quinta-feira, 14 de novembro de 2019


A decisão do Supremo

Cesar Vanucci

“Nenhum juiz é contrário à repressão da corrupção com rigor.”
(Ministro Celso de Mello)

É assim que as coisas funcionam na democracia, um regime que estampa, inequivocamente, defeitos e falhas nascidos de circunstâncias e contradições próprias da vida, mas que é, sem mais a mais tênue sombra de dúvida, o único consentâneo com a dignidade humana. O Supremo falou, está falado. A decisão que se tomou, no tocante à prisão em segunda instância, contemplou sensatamente a rigorosa primazia do preceito constitucional sobre quaisquer outras formulações e sofísticos argumentos de natureza jurídica, concebidos – justo supor - dentro da mais lisa das intenções.

O que a Carta Magna proclama, no artigo 5º, não dá margem a tergiversações. “Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”, registra o texto. É de clareza cristalina o entendimento. A culpabilidade em processos conduzidos pela Justiça só se configura em sentenciamento definitivo proferido após esgotadas todas as possibilidades recursais concedidas no Estado de direito aos cidadãos. Noutras palavras, só depois de ocorrer aquilo que, no linguajar jurídico é conhecido por “trânsito em julgado”.

O preceito constitucional não comporta casuísmos, reinterpretações ditadas por conveniências políticas ou sociais, ou de qualquer outra natureza, mesmo que acionadas pelo respeitável propósito de impedir possam praticantes de atos delituosos desfrutar de impunidade. A medida aprovada – seja frisado com ênfase – não significa impunidade, prescrição de pena, interrupção de processo, admissão sumária de descabida inocência, afrouxamento dos mecanismos legais de enfrentamento de crimes, favorecimentos indevidos, por isso repudiáveis, a acusados de infringirem as leis, condescendência com corrupção. Como bem explicou o Ministro Celso de Mello, nenhum juiz da Alta Corte é contrário à repressão da corrupção com vigor. É imperioso, no entanto, seja respeitado o esquema legal definido na Constituição. “A repressão ao crime não pode efetivar-se com transgressão às garantias fundamentais”, frisa o magistrado. Acrescenta, com firmeza: “A proteção das liberdades representa encargo constitucional de que o Judiciário não pode demitir-se, mesmo que o clamor popular manifeste-se contra.”

A lúcida ponderação contribui para melhor compreensão da decisão em que o Supremo submete toda e qualquer tramitação processual ao abrigo da regra constitucional. Fica evidente que o ato, de legitimidade irrecusável, não é passível de fomentar, nos círculos democráticos, reações que possam lembrar ligeiramente manifestações de torcida organizada, em saída de estádio, face a placar adverso ao clube de sua predileção.

Onde nos parece haver o Supremo cometido gesto falho, em toda a história, é na delonga que marcou o estudo da questão sob exame. Isso deu causa a que o foco jurídico constitucional fosse deslocado para polêmicas ruidosas, marcadas, de parte a parte, por exacerbadas paixões, quando o que esteve em jogo, o tempo todo, nada mais foi, senão e apenasmente, a correta aplicação de um princípio constitucional.

A soltura de Lula, Azeredo e outros réus condenados em segunda instância não significa jeito maneira tenham eles sido absolvidos dos graves delitos que lhes são imputados. Significa, de acordo com o ditame constitucional, que os réus dispõem ainda de prazos recursais, previstos em lei, para se defenderem das acusações.

Uma outra conclusão se impõe dentro desta linha de considerações. Chegada a hora de o Judiciário, em seu afã de aprimoramento do trabalho que lhe toca institucionalmente executar, promover estudos que levem à implementação de mecanismos mais ágeis de atuação capazes de sobreporem-se à morosidade processual tantas vezes detectada em sua edificante missão.


Sonoro não aos despautérios

Cesar Vanucci

“Não se agride o espírito democrático impunemente”.
(Paulo Pinheiro Chagas, saudoso escritor e homem público)

Os despautérios cometidos por elementos do núcleo central do Governo, alvejando valores muito caros à Democracia e Cultura brasileiras, vêm jorrando, nestes nossos dias, com a mesma desnorteante desenvoltura e impetuosidade das misteriosas manchas de óleo surgidas nas faixas litorâneas em agressão violenta ao meio ambiente, às atividades turísticas e economia de centenas de municípios nordestinos. Ambas as situações são, obviamente, de feição a causar transtornos, perplexidade e preocupação à coletividade.  

