domingo, 31 de janeiro de 2016



A carta dos advogados

Cesar Vanucci

“Para que esse movimento seja de fato transformador  é essencial que não existam falhas processuais.”
(Editorial do DC de 20.01.2016)

Advogados renomados tornaram pública, em manifesto à Nação, frontal discordância quanto à condução dos processos investigatórios relacionados com a chamada operação “Lava-Jato”. Entre as situações merecedoras de crítica, segundo eles, são apontados o desvirtuamento do uso da prisão provisória, o vazamento seletivo de documentos e informações sigilosas, levando os indiciados à execração pública antes de estabelecida a certeza de sua culpabilidade.

O pronunciamento dos juristas, que faz menção também ao que é definido como desrespeito flagrante às prerrogativas constitucionais da advocacia, com efeitos contraproducentes à desejável isenção dos julgamentos, provocou inflamadas controvérsias.

Entidades representativas dos magistrados e dos promotores saíram de pronto a campo para contestar com veemência a manifestação. Taxaram-na de agressão descabida à Justiça, que vem se comportando no desdobramento do caso perfilado, segundo elas, com exemplar correção. Sustentaram também que todos os procedimentos na esfera judicial timbram-se por rigorosa fidelidade aos termos estritos da lei e que as decisões tomadas estão amparadas em elementos probatórios convincentes. A acesa discussão alcançou, obviamente, outros segmentos da comunidade, ganhando realce nos meios de comunicação.

De quantos – e foram muitos – se ocuparam da palpitante questão, consideradas aí as leituras a que teve acesso este escriba, o editorialista do artigo de fundo (como era de bom tom dizer-se em tempos antigos) do “Diário do Comércio”, edição de quarta-feira, 20 de janeiro, foi quem, a meu ver, melhor e com mais perfeita exatidão soube resumir as colocações jurídico-legais evocadas na contenda, extraindo com lucidez as conclusões adequadas.

Vale a pena repetir o que foi sublinhado no editorial citado. Veja trecho na sequência: “Os processos em curso, e não exclusivamente aqueles que envolvem a Petrobras e suas subsidiárias, podem fazer mais que desmontar redes de corrupção, expondo relações impróprias entre o público e o privado. Estão sendo desnudados os aspectos mais sombrios da política, primeiro passo para o resgate de valores que foram sendo apagados ao longo do tempo. Para que esse movimento seja de fato transformador é também essencial que não existam desvios, falhas processuais ou mesmo abusos que adiante possam abrir espaços para recuos. Defender o interesse público e recolocar a ética em primeiro plano, demanda que seja resguardada a absoluta correção processual, sem qualquer injunção que se afaste desse patamar. Nesse sentido, e até independentemente da apreciação mais ampla de seu conteúdo, cabe tomar a carta dos advogados como um alerta. Para que nenhum direito, seja de quem for, seja suprimido ou agredido, para que os processos em curso sejam de fato saneadores e, sobretudo, transformadores.”


As lágrimas de Obama

Cesar Vanucci

“O lobby das armas não pode fazer a América de refém.”
(Barack Obama)

Alguns insinuam que tudo não passou de estudada encenação mode sensibilizar desprevenidas arquibancadas. Aprontação marqueteira lambuzada de demagogia populista.

Mas não foi bem assim que o desajeitado escriba amigo de vocês viu o choro de Barack Obama ao vivo e em cores. A emoção na fala pareceu bastante sincera. Razões poderosas não faltam, por certo, para que ele e muitos de seus compatriotas externem publicamente pesar dolorido diante da calamidade confrontada pela sociedade estadunidense com a paranoica politica vigente no país, que garante a qualquer um, menores inclusive, o livre acesso a armas de qualquer calibre para usos ajustados a toda sorte de conveniências nocivas.

Soa incompreensível nos ouvidos dos autênticos humanistas e democratas, gerando infinita perplexidade e justificados temores, os argumentos levantados por adversários do Presidente dos Estados Unidos quando se contrapõem, com furor, reconhecer-se-á talebanista, aos bem intencionados planos governamentais referentes ao fortalecimento dos esquemas de controle das armas de fogo. À luz do senso comum, o pacote de medidas restritivas anunciado chega a ser incrivelmente tímido. Fica bem aquém das expectativas legítimas que possam ser geradas, em qualquer ambiente civilizado, pelo cidadão do povo, com vistas a garantir a paz e a tranquilidade à sua volta.

O que Obama quer, nas ordens executivas divulgadas debaixo do fogo cerrado de desvairados oposicionistas, é simplesmente dificultar a venda a rodo de armas. É estabelecer um ordenamento mínimo na comercialização desenfreada. O que propõe montar é um sistema razoavelmente confiável de controle dos antecedentes dos compradores e vendedores. A quase totalidade deles age com plena liberdade em atividades comerciais – pasmo dos pasmos – online e em “feiras e eventos de produtos” onde não se exige dos fornecedores dos mortíferos artigos licenciamento legal para o trabalho. O que Obama pede é maior rigor na liberação de autorizações de porte de armas e proibição taxativa na aquisição por pessoas não devidamente identificadas. O rastreamento do perfil dos compradores, entende ele sensatamente, concorrerá para reduzir as possibilidades de que as armas caiam nas mãos de elementos perniciosos à convivência humana.

