sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A aventura vital de JK

Cesar Vanucci *

“De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos.”
(Afonso Arinos)

Recebi, via Internet, um punhado de mensagens para votar em JK, na consulta popular recentemente promovida pelo SBT. A consulta como sabido, acabou apontando no topo das preferências a figura, por todos os títulos admirável, de Chico Xavier como o maior brasileiro de todos os tempos.

Avaliando os feitos do grande estadista, (110 anos transcorridos de seu nascimento, agora em outubro) não me atenho em dúvidas ao proclamar, que o Nonô, de Diamantina, foi o personagem mais fascinante e influente da vida nacional do século XX. Acode-me à lembrança, a propósito, um presságio bastante lúcido de Afonso Arinos, adversário do genial construtor de Brasília, ao admitir que, dos políticos de sua geração, Juscelino seria o mais reverenciado futuramente na memória popular, por sua extraordinária aventura vital. As comemorações de seu 110º aniversario, neste justo momento, atestam o acerto da previsão.

A primeira imagem que dele conservo remete-me à sua apresentação ao eleitorado de Uberaba, como candidato ao governo de Minas. Gabriel Passos, brilhante opositor, havia passado por lá dias antes, deixando vigorosa impressão. No comício de JK aconteceu algo eletrizante. Uma espécie de prenúncio daquilo que aprenderíamos a identificar como marca registrada inconfundível dos tempos de euforia cívica que estavam chegando O comício teve todos os ingredientes típicos de uma boa festa do gênero. Faixas, banda, rojões, palavras de ordem ditadas pelo alto-falante. Entre uma e outra execução musical – marchas trepidantes culminando com o indefectível “Oh, Minas Gerais” – os oradores procuravam aquecer o público com tiradas retumbantes, na tentativa de suplantar o bom desempenho anterior do palanque adversário. Esmeravam-se na preparação da entrada em cena da estrela principal. Nesse aspecto, como em tantos outros, o time do PSD revelava-se mais competente que o da UDN.

Pintou o grande momento. O locutor, a voz empostada, caprichando na pronúncia dos “erres” e “esses”, anunciou pelas poderosas “ondas” da emissora local “ a palavra do futuro governador do Estado de Minas Gerais, o excelentíssimo senhor doutor Juscelino Kubitschek de Oliveira!”

O que aconteceu na sequência não dá pra contar em todos os detalhes. A comunidade assistiu, emocionada, o mais empolgante espetáculo político de seus então quase cem anos de emancipação política. As palavras jorravam com a impetuosidade de uma catarata, lavando a alma das pessoas, tocando os brios da cidadania, povoando de esperanças animadoras perspectivas de trabalho, inundando de entusiasmo redivivo crenças adormecidas no amanhã do país. Todos se comportavam como parceiros orgulhosos na arregimentação das forças vivas da sociedade para uma aventura diferente em termos de progresso. Era o que estava sendo proposto por aquele quase desconhecido. Nos semblantes, olhares cúmplices, a sensação deleitosa da descoberta fascinante de uma nova e carismática liderança.

Cada qual se sentia mais gente, mais capaz e confiante. Então o Brasil era ou podia ser tudo isso e a gente, bestamente, não sabia de nada? Instante de pura magia. Atmosfera contaminante de benfazejo entusiasmo. Um entusiasmo que acabaria por envolver, com o correr dos tempos, o Brasil de norte a sul. O magnetismo do orador traçava impecável roteiro de trabalho, encharcado de humanismo e poderoso aceno social. E o que não dizer do toque lírico da palavra incomparável? As tais borboletas que ele sabia como ninguém introduzir nos textos de conteúdo mais áspero. Corações e mentes iam sendo conquistados para a causa do redescobrimento do Brasil.

O momento culminante no comício de Uberaba correu por conta de incrível exagero retórico, acolhido em atmosfera de delírio própria de conquista da Copa do Mundo. Tantos anos passados, as palavras acodem-me ainda com exatidão. Assim falou JK. Abre aspas. Ao sobrevoar hoje esta maravilhosa cidade, lembrei-me de Chicago. Fecha aspas.

O discurso acabou ali. Não deu pra segurar. Uma meia dúzia de uns três ou quatro mais ousados, escalaram pela frente o palanque, balançando-lhe a estrutura. Entre eles, se bem recordo, estavam o Braz, dono de cafeteria, o Bolão, dono de banca de açougue no Mercado, o Maurício, pintor de paredes, dono de uma voz que enchia de encantamento as noites de seresta da turma chegada à boêmia. Juscelino refez-se da surpresa inicial e caiu na gargalhada ao ser arrancado pra fora e carregado em triunfo diante do aturdimento dos companheiros. A cidade viveu um carnaval temporão mais animado do que o convencional. Algo parecido com festejo carnavalesco de avenida carioca.

