segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Javier Milei, o trapalhão

 

Presidente argentino resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e o STF em solo brasileiro

Javier Milei, o trapalhão
Foto: Beto Barata / PL

“Ato infamante e sem precedentes”: (Assim o Itamaraty classificou manifestação de Javier Milei em solo brasileiro)

Não se sabe dizer com certeza se o presidente argentino recebeu instruções do seu cão de estimação, via “contato mediúnico”, ou se valeu apenas de uma ideia brotada de seu próprio bestunto. O fato é que, participando em São Paulo da convenção política do PL que sufragou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, o chefe de governo portenho resolveu agredir intempestivamente o presidente da República e a alta corte do Brasil.

Os impropérios ouvidos deixaram estarrecidas as pessoas de mente sã, ferindo todos os princípios de civilidade e as regras diplomáticas que balizam a convivência civilizada, tendo em vista, sobretudo, a relação fraterna e centenária existente entre dois países irmãos e vizinhos de fronteira. A referência ao “contato mediúnico” decorre de espantosa revelação feita por ele próprio, Milei, de que mantém comunicação permanente com o cão para se aconselhar, revelação que, por sinal, correu mundo à época de sua posse.

Comprazendo-se em ser reconhecido como caricatura de seu ídolo Donald Trump, Milei parece personagem saído de um filme de Tim Burton, mestre do gótico-cômico e da fantasia excêntrica. Sentindo-se o “rei da cocada preta”, surfa nas águas enganosas de uma realidade paralela. Alheia-se aos rudimentos da prudência política e ignora os interesses concretos da nação que governa, convertendo arroubos retóricos em burlescos espetáculos. Tal qual aconteceu nessa sua malfadada passagem pela capital paulista.
A resposta do Estado brasileiro ao descabido ato de agitação ideológica demonstrou maturidade e firmeza. A diplomacia brasileira deixou claro que não se rebaixa ao nível do insulto pessoal gratuito. Ao contrário, responde com o peso da gravidade institucional e o respeito a normas internacionais consagradas.

A inamistosa atitude produziu reações desfavoráveis tanto no Brasil quanto na Argentina, envolvendo numerosos próceres políticos que, no país vizinho, não se coadunam com as posturas de Milei. A manifestação de Marcelo Brignoni, especialista em integração regional, é altamente elucidativa. Diz ele “a necessidade que a Argentina tem de trabalhar com o Brasil é muito maior do que o contrário”.

O Brasil segue sendo o principal parceiro comercial dos “hermanos”, um pilar de sustentação para a estabilidade regional. Ao apostar em ofensas gratuitas contra o governo e o Judiciário brasileiro por fanatismo extremista, Milei comete um grave erro de cálculo político. Expõe a risco relevantes interesses econômicos de sua própria gente em nome de bravatas. Dispara tiro no próprio pé. Cena típica de um trapalhão.

Cesar Vanucci
SOBRE O AUTOR

Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Um país que não é mais aquele

País de Trump não é, positivamente, mais o mesmo de estadistas históricos anteriores

Um país que não é mais aquele
Foto: Evelyn Hockstein / Reuters

“Sob o manto da retórica diplomática, o que se avista é a sanha imperialista de quem não tolera ver emergirem novos protagonistas no tabuleiro global.” (Antonio Luis da Costa)

Isso mesmo: os Estados Unidos não são mais aquele. O país do truculento Donald Trump não é, positivamente, o país de Lincoln, Jefferson, Washington, Franklin, Roosevelt, Kennedy, Carter e Obama. A pátria da liderança confiável, da democracia pujante e da cultura exuberante, sintonizada com o sentimento do mundo, vê-se a cada dia que passa no estrambótico momento atual, distanciada daqueles valores que concorrem para a política de boa vizinhança, erigida como poderoso instrumento de confraternização universal. Maltrata, de forma sádica, amigos tradicionais, provocando mal-estar e desassossego incessantes.

