sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Decisão recebida com alivio

Cesar Vanucci *

“O mundo inteiro está alegre.”
(Delfim Neto)

Para um punhado de pessoas com razoável grau de percepção das vivências políticas o resultado de uma eleição presidencial nos Estados Unidos não altera substancialmente coisa nenhuma. Tudo tende, no frigir dos ovos, a permanecer como dantes no quartel de Abrantes. Distinguir uma eventual mudança na Casa Branca não é mole. O sabor da alteração equivaleria, comparativamente, ao de se deixar de tomar pepsi pra beber coca-cola.

Muitos sustentam, também, arrolando exemplos frisantes, que Barack Obama deixou uma esteira de frustrações neste primeiro mandato. O desempenho do simpático mandatário mostrou-se aquém das expectativas erguidas àquela hora singular de sua chegada impetuosa, salpicada de esperanças, ao palco internacional.

Tudo isto posto, bem avaliadas as circunstâncias da conjuntura mundial, considerados os senões, alguns desacertos, os descompassos entre promessas e realizações, entre discurso e prática na postura do Presidente, não há como, entretanto, deixar de reconhecer que a escolha eleitoral dos norte-americanos foi ajuizada. Recebida com sensação de alivio em todos os cantos deste planeta azul. O triunfo democrata foi conquistado contra adversário de postura retrograda. Alguém que não hesitou em desfraldar, com ânimo de cruzado belicoso, a bandeira radical de um conservadorismo arrepiante. As teses por ele levantadas, debaixo das ovações de fiéis seguidores, revelaram-se fruto de crenças fundamentalistas desvairadas. Alvejam em cheio anseios generosos da sociedade humana, ávida por paz, desenvolvimento e prosperidade social. Visceralmente comprometido com ortodoxia econômica desalmada, insensível à problemática social, o republicano Mitt Romney deixou inequivocamente gravada no espírito das ruas a disposição de retomar, à frente dos destinos da maior potência do mundo, a mesma desastrada política intervencionista de seu correligionário, o xerife George Bush. Uma política que arrastou o país a uma crise econômica perturbadora e aos atoleiros do Iraque e do Afeganistão. Não manteve oculto, igualmente, em momento algum, o empenho em atropelar as boas políticas sociais em implantação ou expansão promovidas por Obama no âmbito interno. Disse, com clareza de atitudes e de palavras, a que vinha: incrementar o radicalismo em todas as áreas da convivência humana, adotando as regras e conceitos medievais freneticamente apregoados pelo “Tea Party”, grupo hoje dominante nas fileiras republicanas. Um tipo de gente que está para a cultura religiosa e política do conservadorismo norte-americano assim como o talebanismo está para a cultura política e religiosa do islamismo.

A histórica reeleição de Obama comporta observações que não podem passar despercebidas. Os mais de 60 milhões e 500 mil votos por ele recebidos procederam de redutos isoladamente minoritários. Grupos étnicos (hispânicos, negros, asiáticos), grupos jovens, grupos femininos, grupos comprometidos com movimentos contestatórios aos padrões de puritanismo vigentes na vida americana. As minorias compuseram um conjunto de forças majoritário, que se contrapôs, na hora da escolha, àquelas parcelas da sociedade avessas a propostas reformistas, de certa forma preconceituosas, quando não declaradamente racistas, que mesmo não representando, com toda certeza, a integralidade dos votantes de Mitt Romney, constituem parte respeitável de seu contingente de apoio.

Como salientou Delfim Neto, com a eleição de Obama o mundo está alegre. “A exceção – acentua – são os 48% brancos saxônicos e protestantes (os Wasp) que não conseguiram retornar ao século XIX.”


Até em mandarim?

 “É a nossa língua, o nosso modo normal de expressão,
a nossa língua literária e artística.”
(Rachel de Queiroz)

Já disse, já repeti e voltarei a dizer quantas vezes achar necessário. O emprego de expressões estrangeiras para classificar coisas óbvias do cotidiano representa rematada panaquice. Prova de indigência intelectual. Pauperismo cívico e subserviência cultural. Querem saber mais? Frescuragem ampla, geral e irrestrita.

Incomoda pacas, ao cidadão comum, a poluição “sonora”, em não poucas ocasiões agregada à poluição visual, de certos painéis de rua – impropriamente chamados de “out doors” -, de panfletos – impropriamente apelidados de “folders” - traduzida em mensagens publicitárias onde as palavras utilizadas, habitualmente num inglês “morolés”, só guardam similitude com o idioma falado nas ruas por conta das letras do alfabeto.

Tem nada demais levantar com constância assunto tão momentoso. Carradas de razão assistiam a Napoleão quando proclamava, com a mão mergulhada no peito sob o dólmã medalhado, que a repetição é a melhor retórica. A repetição de um conceito, de uma idéia faz, muitas vezes, nascer a luz do entendimento.

Para o cidadão comum é, também, motivo de compreensível desassossego bater com os olhos, numa loja qualquer, com o anúncio em letras garrafais, coloridas, estampado na vitrina, de queima de mercadorias com aqueles indefectíveis “sale” e “off” concebidos com base em leviandade e macaquice. O mesmo a anotar naqueles casos em que se topa, nos lavatórios de restaurantes e botecos, com arrepiantes placas de “lady” e “gentleman”.

Dias passados, percorrendo longo trecho da cidade, dei-me ao trabalho de listar, olhos fitos nos letreiros dos estabelecimentos, uma pá de barbaridades vocabulares perpetradas por conta desse modismo abestalhado. Contei mais de 150 registros fora dos trinques, distribuídos pelos logradouros principais de vários bairros. Constatei que a grande concentração das desbragadas extravagâncias, fruto de deslumbramento que garante aos autores direito a carteirinha de néscio irrecuperável, fica localizada na região sul. Provavelmente, pela impressão que se tem de ser o setor melhor apetrechado para o atendimento de demandas de consumo pretensamente requintadas e sofisticadas, ora, veja, pois... Nas outras regiões o índice das censuráveis manifestações é consideravelmente menor. Taí, convenhamos, material de primeira, manancial exuberante pra elaboração de uma tese sociológica em que possa ser avaliado o grau de comprometimento de grupos e pessoas, de variadas categorias sociais, com os autênticos valores culturais brasileiros.

