sábado, 30 de abril de 2022

 

O humanista Charles Chaplin

 

Cesar Vanucci

 

“Você nunca achará o arco-íris, se estiver olhando para baixo.”

(Charles Chaplin)

 

Entrelaçando lirismo e aguda percepção social, a obra de Charles Chaplin conferem-nos a condição de notável humanista. Carlitos, eternizado no encantamento popular, os filmes que produziu, dirigiu e interpretou, as criações musicais e outras manifestações artísticas documentam isso de forma irretorquível. Tal como o poema e as frases vindas na sequência.

 

Poema de Charles Chaplin – Quando me amei de verdade – “Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento certo. E, então, pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome ... Autoestima. /Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, meu sofrimento emocional, não passava de um sinal de que estou indo contra as minhas verdades. Hoje sei que isso tem nome ... Autenticidade. /Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que isso tem nome ... Respeito. /Quando me amei de verdade, comecei a me livrar de tudo que não fosse saudável... Pessoas, tarefas, tudo e qualquer coisa que me pusesse para baixo. De início, minha razão chamou isso de egoísmo. Hoje sei que isso tem nome ... Amor Próprio. /Quando me amei de verdade, desisti de querer ter sempre razão e, com isso, errei muito menos vezes. Hoje eu sei que isso tem nome ... Humildade. /Quando me amei de verdade desisti de ficar revivendo o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, me mantenho no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Hoje sei que isso tem nome ... Plenitude./Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela se torna uma grande e valiosa aliada. Hoje sei que isso tem nome ... Saber Viver!!!

 

Frases de Charles Chaplin – “A persistência é o caminho do êxito. /A vida é maravilhosa se não se tem medo dela. /Pensamos demasiadamente e sentimos muito pouco. Necessitamos mais de humildade que de máquinas. Mais de bondade e ternura que de inteligência. Sem isso, a vida se tornará violenta e tudo se perderá. /Se matamos uma pessoa somos assassinos. Se matamos milhões de homens, celebram-nos como heróis. /Creio no riso e nas lágrimas como antídotos contra o ódio e o terror. /Num filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação. /O humorismo alivia-nos das vicissitudes da vida, ativando o nosso senso de proporção e revelando-nos que a seriedade exagerada tende ao absurdo. /Não preciso me drogar para ser um gênio; Não preciso ser um gênio para ser humano; Mas preciso do seu sorriso para ser feliz./Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre./A vida é uma tragédia quando vista de perto, mas uma comédia quando vista de longe./O tempo é o melhor autor; sempre encontra um final perfeito./O som aniquila a grande beleza do silêncio./Mais do que máquinas precisamos de humanidade. Mais do que inteligência precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes a vida será de violência e tudo estará perdido./Eu continuo sendo apenas um palhaço, o que já me coloca em nível bem mais alto do que o de qualquer político./É saudável rir das coisas mais sinistras da vida, inclusive da morte./O riso é um tônico, um alívio, uma pausa que permite atenuar a dor./Enquanto você sonha, você está fazendo o rascunho do seu futuro./A vida pode ser maravilhosa se você não tiver medo dela. Só precisa de coragem, imaginação... e um pouco de grana. /Você nunca encontrará arco-íris se estiver olhando para baixo./Quem faz uma vez, não faz duas necessariamente, mas quem faz dez, com certeza faz onze./A única coisa tão inevitável quanto a morte é a vida.”

 

A magia da palavra de Guima

Cesar Vanucci

“Se todo animal inspira ternura,

o que houve, então, com os homens?”

(Guimarães Rosa)

Na fascinante obra de Guimarães Rosa as palavras jorram com fragor de cachoeira. O genial escritor, com seu arrebatante lirismo, arranca da vida e cenários da natureza definições coloridas e aromáticas que tocam fundo a sensibilidade e deixam a alma extasiada.

Vejam se temos ou não razão em ousar dizer esse tanto de coisas lendo a sequência de frases rosianas abaixo alinhadas, colhidas no site “O Pensador”:

O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. /Felicidade se acha é em horinhas de descuido. /O mais importante e bonito do mundo é isso: que as pessoas não estão sempre iguais, mas que elas vão sempre mudando. /É preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado. /Entre as folhas de um livro-de-reza um amor-perfeito cai. /Deus nos dá pessoas e coisas, para aprendermos a alegria. Depois, retoma coisas e pessoas para ver se já somos capazes da alegria sozinhos... Essa... a alegria que ele quer. /Infelicidade é uma questão de prefixo. /O mundo é mágico. As pessoas não morrem, ficam encantadas. /Sorte é isto. Merecer e ter. /Digo: o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. /Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende. /Tem horas antigas que ficaram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. / Mas eu gostava dele, dia mais dia, mais gostava. Digo o senhor: como um feitiço? Isso. Feito coisa-feita. Era ele estar perto de mim, e nada me faltava. Era ele fechar a cara e estar tristonho, e eu perdia meu sossego. /Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. /O rio não quer chegar, mas ficar largo e profundo. / No mais, mesmo, da mesmice, sempre vem a novidade. /A culpa minha, maior, é meu costume de curiosidade de coração. Isso de estimar os outros, muito ligeiro, defeito esse que me entorpece. /Amigo, para mim, é só isto: é a pessoa com quem a gente gosta de conversar, do igual o igual, desarmado. Ou - amigo - é que a gente seja, mas sem precisar de saber o porquê é que é. /Viver é uma questão de rasgar-se e remendar-se. /Sertão é onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. Viver é muito perigoso. /A gente cresce sempre, sem saber para onde. /Quando eu morrer, que me enterrem na beira do chapadão, contente com minha terra, cansado de tanta guerra, crescido de coração. /Chegando na encruziada tive que me arrezolver... prá esquerda fui contigo... Coração soube escolher. /Por esses longes todos eu passei, com pessoa minha no meu lado, a gente se querendo bem. O senhor sabe? Já tenteou sofrido o ar que é saudade? Diz-se que tem saudade de ideia e saudade de coração. / Há qualquer coisa no ar além dos aviões da Panair. /Significa que posso não ter muito conhecimento e/ou experiência, porém desconfio de como as coisas sucedem já que possuo imaginação. / O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilo. E fim. /É e não é. O senhor ache e não ache. Tudo é e não é. /Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. / Penso que chega um momento na vida da gente, em que o único dever é lutar ferozmente por introduzir, no tempo de cada dia, o máximo de "eternidade”.

