sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Quem diria, quem diria...

Cesar Vanucci *

“Os vícios de outrora são os costumes de hoje.”
(Sêneca – 55 a.C a 39 d.C)


Pegando mundo e meio de surpresa,o Papa Bento XVI, do alto de sua cátedra atrelada a valores exageradamente conservadores pro gosto da maioria, mesmo católica, resolveu soltar o verbo. Em entrevista transformada num livro pelo jornalista alemão Peter Seewald, opinou sobre um tema comumente encarado como espinhoso. Justificou o uso da “camisinha” quando o objetivo seja evitar a contaminação da aids. Palavras textuais do Pontífice: “Trata-se de um primeiro passo na direção de uma moralização, de tomada de responsabilidade, mas não é realmente a maneira certa de enfrentar o mal da contaminação pelo HIV.” Porta-voz do Vaticano complementou a declaração, dizendo ser a mesma válida para todos: homens e mulheres heterossexuais, homossexuais e transexuais. Com um porém, todavia, contudo: o veto ao preservativo para fins contraceptivos permanece...

A manifestação papal, recebida com relativo alívio por ativistas de direitos humanos, causou grande repercussão, como não poderia deixar de ser. Fez também aflorarem na lembrança de muita gente episódios embaraçosos, de épocas não tão distantes assim, relacionados com o uso de preservativos. Na crônica de hoje e na que se lhe segue reporto-me a dois episódios retirados do baú.

Candinho era o que se poderia chamar de moleque endiabrado. Nove anos de peraltices. Falo de um tipo de travessura inofensiva, tempos da escola risonha e franca, comecinho da década de 40, quando o golquiper do Uberaba Sport se chamava Yé. O danado do menino morava na rua Alaor Prata, Uberaba. Colegas de escola, participávamos das peladas de rua, movidas a bola de pano, um pouco de briga, palavrões, de quando em vez interrompidas por conta de um chute mal calibrado estourando a vidraça da casa de dona Lili.

Naquele dia, Candinho entrou em casa carregando uma vareta de bambu com estranhos objetos dependurados na ponta. Chegou até a cozinha, onde Gertrudes, a mãe, quitandeira de mão cheia, assídua e pontual frequentadora da missa das seis na Igreja dos dominicanos, preparava um bolo de fubá afamadíssimo, cuja receita se recusava, egoisticamente, a passar pras conhecidas. No minuto em que, ajeitando os óculos, se deu conta da natureza dos penduricalhos trazidos pelo filho, a santa criatura quase teve um troço.O que saiu da garganta foi mais um uivo de animal ferido. Reboou por toda rua. Ameaçando o filho com o chinelo, afogada em lágrimas, a bondosa mulher perdeu o fôlego, tendo que recorrer aos sais aromáticos. O que se introduzira naquele lar honrado, guardador de acrisoladas virtudes, temente a Deus, eram mercadorias repulsivas cuja citação a moral e os bons costumes desaconselhavam em roda de família. Como os tempos são outros, prá não espichar a curiosidade do leitor, vou dando logo nome aos artigos causadores do bafafá, artigos reservados para pecaminosas ações, despojados ali do invólucro de papel, soltos ao vento: camisinhas de vênus. Um punhado. Ficou óbvio que o guri não tinha consciência da real serventia do material. Tanto que, sem propósito de fazer troça, assustado, sugeriu candidamente fosse "colocado ar naquilo prá virar bexiga", ou, então, que se fizesse linguiça "daquelas tripas", enchendo-as de pedaços de lombo. Na casa tomada por pequena e alvoroçada multidão alguém comentou com Jerônimo, pai de Candinho, convocado às pressas no serviço, que as camisinhas haviam sido dadas pelo dono da farmácia da esquina. O já transtornado Jerônimo virou bicho. Todos se assustaram ao vê-lo anunciar um acerto de contas, garrucha na cinta, a costumeira mansidão de boi transformada em fúria de leão. Guilhermina, respeitada pelos dotes de benzedeira, persignando-se, bradava para quem se dispusesse a ouvi-la, seu refrão predileto: "O mundo tá perdido! De mil passou, mas a dois mil não chegará!" Descobriu-se, adiante, com a mediação do pároco, que a história do farmacêutico tava mal contada. Os preservativos haviam sido largados, isso sim, num terreno baldio perto da farmácia. O pai injuriado foi dissuadido de tomar satisfação. Por via das dúvidas, o farmacêutico saiu de circulação, arranjando viagem súbita a Sacramento até a poeira baixar.

Isso aí, gente boa! O hilário confronto dessas imagens da meninice com o pronunciamento pontifício ou com os reclames institucionais do governo para os momentos carnavalescos – o do preservativo ajustado a robusto recipiente de suco de uva, de alguns anos atrás, é um deles - revela, de modo impecável, como são desconcertantes e inesperados os rumos da história no trepidante capítulo do comportamento e costumes. Quem não cuida de se preparar para as novidades à espreita, dá uma de dona Gertrudes. Tem um troço.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Bololô no salão

Cesar Vanucci *


"Uma ocorrência escabrosa!"
(Palavras do presidente do clube a respeito
dos preservativos largados na sala de estar)


Mais uma historietazinha relacionada com preservativos nos usos e costumes populares.

Foi pouco antes de um animado "tríduo momesco" de meia dúzia de anos atrás. Como sabido, o tríduo momesco deixou de ser assim chamado quando em tudo quanto é canto a folia foi esticada por mais dias. Na Bahia dos atabaques ininterruptos, até por tempo indeterminado. Sem hora pra começar nem acabar. O carro de um conhecido emparelhou-se com o meu na descida da Afonso Pena, de frente ao "farol", como se diz em dialeto paulistês. Ele jogou pela janela uma pergunta que, por força das circunstâncias, não pude responder na hora: - Escuta aqui, meu chapa, o que há de tão engraçado pra você aí, sozinho no fusca, cair de repente na risada?

Explico, agora, respondendo à pergunta, a razão do riso solitário no flagrante da avenida. Eu havia acabado de guardar no porta-malas uma sacola atulhada de preservativos, a serem entregues a uma organização que ampara excluídos sociais. Ao transportar o material, bateu-me a lembrança de uma festa carnavalesca de uns 50 anos atrás. O episódio relembrado na hora, inspirando confrontação dos costumes vigorantes em épocas bastante distanciadas, deu causa à reação que tanto intrigou meu amigo. História seguinte.

