sexta-feira, 26 de junho de 2015



    Indícios encorajantes


Cesar Vanucci

“O Governo estava aparentemente perdido (...), mas tenta agora recuperar
 a iniciativa com bons projetos de concessões e estímulos às exportações.”
(Delfim Neto)

Otimista de nascença, conservo acesas a fé e a confiança no Brasil. O que não me impede de perceber a carga, mais avolumada agora do que em passado recente, dos desafios cruciais a encarar na caminhada da construção nacional. Não me deixo, tampouco, levar pelo exagero de contemplar a realidade pelas lentes de aumento do doutor Pangloss, mitológico personagem de Voltaire.

Os sinais de que muita coisa não anda funcionando a contento são abundantes. Desconhecê-los traduz grotesca ingenuidade. Mas, mesmo atento ao que vem pintando no pedaço, não dá pra embarcar de corpo inteiro nessa onda borbulhante de desalento surfada por frenéticas “cassandras do catastrofismo” espalhadas na praça. O Brasil não está à beira do abismo, nem rolando despenhadeiro abaixo pro fundo do poço. A realidade, conquanto amarga, não se mostra tão assustadora quanto alguns querem fazer crer.

De outra parte, para os males detectados existe, sim, receituário eficaz. É preciso saber empregá-lo com bom senso, sem abrir mão das conquistas essenciais acumuladas. Elas derivam das ações bem sucedidas, ao longo dos tempos, das forças vivas da Nação. Uma dessas conquistas se projeta com nitidez solar na pujança do nosso sistema democrático. Um sistema que respalda, mercê de Deus, o funcionamento em plenitude das instituições republicanas que nos regem. Atentemos, a propósito, para o roteiro eleitoral (de décadas) impecavelmente cumprido. A liberdade ampla de expressão é outra referência brasileira refulgente. Nessa sequência costumeira de “rankings” divulgados pelos veículos de comunicação não haverá como não atribuir ao país, na modalidade registrada acima, lugar no topo da lista.

Afigura-se relevante, nesta hora, preservar as conquistas jurídico- trabalhistas e os avanços sociais. São indicativos de um estágio de desenvolvimento que vem sendo alvo de louvores no mundo inteiro.  Dias atrás, por exemplo, o embaixador Raffaeli Trombeta, da Itália, em declaração aos jornais, sublinhou que “tirar o Brasil do mapa da fome foi uma lição para o mundo!”

E nem se queira também ocultar, em meio às turbulências econômicas, os indícios encorajantes de ações voltadas para  a retomada do desenvolvimento. O cenário do chamado empreendedorismo não se quedou inerte. O comportamento do agronegócio chama a atenção positivamente. Delfim Neto registra que “o Governo estava aparentemente perdido, concentrado apenas na defesa do necessário “ajuste fiscal”, mas tenta agora recuperar a iniciativa com bons projetos de concessões e estimulo às exportações”. Exemplifica “com o excelente Plano de Safra para 2015-2016”. Segundo o festejado  economista, os agricultores expressaram total apoio a essa empreitada: “Afinal, são quase 190 bilhões de reais alocados ao setor para custeio, investimento e comercialização da safra!” Ele sabe do que está falando.

Os resultados superavitários da balança de pagamentos nos últimos meses e a notória expansão do segmento da comunicação eletrônica noticiam igualmente a ingente mobilização de esforços da sociedade no enfrentamento dos problemas. Outros setores produtivos confessam-se igualmente articulados na tarefa de promover o desenvolvimento. Boa amostra disso: na edição de 1º de junho do “Diário do Comércio”, dirigentes de importante rede hoteleira anunciaram que, de seus 75 projetos em implantação, 43 unidades já estão em fase de construção com inauguração prevista no prazo de 36 meses. Outro grupo do mesmo setor, na mesmíssima edição, fala também da implantação em diferentes regiões do País de 30 novas unidades de hotelaria, várias em Minas. Dentro desse mesmo diapasão construtivo encaixa-se o comentário conclusivo a respeito do substancioso ciclo de debates que, recentemente, reuniu líderes empresariais e elementos de proa na área do estudo econômico, formulado pelo diretor geral da “VB Comunicação”. Responsável pela realização do “Conexão Empresarial de Araxá”, o jornalista Paulo Cesar de Oliveira, ao registrar o êxito alcançado pelo magno evento, afirmou que “a crise é fabricada e os empresários já estão em busca de soluções”. Acrescentou que “a desaceleração é passageira e o momento é de oportunidade.” Levando em conta também o que declaram dirigentes empresariais da expressão de Murilo Ferreira, da Vale, Tadeu Carneiro, da CBMM, Luiza Trajano, do Magazine Luiza, e Lúcio Costa, da Suggar, obstinados (ao lado de tantos outros) construtores do progresso, não há como recusar a evidência de um avantajado empenho nas áreas produtivas de sobrepujar, com ousadia, persistência e criatividade, as dificuldades desta hora.

De outra parte, depois das expectativas extremamente favoráveis geradas pelas negociações ocorridas por ocasião da visita da delegação governamental e empresarial chinesa, acenando com a injeção de recursos da ordem de 53 bilhões de dólares na economia, o lançamento do plano governamental de concessões em infraestrutura é uma proposta de trabalho merecedora de ser vista, conforme frisou Dilma Rousseff, como um sopro de “oxigênio do otimismo e da esperança.” O pacote de investimentos para projetos prevê quase 200 bilhões de reais, a serem aplicados em ferrovias, rodovias, aeroportos e portos.