O supertarifaço imposto às exportações brasileiras, com inocultável conotação política, representa ato desleal e inamistoso contra uma nação amiga que sempre se pautou, no relacionamento com os EUA, pelo respeito e espírito de fraternidade que devem reger a conduta entre Estados soberanos. A indignação pelo gesto descabido da Casa Branca só faz crescer quando se tem sob mira ainda a informação de que muito contribuiu para a decisão tomada a perversa movimentação de bastidores desencadeada por maus brasileiros com intuitos politiqueiros. Configura-se aí, inquestionavelmente, crime de lesa-pátria. Esse deplorável delito está muito bem gravado na consciência popular. Parece óbvio concluir que das ruas resultara inevitável resposta, nalgum momento eleitoral, ao desatino cometido.

Não passa despercebido ao olhar atento de especialistas em negociações internacionais que, além do torpe intuito de politização, a decisão do governante estadunidense objetiva também alvejar o agronegócio brasileiro, a cada dia mais potente. Esse setor acha-se em condições de, em breve, alcançar em definitivo a absoluta primazia mundial. O olho gordo nas estupendas reservas de minerais raros de nosso País constitui, igualmente, objeto de cobiça por parte do aliado de má-fé. Faz sentido também imaginar que os planos sibilinos de Trump contemplem a exploração do patrimônio de riquezas da Amazônia, território equivalente em tamanho à Europa.

O comportamento de Washington soa mais descabido face às alegações de que o Pix “prejudica” as empresas americanas, o desmatamento ilegal em terras brasileiras aumentou e que existe entre nós trabalho escravo, tudo isso representando mentira deslavada.

Quanto ao mais, a manifestação de nosso governo vem sendo a que se é de esperar de uma nação soberana que não se curva a arreganhos vindos de quem quer que seja, consciente de suas prerrogativas cívicas, republicanas e democráticas que a tornam credora da admiração no concerto internacional. É consolador, por último, saber que lideres e jornais dos EUA vêm criticando Trump pelas estripulias contra o Brasil.

Cesar Vanucci
SOBRE O AUTOR

Cesar Vanucci

Jornalista. cantonius1@yahoo.com.br

Versos musicais

 Conheça os versos musicais que encantaram a poesia brasileira

“Tu pisavas nos astros distraída…” (“Chão de estrelas”, Orestes Barbosa e Silvio Caldas)

A crônica literária registra uma manifestação de Manuel Bandeira que causou surpresa e clima polêmico. Indagado sobre os mais belos versos da poesia brasileira, o vate respondeu: “Tu pisavas nos astros distraída.” A resposta colocou no foco das atenções um clássico da MPB, “Chão de estrelas”, e conferiu justo realce a um poeta popular que não frequentava os salões acadêmicos: Orestes Barbosa, coautor da canção ao lado de Silvio Caldas.

Arrostando preconceitos, o autor de “Evocação do Recife” convidou-nos a extrair de nossa música outros achados poéticos.
Partilhando da certeza de que a música brasileira é um repositório de poesia, resolvi, quando na direção da Rede Minas de TV, abrir espaço num dos programas que criei (“Um livro aberto”) para interpretações do cancioneiro nacional com comentários sobre os versos. Na mesma linha, ampliava na memória uma coleção de belas frases de letras imortais. Algumas delas:

