quinta-feira, 30 de junho de 2022

 

Meio ambiente, Ambar, Trump

 

Cesar Vanucci

A Terra não precisa de nós –

 somos nós que precisamos dela”.

(Dal Marcondes, jornalista)

 

· O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado na semana passada suscitou por algum tempo, como sempre acontece, debates e a circulação mais intensa de informações acerca das ações agressivas continuamente praticadas, em todas as partes, em prejuízo da vida pela insensatez do ser humano.  Soam oportunas, a propósito da candente temática essas reflexões do  Dal Marcondes, jornalista, diretor da Agência Envolverde, especialista em meio ambiente, mestre em modelagem de negócios digitais e conselheiro do ICLEI América do Sul:

“O planeta não precisa ser salvo, o que precisamos salvar é sua capacidade de seguir resiliente frente aos desatinos e desmandos da humanidade.

 

Desde os anos 1960 os sinais de que o meio ambiente está em perigo começaram a soar. Em 1962 Rachel Carson publica “Primavera Silenciosa”, sobre os efeitos dos agroquímicos, em especial o DDT, sobre a fauna e os seres humanos. É considerado uma das pedras fundamentais do ambientalismo. Em 1972 os especialistas do Clube de Roma publicam “Os limites do crescimento”, uma modelagem do impacto do rápido crescimento populacional sobre os recursos naturais da Terra.

Os diagnósticos de que algo não vai bem no terceiro planeta seguiram dando     alertas. Em 1987 a médica e ex-primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland publica o relatório “Nosso Futuro Comum”, que explicita a necessidade de uma solidariedade intergeracional. Que as atuais gerações devem garantir que as pessoas do futuro tenham também os recursos necessários para sua sobrevivência na Terra. Em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ou Eco-92), representantes de 179 países assinaram a Agenda 21, um documento que aponta para a necessidade de cooperação global para a construção de uma sociedade planetária sustentável”. 

· O bom senso prevaleceu e a Universidade Federal de Ouro Preto acabou voltando atrás na decisão que molestou interesses respeitáveis da bióloga Ambar Soldevila Cordoba. O título de mestre que lhe havia sido arrebatado por uma decisão infeliz do colegiado da UFOP, em consequência de protocolo burocrático despojado de sensibilidade social, vai ser-lhe restituído. A deliberação tomada, com relativa rapidez, evitou demanda judicial e uma série de transtornos derivados de uma resolução que com toda certeza atentava contra sagrados direitos femininos. Ambar logrou, com a bandeira de luta que levantou, mobilizar, em poucas horas, pelas redes sociais, milhares de pessoas em torno de sua justa causa, criando condições para revogação de um ato burocrático que até aqui vem prejudicando mães acadêmicas em sua carreira profissional na área do ensino.  Boas falas.

· Desde que deixou a Casa Branca, após a tentativa golpista frustrada com a invasão do Capitólio, o ex-presidente estadunidense Donald Trump vem dando demonstrações contínuas de ser mesmo “lelé da cuca” conforme, aliás, é taxativamente reconhecido pela Associação Médica de Psiquiatria dos Estados Unidos. Ainda outro dia compareceu a uma convenção da poderosa associação dos fabricantes de armas de seu país para proclamar a necessidade de que cada americano tenha acesso a armas. Em sua delirante fala, deixou subentendido que o ideal é todo mundo proceder como nos filmes de faroeste deslocando-se de um lugar para outro com um cinturão de balas e um trinta e oito. O insensato pronunciamento foi feito poucos dias depois de uma tragédia envolvendo um jovem insano. Na comemoração de seu décimo oitavo aniversário adquiriu um rifle potente, dirigiu-se, a uma escola trucidando vinte e uma pessoas entre estudantes e professores antes de ser abatido pela polícia. O episódio como esperado, causou imensa consternação e revolta, levando influentes vozes da cúpula governamental estadunidense a bradarem por uma legislação que restrinja a comercialização aberta de armas, fato motivador de chacinas periódicas.

Buzina estridente: uma tese

 

Cesar Vanucci

 

“Todo buzinador inveterado carrega dentro de si

 uma alma gentil ávida por mudança de sexo.”

(Professor Adamastor Abaeté)

 

 

Na tevê, são apontados os ruídos mais desagradáveis. Um deles: o estrondo de britadeira rasgando asfalto. Choro de bebê na calada da noite entra na lista. Riscar com as unhas a superfície verde das lousas antigamente conhecidas por “quadros-negros” é outro som indicado como capaz de quebrar o sossego público, no grau supliciante mais extremado. 

Essa relação de barulhos incomodativos parece insuficiente. Não foram incluídas, pelo menos, três outras práticas atentatórias - quanto as que mais o sejam - aos bons costumes. Suscetíveis, por esse motivo, de atraírem sanções, na forma de degredo, a escolher entre o charme de Cabul e a hospitalidade de Bagdá. Primeira: as batidas belicosas do róqui bate-estaca. Segunda: o ruído arrepiante, de dar calafrio até em múmia egípcia, de dedo molhado deslizando no espelho. Terceira: a enlouquecedora buzinação que motoristas desvairados, a pretexto nenhum, aprontam no alucinante tráfego urbano. 