Oportuno repetir a fala conceitual de Louis Pauwells: não pega bem mesmo, na contemplação do mar, falar apenas dos enjoos das travessias de curta duração.


       Falando de livros

Cesar Vanucci

“Olhem o céu. Perguntem: Terá ou não terá o carneiro
comido a flor? E verão como tudo fica diferente...”
(Trecho de “O Pequeno Príncipe”)

Nos anos 50 – conservo a cena bem viva na memória –, “O Pequeno Príncipe” foi tema de uma tertúlia literária realizada no auditório da Radio Difusora de Uberaba. O livro de Antoine Saint Exupéry, traduzido para o idioma brasileiro por Dom Marcos Barbosa, andava encantando o público com sua lírica proposta humanística, espalhando certa perplexidade nos círculos intelectuais ortodoxos, infensos a fórmulas narrativas de cunho renovador.

Atuando como expositor, com aquela fecundidade de ideias que iluminou sua trajetória como professor e filosofo, o saudoso amigo e conterrâneo Moacir Laterza interpretou de forma magistral a mensagem da obra, fornecendo provisão para um debate que não se esgotou no encontro havido. Prolongou-se noutras reuniões mais, com os participantes, já aí, melhor inteirados da obra do autor. Os títulos com o seu nome, disponíveis nas livrarias da cidade, esgotaram-se da noite para o dia.

Não me surpreende nadica de nada por conseguinte que, ao longo dos 60 anos já transcorridos, a historieta poética bolada pelo jovem e criativo escritor francês siderado em aviação, falando das peripécias do garoto curioso que nunca, na vida, renunciava a uma pergunta que houvesse feito, continuasse a despertar atenção e carinho por tudo quanto é canto. Mas, mesmo assim, deixo-me arrebatar por indizível sentimento de ternura, por uma emoção que não sei caracterizar com exatidão, ao tomar conhecimento, aqui e agora, em meio à lufa-lufa destes tempos conturbados, de um registro perdido nas páginas da “Veja”, seção que aponta os “livros mais vendidos” segundo verificação feita nas maiores livrarias, de que “O Pequeno Príncipe” é o segundo título mais procurado pelos leitores de ficção na extensa lista dos “best sellers” da hora.

Encontro dificuldades – perdoem-me – para saber traduzir com palavras corretas a sensação de deleite que isso produz.

Decisão histórica.
O Supremo Tribunal Federal acaba de tomar outra decisão histórica. Jogou por terra estrepitosamente a exigência da autorização prévia para publicação de biografias. Até aqui prevalecia o entendimento – considerado por eminentes juristas lesivo ao exercício pleno dos direitos assegurados pela Constituição – de que a editoração e circulação de uma obra biográfica só poderia ocorrer com autorização do biografado ou de seus herdeiros. Esse consentimento prévio, que inviabilizou, ao longo dos anos, a efetivação de importantes projetos concernentes a figuras de relevo histórico, passa a ser, doravante, página virada na crônica cultural.

A medida decretou, em suma, a eliminação do que era visto, de há muito – repita-se –, por influentes correntes do pensamento jurídico, como inequívoca “censura prévia”. O respeito à liberdade de expressão, “uma liberdade preferencial” por tratar-se de pressuposto para o exercício dos demais direitos fundamentais, como definido no voto do Ministro Luiz Roberto Barroso, foi a base de sustentação do posicionamento assumido na alta Corte. Para quem, a partir da medida aprovada, se sinta molestado face a qualquer texto biográfico relativo à sua vida e obra, ou de personagem público do qual seja descendente direto, haverá sempre disponível o recurso judicial, com a perspectiva de ressarcimentos moral e pecuniário.

Nas manifestações a respeito da matéria, que foi suscitada por ação proposta pela Associação Nacional de Editores de Livros, os magistrados deixaram anotado seu apreço e respeito a um preceito basilar na vivência democrática: a livre manifestação das ideias. “O peso da censura, ninguém o suporta”, afirmou o Ministro Celso de Melo. “Pela biografia não se escreve apenas a vida de uma pessoa, mas o relato de um povo, os caminhos de uma sociedade”, afiançou também a Ministra Carmen Lúcia, juntando à afirmação um saboroso dito popular: “Cala boca já morreu...”
Vou dizer a verdade