“A felicidade é como a pluma que o vento vai levando pelo ar; tão leve, mas tem a vida breve, precisa que haja vento sem parar.” (A felicidade, Vinicius e Tom) / “Mas que bobagem, as rosas não falam. Simplesmente as rosas exalam o perfume que roubam de ti…” (As rosas não falam, Cartola) / “Atire a primeira pedra, ai, ai, ai, aquele que não sofreu por amor.” (Atire a primeira pedra, Mário Lago e Ataulfo Alves) / “Vê, estão voltando as flores. Vê, nessa manhã tão linda. Vê, como é bonita a vida. Vê, há esperança, ainda.” (Estão voltando as flores, Paulo Soledade) / “Quem nasce lá na vila, nem sequer vacila em abraçar o samba, que faz dançar os galhos do arvoredo e faz a lua nascer mais cedo.” (Feitiço da vila, Vadico e Noel Rosa) / “Batuque é um privilégio, ninguém aprende samba no colégio.” (Feitio de oração, Noel Rosa e Vadico) / “Se a lua nasce por detrás da verde mata mais parece um sol de prata, prateando a solidão.” (Luar do sertão, Catullo da Paixão Cearense) / “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe, faz a hora, não espera acontecer.” (Pra não dizer que não falei de flores, Geraldo Vandré) / “O mundo é uma escola, onde a gente precisa aprender a ciência de viver, pra não sofrer.” (Pra machucar meu coração, Ary Barroso) / “Fazer samba não é contar piada, quem faz samba assim não é de nada; um bom samba é uma forma de oração…” (Samba da bênção, Vinicius e Baden Powell) / “Ai! Que amar é se ir morrendo pela vida afora…” (Serenata do Adeus, Vinicius) / “Nesta viola eu canto e gemo de verdade; cada toada representa uma sodade.” (Tristeza do Jeca, Angelino de Oliveira) / “Tu és, de Deus a soberana flor. Tu és de Deus a criação…” (Rosa, Pixinguinha) / “O mar, quando quebra na praia, é bonito, é bonito…” (O mar, Dorival Caymmi).

O fascinante tema merece ser retomado noutro momento.

Cesar Vanucci
SOBRE O AUTOR

Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br) 

Tudo muito surreal

 


Com Trump, o que não falta no noticiário são lances desconcertantes
Tudo muito surreal
Foto: Evelyn Hockstein

“Tudo muito espaventoso ‘pru’ meu gosto” ( Fungêncio do Abaeté, Chefe político Triangulino)

O que não anda faltando, no noticiário de cada dia, são lances desconcertantes, compondo enredo de brusco surrealismo.
O “belicista” Trump, perseguindo obstinadamente o sonho de se ver aclamado, mundo afora, como mensageiro da Paz, não perde uma sequer no sentido de impor-se como protagonista central da história. Na celebração dos 250 anos da independência, valeu-se do palanque cívico montado em razão do magno evento não para falar de estadista, porta-voz da maior potência universal, mas para arenga desprovida de humanismo, marcada ainda por virulência ideológica. Ameaçou adversários. Prestigiou os supremacistas brancos, braço político da famigerada KKK. Estes aliados desfilaram com bandeiras dos “Estados Confederados”, numa lembrança amarga dos tempos da Guerra Civil. Ele ainda: grotesco seu comportamento com relação à primeira-ministra da Itália. Inconformado com solidariedade de Meloni ao Papa Leão XIV, alvejado por desabrido ataque verbal, o impetuoso dirigente, com a visível intenção de humilhá-la, disse que ela implorou para posar ao seu lado. Resultado da falta de modos: A Itália não se fez representar na festa da independência.

Na recente reunião da Otan, realizada na Turquia, Donald voltou, despudoradamente, a anunciar disposição de anexar a Groenlândia. Disse isso, com todas as letras, pontos e vírgulas, diante de público composto por dirigentes europeus. Em clima de inocultável mal-estar, o público ouvinte, diante de espanto que correu mundo, permaneceu mudo e quedo que nem penedo.

Noutra furibunda investida antidiplomática, acusou o Canadá de estar prejudicando seu país por causa dos incêndios florestais, afirmando que vai impor sobretaxas para os produtos de lá procedentes. O primeiro-ministro canadense Trudeau redarguiu à altura. Recordou que, há pouco tempo ainda, seu país deslocou enorme contingente de especialistas em combate ao fogo para enfrentar incêndios na Califórnia. Uma maneira diplomática de dizer que Trump é, além de tudo mais, mal-agradecido.