O buzinaço remete à figura do professor Adamastor, dono de insólita tese acerca dos riscos à saúde decorrentes do emprego descontrolado da buzina. Antes de falar da tese, contemos algo sobre o autor. Adamastor, natural de Catas Altas da Noruega, é sociólogo, com mestrado em Kuala Lumpur, onde residiu à época em que o pai exercia função diplomática. Acompanhando o genitor em sua peregrinação profissional, morou em dezenas de países. Aprendeu idiomas, entre eles o mandarim. Em momento de desencanto, ruptura de casamento (quinto de longa série) com uma atriz croata, alistou-se na Legião Estrangeira, indo servir no Saara tunisiano. Da convivência com culturas do oriente nasceu provavelmente sua inclinação para vivências ocultistas. Prestou serviços como escafandrista em Luxor. Foi pintor de quadros na Riviera. Atuou, ainda, como sertanista, no Roncador. Em Belô, onde residiu por alguns anos, ali por volta do sétimo casório, andou ministrando aulas de física quântica e esperanto. Cometeu livro de versos e se envolveu na preparação de um filme nunca rodado. Sumiu, ao depois, do mapa. Uns dizem que se recolheu a monastério na Capadócia. Outros garantem que anda por aqui mesmo, curtindo as bem-aventuranças ecológicas de uma próspera quinta recebida como herança, lá nas bandas de São José do Mantimento. 

Chegamos, finalmente, à tese do polimorfo ensaista. Juntando conceitos de gente respeitada em estudos de comportamento com pesquisas e intuições pessoais, o homem sustenta, com ardorosa convicção, a idéia de que a buzinação é conseqüência fatal de insopitável anseio, do desalmado buzinador, de que se possa operar, algum dia, uma radical mudança sexual em sua anatomia. Até mesmo, pegando ao pé da letra o significado médico do verbo, recorrendo aos préstimos profissionais daquele cirurgião do Paquistão que adquiriu sólida fama mundial em operações transexuais. 

O professor entrega copiosa argumentação. Casos de buzinadores inveterados, por ele próprio, exaustivamente, acompanhados. Um deles: rapaz de família abastada, morador do Carmo-Sion. Dono de frota de carros, marido de socialite. De repente, não mais que de repente, chutou tudo pra corner. Mandou-se para Paris, depois de apoquentar, anos a fio, os ouvidos alheios e a tranquilidade das ruas com diabólicas partituras de buzina. Buzinava sem parar. Saindo e chegando. Pra chamar a atenção de alguém. Nos cruzamentos e sinais, exigindo passagem. Comemorando sempre não se sabe bem o quê. Lá onde reside ocupa, prazerosamente, o cargo de presidente do Sindicato dos Travestis da praça Pigale. Mais um caso: o de uma jovem do Calafate. Cumpria, também exemplarmente, por onde circulava, a sina inapelável da buzinadora frenética. O berro emitido era do estribilho do hino do clube de sua paixão. Largou amigos e familiares. Foi bater com os costados em Manila. Convolou núpcias com uma halterofilista filipina, de origem cigana. Participa, na atualidade, de disputas de sumô, enfrentando galhardamente avantajados especialistas japoneses. 

A tese, damas e cavalheiros um tanto quanto chegados à buzinação imoderada, é da responsabilidade exclusiva do Adamastor. Sua, a frase prefacial destas maltraçadas. Esse desajeitado escriba não tem nada a ver com isso.

sábado, 25 de junho de 2022

 

Os normais

Cesar Vanucci

 

“Uma pessoa pode não ter maus hábitos e ter piores.”

(Mark Twain)

 

Chegou exultante da cavalgada domingueira. Entrou, esbaforido, pela sala, em direção do quarto, limitando-se a cumprimentar com leves acenos a cara-metade, filhas e genros, em lugar de abraçá-los efusivamente como de costume. 

Descalçou as botas, amontoou num canto o chapéu e o restante da indumentária de montaria, ligou o chuveiro e pôs-se a cantarolar, a plenos pulmões, uma ária da Carmem, de Bizet. A repentina performance como “tenor de banheiro”, juntada a outros sutis detalhes de conduta captados pelo arguto poder de observação dos parentes, familiarizados com seus hábitos, que estavam a aguardá-lo para o tradicional ajantarado semanal, levou a filha mais velha a comentar com os demais: “- Papai deve ter alguma coisa especial pra contar. Tá parecendo até que ele andou vendo o periquitinho verde...” O genro mais novo não entendeu bulhufas a menção ao periquitinho, o que obrigou a cunhada a explicar-lhe, pacientemente, que a expressão por ela reavivada era de uso comum em tempos de antigamente, servindo para retratar o enlevo das pessoas diante de determinadas situações. A observação gerou uma certa expectativa com relação ao que o chefe da casa teria presumivelmente a relatar. Na sobremesa, a revelação esperada pipocou. Tirando do bolso, todo afável, o semblante risonho, uma folha digitada frente e verso, ele passou a ler, pausadamente, uma lista de coisas que soaram, de algum modo, incompreensíveis e que chegaram mesmo a ser recebidas com certa hilaridade pelos demais. O escrito do cabeçalho era este: "Itens da consulta aos meus camaradas de sela, bem entendido sela começando com “s” e não com “c”. 