Circulam hoje nos Estados Unidos em poder de civis mais de trezentos milhões de armas, quantidade superior aos estoques de muitos exércitos. A indústria armamentista, responsável maior por essa pandemia, recusa-se a submeter-se a qualquer legislação que lhe retire o “direito” de comerciar livremente suas mercadorias. Isso fere, esbraveja farisaicamente, o “direito de liberdade pessoal”. Para a poderosa Associação Nacional do Rifle, uma excrecência associativa que se pretende ser levada realmente muito a sério, o que entra em jogo são “prerrogativas constitucionais legítimas”, escoradas na necessidade social - vejam só o tamanho do absurdo! – de se ter uma milícia bem ordenada para segurança do Estado. Em assim sendo, o “direito” do cidadão possuir e portar armas carece ser garantido a qualquer custo. Melhor dizendo, a qualquer preço...

Trata-se, visto está, de assustadora “aberração jurídica”. Sobretudo quando se tem presente o macabro registro das milhares de pessoas vitimadas por armas de fogo. E o que não dizer dos massacres de inocentes periodicamente promovidos por atiradores solitários que priorizam escolas – sabe-se lá por quais demenciais propósitos – como alvos dos atentados?

Obama falou desses atentados enquanto as lágrimas escorriam. Usou palavras candentes para lamentar o que vem ocorrendo frequentemente “nas ruas de Chicago”. Estranhavelmente, nada li ou ouvi, em nenhum órgão de divulgação explicações complementares a respeito de qual problema grave de violência sistemática a que o Presidente dos EUA estaria se reportando nesse trecho específico de sua alocução.


Em cenas mostradas na televisão, colhidas em diferentes cidades dos Estados Unidos, aparecem cidadãos comuns circulando pelas ruas carregando “normalmente” cinturões com pistolas automáticas e pentes de balas no mais rematado estilo faroeste. As imagens fornecem-nos aterrorizante exemplo daquilo que, bem provavelmente, fez Obama verter lágrimas.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Oposicionismo midiático

Cesar Vanucci

“Espanta-me que o governo (...) não tenha logrado enxergar na mídia nativa o verdadeiro partido de oposição.”
(Mino Carta, diretor da revista “CartaCapital”)

Qualificados observadores das tricas e futricas que agitam o fervente cenário político sustentam, com certeza ardorosa, uma tese assaz intrigante. O oposicionismo ativo, com maior poder de fogo, ao governo Dilma Rousseff e partidários está hoje sediado muito mais em certos setores da grande mídia impressa e televisiva do que propriamente nas legendas adversárias.

No foco das manchetes, chamadas e comentários do noticiário nosso de cada dia percebe-se que tais alegações não são assim de todo destituídas de fundamento. Temos abaixo alinhados indícios recentes do que acontece.

Num desses “vazamentos”, que se vão tornando frequentes, com indesejáveis consequências ao bom ordenamento das investigações, um dos chamados “delatores premiados” na saneadora operação “Lava-Jato” teria aludido a atos ilícitos capazes de comprometerem, de algum modo, três ex-presidentes da República: Luiz Ignácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Color de Mello. No bombardeio noticioso que se seguiu às “revelações” – que se acham naturalmente sujeitas ainda a avaliações mais aprofundadas em nome de postulados éticos, morais e legais caros à cidadania – o volume de citações ao líder petista atingiu tal monta que acabou sufocando por completo as discretas menções reservadas aos dois outros dirigentes partidários.

Adiante, mais uma evidência sonora dessa inclinação “partidária” – chamemo-la assim – de parte considerável da grande mídia. Em estardalhante título, primeira página, conceituado jornal de abrangência nacional, louvando-se também, ao que explicou, em “vazamento” de “delação premiada”, denunciou em sensacional “furo” malfeitoria de razoável tamanho praticada por parente do ex-Presidente Lula. A estrondosa informação ganhou desdobramento, com especial destaque também de primeira página, em numerosos órgãos de comunicação, nas edições dos dias seguintes. Uma semana depois, na mesma primeira página, o jornal responsável pela reação noticiosa em cadeia estampou uma nota com pedido de desculpas. O que acontecera não tinha sido coisíssima alguma um “furo”, mas, sim, uma “furada”. Tudo não passara de uma notícia “plantada” com intuitos maldosos.

Na mesma ocasião, noutra publicação de circulação nacional, deu-se guarida a um registro sobre “festança de arromba”, com centenas de convidados, custando uma “nota preta”, transcorrida em requintadíssima casa de recepção na Capital da República, pra festejar aniversário de um garotinho, sobrinho de quem mesmo? Dele, Lula... Em posterior edição, a publicação viu-se forçada igualmente a tornar público pedido formal de desculpas. O aniversariante e pais não possuíam parentesco nem qualquer outro tipo de ligação com o homem público citado.

Pra arrematar, mais esta aqui. Caso das pedaladas fiscais. Juristas respeitáveis, analistas fiscais renomados têm assinalado, volta e meia, que quase todos os Governadores de Estado, com realce  para Geraldo Alckmin, de São Paulo, usam e abusam, na verdade, do mesmo expediente invocado contra Dilma Rousseff no processo de impeachment desencadeado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Nada a respeito, no entanto, é repassado aos leitores, telespectadores e radiouvintes na divulgação que parte da grande mídia destina sistematicamente ao que ficou conhecido como “pedaladas fiscais”.


Meninos do rio

Cesar Vanucci

“De onde vens, criança? / Que mensagem trazes de futuro? / 
Por que tão cedo esse batismo impuro / que mudou teu nome?”
(Cora Coralina)


Mas são apenas crianças, santo Deus! É o desabafo sincero que emerge das profundezas d’alma à medida que as imagens projetadas na telinha vão desvendando a espantosa trama. Meninos e meninas de idade entre 8 e 14 anos, em toscos barcos, inseguros caiaques pode-se dizer, movimentam pequeno e impensável negócio de sobrevivência nos rios da colossal região amazônica.