Gaudêncio Torquato *


Senhor Juiz, sobre essa Bíblia Sagrada, vou dizer a verdade, nada mais que a verdade. O Brasil é a terra da ética, do respeito aos valores morais que dignificam o Homem. Aqui, nenhum cidadão deixa de cumprir a lei. O caráter do povo é imaculado, fruto de uma herança cultural profundamente alicerçada no civismo, na solidariedade, no culto às tradições, na religiosidade, no respeito aos mais velhos, no carinho e proteção às crianças e na repartição justa dos bens produzidos. Somos uma Nação onde a Justiça não tarda, onde os juízes decidem sob o véu que cobre os olhos de Themis, a deusa da Justiça. Neste território, atingir a honra de um cidadão equivale a ferir a alma da Pátria. Preservamos o abençoado lema: "todos por um e um por todos". Longe daqui o bárbaro costume de “tirar vantagem em tudo”. 
Os representantes do povo cumprem religiosamente suas promessas. São exemplos de civilidade, magnanimidade, correção e desinteresse pessoal. Estão todo tempo próximos dos eleitores, não aparecendo em suas regiões apenas no período de campanhas eleitorais. Nosso sistema federativo vive em harmonia e equilíbrio. Estados e Municípios repartem equitativamente com a União suas partes do bolo federativo. Os recursos recebidos são suficientes para prover as necessidades fundamentais da população, principalmente nas áreas da saúde, onde os equipamentos são de última geração e o corpo médico propicia atendimento rápido, sem filas. Nossas escolas são de primeiro mundo, desde as do ensino básico às Universidades. Professores dão aulas magníficas, não faltam às suas obrigações, nunca fazem greve porque ganham salários dignos. Não se veem assaltos nem criminosos nas ruas. Nosso povo é pacífico e a igualdade entre as camadas da população é responsável por inserir o Brasil nos primeiros lugares mundiais do PNBF – Produto Nacional Bruto da Felicidade.
Os potenciais das regiões se somam e a racionalidade administrativa gera bolsões de riquezas, que se repartem pelas comunidades. O excedente é exportado e acarreta bilhões de divisas que, da mesma forma, são distribuídos pelas áreas exportadoras. Os estoques reguladores suprem todas as carências, não havendo crise hídrica e nenhuma ameaça de crise energética. Fornecemos energia aos nossos vizinhos mais necessitados. E até abrimos os cofres do nosso Tesouro para a consolidação de projetos de infraestrutura em Nações mais distantes. 
Nossas Casas congressuais votam apenas leis fundamentais. E fazem reformas necessárias ao aprimoramento e moralização dos costumes políticos. Agora mesmo, uma reforma política está em tramitação, podendo-se garantir que acentuará a modernização dos costumes, por meio de uma revolução de métodos comprometidos com a ética e com a moral. Em nossas plagas, não se produzem coisas desnecessárias. Quase não se fazem emendas a projetos de lei, do Legislativo ou do Executivo, porque eles são tão bem feitos, que dispensam reparos. Temos uma Constituição concisa, precisa e clara. Por isso, não há necessidade de interpretações da Letra Constitucional por parte da Corte Maior, o Supremo Tribunal Federal. Não se perde tempo com discussões inócuas. Gasta-se dinheiro com parcimônia e cada tostão é comprovado. Os credos evangélicos cobram dinheiro também com parcimônia, sem prometer o paraíso como troco ao dízimo. Não há ficção orçamentária, razão pela qual o Tribunal de Contas da União não encontra um real fora do lugar. 
Nas CPIs, tudo é muito rápido e objetivo. Os convocados aparecem nas sessões e respondem a todas as perguntas, sem fazer pressão sobre os componentes. Os políticos de maior renome recebem o mesmo tratamento emprestado aos mais simples e modestos. Temos uma representação regrada pela solidariedade, amizade, companheirismo, modéstia e simplicidade. Graças à modéstia do caráter, nossos parlamentares preferem se refugiar nos espaços do trabalho a encenar no palco do Estado-Espetáculo. Os fatos estão sempre acima das pessoas. Afinal de contas, não se cultiva no Brasil aquele sentimento exibicionista e sensacionalista de países do Hemisfério Norte. Aqui o sim é sim, o não é não. Nunca se emprega o talvez, o mais ou menos ou o “depende”. Nas campanhas políticas, não se gasta acima das posses de um candidato. Tudo às claras. Mesmo os mais ricos se impõem um compromisso ético de não usar o poder financeiro. Mandato é missão, não profissão. Empreiteiras, bancos, grupos econômicos estão longe de campanhas; isso é uma vergonha de países bárbaros. Os lucros dos bancos são repartidos em obras sociais. Por isso, o povo brasileiro exibe um dos mais altos índices de qualidade de vida do mundo. 
Quando um partido chega ao poder, executa fielmente seu programa. A honestidade é comum a todas as siglas. As entidades da sociedade civil se alimentam do pão cívico, que é, aliás, o grande alimento da Pátria.
Por aqui, a vaidade passa longe. Nosso Poder Judiciário não se corrompe como em Nações retrógradas. Não se conhece o caso de um juiz sequer que tenha sido flagrado cometendo um desvio. Adotamos uma linguagem de decência, de pureza e de respeito. Aboliu-se o palavrão. As mídias sociais são o espaço de respeito, compreensão e diálogo entre interlocutores. A cordialidade irmana a todos e não existe desamor. As mães são o símbolo da virtude e não geram imprecações desastradas na boca de ímpios.
Sobre a capa desta Bíblia Sagrada, juro que sei a verdade! 



* Jornalista, professor titular da USP é consultor político e de comunicação.

(Fonte: Diário do Comércio de BH - edição de 24/06/2015)

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Mas como se parecem...

