sábado, 9 de abril de 2022

 

 E eu de nada sabia

 

Cesar Vanucci

 

“Portinari realiza o milagre da arte muda:

exprimir, sem falar, uma mensagem brasileira!”

(Otto Maria Carpeaux)

 

Vou buscar, na meninice descontraída e na adolescência irrequieta, lembranças soltas de pura nostalgia. Estive bem próximo, em alguns poucos momentos, nessas fases risonhas da vida, de dois gênios da pintura. Aconteceu por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Com acanhada visão das coisas, na mais santa ingenuidade, revelei-me carente de um mínimo de capacidade de percepção para avaliar, na hora certa, o real significado dessas aproximações singulares, generosamente proporcionadas pelo acaso.

Seguinte: guris, ainda nos começos ginasianos, eu e o mano Augusto Cesar freqüentávamos, com assiduidade, a residência de Alberto e Dute Sabino. Nossos pais eram fraternos amigos do casal. Sentiamo-nos ali como em nossa própria casa. O Albertinho, como era conhecido, atuava na área de seguros. Apreciador das artes, possuía um amigão do peito. Um cidadão de alta projeção no mundo fascinante da pintura. Morador de cidade do interior paulista. Seu nome: Cândido Portinari. Candinho pros íntimos. Os dois amigos se visitavam com freqüência. Numerosas as ocasiões, quando das idas de Portinari à casa do Albertinho, Uberaba, em que Augusto Cesar e eu recebemos convite para montar um pequeno espetáculo lítero-musical homenageando o ilustre visitante. Dono de voz belíssima, que lhe valera prêmios em programas de auditório no Rio de Janeiro, o cantorzinho Augusto já exibia, naquela época, alguns dos dons que o celebrizariam, na fase adulta, na televisão, teatro e cinema, inclusive com a conquista de um “Emmy” e de um “Ondas”. Minha participação, como declamador, recitando Castro Alves e Catulo, não passava de mero contrapeso no show. Portinari parecia partilhar do entusiasmo do casal anfitrião pela dupla mirim. Tanto isso é verdade que andou convidando os filhos de “seo” Antônio e da. Antônia para se apresentarem em sua casa, lá em Brodosqui. 

Todo mundo passou batido. O Albertinho, eu não sei. Mas a ninguém, de meu núcleo familiar, acudiu a idéia, naqueles instantes de contatos descontraídos com o genial artista, de apoderar-se de um rabiscozinho qualquer onde figurasse a assinatura célebre que legou ao mundo um punhado de obras primas, brotadas de seu pincel mágico.

Falo, agora, da outra vez em que passei batido. Constrangedoramente batido. Seria de se imaginar que, já adolescente, possuísse um pouco mais de discernimento em relação a certas coisas. Foi quando de minha primeira tentativa de fixar moradia em Belô. Ao concluir o curso médio, deixei o torrão natal à cata de oportunidades profissionais. A experiência durou ano e meio. Arranjei emprego no Departamento de Trânsito, graças à incrível Anita Rosa de Magalhães Góes, esposa do culto coronel Américo Góes, ambos de saudosa memória. Fui morar numa pensão ali na rua Rio de Janeiro, esquina com Tupis. A paisagem arquitetônica da região se compunha de casas de feição brejeira, muito diferente dos caixotes de cimento armado de hoje. Dividia quarto com colega do interior. No aposento ao lado, vivia um pintor obsedantemente fixado em sua arte. Nada afeito a contatos, era visto, diariamente, por horas, a extrair do pincel os frutos coloridos de sua pujante criatividade. Vez em quando, desvencilhava-se de trabalhos que não saiam ao seu agrado, lançando-os no cesto de lixo. Eu bem que tentei, algumas vezes, espichar conversa com aquele vizinho de papo curto, quase monossilábico. Sem êxito. Não tive, momento algum, percepção de que estava a desfrutar do privilégio de compartilhar de um mesmo espaço residencial com um mestre da pintura. De nada sabia. Ninguém, ao redor, parecia também saber. De nenhum dos outros moradores ouvi, a qualquer tempo, a mais leve referência à genialidade de Alberto da Veiga Guignard. Querem saber duma coisa? Dá vontade, às vezes, de pedir públicas desculpas por tão supina alienação.

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