As cenas, levadas ao ar pelo “Domingo Espetacular”, da Record, domingo, 17 de janeiro, são simplesmente arrepiantes. Focalizando ações transcorridas em momentos distanciados por alguns anos, as câmeras captam manobras ousadas, arriscadíssimas, de frágeis embarcações a remo acionadas pelos bracinhos dos garotos, em tentativas às vezes frustradas de se acercarem dos velozes navios de passageiros que circulam de um ponto a outro nas caudalosas águas. As abordagens são feitas com emprego de cordas e arpões. Exigem dos vendedores mirins vigor físico sobre-humano e invulgares habilidades acrobáticas.  O que se vê são operações inacreditáveis, incorporadas até como “atração turística” à rotina das viagens. E acolhidas com atordoante naturalidade pelos passageiros.

O comércio de pequenos produtos – frutas, pescado, palmito, nessa linha -, adquiridos pelos compradores a valores mínimos, inclusive na base da pechincha, acontece a partir do instante em que os vendedores, demonstrando vocação para equilibristas em trapézios sem rede, colocam os pezinhos descalços no convés. O milenar jogo da oferta e da procura então executado proporciona aos mascates do rio alguns míseros trocados. Encerrada a tarefa, os garotos retornam às canoas presas ao navio. Desfazem os nós das precárias amarras que as mantinham a reboque, repetindo os lances acrobáticos do início e se lançam novamente na correnteza, acionando os remos em direção à “base”. Cuidarão ali de refazer a provisão das “mercadorias” a serem oferecidas a passageiros de outros barcos noutros horários. Ocasiões surgem em que a viagem de volta se processa em meio ao breu completo da noite.

Contemplando pelos olhos das câmeras os atordoantes pormenores desse inaudito esforço diuturno, que jamais por certo ficará catalogado na lista das ocupações formais, a gente se defronta, em atmosfera de comoção, com um drama pungente. Inteiramo-nos de histórias pessoais inimagináveis. Algumas extremamente doridas. O perfil dos meninos do rio retratados na reportagem é mais ou menos este descrito na sequencia. Moram com os pais, muitos irmãos, em casas de madeira despojadas de qualquer conforto, assentadas nas margens dos rios. Alguns frequentam escola. Muitos ainda não sabem ler. No aprendizado pela sobrevivência não conseguiram passar da lição aritmética básica instrumental para exercer a “atividade laboral” abraçada. São eles próprios que cuidam de buscar na mata densa os frutos silvestres oferecidos no inusitado esquema de vendas. São também pescadores e caçadores, embrenhando-se floresta adentro na cata de produtos comercializáveis.

Tem acontecido de alguns poucos dentre eles, num desdobramento apavorante da temerária atuação nos barquinhos, impelidos pela completa ausência de perspectiva profissional, enveredarem por caminhos indesejáveis, sem volta. Suas habilidades invulgares são colocadas a serviço da pirataria que, algumas ocasiões, em horas geralmente noturnas, ameaçam a segurança das embarcações de carreira. Na reportagem relata-se o caso traumatizante de um menor abatido a tiros por seguranças encarregados de garantir proteção aos passageiros. Ele foi surpreendido quando invadia um navio, nas caladas da noite, acompanhando delinquentes adultos.

O jornalismo investigativo da Record marca um tento primoroso com essa reportagem a respeito dos “meninos do rio”. O documentário flagra uma situação perturbadora, indicativa dos descaminhos sociais percorridos por um mundo desapartado dos conceitos humanísticos que deveriam reger todas as engrenagens da convivência humana. Não adiantará, com certeza, clamar por providências que jamais serão adotadas no sentido de desmanche desse quadro chocante alimentado pela ausência de políticas capazes de resguardar a dignidade das pessoas. Mas, mesmo assim, as boas cabeças, que existem espalhadas por todos os cantos do planeta, não podem se sentir esmorecidas no sentido de continuar repensando um jeito comunitário de melhor fazer as coisas. Coisas que, nalgum momento, conduzam mudanças essenciais nas estruturas sociais, mode a eliminar das aflições da sociedade agressões tão contundentes a valores caros à Vida.







sábado, 16 de janeiro de 2016

Sonho de uma noite de verão

Cesar Vanucci

“Se as coisas são inatingíveis... ora! /
não é motivo para não querê-las...”
(Mário Quintana)

A inquieta esperança que borbulha o tempo todo no peito deste desajeitado escriba leva-o, não poucas vezes, a sonhar acordado. Episódio burlesco transcorrido dias atrás na corte brasiliense serve de inspiração para deixar correrem soltas as rédeas da imaginação. Inspira-me a inventar uma historinha que, em boa verdade, desejaria demais da conta ver convertida em realidade.

Falo do episódio acontecido numa festa de confraternização natalina na mansão de personagem de relevo no palco político. Ao encontro compareceram celebridades de diferentes tendências partidárias, componentes dos círculos do poder.  O noticiário deu conta de um mundão de coisas. Os papos descontraídos, com revelações que não costumam aflorar em hora de expediente regimental. A troca de ideias em torno de temas ferventes que frequentam as preocupações gerais. Os detalhes, até mesmo, do incidente em que uma Ministra de Estado sentiu-se compelida a lançar o conteúdo da taça de vinho, de requintada marca francesa, no rosto de um Senador, reagindo a uma observação impertinente e machista. A turma do “deixa disso” precisou agir rápido, mode aliviar a barra.

A historinha a seguir, por mim inventada, tem por pano de fundo uma reunião assim. Ou seja, uma reunião, das muitas sabidamente promovidas constantemente nos redutos mundanos da Capital, com participantes que nas tribunas, palanques e noutras refregas políticas se posicionam em campos opostos, o que dá margem a especulações de que a convivência entre eles, no dia a dia, seria difícil, insuportável talvez.

