quarta-feira, 5 de agosto de 2020


Os supremacistas e os protestos antirracistas

Cesar Vanucci

“O clamor das ruas exige vacina eficaz contra o vírus do racismo”.
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Aviso ao leitor: o texto da sequência é pura ficção. Aplica-se aqui o dito dos letreiros das fitas de cinema. Qualquer semelhança dos fatos narrados com a realidade é mera coincidência.

Caso é que, transtornado com a avalancha dos protestos nas ruas, o Venerável Grão-Mestre da Ku Klux Klan resolveu convocar, para encontro urgente, o Conselho Supremo da “Ordem dos Patriotas Arianos da Pureza Racial”.

Aos dignitários da KKK, dos “Supremacistas Brancos” e da “Milícia Neonazista Mein Kampf” esclareceu que a reunião seria dedicada a análise das “ilegais passeatas contrárias à ordem constituída e aos saudáveis valores eugênicos”. Recomendou que todos comparecessem devidamente paramentados. Ou seja, em roupagens de gala. A turma da Klan com as imponentes mantas alvas e capuzes em forma de cone; os demais com vistosas “camisas pardas” adornadas com cruz gamada. Pontualíssimo, o disciplinado time de convidados cumpriu garbosamente o ritual. Todos, na chegada, perfilaram diante da estátua de bronze, de corpo inteiro, do “inolvidável ídolo”, erguendo os braços, batendo calcanhares e bradando, com vozes encharcadas de emoção, o “Heil Hitler!”.

Após evocações aos “excelsos patronos” Nero e Torquemada, o mestre de cerimônia apresentou seu relatório. Informou que tudo começou em Minneapolis, EUA, por conta de “incidente de rua banal”. Ofereceu, “aos companheiros versão fidedigna da história”, registrando que “a realidade vem sendo deturpada pela imprensa corrupta e subversiva”. Contou: “Indivíduo negro, de vida pregressa censurável, afrontou, com intuitos intimidatórios, uma briosa guarnição policial. Defendendo-se da ameaça à sua integridade física, os guardiães da lei, frustrados na tentativa de dissuadir o agressor de seu nefando propósito, viram-se obrigados a subjugá-lo. Como consequência de seu impulso belicoso, o desordeiro foi acometido de mal súbito, vindo a falecer antes que pudesse ser-lhe prestado magnânimo socorro pelos policiais. Dessa ocorrenciazinha valeram-se hordas de arruaceiros, drogados, abortistas, degenerados de todos os graus, das diferentes sub-raças, inimigos da moral e bons costumes, para algazarras de rua, em diversos lugares, até fora do país, vilipendiando caras tradições e salutares conceitos eugênicos de vida”.

Neste ponto, alguém da plateia assinalou que “a maioria dos manifestantes era de gente branca, como nós...” O Venerável interferiu, afirmando que a observação era fruto de “interpretação equivocada”. Ao que outro participante da reunião disse haver identificado, “na multidão, membros de famílias entrosadas com o nosso movimento”.

 – “Se isso é real, eles não passam de bastardos, merecedores de severo corretivo”, exclamou, possesso, o Grão-Mestre, determinando prosseguisse a explanação.

Retomando, o expositor destacou que “a sinistra conspiração, alvejando valores sagrados, extrapolou nossas fronteiras”. Explicou: “Delinquentes de outras nacionalidades aderiram a esse processo de negação desagregador do sistema racial puro”. Mencionou “revoltante lance na Inglaterra, onde a memória de um benfeitor comunitário foi ultrajada.” Prosseguiu: “Baderneiros arrancaram do pedestal, puseram-na a rolar pelas ruas, atirando-a no rio, a estátua de um cidadão honrado, negociador de escravos bem-sucedido, festejado por seu espírito solidário e arrojo empreendedor. Meritoriamente, ele libertou de suas degradantes origens, na África distante, milhares de homens, mulheres e crianças da sub-raça negra. Trouxe-os, em porões de navios, para redentor contato com a civilização. E o que está se vendo, agora, nesses atos repulsivos, é a tentativa de obscurecer um itinerário de vida edificante. A ralé está indo longe demais!” – enfatizou.

Aplausos frenéticos coroaram as palavras. O Grão-Mestre, declarando-se estarrecido, recomendou aos prosélitos que se prevenissem com relação às investidas “dos inimigos da sacrossanta supremacia racial”. Acrescentou que, “embora as amarguras sofridas, é alentador saber que, em outras paragens do mundo, têm sido detectados sinais promissores de que nem tudo está perdido”. Complementou: “No Brasil, por exemplo, uma facção diminuta, mas resoluta, vem abraçando com singular vibração nossa magnífica concepção de vida. Passo a contar-lhes o que anda rolando naqueles pagos...”

Os “camisas pardas” tupiniquins entrarão em cena no próximo capítulo desta história de ficção.


Os “camisas pardas” tupiniquins

Cesar Vanucci

“São rinocerontes. Não pensam. Racistas e adeptos do totalitarismo”. (Eugène Ionesco, dramaturgo, sobre o nazismo)

Tem continuidade a narrativa do encontro de próceres da Ku Klux Klan e coligados para avaliação das passeatas contra o racismo.  O relato – já explicado – é ficcional. Qualquer semelhança com fatos reais não passa de mera coincidência.

