domingo, 29 de maio de 2022

 

Ameaças antidemocráticas

 

Cesar Vanucci

 "Quem vai ganhar as eleições é a democracia".

(Ministro Edson Fachin)

 

De procedência palaciana, as enfadonhas e persistentes tentativas de desqualificação do irrepreensível sistema eleitoral brasileiro já não deixam mais dúvida que o espirito dos democratas, de que grupos bolsonaristas extremados cogitam remotamente bagunçar as eleições presidenciais de outubro, caso os resultados se lhes mostrem desfavoráveis. Algo mais ou menos na linha adotada por Donald Trump contestando, já antes do desfecho, a consagradora vitória de Joe Biden.

O que anda rolando a propósito vem causando espanto e desagrado. Lideranças democráticas, até mesmo fora do país, têm expressado apreensões quanto ao assunto. A bem da verdade, a preocupação já alcançou até mesmo não poucos próceres identificados com as políticas do governo de Jair Bolsonaro. Em algumas ocasiões, como ocorreu em pronunciamentos recentes dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, de forma polida e categórica as discordâncias em torno da candente questão ficaram devidamente estampadas.

Políticos de várias tendências, entidades altamente representativas de segmentos comunitários influentes não têm empregado meias palavras para rebater, com veemência, traduzindo seu inconformismo cívico essa insidiosa campanha de solapação de um dos pilares de alta consistência de nossa vida republicana e democrática.

Ainda outro dia a CNBB - Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e a OAB tornaram pública uma carta aberta em defesa do voto eletrônico. No texto, as entidades criticam as tentativas de ruptura da ordem institucional e afirmam que "é espantoso como, sob o impacto de mais de 550 mil vidas perdidas na maior crise sanitária já enfrentada pelo país, perca-se tanto tempo e energia em tentar demolir o edifício democrático!” Após nova suspeita sem provas sobre a lisura das urnas eletrônicas, Bolsonaro defende a adesão ao voto impresso. Os argumentos usados para apontar supostas fraudes já foram desmentidos pelo TSE.

Assinam a carta aberta os presidentes das seguintes entidades: Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB; Felipe Santa Cruz, presidente da OAB; José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns (Comissão Arns); Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC); Paulo Jerônimo de Sousa, presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); Renato Janine Ribeiro, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

O grupo sustenta que, em março de 2020, já se manifestou contra "ameaças" feitas por Bolsonaro contra o Congresso Nacional e o STF. Segundo as entidades, "lamentavelmente, o processo de erosão democrática prossegue, atingindo contornos incompatíveis com o equilíbrio entre os Poderes e a manutenção do clima de paz e concórdia entre os cidadãos".

"Nesse sentido, ameaçar a não realização de eleições em 2022, caso o resultado das urnas possa vir a contrariar os interesses daquele que detém o poder, é ofensa grave que não se pode tolerar", diz a carta.

O presidente Jair Bolsonaro costuma criticar as urnas eletrônicas e afirmar que houve fraudes nas eleições de 2018, que o elevou, de forma consagradora, ao cargo de Presidente da República, mas nunca apresentou provas.

Bolsonaro também passou a dizer que, sem a adoção do voto impresso, pode não haver eleições em 2022. A impressão do voto, contudo, já foi julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Bolsonaro chegou a convocar uma transmissão ao vivo para apresentar o que seriam as supostas provas, mas na ocasião admitiu não ter provas e estimulou fake News.

Da parte da Justiça Eleitoral têm ocorrido também reiterados pronunciamentos de condenação aos atos antidemocráticos focados na inconsistência da crítica ao sistema eletrônico de votação, reconhecidamente impecável. Segundo o ministro Edson Fachin, "quem vai ganhar as eleições é a democracia".

"País e sociedade agradecem. Vamos ter, dia 2 de outubro — o Brasil terá —, eleições limpas, seguras, com paz e segurança. Ninguém e nada interferirá na Justiça Eleitoral. Não admitimos qualquer circunstância que impeça o brasileiro de se manifestar", afirmou Fachin.

 

Olhar sobre o mundo por meio de frases

 

Cesar Vanucci

 

“Um governo deve sair do povo como a fumaça de uma fogueira.”

(Monteiro Lobato)

 

O mundo na visão de criativos frasistas.

As frases vindas na sequência, divertindo, informando, espalhando conhecimento, oferecendo inspiração para ruminações em torno da aventura da vida, foram ditas e escritas por gente, a seu modo e de certa maneira comprometida com o processo da construção humana. Convido o leitor e a leitora a juntos saboreá-las.