Mas, pera lá, não é bem assim que a coisa rola. As listas dos convidados sugerem que nesses acolhedores espaços, em variados momentos, as divergências são deixadas de lado. Os desentendimentos são botados pra escanteio, por assim dizer, de maneira a que todos possam desfrutar de relacionamento ameno, civilizado, amistoso.

É num cenário aconchegante, que nem esse, que se encaixa o enredo ficcional bolado por este incorrigível caçador de quimeras. As lideranças das correntes antagônicas ali reunidas anunciam, de repente, jubilosamente, a sincera disposição de levarem a cabo, sem exigências descabidas de parte a parte, a abertura de um diálogo amplo, geral e irrestrito sobre as magnas questões nacionais. Um diálogo ancorado na reflexão serena, no bom senso, no respeito ao contraditório, desdobrado em linguagem e gestos ecumênicos.  Uma troca de ideias toda voltada para a edificante preocupação de assegurar, em sintonia com o sentimento nacional, a tão almejada retomada do desenvolvimento econômico com distribuição socialmente equilibrada da renda.

O comunicado oficial brotado desse pacto de conciliação nacional, firmado com apertos de mãos calorosos e sinceros e com pulsações cardíacas em ritmo de júbilo cívico, sublinharia que as decisões consensualmente estabelecidas colocam os interesses superiores do País, bem como a busca conjunta de soluções para seus graves problemas, acima, bem acima, das paixões político- partidárias e dos egos inflados de quaisquer eventuais aspirantes a cargos de comando na vida pública. Proclamaria, também, como valor inabalável na conduta político-administrativa, o respeito intransigente aos postulados democráticos e às instituições republicanas. Deixaria ainda expressa unânime concordância quanto a uma poderosa conjugação de vontades concentrada na aceleração do processo de desenvolvimento econômico e social, com estímulos às forças de produção e a expansão dos benefícios sociais capazes de garantirem a outras levas da população excluída o acesso a patamares mais elevados na escala do bem-estar social.

Dá, sim, pra entender se alguns ou muitos, não importa o tanto, na conclusão da leitura das desataviadas ideias acima expostas, meneando a cabeça e torcendo o nariz em sinal de desaprovação, desabafem: - “Mas isso tudo não passa de baita utopia!”

 Faz mal não bancar, às vezes, o ingênuo e alimentar utopias nestes amalucados tempos. As utopias fazem parte de nossa peregrinação pela pátria terrena. Como registra o poeta Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos se não fora / a presença distante das estrelas!”

Meandros do Poder

Cesar Vanucci

“Um profissional cuja trajetória está marcada
 pelo compromisso com a ética e com a liberdade”
(Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, sobre o saudoso Jadir Barroso)


Para imenso pesar de sua legião de amigos, Jadir Barroso transpôs recentemente a curva da estrada. Passou a não mais ser visto, como na lírica descrição de Fernando Pessoa sobre o fim comum a todos os mortais. Tai trajetória jornalística cintilante. Jadir granjeou em vida admiração de um mundão de gente por haver se revelado infatigável combatente das boas causas. Um semeador da palavra social.

Sabia fixar magistralmente o sentido das palavras em lúcidos comentários acerca da conjuntura política, social e econômica. Fruto de profícuo labor profissional, estendido por mais de meio século, deixou contribuição valiosa em informações sobre acontecimentos marcantes da vida mineira e brasileira.

O livro “Meandros do Poder – corrupção, traições, incompetências, descréditos, quimeras”, trazido a lume após sua partida graças ao fraternal desvelo de Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, companheiro de fecundas empreitadas no campo efervescente das ideias que geram ações, é amostra palpitante da vigorosa capacidade intelectual de Barroso. Brotou, segundo o autor, de uma indignação e de uma esperança. Indignação pelos rumos trilhados pelo País. Esperança pela crença em dias melhores.

Poderá, sim, acontecer de o leitor, levado por saudável discordância democrática, se defrontar num que outro momento dos escritos alinhados com conceitos e definições polêmicos, não amoldáveis à sua própria interpretação das coisas. Mesmo assim, ao término da leitura, não restará a ele, leitor, alternativa senão a de deixar-se subjugar pelo irresistível fascínio da fala persuasiva e desassombrada do jornalista. A admiração pela figura humana só faz crescer à medida que as páginas folheadas colocam-nos em contato com as arraigadas convicções pessoais e a pureza de propósitos que embalaram os sonhos humanísticos do escritor, voltados para um mundo e um País melhores.

Definindo “Meandros do Poder” como empolgante memorial da vida política, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, nome festejado nas hostes econômicas comprometidas com o sentimento nacional, lembra que Jadir sobressaiu-se pela crítica contundente e observação perspicaz, sabendo analisar como a influência econômica, aliada à ganância, corrói as instituições.

Dividido em dez capítulos, prosa fluente, repleta de revelações instigantes e até perturbadoras, tiradas de bom humor, o livro comenta com espírito crítico a atuação de personagens do mundo político com os quais o autor conviveu, sublinhando que “além da corrupção, traições, maldades e mentiras dominam o processo.” Às tantas, Jadir promove interessante exercício comparativo entre a obra governamental de Juscelino Kubitschek de Oliveira e as dos ocupantes da Presidência que vieram a suceder o grande estadista. Reporta-se também às arbitrariedades presenciadas e enfrentadas nos “tempos de chumbo” no regime militar. Conta histórias de sua passagem pela assessoria do BDMG, dedicando registro especial à “ameaça frustrada de fechamento do Banco”.