 

Tópicos da atualidade

 

Cesar Vanucci

 

“O povo rechaçou o fascismo”.

(Emmanuel Macron, presidente reeleito da França)

 

· Confusão. A baita confusão política e jurídica entre os Poderes da República em torno das malfeitorias cometidas por Daniel Silveira, concede a este escriba o direito de compor o seguinte entendimento: 1º - Pelos ditos e feitos, ameaças de violência documentadas em vídeos,  outras execráveis posturas, típicas de fundamentalistas em estado exacerbado de ira, ficou provado que o cidadão em foco não reúne as mínimas qualificações exigidas para o exercício das elevadas funções parlamentares; 2

º - De conseguinte, fez tudo para merecer severa punição; 3º - O foro competente para a análise dos fatos e julgamento é a Câmara dos Deputados, que, atropelada  pelas pressões do Judiciário, omitiu-se lamentavelmente, no episódio; 4º - O Supremo Tribunal Federal extrapolou os limites de sua alçada; 5º - Talqualmente fez o Executivo, concedendo o descabido indulto. Vai ser uma “parada torta” desemaranhar tudo isso.

 

· Fascismo. Nas eleições presidenciais francesas, o eleitorado deu, novamente, como diz o outro “um chega pra lá” no movimento fascista de Le Pen. O próprio vencedor da disputa, Emmanuel Macron, em pronunciamento que se seguiu aos resultados, reconheceu que os votantes, mais do que apoio às suas propostas como candidato, expressaram nas urnas repúdio vigoroso às ideias e posicionamentos radicais impregnados de rançoso fundamentalismo, dos ultra extremistas de direita aspirantes ao comando do Champs-Élysées. Percorrendo a mesma trilha do pai, Marine Le Pen cultiva na ação política uma fanatice ideológica amedrontadora. Xenófoba, racista, islamofóbica, mostra-se contrária às políticas de acolhimento de refugiados chegando ao extremo de defender um esquema perverso de deportação das levas de imigrantes espalhados nos países da comunidade europeia.   Partilha de conceitos e de ações práticas que muito se assemelham aos pregados pelo hitlerismo. Sua derrota, mais uma vez, ao cargo de suprema mandatária da França, traz de certo modo, uma sensação de alívio em círculos democráticos europeus. Esses setores têm demonstrado preocupação com o relativo crescimento de aguerridos grupos de extrema-direita em vários pontos do continente, que pregam abertamente ódio irracional aos milhões de refugiados espalhados pela Europa graças aos programas de ajuda humanitária promovidos por governos e instituições da região.

 

· Academias. As Academias de Letras são guardiãs serenas de saberes acumulados. Os quadros acadêmicos acolhem pensadores, prosadores, poetas, personagens de realce no cenário intelectual que, em diversificadas modalidades de comunicação, se notabilizaram por saber fazer uso da palavra requintada. Três aquisições recentes da Academia Brasileira de Letras expandiram sobremaneira o seu potencial criativo no campo das ideias. Fernanda Montenegro, atriz consagrada, tida como a primeira dama do teatro brasileiro, Gilberto Gil, compositor talentoso, intérprete aclamado da arte brasileira com raízes na ancestralidade africana e Eduardo Giannetti, economista renomado. São celebridades que identificam momentos pujantes da cultura brasileira e do sentimento nacional.

 

· Relógio. No dia 23 de abril de 2022, sábado, o “Relógio do Juízo Final”

, criado por cientistas atômicos em 1947 para avaliação do grau das tensões internacionais geradas por conflitos bélicos e outros flagelos registrava faltarem apenas 100 segundos para as badaladas fatídicas das 24 horas. Entre a data que marcou o início das hostilidades na Ucrânia e o dia acima mencionado já foram consumidos 40 preciosos segundos. A marcação anterior do “relógio” era de 140 segundos, até então a mais próxima atingida desde 47, nas avaliações e temores dos cientistas do horário fatal. E olhe que no curso dos anos transcorridos, o que não faltou foi crise de graves proporções!

sábado, 23 de abril de 2022

 

Um segundo lar para a humanidade

 Cesar Vanucci

 

"O fracasso humano que eu mais gostaria de corrigir é a agressão".

 (Stephen Hawking)

 

Na constelação científica Stephen Hawking foi astro de grande fulgor. A trajetória deste sábio inglês foi marcada por enorme adversidade, incrivelmente sobrepujada pela sua genialidade e força de vontade. Acometido por uma doença degenerativa que o levou, num processo gradativo de padecimentos, à paralização quase total de seus controles motores, adquiriu, mesmo assim, conhecimentos extraordinários, que lhe permitiram repassar ao mundo informações e orientações de grande significado para os avanços científicos e tecnológicos registrados em seu tempo. Seus feitos alçaram-no, no reconhecimento de seus pares, à condição de celebridade a altura dos maiores nomes da ciência de todos os tempos. É considerado como um dos responsáveis por boa parte das eletrizantes descobertas da astrofísica moderna.