Detendo-nos no primeiro fator causal do detectado desassossego comunitário, vemo-nos impelidos a lançar no ar pergunta atravessada como espinho na garganta de toda gente. Até quando persistirão esses repetitivos e inconsequentes abusos retóricos, de nauseabundo teor antirrepublicano?  A Nação anda clamando por um basta nesta história pra lá de incômoda! O pronto e decidido coro de vozes irrompido recentemente, no seio da opinião pública, há que ser interpretado como benfazeja reação ao tropel de impertinências assacadas contra o sentimento nacional.

A tresloucada opinião de um parlamentar radical, volta e meia emaranhado em bravatices de escancarado bolor totalitário, “ameaçando” o país com um novo AI-5, desencadeou compreensível clamor nacional. O fragor do repúdio fez esquecidas, por algum tempo, divergências, desencontros e até entrechoques de ideias, às vezes agudos, inerentes ao cotidiano político. Cidadãos de diferentes tendências e crenças, deixando de lado antagonismos periféricos, fizeram questão absoluta de bradar, alto e bom som, seu inconformismo e repugnância a qualquer manobra subversiva que atente contra as instituições. Sem discrepâncias ao expressarem visceral repulsa à provocação do despreparado parlamentar, lideranças de todos os segmentos e matizes deixaram evidenciada, com todos os pontos e vírgulas, firme disposição de confrontarem quaisquer vociferações e gestos bolorentos dos que utilizam a imprecação do furor para atingir a pureza e serenidade dos magnos valores culturais e democráticos.

O recado que as forças vivas da nação estão passando, aos responsáveis por atos e linguajares conflitivos com a consciência cívica, documenta discordância frontal a tudo quanto, em gestos ou ditos, possa representar ameaça ao regime democrático. Regime esse que, nada obstante perceptíveis defeitos, acha-se consagrado na memória e sentimento das ruas como único compatível com a dignidade humana. Regime que, aliás, a propósito, deu chance a alguns dos que, desastrada e equivocadamente, perseveram na inglória tarefa de miná-lo em sua essência, a serem guindados às importantíssimas funções hoje exercidas.

Fique bastante explícito, para os extremados adeptos de facções alojadas nas lateralidades ideológicas incendiárias, que os brasileiros rechaçam, com veemência, “atos institucionais” de qualquer numeração. Rechaçam obstruções de qualquer ordem à liberdade de ir e vir, bem como à livre dicção de ideias e cerceamento da voz da imprensa. Rechaçam também prisões clandestinas e torturas aviltantes, louvações, como figuras icônicas, de ditadores e torturadores. Consideram inaceitáveis o desrespeito e achincalhe de instituições representativas da sociedade livre, grosseiramente configuradas como óbices a remover em perverso esquema de erosão democrática.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019





O


O “Blog do Vanucci” recomenda, com ênfase, o acesso ao canal do Youtube para conhecimento da entrevista que Orestes Debossan Junior concedeu a Cesar Vanucci no programa Percepção. A entrevista compreende três partes, a primeira das quais estampada nesta edição. As revelações são bem sugestivas.


Cadê os projetos de desenvolvimento?

Cesar Vanucci

“Os mais pobres ficaram mais pobres
 e os mais ricos ficaram mais ricos”.
(Maria Lúcia Vieira, gerente da PNAD, do IBGE)

Pesquisa recente do IBGE eleva a índice ainda mais desconfortável o desalento que povoa a alma nacional. Deixa estridentemente evidenciada a falta de capacidade das lideranças, nestes precisos instantes da vida brasileira, na condução de ações consentâneas com a vocação de grandeza do país.

A estagnação econômica é realidade palpável e dolorosa. O desemprego e o subemprego chegam a patamares desnorteantes. Na arena política, dominada pelas tricas e futricas de sempre, pelas querelas miúdas, nascidas da visão estrábica de líderes, em elevado quantitativo, despojados de sensibilidade social, arrojo empreendedor e sentimento nacional, predomina um vazio atordoante de ideias. Hora alguma, em nenhum setor de referência ligado às ações encetadas pelos poderes decisórios, ouve-se uma palavra apenas, um murmúrio tímido que seja, a propósito de um magno projeto nacional de desenvolvimento econômico e social consonante com as aspirações ardentes da sociedade.