Cesar Vanucci

“Nossos partidos são verso e reverso de uma mesma moeda.”
(Domingos Justino Pinto, educador)


Observadores da cena política não contaminados pelas incandescentes paixões partidárias se divertem à pamparra quando, amiúde, valendo-se sobretudo do noticiário nosso de cada dia, constatam que as reações dos dirigentes das diferentes legendas são muitíssimo parecidas, muito embora haja recusa peremptória destes em  admiti-lo.

Vejamos, por exemplo, como se comportam uns e outros diante da revelação de uma maracutaia qualquer, onde correligionários ou desafetos, por vezes atuando juntos, o que não é assim tão raro de ocorrer, são pilhados com a “boca na botija”. Se o personagem incriminado joga no mesmo time, tudo não passa de “um lamentável equívoco, a ser mais adiante devidamente desfeito”, enquanto se aguarda o veredicto sereno da Justiça. Mas se o cara denunciado integra outro elenco, fica “bastante claro” que o “repulsivo ato” vindo a furo é uma prova eloquente a mais da “irrefreável propensão dos nossos adversários para práticas deslavadas de corrupção e enriquecimento ilícito”.

Quem se dá ao trabalho de acompanhar a cobertura midiática dos escândalos do “mensalão petista”, “Lava Jato” – focalizados com maior intensidade pelos veículos de comunicação -; dos escândalos dos “zelotes”, do “mensalão tucano”, do “metrô de São Paulo”, das “contas secretas do HSBC” – focalizados com menor intensidade pelos mesmos veículos de comunicação –, tem ao dispor material vastíssimo para avaliar o comportamento de nossos políticos, comumente marcado por rematado e simplório corporativismo. Os vilões estão sempre “do outro lado”; os mocinhos vestem sempre “nossa gloriosa e imaculada camisa”...

O que acontece hoje, nesse capítulo das incongruências políticas, envolvendo, por exemplo, dirigentes do PT e do PSDB, lembra muito o que acontecia no passado envolvendo, por exemplo, PSD e UDN. O mesmo se aplica numa e noutra época, aos demais partidos. O elemento básico na avaliação dos posicionamentos políticos era e continua sendo regido por um dito famoso. Alguns dizem que a frase teria sido  cunhada por Antônio Carlos, ou por José Maria Alkmin, ou por um outro frasista político do naipe, ou, ainda, por um coronel dos cafundós do Judas, cujo nome se perdeu nas brumas do esquecimento. Cá está o dito: “Amigo meu não tem defeito. Inimigo, se não tem, eu boto!”.

Não resisto à tentação de contar aqui, não sei se já pela segunda vez ao longo das várias décadas acumuladas da publicação destas maltraçadas, uma historieta bastante emblemática relativa a esse assunto da incoerência dos políticos. Dela fui privilegiado testemunha ocular como repórter, em cidade do interior. Percorrendo as ladeiras da memória, percebo, esboçando sorriso quase chegado ao zombeteiro, que as acontecências políticas de então, muitos anos transcorridos, se revelam ainda incrivelmente familiares para dias de hoje.

Seguinte: a UDN e o PTB de Uberaba achavam-se empenhados em acirrada disputa eleitoral. Os udenistas aglutinavam em suas fileiras, predominantemente, pessoas dos estamentos sociais mais abonados financeiramente. Os petebistas, dotados de maior poder de fogo nas contendas eleitorais, contavam com apoios respeitáveis no meio universitário, na classe média e setores operários. Num dado momento, um dirigente do PTB desentendeu-se com os colegas, transferindo-se “de mala e cuia”, como era de costume dizer-se em tempos de antanho, para a banda contrária. Veio a ocupar, de imediato, o posto de presidente do diretório, ora, veja, pois... Uma semana antes da surpreendente mudança de sigla, o então petebista havia sido alvejado pelos paredros udenistas com expressões as mais injuriosas. Entre outras coisas ditas a seu respeito, pelos então impiedosos adversários, repentinamente transmutados em “leais correligionários”, havia o apelido pejorativo de “Gregório branco”. Alusão ao guarda-costas de Getúlio Vargas que provocou, com o atentado a Carlos Lacerda, o acirramento da crise que em 54 levou o Presidente da República ao suicídio.

Pois bem, na calorosa recepção ao novo companheiro de lutas e ideais, os lideres udenistas fizeram questão de apresenta-lo à praça como “um homem público de pensamento arejado, enorme sensibilidade social e popularidade junto às camadas humildes”.  Largaram mão da injuriosa comparação com Gregório, exaltando suas virtudes de “cidadão humanitário, possuidor de peregrinas virtudes, apóstolo das causas sociais”.

Isso aí, gente boa! Sem recorrer a grande esforço de memória, os leitores se lembrarão, por certo, de já haverem presenciado a encenação deste mesmo enredo, com outros protagonistas ligados a outras legendas, noutros lugares e ocasiões.


Falando de samba e de futebol

Cesar Vanucci

“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é.”
(Dorival Caymmi, genial compositor)

Calculo que já na saída do teatro, naquela noite friorenta de sábado, avançando por muitos dias semana adentro, rendidos ao fascínio do espetáculo, os espectadores se puseram a cantarolar ou assobiar, com prazerosa obsessão, trechos inteiros das empolgantes canções. Bem como a compassar com as mãos e pés os ritmos eletrizantes daquilo que haviam acabado de presenciar. “Sambra”, show sobre os cem anos do samba, precioso relicário de emoções, representou sob variados enfoques uma festividade musical de grandeza incomparável na história recente de nossa ribalda.

