sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Decisão recebida com alivio

Cesar Vanucci *

“O mundo inteiro está alegre.”
(Delfim Neto)

Para um punhado de pessoas com razoável grau de percepção das vivências políticas o resultado de uma eleição presidencial nos Estados Unidos não altera substancialmente coisa nenhuma. Tudo tende, no frigir dos ovos, a permanecer como dantes no quartel de Abrantes. Distinguir uma eventual mudança na Casa Branca não é mole. O sabor da alteração equivaleria, comparativamente, ao de se deixar de tomar pepsi pra beber coca-cola.

Muitos sustentam, também, arrolando exemplos frisantes, que Barack Obama deixou uma esteira de frustrações neste primeiro mandato. O desempenho do simpático mandatário mostrou-se aquém das expectativas erguidas àquela hora singular de sua chegada impetuosa, salpicada de esperanças, ao palco internacional.

Tudo isto posto, bem avaliadas as circunstâncias da conjuntura mundial, considerados os senões, alguns desacertos, os descompassos entre promessas e realizações, entre discurso e prática na postura do Presidente, não há como, entretanto, deixar de reconhecer que a escolha eleitoral dos norte-americanos foi ajuizada. Recebida com sensação de alivio em todos os cantos deste planeta azul. O triunfo democrata foi conquistado contra adversário de postura retrograda. Alguém que não hesitou em desfraldar, com ânimo de cruzado belicoso, a bandeira radical de um conservadorismo arrepiante. As teses por ele levantadas, debaixo das ovações de fiéis seguidores, revelaram-se fruto de crenças fundamentalistas desvairadas. Alvejam em cheio anseios generosos da sociedade humana, ávida por paz, desenvolvimento e prosperidade social. Visceralmente comprometido com ortodoxia econômica desalmada, insensível à problemática social, o republicano Mitt Romney deixou inequivocamente gravada no espírito das ruas a disposição de retomar, à frente dos destinos da maior potência do mundo, a mesma desastrada política intervencionista de seu correligionário, o xerife George Bush. Uma política que arrastou o país a uma crise econômica perturbadora e aos atoleiros do Iraque e do Afeganistão. Não manteve oculto, igualmente, em momento algum, o empenho em atropelar as boas políticas sociais em implantação ou expansão promovidas por Obama no âmbito interno. Disse, com clareza de atitudes e de palavras, a que vinha: incrementar o radicalismo em todas as áreas da convivência humana, adotando as regras e conceitos medievais freneticamente apregoados pelo “Tea Party”, grupo hoje dominante nas fileiras republicanas. Um tipo de gente que está para a cultura religiosa e política do conservadorismo norte-americano assim como o talebanismo está para a cultura política e religiosa do islamismo.

A histórica reeleição de Obama comporta observações que não podem passar despercebidas. Os mais de 60 milhões e 500 mil votos por ele recebidos procederam de redutos isoladamente minoritários. Grupos étnicos (hispânicos, negros, asiáticos), grupos jovens, grupos femininos, grupos comprometidos com movimentos contestatórios aos padrões de puritanismo vigentes na vida americana. As minorias compuseram um conjunto de forças majoritário, que se contrapôs, na hora da escolha, àquelas parcelas da sociedade avessas a propostas reformistas, de certa forma preconceituosas, quando não declaradamente racistas, que mesmo não representando, com toda certeza, a integralidade dos votantes de Mitt Romney, constituem parte respeitável de seu contingente de apoio.

Como salientou Delfim Neto, com a eleição de Obama o mundo está alegre. “A exceção – acentua – são os 48% brancos saxônicos e protestantes (os Wasp) que não conseguiram retornar ao século XIX.”


Até em mandarim?

 “É a nossa língua, o nosso modo normal de expressão,
a nossa língua literária e artística.”
(Rachel de Queiroz)

Já disse, já repeti e voltarei a dizer quantas vezes achar necessário. O emprego de expressões estrangeiras para classificar coisas óbvias do cotidiano representa rematada panaquice. Prova de indigência intelectual. Pauperismo cívico e subserviência cultural. Querem saber mais? Frescuragem ampla, geral e irrestrita.