Na sequência, numerados de 1 a 8, os seguintes registros: “1. Besuntar com fartos respingos de creme dental, por ocasião da higiene bucal, o pijama, a camisa, a gravata, a cueca e até a sobrancelha; 2. Esquecer eventualmente de levantar a parte com orifício circular do tampo do vaso, nalgum momento de desafogo urinário; 3. Ir parar, algum dia, nalgum posto de atendimento médico de urgência pela desastrada circunstância de não haver adotado as cautelas de estilo, deixam de calcular na justa medida a trajetória cortante do zíper, ao fechar a braguilha da calça; 4. Abrir a geladeira, alta madrugada, colocar dentro um copo, enchê-lo de leite, sem conseguir evitar, todavia, por alguma razão inexplicável, que parte do líquido escoe pelas prateleiras do refrigerador; 5. Na direção do carro, só dar-se conta da necessidade de afivelar o cinto de segurança no preciso instante, no meio de enervante congestionamento de tráfego, da ameaçadora aproximação de um guarda de trânsito; 6. Esquecer-se, vez em sempre, de datas comemorativas relevantes, do ponto de vista da convivência familiar, como aniversários da esposa e filhos, dia das mães, por aí; 7. Cortar-se, habitualmente, pela manhã, com a lâmina de barbear; 8. Erguer-se da cama, no breu da noite, luzes todas apagadas, percorrendo pé ante pé, bem devagarzinho mesmo, mode não incomodar ninguém, percurso invisível até a sala de televisão e dar uma baita e inesperada topada de canela e dedão com a quina de um móvel fora do lugar, botando pra fora um uivo de dor, cantando a pedra noventa e acordando e colocando em sobressalto toda a patota familiar. 

Finda a leitura, olhar triunfante, fixado nos rostos entre zombeteiros e curiosos do pequeno público doméstico, balançando o papel no ar, desabafou: - Vocês implicam muito comigo, chamando-me de desajeitado, de mister Bean, de Inspetor Clouseau, pra dizer o mínimo, por conta de inofensivas trapalhadas que apronto, e que estão aqui da lista. Pois bem, resolvi submeter esses itens aos companheiros de cavalgada. Todos, sem uma unicazinha exceção, são réus confessos das mesmíssimas aprontações. Querem saber de uma verdade: quem age costumeiramente assim são pessoas absolutamente normais, tá bem?  Há aprontações bem piores. 

Nada mais disse nem lhe foi perguntado.

 

Regras de vida

                                                                       Cesar Vanucci

 

“Você é o que se fizer”

 (Gurdjieff)

 

Trata-se de um filósofo russo muito badalado nos meios esotéricos. Viveu no início do século passado e traçou regras de vida citadas com frequência em cartilhas, prédicas e livros dedicados a autoestima e comportamento. Seu nome: Gurdjieff. O Instituto Francês de Ansiedade e Estresse divulgou com destaque 20 regras básicas de vida boladas pelo pensador. Entendemos interessante e oportuna sua reprodução para conhecimento dos leitores ou, se o caso, aplicação em seu dia-a-dia.

1) Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repita essas pausas na vida diária e pense em você, analisando suas atitudes.

2) Aprenda a dizer não sem se sentir culpado ou achar que magoou. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.

3) Planeje seu dia, sim, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de você.

4) Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os seus quadros mentais, você se exaure.

5) Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem a sua atuação, a não ser você mesmo.

6) Abra mão de ser o responsável pelo prazer de todos. Não é você a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimônias.

7) Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.

8) Diferencie problemas reais de problemas imaginários e elimine-os porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.

9) Tente descobrir o prazer de fatos cotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo a se conseguir na vida.

10) Evite se envolver na ansiedade e tensão alheias. Espere um pouco e depois retome o diálogo, a ação.

11) Família não é você: está junto de você, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.

12) Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trava do movimento e da busca.

13) É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente ao menos num raio de cem quilômetros.

14) Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutil de uma saída discreta.

15) Não queira saber se falaram mal de você e nem se atormente com esse lixo mental; escute o que falaram de bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.

16) Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é ótimo... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.

17) A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.

18) Uma hora de intenso prazer substitui com folga três horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca uma oportunidade de divertir-se.

19) Não abandone suas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé.

20) Entenda de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: você é o que se fizer.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

 

Um andarilho da polícia

Cesar Vanucci

 

“Uma obra singular”.

(Jair Barbosa da Costa, Coronel PM)

 

“Um Andarilho da Polícia” é o título do livro que Klinger Sobreira de Almeida, coronel da Polícia Militar de Minas Gerais, acadêmico com significativa participação na vida cultural mineira, acaba de lançar, narrando lances de sua brilhante trajetória na carreira militar. Líder carismático, dinâmico dirigente da Academia de Letras “João Guimarães Rosa”, da Polícia Militar de Minas Gerais, desfruta de elevado conceito no meio literário pelos seus livros, artigos, palestras sobre temas variados da aventura humana.

Tomando conhecimento da esplêndida apreciação feita a respeito da obra por um outro militar envolvido também nas lidas culturais, o mestre Jair Barbosa da Costa, coronel PM, membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, resolvi ocupar, hoje, este espaço, com vantagens para o leitor, com as considerações por ele alinhadas, certo de que retratam magistralmente a história, fecunda em realizações, do empolgante relato do autor.

“Essa alentada e linda enciclopédia policial-militar, de 900 páginas, intitulada Um Andarilho da Polícia, de autoria do Coronel Klinger Sobreira de Almeida, coadjuvado, no crivo revisional, pela ilustrada Professora Sílvia de Araújo Mota, já recebeu muitos louros do Editor (nas orelhas) e do Prefaciador, Acadêmico Cel Edgar Eleutério Cardoso, na reflexão analítica, fotografia verbal da riqueza semântica dessa obra singular.