“Olho por olho e todos acabaram ficando cegos”. (Gandhi)/ “E se, de repente ficássemos sabendo que a Terra é o inferno dos demais planetas da Via Láctea?” (Aldous Huxley)/ “É mais fácil quebrar um átomo, do que um preconceito.” (Albert Einstein) / “Se o povo descobrisse como são feitas as leis e as salsichas!” (Bismarck) /” Entre Deus e o dinheiro, o segundo é o primeiro.” (Provérbio espanhol)/ “Se um cidadão permanece duas horas ao lado da mulher apaixonada parece que se passaram dois minutos. Se uma pessoa encosta o bumbum numa chaleira fervente por dois minutos parece que se passaram duas horas. Eis uma explicação simples para a Lei da Relatividade.” (Albert Einstein) / “O capitalismo é a exploração do homem pelo homem. O comunismo é o contrário.” (Woody Allen) / “Amigo meu não tem defeito. Inimigo, se não tiver, eu boto.” (Do folclore político mineiro) / “Não sou contra, nem a favor; muito antes, pelo contrário.” (Do folclore político mineiro) / “O colecionador de selos coleciona também escarros de diferentes nacionalidades.” (Pitigrilli) / “Habitamos uma ilhota perdida numa vastidão oceânica repleta de inexplicabilidades.” (Aldous Huxley) / ”O espírito humano é que nem o paraquedas, só funciona aberto.”(Louis Pauwels e Jacques Bergier)/ “Se ouço alguém perto de mim falando em revólver, saco logo minha cultura.” (Louis Pauwels, respondendo a Joseph Goebbels, líder nazista, que acabara de dizer esta frase imbecil: “Se ouço alguém perto de mim falar em cultura, saco logo o meu revólver.” /”Ame até doer.” (Madre Teresa de Calcutá) / “Na escala cósmica, só o fantástico tem probabilidade de ser real. Na escala cósmica as coisas não são tão fantásticas quanto a gente imagina, mas muito mais fantásticas do que a gente jamais poderá imaginar.” (Pierre de Teilhard de Chardin) / “Como são admiráveis as pessoas que nós não conhecemos bem.”(Millôr Fernandes) / “As pessoas comuns pensam apenas como passar o tempo. Uma pessoa inteligente tenta usar o tempo.”(Arthur Schopenhauer)/ “No adultério há pelo menos três pessoas que se enganam.”( Carlos Drummond de Andrade) / “Algumas pessoas nunca cometem os mesmos erros duas vezes. Descobrem sempre novos erros para cometer.”(Mark Twain) / “Toda pessoa fanatizada tem os pés solidamente plantados no ar.” (Theodore Roosevelt) / “As pessoas que não fazem barulho são perigosas.”(Jean de la Fontaine) / “Dê a todas pessoas seus ouvidos, mas a poucas a sua voz.” (William Shakespeare)/ “Quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento.”(Érico Veríssimo) / “As pessoas têm medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem.”(Chico Buarque) / “Quem é um manual de regras está apto a lidar com máquinas e não com pessoas.”(Augusto Cury)/” Que mundo! Poderia ser maravilhoso se não fossem as pessoas.”(Woody Allen)/ “O problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas...”(Bertrand Russell)/ “Pessoas que são boas em arranjar desculpas raramente são boas em qualquer outra coisa.”(Benjamin Franklin) / “O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferença e o silêncio das pessoas boas.” (Martin Luther King)/ “Nunca ande pelo caminho traçado, pois ele conduz somente até onde os outros já foram.”(Alexander Graham Bell) /“O pênalti é algo tão importante numa partida de futebol, que quem deveria cobrá-lo é o presidente do clube.”(Do folclore esportivo)/ ” Viver é desenhar sem borracha.”(Millôr Fernandes)

sábado, 21 de maio de 2022

 

Dom Arns confirma as sevicias

 

Cesar Vanucci

 

“Atormenta-me (...) a perspectiva de não poder

prosseguir na vida de apostolado que escolhi em meu país.”

(Carta de Madre Maurina do exílio, no México)

 

A carta dirigida por Madre Maurina ao ex-Ministro da Justiça Alfredo Buzaid, dando conta das violências a que se achava exposta no cárcere, acusada injustamente de participação em ações contrárias ao regime militar, não mereceu qualquer atenção digna de nota da parte do governo. Seu apelo angustiado esbarrou em glacial e cruel indiferença. 

Dom Paulo Evaristo Arns, falando ao “Jornal do Brasil” em 16.11.2003, confirmou as sevicias infligidas à religiosa durante o período em que permaneceu detida. Disse, a propósito: “Não negarei as evidências das sevicias sexuais, pois isso ficou demonstrado no depoimento dela e de outras presas que estavam com ela em Ribeirão Preto e também passaram por esses horrores.” 

No mesmo depoimento, o Cardeal desmentiu enfaticamente um boato maldoso posto a circular, ao que tudo faz crer, pelos próprios agentes policiais e militares que a mantinham encarcerada, a respeito de que a freira estaria grávida em consequência de seu “relacionamento promíscuo” com “companheiros de militância política”. A sórdida maquinação ia mais longe: por causa da “inconveniente gravidez”, Madre Maurina havia decidido fazer “aborto”. À vista de tudo, a Igreja “teria intercedido’, junto ao governo, para que a religiosa figurasse numa lista de presos políticos encaminhados a exílio no México em troca da libertação de um cônsul japonês sequestrado pela guerrilha urbana. 