A batucada carnavalesca ia à toda no suntuoso clube, "freqüentado pela nata de nossa progressista sociedade," segundo a abalizada opinião do festejado colunista do jornal da cidade, A moçada rodopiava pelo salão ricamente decorado, entregando-se com animação às relativamente bem comportadas brincadeiras, típicas dos folguedos, toleradas nas posturas morais dominantes. Das mesas, ao redor da regurgitante pista de dança, pais zelosos acompanhavam as graciosas evoluções das filhas donzelas com suas fantasias multicoloridas, de apurado gosto. De súbito, percorreu o salão, de mesa em mesa, trazido pelo vento do espanto e da indignação, um chocante relato. A esposa do diretor social, dama de peregrinas virtudes e de alta respeitabilidade, acabara de testemunhar, entre soluços e lágrimas, na sala de estar do reservado feminino, algo "super indecente". A "escabrosa ocorrência", tomando emprestadas palavras do presidente do clube na reunião de emergência montada para uma tomada enérgica de providências, consistiu na descoberta, largadas sobre o confortável divã onde madame se refestelava depois de haver retocado a maquiagem, de algumas "camisinhas de vênus" com indícios de uso recente. A primeira versão extraída dos fatos dizia que um casalzinho "prafrentex" havia resolvido mandar pra cucuia, na cara e na coragem, valendo-se de momento de distração da vigilância, as sadias regras da moral e dos bons costumes. Chegou-se mesmo, com certo açodamento, à citação de nomes de supostos autores da "sórdida proeza". O que acabou acendendo comentários maledicentes e, mais tarde, malquerenças familiares insanáveis. Outra versão posta nas especulações arguia a hipótese de que "aquelas indecências" houvessem sido lançadas por um estudante, malcaratista juramentado de cidade vizinha, depois de encher a cara com umas e outras. O auê à volta do "ato de depravação", cujos pormenores ficaram para sempre inexplicados, afetou de modo irreparável a festa. Honrados chefes de família, batendo duro os calcanhares, convocaram as distintas consortes e amuados rebentos para se recolherem mais cedo aos respectivos domicílios. A presença de foliões no baile seguinte, "terça-feira gorda", sem intenção de trocadilho, foi magra. Bem aquém das expectativas.

A história rendeu outros ruidosos desdobramentos. Numa assembléia religiosa, dias depois, devotos piedosos acompanharam, compenetrados, incandescente prédica tendo como foco o "abominável caso", com o pregador caprichando nas citações das passagens bíblicas que se ocupam de Sodoma e Gomorra.

Quem, dentre as testemunhas oculares do bololô armado no salão, ousaria imaginar que os "pecaminosos artefatos de látex", mercadoria clandestina incogitável nos hábitos de consumo das pessoas de bem, passariam num futuro não tão distante a ser maciçamente distribuídos, com expressas recomendações paternas aos mancebos e moçoilas em flor de que os conservassem sempre à mão, guardadinhos nos bolsos e nas bolsas, pras situações de emergência?

* Jornalista cantonius@click21.com.br)

Questão controversa

Cesar Vanucci *


“A meu ver, Lula agiu em consonância
com a decisão do STF, amparado em parecer da AGU.”
(José Eduardo Cardozo, Ministro da Justiça)

Muitas as controvérsias. Advém daí, certeiramente, todas essas desgastantes marchas e contramarchas, esse espicha-encolhe atabalhoado, essas indefinições e decisões inconclusivas estranhas que rodeiam o rumoroso “caso Battisti”. Os argumentos dos que defendem e dos que se contrapõem à concessão do asilo político acabam deixando a opinião publica atarantada.

Falar verdade, não é apenas a patuléia ignara que se confessa confusa na apreciação dos fatos. O aturdimento mostra-se igualmente presente nas avaliações de doutos magistrados e de líderes políticos convocados para o deslindamento da questão.

E quais são mesmo, em suma, os argumentos pró e contra a extradição, exigida em termos candentes pelo governo italiano e negada pelo governo brasileiro?

Comecemos pelo que dizem os que postulam a entrega de Battisti às autoridades italianas para que cumpra a pena de prisão perpétua. Cesare não seria um foragido político coisissima nenhuma. Fez parte, sim, de um truculento grupo terrorista que recorreu à guerra clandestina com a manifesta disposição de derrubar um Estado constitucional de Direito, já que na Itália, à época das ocorrências pelas quais foi julgado e condenado, prevalecia regime de plenitude democrática. Seus atos criminosos, abrangendo assassinatos a sangue frio, foram examinados em todas as instâncias judiciárias. Sua detenção no território brasileiro pela Interpol decorreu de ordem de prisão expedida pela Justiça, poder que se sobressai, naquele país, pelo alto grau de independência. A extradição foi requerida nos termos de tratado bilateral firmado entre Brasil e Itália. Ao negar a extradição, o governo brasileiro estaria descumprindo clamorosamente o tratado.

Agora, o outro lado da pendência. Antes de buscar refúgio no Brasil, Battisti, assim como tantos outros companheiros de luta armada, viveu durante 14 anos na França como cidadão comum. Possuía endereço fixo, exercendo normalmente suas atividades profissionais sem que o molestassem. A França praticamente concedeu asilo aos componentes do grupo do qual Battisti fazia parte. A medida fundamentou-se no que se convencionou denominar de “doutrina Mitterand”. Os governantes italianos não demonstraram qualquer preocupação, ao longo desse período, com a presença de Battisti no vizinho solo francês. Pelo menos, não tornaram pública, nos termos inflamados ora empregados, sua presumível contrariedade com relação à liberdade geral e irrestrita, tão próxima, desfrutada por esse “inimigo” do Estado italiano.