As reformas essenciais ficam no bla-bla-bla. Encaixam, em debates pífios e estéreis, prevalecentemente desdobrados em sites na internet, argumentos inconsistentes, que não tocam o fulcro das questões. A alardeada intenção de promovê-las é abalada pela vociferação inócua e ridícula de questiúnculas ideológicas desconstrutivas, que só se aprestam para acirrar ânimos e gerar a desarmonia. Os temas vitais, que reclamam diálogo amplo e propositivo, são negligenciados. Os procedimentos observados no jogo político, processado com base na troca de favores, do “dá cá, toma lá”, das manobras maquiavélicas, são sem tirar nem pôr os mesmos utilizados no passado. Isso suscita a lembrança de que essas posturas eram veementemente questionadas, dando causa a peremptórias promessas de que seriam banidas da cena pública. Mas as promessas estão sendo, como amplamente percebido por todo mundo, chutadas descerimoniosamente pra escanteio.

Nos “anos dourados” do injustiçado e hoje idolatrado Juscelino Kubitschek de Oliveira, para ficar no exemplo mais frisante da crônica do nosso desenvolvimento econômico e social, os projetos de fazer deste país de prodigiosas riquezas uma potência jorravam com impetuosidade que nos estimulava alimentar esperanças, sonhos, utopias na contemplação do futuro. Num período de 5 anos, que pareceram 50, o Brasil ergueu num nada territorial uma majestosa capital. Implantou industrialização de ponta. Construiu rodovias, usinas elétricas. Favoreceu um fervedouro de obras. Alavancou o progresso pra valer. Estimulou a criatividade e o empreendedorismo. As conquistas civilizatórias, em curtíssimo espaço de tempo, graças a lideranças detentoras de fecundidade de ideias e a projetos elaborados com engenho e competência, impactaram positivamente a economia.  Espalharam benefícios sociais à mancheia, repercutindo esplendidamente em todos os segmentos. Os avanços detectados no projeto brasileiro de desenvolvimento fizeram brotar cintilantes manifestações na seara da cultura, da arte, do esporte e assim por diante.

Que baita diferença, Santo Deus, entre o Brasil daquele radioso tempo e o Brasil dos dias acinzentado de hoje! Onde estão os homens providos de grandes ideias e poder realizador? Onde se meteram, a ponto de não serem identificados ao primeiro olhar, os fazedores de progresso “na linha jusceliniana”?

É nesse cenário acabrunhante, aguçado pela comparação trazida à reflexão dos leitores neste momento, que o IBGE, instituição altamente confiável, possuidora de quadros técnicos de invejável qualificação, comparece a público para revelações que ratificam a aflitiva sensação de que as coisas andam realmente funcionando mal neste país rico, bonito pela própria natureza, de potencialidades inesgotáveis. A metade da população – 104 milhões de compatriotas - vive com apenas 413 reais por mês. A desigualdade de renda bateu recorde em 2018. As injustiças, na escala dos rendimentos, atingem clamorosamente gêneros e raças. Para cada R$ 100 recebidos por um homem, uma mulher ganha, em média, R$ 79. Os mesmos 100 reais pagos a uma pessoa branca caem para 56 quando o cidadão é negro. A renda domiciliar per capita dos 5% que ganham menos, caiu 3,8% em um ano. Em todo o país, 10,4 milhões de criaturas (5% da população) sobrevivem com 51 reais em média por pessoa, conforme os dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD).

As evidências de que as desigualdades vêm se agravando ficam contundentemente estampadas em outros dados, como os que se seguem, extraídos das apurações técnicas do IBGE. A renda média per capita é ainda menor – apenas 269 reais –, se considerados na avaliação global os 30% mais pobres, ou seja, o equivalente a 60,4 milhões de pessoas. No outro extremo da avaliação de renda, o 1% melhormente aquinhoado na distribuição da riqueza – somente 2,1 milhão de pessoas – ostenta no quadro renda média mensal per capita de 16,297. Noutras palavras, a fatia mais abastada da população ganha perto de 40 vezes mais que a metade da base da pirâmide populacional.
O patamar auge da pesquisa do IBGE atingido em 2018 levou a gerente da PNAD, Maria Lúcia Vieira, a dizer que no nosso Brasil “os mais pobres ficaram mais pobres e os mais ricos ficaram mais ricos”.

Parando, por ora, por aqui. Tudo isso machuca. Como dói!