O combativo Dom Evaristo expressou-se, anos depois, a respeito, desfazendo toda a rede de intrigas, de forma bastante categórica: - “Está na hora de acabar com as mentiras e os boatos que rondam esse episódio. Penso que a inclusão do nome de Madre Maurina na lista de presos trocados pelo cônsul japonês se deve aos próprios militares. Eles queriam, naquele momento, demonstrar para a opinião pública o quanto a Igreja estava comprometida com a causa. Essa foi a forma de desmoralizar os religiosos, exibindo-os como terroristas, numa espécie de vingança. Ela era mulher e freira. Isso chamava a atenção mais que tudo. Era como estarem dizendo: “Olha, precisamos agir, pois até as freiras já estão metidas nisso.” 

Madre Maurina ficou ainda mais arrasada psicológica e fisicamente - se isso fosse ainda possível de ser concebido face ao martírio imposto pelas arbitrariedades de que foi vítima - com o exílio forçado. Assinou declaração, reafirmando sua inocência “diante de Deus” com relação às acusações que lhe foram imputadas, dizendo não conhecer nenhum dos integrantes da lista dos prisioneiros trocados pelo cônsul geral do Japão, nem tampouco nenhuma das organizações “subversivas ou comunistas, ou o que quer que seja”, envolvidas nos acontecimentos daquela hora. Explicitou com clareza sua disposição pessoal em não sair do Brasil para qualquer outro país e, aqui, poder provar, perante a Justiça, a verdade dos fatos. 

Já no exílio no México, dirigiu apelos dramáticos ao governo militar para que lhe permitisse o retorno, “a fim de ser normalmente processada e julgada (...) e demonstrar a minha inocência.” Palavras textuais de uma das cartas que enviou às autoridades, divulgada também no JB: “Não me atormenta a perspectiva de vir a ser, eventualmente, recolhida à prisão onde me encontrava. Atormenta-me, isto sim, a perspectiva de não poder prosseguir na vida de apostolado que escolhi em meu país, de não poder abraçar e beijar as minhas irmãs de vocação e a minha família, de não poder rezar ajoelhada sobre a terra que me viu nascer, onde caminhei pela primeira vez e que, abrigará, confio em Deus, meu corpo, quando então prestarei contas de minha vida ao Senhor Nosso Pai.” 

Fica claro que esta história comporta outras considerações.

 

O exílio e o retorno

 

Cesar Vanucci

 

“Sua fé foi sempre muito grande.”

(Frei Manoel, dominicano, irmão da Madre)


Do México, recolhida aoConvento das Irmãs de São José deLyon, onde permaneceu em exílioforçado até a anistia em 1979, Madre Maurina Borges da Silveira encaminhou inúmeras correspondências às autoridades brasileiras, pedindo permissão para regressar a terra natal. Existem indícios de que, em alguns setores do governo, houve quem se desse conta, em dado instante, da necessidade de se proceder a um reexame do doloroso caso da freira impiedosamente alvejada pela boçalidade e paranoia dos agentes da lei. 

Em julho de 1971, a 2ª Auditoria da 2ª Comissão da Justiça Militar aconselhou o retorno da Madre. Esse posicionamento, unânime e inédito, foi tomado num período ainda de violenta repressão. Pode ser interpretado como indicativo de que algumas pessoas no mundo oficial mostravam-se preocupadas, de certa maneira, com o tamanho do abacaxi que teria de ser, mais adiante, forçosamente descascado na tentativa de se oferecer uma explicação para as ignomínias praticadas contra Maurina. A sentença em questão, segundo revelado pelo antigo “Jornal do Brasil”, levou em consideração que “provas colhidas em Juízo” autorizavam “a presunção de que Maurina foi incluída na lista de presos a serem trocados pelo cônsul do Japão, por insidiosa manobra de guerra psicológica, por parte dos militantes da subversão.” Na mesma decisão, fazia-se a ressalva de que a religiosa “suplicou, até o último momento”, antes do embarque rumo ao México, para que a deixassem ficar no país. De algum modo, o Ministro Alfredo Buzaid sensibilizou-se com o argumento. Chegou mesmo a elaborar exposição de motivos ao então Presidente Médici com minuta de decreto até assinada revogando o banimento da freira. O expediente ficou paralisado até junho de 76, alcançando, já aí, o governo Geisel. O sucessor de Buzaid na pasta da Justiça, Armando Falcão, deu andamento ao processo retido emitindo parecer conclusivo nos seguintes termos: “Minha opinião é contrária à concessão da permissão da vinda da interessada, por inoportuna e inconveniente. Vossa Excelência, entretanto, no seu alto critério, se dignará de decidir como mais acertado lhe parecer.” Conforme ainda o JB, Geisel decidiu. Fechou com Armando Falcão. 

Madre Maurina continuou, à vista disso, a amargar o indesejado exílio. Nessa tormentosa fase, seu pai, Antônio Borges da Silveira, veio a falecer. Negaram-lhe também o direito de comparecer ao sepultamento. 