Outra situação desconcertante produzida pelo despreparado personagem está ligada à política racista adotada contra cidadãos de outras nacionalidades. Atuando em moldes que lembram as sinistras S.A. hitleristas, a tropa de choque colocada nas ruas para os expurgos elevou para quase dez o número de pessoas assassinadas. Ainda dentro da perversa política de combate à imigração, Trump deparou-se com decisão da Alta Corte impedindo seu desarvorado propósito de não reconhecer como cidadãos americanos quem nasce nos Estados Unidos tendo estrangeiros como pais. Curioso na história saber que Trump é filho de imigrante, casado com imigrante, o que vingando sua proposta de lei à sua filha seria negada a cidadania americana.

Danado de espaventoso tudo isso!

Cesar Vanucci
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Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

O lado místico de Guimarães Rosa IV

 


Autor se destaca como um gigante da literatura brasileira, com precognição em seus relatos
O lado místico de Guimarães Rosa IV
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Guimarães é o nosso Homero.” (Paulo Rónai)

“Foi num sonho premonitório, duas noites repetido, que a estória de “Buriti” tomou forma em 48”. É o que atesta Rosa, sem relutância, em artigo escrito muitas décadas atrás. Os estudiosos dos fenômenos abarcados pela Parapsicologia não hesitarão em apontar, nessa revelação, a faculdade de precognição entre os dons do autor.

E qual classificação atribuir ao relato concernente a “Conversa de bois”, do enredo de “Sagarana”? “(…) Recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro-de-bois e que eu considerava como definitiva ao ir dormir na sexta”, sublinha ele.

O ato de haver “recebido” dá o que pensar. Esse processo intrigante de “recepção” mágica (dir-se-á, à falta de definição melhor) ocorre em muitos outros momentos da fecunda trajetória literária de Guimarães, segundo o próprio.

É assim em “A terceira margem do rio”. Assim, em “Campo Geral” (Miguilim e Manuelzão). Uma das estórias “brotou na rua, em inspiração pronta e brusca, vinda de fora”. A outra “foi caindo já feita no papel” (…) “e, chegada ao fim, espantou-se a simetria e a ligação de suas partes”.

Será que a hipótese da “escrita automática”, também conhecida por psicografia, pode ser encaixada como tentativa de explicação? Ou o que aconteceu guardará sinais de similitude, de certo modo, com um “esclarecimento” que me foi passado, de certa feita, pelo consagrado autor espanhol J. J. Benítez?

Perguntei-lhe em quais fontes se inspirou para o impressionante relato sobre a vida de Cristo que compõe a saga “Operação Cavalo de Tróia”. Pelo que deduzi da resposta, tudo provinha de um manancial de conhecimentos existente em plano superior. As informações teriam sido obtidas por percepção extrassensorial, um tipo de “canalização” ainda não devidamente codificado.

Guimarães parece querer dizer coisa parecida no artigo, quando fala de “Grande Sertão: Veredas”: “(…) forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como (o livro) foi ditado, sustentado e protegido, por forças ou correntes muito estranhas”.

A precognição ganha sentido, mais uma vez, no caso de outro romance que “faz anos, comecei e interrompi” (A fazedora de velas). A doença que veio a acometer o escritor, bem como a visualização antecipada que teve do interior de uma casa visitada, anos depois, “por acaso”, que haviam sido projetadas no romance, causando-lhe “choque e susto”, são elementos a mais a considerar na análise das fantásticas situações, de características iniludivelmente paranormais, vividas pelo genial Guimarães Rosa.

Concluindo este papo sobre o fantástico universo rosiano: não há como negar que as instigantes revelações acerca da paranormalidade do escritor, ouvidas de sua própria boca, reclamam atenções maiores dos estudiosos de sua fabulosa obra.

Cesar Vanucci
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Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

O lado místico de Guimarães Rosa (III)

 


Experiências paranormais influenciaram a vasta obra literária do escritor
O lado místico de Guimarães Rosa (III)
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.” — Guimarães Rosa

Retomo o empolgante relato de Guimarães Rosa acerca de seus dons paranormais. Entrego, agora, ao distinto leitorado a parte restante do artigo, publicado há várias décadas no “Estado de Minas”, em que o genial autor nos brinda com surpreendentes revelações.