As condenações impostas ao ex-ativista foram feitas à revelia. A prova mais consistente sobre sua alegada participação nos delitos repousaria em depoimentos obtidos por meio da chamada “delação premiada”. Dois dos crimes de sangue que lhe foram imputados teriam sido “cometidos” em locais bem diferentes, numa mesma hora. De outra parte, outros ativistas radicais do grupo de Battisti, também acusados de atos contra o Estado italiano, continuam desfrutando na França, sem que o governo de Paris seja questionado, da mesma liberdade de ir e vir que Cesare possuía antes de fugir para o Brasil. Se extraditado, o ex-ativista ficaria sujeito a perseguição política e correria risco de vida. Essa alegação é retrucada, pela parte adversária, com a afirmação de que, sendo um Estado democrático e de Direito, a Itália garantirá sua segurança na prisão.

A tramitação do processo desencadeado a partir do pedido de extradição acusa, entre outros lances significativos, a decisão do então Ministro da Justiça, Tarso Genro, concedendo a Battisti a condição de refugiado político. O governo italiano recorreu da decisão ao Supremo Tribunal Federal. Por contagem apertada, reflexo dos aspectos controversos da questão, o STF cassou o refúgio político concedido, admitindo que, sob o prisma jurídico, a extradição merecia deferimento. Mas, ao mesmo tempo, entendendo que o julgamento conclusivo a respeito da conveniência e oportunidade de se atender ao pedido italiano caberia ao chefe do Estado brasileiro. O Presidente Lula, amparado em amplo parecer da Advocacia Geral da União (AGU), optou pela não extradição, submetendo a decisão ao crivo do Supremo.

Já antes mesmo do arremate do Presidente, baseados em notícias extra-oficiais acerca da propensão brasileira de manifestar-se contrariamente aos desejos italianos, porta-vozes do governo de Roma expenderam comentários desairosos à pessoa de Lula. A solicitação de soltura de Battisti, feita pelos seus advogados e impugnada pelos advogados do Estado italiano, foi negada pelo presidente do STF, Cezar Peluzo, numa demonstração de que a Corte Suprema voltará a se manifestar sobre a palpitante e controvertida questão.

Tem-se, pois, por certo que o último capítulo da história ainda está por ser escrito. Enquanto isto, defensores e adversários da extradição continuam acumulando teses inflamadas com vistas a convencerem a atônita opinião pública do acerto de seus posicionamentos. Duas respeitadas vozes do jornalismo brasileiro dão eco ao componente controverso da questão: “Dar guarida a um delinquente comum em nome da soberania nacional é patético”, diz Mino Carta. “Trata-se, simplesmente, de uma questão de justiça (...). A ira italiana é encenação pura (...). Lula acertou ao não extraditar”, comenta Leonardo Attuch.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Águas de janeiro

Cesar Vanucci *

“A ocupação irregular não é exceção, é regra.”
(Presidenta Dilma Roussef)

Vai ter que ser assim por todo sempre?
A chegada das chuvas de verão ou dos aguaceiros de qualquer outra estação terá que ficar atrelada fatalisticamente a catástrofes? Mostra-se claro, a esta altura, que a rotina das tragédias com hora certa para acontecer representa um desafio doloroso, dos maiores impostos à Nação. Desafio de tal magnitude aponta a necessidade imperiosa de uma junção bem concatenada das forças vivas da sociedade de maneira a que se possa enfrentá-lo com boas possibilidades de êxito. A expectativa geral é de que nossas lideranças comunitárias, políticas em primeiro lugar, se compenetrem de suas indeclináveis responsabilidades face à tormentosa questão. Saibam usar apropriadamente os recursos adjudicados ao seu poder decisório para congregar, a começar pelos melhores cérebros tecnológicos em planejamento urbano e social, todos os setores produtivos da sociedade em programas arrojados capazes de reduzirem acentuadamente os impactos negativos de toda ordem desses eventos, quebrando essa sequência previsível de ocorrências tétricas.

A idéia antecede a palavra e a palavra antecede a ação, lembra Chesterton. Tempos são chegados de uma mudança em regra no enredo. Sair rápido do discurso demagógico, ou até (apenas) bem intencionado, das ações pontuais de alcance limitado e duvidoso. Partir logo para o planejamento consistente que conduza a empreitadas bem sucedidas.

A idéia de um projeto bem articulado, ou de projetos articulados, com participação dos melhores especialistas em políticas urbanas, é o ponto de partida do hercúleo trabalho a ser promovido. Seguir-se-á, ao depois, a palavra firme e segura de esclarecimento, de orientação geral. Palavra definidora, aglutinadora. E, por último, as ações a serem desfechadas a curto, médio e longo prazos. Executadas de forma bastante ágil, como as circunstâncias exigem, para que os resultados almejados sejam devidamente atendidos.

Foram, na verdade, décadas de omissões acumuladas. Os desacertos não podem ser debitados exclusivamente aos gestores públicos, conquanto se lhes possa atribuir quinhão considerável de responsabilidade com relação à problemática. Os habituais cenários de devastação das temporadas de chuva sinalizam um somatório de erros que envolve muita gente.

“A ocupação irregular no Brasil não é exceção, é regra”, constata a Presidenta Dilma Roussef. S.Exa. está coberta de razão. Por que a exceção “assumiu” o lugar da regra? Por que, pra ficar num exemplo emblemático, as perigosas encostas se tornaram lugares disputados para habitações de ricos e de pobres? Perguntas como essas suscitam avalanche de respostas. Algumas delas: o Estado, repita-se, tem falhado clamorosamente em suas políticas de uso e ocupação do solo. A burocracia empedernida não liga a mínima aos alertas técnicos e ambientalistas. As gavetas empoeiradas de algumas modorrentas repartições costumam ser o inapelável destino de estudos e relatórios relevantes elaborados por especialistas sugerindo providências acauteladoras quanto às ameaças periódicas dessas avassaladoras torrentes de lama, detritos e entulhos que sacrificam vidas e bens preciosos. A especulação imobiliária desenfreada, implicando sempre em alianças espúrias contrapostas ao interesse coletivo, é fator impeditivo poderoso na tomada das decisões apropriadas. A proteção das áreas circundantes a mananciais e o desassoreamento dos cursos fluviais frequentam mais os palanques retóricos do que os canteiros de obras. Outro elemento perturbador é a indiferença quase generalizada quanto aos rumos das coisas por parte de segmentos amplos da comunidade. Quem se dá ao trabalho de observar o entulho trazido pelas enxurradas assassinas, depara-se com revelações constrangedoras. Hábitos pessoais nocivos, no descarte de objetos, utensílios e outros materiais sem serventia, praticados em alta escala nas concentrações urbanas, contribuem fortemente para que a vazão de água e detritos assuma essa indesejável configuração de tsunami. O represamento a torto e a direito, sobretudo nas grandes aglomerações urbanas, de tudo quanto é fluxo de água existente nas áreas, somado às grossas camadas de asfalto, sinônimo de modernidade, que impedem a absorção da água da chuva no solo são outros vilões a apontar nessa história dolorosa das torrentes de lama.