Exagero retórico à parte – a oposição saiu a trombetear que a comparação com Chicago fora empregada, do mesmo jeitinho, dias depois, no palanque de Uberlândia, mas a revelação não abalou em nada as convicções ufanistas do povão – o que acabou ficando guardado na memória e no coração das pessoas é que estava surgindo um cidadão com papo novo sobre a realidade mineira e brasileira.

  
Anos dourados

“A partir de Juscelino, surge um novo brasileiro.”
(Nelson Rodrigues)

JK – já acentuamos - foi o brasileiro mais fascinante e influente do século passado.

O homem acreditava (e sabia passar essa crença adiante) nas potencialidades do país e nas virtualidades de seu povo. Revelava-se um político que não embarcava na cantilena derrotista de tantos outros políticos que se acostumaram a enxergar os defeitos brasileiros com descomunais lentes de aumento e que só faziam apontar o cidadão aqui nascido, antes de tudo, como um fraco. Um tipo condenado inexoravelmente a destino desprovido de grandeza, submisso eterno, sem perdão, na capacidade de produzir bens, a decisões de gente mais sábia, viventes d’além-mar. JK mostrava-se um nacionalista diferente, que vinha mostrando, já com relevantes atos, a existência, sim, de uma luz no final do túnel. Um homem que transmitia a todos que a obscuridade nos caminhos, passageira, circunstancial, era fruto de obscurantismo, de visão retrógrada do mundo e das pessoas, e não resultado de adversidade fatalísticas e inapeláveis. Que dizia ser preciso passar do discurso para a ação. Os bem-intencionados deviam abandonar o excesso academicista que condenava as propostas sociais a um imobilismo teórico, deixar de lado as fórmulas estereotipadas com seus chavões inócuos, para arregaçar as mangas de verdade e botar pra fazer. Estimular todo mundo a fazer o futuro com engenho e trabalho. Muito trabalho, sem que ninguém se desse por suficientemente trabalhado, por mais que trabalhasse.

Quando ele se lançou candidato à Presidência, o cenário morno, acomodado da vida política nacional, começou a ser revolvido por uma pregação revolucionária, cristalinamente democrática, inspirada em propósitos de autêntica promoção social. Em sua lúcida propagação de idéias novas ele se revelava detentor do conhecimento de que uma sociedade livre não pode deixar de ajudar os muitos que são pobres, pois não sendo assim jamais conseguirá salvar os poucos que são ricos.

O recado continha a pureza da água de regato de montanha intocada pela poluição. Fora do desenvolvimento econômico global, que aproveita a todos como patrimônio comum da sociedade, não há salvação pra ninguém. Mais: o desenvolvimento é filho dileto do trabalho, da educação, da mobilização das virtudes humanas e capacidade criativa do povo. E mais ainda: o objetivo do desenvolvimento é sempre social. Assim falava JK.

As gerações mais novas não viveram os anos dourados do enorme surto de progresso contínuo, o maior até então, que o país já havia atravessado. Os saltos dados, excepcionais, irrepetíveis em anos imediatamente subsequentes, alcançaram pontos essenciais. Mas mesmo para essas gerações, pelas experiências decepcionantes e crises de auto-estima vividas, não fica difícil hoje imaginar o que uma pregação dessas fez fervilhar nos ambientes infensos a inovações progressistas, nas rodas fechadas do imobilismo social, aferradas a paradigmas engessados pelo tempo.

Pra cima de JK, que tinha como aliada a opinião pública consciente, desabaram tormentas de imprecações e “iras santas” muito parecidas, senão mais virulentas, do que esses tornados que, volta e meia, andam explodindo em tantas regiões deste planeta azul para mostrar aos homens que a Natureza não anda nada satisfeita com o que eles andam inventando de desatino contra o meio ambiente.

Quando Brasília foi anunciada, a fúria adversária atingiu níveis tais de paroxismo que a sensação surgida era de que o Brasil iria mesmo acabar. Tribunas e jornais deram curso a afirmações tão disparatadas que a gente se surpreende, tantos anos transcorridos, dentro de análise serena dos fatos, no direito de supor que certos opositores teriam sido recrutados na ala de maior risco de alguma clínica psiquiátrica destinada a pacientes irrecuperáveis. Recorda-me o dito vociferante de um escritor famoso bradando, do alto de embriagadora autossuficiência, a disposição de beber, gota por gota, toda a água que viesse a jorrar no terreno sáfaro onde se estava implantando o lago artificial. Outro cidadão, com muito rancor no coração, coisa nada própria de brasileiro, acusou Juscelino pela morte, em acidente de helicóptero, do então governador fluminense Roberto Silveira, lançando mão de argumento inacreditável. O presidente adotara, desde os tempos de governador de Minas, o “hábito irresponsável” de fazer incursões administrativas com a utilização de helicóptero. O governador do Estado do Rio resolveu imitá-lo, “num gesto de macaquice”. Conclusão “lógica”: o culpado da morte de Roberto Silveira tinha de ser, justamente, Juscelino. Sandices do gênero eram disparadas diariamente na grande mídia, por oposicionistas, políticos invejosos e por colunistas comprometidos com as idéias obscurantistas de uma elite mais falsa que uma moeda de três cruzeiros.


