracia. Renegam as liberdades fundamentais, as aspirações de paz que palpitam nas mentes e corações. Não se preocupam nadica de nada com a circunstância de que a sociedade abomina pra valer suas desconstrutivas proezas. Para o extremista fanático (olha o pleonasmo aí, de novo) quanto pior, melhor.

Muita gente supõe equivocadamente que os radicalismos de inclinações rotuladamente opostas não encontrem ponto de conciliação em suas trajetórias. O denominador comum do ódio, carregado pelos adeptos nas vísceras, torna todos eles, todavia, mais próximos do que imagina nossa vã filosofia. A história está recheada de exemplos. Mussolini bandeou de lado ao virar ditador fascista. Hitler e Stalin, no começo da segunda guerra mundial, firmaram um pacto de não agressão que levou à partilha da Polônia, antes que ocorresse a invasão malsucedida das tropas alemãs ao território russo, que resultou na reversão dos rumos do conflito.

Anos atrás, fiquei conhecendo pessoas de nacionalidade húngara que encontraram abrigo no Brasil quando da odiosa perseguição nazista aos judeus. Eles haviam retornado de uma viagem à terra natal. Confessaram-se atônitos: radicais bastante conhecidos no passado da repressão do nazismo continuavam firmes nas rédeas da repressão em nome do comunismo.

E, por derradeiro, como sugestão a uma reflexão, um conceito lapidar, de permanente atualidade, transmitido por ninguém mais, ninguém menos, que Tristão de Athayde: A salvação do homem não vem do leste, nem vem do oeste. Não vem dos lados. Vem do Alto. Outra frase magistral: “O radical é alguém com os pés firmemente plantados no ar.” É de Franklin Delano Roosevelt.


As forças da desordem carioca

Cesar Vanucci

“Desde fevereiro, quando foi decretada a 
intervenção federal na segurança  do Rio, 
coisas estranhas aconteceram.”
(Jornalista Élio Gáspari)

As poderosas forças da desordem, que dominam estratégicos redutos e esquemas na vida carioca, estão emitindo claros sinais de desafio à intervenção federal na segurança do Estado. Desnorteantes indicações a respeito desse audacioso procedimento foram trazidas ao conhecimento público pelo sempre bem informado jornalista Élio Gáspari.

Incorrigíveis em sua aberta disposição de confrontamento com as leis que regem a convivência social, das quais deveriam ser por dever de oficio zelosos guardiães, integrantes da chamada “banda podre” dos organismos policiais do Rio de Janeiro vêm procurando criar todo tipo de óbice imaginável às ações das autoridades incumbidas de executar as operações de combate ao crime.

A fieira das “coisas estranhas” que andam pintando no pedaço teve começo, pouco depois do decreto de intervenção, com a execução da vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes. Silêncio de tumba etrusca se abateu, até aqui, sobre o trabalho investigatório, causando compreensível espécie. Como uma coisa puxa a outra, a história do atentado que comoveu o país levou, dias após, à notícia, divulgada sem o costumeiro alarde midiático, da suspeitosa execução do colaborador de parlamentar carioca. O edil havia sido chamado a prestar depoimento no inquérito que apura o assassinato de Marielle.

Outro episódio estranho, contado pelo jornalista, ocorreu quando do anúncio do desencadeamento, por tropas do Exército, do processo de pacificação na Vila Kennedy. O gabinete do interventor foi surpreendido por uma operação que destruiu barracas e quiosques comerciais em logradouros da comunidade. Os autores da ação criminosa não foram identificados. Mais adiante, houve outro registro esquisitíssimo. No correr de inspeção do general que chefia o gabinete da intervenção a um batalhão da PM, parte da tropa formada recusou-se a prestar-lhe a continência devida.

Os vazamentos sucessivos em torno das ações planejadas com o fito de desmantelar os núcleos do banditismo organizado vêm tornando o trabalho, em várias ocasiões, ineficaz. Isso ficou comprovado, por exemplo, em surtidas do Exército a unidades prisionais e aglomerados comunitários. No Complexo de Lins, operação que aglutinou 3.400 militares, nada praticamente de relevante, devido ao alerta prévio aos delinquentes, foi detectado. Outro lance “singular”: o gabinete da intervenção ordenou o retorno, aos batalhões de origem, de 3.100 policiais militares e bombeiros colocados à disposição de outros órgãos do governo do Rio. Mês e meio depois da determinação, mais da metade dos 150 PMs lotados na Assembleia Legislativa ainda não haviam se apresentado à corporação.

Toda essa sequência de episódios desconcertantes, narrados por Gáspari, induz a conclusão de que, para alcançar resultados, a intervenção no setor da segurança no Rio de Janeiro vai ser obrigada a lançar mão, com foco em elementos das forças auxiliares de segurança, de medidas drásticas capazes de desfazer o nó górdio das espúrias engrenagens emaranhadas no aparelho policial.

Passa a fazer sentido, quando se tem ciência de fatos assim, a polêmica e impactante afirmação recente do Ministro de Estado que, ainda recentemente, denunciou a existência de um conluio de comandantes de unidades da PM carioca com organizações de traficantes e milicianos.

Tá danado!

A SAGA LANDELL MOURA

Não precisava ser assim   Cesar Vanucci “Esse nosso infernal cotidiano!” (Domingos Justino Pinto, educador) Carga pesada. Isso...