Fonte permanente de consulta profissional, lato sensu, porque o Autor, por si só, se fez um enciclopédico. Não se limitou às ciências militares, restritas aos feitos peculiares da profissão. Dedicou-se ao aprimoramento intelectual e filosófico, aplicando-os na PMMG, ao longo de sua bem-sucedida jornada de miliciano das Alterosas.

Psicólogo nato – e sua trajetória de chefe militar, Delegado de Polícia, Diretor de Empresa, membro de Entidades de Serviço, prova-o –, desenvolveu atividades de aprimoramento da tropa por onde passou, de setores da PM que criou e dirigiu (como a revolução administrativa e operacional que imprimiu no COPOM). Ampliou seus que fazeres na medida em que foram sendo demandados sua experiência e talento.

Esta breve palavra sobre a trajetória policial-militar do Coronel Klinger deveria ter sido prelibada com o que lhe foi dirigido pelo Comandante Geral aquando de sua entrega da Chefia do Estado Maior da PM, por motivo de transferência para a Reserva:

“Sua carreira é a expressão maior do desprendimento e da devoção aos altos interesses da Polícia Militar, e se constitui em símbolo do quanto se pode realizar quando se ama a profissão e se acredita naquilo que faz.” (Cel Leonel Archanjo).

Um Andarilho da Polícia não pode ser classificado como autobiografia, porquanto transcende o Autor e sua Família pelo interesse e utilidade pedagógica que encerra. O desfile de agradecimentos e elogios de companheiros de todas as unidades por onde passou, assim também de entidades civis, sociais, filantrópicas e filosóficas, confirmam no Autor desta obra o cidadão plenisciente de seus deveres e exacerbado no cumprimento deles em favor da sociedade.

Nem toda biografia (ou memorial) oferece tanto conteúdo profissional e lições de vida, na constante busca de aprimoramento, quanto esse mentefactum lítero-policiológico do Coronel Klinger Sobreira de Almeida, presente inestimável ao acervo bio-historiográfico da PMMG e da Segurança Pública de Minas.

Em pouco tempo, saberemos de seu usufruto nas instituições de ensino da Corporação, como fonte imprescindível na formação e aperfeiçoamento dos quadros, quer por sua natureza constitutiva de anais das operações de segurança, quer pelo que o Autor oferece de paradigma de homem público nessa área – vocação, competência, desprendimento e zelo.

Estou certo de que Um Andarilho da Polícia será bibliografia acadêmica estelar, de consulta-ensinamento, assim que analisada por especialista, discutida por uma comissão de docentes e aprovada pela Diretoria Geral de Ensino e Planejamento.”

 

 

Coligações e Federações

 

Cesar Vanucci

 

“As federações evitam que o voto vá para um

partido que tenha ideologias muito diferentes”.

(Ricardo Vita Porto, presidente da

Comissão de Direito Eleitoral da OAB)

 

A CNN ofereceu explicação bem didática a respeito de coligação e federação partidárias. Convido o leitor a se inteirar do tema.

As federações partidárias são uma nova forma dos partidos se juntarem para disputar as eleições e atuarem de forma unificada pelos quatro anos seguintes. Criadas em setembro de 2021, em reforma eleitoral aprovada no Congresso Nacional, acabaram referendadas pelo TSE e pelo STF, para as eleições de 2022. Três registros de federações já foram aprovados pelo TSE: PT-PCdoB – PV, Rede – PSOL e PSDB – Cidadania. A CNN ouviu Ricardo Vita Porto, presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de São Paulo, e Fernando Alencastro, secretário Judiciário do TSE, para explicar como as federações funcionam, e qual a diferença para as coligações partidárias. A federação permite que dois ou mais partidos atuem de forma unificada durante as eleições e na legislatura consequente, devendo permanecer com essa união por no mínimo quatro anos. A entidade deve agir, no parlamento, como uma única bancada, sem que os partidos tenham a obrigação de se fundir. As federações são válidas tanto para eleições majoritárias (presidente, governador, senador e prefeito) quanto para a proporcional (dep. Federal, dep. Estadual e Distrital e Vereador). Para serem registradas pela justiça eleitoral, as legendas devem antes constituir uma associação que deve ser registrada em cartório de registro civil de pessoas jurídicas, com aprovação absoluta de seus órgãos regulatórios. A participação da federação nas eleições só será possível até 31 de maio, prazo final para o registro, em seguida, a união das siglas será celebrada por prazo indeterminado, com cada uma conservando seu nome, número, filiados e o acesso ao fundo partidário ou eleitoral. A coligação é uma reunião temporária de partidos políticos para disputar uma eleição. Tem natureza eleitoral e se estinguem após as eleições. Durante o pleito, elas funcionam como se fossem um só partido. Em 2017, as coligações para eleições proporcionais, foram extintas, mas são permitidas para cargos majoritários. A união proporciona mais recursos para as campanhas eleitorais, como mais tempo de televisão e a possibilidade de receber verbas de todos os partidos coligados.