No fecho da apresentação da obra, Jadir lança apelo no sentido de um empenho coletivo em favor da construção de “um País imune à corrupção, mais justo, mais humano e mais democrático.” Passa-nos, digamos assim, síntese impecável do verdadeiro sentimento das ruas.

sábado, 9 de janeiro de 2016

Que horas ela volta?

Cesar Vanucci

“Um drama denso, disseca com humor 
e precisão arrepiante as diferenças de classe.”
(Revista “The Hollywood Reporter” sobre filme 
brasileiro estrelado por Regina Casé)

“Que horas ela volta?” é um clarão criativo no apático panorama da mesmice cinematográfica. Um esplêndido exercício sociológico da sempre intrigante conduta humana. Elaborado com sutileza e talento, tem o condão de provocar a atenção do respeitável público para um gênero de relacionamento, de característica toda especial, inserido afinal de contas no cotidiano de todo mundo.

A fita retrata, com pitadas de humor requintado, em tom de crítica social, as situações inesperadas que irrompem na convivência de patrões e empregada doméstica numa residência de classe média alta, a partir do momento em que a filha da trabalhadora passa temporariamente a residir ali, acompanhando a mãe. Desinibida, com um jeito meio petulante, esbanjando graciosidade, a filha da doméstica – uma empregada perfeita, dedicada, “praticamente da família”, confessa a dona da casa – chega à cidade grande com o propósito de cursar Arquitetura. Na visão elitista dos patrões, a pretensão da adolescente afigura-se impensável para alguém de sua categoria social. Eles não conseguem ocultar o espanto ao saberem que a moça obteve boas notas, logrando  aprovação no vestibular, sobretudo quando colocados face à circunstância de que o filho único do abonado casal fracassou no exame de acesso ao ensino superior. A filha da doméstica é recebida de início com afagos. Mas, a partir de certo momento, por conta de atitudes descontraídas, provoca crescente desconforto nas reações da patroa. Acaba balançando pra valer o coreto doméstico. Altera hábitos e costumes do lugar, debaixo do apavoramento da mãe. A patroa, “compreensiva e tolerante” no começo de tudo com relação à presença da jovem em seus domínios de dona de casa zelosa, não consegue esconder, adiante, sua inquietação frente aos lances inusitados que se vão acumulando. Há uma cena, passada na piscina da mansão, quando a filha da empregada é surpreendida aplicando “caldos” no filho da patroa, que projeta com robusto simbolismo o conflito mudo estabelecido entre duas formas diferentes de se olhar o mundo e de se entender os papéis representados no contexto social por criaturas de condições econômicas distintas.

Acolhido com entusiasmo pela crítica e público em vários festivais internacionais, o filme da diretora Anna Muylaert apresenta os personagens e os dilemas atrozes que os rodeiam de um jeito tal que o espectador não tem como deixar de se enveredar por  aprofundadas reflexões sobre as questões de relacionamento humano suscitadas. Arrebatou merecidos prêmios por esse mundo afora. Regina Casé, impecável no papel da disciplinada doméstica Val; Camila Márdila, encantadora como Jéssica, a filha irreverente; e Karine Teles, como a “condescendente”  patroa Bárbara, insincera na amabilidade externada no trato cotidiano com a empregada leal de muitos anos, brindam o público, à frente de excelente elenco, com interpretações memoráveis. Justos, muito justos, os prêmios até aqui abiscoitados pela Regina Casé, Camila Márdila e Anna Muylaert. O trio citado, a começar pela versátil apresentadora de televisão, sem intenção de trocadilho, esquenta de verdade o morno cenário das criações de cinema.

E, por último: pelo que foi noticiado, a diretora Anna Muylaert desejou, num primeiro momento, batizar a película com o título de “Porta da cozinha”. Esse título aí ficaria mais ajustado ao enredo.


Erros judiciários clamorosos

Cesar Vanucci

“Tomando conhecimento dos dramas pessoais relatados, não consigo exprimir minha indignação a não ser bradando “Valha-me Deus, Nossa Senhora!”
(Domingos Justino Pinto, educador)

A banalização da violência, fruto amargo do sensacionalismo midiático, tem dessas. Deixa, às vezes, passarem desapercebidos, por conveniências indefiníveis, dramas pessoas traumáticos com todos aqueles ingredientes suscetíveis de produzirem comoção. A história do artista plástico Eugênio Fiuza Queiroz ilustra impecavelmente, de forma insuportavelmente dorida, a desassossegante tese.

Pouca gente ficou sabendo que esse cidadão permaneceu 18 anos preso, 17 em regime fechado, acusado de crimes de estupros que jamais cometeu. Só agora, em novembro passado, a Justiça resolveu reconhecer a inocência incessantemente proclamada.

A tragédia individual de Queiroz começou nos anos 90. Vítima de estupro praticado naquele período, no bairro Anchieta, em BH, apontou-o como autor do atentado. Na repartição policial ele  veio a ser “reconhecido” por outras vítimas. Ganhou o apelido de “maníaco do Anchieta”, conforme expressão cunhada na época pelo noticiário policial. De nada valeram suas repetitivas alegações de inocência. Indiciado, levado a júri popular, foi condenado a 37 anos de cadeia.

Teve a vida revirada de cabeça pra baixo. “Perdi minha família durante o tempo em que fiquei preso injustamente. Foram quase 20 anos de muita tortura dentro das prisões e de preconceito das pessoas. Sinceramente, não sei como aguentei. Olho, hoje, para trás e não sei como não morri”, desabafa em depoimento à jornalista Natália Oliveira, de “O Tempo”.