Liderada pelo grande sambista Diogo Nogueira (apresentador do interessante programa “Samba na Gamboa”, na TV Brasil, retransmitido pela TV Minas), uma equipe de intérpretes, instrumentistas e bailarinos de coruscante talento, brindou o público presente ao Palácio das Artes com um desfile musical que se ombreou com os melhores momentos do teatro-revista. Teatro-revista celebrizado nas atuações de Bibi Ferreira, Paulo Autran, Renata Fronzi, Virginia Lane, Augusto Cesar Vanucci, Agildo Ribeiro, Paulo Fortes e outros ícones da arte popular brasileira. E isso se tornou possível por estarem, todos eles, protagonistas do “Sambra”, ancorados num esplêndido roteiro concebido por Gustavo Gasparani, experiente diretor, e no apoio de técnicos de elevado gabarito em montagens cênicas.

Canções inolvidáveis dos inigualáveis compositores brasileiros foram mostradas em interpretações requintadas. Junto com elas o que se viu foram uma coreografia brejeira, situações bem humoradas, imagens marcantes salpicadas de sátira inteligente numa crítica social bem posta, onde se louvou a liberdade de criar e de exprimir ideias.  O espetáculo, falar verdade,  só não foi mais completo, em sua extensa duração, porque foram deixados de fora – como seria de se imaginar –, depois da criteriosa seleção das canções, centenas e centenas de músicas eternizadas na memória das ruas. Também, pudera! Do que estamos falando é de samba, a mais extraordinária manifestação de nossa cultura artística. Do que estamos mesmo falando é de um repertório inesgotável de canções memoráveis que, em nenhum lugar do mundo, o talento artístico local, voltado para outras modalidades de se fazer música, consegue de leve estocar. Pelo que, então, sobra pra nós a saborosa expectativa de, em futuro que imaginamos próximo, voltar ao teatro para ver mais versões do “Sambra”, fadadas, certeiramente, a exemplo da primeira, a retumbante sucesso.

A fala agora é sobre futebol.
Observadores do cenário político, com acesso aos bastidores do esporte, sustentam com ardorosa convicção a tese de que o noticiário sobre os escândalos do futebol, rendendo por ora manchetes vistosas desde a prisão dos cartolas na Suíça, tende a médio prazo a definhar aqui por estas abençoadas plagas brasílicas. Adicionam uma explicação: a  grande mídia não irá mais se sentir muito à vontade na divulgação de fatos ligados às investigações, quando começarem a pipocar pormenores sobre as operações articuladas pelo jornalista J. Hawilla, da Traffic, relativas à questão dos direitos de transmissão das partidas de futebol.
Segundo esses mesmos observadores, a CPI da CBF, instituída no Senado, vai enfrentar também adiante resistências poderosas, tanto no parlamento quanto nos meios de comunicação.
Esperar pra ver.

E o rei Pelé, hein? Não se emenda. Nas manifestações extra gramado não consegue, definitivamente, marcar gol. Chuta sempre a bola pra fora, mesmo sozinho diante das traves com o goleiro já batido. Seu último “feito” em termos de falação despropositada aconteceu em Havana. Estando em Cuba como ídolo maior do futebol para participar de um evento esportivo, não regateou elogios a Josef Blatter por sua reeleição à presidência da FIFA. A declaração foi feita horas antes da renúncia do cartola-mor, que abandonou o cargo esmagado pelas denúncias acumuladas contra a entidade que ajudou a desmoralizar.




quinta-feira, 11 de junho de 2015

Relembrando o príncipe de Salina


Cesar Vanucci

“Uma não reforma é muito melhor do que uma contrarreforma.”
(Cézar Brito, dirigente da Ordem dos Advogados do Brasil)


A reforma política, tão reclamada pela sociedade, galvaniza atenções. Situacionistas e oposicionistas mostram-se de acordo com a inclusão do tema numa agenda prioritária. O fato leva naturalmente cidadãos interessados no assunto a manterem seus aparelhos de percepção pessoal devidamente sintonizados nas frequências da ação político-parlamentar desenvolvida em Brasília. O foco dos debates mais intensos é o plenário da Câmara dos Deputados. Em meio às marchas e contramarchas das extenuantes negociações, das controvérsias inflamadas, das especulações de toda ordem, o presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha, bastante questionado neste e noutros momentos pelo seu perfil autocrático, garante que o desfecho de todo o processo se dará a curto prazo.

Por um bocado de razões, entre elas a ausência de uma consulta mais ampla a respeitáveis segmentos comunitários com contribuição valiosa a oferecer aos debates em curso, não são poucos, a esta altura, os cidadãos que se confessam temerosos de resultados pífios. Para tais cidadãos pode perfeitamente acabar acontecendo, no frigir dos ovos, em função do jogo de interesses, um malogro de expectativa. Algo na linha mais ou menos daquilo que Dom Fabrizio, príncipe de Salina, sublinha numa frase antológica do livro “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi de Lampedusa, transposto para o cinema em filme estrelado por Burt Lancaster no papel central:  “Se quiserem que as coisas continuem como estão, coisas têm que ser mudadas”. Noutras palavras: faça-se alguma reforma, para não se fazer reforma alguma...