O Sistema Nacional de Alerta e Prevenção de Desastres Naturais que vem de ser anunciado, abrangendo a reestruturação da Defesa Civil em todo o território brasileiro, pode significar começo de conversa auspicioso no refazimento de rumos nesse aflitivo capítulo da gestão administrativa pública. O trabalho a ser executado, a partir desse lance inaugural, é complexo e demanda tempo. Exigirá muito entrosamento entre ministérios e governos (em todos os níveis) e poderosa mobilização comunitária. O êxito ficará na dependência de se armar uma sólida conjugação de vontades à volta do tema. Essa sincronia pode ser perfeitamente alcançada com o reconhecimento de que as calamidades derivadas da utilização desordenada do solo colocam-nos, a todos, em permanente risco e constituem, justamente por isso, um problema a ser compartilhado por todo mundo.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Asia Bibi, uma paquistanesa

Cesar Vanucci *

“A política internacional costuma ser um jogo obscuro de vilanias.
Abomina os valores do espírito humano.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)


Os dramas das duas, Sakineh Mohammadi Ashtiani e Asia Bibi, guardam notável similitude. Mas a mídia internacional não vem dispensando, estranhavelmente, à vítima paquistanesa a atenção que sua tragédia pessoal merece, ao contrário do que faz, com motivos de sobra, em relação à vítima iraniana. A explicação há que ser buscada, talvez, no jogo das conveniências geopolíticas. Colocar as autoridades paquistanesas sob o foco dos holofotes da vigilante opinião pública internacional, expô-las sobretudo à censura implacável das entidades que batalham pelos direitos humanos, é algo não recomendado pelos “donos do mundo” que as têm na conta de bons aliados, mesmo que imprevisíveis e inconfiáveis. O papel da grande mídia no episódio, servilmente amoldada a esses ignóbeis desígnios, é desconcertante, pra só dizer o mínimo.

Caso é que a paquistanesa Asia Bibi, do Punjab, província mais importante do país, cumpre solitária e estoicamente a sua “via crucis”, com dilacerante sentimento de frustração e abandono. E, afinal de contas, o que aconteceu mesmo com essa mulher cristã para que sua vida tranquila, de mãe de família pacata, fosse de repente revirada ao avesso e ela se visse, sem mais essa nem aquela, a enfrentar uma raivosa corte judicial, ouvindo esmagada pela estupefação a sentença de morte por enforcamento ditada pelos seus julgadores?

História seguinte. Asia Bibi discutiu com alguns vizinhos muçulmanos, sendo por eles acusada de insultar o profeta Maomé na troca de palavras acaloradas. Foi quanto bastou para que a “cristã blasfema” fosse conduzida ao cárcere e, na sequência, indiciada e condenada à pena capital.

A lei que pune a blasfêmia com morte foi instituída no Paquistão em 1986, ano em que o país era governado ditatorialmente pelo general Zia-ul-Haq. Sem ninguém que se anime a garantir, com certeza absoluta, que a ditadura já tenha sido abolida naqueles conturbados pagos, essa lei continua ainda hoje a prevalecer. Aplicaram-na pela primeira vez em novembro do ano passado, justamente contra a indefesa Bibi. Da decisão impetrou-se recurso, na hora presente objeto de apreciação por instância judiciária superior.

Alguns poucos, entre os pasquitaneses, se contrapõem a essa lei cruel e às violências comumente praticadas no país contra as mulheres. O então governador do Punjab, Salmaan Taseer, era um deles. O verbo foi colocado no passado porque, no começo do ano, Taseer foi assassinado por um elemento encarregado de sua segurança pessoal com 27 tiros de uma AK-47. O autor dos disparos, fundamentalista desvairado, alegou ter sido impelido ao ato criminoso em “santa reação” contra o posicionamento do governador face à famigerada “lei da blasfêmia”. A história adquire contornos mais surreais e tétricos ainda quando se toma conhecimento de que a proposta, no Congresso, de um parlamentar paquistanês no sentido da alteração (nada de revogação) da lei, com a eliminação da pena capital, produziu verdadeiro vendaval de protestos. Aglutinou as forças mais radicais do integrismo religioso, que não se restringem agora, apenas, em suas reações, a declarar apoio incondicional a malsinada legislação. Apóiam abertamente, além do mais, o tresloucado gesto do guarda-costas assassino, bem como trabalham, com frenética disposição, para que os “blasfemos”, começando pela desamparada cidadã Asia Bibi, de confissão cristã, sejam pendurados pelo pescoço nos postes de execuções. No caso dela, como já revelado, pelo “terrível” delito apontado no suspeitoso denuncismo de vizinhos.

A pressão interna é de tal proporção que as vozes, em flagrante minoria, que se opõem à “lei da blasfêmia” e aos seus inclementes desdobramentos, recolhem-se a prudente mutismo.

O resto, a tomar como base as reações (inclusive da mídia) no plano internacional, não passa, também, de confrangedor silêncio. Absoluto, completo, cúmplice silêncio. Os pragmáticos estrategistas da geopolítica costumam se sentir realizados, em horas que tais, com sua impecável performance.

Carradas de razão tinha o saudoso professor Antônio Luiz da Costa, quando proclamava que a política internacional consiste, não poucas vezes, num jogo sutil de imensuráveis vilezas.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Por falar em “feedback” e “brunch”

Cesar Vanucci *

“A pátria é o idioma. E só no idioma pátrio
a gente pode pensar e dizer besteira.”
(Monteiro Lobato)

Os vinte e cinco leitores habituais destas maltraçadas costumam acolher com simpatia, compreensão e reconfortante apoio, as manifestações reiteradas de nosso inconformismo face à despudorada ofensiva, patrocinada pela basbaquice reinante, dos indigestos vocábulos estrangeiros que infestam, em circunstâncias as mais variadas, a cena cotidiana brasileira. Boa parte dos casos aportados em comentários produzidos no curso de vários anos, sobre a epidemia abobalhada de estrangeirice que nos assola, tem sido por eles próprios trazida. Caso sem tirar nem por dos relatos vindos a seguir.