Só em 2012 os casos de estupros a ele equivocadamente atribuídos começaram a ser deslindados. Novas investigações resultaram na identificação do verdadeiro autor dos delitos, Pedro Meyer, considerado sósia de Eugênio. Os defensores do artista plástico, Ricardo de Araújo Teixeira e Wilson Hallak, comprovaram com elementos convincentes o terrível erro judiciário. Mesmo assim, a revisão criminal demorou dois anos para ser acolhida. A acusação nasceu de confusão imperdoável. Sua semelhança física com o autor dos delitos concorreu para que se transformasse em vítima de mais essa falha gritante na aplicação da lei penal. “Hoje, na pobreza, sofro muito com tudo isso”, registra Eugênio. Pedido de indenização contra o Estado está sendo ajuizado.


Chamo, agora, a atenção do condescendente leitor para nova contundente e inesperada revelação concernente ao assunto.

Por mais espantoso que pareça, a história desse erro judiciário comporta outra vertente não menos assustadora. Igualmente desconhecida da maioria. Em outro processo,  o ex-porteiro Paulo Antônio da Silva, que também amargou prisão por 15 anos, teve a inocência reconhecida em 2012 depois de ser apontado, a exemplo do que aconteceu com o artista plástico, como responsável por estupros praticados, adivinhem só por quem? Isso mesmo, pelo mesmíssimo Pedro Meyer. Ano passado, a Justiça deu ao Paulo Antônio ganho de causa em ação indenizatória contra o Estado. Mas o Governo entendeu de recorrer da sentença que manda ressarcir a vítima pelos irreparáveis danos sofridos. Paulo Antônio continua na dilacerante espera da parcela que o beneficiará parcialmente pelos inenarráveis padecimentos.

Resumo da ópera: dois indefesos seres humanos viram-se, em ocasiões distintas, emaranhados nas teias macabras de uma sequência de equívocos processuais. Violentamente arrancados do convívio familiar, cumpriram extensas sentenças criminais. Tudo por causa de delitos cometidos por outra pessoa.

Cidadãos comuns que, ocasionalmente, tiveram acesso às informações parcimoniosamente divulgadas pela mídia a respeito de tão cruéis tragédias individuais sentem-se compelidos a indagar, entre aturdidos e condoídos, como é que casos assim, repetindo nas linhas gerais o fatídico episódio dos Irmãos Naves, na década de 50, podem continuar ocorrendo, ainda hoje, diante dos olhares vigilantes de uma Justiça presumivelmente bem mais aparelhada para cumprir sua sagrada missão? Os mesmos perplexos cidadãos se perguntam também se não ficaria mais digno e civilizado para o Estado formular publicamente um pedido de perdão às vítimas, no lugar de apelar para infindáveis filigranas jurídico-burocráticas na tentativa de espichar enervantemente o cumprimento dos deveres que lhe são inexoravelmente afetos no tocante às reparações devidas?

Como uma coisa puxa outra, outra pergunta ganha, então, formato na inquietação popular: essas falhas detectadas na ritualística investigatória poderiam ser de molde a dar origem, também, a outras situações indesejáveis que nem as aqui comentadas?

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Fatos alentadores em meio à crise

Cesar Vanucci

“O trabalho persistente vence tudo.”
(Virgilio)


Tens razão. A situação anda mesmo braba. Abracadabrante, diria o “primo rico”, do inesquecível Paulo Gracindo. “Indomável que nem potranca no cio”, como por certo registraria também o saudoso coronel Ranulfo, lá das bandas do Triângulo, nos bons tempos de fastígio político, em seu proseado de tinturas sertanejas.

A paisagem dos negócios não exibe, pra desconforto geral, a floração exuberante que nos acostumamos a ver em épocas afortunadas. Mas no fundo, bem no fundo da alma popular, ainda não se esvaiu de todo a inquieta esperança por dias mais bonançosos. Cada brasileiro carrega esse impulso heroico, sabedor das incomparáveis potencialidades deste País. Confiante na capacidade empreendedora da valorosa gente brasileira, sente-se à vontade em apostar as fichas na perspectiva de que iremos conseguir, nalgum instante, sobrepujar as adversidades. A marcha em direção ao futuro não pode ser interrompida.

A comparação do Brasil com o mar, já empregada noutras ocasiões, conserva atualidade. Na contemplação do mar não se pode falar apenas de enjoo. O enjoo se aplica unicamente a travessia de duração limitada.

Mesmo com essa profusão de indicadores negativos no plano econômico, derivados em grande parte de políticas governamentais reconhecidamente equivocadas, dá pra identificar em numerosos setores registros encorajadores de ações positivas. São exemplos de construção humana dados por cidadãos empenhados em suplantar percalços com vistas à expansão dos negócios. São acionados pela benfazeja ambição de conquistar novos patamares de desenvolvimento.

Atento à leitura de notícias estampadas, dia desses, numa única edição de jornal, este desajeitado escriba conseguiu coletar, de uma só tacada, facilmente, significativa amostra da saudável disposição que move muita gente, com o espírito de cidadania aflorado, em antepor iniciativas produtivas à crise que nos ronda.

Fatos, vamos aos fatos. A “Ansia Motors”, montadora de veículos sino-árabe, acaba de bater o martelo em torno da implantação em Minas Gerais, município de Sete Lagoas, de unidade destinada a produzir, já no primeiro ano, 25 mil carros. O investimento de 2 bilhões prevê a criação de 2.500 empregos diretos. Além de modelos convencionais, a fábrica produzirá carros elétricos e híbridos. Investirá, adiante, em motores, tratores e eletroeletrônicos. Está prevista também a exportação dos produtos para países da América Latina e Estados Unidos. O diretor da empresa, Moeth Ahmed, declara peremptoriamente não temer a situação econômica vivida pelo Brasil. “Entendo todos os desafios por que passa o País e tenho conhecimento de todos os índices importantes, como PIB, inflação e desemprego, mas entendo que o Brasil dispõe de mercado muito poderoso, na medida em que 30% dos 230 milhões de habitantes têm carro”, assinala.

