sábado, 16 de janeiro de 2016

Sonho de uma noite de verão

Cesar Vanucci

“Se as coisas são inatingíveis... ora! /
não é motivo para não querê-las...”
(Mário Quintana)

A inquieta esperança que borbulha o tempo todo no peito deste desajeitado escriba leva-o, não poucas vezes, a sonhar acordado. Episódio burlesco transcorrido dias atrás na corte brasiliense serve de inspiração para deixar correrem soltas as rédeas da imaginação. Inspira-me a inventar uma historinha que, em boa verdade, desejaria demais da conta ver convertida em realidade.

Falo do episódio acontecido numa festa de confraternização natalina na mansão de personagem de relevo no palco político. Ao encontro compareceram celebridades de diferentes tendências partidárias, componentes dos círculos do poder.  O noticiário deu conta de um mundão de coisas. Os papos descontraídos, com revelações que não costumam aflorar em hora de expediente regimental. A troca de ideias em torno de temas ferventes que frequentam as preocupações gerais. Os detalhes, até mesmo, do incidente em que uma Ministra de Estado sentiu-se compelida a lançar o conteúdo da taça de vinho, de requintada marca francesa, no rosto de um Senador, reagindo a uma observação impertinente e machista. A turma do “deixa disso” precisou agir rápido, mode aliviar a barra.

A historinha a seguir, por mim inventada, tem por pano de fundo uma reunião assim. Ou seja, uma reunião, das muitas sabidamente promovidas constantemente nos redutos mundanos da Capital, com participantes que nas tribunas, palanques e noutras refregas políticas se posicionam em campos opostos, o que dá margem a especulações de que a convivência entre eles, no dia a dia, seria difícil, insuportável talvez.

Mas, pera lá, não é bem assim que a coisa rola. As listas dos convidados sugerem que nesses acolhedores espaços, em variados momentos, as divergências são deixadas de lado. Os desentendimentos são botados pra escanteio, por assim dizer, de maneira a que todos possam desfrutar de relacionamento ameno, civilizado, amistoso.

É num cenário aconchegante, que nem esse, que se encaixa o enredo ficcional bolado por este incorrigível caçador de quimeras. As lideranças das correntes antagônicas ali reunidas anunciam, de repente, jubilosamente, a sincera disposição de levarem a cabo, sem exigências descabidas de parte a parte, a abertura de um diálogo amplo, geral e irrestrito sobre as magnas questões nacionais. Um diálogo ancorado na reflexão serena, no bom senso, no respeito ao contraditório, desdobrado em linguagem e gestos ecumênicos.  Uma troca de ideias toda voltada para a edificante preocupação de assegurar, em sintonia com o sentimento nacional, a tão almejada retomada do desenvolvimento econômico com distribuição socialmente equilibrada da renda.

O comunicado oficial brotado desse pacto de conciliação nacional, firmado com apertos de mãos calorosos e sinceros e com pulsações cardíacas em ritmo de júbilo cívico, sublinharia que as decisões consensualmente estabelecidas colocam os interesses superiores do País, bem como a busca conjunta de soluções para seus graves problemas, acima, bem acima, das paixões político- partidárias e dos egos inflados de quaisquer eventuais aspirantes a cargos de comando na vida pública. Proclamaria, também, como valor inabalável na conduta político-administrativa, o respeito intransigente aos postulados democráticos e às instituições republicanas. Deixaria ainda expressa unânime concordância quanto a uma poderosa conjugação de vontades concentrada na aceleração do processo de desenvolvimento econômico e social, com estímulos às forças de produção e a expansão dos benefícios sociais capazes de garantirem a outras levas da população excluída o acesso a patamares mais elevados na escala do bem-estar social.

Dá, sim, pra entender se alguns ou muitos, não importa o tanto, na conclusão da leitura das desataviadas ideias acima expostas, meneando a cabeça e torcendo o nariz em sinal de desaprovação, desabafem: - “Mas isso tudo não passa de baita utopia!”

 Faz mal não bancar, às vezes, o ingênuo e alimentar utopias nestes amalucados tempos. As utopias fazem parte de nossa peregrinação pela pátria terrena. Como registra o poeta Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis... ora! / não é motivo para não querê-las... / Que tristes os caminhos se não fora / a presença distante das estrelas!”

Meandros do Poder

Cesar Vanucci

“Um profissional cuja trajetória está marcada
 pelo compromisso com a ética e com a liberdade”
(Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, sobre o saudoso Jadir Barroso)


Para imenso pesar de sua legião de amigos, Jadir Barroso transpôs recentemente a curva da estrada. Passou a não mais ser visto, como na lírica descrição de Fernando Pessoa sobre o fim comum a todos os mortais. Tai trajetória jornalística cintilante. Jadir granjeou em vida admiração de um mundão de gente por haver se revelado infatigável combatente das boas causas. Um semeador da palavra social.

Sabia fixar magistralmente o sentido das palavras em lúcidos comentários acerca da conjuntura política, social e econômica. Fruto de profícuo labor profissional, estendido por mais de meio século, deixou contribuição valiosa em informações sobre acontecimentos marcantes da vida mineira e brasileira.

O livro “Meandros do Poder – corrupção, traições, incompetências, descréditos, quimeras”, trazido a lume após sua partida graças ao fraternal desvelo de Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, companheiro de fecundas empreitadas no campo efervescente das ideias que geram ações, é amostra palpitante da vigorosa capacidade intelectual de Barroso. Brotou, segundo o autor, de uma indignação e de uma esperança. Indignação pelos rumos trilhados pelo País. Esperança pela crença em dias melhores.

Poderá, sim, acontecer de o leitor, levado por saudável discordância democrática, se defrontar num que outro momento dos escritos alinhados com conceitos e definições polêmicos, não amoldáveis à sua própria interpretação das coisas. Mesmo assim, ao término da leitura, não restará a ele, leitor, alternativa senão a de deixar-se subjugar pelo irresistível fascínio da fala persuasiva e desassombrada do jornalista. A admiração pela figura humana só faz crescer à medida que as páginas folheadas colocam-nos em contato com as arraigadas convicções pessoais e a pureza de propósitos que embalaram os sonhos humanísticos do escritor, voltados para um mundo e um País melhores.

Definindo “Meandros do Poder” como empolgante memorial da vida política, Carlos Alberto Teixeira de Oliveira, nome festejado nas hostes econômicas comprometidas com o sentimento nacional, lembra que Jadir sobressaiu-se pela crítica contundente e observação perspicaz, sabendo analisar como a influência econômica, aliada à ganância, corrói as instituições.

Dividido em dez capítulos, prosa fluente, repleta de revelações instigantes e até perturbadoras, tiradas de bom humor, o livro comenta com espírito crítico a atuação de personagens do mundo político com os quais o autor conviveu, sublinhando que “além da corrupção, traições, maldades e mentiras dominam o processo.” Às tantas, Jadir promove interessante exercício comparativo entre a obra governamental de Juscelino Kubitschek de Oliveira e as dos ocupantes da Presidência que vieram a suceder o grande estadista. Reporta-se também às arbitrariedades presenciadas e enfrentadas nos “tempos de chumbo” no regime militar. Conta histórias de sua passagem pela assessoria do BDMG, dedicando registro especial à “ameaça frustrada de fechamento do Banco”.


No fecho da apresentação da obra, Jadir lança apelo no sentido de um empenho coletivo em favor da construção de “um País imune à corrupção, mais justo, mais humano e mais democrático.” Passa-nos, digamos assim, síntese impecável do verdadeiro sentimento das ruas.

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