Naquela cidade interiorana, festejou-se com invulgar entusiasmo a contratação, pelo clube local, de experiente técnico de futebol, cujo currículo anotava passagens pelo exterior. O clima de euforia chegou às grimpas: rojões, faixas, banda de música, volantes com som estridente, comes e bebes. Mais bebes, pra dizer a verdade, do que comes. Na hora da discursama, a badalação, por essa óbvia razão, correu solta. O recém-chegado, tantos os seus méritos, chegou a ser comparado ao fundador e ao padroeiro do lugar. O presidente, o cronista, até o pároco, revirando pelo avesso a paixão clubística, crivaram o dito cujo de todas as louvações disponíveis no estoque. O que não impediu, poucos meses transcorridos, acumulados três ou quatro insucessos sucessivos nos gramados, cumprindo a inapelável sina da categoria, fosse o treineiro convidado, sem cerimônia nenhuma, a tirar o time.

Embargado pela forte emoção, como fez questão de registrar, o técnico deitou na chegada falação caprichada. Tascou frases em portunhol, deixou cair outras num inglês “moroless”, escandindo as sílabas a cada vez que pronunciava coisas do tipo “full time”, “feeling”, “inside”, “feedback”. Esta última expressão, por sinal, foi utilizada por ele doze vezes. Em meio à ovação que se seguiu, pipocou na platéia o abalizado comentário de um personagem especial, decano do Conselho de beneméritos do clube: “– Tou pondo fé nesse caboclo. Homem douto, competente. Diz troço danado de bacana. Só discordo num ponto. Essa de lançar o Fio de beque, assim meio de repente, não é uma boa ainda. Fio é um menino que promete, mas ainda num tem a tarimba necessária pra assumir a posição...”

Outra historieta. O deputado mandou um convite a respeitado cabo eleitoral do interior. Tratava-se de coronel detentor de votos decisivos, num território conservado, anos a fio, sob férreo comando. Homem de impulsos fortes, amizades e inimizades definitivas. Cara resoluto, com relacionamentos pautados por lema emblemático: “Amigo meu num tem defeito. Inimigo, se num tem, eu boto...” O convite, para uma série de eventos festivos
na capital, tocou fundo a emoção do convidado. Junto com o impresso colorido, em papel couchê, — “cheio de nove hora”, na classificação do próprio coronel —, chegou carta de próprio punho do deputado. “Isso num é coisa para deixar de comparecer. Só se for pra mandar no lugar atestado de óbito”, comentou. Uma coisa, no entanto, intrigou bastante o coronel, fomentando caraminholas em sua cuca. “O convite tá bem ajeitado”. O que não “tá dando pra entender direito” é o tal de “brunch”, pensou, sem dizer a ninguém. Jamais lera ou ouvira antes aquela palavra esquisita. Mas não se deu por achado em sua cortante curiosidade. Quem comanda gente — o coronel é dos que acreditam piamente nisso — tem que aprender a só fazer perguntas medidas e pesadas e a dar respostas certas para os outros. Ficou aguardando com paciência de Jó a hora de descobrir o que seria esse tal de “brunch”. Danou a acumular besteira na cachola. Na ante-véspera da celebração disparou telefonema para o companheiro deputado. Rodeou o quanto pôde o toco, com colocações de somenos, até conseguir encaixar no papo a pergunta engatilhadinha na ponta da língua: “—E esse negocio do brunche, tá nos conformes?”. O interlocutor, sem morar, obviamente, na ansiedade do coronel, garantiu: “— Está tudo muito bem estruturado. Vai ser um “brunch” e tanto! Como jamais se viu por aqui!...” O coronel, não suportando o sufoco, voltou à carga: “–Me explica aí, compadre. Vosmicê já arranjou o tanto suficiente de muié-dama pro brunche, ou carece d’eu ter que arrancá c’umas raparigas daqui?...”.
Ora, veja, pois...

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

"Casablanca" revisitado


 Cesar Vanucci *


"O cinema é infinito – não se mede."
(Vinicius de Moraes)


A Rede Globo, que detém entre as concorrentes em escala mundial a supremacia absoluta em dramaturgia de qualidade, possui um setor dedicado a consultas aos telespectadores,levantando opiniões quanto ao destino dos personagens nas novelas. Não sei honestamente dizer se tal intervenção é boa ou não para o enredo.  Mas sei que as impressões colhidas têm peso no desfecho das tramas. Acontece, às vezes, de o autor ser induzido a reformular a trajetória inicialmente traçada. Parcerias românticas podem ser, desse modo, desfeitas ou compostas, para gáudio da fiel torcida.

Imagino, vez por outra, embora divisando, já ai, dificuldades bem maiores na execução do esquema de apuração das tendências do público, como seria bacana para os cinemeiros, caso pudessem, também, a seu turno, influir na condução das histórias de seu agrado, envolvendo heróis, heroínas e vilões. A única fórmula que me ocorre, danada de complexa, de fazer as coisas acontecerem, aplicável a fitas de sucesso, seria garantir, com sugestões e palpites do espectador, a continuidade da história numa outra película. Algo no gênero, sem a participação obviamente do público, foi feito na impecável trilogia de "O poderoso chefão". De tão bem realizada, dá até pra pensar numa quarta película. Ao Andy Garcia seria oferecida a oportunidade de ouro de retomar a saga Corleone, alimentada nas marcantes representações de Robert de Niro, Marlon Brando e Al Pacino.