De volta ao Brasil, beneficiada pela anistia, a religiosa retomou suas atividades na congregação franciscana, com o mesmo inquebrantável espírito de fé que marcou toda sua trajetória de vida, dedicando-se ao trabalho apostólico de sempre. 

Em 5 de março de 2011, aos 87 anos de idade, cercada do carinho das colegas de hábito, em Araraquara, Estado de São Paulo, Maurina deixou este mundo. Embora as vicissitudes enfrentadas, registradas parcialmente nesta sequência de artigos, a morte desta freira valorosa, mineira de Perdizes, condenada ao martírio num momento trevoso da história brasileira, passou inexplicavelmente desapercebida aos olhares da mídia e dos próprios órgãos de defesa dos direitos humanos. 

Tanto quanto pude constatar, o reverente pronunciamento do Deputado Adelmo Carneiro Leão, sobre sua vida e obra, na tribuna da Assembleia Legislativa, estranhavelmente sem repercussão midiática, foi o único registro significativo feito em Minas Gerais a respeito do caso. Na internet, colhi também alguns dados que serviram de fonte para a elaboração destes artigos. No mais, o que prevaleceu foi um inexplicável e sepulcral silêncio. Não sei dizer, mas ponho-me a fazer elucubrações a propósito, se essa ausência de registro, pelo menos por parte das organizações de direitos humanos, tenha decorrido de o fato da religiosa não haver, ao contrário do que a acusavam seus algozes, se inclinado por qualquer tipo de militância política. Circunstância, cá pra nós, que não deveria ser de molde também a justificar a falta de divulgação.

Na sequência o final do relato.

 

Hipocrisia e dedodurismo

 

Cesar Vanucci

 

“... pelo menos 15 crianças eram filhas de mães solteiras e ricas.”

(Revelação de Madre Maurina)

 

Frade Manoel, dominicano, pouco antes da partida de Maurina, não escondendo imensa ternura e orgulho em relação à irmã, comentou o sofrimento inaudito que seu martírio impôs à família. Contou, ainda, que numa das sessões de tortura a que foi a freira submetida, ela clamou por Deus, dizendo aos torturadores que Ele estava ali presente. Deu pra perceber que alguns deles sentiram-se, momentaneamente, abalados com aquela invocação, dando sinais de medo. 

Apesar dos suplícios porque passou, Maurina perdoou-os a todos. “Sua fé foi sempre muito grande”, é o sacerdote ainda que afirma, acrescentando que duas moças, torturadas juntamente com Maurina, vieram a se converter ao catolicismo inspiradas nos exemplos de fervor transmitidos pela religiosa no período de reclusão. 

Reservei para os leitores, no fecho deste relato acerca do martírio imposto a Madre Maurina Borges da Silveira por bestiais agentes da lei no período da ditadura, uma revelação intrigante. Tem-se aí configurado um retrato impecável da hipocrisia e farisaísmo imperantes em certos ambientes mundanos. Ambientes esses sempre propícios, em momentos de terror político, às práticas do dedodurismo encapuzado e do denuncismo irresponsável. A própria freira contou a história ao jornalista Luiz Eblak, num papo de várias horas. 

Tomei conhecimento da entrevista consultando a “Wikipedia”, logo após ser informado da notícia do falecimento da religiosa. Falecimento cercado de injustificável silêncio midiático, como já anotei, ocorrido em 5 de março 2011.

Pergunta do repórter a Maurina: - “De onde acha que vieram os boatos sobre a senhora, como o episódio de seu envolvimento com guerrilheiros?” A resposta surpreende, deixando subtendidos os malefícios irreparáveis à dignidade humana que ocorrem em momentos de desmandos autoritários.

“Tem uma coisa – registra a religiosa – que eu nunca disse a ninguém. É sobre os ricos de Ribeirão Preto. No “Lar Santana”, que eu dirigia, tinha muita criança filha de mãe solteira e rica, o que era escândalo social para a época (1969). Então, as crianças ficavam lá, mas o lugar era para os pobres. Eram cerca de cem crianças e pelo menos 15 eram filhas de mães solteiras e ricas. estavam tomando o lugar dos pobres. As famílias davam cheques para nós e tudo o mais, mas o correto era que as crianças vivessem em suas casas. O que eu fiz? Devolvi as 15 crianças. Fui à casa de cada uma delas e as devolvi. E eram mansões, casas enormes. Eu disse para as famílias: “O Orfanato é lugar de criança necessitada que precisa de um recanto para viver, que não tem pai nem mãe.” Acho que isso acabou influenciando de algum jeito o que me ocorreu depois. Não sei quem eram as famílias, mas isso deve ter tido ligação com a minha prisão.” 

A outra pergunta sobre se a freira sabia das atividades consideradas subversivas, que os estudantes desenvolviam na sala em que se reuniam no Orfanato, Maurina responde: - “Não sabia de nada. Só sabia do “Movimento de Estudantes Jovens”, mas nada mais. Nem desconfiava. Um dia, o pessoal do MEJ me pediu para fazer uma palavra sobre o amor. Nem dá pra imaginar que gente de um grupo guerrilheiro pudesse interessar por palestra de uma freira sobre amor.” 