Estudiosos da obra de Hawking identificam revelações de algum modo proféticas, em suas análises, entrevistas, palestras e outras manifestações.

 

“Profecias de Hawking: 6 coisas que podem causar catástrofes e fim do mundo.” Este o sugestivo título de um excelente trabalho que tem como autora a jornalista Camila Mazzotto, repórter colaboradora de ciência, saúde e tecnologia do UOL.

 

Vale a pena conhecer o pensamento do cientista a respeito de questões magnas vinculadas ao destino humano.  "O fracasso humano que eu mais gostaria de corrigir é a agressão". A frase, dita em 2015 pelo físico Stephen Hawking, soa cirúrgica em meio à guerra na Ucrânia. Um grande conflito mundial era uma das preocupações que povoavam a mente do cientista britânico pouco antes dele falecer, em 2018, como mostram suas últimas declarações à imprensa.” A explicação acima, da jornalista Camila Mazzotto é acrescida da observação de que, além de uma conflagração bélica mundial, o cientista expôs muitas vezes receios quanto à utilização imprópria da chamada inteligência artificial. Outro motivo de grande preocupação externada por ele, quanto ao destino humano, são as mudanças climáticas. Seis elementos são apontados por Hawking como detentores de potencialidade para desencadear catástrofes. A falta de um segundo lar para a civilização terrena é um deles. O astrofísico argumentava que a Terra, em dado momento, não seria suficiente para abrigar os seres humanos.

 

 Na verdade – registra a jornalista – “o cientista temia que, se a humanidade não se tornar uma "espécie espacial" nos próximos cinco séculos, talvez seja extinta. Isso porque o crescimento populacional e o aumento do consumo de energia transformarão a Terra em "uma bola de fogo" até 2600. A sobrevivência da raça humana "dependeria de sua capacidade para encontrar novos lares em outros lugares do universo, pois o risco de que um desastre destrua a Terra é cada vez maior", disse o astrofísico ao jornal El Pais, em 2015. Hawking incentivou pesquisas em torno de tecnologias que possibilitassem a colonização de um outro planeta habitável com a maior urgência possível.  A reportagem menciona que Stephen sugeriu no documentário "The Search for a New Earth" (A Busca por uma Nova Terra, em tradução livre), o planeta conhecido pela denominação de Ross 128 b como ideal para ser nosso segundo lar.

É interessante frisar que, nada obstante a opinião emitida sobre a busca de um novo astro que pudesse ser nosso segundo lar, Hawking, conforme sublinhado na reportagem, não incentivava a procura de contato com possíveis civilizações extraterrestres. Admitia ser pouco provável que qualquer forma de vida alienígena ficasse satisfeita ao saber da nossa existência. Palavras textuais suas: "Se os extraterrestres nos visitarem, o resultado será muito parecido com o que aconteceu quando Colombo desembarcou na América: não foi uma coisa boa para os nativos americanos".

 

A ameaça das armas biológicas 

Cesar Vanucci

 

"O sucesso em criar a inteligência artificial

pode ser o maior evento da história. Ou o pior”.

(Stephen Hawking)

 

Damos continuidade à divulgação das opiniões expressas pelo genial cientista britânico Stephen Hawking, falecido em 2018, sobre questões magnas relacionadas com o futuro da espécie humana. Como já explicado anteriormente as considerações alinhadas foram extraídas de esplêndido trabalho jornalístico de Camila Mazzotto para o UOL. 

O astrofísico Hawking definiu as mudanças climáticas como "um dos grandes perigos enfrentados pela espécie humana". Não por acaso, o cientista foi um dos críticos da atitude tomada pelo ex-presidente  Donald Trump, quando retirou o apoio dos EUA ao Acordo de Paris, em 2017 — ato, por sinal, revogado por Joe Biden, ao assumir a Casa Branca.

Como lembrado na reportagem, considerado um marco nas negociações internacionais sobre o clima, o Acordo prevê que os países devem trabalhar para que o aquecimento global fique bem abaixo de 2ºC, buscando limitá-lo a 1,5ºC. 

Hawking salientava que desfazimento do Acordo, desencadearia problemas extremamente graves. Nosso planeta, correria o risco de se tornar uma segunda Vênus, "com uma temperatura de 250ºC e chuva de ácido sulfúrico".

"A mudança climática é um dos grandes perigos que enfrentamos, e é algo que podemos evitar se agirmos agora. Ao negar as evidências da mudança climática e retirar os EUA do Acordo Climático de Paris, Donald Trump causará danos ambientais evitáveis ao nosso belo planeta, colocando em risco o mundo natural, para nós e nossos filhos", asseverou o físico, que já havia alertado sobre a ameaça das mudanças do clima no documentário "The 11th Hour" ("A Última Hora", em português). 

Reportando-se à “Inteligência Artificial”, Hawking enumera como fatores positivos: a reversão de danos causados ao meio ambiente, a erradicação da pobreza e de doenças, e até a transformação da sociedade como um todo para algo melhor. Acrescentou também como positiva a possibilidade que nossos pensamentos e ideias possam ser acessados mesmo após a morte. 