Pode ser que isso seja de todo inexeqüível. Mas, como eu, muita gente cheia de idéias arde de curiosidade prá saber como acabaria sendo o primeiro encontro da doce Ingrid Bergman com o carrancudo Humphrey Bogart, finda a guerra, depois do dia do adeus dolorido no aeroporto de Casablanca. E prá saber também o que poderia acontecer com o Claude Rains, caso os nazistas se inteirassem de ter sido ele, não "os suspeitos de sempre", o responsável pelos disparos que livraram os judeus e os resistentes franceses de mais um algoz. O fundo musical permaneceria o mesmo, com uma diferençazinha. Jimmy Durante como intérprete do inesquecível melódico.

Mudando de um filme para outro, seria interessante pacas contribuir com sugestões que ajudassem o aventureiro Clark Gable e a ambiciosa Vivien Leigh a se reconciliarem na seqüência de "O vento levou", largando no esquecimento a troca de desaforos do passado.

Se o esquema proposto pudesse algum dia funcionar, seria interessante também definir com o Bertolucci com quem afinal acabaria ficando, num eventual segundo tempo do filme, aquela belíssima criatura cor de ébano que viveu magistralmente o papel de estudante de Medicina e de faxineira, no excelente "Assédio sexual". No caso de dúvida atroz do cineasta, sei de alguns cidadãos bem postados, pessoas ilibadas, muitos até com netos já bem crescidinhos, ainda firmes na sela e bons nos arreios, em condições de oferecerem seus desinteressados préstimos.

Quem sabe mesmo se, nos desdobramentos de uma das tramas cinematográficas sobre o atentado de Dallas, não se pudesse chegar à elucidação dos detalhes escabrosos do complô contra Kennedy, apontando-se os nomes dos verdadeiros assassinos e mandantes, pondo-se, assim, ponto final na monumental farsa que, há 47 anos, vem sendo imposta à opinião pública mundial.

*  Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Instantes mágicos da História

Cesar Vanucci *


“Pela decisão soberana do povo hoje será a primeira vez
 que a faixa presidencial cingirá o ombro de uma mulher.”
(Presidente Dilma Roussef, na posse)

Instantes mágicos, de emoção sem par. Evocativos de fatos extraordinários, de conteúdo histórico refulgente, vividos pela nação brasileira nesta última década. Incorporados para sempre na memória das ruas.

A posse da Presidente Dilma Roussef, em seus aspectos litúrgicos solenes e lances de feerica participação popular, estremeceu de júbilo cívico o país inteiro. Fortaleceu na autoestima da gente do povo a certeza de que o Brasil vem percorrendo, de tempos a esta parte, com passadas vibrantes, itinerário correto na realização plena de sua vocação de grandeza. Preparou-se política e psicologicamente, técnica e administrativamente, nos planos social e econômico, para enfrentar com infinitas possibilidades de êxito os desafios dos tempos atuais e transformar-se de vez numa potência de primeira linha. A pavimentação desse itinerário com vistas à invasão do futuro, fruto de poderosa conjugação de vontades do governo e da sociedade, ganhou notável incremento neste período de governança recém-findo. Lula transferiu para a sucessora um respeitável legado. As mudanças operadas na fisionomia social e econômica do país foram amplas e profundas. Ocorreram num período também marcado por pujança democrática invejável.

O processo de estagnação da economia foi revertido. O comportamento brasileiro diante da crise que ameaçou o mundo com o fantasma da recessão provocou nos outros países surpresa e admiração incontida. A inclusão social, sempre crescente, de enormes contingentes populacionais, projetada entre outros indicadores expressivos na sugestiva circunstância de que os brasileiros recém incorporados à chamada classe “C” já são os maiores consumidores de eletrodomésticos e maiores adquirentes de imóveis, processou-se com celeridade vertiginosa.

Tem-se aí claramente configurada a base de sustentação bastante sólida para os avanços e conquistas que carecem ser alcançados. Entre eles, como o mais relevante de todos, aquele que a “Presidenta” empossada define como sendo a “luta mais obstinada do governo”: a erradicação da pobreza extrema e criação de oportunidades para todos.

Como dito linhas acima, muitos foram os acontecimentos extraordinários recordados, em clima de euforia cívica, à hora festiva da transmissão do poder. Há 25 anos, o Brasil libertou-se das amarras trevosas da ditadura. Há 21 anos voltou a eleger, pelo voto direto, os seus governantes. Há 20 anos foi promulgada a Constituição que hoje rege nossos destinos políticos e administrativos.

A caminhada de aprimoramento democrático, que todos almejamos fecunda para todo o sempre, registrou adiante, em 2002, algo formidável, de indiscutível transcendência. Naquele ano, nas eleições, quebrando paradigmas seculares, o povo brasileiro resolveu colocar na direção suprema da nação um operário. E, ao lado dele, como colaborador influente, um empresário. Ambos os dois, nas respectivas categorias, vitoriosamente testados em fainas sindicais e classistas. Uma junção de forças - envolvendo líderes providos de irradiante simpatia e arrebatador carisma, sincronizados na visão social arejada e espírito desenvolvimentista - a tempo algum jamais cogitada na vida pública brasileira. Os dois, Lula e Alencar, de origem humilde, formação educacional assemelhada, sem títulos universitários a ostentar nos currículos, colocaram seus préstimos, sabedoria, experiência, capacidade de comando e muita disposição de luta a serviço dos compatriotas. Apoderados da benfazeja obsessão de promover um punhado de mudanças essenciais, prometeram agir em nome da imensa “família Silva” brasileira, da qual são legítimos representantes, a começar pelo sobrenome. O que adveio dessa eletrizante aliança vem traduzido nos frutos copiosos que a nação tem condições agora de colher. São frutos que irão permanecer. Compõem a valiosa herança assumida, neste começo de 2011, pela Presidente Dilma. Uma Presidente que se mostra consciente, conforme demonstra em lúcidos pronunciamentos, dos desafios singulares que a espreitam.

Essa eletrizante caminhada brasileira de ascensão social e política, de consistente expansão econômica e de plena consolidação democrática, alcança um novo e cintilante patamar com os atos históricos vividos no dia 1º de janeiro em Brasília. Um ex-operário desceu a rampa do Planalto, para que pela mesma rampa subisse, investida da missão de dar continuidade ao seu fecundo trabalho, a primeira mulher brasileira a envergar a faixa presidencial.