O Grão-Mestre da KKK declarou-se amargurado com “as execráveis e subversivas manifestações”. Espumando ódio, deplorou “o malefício que as algazarras acarretam, afrontando o sentimento da sociedade, favorável à prevalência, no relacionamento social, dos princípios da pureza eugênica”. Convidou o coordenador do Birô latino americano da Klan a transmitir à plateia informações acerca das “admiráveis reações aos descalabros antirracistas e impertinências democráticas, ocorridas no Brasil, levadas avante por grupo decidido de adeptos das propostas redentoras de desmantelamento das falidas estruturas republicanas”. Na dissertação, entrecortada de aplausos frenéticos, o coordenador do Birô reportou-se “aos épicos eventos conduzidos pelos parceiros brasileiros”. Esclareceu que eles se dizem em número de 300. “Embora não somem, se tanto, um terço disso, pelo desassombro na conduta, vale por milhares de combatentes. Indicado para cargo de projeção, um deles recitou, na televisão, sem vacilos, trechos inteiros das falas do inolvidável pensador Joseph Goebbels.” “Só de recordar a performance – sublinhou – lambuzo-me de emoção, tal a similaridade da alocução com aquelas arrebatantes prédicas de nossos comícios de Munique e Berlim.”

O Grão-Mestre atalhou o expositor “para proclamar jubilosamente” que “ao brilhante interprete de Goebbels será conferido o ‘Grande Colar da Suástica Escarlate’, instituído para perenizar feitos grandeloquentes”.

O coordenador prosseguiu: “Dezenas de camisas pardas, traquejados no emprego das redes sociais para difundir magistrais ‘fakes’, inclusive com o concurso de robôs; sabendo esculhambar impecavelmente, de modo anônimo, os representantes do desmoralizado sistema democrático; partícipes ativos  de minicomícios de achincalhe ao carcomido regime das liberdades públicas, promoveram, em Brasília, uma soberba manifestação de culto adolfista. Sob o manto estrelado da noite, ao som de tambores, portando máscaras venezianas, carregando archotes, entoando mantras supremacistas, postularam, com altivez, a implantação de ditadura e o controle policial dos órgãos de comunicação. A coreografia caprichada, lembrando o célebre ‘passo de ganso’, recompôs as cenas memoráveis das marchas dos gloriosos tempos do Terceiro Reich”.

O Grão-Mestre voltou a intervir: - “Conferiremos o Grande Colar também, a esses audazes correligionários de nossa santa cruzada”. Indagou: - “Algum fato relevante a mais?” – “Sim, Venerável, tenho mais um episódio extraordinário. O dirigente de um órgão cultural, jornalista, berrou alto e bom som que a escravidão é uma baita mentira propagada por esquerdopatas. O distinto pontuou que os negros foram sempre bem tratados e que a liderança negra comprometeu-se sordidamente com procedimentos malsãos. Condenou ainda a absurda comemoração do dia da ‘Consciência Negra’, propondo que as pessoas favoráveis à tão descabida celebração sejam deportadas para o Congo”.

O Grão-Mestre, exultante, puxando aplausos, garantiu que “também esse notável pensador será contemplado com a máxima condecoração”. Acrescentou o propósito de “convidá-lo a fazer parte de nossa assessoria de comunicação, para ajudar-nos a mostrar ao universo a farsa histórica do holocausto, propaganda subversiva contraposta aos sublimes valores raciais”. Nesse ponto o expositor achou por bem esclarecer, que “no caso em foco, existe um porém, todavia, contudo...”
- “Do que está mesmo falando? Desembuche logo!” - tornou o Grão-Mestre.
- “O cara das declarações não é bem um dos nossos”.
- “Como assim?”
- “É... negro! Convertido!”
- “Negro?”
- “Sim, como a noite”.
- “Com essa eu não contava. Isso muda tudo. Mantenham-se as demais condecorações. Mas, quanto a esse lance específico o ‘manual da supremacia ariana’ veda a concessão do Colar. Cuidemos de arranjar outro tipo de homenagem. Acode-me uma idéia: remeter ao dito cujo, na data natalícia, um cartão de congratulações.  Eu assino. Melhor pensando, a assinatura será delegada  ao encarregado do expediente da secretaria”.

Esta historieta ficcional fica por aqui.