Enquanto isso, a “RPC Group” confirma investimentos de 250 milhões na instalação de uma fábrica de embalagens em Montes Claros. A linha de produção contemplará as áreas de alimentos, cosméticos e medicamentos. O “Café Três Corações” informa, por sua vez, que estará implantando, também em Montes Claros, já agora no primeiro trimestre de 2016, uma unidade produtora de cápsulas.

De Uberaba chegam informações de que duas empresas firmaram compromisso para instalação de unidades no Parque Tecnológico do município. São elas a Araunch e a Nelltec. A “Oi” revelou haver fechado financiamento de 1 bilhão e 200 milhões de dólares, mais de 4 bilhões de reais, com o “China Development Bank”. Dinheiro a ser aplicado em modernização tecnológica.

Acusando crescimento de 15% no faturamento, que alcançou 1 bilhão e 600 milhões de reais, a “Drogarias Araujo” vai aplicar 100 milhões em um novo centro de distribuição em Contagem. O dirigente da rede, Modesto Araujo Neto, acentua que a expectativa da cadeia é passar das atuais 150 lojas para 450, em 5 anos. Lembra que o ano de 2015 começou desafiador, já que as vendas caíram nos primeiros meses. “Mas o impacto negativo acabou virando uma alavanca para que a rede reagisse. Isso permitiu retomássemos a rota de expansão”, acrescentou.

Os números globais do varejo farmacêutico são, aliás, alvissareiros. É o que a Associação Brasileira de Rede de Farmácias e Drogarias (Abrafarma) deixa evidenciado ao acusar crescimento de 13.55% nos negócios das redes associadas no último exercício. Os “não medicamentos” (itens de higiene, perfumaria e cosméticos) se destacaram no balanço. As vendas globais foram da ordem de 31 bilhões e 42 milhões. As vendas de medicamentos totalizaram 21 bilhões e oito milhões, enquanto as vendas de “não medicamentos” 10 bilhões e 330 milhões.

As farmácias “Pague-Menos”, com projeção de 150 milhões de investimentos em 2016, antecipam que chegarão em 2017 a mil pontos de venda no País. Só em novembro passado esse conglomerado farmacêutico abriu 14 novos pontos de vendas e a previsão do grupo é gerar dois mil novos empregos.

Boas falas. A vida ensina que o trabalho persistente e a criatividade são virtudes humanas capazes de operar prodígios. Um deles: afugentar o desalento e o pessimismo.


“Entendi, mas não compreendi...”

Cesar Vanucci

“Tudo aquilo que não se compreende, envenena.”
(Eugenio d’Ors, filósofo espanhol)

Vagando pelas veredas da memória revejo dona Jerônima, sua irradiante simpatia, tempos da escola risonha e franca. Guardiã serena da ordem na hora do recreio, acompanhava com solicitude maternal o vai-e-vem da gurizada. Dona de simplicidade roceira, participava com extrema boa vontade dos atos escolares. Cumpria com zelo inexcedível as tarefas recomendadas, encontrando dificuldade notória para assimilar informações que extrapolassem os padrões rotineiros de seu abecedário profissional. Expunha as limitações numa frase sugestiva: “Entendi, mas não compreendi...”

A frase de dona Jerônima, pelo que este desajeitado escriba vem observando, ajusta-se como luva de pelica para descrever na atualidade o aturdimento das pessoas com relação ao que anda pintando nos convulsionados pedaços territoriais árabes que hoje galvanizam as atenções do planeta inteiro.

“Entendi, mas não compreendi” é o que parece estar sendo transmitido, em tudo quanto é canto, por atônitos cidadãos desejosos de se inteirarem dos pormenores da aterrorizante contenda. Ou será que não fica mais apropriado dizer “aterrorizantes contendas”?

Vamos ver se dá pra resumir essa história de horror e seus desconcertantes e surreais detalhes. Falemos dos protagonistas do enredo. Existe uma coalizão internacional, liderada pelos Estados Unidos. Conta com apoio de alguns países ocidentais e árabes. Seus objetivos são a derrubada do ditador Bashar al-Assad e a destruição do “Califado do terror”. França, Inglaterra, Canadá, Austrália, Catar, Jordânia, Arábia Saudita e Turquia fazem parte desse agrupamento, que conta, também, aparentemente, com o apoio de grupos rebeldes sírios. Tais grupos, amparados pelos Estados Unidos e Emirados do Golfo, são vistos por observadores qualificados com enorme desconfiança. Há suspeitas de que desenvolvam uma espécie de “jogo duplo” com relação ao “Califado”.

Forças curdas são apontadas como aliadas da coalizão. Constituem a “infantaria” nos combates aos radicais islâmicos. Mas – atentem aí –, não concordam com a queda de Bashar al-Assad. Presentes nos campos de batalha, milícias iranianas agem nos moldes dos curdos.  Opõem-se ao “Califado”, mas ajudam o governante sírio. Os curdos deixam também claro o interesse de constituírem, com anexação de partes dos territórios iraquiano e turco, seu próprio Estado. A Turquia, integrante da coalizão, confronta Assad, contrapõe-se ao Estado Islâmico, mas promove também ataques militares às posições curdas. A dita coalizão atua, predominantemente, na base de ataques aéreos e no fornecimento de armas e suprimentos para os curdos e “grupos rebeldes” que divergem de Assad.