Quanto aos impactos negativos disse que: "O sucesso em criar a inteligência artificial pode ser o maior evento na história de nossa civilização. Ou o pior. Nós só ainda não sabemos, aduziu. Ressaltou ainda: Nós não podemos saber se seremos ajudados ou destruídos por ela”. A jornalista esclarece que o físico não demonizava a Inteligência Artificial. Segundo ele, o risco real são as formas avançadas de IA, que poderiam igualar ou superar os humanos. 

Um conflito nuclear de proporções mundiais, fazia parte dos temores do cientista.  Para ele, a agressão humana, combinada com os avanços tecnológicos em armamentos nucleares, é um combo que pode dar um ponto final na história da humanidade. Outro registro frisante feito por Hawking: As armas biológicas oferecem mais perigo do que as armas nucleares. Em 2001, Hawking disse ao jornal britânico Daily Telegraph que a raça humana corre o risco de ser exterminada por um vírus criado por ela mesma.  A jornalista Camila Mazzotto registra, neste ponto, que a observação de Hawking não se aplicaria ao Coronavírus, cuja principal hipótese até o momento é que tenha se originado em animais e "pulado" para os humanos. 

Palavras do físico: "No longo prazo, fico mais preocupado com a biologia. Armas nucleares precisam de instalações grandes, mas engenharia genética pode ser feita em um pequeno laboratório. Você não consegue regulamentar cada laboratório do mundo. O perigo é que, seja por um acidente, seja algo planejado, criemos um vírus que possa nos destruir".

 

 

 

 

sábado, 16 de abril de 2022

 

Esse saboroso modo de falar dos “portugas” (I)

 

Cesar Vanucci

 

“Que diacho de língua é essa?”

(Indagação do adolescente Alderico

ao pai Abel, numa viagem a Portugal)

 

Já no primeiro dia da viagem, em companhia do pai Abel, às encantadoras plagas portuguesas, o irrequieto adolescente Alderico já se manifestou intrigado com o palavreado das pessoas à sua volta. “Hein, pai - que diacho de língua é essa que eu entendo, mas não compreendo patavina?” 

A chistosa observação traz à lembrança um fato bastante curioso. Na “Guerra do Golfo”, em 1990, estúpida aventura belicista de Bush Filho dos EUA, e Tony Blair, do Reino Unido, ficou evidenciado que a melhor cobertura jornalística dos acontecimentos estava sendo feita pela Rede de Televisão Portuguesa. Jornalismo de primeira, proposta avançada e isenta de parcialidade nos relatos. Acabei, de repente como atento telespectador por confrontar insuspeitada dificuldade.   

Foram se avolumando os momentos em que não compreendia bulhufas do que os gajos estavam a dizer. As informações com toque telegráfico dos letreiros na telinha ajudavam o entendimento só de parte dos casos, sem desfazer, entretanto, aquela sensação desconfortável de se estar a ver e, sobretudo, a ouvir relatos incompletos. O jeito foi, então, recorrer, por interessante que pareça, alternadamente, ao noticiário, por vezes de mais fácil compreensão, da CNN. Em espanhol. Esse idioma que alguém, liricamente, reconhece como "o português com castanholas”. 

As considerações alinhadas me reconduzem à leitura do livro “É Golo, Pá”, dos irmãos Bogo, lançado anos atrás. Esta publicação já define sutilmente de cara, já na capa, o intuito dos autores, ao registrar que se trata de uma “edição bilíngue Português-Português”. Uma referência a mais, bem-humorada, daquilo que todos os que se entregam à lida da comunicação andam calvos de saber: existem diferenças frisantes, a cada dia mais perceptíveis, entre o português falado e escrito nestas nossas bandas do sul do Equador e o português falado e escrito nas bandas de lá. Ou seja, em Portugal, o nosso avozinho na referência carinhosa de David Nasser. Nada de molde a causar espanto nessa comprovação. É assim mesmo. As transformações linguísticas se operam com razoável velocidade seguindo as tendências dos tempos e dos lugares. Imaginemos como seria se nossa fonte matricial idiomática se mantivesse pura e intangível. Estaríamos ouvindo hoje em latim, certeiramente com o mesmo constrangimento com que ouvimos em brasileiro as exasperantes lereias dos porta-vozes das políticas econômicas. Já pensaram só como seriam as explicações no mesmo vocabulário de Cícero das razões pelas quais as taxações da selic não conseguiram ainda puxar pra baixo os juros que o lucrativo setor financeiro continua, impune e argentariamente, a cobrar dos desprotegidos contribuintes? O processo de construção linguística possui dinâmica própria, desprezando regras dogmáticas boladas com o fito de engessá-lo. Resulta daí que brasileiros e portugueses, tão próximos, entre outros apreciáveis valores humanos, por força de belo e luxuriante idioma, descobriram maneira diversificada, rica em variações, num sem número de situações especiais, para expressar suas emoções, seus sentimentos. No futebolês, um “dialeto” colorido, carregado de bordaduras imaginosas, isso não poderia deixar de estar também acontecendo. As urdiduras de linguagem concebidas por cá, nas descrições futebolísticas, são, à vista disso, as mesmas de lá. É disso que trata o livro dos Irmãos Bogo, uma obra recebida com extrema simpatia pelos intelectuais e mídia. 

Se o leitor aí se dispuser a conter um tiquinho mais a curiosidade, comprometo-me, baseado é claro na narrativa dos autores, a contar que negócio cabuloso é esse do futebolista luso Fábio haver “ficado nos balneários aquando do intervalo.”