Temos razões de sobra, os brasileiros destes tempos carregados de esperança, em regozijarmo-nos com a oportunidade de estar podendo acompanhar, como testemunhas oculares da história, todos esses lances memoráveis de autêntica construção humana.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)



Os compromissos da Presidente


Cesar Vanucci *


“E a palavra, uma vez lançada, voa irrevogável.”
(Horácio)

Um pronunciamento de peso e medida. Pela emoção da voz, a Presidente deixou que o coração fosse regido pela palavra. Passou a quem a ouviu uma sincera disposição de enfrentar “com coragem” os “desafios maiores” à espreita.

Dizendo-se, a partir da posse, “Presidenta” de todos os brasileiros, estendendo as mãos aos adversários para empreitadas conjuntas em favor do interesse coletivo, Dilma externou o propósito de dar continuação ao maior processo de afirmação humana que o país já viveu. A enaltecedora referência contempla a obra transformadora levada avante por Lula, num período de governo em que “o povo brasileiro fez a travessia para uma outra margem da história”.

No discurso, reservou palavras de imenso carinho a “outro grande brasileiro, incansável lutador”: José Alencar; “Que exemplo de coragem e de amor à vida nos dá este homem!”, exclamou.

Nos compromissos assumidos, Dilma deu ênfase à reforma política. Revelou que a reforma compreenderá mudanças na legislação de modo a favorecer os avanços democráticos e a promover o fortalecimento programático dos partidos e aperfeiçoamento das instituições. A valorização do desenvolvimento foi apontada como outro imperativo nacional. Para Dilma, o Estado deve assumir seu tradicional papel regulador da atividade econômica, sem furtar-se ao dever de agir, também, quando necessário, como indutor do crescimento econômico, garantindo sempre serviços de qualidade à população. Louvando a expressiva mobilidade social registrada nos dois últimos quatriênios, a Presidente reconheceu que “ainda existe pobreza a envergonhar nosso país e a impedir nossa afirmação plena como povo desenvolvido.”

Manter a estabilidade econômica – explicou - é outra condição de governabilidade que se impõe. Lembrando que a inflação desorganiza a economia e degrada a renda do assalariado, afirmou peremptoriamente que não será permitido, “sob nenhuma hipótese, que esta praga volte a corroer nosso tecido econômico.”

A fala presidencial dirigida às “queridas brasileiras e queridos brasileiros” ressaltou ainda que ingentes esforços serão concentrados na luta pela qualidade da educação, da saúde e da segurança pública. “Vou usar a força do governo federal para acompanhar a qualidade do serviço prestado e o respeito ao usuário.”

A respeito do Pré-sal, disse que as descobertas das jazidas petrolíferas submarinas são nosso passaporte para o futuro, mas para que se possa desfrutar a contento das benesses almejadas faz-se imprescindível montar um esquema equilibrado de avanço tecnológico, avanço social e cuidados ambientais.

“Meu governo – garantiu noutro trecho da alocução – apoiará fortemente o desenvolvimento cientifico e tecnológico para o domínio do conhecimento e a inovação como instrumento da produtividade.” Expressou a certeza de ser possível imprimir-se acelerado ritmo de crescimento ao país sem que isso leve à destruição do meio-ambiente. “Somos e seremos – anotou – os campeões mundiais de energia limpa, um país que sempre saberá crescer de forma saudável e equilibrada.”

Reportando-se à tradição brasileira de defesa intransigente da paz e autodeterminação dos povos, asseverou sensatamente que esse posicionamento não nos permite “qualquer indiferença frente à existência de enormes arsenais atômicos, à proliferação nuclear, ao terrorismo e ao crime organizado transnacional.”

Dilma dedicou também trechos do pronunciamento a uma profissão de fé em favor da garantia plena das liberdades individuais, da liberdade de culto e de religião, da liberdade de imprensa e de opinião. A respeito deste último item, reafirmou preferir “o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras.”

Comprometeu-se a atuar com absoluta rigidez na defesa do interesse público. Afiançou: “Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. A corrupção será combatida permanentemente.”

Confessou-se despojada de arrependimento, tampouco ressentimento e rancor, por haver entregado sua juventude “ao sonho de um país justo e democrático”, numa época em que suportou “as adversidades mais extremas a todos que ousamos enfrentar o arbítrio.”

Os solenes compromissos firmados, dos quais acham-se aqui reunidos alguns tópicos significativos, deixam estampados os sinceros propósitos de um governante com real conhecimento de causa em relação às tarefas inseridas na importantíssima missão assumida em nome da nação. Uma nação que saberá atender, com entusiasmo, à convocação feita no sentido da decidida participação de todos no esforço continuo de transformação de nosso país. E que já deixou consignada nas primeiras pesquisas de opinião vindas a furo um sugestivo voto de confiança na atuação de nossa primeira Presidente mulher.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Presidente Lula

Cesar Vanucci *


“Se houvesse um monte Rushmorse no Brasil,
o rosto de Luiz Inácio Lula da Silva estaria agora sendo esculpido na rocha.”
(Leonardo Attuch, jornalista)

Lula deixa o governo e entra na história como o presidente detentor dos maiores índices de prestígio popular de todos os tempos. E como se isto tudo já não bastasse em termos de consagração, investe-se também da invejável condição de ser hoje o cidadão brasileiro mais conhecido e admirado no mundo inteiro.

Ao lado do inesquecível Juscelino Kubitschek de Oliveira, é apontado no plano interno como o maior tocador de obras públicas que já tivemos. No exercício do mandato de oito anos mudou por completo a fisionomia social e econômica do país. Consegue galgar, por esse motivo, na reverência grata da nação, um patamar dantes só escalado, de certo modo, por Getúlio Vargas – cuja atuação social fecunda não chegou a ficar de todo obscurecida pelo período trevoso do Estado Novo – e, de modo completo sem restrições quaisquer, pelo grande construtor de Brasília.

Na gestão administrativa encerrada, o Brasil adquiriu projeção em todos os quadrantes do planeta. Sua voz passou a ser ouvida e suas intervenções nos grandes debates mundiais passaram a ser constantemente requisitadas. Sob a gestão de Luiz Inácio Lula da Silva, a democracia brasileira consolidou-se definitivamente. As soberbas manifestações eleitorais, a livre expressão das idéias, a inserção social de expressivos contingentes humanos representam, entre outros referenciais significativos, provas incontestes dos alvissareiros avanços registrados.