Luta em vão contra tolices

Cesar Vanucci

"Com a tolice os próprios deuses lutam em vão."
 (Friedrich Schiller, filósofo e historiador)

Integrante do reduzido, posto que leal, culto e assíduo leitorado destes mal datilografados escritos abastece-nos de informação que serve, alentadoramente, para enriquecer as considerações que, de quando em quando, trazemos a este acolhedor espaço com o propósito de reagir às agressões sofridas pela cultura brasileira.

Segundo ele, os restaurantes que mais faturam na praça, vale dizer, que mais fregueses atraem, são os de denominação – às vezes, tão saborosa quanto os pratos do cardápio – com som, jeito e cara de Brasil. O leitor explica ainda que na avaliação pessoal procedida deixou de levar em conta, como estabelecimentos classificados na "lista estrangeiros", as casas típicas cujos nomes fantasia se mostrem vinculados, por óbvios motivos, à natureza essencial do negócio. E tira animadora conclusão para quem se disponha a defender, com espírito cívico, o apreço na lida cotidiana ao idioma do país: o povo sabe assumir, instintivamente, a proteção dos valores culturais da nação. Imaginamos seja mesmo assim que as coisas rolem nos redutos populares. E nos pomos a pensar quão proveitosa poderia vir a ser em revelações uma pesquisa aprofundada das preferências comunitárias, nessa linha de averiguações seguida no caso reportado dos restaurantes.

As desfigurações e o achincalhe linguísticos, bem como outras habituais modalidades de atentado cultural, têm origem no pauperismo intelectual subjacente a ambientes sofisticados onde a falsa erudição reina e onde muitos se entregam, embriagadoramente, ao jogo fantasioso de pertencer às chamadas "elites emergentes". Nesse território de pedantismo elevado ao cubo é de bom tom o emprego de estrangeirismos no papo trivial. Não se trata aí do uso pertinente de vocábulos ainda não traduzidos, indispensáveis ao entendimento de um processo tecnológico relevante. Nem de citações, perfeitamente compreensíveis, em idioma alheio, capazes de definirem com melhor precisão uma circunstância típica ligada a realidade cultural de outros lugares. Nada disso. O que merece condenação é o emprego de estrangeirismos forçados, roçando o desrespeito. A expressão decorada fica engatilhada no canto da língua ou armazenada na gaveta da memória, aguardando hora e vez de ser lançada, com pernosticismo, em manifestações orais e escritas. Correspondências, convites, discursos, entrevistas, painéis de rua, folhetos e volantes contendo ofertas de ocasião: a situação é de puro surrealismo. Concorre para a poluição sonora e visual, sendo vivenciada na indigência cívica e intelectual de uns e outros.

Acode-nos à lembrança, neste preciso instante, um fato assaz divertido. Uma comerciante da praça recebeu carta de fornecedor salpicada, como é de praxe em certos ambientes, de frescurinhas vocabulares. Do impresso, bem cuidado do ponto de vista gráfico, cores harmoniosamente distribuídas, caracteres sugestivos, o escambau, constou proposta à destinatária para cooperar com o missivista no sentido de que, juntos, pudessem "alcançar nossa gestalt". A dama agraciada com a desconcertante proposta, pessoa temente a Deus, desafeiçoada à terminologia “alienígena” solta por aí, só se tranquilizou mesmo quando a filha, estudante de Psicologia, rindo à bandeiras despregadas, explicou o significado da desconcertante e desconhecida expressão. Foi quando, então, ficou sabendo que gestalt, palavra alemã, sem tradução no vernáculo, de conteúdo substancioso, identifica uma técnica utilizada em Psicologia para transmitir ideia aproximada de totalidade, abrangência, por aí. A comerciante inteirou-se, também, que o termo trafega com crescente desembaraço pelos descaminhos das incontinências verbais. É adotado, com entusiasmo iconoclasta, para o uso impróprio costumeiro, pela turma que considera o máximo, em matéria de saber, a capacidade para introduzir de enfiada num diálogo de cinco minutos as palavras "book", "inside", "feeling", "feedback" e outras do gênero. Ou que considere uma suprema bem-aventurança receber em casa, com o nome grafado de próprio punho pelo anfitrião, um "emergente" qualquer, honroso convite para um "brunch" ou "happy hour"...