A “Editora Vozes” lançou, há alguns anos, um livro da jornalista Matilde Lemos, intitulado “Sombras da Repressão – O Outono de Maurina Borges”. A história é baseada em entrevistas. Outro autor, Jacob Gorender, também fala do caso Maurina em seu livro “Combate nas Trevas”. 

Quem sabe se, mais adiante, alguém não se animará a produzir documentário para cinema ou televisão a respeito da tragédia de Maurina. Até mesmo como uma forma de expressar a repulsa da esmagadora maioria dos cidadãos que acreditam e confiam nos valores da democracia e no respeito aos direitos fundamentais da pessoa humana e que abominam toda forma de totalitarismo, sustentada pelo arbítrio, a esses valores e direitos.

 

 

 

 

 

 

sábado, 14 de maio de 2022

 

A espantosa tragédia da Madre

 

Cesar Vanucci

 

“Você sabe que praticamos torturas. Mas para você

não é difícil de suportar, porque a vida de freira já é uma tortura.”

(Frase ouvida por Madre Maurina durante um de seus “interrogatórios”)

 

As universitárias Gláucia e Marilda tomaram conhecimento, por um professor, que deu como fonte uma série de artigos estampados neste espaço há um bocado de tempo. Pedem-me que reproduza a série, argumentando era importante as pessoas se informarem sobre violências conta a dignidade humana cometidas em trevosos tempos ditatoriais. Atendo, começando hoje, à sugestão. 

Deu-se em 1956, se a memória não me falha, em junho. O “Correio Católico”, diário vinculado a Arquidiocese de Uberaba, com 12 mil assinantes – o que lhe assegurava, certeiramente, a condição de um dos jornais mineiros com maior poder de influência junto ao público leitor –, divulgou reportagem a respeito de uma família de Perdizes, município do Triângulo Mineiro, que se notabilizava pela especial circunstância de abrigar em seu seio quatro irmãos (dois homens e duas mulheres) que haviam optado pela vida religiosa. 

Um deles, Manoel, frade dominicano, veio a assumir o cargo de Superior na congregação. Outro, Vicente, integrante do clero regular, exerceu funções paroquiais na Província Eclesiástica de Uberaba. As duas mulheres ingressaram na ordem franciscana, consagrando-se a meritórios trabalhos com menores desamparados. Foi nessa ocasião que fiquei conhecendo pelo nome, editor-chefe que era do jornal, Madre Maurina Borges da Silveira. Seus pais, Antônio Borges da Silveira e Francelina Teodoro Borges, pequenos sitiantes, pessoas simples, rodeadas de estima e apreço no lugarejo em que viviam, criaram condições perfeitas para que a vocação religiosa dos filhos pudesse florescer. Nutriam com relação ao fato justificável sentimento de orgulho. A família era tida por todos, lembro-me bem, como um edificante modelo de virtudes no meio comunitário. 

Em 1970, 14 anos passados, ouvi pela segunda vez, de forma inesperada e num relato extremamente chocante, menção ao nome de Maurina Borges da Silveira. Conto como foi. Visitava, naquela manhã de sábado, como fazia todas as vezes em que ia a Uberaba, o Arcebispo Dom Alexandre Gonçalves Amaral. Apoderado de santa indignação, o ilustre e saudoso Prelado, uma das inteligências mais fulgurantes do Episcopado, articulando-se com outros membros da Igreja na busca de uma solução para o caso, colocou-me a par dos hediondos pormenores de uma violência inimaginável, cometida por agentes do governo contra a referida religiosa, à época diretora de uma instituição assistencial em Ribeirão Preto, o “Lar Santana”. Contando então com 43 anos, a freira franciscana foi arbitrariamente detida por truculentos membros da tristemente célebre “Operação Bandeirante”, sob a falsa acusação de apoiar um grupo armado hostil à ditadura militar. O orfanato de Madre Maurina cedia na ocasião, uma sala, para reuniões periódicas, a estudantes ligados a Ação Católica. Alguns ou todos eles, não se sabe bem, opunham-se ao regime vigente, mantendo segundo a polícia, ligações com movimentos da chamada guerrilha urbana. 

Madre Maurina, pessoa inteiramente consagrada ao mister religioso, nada sabia a respeito das ações políticas desenvolvidas pelos rapazes. Mas por conta da cessão da sala, por sinal cedida aos jovens antes mesmo de sua chegada à direção do orfanato, acabou sendo lançada, de hora para outra, no torvelinho avassalador de uma tragédia com características, pode-se dizer, kafkianas. Foi detida, barbaramente espancada, torturada, seviciada, alvo de toda sorte de humilhações. Seus algozes forçaram-na, na base da pancada, do pau de arara e do choque elétrico, a assinar declarações em que se confessava amante de militantes políticos apontados, como era de hábito na época, como subversivos. 

Mais história de Madre Maurina na sequência.

 

Um relato atordoante

 

Cesar Vanucci

 

“Eu tenho pena de deixar-te nua, na presença de todos.”