O mal-estar produzido por esse linguajar de importação, composto predominantemente de anglicismos, verbalizado em doses elevadas de pernosticismo, chega até as pessoas também pelo rádio, pela televisão, jornal, convites impressos. Quantas vezes, no dia-a-dia, o pedante modismo não é praticado pertinho da gente? Vocábulos de nosso belo idioma - que é a própria pátria -, dentro desse malfadado processo de macdonaldização linguística, são descerimoniosamente substituídos pelos intragáveis e incompreensíveis “inside”, “feelings”, “brunchs”, “coffee break”, “feedback” ; “book”, “paper” e por aí vai.

Indaoutrodia inteirei-me de um desconcertante conflito romântico provocado por essa onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Relato a história, alterando os nomes dos personagens. Hildo e Marion estavam de casório marcado. Proclamas publicados, igreja, florista, fotógrafo, canto coral, coquetel contratados, padrinhos convidados, viagem de núpcias paga, convites expedidos. Dias antes do badalado evento, a coisa melou. O noivo arrepiou carreira de repente. Não mais do que de repente. Provocou, naturalmente, uma pororoca de contrariedades e transtornos. Foram cobrar do moço explicação acerca do inusitado gesto. Mandando o constrangimento inicial às favas, ele resolveu contar tudo, tintim por tintim. Informou haver alertado a noiva, em repetidas oportunidades, sobre seu desagrado pessoal com relação às expressões de carinho, por ela – adepta fervorosa desse modismo ridículo - desovada aos berros, em instantes especiais de intimidade. O aborrecimento do noivo decorria, sobretudo, do fato de serem emoções transmitidas em versões estrangeiras. Tipo: “I love you”, “Je t'aime”, “Quiero te mucho”. Mas o que decretou mesmo a discórdia definitiva foi a fala de Marion no clímax do último encontro dos dois. Aos brados, ela sapecou uma frase esquisitíssima e, pelo que se ficou sabendo mais tarde, extraída do mandarim que a moça vem aprendendo com uma professora chinesa do prédio em que mora: “Uo ran ai mi”.

Segundo o Hildo, “o clima passou de verão primaveril brasileiro a espesso outono siberiano. O encantamento escorreu pelo ralo, a relação espatifou. “Uo ran ai mi” foi demais. Não deu pra segurar.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Histórias inventadas

Cesar Vanucci *

“Muitos acontecimentos reais parecem
 inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)


A Internet abriu para a criatividade humana horizontes de amplitude inimaginável. Ruth de Aquino, colunista da revista “Época”, brinda-nos na edição de 8.10.12, no artigo “Sexo, mentiras e Internet”, com um conjunto de informações saborosissimas, recolhidas em meticulosa avaliação que se deu ao trabalho de promover em torno de algumas histórias inusitadas, propagadas com intensidade nas redes, que não passam, no frigir dos ovos, de invencionices armadas com o intuito de divertir. Mas sem que a maioria dos leitores se dê conta, minimamente, de seu teor fantasioso.

Como é explicado, com riqueza de pormenores no artigo, um bocado de pessoas com pendores para relatos engraçados, tem feito uso permanente dos inesgotáveis recursos dessa engrenagem midiática fabulosa, para exercícios delirantes de ficção, revestindo-os enganosamente, com certo charme, de um manto de veracidade. O embuste acaba colando e, muitas vezes, produzindo reações em cadeia inacreditáveis.

O protagonismo do Professor Fabio Flores, capixaba, 39 anos, escritor talentoso, nesse tipo de atividade intelectual, recebe atenção especial da articulista. Esmiuçando seu trabalho, ela o apresenta como um confesso criador de notícias falsas que não pretendem causar mal algum. Aliás, na concepção do próprio, inventor de historinhas que compõem um 1º de abril eterno, não se trata de notícias falsas, mas de notícias fantasiosas.

Muitas delas são conhecidas, por certo, da maioria dos leitores, tendo em vista o grau da repercussão alcançada, até mesmo no exterior. O autor dá nomes, cita lugares, descreve situações, fornece referências. Torna tudo, à uma primeira leitura, irrepreensível, fechando as portas para dúvidas.

Confessa-se verdadeiramente realizado, como criador de cenas e personagens, naqueles momentos especiais, quando, por força da divulgação assumida pelo caso, a história ganha vida própria, desencadeando discussões, provocando reações, sendo trazida a debate público. Essa passa a ser uma hora de comemoração. A invenção adquire a “legitimidade” desejada. Como os personagens só existem mesmo na cachola de quem as escreve, os relatos tendem a não causar dano a ninguém. O alvoroço levantado pelos “causos” pode, sim, dar vaza a efervescente troca de opiniões, a teses, como tantas vezes já ocorreu, mas não deixa de proporcionar aos envolvidos nas eventuais pendengas frutos de natureza pedagógica.

São numerosas as histórias boladas por Fabio e outros comunicadores que atuam nessa mesma excitante linha ficcionista que ganharam ressonância. Aqui estão algumas.

Lembram-se daquele cara que se separou da mulher, numa pequena cidade do interior, para convolar núpcias com o cunhado, um pastor? Foi um desses relatos inventados que tomou espaço considerável na mídia, inclusive no estrangeiro. E aquela outra história da mulher que impetrou ação judicial contra um sacerdote que se recusou a casá-la sob a alegação de que ela não estaria usando calcinha na hora de subir ao altar? Ou, ainda, aquele caso de outra personagem feminina que também bateu nas portas da Justiça, pedindo indenização pela circunstancia de haver sido dispensada do emprego sob a alegação do patrão de que se masturbara no banheiro durante o expediente? Se a memória do leitor está afiada, ele haverá de se recordar que esses dois temas, por incrível que possa parecer, foram parar na televisão, com bate-papos acalorados.