Enquanto as coligações são válidas apenas no período eleitoral, na federação os partidos são obrigados a se unir durante quatro anos e atuar como se fossem, bancada única. Para Vita Porto, isso evita que nas eleições proporcionais o voto do eleitor vá para um partido que tenha ideologia muito diferente. “Partidos se coligavam porque não tinham uma chapa forte e se aproveitavam dos votos dirigidos aos candidatos de outros partidos. Então, para amenizar este movimento, foi criada a federação”, explica Vita Porto. Existem também semelhanças entre as duas constituições. A distribuição dos votos entre os candidatos das federações ocorre de maneira semelhante ao das coligações, explica Alencastro, do TSE. “As federações fazem com que as votações dos partidos sejam somadas. Se os partidos A, B e C formam uma federação, suas votações se somam para atingir X cadeiras no legislativo, distribuídas entre os candidatos mais votados. Se os três mais votados, forem do mesmo partido, eles ficam com as vagas. Elas não precisam ser distribuídas entre os que formam a federação”, diz ele.

Se um partido deixar a federação partidária, ele não poderá ingressar em outra, e nem poderá fazer coligação nas duas eleições seguintes. A sigla também ficará proibida de utilizar o fundo partidário até a data prevista para o fim da federação. Um parlamentar eleito só pode sair do partido e da federação por justa causa, previstas na lei eleitoral e estará sujeito a penalidades. Um político pode ser expulso da sua federação, se ele não seguir as diretrizes determinadas no estatuto de seu partido ou orientação partidária, como votar de acordo com a bancada em algum projeto. Apesar da possibilidade de ser expulso da federação e do partido, isso não implica perda de mandato.

sábado, 11 de junho de 2022

 

Fundamentalismo hitlerista

 

Cesar Vanucci

 

“A nossa revolução é uma nova etapa, ou antes, a etapa

definitiva da evolução que conduz à supressão da história.”

(Adolf Hitler)

 

Volto a ocupar-me hoje, neste minifúndio (obrigado, Roberto Drummond, estupendo criador literário) de ideias despretensiosas, de um personagem tenebroso. O indivíduo responsável pelos mais hediondos crimes de lesa humanidade jamais praticados desde que o mundo se reconhece mundo. Uma faceta menos explorada da personalidade de Adolf Hitler revela-nos, instigantemente, o comprometimento visceral do líder nazista, desde os começos de sua trajetória política, com tresloucados conceitos e ações de cunho místico. É dali que emerge sua convicção pessoal insana compartilhada com devoção por fanáticos seguidores, do papel messiânico que a história humana lhe teria reservado. O “Fuhrer” se apresenta e é aceito pela sociedade alemã como o homem capaz de redimir a sua gente. Nas furibundas manifestações em que deixa entrevista sua paranoica exaltação mística, ele se coloca na condução de um movimento diferente, sem similar em época alguma, para que possa executar sua missão redentora. 

Num estudo em que assestam a claridade dos holofotes sobre as raízes da filosofia hitleriana, apropriadamente classificada de luciferina, os pensadores Jacques Bergier e Louis Pauwels mostram que a ambição e a “sagrada missão” de que o mesmo se crê investido ultrapassam infinitamente os domínios da política e do patriotismo. Dão a palavra a Hitler para uma melhor explicação dessa assertiva: “A ideia de nação – diz lá o “Fuhrer” – tive de me servir dela por razões de oportunidade, mas já sabia que ela não podia ter mais do que um valor provisório. Dia virá em que pouca coisa restará, mesmo aqui na Alemanha, daquilo que chamamos o nacionalismo. O que haverá no mundo será uma confraria universal dos mestres e dos senhores.” 

Fica evidenciado, como esclarecem lucidamente os pensadores mencionados, que a política representou para o autor de “Minha luta” apenas uma manifestação externa. Reduziu-se a aplicação prática e momentânea de uma cartilha de conceitos deformados, de tétrica inspiração esotérica, concernentes às leis da vida. A humanidade seria aquinhoada, dentro dessa linha de ideias mórbidas, um destino que os homens comuns não seriam nem de leve capazes de conceber, nem mesmo suportar. Só mesmo os homens superiores, os da “raça ariana pura”. Seres que ele, Hitler, procurava fervorosamente preservar da “contaminação com seres impuros”, de maneira a garantir supremacia dos “valores prodigiosos” contidos em sua perversa doutrina. 

Adolf Hitler – as evidências estridentes de seus posicionamentos doutrinários estão aí pra confirmar – foi um fundamentalista extremado. O mais radical de todos, na interpretação das leis espirituais que regem a conduta humana e dos fatos sociais que compõem nosso precioso e inalienável patrimônio humanístico. Tinha-se na conta de vidente portentoso. Valia-se de conceitos extraídos da pseudociência para expor alucinadas teorias. Contava com o fanatismo apocalíptico, de profetas como o austríaco Hans Horbiger, seu guru de cabeceira, e de companheiros tão insanos quanto o chefe, integrantes de sociedades herméticas engajadas na construção de um admirável mundo novo, composto de semideuses... 

Essa condição de fundamentalista desvairado, perceptível em seus modos de pensar, falar e agir, não pode deixar de ser cogitada nesta hora, sobretudo, quando se tem sob foco preocupante, nos círculos sinceramente devotados às práticas humanísticas e espirituais autênticas, onde a humanidade bebe inspirações para uma vida digna, a movimentação deletéria, em tantos lugares, de grupos radicais, fanáticos, extremados que fazem do fundamentalismo religioso ou político uma bandeira permanente de luta, carregada de ameaças e riscos explosivos.

 

O Hitler místico

 

Cesar Vanucci

 

“Quanto ao frio, o assunto é comigo. Ataquem!”