Guima com a palavra:
“Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria tentar fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido — por forças ou correntes muito estranhas.

Aqui, porém, o caso é um romance que faz anos comecei e interrompi. (Seu título: A Fazedora de Velas). Decorreria, em fins do século passado, em antiga cidade de Minas, e para ele fora já ajuntada e meditada a massa de elementos, o teor curtido na ideia, riscado o enredo em gráfico. Ia ter, principalmente, cenário interno, num sobrado do qual — inventado fazendo realidade — cheguei a conhecer todo canto e palmo. Contava-se na primeira pessoa, por um solitário, sofrido, vivido, ensinado.

Mas foi acontecendo que a exposição se aprofundasse, triste, contra meu entusiasmo. A personagem, ainda enferma, falava de uma sua doença grave. Inconjurável, quase cósmica, ia-se essa tristeza passando para mim, me permeava. Tirei-me, de sério medo. Larguei essa ficção de lado. O que do livro havia, e ao que se referia, trouxou-se em gaveta.

Mas as coisas impalpáveis andavam já em movimento. Daí a meses, ano-e-meio, ano — adoeci, e a doença imitava, ponto por ponto, a do Narrador! Então? Más coincidências destas calam-se com cuidado, em claro não se comentam.

Outro tempo após, tive de ir, por acaso, a uma casa onde a sala seria, sem toque ou retoque, a do romanceado sobrado, que da imaginação eu tirara e decorara, visualizado frequentando-o por ofício. Sei quais foram, céus, meu choque e susto. Tudo isto é verdade. Dobremos de silêncio.”

Restou cabalmente provada, no depoimento do próprio autor aqui reproduzido, a incomum capacidade de Guimarães Rosa de poder atingir, com prodigiosa frequência, latitudes superiores na captação das energias sutis que compõem este nosso universo povoado de inexplicabilidades.

Depois de anotar que, por formação ou índole, costumava opor “escrúpulo crítico a fenômenos paranormais”, o escritor viu-se obrigado a reconhecer que sua vida, sempre e desde cedo, “se teceu de sutil gênero de fatos”. E que fatos tão singulares, “entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza”, são mesmo esses, afinal de contas?

A resposta chega de imprevisto, fulminante, de forma a esmorecer costumeiras dúvidas suscitadas pela proverbial dificuldade humana em avaliar situações consideradas fantásticas, misteriosas ou enigmáticas:
“…sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos.”

O tema comporta, como não, outras reflexões. Ficam para depois.

Cesar Vanucci
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O lado místico de Guimarães Rosa II

 

Conheça as confissões que revelam aspectos fascinantes de sua escrita

O lado místico de Guimarães Rosa II
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Foi caindo já feita no papel” (Guimarães Rosa)

Como prometido, reproduzo a carta, de anos atrás, do saudoso amigo Luiz de Paula Ferreira, aludindo aos dons paranormais de Guimarães Rosa.

“Prezado Cesar, mexendo em velhos papéis, encontrei texto precioso de Guimarães Rosa, de dezenas de anos atrás, citando fenômenos presentes na vasta produção que lhe valeu ser incluído entre os 100 maiores escritores da historia. Conhecendo seu gosto pelo estudo de fenômenos dessa natureza, anexo o texto, que merece divulgação em suas crônicas.”

No artigo, Guimarães solta o coração para confissões que abrem instigantes perspectivas na avaliação de sua fabulosa obra. Comenta seus “sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos”. O texto deixa evidenciado, em boa interpretação parapsicológica, os dons de que o escritor era possuidor. Dividido em duas partes, aqui está o artigo, de Guima “Vida, arte e mais?”

