quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Oposicionismo midiático

Cesar Vanucci

“Espanta-me que o governo (...) não tenha logrado enxergar na mídia nativa o verdadeiro partido de oposição.”
(Mino Carta, diretor da revista “CartaCapital”)

Qualificados observadores das tricas e futricas que agitam o fervente cenário político sustentam, com certeza ardorosa, uma tese assaz intrigante. O oposicionismo ativo, com maior poder de fogo, ao governo Dilma Rousseff e partidários está hoje sediado muito mais em certos setores da grande mídia impressa e televisiva do que propriamente nas legendas adversárias.

No foco das manchetes, chamadas e comentários do noticiário nosso de cada dia percebe-se que tais alegações não são assim de todo destituídas de fundamento. Temos abaixo alinhados indícios recentes do que acontece.

Num desses “vazamentos”, que se vão tornando frequentes, com indesejáveis consequências ao bom ordenamento das investigações, um dos chamados “delatores premiados” na saneadora operação “Lava-Jato” teria aludido a atos ilícitos capazes de comprometerem, de algum modo, três ex-presidentes da República: Luiz Ignácio Lula da Silva, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Color de Mello. No bombardeio noticioso que se seguiu às “revelações” – que se acham naturalmente sujeitas ainda a avaliações mais aprofundadas em nome de postulados éticos, morais e legais caros à cidadania – o volume de citações ao líder petista atingiu tal monta que acabou sufocando por completo as discretas menções reservadas aos dois outros dirigentes partidários.

Adiante, mais uma evidência sonora dessa inclinação “partidária” – chamemo-la assim – de parte considerável da grande mídia. Em estardalhante título, primeira página, conceituado jornal de abrangência nacional, louvando-se também, ao que explicou, em “vazamento” de “delação premiada”, denunciou em sensacional “furo” malfeitoria de razoável tamanho praticada por parente do ex-Presidente Lula. A estrondosa informação ganhou desdobramento, com especial destaque também de primeira página, em numerosos órgãos de comunicação, nas edições dos dias seguintes. Uma semana depois, na mesma primeira página, o jornal responsável pela reação noticiosa em cadeia estampou uma nota com pedido de desculpas. O que acontecera não tinha sido coisíssima alguma um “furo”, mas, sim, uma “furada”. Tudo não passara de uma notícia “plantada” com intuitos maldosos.

Na mesma ocasião, noutra publicação de circulação nacional, deu-se guarida a um registro sobre “festança de arromba”, com centenas de convidados, custando uma “nota preta”, transcorrida em requintadíssima casa de recepção na Capital da República, pra festejar aniversário de um garotinho, sobrinho de quem mesmo? Dele, Lula... Em posterior edição, a publicação viu-se forçada igualmente a tornar público pedido formal de desculpas. O aniversariante e pais não possuíam parentesco nem qualquer outro tipo de ligação com o homem público citado.

Pra arrematar, mais esta aqui. Caso das pedaladas fiscais. Juristas respeitáveis, analistas fiscais renomados têm assinalado, volta e meia, que quase todos os Governadores de Estado, com realce  para Geraldo Alckmin, de São Paulo, usam e abusam, na verdade, do mesmo expediente invocado contra Dilma Rousseff no processo de impeachment desencadeado pelo Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. Nada a respeito, no entanto, é repassado aos leitores, telespectadores e radiouvintes na divulgação que parte da grande mídia destina sistematicamente ao que ficou conhecido como “pedaladas fiscais”.


Meninos do rio

Cesar Vanucci

“De onde vens, criança? / Que mensagem trazes de futuro? / 
Por que tão cedo esse batismo impuro / que mudou teu nome?”
(Cora Coralina)


Mas são apenas crianças, santo Deus! É o desabafo sincero que emerge das profundezas d’alma à medida que as imagens projetadas na telinha vão desvendando a espantosa trama. Meninos e meninas de idade entre 8 e 14 anos, em toscos barcos, inseguros caiaques pode-se dizer, movimentam pequeno e impensável negócio de sobrevivência nos rios da colossal região amazônica.