(Um dos torturadores de Madre Maurina) 

 

A espantosa tragédia de Madre Maurina Borges da Silveira, é apontada por historiadores como o episódio que conduziu o Cardeal Dom Evaristo Arns a desfraldar a bandeira da luta, anos a fio, contra as atrocidades praticadas nos “anos de chumbo”. 

Como relatado, a Madre foi presa e permaneceu incomunicável. De nada valeram as ponderações feitas em seu favor por religiosos e superiores eclesiásticos, as manifestações solidárias das pessoas que acompanhavam de perto, com admiração, a rotina de seu extraordinário trabalho apostólico, dando testemunho fidedigno de sua absorção por inteiro à bela missão assistencial a que se consagrou a partir do momento da opção pelos votos religiosos. Na reclusão foi submetida a suplícios inenarráveis. 

As atrocidades tomaram tal proporção que o então Arcebispo de Ribeirão Preto, um sacerdote desassombrado, Dom Felício Vasconcelos, atordoado face o desinteresse das autoridades governamentais em investigar as denúncias acerca das ignomínias cometidas contra a freira, diante do silêncio cúmplice e acovardado da grande mídia e do amordaçamento imposto aos demais veículos de comunicação, tomou a arriscada decisão de ocupar os púlpitos de Ribeirão Preto para condenar as felonias dos agentes policiais e militares e decretar oficialmente a excomunhão de dois dos delegados envolvidos na estarrecedora ação criminosa. Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano, “valentes” integrantes da equipe do “famoso” Sergio Fleury, foram os delegados atingidos pela penalidade canônica. 

Conservada em cativeiro por longo tempo, a inocente criatura, uma vida inteira de devoção religiosa arraigada, foi vítima de toda sorte de sevicias no curso de intermináveis “interrogatórios”. Seu drama comoveu os membros do Episcopado, inspirando Dom Arns, apoiado por líderes de outras correntes religiosas, o Pastor protestante James Wright entre eles, utilizando os escassos recursos de expressão disponíveis naquele período trevoso, de restrições severas às liberdades e de total desprezo aos direitos fundamentais, a bater de frente com os responsáveis pelas barbaridades cometidas nos porões do regime. A essa época começou a tomar forma o histórico documento intitulado “Tortura, nunca mais”, que cataloga parte dos tenebrosos atentados daqueles tempos contra a dignidade humana. 

O que se vai ler na sequência são trechos de carta, de 17 de dezembro de 1969, que Madre Maurina, conforme registrou o “Jornal do Brasil”, edição de 16.11.2003, encaminhou ao então Ministro da Justiça, relatando parte do sofrimento que lhe infligiram.

“Invocando a Deus como testemunha da verdade de minhas palavras venho relatar a V. Exa. as torturas a mim inflingidas por agentes da Polícia de São Paulo(...) Confesso não ser fácil, mas o farei para que V. Exa. tome providências no sentido de evitar (...) que pessoas inocentes sofram injustamente. Fui conduzida ao Quartel Militar de Ribeirão Preto, às 14h do dia 25 de outubro (...). Comecei logo a falar sobre o que sabia do movimento de juventude existente em minha casa, pois ignorava o tão falado terrorismo. Foi através dos elementos que me interrogavam que aprendi o que era terrorismo. (...) Interrompiam-me a cada instante, com gritarias e ameaças, usando uma terminologia, a qual sinto-me envergonhada de repeti-la. "Você sabe que usamos de torturas, mas para você não é difícil suportar, porque a vida das freiras já é uma tortura". “É tão cínica, como pode se fazer de tão inocente, sua freira do diabo.” “Você não é filha de Deus. Fica sabendo que teremos o prazer de prender bispos e padres” (...). ”Você não é mais virgem. Vamos fazer um exame ginecológico.” (...) Davam risadas sarcásticas. (...) Silenciei, escutando tudo aquilo, sem compreender o seu significado. (...)

Na sequência a outra parte deste arrepiante documento.

 

A carta de Madre Maurina

 

Cesar Vanucci

 

''Veja se você não vai esquecer do seu Deus!”

(Palavras de um dos torturadores)

 

Estes os dizeres do restante da carta de Madre Maurina ao Ministro da Justiça.