‘Tenho de segredar que – embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e, em princípio, rechace a experimentação metapsíquica – minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda a sorte de avisos e pressentimentos. Dadas vezes, a chance de topar, sem busca, pessoas, coisas e informações urgentes necessárias. No plano da arte e criação – já de si em boa parte sublunar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente, às vezes, quase à reza – decerto se propõem mais essas manifestações. Talvez seja correto eu confessar como tem sido que as estórias que apanho diferem entre si no modo de surgir. À Buriti (Noites do sertão), por exemplo, quase inteira, “assisti”, em 1948, num sonho duas noites repetido. Conversa de Bois (Sagarana), recebi-a, em amanhecer de sábado, substituindo-se a penosa versão diversa, apenas também sobre viagem de carro de bois, e que eu considerara como definitiva ao ir dormir na sexta.

A Terceira Margem do Rio (Primeiras estórias) veio-me, na rua, em inspiração pronta e brusca, tão “de fora”, que instintivamente levantei as mãos para “pegá-la”, como se fosse uma bola vindo ao gol e eu o goleiro. Campo Geral (Miguilim e Manuelzão) foi caindo já feita no papel, quando eu brincava com a máquina, por preguiça e receio de começar de fato um conto, para o qual só soubesse um menino morador à borda da mata e duas ou três caçadas de tamanduás e tatus; entretanto, logo me moveu e apertou, e, chegada ao fim, espantou-me a simetria e ligação de suas partes. “O tema de “O Recado do Morro” (No Urubuquá, no Pinhém) se formou aos poucos, em 1950, no estrangeiro, avançado somente quando a saudade me obrigava talvez, também, sob-razoável ação do vinho ou do conhaque”.

Na 2° parte do artigo, Rosa explica como foi com o “Grande Sertão”

Cesar Vanucci
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Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)


O lado místico de Guimarães Rosa I

Descubra o universo fascinante de um gênio da literatura brasileira que toca o sagrado em suas obras

O lado místico de Guimarães Rosa I
Foto: Arquivo / Agência Brasil

“Ele não escrevia com palavras comuns; ele tocava o sagrado.” (Clarice Lispector)

A cultura brasileira celebra, nestes dias, os 70 anos de “Grande Sertão, Veredas”. Guima são muitos. O universo literário rosiano, povoado de pontos cintilantes, parece ser regido pela mecânica cósmica da expansão contínua. Ganha, de tempos em tempos, nova dimensão. Os observadores deparam-se, ao devassar com suas lunetas os horizontes ilimitados da obra do autor de Grande Sertão, Veredas, com descobertas as mais fascinantes. Nenhuma delas ofusca a outra. Tudo faz parte de um todo harmonioso, que fala das múltiplas e inesgotáveis facetas de um gênio da criação literária. Um intelectual que escalou altitudes himalaianas e soube, como bem poucos, valer-se do recado artístico para atingir, certeiramente, as profundezas da alma humana.

Guimarães Rosa são muitos. E, singularmente, único, sem que se possa vislumbrar na afirmativa qualquer paradoxo. Revela-se único ao ostentar — categorizado mensageiro da boa palavra literária, da palavra que encanta e arrebata — essa profusão de saberes incomuns que tornam tão reluzente o seu legado de ideias.

Há o Guimarães recriador de linguajares de ricas cadências e tinturas. Há o paisagista de um sertão bravio, espantosamente real. Uma faixa de chão de consideráveis proporções dominada por ritmos e critérios peculiares de vida, inalcançáveis na visão utilitarista urbana. Há o retratista portentoso de perfis inesquecíveis. Desenhista de tipos esfuziantes na maneira singela de agarrar as dádivas da vida, projetados das emoções e paixões das multidões anônimas. Há o contador insuplantável de estórias brotadas das vivências simples da gente do povo, com seus ditames éticos rudes que costumam ressoar incompreensíveis em ouvidos eruditos. E há, ainda, o prosador clássico dos achados poéticos inebriantes, das metáforas antológicas e das alegorias eletrizantes.

“O alquimista do coração”: é assim que ele é mostrado em livro do escritor mineiro José Maria Martins. Sua literatura, segundo ainda o escritor citado, é levada a extremos de sutileza e inovação, ampliada “a recantos do mar da existência nunca d’antes explorados”, já que ele “tinha a capacidade de transpor a fronteira que separa o universo das manifestações temporais da casualidade profunda”.