Não será, igualmente improvável que o próprio leitor surpreendido com o conhecimento dessas impensáveis “invenções de moda” já não tenha, nalgum momento, sido chamado, numa roda de conhecidos, a externar sua opinião sobre um desses episódios inusitados, passados marotamente ao distinto público como verazes. E, ao fazê-lo, não haja até se socorrido de argumentos sólidos para defender ou contestar o fato. Isso aí, gente boa. A vida é assim. Muitos acontecimentos reais parecem inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer, como lembra o Professor Antônio Luiz da Costa.


Quem ganhou as eleições


“Nesse pleito, Lula confirmou o que já é do conhecimento
 até do mundo mineral. (...) Trata-se da personalidade mais
 forte da história política do País. (...)Dilma segue-lhe os passos.”
(Mino Carta, jornalista)

Por mais que a grande mídia nativa, por indisfarçável pirracice, se recuse a admitir, Lula e Dilma, seguidos de líderes da base aliada governamental, foram os grandes vitoriosos das eleições. Soou embaraçoso e, mais do que isso hilário, o frenético e sintomático esforço de alguns comentaristas de televisão, durante a marcha das apurações, no sentido de comparar o estrondoso triunfo eleitoral alcançado em São Paulo e adjacências com as derrotas sofridas pelo lulismo em Diadema e Salvador. O lance foi visto, ao lado de outros, como amostra loquaz da resistência obstinada que setores influentes na formação da opinião pública costumam oferecer à idéia de reconhecer a popularidade avassaladora, sem precedentes, em nossa história política, do ex-pau-de-arara e ex-metalurgico por duas vezes eleito Presidente. Resistência essa – não dá pra ocultar com sofismas – ancorada, antes de tudo mais, no preconceito cultivado quanto à sua origem pau-de-arara e operária.

Estabelecida essa constatação, há que se admitir também que os resultados eleitorais, face à complexidade das engrenagens políticas, oferecem sempre margem a interpretações as mais variadas. Isso conduz, no tocante ao pleito recente, à admissão de que a lista dos vitoriosos com visibilidade nacional está acrescida de outros nomes mais. A começar de confessos aliados de Lula e Dilma. O governador Eduardo Campos, neto de Miguel Arrais, desponta entre eles. Figura de maior expressão do PSB, partido da base, expandiu consideravelmente sua influencia na vida política brasileira, com vitórias bastante expressivas, algumas até em posição confrontante com a do governo central. Cacifou-se para voos mais ousados no cenário político. Outro governador de Estado, também engajado nas hostes governamentais, que viu aumentar o peso de sua participação nas decisões partidárias e na ação administrativa central, é Sérgio Cabral, do Rio de Janeiro.

As próprias hostes oposicionistas, que experimentaram no conjunto, assinaladamente, o sabor acre de contundente derrota nas porfias mais importantes, nada obstante o alentador apoio midiático recebido de forma maciça no curso da campanha, puderam apontar, no final das apurações pelo menos uma situação triunfal entre suas grandes lideranças. É o caso do senador Aécio Neves. Menos pelas vitórias obtidas numa que outra cidade mineira em que deixou explicito seu apoio a candidaturas, o ex-governador viu-se alçado, pelas circunstâncias especiais do desempenho sofrível das lideranças tucanas paulistas, à condição de protagonista central de seu grupo partidário no jogo político brasileiro, daqui pra frente.

As eleições criaram também oportunidade para que outra liderança, apesar da derrota sofrida, ganhasse curiosamente chance toda especial de ascensão no cenário político. Caso do Prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, fundador e dirigente do PSD.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A aventura vital de JK

Cesar Vanucci *

“De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos.”
(Afonso Arinos)

Recebi, via Internet, um punhado de mensagens para votar em JK, na consulta popular recentemente promovida pelo SBT. A consulta como sabido, acabou apontando no topo das preferências a figura, por todos os títulos admirável, de Chico Xavier como o maior brasileiro de todos os tempos.

Avaliando os feitos do grande estadista, (110 anos transcorridos de seu nascimento, agora em outubro) não me atenho em dúvidas ao proclamar, que o Nonô, de Diamantina, foi o personagem mais fascinante e influente da vida nacional do século XX. Acode-me à lembrança, a propósito, um presságio bastante lúcido de Afonso Arinos, adversário do genial construtor de Brasília, ao admitir que, dos políticos de sua geração, Juscelino seria o mais reverenciado futuramente na memória popular, por sua extraordinária aventura vital. As comemorações de seu 110º aniversario, neste justo momento, atestam o acerto da previsão.

A primeira imagem que dele conservo remete-me à sua apresentação ao eleitorado de Uberaba, como candidato ao governo de Minas. Gabriel Passos, brilhante opositor, havia passado por lá dias antes, deixando vigorosa impressão. No comício de JK aconteceu algo eletrizante. Uma espécie de prenúncio daquilo que aprenderíamos a identificar como marca registrada inconfundível dos tempos de euforia cívica que estavam chegando O comício teve todos os ingredientes típicos de uma boa festa do gênero. Faixas, banda, rojões, palavras de ordem ditadas pelo alto-falante. Entre uma e outra execução musical – marchas trepidantes culminando com o indefectível “Oh, Minas Gerais” – os oradores procuravam aquecer o público com tiradas retumbantes, na tentativa de suplantar o bom desempenho anterior do palanque adversário. Esmeravam-se na preparação da entrada em cena da estrela principal. Nesse aspecto, como em tantos outros, o time do PSD revelava-se mais competente que o da UDN.