Na marca do pênalti
Vamos admitir, só pra fins de argumentação, que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, com a colaboração das autoridades suíças, haja mesmo extrapolado seus limites jurisdicionais ao requerer a prisão dos cartolas reunidos no luxuoso hotel Baur Au Lac, em Zurique, durante o congresso da FIFA. De um modo ou de outro, essa controversa questão jurídica acabará sendo dirimida, não temos dúvida, mais cedo ou mais tarde.

O aspecto que, na verdade, merece ser ressaltado nessa ruidosa intervenção que varou as fronteiras esportivas para ganhar repercussão politica internacional, é a disposição firme revelada por poderes legitimamente constituídos de colocar, finalmente, o dedo na ferida exposta (com risco há muito de gangrena) da entidade mater do futebol.

A FIFA transformou-se numa organização que, na base da bazófia e da arrogância, opera com descomedida desenvoltura em todos os cantos do mundo, julgando-se acima do bem e do mal. De seus formidáveis negócios, muitos deles nebulosos, implicando em vastos esquemas de propina, mode favorecer alguns dirigentes, não costuma prestar contas a ninguém. Age como se fosse um Estado, com leis e regras específicas, à margem da sociedade das nações. O uso sistemático do sistema financeiro estadunidense por alguns cartolas, para lavagem de dinheiro obtido em ações ilegais, colocou as entidades fazendárias no encalço dessa gangue mafiosa. Isso pode levar agora ao desbaratamento de outras presumíveis maracutaias envolvendo entidades regionais filiadas, como é o caso da CBF.

A CPI Parlamentar instalada no Senado para averiguações sobre a conduta do órgão decorre das constantes denúncias que pesam sobre ele. Os acontecimentos desencadeados em Zurique poderão resultar em desdobramentos capazes de concorrer positivamente para a pretendida regulamentação em termos nacionais das atividades do futebol. Um modelo de regulamentação foi trazido recentemente ao debate em PEC governamental. Aos observadores não tem passado desapercebida a circunstância de que a proposta de regulamentação, antes de ser debatida com a intensidade recomendada, vem sendo, na verdade, alvo de hostilidade por parte da cartolagem, o que enseja a suspeita de que alguns setores se sentem incomodados com a possibilidade da eliminação, no trabalho realizado nos meios futebolísticos, de certas “prerrogativas” que podem encobrir autênticos desmandos.

Estão com a razão

Cesar Vanucci

“Se é a razão que faz o homem é o sentimento que o conduz.”
(Jean Jacques Rousseau, pensador suíço)

É oportuno reconhecer, com máxima ênfase, sobretudo no momento em que o governo do Paraná cuida do assunto na base da porrada, as convincentes razões dos profissionais da Educação em defender, até na praça pública, com ardorosa convicção, a valorização salarial da categoria. Existe um piso salarial aprovado fixando a equiparação do rendimento dos professores à média dos demais profissionais com ensino superior. Ele não está sendo cumprido na maior parte do país. Minas tornou-se, recentemente, no governo Pimentel, honrosa exceção.

A “Pátria Educadora”, da marquetagem vistosa, não vem tratando com a atenção devida as pessoas que se dedicam à preparação de nossos filhos para o jogo da vida. Na comparação com dezenas de países desenvolvidos, o Brasil ocupa nessa questão remuneratória posição acabrunhante. Segundo relatório de 2014 relativo à Educação, elaborado pela “Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico”, nosso país paga a um docente em início de carreira nas escolas públicas de ensino fundamental um terço do valor médio registrado. Chile e México, entre os latino-americanos incluídos na análise, pagam melhor seus educadores.

· A razão assiste por inteiro ao Ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo, quando expressa o sentimento de que a assim chamada “PEC da Bengala” deva ser estendida a todos os servidores públicos, indistintamente. Não fique circunscrita apenas aos magistrados dos Tribunais Superiores. Caso isso não aconteça – pondera – a conclusão a retirar do posicionamento assumido pela Câmara dos Deputados, aprovando em tramitação super rápida a PEC, é de que a medida se revestiu de caráter meramente casuístico. Não passou de uma retaliação à Presidenta da República, algo, sem dúvida, lamentável.

· A razão assiste por inteiro igualmente a outro Ministro do STF, Teori Zavascki, quando no exame de um pedido de “habeas corpus” interposto no “Lava-Jato” emitiu parecer, devidamente acatado pelos seus pares, definindo que “prisões preventivas” em processos criminais só podem ser prorrogadas diante de indícios concretos de que haja riscos de o réu fugir ou interferir nas investigações. Prisão temporária não é momento para serem emitidos juízos condenatórios, asseverou ele, criticando ainda, por representar ato em desacordo com a doutrina jurídica, a interpretação de que essa modalidade de prisão possa ser utilizada como meio para forçar a “delação premiada”.