Incomoda pacas, ao cidadão comum, a poluição “sonora”, em não poucas ocasiões agregada à poluição visual, de certos painéis de rua – impropriamente chamados de “out doors” -, de panfletos – impropriamente apelidados de “folders” - traduzida em mensagens publicitárias onde as palavras utilizadas, habitualmente num inglês “morolés”, só guardam similitude com o idioma falado nas ruas por conta das letras do alfabeto.

Tem nada demais levantar com constância assunto tão momentoso. Carradas de razão assistiam a Napoleão quando proclamava, com a mão mergulhada no peito sob o dólmã medalhado, que a repetição é a melhor retórica. A repetição de um conceito, de uma idéia faz, muitas vezes, nascer a luz do entendimento.

Para o cidadão comum é, também, motivo de compreensível desassossego bater com os olhos, numa loja qualquer, com o anúncio em letras garrafais, coloridas, estampado na vitrina, de queima de mercadorias com aqueles indefectíveis “sale” e “off” concebidos com base em leviandade e macaquice. O mesmo a anotar naqueles casos em que se topa, nos lavatórios de restaurantes e botecos, com arrepiantes placas de “lady” e “gentleman”.

Dias passados, percorrendo longo trecho da cidade, dei-me ao trabalho de listar, olhos fitos nos letreiros dos estabelecimentos, uma pá de barbaridades vocabulares perpetradas por conta desse modismo abestalhado. Contei mais de 150 registros fora dos trinques, distribuídos pelos logradouros principais de vários bairros. Constatei que a grande concentração das desbragadas extravagâncias, fruto de deslumbramento que garante aos autores direito a carteirinha de néscio irrecuperável, fica localizada na região sul. Provavelmente, pela impressão que se tem de ser o setor melhor apetrechado para o atendimento de demandas de consumo pretensamente requintadas e sofisticadas, ora, veja, pois... Nas outras regiões o índice das censuráveis manifestações é consideravelmente menor. Taí, convenhamos, material de primeira, manancial exuberante pra elaboração de uma tese sociológica em que possa ser avaliado o grau de comprometimento de grupos e pessoas, de variadas categorias sociais, com os autênticos valores culturais brasileiros.

O mal-estar produzido por esse linguajar de importação, composto predominantemente de anglicismos, verbalizado em doses elevadas de pernosticismo, chega até as pessoas também pelo rádio, pela televisão, jornal, convites impressos. Quantas vezes, no dia-a-dia, o pedante modismo não é praticado pertinho da gente? Vocábulos de nosso belo idioma - que é a própria pátria -, dentro desse malfadado processo de macdonaldização linguística, são descerimoniosamente substituídos pelos intragáveis e incompreensíveis “inside”, “feelings”, “brunchs”, “coffee break”, “feedback” ; “book”, “paper” e por aí vai.

Indaoutrodia inteirei-me de um desconcertante conflito romântico provocado por essa onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Relato a história, alterando os nomes dos personagens. Hildo e Marion estavam de casório marcado. Proclamas publicados, igreja, florista, fotógrafo, canto coral, coquetel contratados, padrinhos convidados, viagem de núpcias paga, convites expedidos. Dias antes do badalado evento, a coisa melou. O noivo arrepiou carreira de repente. Não mais do que de repente. Provocou, naturalmente, uma pororoca de contrariedades e transtornos. Foram cobrar do moço explicação acerca do inusitado gesto. Mandando o constrangimento inicial às favas, ele resolveu contar tudo, tintim por tintim. Informou haver alertado a noiva, em repetidas oportunidades, sobre seu desagrado pessoal com relação às expressões de carinho, por ela – adepta fervorosa desse modismo ridículo - desovada aos berros, em instantes especiais de intimidade. O aborrecimento do noivo decorria, sobretudo, do fato de serem emoções transmitidas em versões estrangeiras. Tipo: “I love you”, “Je t'aime”, “Quiero te mucho”. Mas o que decretou mesmo a discórdia definitiva foi a fala de Marion no clímax do último encontro dos dois. Aos brados, ela sapecou uma frase esquisitíssima e, pelo que se ficou sabendo mais tarde, extraída do mandarim que a moça vem aprendendo com uma professora chinesa do prédio em que mora: “Uo ran ai mi”.

Segundo o Hildo, “o clima passou de verão primaveril brasileiro a espesso outono siberiano. O encantamento escorreu pelo ralo, a relação espatifou. “Uo ran ai mi” foi demais. Não deu pra segurar.”

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

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