Pintou o grande momento. O locutor, a voz empostada, caprichando na pronúncia dos “erres” e “esses”, anunciou pelas poderosas “ondas” da emissora local “ a palavra do futuro governador do Estado de Minas Gerais, o excelentíssimo senhor doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira!”

O que aconteceu na sequência não dá pra contar em todos os detalhes. A comunidade assistiu, emocionada, o mais empolgante espetáculo político de seus então quase cem anos de emancipação política. As palavras jorravam com a impetuosidade de uma catarata, lavando a alma das pessoas, tocando os brios da cidadania, povoando de esperanças animadoras perspectivas de trabalho, inundando de entusiasmo redivivo crenças adormecidas no amanhã do país. Todos se comportavam como parceiros orgulhosos na arregimentação das forças vivas da sociedade para uma aventura diferente em termos de progresso. Era o que estava sendo proposto por aquele quase desconhecido. Nos semblantes, olhares cúmplices, a sensação deleitosa da descoberta fascinante de uma nova e carismática liderança.

Cada qual se sentia mais gente, mais capaz e confiante. Então o Brasil era ou podia ser tudo isso e a gente, bestamente, não sabia de nada? Instante de pura magia. Atmosfera contaminante de benfazejo entusiasmo. Um entusiasmo que acabaria por envolver, com o correr dos tempos, o Brasil de norte a sul. O magnetismo do orador traçava impecável roteiro de trabalho, encharcado de humanismo e poderoso aceno social. E o que não dizer do toque lírico da palavra incomparável? As tais borboletas que ele sabia como ninguém introduzir nos textos de conteúdo mais áspero. Corações e mentes iam sendo conquistados para a causa do redescobrimento do Brasil.

O momento culminante no comício de Uberaba correu por conta de incrível exagero retórico, acolhido em atmosfera de delírio própria de conquista da Copa do Mundo. Tantos anos passados, as palavras acodem-me ainda com exatidão. Assim falou JK. Abre aspas. Ao sobrevoar hoje esta maravilhosa cidade, lembrei-me de Chicago. Fecha aspas.

O discurso acabou ali. Não deu pra segurar. Uma meia dúzia de uns três ou quatro mais ousados, escalaram pela frente o palanque, balançando-lhe a estrutura. Entre eles, se bem recordo, estavam o Braz, dono de cafeteria, o Bolão, dono de banca de açougue no Mercado, o Maurício, pintor de paredes, dono de uma voz que enchia de encantamento as noites de seresta da turma chegada à boêmia. Juscelino refez-se da surpresa inicial e caiu na gargalhada ao ser arrancado pra fora e carregado em triunfo diante do aturdimento dos companheiros. A cidade viveu um carnaval temporão mais animado do que o convencional. Algo parecido com festejo carnavalesco de avenida carioca.

Exagero retórico à parte – a oposição saiu a trombetear que a comparação com Chicago fora empregada, do mesmo jeitinho, dias depois, no palanque de Uberlândia, mas a revelação não abalou em nada as convicções ufanistas do povão – o que acabou ficando guardado na memória e no coração das pessoas é que estava surgindo um cidadão com papo novo sobre a realidade mineira e brasileira.

  
Anos dourados

“A partir de Juscelino, surge um novo brasileiro.”
(Nelson Rodrigues)

JK – já acentuamos - foi o brasileiro mais fascinante e influente do século passado.

O homem acreditava (e sabia passar essa crença adiante) nas potencialidades do país e nas virtualidades de seu povo. Revelava-se um político que não embarcava na cantilena derrotista de tantos outros políticos que se acostumaram a enxergar os defeitos brasileiros com descomunais lentes de aumento e que só faziam apontar o cidadão aqui nascido, antes de tudo, como um fraco. Um tipo condenado inexoravelmente a destino desprovido de grandeza, submisso eterno, sem perdão, na capacidade de produzir bens, a decisões de gente mais sábia, viventes d’além-mar. JK mostrava-se um nacionalista diferente, que vinha mostrando, já com relevantes atos, a existência, sim, de uma luz no final do túnel. Um homem que transmitia a todos que a obscuridade nos caminhos, passageira, circunstancial, era fruto de obscurantismo, de visão retrógrada do mundo e das pessoas, e não resultado de adversidade fatalísticas e inapeláveis. Que dizia ser preciso passar do discurso para a ação. Os bem-intencionados deviam abandonar o excesso academicista que condenava as propostas sociais a um imobilismo teórico, deixar de lado as fórmulas estereotipadas com seus chavões inócuos, para arregaçar as mangas de verdade e botar pra fazer. Estimular todo mundo a fazer o futuro com engenho e trabalho. Muito trabalho, sem que ninguém se desse por suficientemente trabalhado, por mais que trabalhasse.

Quando ele se lançou candidato à Presidência, o cenário morno, acomodado da vida política nacional, começou a ser revolvido por uma pregação revolucionária, cristalinamente democrática, inspirada em propósitos de autêntica promoção social. Em sua lúcida propagação de idéias novas ele se revelava detentor do conhecimento de que uma sociedade livre não pode deixar de ajudar os muitos que são pobres, pois não sendo assim jamais conseguirá salvar os poucos que são ricos.

O recado continha a pureza da água de regato de montanha intocada pela poluição. Fora do desenvolvimento econômico global, que aproveita a todos como patrimônio comum da sociedade, não há salvação pra ninguém. Mais: o desenvolvimento é filho dileto do trabalho, da educação, da mobilização das virtudes humanas e capacidade criativa do povo. E mais ainda: o objetivo do desenvolvimento é sempre social. Assim falava JK.

As gerações mais novas não viveram os anos dourados do enorme surto de progresso contínuo, o maior até então, que o país já havia atravessado. Os saltos dados, excepcionais, irrepetíveis em anos imediatamente subsequentes, alcançaram pontos essenciais. Mas mesmo para essas gerações, pelas experiências decepcionantes e crises de auto-estima vividas, não fica difícil hoje imaginar o que uma pregação dessas fez fervilhar nos ambientes infensos a inovações progressistas, nas rodas fechadas do imobilismo social, aferradas a paradigmas engessados pelo tempo.