Carradas de razão assistia a Schiller, quando asseverava que "com a tolice os próprios deuses lutam em vão". Ou ao poeta Coelho Neto, quando proclamava que “Civismo é (...) zelar pela pureza do idioma e dos costumes herdados.”

sexta-feira, 25 de outubro de 2019



Os poetas são imprescindíveis

Cesar Vanucci

“Olhar as estrelas e dar rumo ao navio!”
(JG de Araujo Jorge, definindo a missão do poeta na “navegação” pela vida terrena)


O livro de poemas “O Círculo dos Bastidores”, de Jorge Alberto Nabut, foi lançado em Belo Horizonte em noite de autógrafos acontecida na Academia Mineira de Letras. O ato foi prestigiado por figuras de realce na vida cultural. Ângelo Oswaldo de Araujo Santos, ex-Secretario da Cultura em Minas, enalteceu em nome da AML, a produção poética de Nabut, em aplaudido pronunciamento. O professor Eduardo Veras discorreu brilhantemente sobre o livro e outras publicações do autor. A este escriba tocou também a tarefa de comentar o trabalho intelectual de Nabut. O pronunciamento feito na ocasião é reproduzido abaixo.

“Sumamente honrado com o convite do estimado amigo Rogério Faria Tavares, presidente da Academia Mineira de Letras, para dirigir saudação ao poeta Jorge Nabut, prometo não ocupar nem dez minutos do tempo de cinco minutos estipulado para a fala.

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. Dias atrás, o telefone da mesa de trabalho soou. Movimentando-me para atender, disse em voz alta: - Ligação de Uberaba!
Alguém na sala estranhou: - Como é que você sabe disso?
Respondi de pronto: - O tilintar do telefone é sempre festivo quando a chamada procede de Uberaba, cidade natal, modéstia à parte, do Nabut e minha.
Do outro lado da linha, o poeta Jorge Nabut perguntou-me se compareceria à cerimônia de hoje. Garanti presença, acrescentando que a ausência em certos eventos só encontra mesmo justificativa quando a gente manda, no lugar, um indesejado atestado pessoal de internação hospitalar inesperada.

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. Byron comparou a Inglaterra a um navio. Castro Alves complementou: “Um navio que na Mancha ancorou”. JG de Araujo Jorge conferiu abrangência à imagem, explicando que o mundo em que vivemos, este sim, é que pode ser mostrado como um imenso navio a singrar pela imensidão azul sideral. Na embarcação, as lideranças comprometidas com a inteligência e a cultura têm tarefas nobres a desempenhar. E qual fica sendo, então, a missão do poeta nessa história? Resposta do poeta JG: - “Olhar as estrelas e dar rumo ao navio!”

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. Os poetas são intérpretes das coisas da vida providos de faculdades paranormais. Concorrem para descobertas constantes de ocultas belezas. Ajudam na decifração dos arcanos alojados nos planos transcendentes da aventura humana. “O olhar do poeta, girando em delírio, / vai do céu para a terra, da terra para céu (...)” Lembra Shakespeare.

Também propagador da esperança, o poeta consegue flagrar, em ações triviais, soberbo instante lírico. “Tu pisavas nos astros distraída...” O verso de Orestes Barbosa, em “Chão de Estrelas”, canção composta em parceria com Silvio Caldas, foi escolhido por Manuel Bandeira, certa feita, como o mais lindo da poética nacional.

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. Os poetas refazem narrativas históricas. Vergastam imposturas mundanas. Colocam a sabedoria nata, o talento, a sensibilidade social, a serviço da construção humana. Enfrentam galhardamente a onda asfixiante de posturas rançosas nascidas da intolerância e do obscurantismo, tão notórios em tempos de agora. Os escritos de Castro Alves, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Adélia Prado, Vinicius de Moraes, Carlos Drumond de Andrade, Cora Coralina, Thiago Mello, entre muitos outros, documentam profusamente essa esplêndida profissão de fé na poesia.

A poesia é necessária. E os poetas são imprescindíveis. O excelente poeta Jorge Alberto Nabut, companheiro da Academia de Letras do Triângulo Mineiro, encontra-se aqui entre nós, a revelar-nos seus dons de esteta da palavra, ofertando-nos sua inteligente interpretação do sentido da vida. Traz, para geral embevecimento, sua mais recente criação literária. “O Círculo dos Bastidores” é considerado em avaliação de Eduardo Veras uma preciosa autobiografia literária-experimental.

Ele comparece a este sodalício, guardião sereno de saberes acumulados, para enfaticamente proclamar suas crenças no instrumento poético como forma de exaltação da cultura – tão alvejada por aí afora -, dos valores humanísticos e espirituais que recobrem de dignidade a caminhada terrena.