· Sobejam razões na decisão do Presidente do Senado, Renan Calheiros, ao recomendar um estudo mais meticuloso da Casa a propósito do projeto de lei que altera os contratos trabalhistas, no modelo da terceirização. A preocupação demonstrada com referência a dispositivos constantes do texto aprovado na Câmara dos Deputados que possam implicar em prejuízos a direitos dos assalariados é louvável. Não se justifica, jeito maneira, a sofreguidão de alguns segmentos em aprová-la a toque de caixa. A posição do Senador está ancorada na imperiosa necessidade de se abrir um diálogo mais aberto e intenso, envolvendo representantes dos setores trabalhistas e patronais, de forma a escoimar o projeto de quaisquer inconveniências que firam direitos consolidados na legislação laboral.

sexta-feira, 5 de junho de 2015


Situações bem distintas

Cesar Vanucci 

“A Petrobras não vai parar.
Não vai dar marcha a ré.”
(Aldemir Bendini, presidente da empresa)

É preciso separar bem as coisas. Uma coisa é o escândalo objeto de investigação. Escândalo este enfrentado com apropriado rigor institucional, de forma a desestimular eventuais tentativas no sentido de aliviar as responsabilidades criminais dos autores das malfeitorias praticadas. Outra coisa é a Petrobras em si mesma. Estamos falando da história legendária de uma empresa com cintilante trajetória. Uma empresa que soube alcançar patamares de excelência dentro da importantíssima missão de que se acha investida de assegurar ao Brasil lugar realçante no mapa das potencias petrolíferas.

Apesar de todos os pesares, a estatal de energia – não se pode olvidar o fato – continua sendo a maior empresa do país. Uma das companhias mais importantes do mundo.  Há que se deplorar, sim, tenha sido alvejada impiedosamente pela corrupção. Bandalheiras de todo tamanho articuladas por uma máfia voraz, composta de executivos de 27 empreiteiras, de 4 ex-diretores e de políticos em número ainda não totalmente definido.  Todos devidamente identificados em processos conduzidos com firmeza nas instancias competentes. 

Observando, agora, por um outro prisma a questão da Petrobras, dá para perceber, também, sinais promissores de sua tão almejada recuperação. A empresa vem retomando a caminhada inerente à sua natural vocação. Ancorada, obviamente, nas potencialidades que ostenta em razão de seus excelentes recursos técnicos e humanos e das alentadoras perspectivas de negócios nas áreas onde atua.

“A empresa não vai parar!” Afiança, com fervorosa convicção, o presidente Aldemir Bendini. “Não dará marcha a ré. Estamos empenhados em passar a limpo os erros e a recomposição tem mostrado resultados” – acrescenta. Números e dados animadores dão suporte à fala do dirigente. A Petrobras foi a única do setor energético a acusar aumento de produção em 2014. Colocou em oferta mais 230 milhões de barris/dia de petróleo. Enquanto isso, suas concorrentes de maior porte registraram, em igual período, acentuados declínios na produção. A Exxonmobil, queda da ordem de 570 milhões de barris/dia; a British Petroleum, de 548 milhões de barris/dia; a Shell, de 546 milhões de barris/dia; a Chevron, de 50 milhões de barris/dia. Malgrado todos os percalços conhecidos, acaba de conquistar, graças às tecnologias de ponta desenvolvidas pelo seu abalizado corpo técnico, o “OTC Award 2015”, o mais importante prêmio da indústria mundial de óleo e gás.

Empréstimos recentes, como o que foi anunciado por um banco chinês, o maior do mundo, (3 bilhões e 500 milhões de dólares, na maior operação do gênero já ocorrida na América Latina), parecem haver preenchido satisfatoriamente as necessidades do financiamento previsto para o exercício em curso. De outro lado, os aportes de recursos milionários derivados de parcerias – com os chineses novamente em cena –, robusteceram consideravelmente as condições operacionais da organização no esforço empreendido de recompor-se administrativamente. O ritmo atual de produção, pelo que tudo indica, vai permitir sejam colhidos a tempo e a hora os frutos dos enormes investimentos e das fabulosas descobertas de jazidas na chamada “província do pré-sal” entre 2006 e 2014.

No ver de qualificados especialistas, a empresa terá que seguir inabalável na sua estratégia de produção, resistindo às pressões presentemente feitas visando a alteração do modelo vigente de exploração de petróleo e gás. A sociedade brasileira precisa, nessa linha de raciocínio, manter ligados seus aparelhos de percepção, atenta à advertência que faz, a propósito dessas fortes pressões, entre outros, o economista Júlio Miragaya, dirigente do Conselho Federal de Economia. Diz ele: “Desde que o Brasil adotou o regime de partilha, as corporações do setor, de forma indireta, mediante analistas do setor financeiro, agências de risco e aliados locais, fecharam o cerco à Petrobras. O objetivo imediato é torpedear o modelo de partilha e, no médio prazo, desidratar a Petrobras, visando  posterior privatização. Algo parecido com o que estão fazendo no México com a Pemex”.

Isso aí. Como dito no começo do comentário, precisamos separar bem as coisas. Afigura-se claro nesta hora que a indignação e o desconforto suscitados pelas maracutaias denunciadas não podem se aprestar, ao contrário do desejo de alguns setores despojados de sentimento nacional e consciência cívica, a tumultuar a execução plena do projeto de afirmação da soberania nacional inserido inarredavelmente nos destinos da Petrobras.