Pra cima de JK, que tinha como aliada a opinião pública consciente, desabaram tormentas de imprecações e “iras santas” muito parecidas, senão mais virulentas, do que esses tornados que, volta e meia, andam explodindo em tantas regiões deste planeta azul para mostrar aos homens que a Natureza não anda nada satisfeita com o que eles andam inventando de desatino contra o meio ambiente.

Quando Brasília foi anunciada, a fúria adversária atingiu níveis tais de paroxismo que a sensação surgida era de que o Brasil iria mesmo acabar. Tribunas e jornais deram curso a afirmações tão disparatadas que a gente se surpreende, tantos anos transcorridos, dentro de análise serena dos fatos, no direito de supor que certos opositores teriam sido recrutados na ala de maior risco de alguma clínica psiquiátrica destinada a pacientes irrecuperáveis. Recorda-me o dito vociferante de um escritor famoso bradando, do alto de embriagadora autossuficiência, a disposição de beber, gota por gota, toda a água que viesse a jorrar no terreno sáfaro onde se estava implantando o lago artificial. Outro cidadão, com muito rancor no coração, coisa nada própria de brasileiro, acusou Juscelino pela morte, em acidente de helicóptero, do então governador fluminense Roberto Silveira, lançando mão de argumento inacreditável. O presidente adotara, desde os tempos de governador de Minas, o “hábito irresponsável” de fazer incursões administrativas com a utilização de helicóptero. O governador do Estado do Rio resolveu imitá-lo, “num gesto de macaquice”. Conclusão “lógica”: o culpado da morte de Roberto Silveira tinha de ser, justamente, Juscelino. Sandices do gênero eram disparadas diariamente na grande mídia, por oposicionistas, políticos invejosos e por colunistas comprometidos com as idéias obscurantistas de uma elite mais falsa que uma moeda de três cruzeiros.


Marcha impetuosa das idéias

“Já não se fazem mais Juscelinos como antigamente.”
(Carlos Chagas, jornalista)

Continuamos falando da legendária trajetória de JK.

Patrazmente, aludimos às sandices sem conta que desafetos e adversários do Nonô disparavam diariamente contra o grande líder, com a ajuda prestimosa da grande mídia, acusando-o de irresponsabilidade gerencial, de favorecimentos ilícitos, de corrupção, por aí afora. Seus colaboradores mais próximos, caso do inesquecível Israel Pinheiro, um homem de bem, administrador de alta competência, eram alvo permanente, como hoje ainda acontece com relação a algumas lideranças populares carismáticas, de grosserias sem conta e acusações as mais despropositadas.

Essa saraivada de doestos não foi suficiente, todavia, para deter a marcha das idéias, a conquista do Planalto Central, a interiorização do desenvolvimento, a industrialização acelerada. A Nação passou a crer em sua força. As atividades produtivas se expandiram. A democracia se fortaleceu. Os investidores estrangeiros apareceram. Nas tratativas internacionais passamos a ser vistos com mais respeito. Os latino-americanos acompanhavam esperançosos os exemplos promissores do país irmão de fala portuguesa.

Costuma-se dizer que somos um povo desmemoriado. Sei não. O caso de Juscelino parece desmontar a tese. Em qualquer lugar deste país, em qualquer tipo de reunião, a citação de seu nome costuma provocar emoções muito fortes. A associação de seu nome com a idéia de progresso, com o desenvolvimento, com promoção humana e social, com o Brasil de nossos sonhos, é aceita como definitiva. Mais do que qualquer outro homem público, JK encarnou, no século passado, o verdadeiro espírito brasileiro, a genuína alma nacional, o sentimento solidário e generoso que povoa as ruas, e até mesmo as qualidades e os defeitos de nossa gente.

Quando a mídia eletrônica levava uma mensagem sua aos lares, despejando todo aquele otimismo, esta mensagem era recebida como aposta certeira em nossa vocação de grandeza. O estado de ânimo popular crescia. As bolsas acusavam alta. As vendas do comércio e da indústria aumentavam. Os empreendimentos brotavam. A palavra do homem infundia respeito e impunha simpatia. Nada dos usuais artifícios enganosos que notabilizam tantos da classe política.

Abra-se parêntese para recolher um exemplo frisante. Aquele do presidente vindo, anos atrás, das Alagoas, arrogantemente arvorado em herdeiro do ideário cívico de JK. Num debate público, gesticulante, furibundo, contando com a cumplicidade maciça da grande mídia, alertou a Nação para a grave ameaça que, segundo ele, estaria para ser perpetrada contra a economia popular pelo seu então oponente, o Lula, de confiscar a poupança, caso viesse a ser eleito. O líder dos trabalhadores – recorde-se - negou peremptoriamente o que lhe estava sendo gratuitamente atribuído. De nada adiantou. E quem foi mesmo que acabou tornando realidade o ignominioso processo? Quem foi mesmo o responsável pelas medidas que levaram aos lares e atividades produtivas frustração dolorosa e desalento? Recolha-se aí prova mais do que provada de que a palavra e os atos, na vida pública, costumam com freqüência palmilhar itinerários inesperados. A generalização pode ser perigosa. Mas, na maioria das falas de graudões políticos, o que se extrai mesmo é desaponto e desesperança. A ponto de, em numerosas vezes, por vivência sofrida, o homem simples do povo adotar procedimentos práticos exatamente inversos dos que lhe costumam recomendar as lideranças.

Não foi assim nos tempos de JK. A confiança popular era total. Ele tinha visão da grandeza de seu País. O Brasil era para ele como o mar. Contemplando-o em sua imensidão e beleza, não fica bem falar-se apenas dos enjôos das travessias de curta duração.