Com vocação vanguardeira, chama nossa atenção para o modo peculiar que escolheu para expressar seu sentimento do mundo. Proporciona-nos a todos, com as rajadas líricas disparadas nos versos, a certeira convicção de que a poesia é mesmo necessária e os poetas são realmente imprescindíveis no processo fecundo e alentador, posto que extenuante, dos avanços civilizatórios. Aplausos fartos para o Nabut. O poeta merece.”


Relembrando insólito convite


Cesar Vanucci 

A primeira coisa que um cidadão precisa ter é civismo...”
(Unamuno)

A neobobice vernacular disseminada na praça, em razão do descerimonioso emprego de vocábulos estrangeiros em papos triviais e na comunicação social escrita e falada, muitos deles (vocábulos) proferidos em inglês de araque – alguns até diriam, num inglês “morolês” – inspiram este escriba velho de guerra a reeditar texto sobre um convite insólito, recebido muitos anos atrás, quando fazia parte do quadro diretivo da nossa Rede Minas de Televisão. A relembrança permite dizer que as bestagens de hoje, ou seja, desse mórbido alumbramento cultivado por inúmeros setores da vida brasileira com relação a coisas e personagens doutras plagas, revelador de irreparável pauperismo cívico, é mesmo de datação antiga.

Contando assim, parece até história inventada. Não é. “Antes sesse”, como diria, em sua saborosa maneira de expressar, algum matuto dos chapadões sem fim lá das bandas do Triângulo. Uma agressão, outra a mais, à cultura brasileira estaria deixando de ser praticada. Mas o fato real, verdadeiro e contundente, é que recebi, tempos atrás, convite para participar, como jornalista, de evento, no Rio de Janeiro, no Riocentro, todo ele, o convite, da primeira à última linha, face e verso, impresso em inglês. Achei, num primeiro momento, que estava a cometer algum erro de percepção. Não estava. Li e reli o convite um bocado de vezes. Vasculhei o interior do envelope à cata de outro impresso qualquer, apegando-me ansioso à hipótese de que nele pudesse vir registrada, em idioma falado em meu país, uma explicação razoável para o inusitado prosseguimento.

Nada encontrei. Não havia motivo pra dúvida. O convite endereçado ao cidadão brasileiro, profissional de comunicação no Brasil, para debater as atividades do setor aqui neste país, envolvendo a participação, seguramente em maioria, de colegas também brasileiros, a ser realizado num centro de convenções brasileiro, em cidade brasileira, o convite, repito, estava formulado em língua estrangeira. Algo de um surrealismo único. O cúmulo dos absurdos. Um sinal alarmante a mais da onda abobalhada de estrangeirices que nos assola. Uma onda hiper ativada na panaquice, na indigência cívica e intelectual. Encurtando razões: em frescurice a mais ampla, geral e irrestrita.

Um outro dado  constrangedor nessa historinha do insólito convite  é que  organizações brasileiras respeitáveis estavam a assiná-lo. E, de forma clamorosa, mantiveram-se indiferentes aos impropérios perpetrados contra o idioma e a cultura. Já disse, repeti e torno a repetir que o emprego de vocábulos estrangeiros, na palavra falada e escrita, para classificar coisas óbvias do cotidiano, rescende a babaquice. Desqualifica intelectualmente os deslumbrados da silva que, junto com pessoas desavisadas, fazem coro com o “inimigo”, interessado em corroer, por dentro e por fora, as instituições e os valores mais sagrados da autêntica cultura brasileira. Não há como não desconfiar faça isso parte de um trabalho articulado, manhoso, sorrateiro, com o qual se busca inocular no espírito popular a idéia perversa e falsa de que somos, os brasileiros, cidadãos de segunda classe. Criaturas sem capacitação para gerir o próprio destino. No fundo mesmo aquela conversa cretina, vigorosamente rebatida em rotineiros exemplos na atuação comunitária, de um país que teria sido agraciado pelo Todo Poderoso com dádivas naturais sem igual, mas que seria povoado por uma gente nem tanto...

sexta-feira, 18 de outubro de 2019


Sula e a magia do circo

Cesar Vanucci

Todas as linguagens artísticas têm uma
esquina que cruza com a arte circense.”
(José de Oliveira Junior)

Sabe você? Sabe essas pessoas de coração fervoroso, de bem com a vida, com coragem suficiente para apostar todas as fichas à mão num propósito nobre, que lhes exige esbanjamento de tempo e energia, seguras de que as decisões tomadas representam contribuição ao processo da construção humana? Sabe esses personagens sortidos de vibração interior, que consideram as utopias alojadas na mente parte indissociável da caminhada pessoal a percorrer? E que raciocinam que nem o poeta Mário Quintana quando, liricamente, garante que “se as coisas são inatingíveis, ora, não é motivo para não querê-las, já que tristes os caminhos se não fora a presença distante das estrelas”?