A seu turno, o regime sírio combate o Califado desde o surgimento do movimento ultrarradical islâmico. Recebe ajuda da Rússia e do Irã. Os propósitos de Assad são a destruição do EI e, obviamente, conservar o poder. Tem como aliado o governo do Iraque, que é também aliado dos Estados Unidos...

O Califado quer a saída de Assad. Recebe farta ajuda para derrubá-lo. Passou a ser, de algum tempo a esta parte, alvo prioritário nas ações bélicas da coalizão liderada pelos EUA. Outro inimigo do governante sírio também combatido pela coalizão, nada obstante receba ajuda militar do Ocidente, é a “Al Qaeda”, que não esconde suas inflamadas divergências com o Califado.

A Rússia colocou forças aérea e naval no enfrentamento ao EI, assegurando ao mesmo tempo proteção ao governo sírio. Firmou com a França, depois dos atentados terroristas no Sinai e em Paris, pacto para ações integradas contra os extremistas islâmicos.

Enquanto tudo isso acontece, parte das tropas iraquianas treinadas pelos Estados Unidos resolve aderir ao “inimigo” (o EI). O Hezbollah, grupo xiita acantonado no Líbano, marca presença militar nos campos de batalha, hostilizando o ISIS e ajudando Damasco. Não se perca de vista que tal grupo figura no rol das organizações radicais combatidas por Washington.

No meio dessa baita confusão, a Arábia Saudita, desafeta ostensiva do Irã, utiliza aviões para atacar posições dos “adversários”, ou seja, por um lado, o “Califado” e, por outro lado, o governo sírio. Os Emirados Árabes seguem a estratégia saudita. São apontados por muitos, tal qual acontece com a Arábia Saudita, como incentivadores ideológicos e financeiros do EI. Segundo o Kremlin, a Turquia procede de forma parecida. Mantém negócios escusos com o “Califado” na comercialização de petróleo.

Não sei dizer, em reta e lisa verdade, se a explicação acima ajuda alguém a decifrar esse charabiá armado lá no Oriente Médio. De minha parte, dando uma de dona Jerônima, confesso singelamente que procuro entender, mas não consigo jeito maneira compreender...


Umas e outras

Cesar Vanucci

“Não se pode levar muito a sério a disposição da Arábia Saudita
em articular uma coalizão para combater os terroristas do Califado.”
(Antônio Luiz da Costa, professor)

· Vi na tevê. Um grupo de pessoas ligadas à cúpula política e empresarial chinesa, diante de uma profusão de câmeras, holofotes, microfones, pediu humildemente perdão aos compatriotas pela tragédia - motivada por falha humana, não por causas naturais – que resultou no desabamento de vários prédios construídos em área imprópria, numa província do país. Será que, mostradas uma, duas ou mais vezes aos dirigentes da Samarco e dos órgãos governamentais responsáveis pela catástrofe ambiental de Mariana, essas imagens conseguiriam comovê-los a ponto de se disporem a repetir o mesmo gesto de arrependimento?

· Está dando pra perceber, com extrema facilidade, que a opinião pública não vem digerindo muito bem as explicações dadas pelas autoridades de saúde sobre os fatores determinantes do surto de microcefalia que assola determinadas regiões. Pra muita gente, bem analisadas todas as circunstâncias dessa história, pode ser que o “aedes aegypti” seja o transmissor do vírus, mas também pode ser que não seja. Afigura-se indispensável, a esta altura dos acontecimentos, uma investigação mais aprofundada do que vem na realidade ocorrendo.

· A Arábia Saudita anunciou uma coalizão de forças militares de 36 países islâmicos para combater o sinistro “Califado do Terror”. Alguns observadores das tricas internacionais acolhem com olhares de esguelha esse anúncio. Temem tratar-se de mais uma manobra “só pra inglês ver”... Melhor dizendo, pra americano, francês, alemão, russo, inglês verem... Quando se investiga a fundo as ligações de bastidores dos coléricos jihadistas acantonados em áreas do Iraque e da Síria chega-se rápido à conclusão de que eles encontrariam tremendas dificuldades de sobrevivência não fossem as ajudas clandestinas substanciosas destinadas ao financiamento das ações terroristas desencadeadas. Esse apoio, ao que tudo indica, provém de setores do mundo árabe aparentemente comprometidos em enfrenta-los. Tais setores estariam localizados em alguns dos países que integram a tal coalizão articulada pelos sauditas. Eles próprios, sauditas, são apontados, com destaque, na lista dos colaboracionistas suspeitos.

· O talebanismo tupiniquim não esmorece no propósito de semear o ódio e a intolerância. Indoutrodia alvejou, com impertinências verbais, o íntegro ministro Patrus Ananias. Depois, resolveu importunar o compositor Chico Buarque de Holanda, figura de irrecusável expressão cultural. Em sua vertente racista e machista, inundou as redes sociais com dizeres pejorativos a quatro talentosas e lindas mulheres negras, as atrizes Tais Araújo, Sheron Menezzes, Cris Vianna e a apresentadora dos boletins de previsão do tempo da Globo, Maria Julia Coutinho (Maju). Aos cidadãos que acreditam nos valores humanísticos e democráticos que conferem dignidade à aventura da vida incumbe o dever de rechaçar com vigor essa destrambelhada ofensiva fundamentalista.



A SAGA LANDELL MOURA

  Religiões como sinais de Deus   Cesar Vanucci   “Importa evitar o fanatismo e o sectarismos religiosos”. (Padre Juvenal Arduini, grande so...