Mas mesmo sendo o ser humano que foi, mesmo realizando o que realizou, mesmo alcançando, ainda em vida, por força de arrojo, idealismo e competência, lugar de proeminência na gratidão e no reconhecimento das ruas, JK não deixou de ser impiedosamente e injustamente alvejado pelas forças minoritárias do obscurantismo intelectual e político que se antepuseram ao seu fecundo e criativo trabalho e às suas crenças democráticas. Cassaram-lhe o mandato parlamentar, baniram-no, num instante trevoso, da contenda política. A grande mídia revelou-se impiedosa e injusta na avaliação de sua obra.Retiraram-lhe os direitos políticos. Mas não conseguiram apagar da memória da Nação seus ditos e feitos.

E quanto aos desafetos rancorosos? Haverá hoje quem deles recorde um ato positivo qualquer, eventualmente praticado?

 * Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Um marco democrático

Cesar Vanucci *

“Eleição é tão importante pra democracia que eu achava que o
 presidente e mesários das seções deveriam ser instruídos para
aplaudirem cada eleitor no momento em que deixasse a cabine.”
(Lupercio Teixeira, eleitor)

As eleições tornaram-se outra vez feérico espetáculo cívico. Outro marco histórico na vida nacional. Prova mais que provada da maturidade política de nossa gente, valor que incumbe a todos nós sabermos preservar e, com disposição criativa, cuidar de aprimorar constantemente.

Na busca pelo aperfeiçoamento das instituições democráticas, somos levados naturalmente a avaliações meticulosas das ações desencadeadas. O balanço do que é feito implica em comparações com aquilo que anteriormente vinha sendo realizado. Tem-se, assim, medida do grau de evolução atingido entre uma e outra etapa do processo político palmilhado.

Não há como deixar de reconhecer os avanços extraordinários ocorridos. Os saltos de qualidade são notórios. O eleitorado desfruta, na hora presente, da invejável prerrogativa de poder utilizar nos pleitos eletivos o sistema mais confiável jamais implantado em qualquer país em matéria de coleta e apuração de votos.

Ficou pra trás, como lembrança fugidia, o viciado esquema das cédulas avulsas, agrupadas nas famosas e embromatórias “marmitas”. Soterrou-se pra sempre a não de todo confiável contagem manual de votos que, volta e meia, desembocava em resultados duvidosos e belicosas reações. Estabeleceu-se alvissareiramente no espírito popular a certeza de que os números estampados são tradução fiel do sentimento das ruas. A credibilidade do processo de votação não é mais colocada em xeque por ninguém.

 São – como não? - conquistas de magnitude. Conquistas definitivas que concorrem para a plenitude democrática. Mas que não esgotam, entretanto, ainda, o rol das empreitadas a enfrentar, na efervescente atividade política, com vistas à construção do Brasil desenhado nos sonhos de todos os brasileiros.

A confiabilidade eleitoral é passo formidável no processo da Reforma Política que a sociedade reclama. A Lei da Ficha Limpa, nascida como sabido no âmago popular, já em vigor, em que pesem uns que outros questionamentos casuísticos brotados de filigranas jurídicas a serem mais cedo ou mais tarde neutralizadas, constitui mais um reforço substancial na reformulação almejada.

O código que rege as campanhas eleitorais, estruturado mais em razão do propósito apressado do Judiciário em definir um marco regulador minimamente razoável do que em função de um consenso decorrente de discussões amplas, transparentes, com o envolvimento indispensável da classe política (lamentavelmente omissa no processo) fixou algumas diretrizes oportunas. Mas ainda assim se mantém bastante distanciado, com inocultáveis bizarrices tecnicistas, das exigências estipuladas pelo atual estágio de conscientização democrática do país.

A ampliação da Reforma Política, que terá de ser feita com a decisiva participação do Congresso Nacional, envolve pontos de suma relevância. Colocados retoricamente como prioritários por setores que se confessam interessados na questão não têm merecido, estranhavelmente, em termos práticos, a atenção a que fazem jus. As siglas de aluguel, o voto distrital, a supressão do cargo de suplente de senador, a redução dos contingentes legislativos nos planos municipais, com a regulamentação adequada da forma de remuneração de prefeitos e vereadores, o estudo aprofundado dos esquemas de financiamento das campanhas, a fidelidade partidária são alguns desses pontos a serem trazidos, mais dia, menos dia, ao debate público. Um debate regido por clareza solar, no qual não seja deixado pra traz nenhum detalhe que ofereça margem a dúvidas futuras.

Enquanto esse grande debate não se estabelece, algumas modificações nas regras do jogo político-eleitoral, como já tem sido feito com razoáveis acertos, poderão perfeitamente ser instituídas. Uma delas diz respeito à realização e divulgação de pesquisas eleitorais. Entendemos que esse processo mereça sofrer alteração. Por uma porção de razões. A historieta a seguir é ilustrativa. No pleito recém-findo, um candidato a Prefeito em cidade do interior foi abordado em sua residência por um pesquisador, que evidentemente não o conhecia. Do questionário contendo os nomes dos candidatos não figurava o seu, nem o de outros concorrentes. O que não impediu que a pesquisa ganhasse destaque no noticiário. E o que não dizer dos números conflitantes tantas vezes registrados? Não atinamos com qualquer ordem de beneficio que uma pesquisa divulgada no dia da eleição possa incorporar à causa democrática.

Os veículos de comunicação podem ser também convocados a incorporar outras contribuições valiosas ao processo. Uma delas: formatar debates que não tornem as apresentações dos planos dos candidatos de obviedade ridícula. Criar condições para que eles possam expor idéias e plataformas. Outra coisa, concernente à mídia de massa que carece ser revista é a indisfarçável propaganda subliminar que alguns veículos, de forma tendenciosa, colocam em prática.