 

Esse saboroso modo de falar dos “portugas” (II)

Cesar Vanucci

 

Imagine o Prof. Zagalo falando pro Edmundo:

 - Você tem que ser mais lesto nos ressaltos.”
(Dos autores de “É golo, pá!”)

 

Ao interromper o papo do comentário anterior comprometi-me a explicar, fazendo menção ao livro “É golo, pá!”, dos Irmãos Marcos, Luiz e Paulo Bogo, o que um cronista esportivo português quis dizer ao informar, com toda aquela vibração característica da categoria, que “o futebolista Fábio ficou nos balneários aquando do intervalo.” Seja esclarecido que o Fábio citado não é o ex-goleiro do Cruzeiro, ídolo da torcida.

Essa a reprodução por inteiro do trecho citado: “Fábio ajudou a tapar os caminhos da baliza, durante a primeira parte, mas nunca revelou força para servir de elo de ligação entre os médios e os avançados. Ficou nos balneários aquando do intervalo.” Brota agora a tradução para o idioma falado no Brasil: “Fábio ajudou a fechar a defesa, a fechar os caminhos do gol durante o primeiro tempo, mas não teve fôlego para fazer a ligação entre o meio-campo e o ataque. “Ficou nos balneários aquando do intervalo” significa, simplesmente, que foi substituído no segundo tempo. Foi mandado pro chuveiro no intervalo. 

O livro “É golo, pá!” todo é um baita achado. Vejam só mais essa preciosidade, extraída de outra coluna esportiva portuguesa, com certeza: “Bancada composta. Os dois recentes “desaires” da equipa não arrefeceram o entusiasmo dos adeptos. A massa associativa que se deslocará ao grande palco contar-se-á aos milhares. Factores como o nome do adversário, o bom tempo e a hora a que se realizará o embate fará com que se registe grande movimento nas bilheterias. Com as bancadas bem compostas, a massa adepta fará a festa quando a equipa subir ao relvado.”

Os Bogo traduzem assim o que está escrito “Arquibancada lotada. Os dois recentes fracassos do time não esfriaram a confiança da torcida. Os sócios deverão comparecer aos milhares. Fatores como a qualidade do adversário, a previsão de bom tempo e o horário da partida farão com que se registre grande movimento nas bilheterias. Com as arquibancadas cheias, a torcida fará a festa quando o time entrar em campo.”  Registre-se, por oportuno, que, em Portugal o verbo é registar. Sem o “r”. 

Deixo, por último não sem antes recomendar, com entusiasmo a leitura de “É golo, pá!”, um teste para o leitor. Será que dá pra você aí interpretar direitinho o que abalizado cronista esportivo português andou querendo dizer em mais este tópico selecionado pelos Irmãos Bogo? (na página 38 do livro, vem a tradução).

“O Super deu um figo a um adversário tão tenrinho... Crise anímica e de confiança afecta os jogadores; depois de sofrer o primeiro golo, a equipa deitou a toalha ao chão muito antes de o combate terminar. (...) a falta de profundidade do futebol era confrangedora. A equipa enrola a manta até a exaustão e não há mudanças de velocidade no jogo. Lateralizar é a regra dos médios, que perdem invariavelmente o tempo de passe. (...) A descoordenacão entre o momento do passe e a desmarcação dos avançados é notória. Nos raros lances em que os médios conseguiram jogar de primeira e com um sentido rectilineo do passe, criaram embaraços (...) A equipa ficou sem flanqueadores e com o seu jogo cada vez mais afunilado.” 

Tou meio desconfiado, cá pra nós, que essa descrição tipicamente lusitana, diz respeito à atuação do escrete brasileiro na partida da Copa Mundial no Brasil! Aquela do Mineirão com placar de dolorosa lembrança? 

 

Sete dedos de prosa

 

Cesar Vanucci

 

“O 7 é número sagrado em todas as filosofias e religiões”.

(Júlio Sayão - escritor)

 

Indoutro dia, instigado pela simbologia numerológica derivada do fato de serem 7 as maravilhas do mundo antigo, um punhado de leitores encaminhou a este desajeitado escriba informações sobre o significado cabalístico do número 7. Deu cada coisa! 

Lembrou-se que 7 são as cores do arco-íris. Os tons da escala musical. As séries de pesos atômicos na tabela periódica dos elementos químicos. Os dias da semana. Sete as vértebras do esqueleto humano. Não foi esquecido que somam 7 os pecados capitais e as virtudes teologais. E que o mundo foi estruturado em simbólicos 7 dias, sendo que o sétimo dia ficou reservado ao divino repouso. 

As menções de teor místico mostraram-se copiosas. Algumas delas: 7 os planetas da astrologia. Em registros bíblicos, o 7 é objeto de profusa citação. Exemplos: os 7 espíritos aos pés do Senhor; as 7 frases proferidas por Jesus na cruz – três anotadas por João, 3 por Lucas e 1 por Mateus; a festa dos pães asmos (sem fermento), que se seguia, em priscas eras, à festa da Páscoa, onde se costumava recomendar aos fiéis que comessem do produto durante 7 dias; a festa do Pentecostes: “Vós, pois, desde o dia depois do sábado, no qual oferecestes o molho das primícias, contareis 7 semanas completas ...” (Lev. 23:15). No Novo Testamento outras intrigantes revelações. A saber: no Apocalipse, o 7 domina muitos textos. Sete igrejas, 7 espíritos, 7 castiçais de ouro, 7 estrelas, 7 lâmpadas de fogo, 7 trombetas, 7 coroas, 7 pragas, sete reis. Por aí. No alfabeto hebraico, nas interpretações cabalísticas, o 7 corresponde à letra “zain”, que significa “O Imaculado”. O castiçal de 7 braços ou candelabro (menorá em hebraico) é um dos mais respeitados símbolos do judaísmo. Apocalipse (5:6) ainda: “Tinha ele 7 chifres e 7 olhos, 7 os espíritos enviados por Deus”. Mais registros: “Então ele vai e toma consigo outros sete piores do que ele (...)” (Lev 11:26); “Não te fies nele, pois há 7 abominações na alma dele” (Salomão-Prov. 26:25). Ou: “Castigar-vos-ei 7 vezes pelos vossos pecados” (Levítico 26:24). Noutro trecho do Evangelho, o faraó tem aquele sonho das 7 vacas gordas e 7 vacas magras. José decifra os sonhos premonitórios do faraó: 7 anos de bonança e de 7 anos de carências. 