As cenas, levadas ao ar pelo “Domingo Espetacular”, da Record, domingo, 17 de janeiro, são simplesmente arrepiantes. Focalizando ações transcorridas em momentos distanciados por alguns anos, as câmeras captam manobras ousadas, arriscadíssimas, de frágeis embarcações a remo acionadas pelos bracinhos dos garotos, em tentativas às vezes frustradas de se acercarem dos velozes navios de passageiros que circulam de um ponto a outro nas caudalosas águas. As abordagens são feitas com emprego de cordas e arpões. Exigem dos vendedores mirins vigor físico sobre-humano e invulgares habilidades acrobáticas.  O que se vê são operações inacreditáveis, incorporadas até como “atração turística” à rotina das viagens. E acolhidas com atordoante naturalidade pelos passageiros.

O comércio de pequenos produtos – frutas, pescado, palmito, nessa linha -, adquiridos pelos compradores a valores mínimos, inclusive na base da pechincha, acontece a partir do instante em que os vendedores, demonstrando vocação para equilibristas em trapézios sem rede, colocam os pezinhos descalços no convés. O milenar jogo da oferta e da procura então executado proporciona aos mascates do rio alguns míseros trocados. Encerrada a tarefa, os garotos retornam às canoas presas ao navio. Desfazem os nós das precárias amarras que as mantinham a reboque, repetindo os lances acrobáticos do início e se lançam novamente na correnteza, acionando os remos em direção à “base”. Cuidarão ali de refazer a provisão das “mercadorias” a serem oferecidas a passageiros de outros barcos noutros horários. Ocasiões surgem em que a viagem de volta se processa em meio ao breu completo da noite.

Contemplando pelos olhos das câmeras os atordoantes pormenores desse inaudito esforço diuturno, que jamais por certo ficará catalogado na lista das ocupações formais, a gente se defronta, em atmosfera de comoção, com um drama pungente. Inteiramo-nos de histórias pessoais inimagináveis. Algumas extremamente doridas. O perfil dos meninos do rio retratados na reportagem é mais ou menos este descrito na sequencia. Moram com os pais, muitos irmãos, em casas de madeira despojadas de qualquer conforto, assentadas nas margens dos rios. Alguns frequentam escola. Muitos ainda não sabem ler. No aprendizado pela sobrevivência não conseguiram passar da lição aritmética básica instrumental para exercer a “atividade laboral” abraçada. São eles próprios que cuidam de buscar na mata densa os frutos silvestres oferecidos no inusitado esquema de vendas. São também pescadores e caçadores, embrenhando-se floresta adentro na cata de produtos comercializáveis.

Tem acontecido de alguns poucos dentre eles, num desdobramento apavorante da temerária atuação nos barquinhos, impelidos pela completa ausência de perspectiva profissional, enveredarem por caminhos indesejáveis, sem volta. Suas habilidades invulgares são colocadas a serviço da pirataria que, algumas ocasiões, em horas geralmente noturnas, ameaçam a segurança das embarcações de carreira. Na reportagem relata-se o caso traumatizante de um menor abatido a tiros por seguranças encarregados de garantir proteção aos passageiros. Ele foi surpreendido quando invadia um navio, nas caladas da noite, acompanhando delinquentes adultos.

O jornalismo investigativo da Record marca um tento primoroso com essa reportagem a respeito dos “meninos do rio”. O documentário flagra uma situação perturbadora, indicativa dos descaminhos sociais percorridos por um mundo desapartado dos conceitos humanísticos que deveriam reger todas as engrenagens da convivência humana. Não adiantará, com certeza, clamar por providências que jamais serão adotadas no sentido de desmanche desse quadro chocante alimentado pela ausência de políticas capazes de resguardar a dignidade das pessoas. Mas, mesmo assim, as boas cabeças, que existem espalhadas por todos os cantos do planeta, não podem se sentir esmorecidas no sentido de continuar repensando um jeito comunitário de melhor fazer as coisas. Coisas que, nalgum momento, conduzam mudanças essenciais nas estruturas sociais, mode a eliminar das aflições da sociedade agressões tão contundentes a valores caros à Vida.







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