“Dr. Fleury perguntou-me: ''Você é amante do Mário Lorenzato? Responda afirmativo, é o suficiente, estará resolvido. Vai me dizer que é diferente dos outros!'' Jamais poderia afirmar uma tal mentira. (...) Foi então que ligaram a máquina de choques e se divertiram às minhas custas. (...) Apareceu na sala, um sargento dando ordens para que todos se retirassem, dizendo: ''Sou eu que vou conversar com a irmã. Vou deixá-la por enquanto por conta desses dois rapazes.'' (...) Fui conduzida para a cela, juntamente com duas moças. (...). Não as conhecia. Foi neste grupo que me incluíram como se eu fosse terrorista. (...) Como religiosa, acostumada a uma vida organizada, em ambiente de respeito, muito me custou suportar (...) de um lado os soldados repetindo (...) insultos de baixo calão (...) e, de outro, os ruídos da famosa sala de interrogatórios, de onde, continuamente, ouviam-se os gritos lancinantes dos torturados e os barulhos dos espancamentos. (...) Fui levada à presença de uma pessoa loura, de olhos azuis, estatura média (...), disseram que era um sargento. (...) Eles se chamavam de "doutores", vestiam-se à paisana e usavam apelidos, suponho que para fugirem à identificação (...) Achei que estivesse meio bêbado, sentia-se o repugnante cheiro de álcool. Senti pavor de ficar em sua presença, mas, tive de ficar, ali, fechada naquela sala, (...) atormentada por suas provocações. Entre outras coisas, dizia: ''Irmã querida, posso te chamar de irmã, não é? Eu te quero muito. Vem pertinho de mim. Pelo amor de Deus, fala tudo. Eu quero te dar uma colher de chá, ou melhor, dá-me uma colher de chá. Eu tenho pena de deixar-te nua na presença de todos. É chato para mim. Vamos, me dá uma colher de chá... Pensa que eu estou há dias longe da minha mulher!'' (...) Abraçava-me, tentava esfregar suas mãos nas minhas e procurava tocar os meus joelhos. Eu sentia uma repugnância terrível e não via a hora de livrar-me daquele homem. Insistia para que eu me confessasse conhecedora do movimento (...) Sempre com as mesmas atitudes (...) e com carícias dissimuladas, sentou-se displicentemente sobre a mesa, ordenando que eu me aproximasse dele. (...) Senti-me completamente atordoada, sem condições de coordenar idéias. (...) Aquele homem perguntou-me: “Você é socialista?'' O meu ideal é religioso, e, por ele hei de trabalhar até o fim da minha vida. Ninguém poderá modificá-lo, pois minha promessa foi feita a Deus e não aos homens. (...) Na cadeia de Cravinhos permaneci 25 dias incomunicável. Apesar da insistência de meus irmãos (...) para obterem notícias minhas, não permitiram que nos comunicássemos. Nem tampouco foi permitido a minha superiora provincial falar comigo. (...) Tive a impressão de estar abandonada por todos. (...) Outro tormento foi a falta de assistência religiosa.(...) Solicitei a presença de um sacerdote para levar-me o sacramento da Eucaristia. Não o permitiram, dizendo: Também isso faz parte do castigo!'' (...) No dia 18 de novembro, depois de muita insistência, permitiram que, por 10 minutos, (...) eu pudesse falar com o meu irmão. Dias depois pude ver a Madre Provincial, (...) também sob a vigilância de policiais. (...) Interrogada pelo Dr. Lamano, um dos delegados regionais, este tratou-me grosseiramente, dando-me pancadas no rosto, querendo forçar-me a dizer o que eu não havia feito. Não me foi possível esclarecer nada: tudo era feito na base da gritaria e pancada(...). A certa altura, o delegado gritou: ''Veja se você não vai esquecer do seu Deus! Agora vai apanhar juntamente com o rapaz seu protegido!'' Trazendo o rapaz à minha presença, o delegado intercalava, às perguntas, pancadas no moço e em mim. (...) Aqui tem, Exa, um relatório que lhe apresento, como desencargo de consciência, pois espero com ele estar contribuindo para que outros não venham a sofrer os vexames e maus tratos a mim dispensados. Como brasileira e cristã que sou, gostaria imensamente que fossem usados métodos eficientes na aplicação da justiça, inspirada (...) no respeito à dignidade da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus.”

sábado, 7 de maio de 2022

 

A devastação que não cessa

 

Cesar Vanucci

 

“Em 2021, novo recorde.”

(Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia)

 

A extensão territorial do estado de Sergipe é de 21.938,184 km2. É maior do que vários estados membros da ONU. Saber que área equivalente à metade da superfície de Sergipe foi em apenas um ano, criminosamente devastada na compacta floresta amazônica, por queimadas e motosserras é de estarrecer não apenas um frade de pedra, mas, sim, todo o portentoso conjunto de estátuas sagradas esculpidas em pedra sabão pelo genial Aleijadinho no majestoso adrio do santuário de Bom Jesus de Matozinhos, na barroca Congonhas do Campo.

 

Esses dados alarmantes, representando novo recorde no rastro da destruição florestal incontrolada, que tanto envergonha o Brasil perante a comunidade internacional, foram divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) retratando o que andou ocorrendo naquelas bandas em 2021. A revelação se torna ainda mais chocante quando se dá a conhecer que os quantitativos da mata nativa devastada no período são superiores em 20% aos índices, também “recordes” do ano anterior. Aliás, os recordes vêm sendo batidos desde muito tempo para cá, inquietando a opinião pública, perplexa diante da inoperância governamental em deter a ilegalidade praticada, a rédeas soltas, por hordas de invasores envolvidos em clandestinas atividades de exploração agropastoril, extração de madeiras e de minérios, e garimpagem de ouro.