Salientando que no jogo numerológico o 7 indica clarividência e que para Pitágoras este é o número da perfeição, foi-me lembrado também que 7 são os Arcanjos, 7 os dons do Espírito Santo, e 7 os chacras e sete as glândulas endócrinas. Em nossa História temos o 7 de setembro, nossa data magna. Já o 7 de abril, que dá nome a uma penca de logradouros brasileiros, corresponde à data em que se deu a abdicação do trono por Pedro I. Merece também anotação que o 7 de ouros e o 7 de paus, como sabido dos apreciadores de jogos de cartas, têm peso maior nas artimanhas do popular truco. O número, por outro lado está inapelavelmente associado, na crônica futebolística, àquele fatídico instante vivido no Mineirão em 2014. 

O algarismo traz mais evocações. Da criança peralta diz-se que anda pintando o 7. Na historinha que encantou gerações, Branca de Neve é acompanhada por 7 anões. O instinto de sobrevivência do gato leva à ideia de que o animal possui 7 vidas. Pessoas avarentas trancam pertences a sete chaves. Os que partem primeiro são sepultados debaixo de sete palmos de terra. E qual mesmo a denominação do ato com o qual reverenciamos, na primeira semana da partida, os entes queridos que nos deixam? 

Fechando o papo: você aí pode até franzir a testa em sinal de dúvida. Mas, em leal verdade, preciso dizer-lhe que: o número de pessoas que contribuíram para a feitura destas maldatilografadas foi precisamente 7. Conta de mentiroso?

sábado, 9 de abril de 2022

 

 E eu de nada sabia

 

Cesar Vanucci

 

“Portinari realiza o milagre da arte muda:

exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!”

(Otto Maria Carpeaux)

 

Vou buscar, na meninice descontraída e na adolescência irrequieta, lembranças soltas de pura nostalgia. Estive bem próximo, em alguns poucos momentos, nessas fases risonhas da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Com acanhada visão das coisas, na mais santa ingenuidade, revelei-me carente de um mínimo de capacidade de percepção para avaliar, na hora certa, o real significado dessas aproximações singulares, generosamente proporcionadas pelo acaso.

Seguinte: guris, ainda nos começos ginasianos, eu e o mano Augusto Cesar freqüentávamos, com assiduidade, a residência de Alberto e Dute Sabino. Nossos pais eram fraternos amigos do casal. Sentiamo-nos ali como em nossa própria casa. O Albertinho, como era conhecido, atuava na área de seguros. Apreciador das artes, possuía um amigão do peito. Um cidadão de alta projeção no mundo fascinante da pintura. Morador de cidade do interior paulista. Seu nome: Cândido Portinari. Candinho pros íntimos. Os dois amigos se visitavam com freqüência. Numerosas as ocasiões, quando das idas de Portinari à casa do Albertinho, Uberaba, em que Augusto Cesar e eu recebemos convite para montar um pequeno espetáculo lítero-musical homenageando o ilustre visitante. Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de um “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal anfitrião pela dupla mirim. Tanto isso é verdade que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e da. Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui. 

Todo mundo passou batido. O Albertinho, eu não sei. Mas a ninguém, de meu núcleo familiar, acudiu a idéia, naqueles instantes de contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo um punhado de obras primas, brotadas de seu pincel mágico.

Falo, agora, da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Seria de se imaginar que, já adolescente, possuísse um pouco mais de discernimento em relação a certas coisas. Foi quando de minha primeira tentativa de fixar moradia em Belô. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades profissionais. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Departamento de Trânsito, graças à incrível Anita Rosa de Magalhães Góes, esposa do culto coronel Américo Góes, ambos de saudosa memória. Fui morar numa pensão ali na rua Rio de Janeiro, esquina com Tupis. A paisagem arquitetônica da região se compunha de casas de feição brejeira, muito diferente dos caixotes de cimento armado de hoje. Dividia quarto com colega do interior. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, diariamente, por horas, a extrair do pincel os frutos coloridos de sua pujante criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saiam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo. Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive, momento algum, percepção de que estava a desfrutar do privilégio de compartilhar de um mesmo espaço residencial com um mestre da pintura. De nada sabia. Ninguém, ao redor, parecia também saber. De nenhum dos outros moradores ouvi, a qualquer tempo, a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard. Querem saber duma coisa? Dá vontade, às vezes, de pedir públicas desculpas por tão supina alienação.

 

Pedaços soltos de saudade

Cesar Vanucci

 

“Não sei qual das duas quero mais: se a Uberaba dos

 tempos de menino, se a Uberaba de meus tempos outonais.”