(Adolf Hitler, aos seus generais)

 

Adolf Hitler, vimos no comentário anterior, acreditava-se um ser iluminado. Um messias dos novos tempos. Um vidente extraordinário, incumbido de redimir a humanidade e construir uma nova civilização. Confessou a Rauschning, intelectual alemão a quem expunha confidências, disposições as mais tresloucadas: “A nossa revolução é uma nova etapa, ou antes, a etapa definitiva da evolução que conduz à supressão da história”. Vejam até onde chegavam essas delirantes concepções! Sua proposta era simplesmente suprimir a história... Apagar todos os vestígios do patrimônio espiritual, cultural e humanístico edificado ao longo dos tempos. 

São de autoria também do supremo dirigente nazista, mencionadas pelo mesmo Raushning, as palavras que se seguem: “Não sabem nada de mim. Os meus camaradas do partido não fazem a menor ideia dos sonhos que carrego comigo e do edifício grandioso do qual pelo menos os alicerces estarão edificando quando eu morrer. (...) Há uma curva decisiva do mundo. Eis-nos na charneira dos tempos. (...) Haverá uma alteração do planeta que vós, os não iniciados, sois incapazes de compreender. (...) O que se passa não é mais do que o aparecimento de uma nova religião.” 

Quando se referia à hipotética transformação do planeta, ele se inspirava em previsões apocalípticas transmitidas por “forças ocultas”, em seus estados de transe. Strasser, antigo colaborador do chefe nazista, captou um flagrante desse desvario doentio: “Aquele que escuta Hitler vê surgir, de súbito, o Fuhrer da glória humana. Aparece uma luz atrás de uma janela escura. Um senhor com um cômico bigode em vassoura transforma-se em arcanjo. Depois o arcanjo levanta voo: apenas resta Hitler, que se volta a sentar, alagado em suor, com os olhos vítreos.” Anotaram a observação? Um arcanjo! Tudo é paranoia à volta do “messias” nazista. 

Foi numa dessas circunstâncias alucinatórias, respaldadas por teorias horbigerianas de cunho pseudocientífico, embebidas de fanatice mística, que Adolf Hitler, segundo Jacques Bergier e Louis Paulwels, embarcou na frustrada aventura bélica que assinalou a reviravolta nos rumos da guerra. Apoderado da convicção de que era capaz de prever com muita antecedência as variações da temperatura no planeta, o dito cujo encasquetou a ideia maluca de que o inverno iria ser relativamente suave, quando suas temíveis legiões, que vinham de vitórias fulminantes nas frentes europeias, adentrassem o território russo. Bergier e Paulwels com a palavra: “Enquanto o Fuhrer prestava, habitualmente, particular atenção no equipamento das suas tropas, limitou-se apenas a entregar aos soldados da campanha da Rússia suplemento de vestuário derrisório: uma echarpe e um par de luvas. E, em dezembro de 1941, o termômetro desceu bruscamente a quarenta graus negativos. As previsões eram falsas. As profecias não se concretizaram. Os elementos naturais insurgiam-se (...), cessavam bruscamente de trabalhar para o “homem justo”. (...) As armas automáticas pararam. (...) Na retaguarda, as locomotivas gelavam. Sob seu capote e as botas do uniforme, os homens morriam. A mais ligeira ferida os condenava. Milhares de soldados, ao acocorarem-se sobre o gelo par satisfazer as necessidades fisiológicas, caiam com o ânus congelado. Hitler recusou-se a acreditar nesse desacordo entre a mística e o real. O general Guderian, arriscando-se a ser destituído e mesmo condenado a morte, foi de avião à Alemanha para por o Furher a corrente da situação e pedir-lhe que ordenasse a retirada. Quanto ao frio – disse Hitler – o assunto é comigo. Ataquem!” 

O resto está nos livros de história da guerra. Os exércitos blindados que conquistaram numerosos países em questão de dias, as legiões dos “super-homens invencíveis”, golpeados pela inclemência glacial, desapareceram no deserto frio, na tentativa vã de provar que a mística, o fanatismo pudessem ser mais reais que o curso da vida.

 

 

 

Racismo sem disfarces

 

Cesar Vanucci

 

“...estão afastados de nós como as

espécies animais da verdadeira espécie humana.”

(Adolf Hitler)

 

Causa espécie a insistência com que, em vários lugares, notadamente na Alemanha, Áustria e Itália, algumas pessoas procuram passar, na atualidade, a ideia de que Adolf Hitler surgiu para o mundo mantendo oculta, sob o disfarce de cordeiro, sua arrepiante condição de lobo voraz. Nada menos real. O Fuhrer chegou ao palco mundial – que nem uma bateria de escola de samba adentrando avenida com os tambores tonitruantes – a fala e pose “messiânicas”, anunciando a que vinha. Quem, dentre os líderes políticos, militares, religiosos da época, conservou os olhos acesos para enxergar e os ouvidos atentos para escutar, cansou de ver e ouvir, com sonora clareza, o recado assustador. 

Sem essa agora, portanto, de se querer confundir omissão e conivência com desconhecimento de causa. O chefão nazista escancarou, desde o comecinho de seu tenebroso itinerário, as garras afiadas do movimento luciferino de que se fez arauto. Apregoou, com palavras e atos, seu pérfido propósito de desmantelar estruturas de vida nucleadas nos valores humanísticos. Impulsionado por misticismo mórbido, com a cumplicidade das multidões de fanáticos aglutinadas em torno de sua desvairada doutrina, prometeu uma “nova era” refulgente para os “puros da raça ariana”. Intitulava-se o “redentor” prometido numa “curva decisiva do mundo”. Uma “hora mágica”, em que a “biologia mística” iria confrontar a “falsa rota do espírito”. A humanidade, segundo tão tresloucada linha de pensamento, abandonaria a crença nas coisas divinas, “ascendendo” a novos patamares em sua “evolução”. 