Despudorada impertinência

Cesar Vanucci 

“Outro dia, na sala de aula, um aluno fez esta interessante
 pergunta: - quem avalia as “avaliações das agências de risco?"
(Antônio Luiz da Costa, professor)

Deu no jornal. Uma agência estrangeira, com sede em Manhattan, entendeu de rebaixar os “ratings” da Vale. Passou o “rating” de crédito corporativo da empresa de BBB+ para BBB, com “perspectiva negativa”, seja lá o que essa anotação signifique no dialeto dos negócios...

Colho, de quando em vez, com “a pulga atrás da orelha”, informações assemelhadas. As assim denominadas “agências de classificação de riscos” - uma delas tem, por sinal, nome parecido com o de uma conhecida marca de absorvente intimo feminino -, contando sempre com solícita acolhida na grande mídia, comparecem volta e meia a público para anunciar, impávidas, colosso, em atitude de desbordante arrogância, “por mais isso ou por mais aquilo”, rebaixamentos de notas. Alvejam grandes conglomerados industriais e organizações bancárias, por aí. Esticam de tal jeito a petulância, ao ponto de incluir, até mesmo, em inimaginável ousadia, nos boletins de notas, países inteiros. Ou seja, atribuem-se o “direito divino”, como “mestres-escolas da humanidade”, de emitirem periodicamente “pontuações de mérito” a gigantescas extensões de terra com gente dentro. Contemplam nas doutas avaliações nações com colossal dinâmica de vida. Com peculiaridades culturais, patrimônios de riquezas, grupos sociais diversificados, com poderes constituídos, com complexa estrutura constitucional, hábitos comportamentais típicos, crenças, esquemas sociais específicos voltados para o efervescente processo de construção humana. Tudo, tudo é colocado descerimoniosamente na alça de mira de emproados analistas, “investidos” por vontade própria da função de integrantes de uma corte suprema universal encarregada de estabelecer acórdãos inapeláveis sobre a conduta econômica.

Embora, sob o clarão do bom senso e a partir de uma percepção humanística da aventura da vida, o procedimento dessas agências atinja as raias da mais despudorada impertinência, traduza colossal disparate, há quem se disponha a levá-las a sério. Muito a sério. Exatamente ele, o “mercado”. Melhor dizendo, esse ser ectoplásmico que ninguém consegue ver ou apalpar, mas que se arroga o direito de, impelido por conveniências indecifráveis, impingir regras de como proceder, nem sempre sensatas, à sociedade. Serve-se, ainda, oportunisticamente, matreiramente, das “abalizadas manifestações” de tais organismos, melhor explicitando, das agências de risco, para ziguezagueantes manobras especulativas, ao gosto dos insaciáveis apetites de patotas entrincheiradas nos bastidores.

Os países de economia emergente são – tá mais que evidente – o alvo predileto das agências. O jogo dos interesses clandestinos fica aguçado na hora das pontuações de encomenda. Alguma “torcida organizada”, nalgum lugar, num dado momento, tal como fazem cruzeirenses, atleticanos, flamenguistas e corintianos nas arquibancadas na expectativa do gol, acompanha com emoção os “rebaixamentos” de notas, as alterações do denominado “rating”, olhos fixos no placar das vantagens que se consiga extrair das “pontuações” atribuídas aos entes jurídicos tratados pelas agências como meros educandos, aprendizes de voo à espera do brevê.

Sobre o tremendo absurdo de que se reveste essa situação, a grande mídia, receptiva a divulgar com destaque as manifestações das agências, estranhavelmente se cala. Nada de elucidar as pessoas sobre questões cruciais ligadas a tais órgãos. Há uma pergunta entalada na garganta de todo mundo que ninguém se dá nunca ao trabalho de responder. A ação desenvolta dessas agências, assumindo papel de suprema instância judicante na vida econômica dos países emergentes, é garantida, é regulada, é legitimada mesmo por qual poder superior? Hein? Outra indagação: Por qual razão ninguém se anima a explicar, tampouco, a suspeitosíssima condição em que essas mesmas agências foram surpreendidas quando daquele estouro da bolha imobiliária, que tanta devastação econômica produziu? Com seu alardeado e festejado aparato técnico para aviar diagnósticos econômicos, “por qual relevante motivo” nenhuma delas se deu ao trabalho de emitir a mais leve consideração acerca do formidando escândalo de 2008? Não se perca, a propósito, de vista o elucidativo registro de que a localização de todas elas era, a bem dizer, no epicentro do furacão que, da noite para o dia, revolveu a vida de bilhões de pessoas.

Tem mais pergunta: Quem quiser que responda. Faz qualquer sentido a valorização, com espalhafato midiático, que alguns setores costumeiramente conferem a pareceres elaborados por técnicos estrangeiros plantados em gabinetes distanciados milhares de quilômetros das realidades comentadas?

Por exemplo, parecer relativo a uma empresa da magnitude da Vale, de cuja portentosa cadeia produtiva, de dimensão continental, talvez só conheçam meras ilustrações coloridas constantes de algum portfólio largado em suas mesas?

Encurtando razões, agência de classificação de risco é que nem aquele kit de primeiros socorros que o governo brasileiro, anos atrás, andou forçando os motoristas, sob ameaça de multa, a carregarem nos porta-malas dos carros. Serve pra nada. É uma coisa tal qual, que sem ela a economia permanecerá tal qual.


A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...