sábado, 9 de abril de 2022

 

Pedaços soltos de saudade

Cesar Vanucci

 

“Não sei qual das duas quero mais: se a Uberaba dos

 tempos de menino, se a Uberaba de meus tempos outonais.”

(Quintiliano Jardim, jornalista)

 

Pedaços soltos de saudade levados pelo vento do tempo. No comecinho da Rua Arthur Machado, também conhecida por Rua do Comércio, logo na saída da Praça Rui Barbosa, também denominado Largo da Matriz, ficava plantada a “Sorveteria Linde”, uma referência marcante na paisagem cultural da cidade. A rua se encompridava por mais de uma dezena de quarteirões até chegar na ladeira que dava na Estação Ferroviária da Mogiana, envolta no encantamento imaginativo infantil como ponto de partida para as aventuras da vida.

 

● Voltando à “Linde” como marco de cultura e entretenimento seja relembrado da atração especial que, todas as noites, o estabelecimento oferecia à freguesia, além de seus afamados sorvetes e picolés, música ao vivo da melhor supimpitude executada pela orquestra do Maestro Bueno e seu violino, com o Aresky marcando cadência eletrizante na bateria. De Sorveteria com orquestra, nunca soube da existência de outra.  A orquestra do maestro Bueno atuava, também, no “Cassino Brasil”, ponto de convergência da boemia, localizado no centro da cidade, na rua São Miguel. A região era conhecida dos antigos pela denominação bacolerê.

 

● A cidade era repleta de locais musicais dançantes. Nos principais clubes Jóquei, Uberaba Tênis, Sírio Libanês, Associação Esportiva e Cultural, Sindicato (Elite), haviam encontros dançantes semanais, bastante concorridos. As sessões cinematográficas dominicais das dez horas da manhã, no majestoso Cine Metrópole, eram antecedidas de dança. Nas sedes da UEU - União Estudantil Uberabense, DALO (Diretório Acadêmico Leopoldino de Oliveira, da Faculdade de Direito do Triângulo Mineiro), CAMPI (Centro Acadêmico Mário Palmério, da Faculdade de Odontologia do Triângulo Mineiro) quase todo sábado tinha baile. Cultivava-se o hábito de reservar, nos clubes durante as demonstrações dançantes, o espaço especial para que “bailarinos exímios”, garbosos mancebos e donzelas, exibissem seus dons, o que acontecia em meio a coreografias que mobilizavam torcida e arrancavam aplausos. Os “competidores” eram sempre os mesmos, já devidamente identificados pela plateia como “craques” na arte da dança. Uns cinco pares se tanto. Acodem-me nomes: Clemenceau Miziara, Gleydes Costa, Haley Damião, Arminda Tibery, Zito Sabino, Lucia Fonseca, Bilula Pagliaro, Estela Terra. Dava gosto vê-los em ação.  A “hora do tango” era a mais aguardada.  

 

● “Chão de Estrelas” era o carro-chefe do repertório do pessoal das serestas em finais de semana de noites estreladas. A belíssima canção de Orestes Barbosa e Silvio Caldas (“Tu pisavas nos astros, distraída”, no ver abalizado de Manuel Bandeira, é verso considerado de irretocável pujança poética) era interpretada no capricho por um senhor time de cantores. Ei-los: Mano Augusto Cesar que se tornou mais tarde, diretor da linha de shows da Globo, sendo o primeiro artista brasileiro laureado com o “Emmy”, maior prêmio mundial da televisão; Paulo Marquez, cantor das noites cariocas; Chiquito Pereira Alves; Mauricio Silva, o pedreiro Zinho. A cantoria era na base da voz solta. De vez em quando acompanhada de um plangente violão. O grupo percorria itinerários variáveis. Um deles levava ao prédio onde funcionava o internato de alunas do Colégio Nossa Senhora das Dores, das notáveis educadoras dominicanas. Houve um dia que, vinda do dormitório uma voz feminina pediu fosse cantada a melodia “Estrela Dalva”. Ficou-se sabendo que a autora do pedido era a freira guardiã.  Certa feita, um delegado atrabiliário implicou com as “serenatas ao luar”. Acabou “recolhendo a viola” quando alguém ponderou, no jornal, que seu tempo seria melhor utilizado na busca dos responsáveis por uma onda de assaltos residenciais até ali sem solução.

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