(Quintiliano Jardim, jornalista)

 

Pedaços soltos de saudade levados pelo vento do tempo. No comecinho da Rua Arthur Machado, também conhecida por Rua do Comércio, logo na saída da Praça Rui Barbosa, também denominado Largo da Matriz, ficava plantada a “Sorveteria Linde”, uma referência marcante na paisagem cultural da cidade. A rua se encompridava por mais de uma dezena de quarteirões até chegar na ladeira que dava na Estação Ferroviária da Mogiana, envolta no encantamento imaginativo infantil como ponto de partida para as aventuras da vida.

 

● Voltando à “Linde” como marco de cultura e entretenimento seja relembrado da atração especial que, todas as noites, o estabelecimento oferecia à freguesia, além de seus afamados sorvetes e picolés, música ao vivo da melhor supimpitude executada pela orquestra do Maestro Bueno e seu violino, com o Aresky marcando cadência eletrizante na bateria. De Sorveteria com orquestra, nunca soube da existência de outra.  A orquestra do maestro Bueno atuava, também, no “Cassino Brasil”, ponto de convergência da boemia, localizado no centro da cidade, na rua São Miguel. A região era conhecida dos antigos pela denominação bacolerê.

 

● A cidade era repleta de locais musicais dançantes. Nos principais clubes Jóquei, Uberaba Tênis, Sírio Libanês, Associação Esportiva e Cultural, Sindicato (Elite), haviam encontros dançantes semanais, bastante concorridos. As sessões cinematográficas dominicais das dez horas da manhã, no majestoso Cine Metrópole, eram antecedidas de dança. Nas sedes da UEU - União Estudantil Uberabense, DALO (Diretório Acadêmico Leopoldino de Oliveira, da Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro), CAMPI (Centro Acadêmico Mário Palmério, da Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro) quase todo sábado tinha baile. Cultivava-se o hábito de reservar, nos clubes durante as demonstrações dançantes, o espaço especial para que “bailarinos exímios”, garbosos mancebos e donzelas, exibissem seus dons, o que acontecia em meio a coreografias que mobilizavam torcida e arrancavam aplausos. Os “competidores” eram sempre os mesmos, já devidamente identificados pela plateia como “craques” na arte da dança. Uns cinco pares se tanto. Acodem-me nomes: Clemenceau Miziara, Gleydes Costa, Haley Damião, Arminda Tibery, Zito Sabino, Lucia Fonseca, Bilula Pagliaro, Estela Terra. Dava gosto vê-los em ação.  A “hora do tango” era a mais aguardada.  

 

● “Chão de Estrelas” era o carro-chefe do repertório do pessoal das serestas em finais de semana de noites estreladas. A belíssima canção de Orestes Barbosa e Silvio Caldas (“Tu pisavas nos astros, distraída”, no ver abalizado de Manuel Bandeira, é verso considerado de irretocável pujança poética) era interpretada no capricho por um senhor time de cantores. Ei-los: Mano Augusto Cesar que se tornou mais tarde, diretor da linha de shows da Globo, sendo o primeiro artista brasileiro laureado com o “Emmy”, maior prêmio mundial da televisão; Paulo Marquez, cantor das noites cariocas; Chiquito Pereira Alves; Mauricio Silva, o pedreiro Zinho. A cantoria era na base da voz solta. De vez em quando acompanhada de um plangente violão. O grupo percorria itinerários variáveis. Um deles levava ao prédio onde funcionava o internato de alunas do Colégio Nossa Senhora das Dores, das notáveis educadoras dominicanas. Houve um dia que, vinda do dormitório uma voz feminina pediu fosse cantada a melodia “Estrela Dalva”. Ficou-se sabendo que a autora do pedido era a freira guardiã.  Certa feita, um delegado atrabiliário implicou com as “serenatas ao luar”. Acabou “recolhendo a viola” quando alguém ponderou, no jornal, que seu tempo seria melhor utilizado na busca dos responsáveis por uma onda de assaltos residenciais até ali sem solução.



       

 



Daniel Antunes Jr.

Membro do Instituto Histórico e Geográfico MG, Academia Municipalista de Letras de MG e da Academia Mineira de Leonismo.   Completou recentemente 100 anos de fecunda existência

 

- O ESPERIDIÃO, DE VALADARES

Viajei, certa vez, com o então Senador Benedito  Valadares, sentados, lado a lado, no avião. Fui distinguido com sua amizade e consideração, num bate-papo prolongado, no curso do qual ele me contou lances importantes de sua vida pública. Pouca gente sabe que o Esperidião, personagem estereotipado de seu livro, tratado com fina ironia, foi o Melo Vianna, seu adversário político. Numa alegoria sutil, assim o definiu, indiretamente: ”A política mineira faz lembrar uma colcha de retalhos. Tecida pelas mãos hábeis das avós, os retalhos que mais sobressaem não são de linho nem de seda, mas de algodão grosso de cor berrante. É justo que assim seja. O algodão é planta da casa, acostumado ao clima inconstante e à terra sem adubo. Dá até no alto do morro, no meio das pedras, castigado pelo sol“. Vejam que a estátua imponente, que se ergue na praça, frente à estação ferroviária, devia simbolizar a pacificação da política mineira, com o coronel Timóteo cumprimentando o bacharel Esperidião (Melo Vianna). Mas, como está relatado no interessante livro de Benedito Valadares, por falta de recursos, o Prefeito decidiu perante o escultor italiano, encarregado da obra: “Nem o bacharel nem o coronel. Vamos substituir tudo pelo mineiro nu. O mineiro nu é que deve simbolizar Minas, na sua pureza de intenções, agitando o turíbulo do voto secreto no altar da liberdade. O mineiro nu, envolto, apenas, na bandeira nacional.” E assim foi feito.