Nas Olimpíadas de Berlim, o Fuhrer deixou a tribuna furibundo, à hora em que um soberbo atleta negro, dos Estados Unidos, subiu ao pódio, depois de derrotar os oponentes “arianos”. Hitler não jogava com meias palavras para traduzir seu odioso racismo. Propagava sandices como esta: “judeus, negros e ciganos estão afastados de nós como as espécies animais da verdadeira espécie humana”. As perseguições ignominiosas aos judeus, que desembocaram no holocausto, irromperam antes mesmo de haver se apoderado do poder. Fica impossível admitir que a enlouquecedora conspiração contra os direitos humanos pudesse ser posta em marcha sem apoios ponderáveis da sociedade alemã, compreendidos aí militares, intelectuais, cientistas, políticos etc. No plano internacional, a grande maioria dos que viram e não gostaram, preferiu calar-se. O Fuhrer agregou simpatias declaradas ou prudentemente silenciadas em várias estruturas de poder. A Itália e o Japão renderam-se ao seu “fascínio”. Na Espanha, Franco assumiu o comando com sua ostensiva ajuda militar. Salazar, em Portugal, não ocultava admiração pelo ideário hitleriano. No Brasil, os integralistas bolaram um modelo de atuação de nítida concepção nazista. Nas vestes, no símbolo e na ridícula saudação. No sul do país, a suástica era desfraldada em algumas colônias germânicas. Nossa polícia política andou, em certa época, cooperando com a famigerada Gestapo. A Argentina de Perón, premida pela pressão internacional, só aquiesceu em considerar a Alemanha inimiga da humanidade no instante da capitulação do “Reich”. Os bolchevistas russos, durante o pacto de não beligerância, dividiram com a Alemanha o território polonês. Comunistas franceses chegaram a recepcionar as tropas alemãs em sua chegada triunfante a Paris. Caíram, mais tarde, na clandestinidade e tiveram papel preponderante na resistência. Na França ainda, houve o colaboracionismo da “República de Vichy”, liderada pelo marechal Petain, herói da primeira guerra mundial. 

Esses registros todos fazem-se oportunos pela circunstância de andarem soltos hoje por aí, em vários lugares, em atividades políticas e religiosas, à testa de correntes fundamentalistas rancorosas e radicais, repelidas pela consciência democrática universal, muitos apavorantes arremedos do “fuhrer”. 

sexta-feira, 3 de junho de 2022

 

Ser mãe, ser mestra   

Cesar Vanucci

 

 “Fui mãe universitária e entendo.”

(Kezia_Torres)

 

 “Perdi meu título de mestre, porque virei mãe.” Ambar Soldevila Córdoba, Bióloga, residente em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, postou nas redes sociais uma mensagem que viralizou em curto espaço de tempo. Várias dezenas de manifestações de solidariedade se fizeram ouvir em todas as partes do país, compreendendo divulgação na imprensa e registros nas tribunas parlamentares, além de pronunciamentos de órgãos de direitos humanos. Cuidemos de conhecer agora o que diz:  Meu nome é Ambar (@ambarsol), tenho 29 anos, sou bióloga e mãe do Caetano, de 8 meses. Gostaria de contar minha história com o intuito de pedir apoio e engajamento para uma discussão importante sobre os desafios de uma mulher-mãe-acadêmica. Engravidei do Caetano no meu último ano de mestrado na UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto), e trabalhei muito, muito mesmo pra esse mestrado. Um trabalho árduo, com muitas noites sem dormir, antes e durante a gravidez. Apresentei minha dissertação com 36 semanas de gestação - porque foi negado meu pedido de licença maternidade, já que meu filho nasceria fora do período de regência da bolsa da CAPES, fui aprovada pela banca, e após exatamente 19 dias da apresentação, meu filho nasceu. Eu estava passando por um dos momentos mais desafiadores da minha vida, não tive rede de apoio, eu e meu companheiro estávamos com dificuldades financeiras, com uma dívida enorme (...)”.  E, mais adiante: “Eu só conseguia pensar em descansar, cuidar do meu filho e atender minhas necessidades básicas.
Quando estava grávida entrei em contato com o programa perguntando sobre a possibilidade de estender o prazo da dissertação (...). A resposta foi muito clara: eu não tinha direito a licença maternidade, e deveria trabalhar com o tempo que tinha. No manual do aluno (...) está em caixa alta “PRAZO IMPRORROGÁVEL” para a entrega da versão definitiva da dissertação. Como regras do PPG, se você não entrega sua versão definitiva e a submissão do artigo, você não tem direito ao título de mestre.
É claro (...) que, não consegui entregar a dissertação a tempo. Depois que o prazo havia expirado, recebi um e-mail dizendo que iria perder o título (...)”