Anos atrás, dei-me conta, de repente, extasiado, dos dons insuspeitados e confessos de um Guimarães Rosa envolvido com as manifestações mágicas, de certo modo inextricáveis, da paranormalidade. A intrigante informação foi-me passada por respeitado intelectual, com apreciável contribuição à causa da cultura: o meu saudoso e dileto amigo Luiz de Paula Ferreira, humanista, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico MG e figura de relevo na cena empresarial. A carta que me enviou, contendo notável revelação, diz tudo. Sua transcrição fica para artigo vindouro.

Cesar Vanucci
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Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com,br)

Cartões vermelhos na Copa

 

Influência de Trump mancha edição deste ano da maior competição de futebol do mundo

Cartões vermelhos na Copa
Foto: Reprodução Adobe Stock

“O Brasil se apequenou diante de um adversário fraco”. (Mauricio Noriega)


O primeiro cartão fica para o anfitrião da Copa, Trump. Sua majestade foi pilhada, como se diz na gíria esportiva, em impedimento. Um punhado de vezes. Já antes dos jogos pressionou uma Fifa desfigurada pelo servilismo no sentido de outorgar-lhe, à falta do Nobel, o fajuto titulo de “Campeão da Paz”. Enquanto a junta psiquiátrica da Casa Branca apressava a confecção de camisa de força mais resistente para conter seus impulsos delirantes, o monarca cuidava de promover toda a sorte de confusão de modo a trazer para si o protagonismo central da festa suprema do futebol. Misturando prepotência e racismo vedou o desembarque nas sedes da competição de desportistas estrangeiros. Vetou juízes. Mais adiante ordenou fosse cancelado cartão vermelho, atribuído a atleta estadunidense, por jogada desleal. O brasileiro que apitou o jogo, juiz consagrado mundialmente, foi tachado de “suspeito e de reputação duvidosa”. Tudo faz crer que, em determinado momento, os “Deuses do Futebol” acharam que já era chegada a hora de intervir, antes que as estripulias presidenciais ainda mais se agigantassem. Foi aí, então, que a seleção norte-americana perdeu a chance de chegar às semifinais. A derrota fragorosa por 4×1 para a Bélgica desfez o receio de que o escrete chegasse à final, e que Trump alterasse as regras, outra vez, determinando que a partida decisiva fosse substituída por cobrança de pênaltis. Mesmo sem figurar na lista dos atletas convocados, ele entraria na cancha, paramentado com vestimenta esportiva dos supremacistas brancos, tomando a si a tarefa de fazer as cobranças. Obviamente, com o arco adversário desguarnecido de goleiro, “mode que” tudo funcionar nos devidos trinques…

O outro cartão vermelho sobrou para a sofrível “legião estrangeira” (a começar pelo treineiro), que nos representou na Copa. Cheio de si, encharcado de empáfia, surfando nas águas caudalosas dos triunfos de glorioso passado, o time canarinho foi posto a pique pelas remadas vigorosas dos noruegueses.

A conquista do “Hexa” deu-se às avessas. Mal convocada, mal treinada, “cascou fora” pela sexta vez consecutiva do mais eletrizante dos torneios esportivos. A frustração popular foi bastante intensa. Da irreverência das ruas brotou um bocado de historinhas chistosas. Como esta: Dois torcedores desolados comentam o vexame.

“- Qual seria mesmo, em seu modo de ver, o placar de um jogo entre a seleção de agora e a de 1970?
“- A do tri ganharia por 2×1!”
“- Mas só isso?”

Fim do papo:

“- Só. É preciso levar em conta que o Pelé já morreu e os outros atletas já estão beirando os oitenta…”
E não é que os cartolas já espicharam o contrato do técnico para a Copa de 30?

Isso aí, gente boa.

Cesar Vanucci
SOBRE O AUTOR

Cesar Vanucci

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

A SAGA LANDELL MOURA

Javier Milei, o trapalhão

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