As estatísticas revelam que, entre 2003 e 2009, 23 milhões de compatriotas saíram da linha de pobreza. Quinze milhões de novos empregos formais foram criados. O chamado “risco Brasil”, que era de 2.700 pontos em 2002, baixou pra menos de 200 pontos. Medido em dólares, o salário mínimo pulou de 78 para 310. Falando ainda em dólar, a moeda americana que era cotada em três reais, é agora cotada em um real e setenta centavos. A divida com o FMI foi quitada e o país passou a financiar essa instituição. As reservas do Tesouro, que eram de 185 bilhões de dólares negativos, roçam hoje as cercanias dos 300 bilhões de dólares positivos. A selic, taxa de juros básica, atualmente (ainda elevada) fixada em 11%, estava por ocasião da mudança de governo em 2002, em 27%. Os investimentos em obras de infraestrutura, no passado praticamente reduzidos a zero, ultrapassaram nos dois últimos quatriênios 500 bilhões de reais. A indústria naval ressurgiu das cinzas, a construção civil ganhou proporções gigantescas, os programas de inclusão social beneficiaram dezenas de milhões de pessoas, o sistema rodoviário em frangalhos foi recuperado em cerca de 70 por cento. A grandiosa expansão das atividades petrolíferas, com a autossuficiência na produção e a descoberta da imensurável riqueza do pré-sal, prenunciaram a chegada de tempos novos, ainda mais promissores, em matéria de prosperidade social. No plano educacional, o número de novas Universidades cresceu em dimensão nunca vista, enquanto 214 novas Escolas Técnicas eram implantadas. Em cinco anos de ProUni, um programa que permite o acesso democrático ao ensino superior de jovens de famílias carentes com bom desempenho escolar, 540 mil estudantes foram beneficiados. De outra parte, as taxas de desemprego despencaram dos níveis históricos tradicionais e o crédito popular cresceu a índices que permitiram a milhões de brasileiros participação no mercado de consumo de bens mais requintados. Em 2010, o crescimento brasileiro só foi superado, em todo o planeta, pelo da China. E, para arrematar as citações das conquistas sociais registradas, não deixa de ser oportuno recordar o vaticínio de Lula – tão criticado pelos que insistem em não reconhecer-lhe méritos como líder político e gestor público – quando da eclosão da crise financeira que abalou as estruturas econômicas da grande maioria dos países. No tocante ao Brasil, asseverou ele com a convicção de quem sabe das coisas, a crise não passaria de uma simples marola. Estava certo, nisso também, como a história se encarregou de mostrar.

Com sua percepção social e espírito desenvolvimentista, Lula desce a rampa do Palácio do Planalto com a sensação do dever cumprido. As falhas cometidas, as metas não realizadas não são, de maneira alguma, capazes de toldar sua cintilante passagem pelo poder.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

Quintana por Quintana




Cesar Vanucci *

“A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.”
(Mário Quintana, poeta)

Cai-me às mãos, trazido em meio as torrentes de informações despejadas pela internet, um texto delicioso do grande Mário Quintana. Intitulado “Mário Quintana por Mário Quintana”, ele foi escrito pelo poeta para a revista “IstoÉ” e publicado na edição de 14.11.1984.

Vale a pena transcrevê-lo. Quintana toma da palavra com aquele jeito indômito e, ao mesmo tempo, meigo, todo seu, onde a beleza da linguagem se entrelaça admiravelmente com lampejos da verdade cotidiana. Na seqüência, alguns esplêndidos achados poéticos de seu criativo repertório são adicionados à matéria.

Assim falou Quintana:
“Nasci em Alegrete, em 30 de julho de 1906. Creio que foi a principal coisa que me aconteceu. E agora pedem-me que fale sobre mim mesmo. Bem! eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente. Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão.
Ah! mas o que querem são detalhes, cruezas, fofocas...
Aí vai ! Estou com 78 anos, mas sem idade. Idades só há duas : ou se está vivo ou morto. Neste último caso é idade demais, pois foi-nos prometida a Eternidade. Nasci no rigor do inverno, temperatura : 1 grau; e ainda por cima prematuramente, o que me deixava meio complexado, pois achava que não estava pronto. Até que um dia descobri que alguém tão completo como Winston Churchill nascera prematuro – o mesmo tendo acontecido a Sir Isaac Newton ! Excusez du peu. Prefiro citar a opinião dos outros sobre mim. Dizem que sou modesto. Pelo contrário, sou tão orgulhoso que nunca acho que escrevi algo à minha altura.”

E, agora, vêm alguns ditos inesquecíveis desse grande arauto da lírica brasileira:

Quem não compreende um olhar
   tampouco compreenderá uma longa explicação.

Não importa saber se a gente acredita em Deus:
   o importante é saber se Deus acredita na gente...

O despertador é um acidente de tráfego de sono...

O pior dos problemas da gente é que ninguém tem nada com isso.

Todos esses que aí estão atravancando meu caminho,
   eles passarão... eu passarinho!

Esta vida e uma estranha hospedaria
   De onde se parte quase sempre às tontas,
   Pois nunca as nossas malas estão prontas,
   E a nossa conta nunca está em dia.

Não te abras com teu amigo
   Que ele um outro amigo tem.
   E o amigo do teu amigo
   Possui amigos também...

O tempo é a insônia da eternidade.

A alma é essa coisa que nos pergunta se a alma existe.

O segredo é não correr atrás das borboletas...
   É cuidar do jardim para que elas venham até você.

Bilhete
   Se tu me amas,
   Ama-me baixinho.
   Não o grites de cima dos telhados,
   Deixa em paz os passarinhos. / Deixa em paz a mim!
   Se me queres, enfim,
   Tem de ser bem devagarinho,
   Amada, / Que a vida é breve,
   E o amor / Mais breve ainda.

Sempre me senti isolado nessas reuniões sociais:
   O excesso de gente impede de ver as pessoas...

Dupla delicia. O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao
   mesmo temo acompanhado.

Geografia. O mais sugestivo é que esses países afro-asiáticos sempre nos
   parecem afrodisíacos.

* Jornalista (cantonius@click21.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...