Taqui um episódio recente. Na véspera de 7 de outubro, nos poucos momentos que nos sobraram para acompanhar os boletins televisivos, deparamo-nos na tela de uma grande rede, em cinco momentos diferentes, ilustrando notícia, com uma foto do ex-ministro José Dirceu, que acabara de ser condenado pelo “mensalão”, ladeado pelo ex-ministro Patrus Ananias, um cidadão que nada tem a ver com o processo julgado no STF. A insistência na divulgação dessa imagem específica intrigou-nos bastante. Até os aborígines das tribos amazônicas ainda não contatadas pelos sertanistas da Funai estão calvos de saber que no colossal arquivo de onde a foto foi extraída, dos maiores do mundo, existirão com absoluta certeza, milhares de outros personagens políticos que em algum momento posaram ao lado da figura central da notícia. Por que cargas d’água, então, esta obsessiva fixação, pouco antes do pleito eleitoral, em mostrar junto com o réu condenado o candidato em questão?
Este procedimento jornalístico faz-nos recordar deplorável incidente ocorrido numa eleição presidencial anos atrás, onde os concorrentes eram os senhores Fernando Collor e Luiz Ignácio Lula da Silva. A mesma rede de televisão montou açodadamente uma edição capciosa do debate entre ambos, com o inocultável propósito de favorecer o candidato de sua preferência. Tá danado.

Histórias inventadas


“Muitos acontecimentos reais parecem
 inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

A Internet abriu para a criatividade humana horizontes de amplitude inimaginável. Ruth de Aquino, colunista da revista “Época”, brinda-nos na edição de 8.10.12, no artigo “Sexo, mentiras e Internet”, com um conjunto de informações saborosissimas, recolhidas em meticulosa avaliação que se deu ao trabalho de promover em torno de algumas histórias inusitadas, propagadas com intensidade nas redes, que não passam, no frigir dos ovos, de invencionices armadas com o intuito de divertir. Mas sem que a maioria dos leitores se dê conta, minimamente, de seu teor fantasioso.

Como é explicado, com riqueza de pormenores no artigo, um bocado de pessoas com pendores para relatos engraçados, tem feito uso permanente dos inesgotáveis recursos dessa engrenagem midiática fabulosa, para exercícios delirantes de ficção, revestindo-os enganosamente, com certo charme, de um manto de veracidade. O embuste acaba colando e, muitas vezes, produzindo reações em cadeia inacreditáveis.

O protagonismo do Professor Fabio Flores, capixaba, 39 anos, escritor talentoso, nesse tipo de atividade intelectual, recebe atenção especial da articulista. Esmiuçando seu trabalho, ela o apresenta como um confesso criador de notícias falsas que não pretendem causar mal algum. Aliás, na concepção do próprio, inventor de historinhas que compõem um 1º de abril eterno, não se trata de notícias falsas, mas de notícias fantasiosas.

Muitas delas são conhecidas, por certo, da maioria dos leitores, tendo em vista o grau da repercussão alcançada, até mesmo no exterior. O autor dá nomes, cita lugares, descreve situações, fornece referências. Torna tudo, à uma primeira leitura, irrepreensível, fechando as portas para dúvidas.

Confessa-se verdadeiramente realizado, como criador de cenas e personagens, naqueles momentos especiais, quando, por força da divulgação assumida pelo caso, a história ganha vida própria, desencadeando discussões, provocando reações, sendo trazida a debate público. Essa passa a ser uma hora de comemoração. A invenção adquire a “legitimidade” desejada. Como os personagens só existem mesmo na cachola de quem as escreve, os relatos tendem a não causar dano a ninguém. O alvoroço levantado pelos “causos” pode, sim, dar vaza a efervescente troca de opiniões, a teses, como tantas vezes já ocorreu, mas não deixa de proporcionar aos envolvidos nas eventuais pendengas frutos de natureza pedagógica.

São numerosas as histórias boladas por Fabio e outros comunicadores que atuam nessa mesma excitante linha ficcionista que ganharam ressonância. Aqui estão algumas.

Lembram-se daquele cara que se separou da mulher, numa pequena cidade do interior, para convolar núpcias com o cunhado, um pastor? Foi um desses relatos inventados que tomou espaço considerável na mídia, inclusive no estrangeiro. E aquela outra história da mulher que impetrou ação judicial contra um sacerdote que se recusou a casá-la sob a alegação de que ela não estaria usando calcinha na hora de subir ao altar? Ou, ainda, aquele caso de outra personagem feminina que também bateu nas portas da Justiça, pedindo indenização pela circunstancia de haver sido dispensada do emprego sob a alegação do patrão de que se masturbara no banheiro durante o expediente? Se a memória do leitor está afiada, ele haverá de se recordar que esses dois temas, por incrível que possa parecer, foram parar na televisão, com bate-papos acalorados.

Não será, igualmente improvável que o próprio leitor surpreendido com o conhecimento dessas impensáveis “invenções de moda” já não tenha, nalgum momento, sido chamado, numa roda de conhecidos, a externar sua opinião sobre um desses episódios inusitados, passados marotamente ao distinto público como verazes. E, ao fazê-lo, não haja até se socorrido de argumentos sólidos para defender ou contestar o fato. Isso aí, gente boa. A vida é assim. Muitos acontecimentos reais parecem inverossímeis. O contrário também costuma ocorrer, como lembra o Professor Antônio Luiz da Costa.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Tempestade de areia


“Está entrando areia na Primavera Árabe”.
(Antônio Luiz da Costa)