Marcha impetuosa das idéias

“Já não se fazem mais Juscelinos como antigamente.”
(Carlos Chagas, jornalista)

Continuamos falando da legendária trajetória de JK.

Patrazmente, aludimos às sandices sem conta que desafetos e adversários do Nonô disparavam diariamente contra o grande líder, com a ajuda prestimosa da grande mídia, acusando-o de irresponsabilidade gerencial, de favorecimentos ilícitos, de corrupção, por aí afora. Seus colaboradores mais próximos, caso do inesquecível Israel Pinheiro, um homem de bem, administrador de alta competência, eram alvo permanente, como hoje ainda acontece com relação a algumas lideranças populares carismáticas, de grosserias sem conta e acusações as mais despropositadas.

Essa saraivada de doestos não foi suficiente, todavia, para deter a marcha das idéias, a conquista do Planalto Central, a interiorização do desenvolvimento, a industrialização acelerada. A Nação passou a crer em sua força. As atividades produtivas se expandiram. A democracia se fortaleceu. Os investidores estrangeiros apareceram. Nas tratativas internacionais passamos a ser vistos com mais respeito. Os latino-americanos acompanhavam esperançosos os exemplos promissores do país irmão de fala portuguesa.

Costuma-se dizer que somos um povo desmemoriado. Sei não. O caso de Juscelino parece desmontar a tese. Em qualquer lugar deste país, em qualquer tipo de reunião, a citação de seu nome costuma provocar emoções muito fortes. A associação de seu nome com a idéia de progresso, com o desenvolvimento, com promoção humana e social, com o Brasil de nossos sonhos, é aceita como definitiva. Mais do que qualquer outro homem público, JK encarnou, no século passado, o verdadeiro espírito brasileiro, a genuína alma nacional, o sentimento solidário e generoso que povoa as ruas, e até mesmo as qualidades e os defeitos de nossa gente.

Quando a mídia eletrônica levava uma mensagem sua aos lares, despejando todo aquele otimismo, esta mensagem era recebida como aposta certeira em nossa vocação de grandeza. O estado de ânimo popular crescia. As bolsas acusavam alta. As vendas do comércio e da indústria aumentavam. Os empreendimentos brotavam. A palavra do homem infundia respeito e impunha simpatia. Nada dos usuais artifícios enganosos que notabilizam tantos da classe política.

Abra-se parêntese para recolher um exemplo frisante. Aquele do presidente vindo, anos atrás, das Alagoas, arrogantemente arvorado em herdeiro do ideário cívico de JK. Num debate público, gesticulante, furibundo, contando com a cumplicidade maciça da grande mídia, alertou a Nação para a grave ameaça que, segundo ele, estaria para ser perpetrada contra a economia popular pelo seu então oponente, o Lula, de confiscar a poupança, caso viesse a ser eleito. O líder dos trabalhadores – recorde-se - negou peremptoriamente o que lhe estava sendo gratuitamente atribuído. De nada adiantou. E quem foi mesmo que acabou tornando realidade o ignominioso processo? Quem foi mesmo o responsável pelas medidas que levaram aos lares e atividades produtivas frustração dolorosa e desalento? Recolha-se aí prova mais do que provada de que a palavra e os atos, na vida pública, costumam com freqüência palmilhar itinerários inesperados. A generalização pode ser perigosa. Mas, na maioria das falas de graudões políticos, o que se extrai mesmo é desaponto e desesperança. A ponto de, em numerosas vezes, por vivência sofrida, o homem simples do povo adotar procedimentos práticos exatamente inversos dos que lhe costumam recomendar as lideranças.

Não foi assim nos tempos de JK. A confiança popular era total. Ele tinha visão da grandeza de seu País. O Brasil era para ele como o mar. Contemplando-o em sua imensidão e beleza, não fica bem falar-se apenas dos enjôos das travessias de curta duração.

Mas mesmo sendo o ser humano que foi, mesmo realizando o que realizou, mesmo alcançando, ainda em vida, por força de arrojo, idealismo e competência, lugar de proeminência na gratidão e no reconhecimento das ruas, JK não deixou de ser impiedosamente e injustamente alvejado pelas forças minoritárias do obscurantismo intelectual e político que se antepuseram ao seu fecundo e criativo trabalho e às suas crenças democráticas. Cassaram-lhe o mandato parlamentar, baniram-no, num instante trevoso, da contenda política. A grande mídia revelou-se impiedosa e injusta na avaliação de sua obra.Retiraram-lhe os direitos políticos. Mas não conseguiram apagar da memória da Nação seus ditos e feitos.

E quanto aos desafetos rancorosos? Haverá hoje quem deles recorde um ato positivo qualquer, eventualmente praticado?

 * Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Nenhum comentário:

A SAGA LANDELL MOURA

    Racismo, praga daninha Cesar Vanucci “Detesto futebol. Detesto ainda mais porque as pessoas  estorvam e inundam as avenidas para faz...