sábado, 14 de maio de 2022

 

Um relato atordoante

 

Cesar Vanucci

 

“Eu tenho pena de deixar-te nua, na presença de todos.”

(Um dos torturadores de Madre Maurina) 

 

A espantosa tragédia de Madre Maurina Borges da Silveira, é apontada por historiadores como o episódio que conduziu o Cardeal Dom Evaristo Arns a desfraldar a bandeira da luta, anos a fio, contra as atrocidades praticadas nos “anos de chumbo”. 

Como relatado, a Madre foi presa e permaneceu incomunicável. De nada valeram as ponderações feitas em seu favor por religiosos e superiores eclesiásticos, as manifestações solidárias das pessoas que acompanhavam de perto, com admiração, a rotina de seu extraordinário trabalho apostólico, dando testemunho fidedigno de sua absorção por inteiro à bela missão assistencial a que se consagrou a partir do momento da opção pelos votos religiosos. Na reclusão foi submetida a suplícios inenarráveis. 

As atrocidades tomaram tal proporção que o então Arcebispo de Ribeirão Preto, um sacerdote desassombrado, Dom Felício Vasconcelos, atordoado face o desinteresse das autoridades governamentais em investigar as denúncias acerca das ignomínias cometidas contra a freira, diante do silêncio cúmplice e acovardado da grande mídia e do amordaçamento imposto aos demais veículos de comunicação, tomou a arriscada decisão de ocupar os púlpitos de Ribeirão Preto para condenar as felonias dos agentes policiais e militares e decretar oficialmente a excomunhão de dois dos delegados envolvidos na estarrecedora ação criminosa. Renato Ribeiro Soares e Miguel Lamano, “valentes” integrantes da equipe do “famoso” Sergio Fleury, foram os delegados atingidos pela penalidade canônica. 

Conservada em cativeiro por longo tempo, a inocente criatura, uma vida inteira de devoção religiosa arraigada, foi vítima de toda sorte de sevicias no curso de intermináveis “interrogatórios”. Seu drama comoveu os membros do Episcopado, inspirando Dom Arns, apoiado por líderes de outras correntes religiosas, o Pastor protestante James Wright entre eles, utilizando os escassos recursos de expressão disponíveis naquele período trevoso, de restrições severas às liberdades e de total desprezo aos direitos fundamentais, a bater de frente com os responsáveis pelas barbaridades cometidas nos porões do regime. A essa época começou a tomar forma o histórico documento intitulado “Tortura, nunca mais”, que cataloga parte dos tenebrosos atentados daqueles tempos contra a dignidade humana. 

O que se vai ler na sequência são trechos de carta, de 17 de dezembro de 1969, que Madre Maurina, conforme registrou o “Jornal do Brasil”, edição de 16.11.2003, encaminhou ao então Ministro da Justiça, relatando parte do sofrimento que lhe infligiram.

“Invocando a Deus como testemunha da verdade de minhas palavras venho relatar a V. Exa. as torturas a mim inflingidas por agentes da Polícia de São Paulo(...) Confesso não ser fácil, mas o farei para que V. Exa. tome providências no sentido de evitar (...) que pessoas inocentes sofram injustamente. Fui conduzida ao Quartel Militar de Ribeirão Preto, às 14h do dia 25 de outubro (...). Comecei logo a falar sobre o que sabia do movimento de juventude existente em minha casa, pois ignorava o tão falado terrorismo. Foi através dos elementos que me interrogavam que aprendi o que era terrorismo. (...) Interrompiam-me a cada instante, com gritarias e ameaças, usando uma terminologia, a qual sinto-me envergonhada de repeti-la. "Você sabe que usamos de torturas, mas para você não é difícil suportar, porque a vida das freiras já é uma tortura". “É tão cínica, como pode se fazer de tão inocente, sua freira do diabo.” “Você não é filha de Deus. Fica sabendo que teremos o prazer de prender bispos e padres” (...). ”Você não é mais virgem. Vamos fazer um exame ginecológico.” (...) Davam risadas sarcásticas. (...) Silenciei, escutando tudo aquilo, sem compreender o seu significado. (...)

Na sequência a outra parte deste arrepiante documento.

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