“Gostaria de destacar a falha nas resoluções sobre a maternidade na pós-graduação. A recente resolução (CEPE 8039) não protege as mulheres que têm filhos depois da defesa da dissertação, e necessitamos mudar essa legislação. Foi apenas em 2010 que a CAPES regulamentou o direito à licença maternidade às pós-graduandas... Sendo que o período de licença maternidade não computa no prazo máximo para a defesa e deveria ser no prazo máximo para obtenção do grau acadêmico. (...) Enviei justificativa, alegando todas as dificuldades da maternidade e financeiras, já que não pude terceirizar os cuidados com meu filho e com a casa. Pedi, portanto, novamente, a extensão do prazo de entrega. O colegiado do PPG primeiramente negou meu pedido, mas como não sabia qual resolução CEPE regia o meu caso, eles consultaram o jurídico para saber se deveria enviar as justificativas para o colegiado ou para instância superior. Posteriormente o jurídico respondeu que regia era o CEPE novo 8039, então quem julgaria minha justificativa deveria ser o colegiado. (...) Corri atrás e entreguei a versão definitiva da dissertação e submeti o artigo, antes da reunião do colegiado. Mesmo fora do prazo, entreguei o que faltava. Mas mesmo assim me foi negado o título. O motivo MATERNIDADE não é suficiente. Alegam que fui negligente, mas negligente foi a UFOP por não ter me dado amparo no momento em que eu mais precisei (...). Meu direito ao resguardo pós-parto foi completamente ignorado. Minha maternidade foi silenciada. Não existe igualdade de gênero na pós-graduação. Você acabou de ter um filho? Se vire e trabalhe com o tempo que você tem! Mas não vou me calar frente a essa injustiça, pois quero meu título de volta! Espero que meu caso sirva para que a universidade repense as resoluções e garanta direitos mínimos para as mulheres-mães-acadêmicas. (...)”

 

     Ambar levanta uma bandeira de luta em prol dos direitos da mulher merece todo apoio.

 

A política, segundo o pensador Arduini 

 Cesar Vanucci

 

“(...) Política é nobilitante e expressa sentido de cidadania.”

(Padre Juvenal Arduini, sociólogo e professor)

 

Criatura admirável, provida de incomum sabedoria, soube colocar os talentos do espírito a serviço do mundo, das causas sociais, dos excluídos na partilha dos bens terrenos prodigalizados pela Natureza ou produzidos pelo labor humano.   Chamava-se Juvenal Arduini. Padre, escritor, sociólogo, professor, tribuno eletrizante. Desfrutei do privilégio de extensa convivência, muito fecunda para mim em benefícios, com esse admirável mestre. Em certa ocasião, ao homenageá-lo, disse-lhe que o considerava o padre Lebret brasileiro. Atualizo o conceito. Nutro hoje convicção plena - repassando lances do seu trabalho apostólico e revendo escritos brotados de sua pena refulgente e ensinamentos transmitidos em sua fala civicamente desassombrada - que faz todo o sentido proclamar também que o citado padre Lebret, festejado pensador, foi o Juvenal Arduini francês. 

Ao relembrar personagem de tão maiúscula presença na cena intelectual, aquinhoado de dons humanísticos e espirituais invejáveis, amigo muito querido, meu compadre, tomo a liberdade de substituir, com notória vantagem para o leitor, Nestes períodos de articulações intensas visando a realização de eleições presidenciais de grande significado para todos nós, meu comentário por palavras extraídas da vasta e valiosa obra deixada pelo mestre. São pensamentos vigorosos, oportunos e atuais, como se verá adiante. 

Vamos lá. Assim falou Juvenal: “Em tempo de eleições (...) é oportuno refletir sobre a política. Política deriva de “poleteia”, no grego. “Polis” significa cidade, região habitada. E “polites” é cidadão. Verifica-se que, originalmente, política é nobilitante e expressa sentido de cidadania. 

Política é fenômeno eminentemente social e promove a sociedade como todo. Política tem significado de associação, convivência e aliança. A política existe para reunir pessoas, integrar grupos e povos para responder aos desafios sociais. A verdadeira política suscita a socialização substancial e elimina o dilaceramento feroz entre pessoas, organizações e partidos. 

A política está organicamente ligada ao povo. É destinada a servir o povo e não a subordiná-lo a interesses mesquinhos. A Constituição brasileira foi ousada e lúcida ao tratar da relação entre poder e povo. No artigo primeiro, parágrafo 1, a Constituição declara: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Aí está proclamação constitucional lapidar que dignifica Nação moderna. O poder emerge do povo. E também é exercido pelo povo mediante os eleitores ou diretamente. O poder está no povo, permanece no povo. O povo pode outorgar funções aos políticos, mas não lhes transfere o poder. Estritamente, o poder é do povo e não dos governantes. Há políticos que agem como se fossem donos do poder, que pertence ao povo. Isso é usurpação do poder popular. 

Há muitos tipos de política. A política humanizada, social, ética e comprometida com a população. A política prostituída, corrupta e perversa. A política autoritária, tirânica e a política submissa, servil. Há política séria que responde às necessidades da população e política corrompida que se apodera dos recursos que pertencem aos pobres.” (...) “A realidade política, em si, é valor humano, social, cultural e histórico. A política sadia é necessária à sociedade. Não se trata de abolir a política, mas de limpá-la. Há que resgatar o potencial político dos povos. É urgente instaurar (...) a política da justiça e não da miséria. (...) A política da ética (...) A política da vida e não da morte. A política deve estar comprometida com o clamor da humanidade sofrida e com a responsabilidade histórica.”

A SAGA LANDELL MOURA

  Meio ambiente, Ambar, Trump   Cesar Vanucci “ A Terra não precisa de nós –   somos nós que precisamos dela”. (Dal Marcondes, jor...