 

 - PARENTE, O ACENDEDOR DE LAMPIÕES.

 Quando a gente vinha a pé da fazenda da Jurema, já na boquinha da noite, avistávamos ao longe o casario iluminado com os lampiões de querosene. Com a inauguração da luz elétrica, promovida pelo Prefeito Cangussú, o acendedor de lampiões, nosso amigo Parente, assim chamado o Gasparino (que tinha o nariz pontudo, lembrando o Pinóquio), foi “arquivado”. Perdeu a função, mas deixou a saudade dos velhos tempos em que Lençóis do Rio Verde mal despontava na sua vocação progressista. Parente foi uma figura quase lendária. Pouco tempo depois das trindades, (toque das ave-marias), lá vinha ele conduzindo ao ombro pequena escada para subir ao poste do lampião, enquanto o filho Dodô, (pai do Didi) seu auxiliar, trazia o material necessário para ativar o candeeiro propriamente dito, no qual adicionava o querosene estritamente necessário, para manter a iluminação até a meia-noite, quando a chama apagava...Contava Dinha Nena, minha mãe, que o pasquim manuscrito, de autor desconhecido, com as fofocas do dia, envolvendo casais na berlinda, eram deixados misteriosamente nos lampiões, altas horas da noite, causando pasmo... Consta que alguém passou a noite escondido entre os galhos de uma árvore ao lado, mas não conseguiu desmascarar o autor da brincadeira.

 

 

 

 

sábado, 2 de abril de 2022

 

Duas mulheres

                                                                       Cesar Vanucci

 

“Coragem é a dignidade colocada sob pressão”

(John Kennedy)

 

A boa memória de distinto integrante de meu reduzido, posto que leal e assíduo leitorado, relembra artiguete divulgado anos atrás, sugerindo sua republicação.

Quando John Kennedy foi assassinado em Dallas, há 59 anos, vítima de conspiração que clama até hoje por explicação, uma rede de televisão dos Estados Unidos retirou do ar a programação, colocando no lugar uma vinheta com a palavra “vergonha”. Foi a forma encontrada de traduzir a santa ira da sociedade diante da ocorrência que afastou da cena mundial uma liderança carismática, comprometida com a construção de estruturas sociais e políticas mais justas.

O estado de choque causado, anos mais tarde, no Brasil, com a cassação dos direitos políticos do Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira povoou os corações brasileiros de emoção bem parecida. A sensação de “vergonha” ficou estampada nos semblantes das pessoas nas ruas brasileiras. Só que, por motivos óbvios, era difícil, pra não dizer impossível, aparecer alguém com suficiente ousadia para tornar pública, como ocorreu na rede de televisão estadunidense, sua compreensível indignação.

No entanto, para espanto geral, apareceu um casal em Uberaba – educadores de escol, sem qualquer militância política – que não se intimidou com as chuvas e trovoadas da tormenta política da hora. Os nomes da destemida dupla: Alda Vanucci Loes Frateschi e Alberto Frateschi, ambos de saudosa memória. Ele, maestro renomado, ela esplêndida guerreira consagrada a causas culturais e humanitárias. Ambos fundadores do conceituado Conservatório Musical de Uberaba. Em manifesto de página inteira, estampado nos diários “Correio Católico” e “Lavoura e Comércio”, Alda e Alberto expressaram indignação e inconformismo. Deixaram cravado, para a história, em soberbo pronunciamento, o seu protesto. Um exemplo isolado e raro de coragem cívica, extremamente valorizado do ponto de vista da cidadania, por haver brotado de pessoas do povo não envolvidas em tempo algum nas engrenagens sedutoras do poder político.

Anos depois. A Polícia Militar de Minas prestava, numa bela cerimônia, tocante homenagem à memória de eminente personagem de seus valorosos quadros, o coronel Américo de Magalhães Goes. Um humanista dotado de invejável bagagem cultural. Desfrutei, na adolescência, por curto espaço de tempo, de sua convivência e sabedoria. O agradecimento pela carinhosa manifestação de apreço, nos instantes finais da cerimônia, ficou a cargo da viúva, a também saudosa Anita Rosa de Magalhães Goes. Num discurso memorável, repassado de emoção, acompanhado com atenção e respeito por centenas de convidados, autoridades civis e militares graduadas, em ambiente onde se podia ouvir o zumbido de inseto, ela falou, inicialmente, de sua gratidão. Para revelar depois, em tom de veemente lamento, expressando revolta, que naquele preciso momento um grande amigo seu, Juscelino Kubitschek de Oliveira, encontrava-se injustamente preso, depois de haver sido injustamente cassado. Mesmo os que conheciam e admiravam Anita pelos seus extraordinários dons humanísticos, autoridade moral e engajamento em causas nobres na defesa dos direitos das pessoas, ficaram surpreendidos e eletrizados com esse gesto de notável destemor.

Estou contando essas historietas, primeiramente, para realçar posturas pessoais dignas de louvor, como contribuição à memória cívica. E, segundamente, para dizer, com certa pontinha de orgulho na fala, que essas mulheres são, ambas as duas, modéstia à parte, primas deste desajeitadíssimo escrevinhador.

A SAGA LANDELL MOURA

Chegada a hora

  Chegada a hora Cesar Vanucci *   “Eleição é um teste cívico periódico para se manter a boa saúde democrática.” (Antônio Luiz da Co...