 Os sonhos de democratização a médio prazo levados por multidões às praças e ruas vão sendo paulatinamente desfeitos pela vontade armada dos militares egípcios, com suas escancaradas intervenções no processo político. Alterando despoticamente as decisões das urnas, eles ordenaram ao Judiciário, extremamente dócil aos seus caprichos, que dissolvesse o Parlamento do país pouco depois de conhecidos os resultados eleitorais. Não se contrapuseram aparentemente, com hipócritas intenções de fazer média nas relações internacionais, à posse do Presidente eleito, Mohamed Mursi. Mas deram um sintomático “chega pra lá” no chefe do governo, em termos legais seu superior hierárquico, assim que ele anunciou a disposição de restabelecer as atividades do Congresso Nacional. Num comunicado curto e grosso, dizendo de sua firme disposição em não abrir mão das rédeas do poder, os generais desautorizaram o Presidente, negando-se a reconhecê-lo como chefe supremo das Forças Armadas e se atribuindo as prerrogativas de designarem entre seus integrantes os responsáveis, doravante, pelas tarefas legislativas. Fica evidente que a força militar egípcia, desde os tempos de Nasser poderoso suporte dos regimes totalitários que se sucedem no país, apesar das promessas de abertura democrática anunciadas por ocasião da já agonizante “Primavera árabe”, pretendem perpetuar-se nas privilegiadas posições que hoje ocupam. Nessas posições, eles se permitem, além de manter os controles decisórios políticos e administrativos, gerir empresarialmente (pasmo dos pasmos!) cerca de 30 por cento das atividades econômicas mais rendosas do país, comandando setores (como hotelaria e turismo) que nada têm a ver com sua missão institucional.

A tempestade de areia que ora tolda os horizontes políticos da Nação dos faraós parece passar desapercebida às grandes potencias e à grande mídia internacional. Enigmáticos que nem a Esfinge de Gizé, apegados ferrenhamente às suas egoísticas conveniências geo-político-econômicas, esses setores recusam-se a emitir qualquer palavra de condenação, de critica mais inflamada, de censura por vias diplomáticas às inocultáveis peripécias antidemocráticas praticadas pelos verdadeiros “donos do poder” no Cairo.

Enquanto isso, imersa numa guerra civil marcada pela rotina do terror, a Síria põe à prova a impotência da comunidade das nações para achar saídas na crise humanitária de tremendas proporções que se abate sobre uma região estratégica dominada por bestial despotismo e antagonismos tribais enraizados. O massacre sistemático de civis, conduzido pelas forças leais ao ditador Bashar al-Assad, já com quase dois anos de duração, comportando represálias virulentas dos opositores, tal qual aconteceu na Líbia, causa perplexidade e indignação, sem todavia gerar ações diplomáticas eficazes capazes de porem cobro à terrível situação.

Os esforços da ONU no sentido de uma trégua esbarram em intransigências, vetos e conveniências variadas, no momento intransponíveis.

O apavorante conflito encerra, na verdade, aspectos deveras singulares. Entre os oponentes do déspota que se agarra, a exemplo dos generais egípcios, ao desejo de se perpetuar no poder está a sinistra Al Qaeda. Esta circunstância leva não poucos observadores a sustentarem a tese de que a intenção secreta de alguns é deixar tudo como está pra ver como é que fica. A incandescente retórica de condenação aos atos da ditadura síria não passaria assim de uma espécie de camuflagem face aos rumos imprevisíveis que a apavorante contenda pode acabar assumindo. A geopolítica, sempre ela, comporta coisas assim, gente boa.


Senhores de direitos e deveres

“Consideramos estas verdades como evidentes por si: que todos os homens s
ão criados iguais; que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis;
que entre esses direitos estão a vida, a liberdade e a procura da felicidade.."
(Thomaz Jefferson 1743-1826, Declaração da Independência Americana)

 O exercício em plenitude da cidadania se assenta na consciência individual de que todos os seres humanos somos senhores de direitos e deveres. Onde esse conceito não se faça presente, ali a cidadania estará sendo, seguramente, alvejada ou questionada.

A vida em sociedade cobra deveres e prodigaliza direitos. Uma coisa conectada naturalmente com a outra coisa. Ambas traduzindo valores indissociáveis na convivência. Todo o arcabouço social repousa em tais vigas mestras: o cumprimento do dever e o respeito aos direitos humanos. Augusto Comte fala magistralmente dessa simbiose que preside a ação humana: “Ninguém possui outro direito senão o de sempre fazer o seu dever”.

Está visto que o exercício da cidadania só pode vicejar e florescer em ambientes onde se possa respirar o oxigênio das liberdades públicas. Os regimes despóticos aborrecem a cidadania. Conspurcam-na. Negam-na como atributo da personalidade e dignidade humana.

Em nossos tempos, a força da cidadania vem crescendo de forma auspiciosa. Da conjugação de vontades de multidões interessadas na construção de um mundo melhor e, justamente por isso, desejosas de estender seu exercício aos limites máximos permitidos pelo bom senso e consciência humanos, têm nascido conquistas preciosas. Há um entendimento cada dia mais universalizado de que os direitos pessoais, como propunha Thomas Paine, são uma espécie de propriedade do tipo mais sagrado. Aceitar que o outro é portador desses direitos é uma forma de fazer reconhecida a condição idêntica de que somos também investidos.

A milenar sabedoria indiana, refletida na palavra de Sai Baba, fala-nos de um instante histórico singular, dominado não pelas trevas, ao contrário do que muita gente supõe, mas por uma luminosidade ofuscante. As consequências positivas desse estado de espírito universal estão evidenciadas na “tolerância zero” da sociedade humana dos tempos atuais em relação a atitudes comportamentais defeituosas até algum tempo atrás aceitas sem maiores questionamentos. Defeitos esses recebidos em meio a sussurros condenatórios, mas de qualquer forma complacentes com o erro, lançados automaticamente debaixo do tapete das conveniências mundanas.

No mais, buscando um roteiro para essa pugna permanente que a prática da cidadania nos exige, esforcemo-nos por proceder como recomenda, liricamente, o poeta Ledo Ivo: “Teu dever é este: lembrar, sendo antigo; amar, sendo humano; morrer, sendo vivo; e cantar o mundo com uma linguagem que é comum tesouro de todos os homens.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Falando de gripe comum                                                                 Cesar Vanucci “ (...) Daí ser a venda d...