 

Os especialistas em meio ambiente chamam a atenção, continuamente, para as gravíssimas consequências dessa sanha destruidora impactando a maior reserva florestal do planeta acompanhada com preocupação, em todas as partes do mundo, citando como ocorrências indesejáveis delas derivadas, entre outras, alteração do regime de chuvas, a perda da biodiversidade, a ameaça à sobrevivência de povos e comunidades tradicionais e a intensificação do aquecimento global.

 

De acordo com os levantamentos acerca do candente problema, o Pará manteve a primeira colocação na lista dos que mais desmatam, com 4.037 km² devastados, 39% do registrado em toda a Amazônia. No estado, houve aumento da derrubada da floresta tanto em áreas federais quanto estaduais. Além disso, mais da metade das 10 terras indígenas e das 10 unidades de conservação que mais desmataram em 2021 ficam em solo paraense.

 

O Amazonas, segundo estado que mais desmatou em 2021, foi o que apresentou o maior crescimento na devastação em relação ao ano anterior.  A destruição registrada em solo amazonense passou de 1.395 km² em 2020 para 2.071 km² em 2021, alta de 49%. Também ali registrou-se aumento do desmatamento tanto em áreas federais quanto estaduais.

 

Mato Grosso aparece como o terceiro estado que mais devastou.  Foram 1.504 km² no período, 38% a mais.

 

Rondônia (1.290 km²) e Acre (889 km²) ocuparam a quarta e quinta colocações, mas o Acre foi o terceiro com o maior aumento em comparação com o ano precedente: 28%.

 

Conforme as mesmas fontes, as pesquisas cruzaram dados das áreas desmatadas com o banco de dados do Cadastro Nacional de Florestas Públicas do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), constatando que 4.915 km² foram revolvidos em territórios federais. Isso corresponde a 47% de todo o desmatamento registrado no periodo. Apenas nessas áreas, a destruição aumentou 21% comparativamente com 2020, sendo a pior em 10 anos, disse o instituto.

 

As unidades de conservação federais também viram o desmatamento avançar por seus territórios: Em 2021, foram devastados 507 km² de mata nativa dentro dos espaços protegidos, 10% a mais. Nesses territórios, a devastação também atingiu o pior patamar da década, sustentaram os responsáveis pelos trabalhos de pesquisa.

 

A insuficiência e inoperância nas ações têm sido a resposta dada pelos setores governamentais a essa momentosa questão da Amazônia. Meio Sergipe por ano é dose mastodôntica. Quão gritante tudo isso!

 Pesquisas, articulações e eleições

 

Cesar Vanucci

 

“Política é uma arte cheia de surpresas e sutilezas”.

(Antônio Luiz da Costa, educador)

 

Como diz o outro, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Pesquisa eleitoral é uma coisa. Eleição, outra coisa. As pesquisas sobre intenção de votos refletem tendência de um momento determinado, estando sujeitas, por força de variadas contingências, a serem alteradas no curso de uma caminhada pré-eleitoral. As eleições, traduzindo decisão amadurecida representa a palavra final, a vontade popular suprema e o processo político de escolha dos governantes. Os resultados das pesquisas, em boa (talvez a maior) parte das vezes podem exprimir números que acabam sendo confirmados nas urnas eletrônicas. Mas acontece, também, conforme as circunstâncias, essa confirmação não ocorrer. Um exemplo eloquente do que acaba de ser dito aconteceu no pleito que resultou na eleição, anos atrás, de Célio de Castro à Prefeitura de Belo Horizonte. Até o dia da votação as pesquisas apontavam como inevitável sua derrota. Mas ele acabou triunfando em todas as seções eleitorais.

 

Na atualidade, todos os institutos empenhados em consultas sobre as preferências dos eleitores com relação ao pleito de outubro vindouro apontam a possibilidade de Luiz Ignácio Lula da Silva retornar à presidência do Brasil, em disputa polarizada com o atual mandatário Jair Messias Bolsonaro. Nessas consultas por amostragem, as perspectivas de êxito do candidato petista contemplam sempre 1º e 2º turnos. Na realidade, o quadro de candidatos ainda não está totalmente definido. Um conjunto de agremiações partidárias, envolvendo entre outras o PMDB e o PSDB, promove articulações em torno da hipótese de lançamento de uma candidatura comum que possa constituir, segundo admitem esses núcleos políticos, uma terceira via capaz de enfrentar a polarização à vista entre Lula e Bolsonaro. E existe ainda, correndo, como se diz, por fora, classificado nas pesquisas em terceiro lugar o candidato do PDT, ex-governador e ex-ministro Ciro Gomes. Como se vê, em meio às pesquisas em curso há muita confabulação, articulação, negociação rolando no espaço político, não se pode perder de vista que política é um jogo astucioso repleto de manobras desconcertantes, sutilezas e surpresas. Os sinais são de que há ainda um bom volume de água escorrendo por debaixo da ponte. Esperar pra ver no que vai dar tudo isso.

A SAGA LANDELL MOURA

Chegada a hora

  Chegada a hora Cesar Vanucci *   “Eleição é um teste cívico periódico para se manter a boa saúde democrática.” (Antônio Luiz da Co...