Sabe essa gente de ardor contaminante, que trabalha com benfazeja obsessão, uma ideia, um projeto, um ideal, evidenciando serenidade de espírito e firmeza de convicção? Sabe você, sabe? A Sula Kuriacos Mavrudis é alguém assim. Pesquisadora, autora e diretora teatral, desfrutando desde muito cedo – como faz questão de assinalar – o privilégio de conviver com o mundo do circo, ela conseguiu compor, ao longo dos anos, a respeito do tema, um colossal acervo de documentos e depoimentos. Ganhou o direito de ser reconhecida, nos círculos da lida circense, onde sua inteligência e capacidade de articulação é objeto de apreço e admiração, como cronista maior da fascinante atividade.

O pai de Sula, trabalhador no setor da construção de hidrelétricas, no curso das décadas de 60 e 70, deslocou-se com a família por vários rincões do país. Morou em acampamentos especiais implantados nas proximidades das obras. Nesses espaços, artistas circenses eram continuamente chamados a montar suas lonas, proporcionando entretenimento e lazer às comunidades de operários isoladas em territórios distantes dos centros urbanos. Frequentadora assídua dos espetáculos, Sula tomou-se de encantamento por essa modalidade de manifestação cultural enraizada na alma popular. Dedicou-se à coleta de informações, recolheu depoimentos, enredou-se emocionalmente com o contexto circense. Inteirou-se a fundo das peculiaridades, dos problemas e aspirações do pessoal do ramo.

Tudo isso influenciou seus rumos profissionais. Conduziu-a a participação ativa em políticas culturais e assistenciais em favor da causa. Estabelecendo-se em Belo Horizonte em meados dos anos 80, passou a ser enxergada, num dado instante, como uma espécie de guardiã de saberes acumulados no tocante a esse multicolorido complexo artístico de genuíno sabor popular. Transformou-se, também, em porta-voz de postulações do setor, inserindo-se em empreitadas e promoções voltados à preservação da memória do circo e sua revitalização.

Chega agora a explicação acerca da circunstância de os holofotes desta narrativa estarem focados em Sula Kuriacos Mavrudis, apelidada carinhosamente de “Grega”. Fique sabendo, então, o “respeitável público” que essa valorosa “parceira do circo”, como se autodenomina, presidente da “Rede de Apoio ao Circo”, que aglutina uma centena de circos e famílias de artistas de circo, é autora de uma publicação intitulada (em trocadilho sugestivo, bolado pelo Olavo Romano) “Encircopedia – Dicionário Crítico Ilustrado do Circo no Brasil”. Enfeixando histórias, verbetes e fotos, em 500 páginas, linda e sugestivamente ilustradas, a publicação, lançada com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura, no governo passado, dota a cultura nacional de um compêndio enciclopédico magnífico. Único, ao que parece, no gênero.

Não se detém aí a ação criativa de Sula. Confiante de que o projeto venha a se tornar, em breve, radiosa realidade, ela concebeu a implantação em BH, numa área já devidamente demarcada, onde funcionou, bocado de tempo atrás, a estação de trens da Gameleira, a “Cidade do Circo”, destinada a abrigar as artes circenses em suas diversas manifestações. Ela acolherá circos itinerantes, escola de circo, circos sociais, companhias familiares circenses, trupes de palhaços, cursos de capacitação, qualificação e aperfeiçoamento profissional, biblioteca especializada. Um termo de cooperação técnica, firmado entre a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte e a Rede de Apoio ao Circo, constitui o ponto de partida dessa viagem
da inteligência e sensibilidade artística pelos trilhos dos sonhos da comunidade circense.

Não há como não nos rejubilarmos com essas iniciativas. Afinal de contas, fazemos, todos nós, parte do “respeitável público” que, nalguma ocasião de nossas vidas, sentados em toscas arquibancadas de madeira, sob as lonas esverdeadas de teatros improvisados em terrenos baldios, nos deixamos arrebatar pela magia e emoções do circo. Pelas proezas e peripécias produzidas por palhaços, equilibristas, contorcionistas, malabaristas, trapezistas, ilusionistas, amestradores de animais, bailarinos, motociclistas arrojados com seus “globos da morte”. A memória das ruas conserva essas cenas, de forma indelével, envoltas em carinho e saudade.
  



Tópicos da atualidade

Cesar Vanucci

“Democracia implica redistribuição da renda,
criação de empregos e bem-estar social crescente.”
(Ulysses Guimarães, sempre atual)

A Ministra da Agricultura, com a firme convicção dos que se crêem donos de “verdades” que não cabem ser questionadas, disse num simpósio internacional não existirem no Brasil condições propícias para o cultivo de produtos orgânicos. Conhecidos nossos, com atuação no setor da agricultura familiar, levantam, a propósito da douta opinião, a hipótese de que as estepes siberianas e o Alasca talvez sejam locais mais apropriados para essa modalidade de prática agrícola...

Com arrogante e frenética disposição, bem ao seu estilo, roçando as raias da paranoia, Donald Trump dá andamento à colossal construção de um muro na extensa divisa com o México, país considerado aliado incondicional dos Estados Unidos (imagine só se não fosse!). Explica, exultante, que a cerca comportará sofisticado sistema eletrônico, dispositivos para disparos de choques elétricos, arame farpado, vigilância permanente com cães ferozes e militares instruídos a atirarem nas pernas de indesejáveis imigrantes. Um repeteco chocante do “muro da vergonha”, implantado por ditadura comunista que dividiu a Alemanha por quase três décadas, até 1989. Muro que entrou nos anais da história como referência abominada pela consciência democrática mundial.

A inusitada e descabida exigência de apresentação de CPF em compras de produtos e serviços clama por urgente intervenção das autoridades competentes. Coletadas ao acaso, aqui vão amostras de situações desconcertantes vividas pelos fregueses. CPF para compra de barras de cereais em farmácia. CPF para poder ingressar num parque público em busca de momentos de lazer. CPF para aquisição de talão de estacionamento rotativo, mesmo que por período de apenas uma hora ao preço de quatro reais e quarenta centavos. Essa “invenção de moda” – como era de costume dizer-se em tempos de antigamente – alveja o bom-senso e produz desdobramentos indesejáveis, como é lícito imaginar.

Os de boa memória, retornando a fatos sucedidos na vida administrativa mineira anos atrás, hão de se lembrar dos categóricos argumentos levantados em favor da tese de que o Estado deveria abrir mão do controle de sua pujante rede de organizações bancárias em favor de instituições privadas. O dinheiro apurado nas operações, etecetera e tal, coisa e loisa, constituiria decisivo suporte para o tão almejado equilíbrio das contas públicas. Perguntar não ofende, tá bem? Será que isso ficaria mesmo demonstrado numa eventual reavaliação do processo de privatização transcorrido, em que fosse utilizado trabalho de auditoria que escarafunchasse devidamente a questão? Oportuno manter esse lance no foco das atenções à hora em que defensores da privatização de ativos públicos a qualquer preço, ostentando a mesma linha de raciocínio, saem a público dizendo que a privatização da Cemig representa a “salvação da lavoura” para as combalidas finanças das Gerais.

Num instante assinalado pela escassez de lideranças e ideias, muitos da geração deste desajeitado escriba evocam, saudosisticamente, personagens que deixaram impressas, na caminhada da construção nacional, pegadas cintilantes. Ulysses Guimarães, pela atuação no capítulo da redemocratização, foi um desses. Faz sentido, pelo sabor de atualidade de que ainda se revestem, reproduzir, aqui, apreciáveis conceitos por ele expendidos. Vamos lá: “Democracia é estado de direito, liberdade de pensamento e de organização popular, respeito a autonomia dos movimentos sociais. Repousa na existência de partidos políticos sólidos. Democracia significa voto direto e livre, significa restauração da dignidade e das prerrogativas do Congresso e do Poder Judiciário, significa liberdade e autonomia sindical, significa liberdade de informação e acesso democrático aos meios de comunicação de massa. Democracia implica democratização das estruturas do Estado, implica resgatar a soberania nacional, implica redistribuição da renda, criação de empregos, e bem-estar social crescente.”


A SAGA LANDELL MOURA

A decisão do Supremo Cesar Vanucci “Nenhum juiz é contrário à repressão da corrupção com rigor.” (Ministro Celso de Mello) É...