O vírus do racismo

Cesar Vanucci

“O racismo no Brasil é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele.”
(Paulo Paim, Senador)

A raça humana é uma só. Cor de pele é mero detalhe. Se negra, branca, amarela, parda, rosada - em tons mais ou menos acentuados, consoante a diversidade biológica natural – tudo isso, repita-se, não passa de detalhe. Assim como a cor dos olhos, ou dos cabelos. Ou a estatura e o peso das pessoas.
A raça humana é uma só. Em nada influem, para que essa verdade verdadeira deixe de ser reconhecida, as circunstâncias de os indivíduos nascerem, ou viverem, nessa ou naquela região específica deste planeta azul. Bem como as constatações de que eles pratiquem cultos, cultivem hábitos e costumes, falem línguas e enverguem trajes diferenciados, uns dos outros. A raça humana é única. A recusa na aceitação plena desse preceito de vida universal, na efervescente convivência social, gera uma aberração cruel e repulsiva chamada racismo. Um vírus que, contaminando mundão de viventes por aí, produz enfermidades e mortes, escancara instintos bestiais, alveja inclementemente a dignidade da vida. Faz, também, com que humanistas da maior envergadura intelectual suscitem, por vezes, dúvidas quanto à assertiva, sagrada para contingentes apreciáveis do mundo civilizado, de que o homem é ser de luz moldado à imagem e semelhança de Deus.
O racismo, com todo seu cortejo de horrores e injustiças, é antigo e universal. Contribui significativamente para que se perpetue o dramático problema das desigualdades. De visibilidade permanente nos atos cotidianos, a questão é exposta com abundância de evidências em tudo quanto é pesquisa de comportamento, seja aqui, seja alhures. Fixemo-nos na situação brasileira.
Cá estão alguns indicadores sociais apontados em levantamento recente do IBGE. Retratam com fidedignidade as cores da desigualdade, as notórias fragilidades econômicas e sociais enfrentadas pela população negra.
1.Desemprego e subocupação – pardos ou negros, 66 por cento; brancos, 33 por cento. 2.Rendimento médio mensal da mão de obra ocupada – R$2.796,00, brancos; R$1.608,00, negros ou pardos. 3.Trabalho informal – 47%, pardos ou negros; 35%, brancos. 4.Cargos gerenciais – 29,9%, pardos ou negros; 68,6%, brancos. 5.Hora paga no mercado de trabalho para assalariados com diploma – R$33,00, brancos; R$23,00, negros ou pardos. 6.Participação na vida política – negros e pardos representam 24% dos quadros parlamentares formados nas eleições de 2018. É oportuno lembrar que a população brasileira é composta, em mais de 55%, por negros e pardos.
De um trabalho jornalístico divulgado na “Folha de São Paulo”, edição de 19 de julho, assinado por Érica Fraga, recolhemos informações que fluem no mesmo sentido das revelações do IBGE. Mulheres brancas desfrutam de vantagens salariais no confronto dos holerites com as trabalhadoras negras ou pardas. A comparação, envolvendo profissionais da mesma faixa etária, mesmo grau de escolaridade e mesmo lugar de residência, acusa diferença média mensal de R$475,00. Mais um lance perturbador. A desigualdade, no tocante a rendimentos femininos por conta da cor da pele, ao invés de cair, só vem fazendo crescer. Em 2012, a diferença apurada era de 11,5% (ao contrário dos 14% de 2019), equivalendo em valor a R$364,00, descontada a inflação do período. No caso masculino, a diferença salarial é, na atualidade, de 13%, observadas as mesmas circunstancias já pontuadas (faixa etária, escolaridade e mesma região domiciliar). Esse percentual representa R$624,00 a menos na folha de pagamento de negros ou pardos.
“O racismo no Brasil é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele”, denuncia Paulo Paim, Senador gaúcho, uma rara presença negra na Casa, acrescentando que o Congresso espelha a tremenda desigualdade racial, com conotações sociais chocantes, existente no País.
Tudo quanto aqui relatado, flagrantes de tormentosa questão que abarca facetas a perderem de vista, deixa soltas no ar perguntas que colocam em desconforto a consciência coletiva. Por quê pretos e pardos ganham menos que brancos? Por que se lhes são destinados tão poucos cargos de chefia? Por quê, embora sejam 55,8% da população brasileira, eles ocupam apenas 24,4% das cadeiras parlamentares? Indagações embaraçosas, que nem essas, obviamente brotarão de quaisquer análises a respeito das condições vivenciadas pela comunidade negra em matéria de moradia, infraestrutura básica, educação, saúde etecetera e tal...


sexta-feira, 24 de julho de 2020


Meio ambiente, Queiroz, mídia, comparações

Cesar Vanucci

“Amazônia tem 14º mês seguido de alta de desmatamento”.
(Dado divulgado pelo INPE-Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais)

· O “tropel desabalado da boiada passando”, incentivado pela equivocada política ambientalista oficial, provocando críticas e protestos generalizados, aqui dentro e lá fora, alarmou as lideranças empresariais brasileiras. Percebendo que, além das consequências ambientais irreparáveis, causadas pela devastação florestal e outras formas de agressão à Natureza, o país pode se ver às voltas com reações extremamente danosas às atividades econômicas, notadamente na faixa das exportações, dirigentes de organizações com peso considerável no PIB resolveram tornar público veemente apelo ao governo. Reivindicam, enfaticamente, seja feita ajuizada correção de rumos no processo de preservação do meio ambiente, com atenção centrada, obviamente, no que anda acontecendo de negativo na Amazônia, no Pantanal, na Mata Atlântica, no Cerrado e noutras paragens do exuberante patrimônio natural deste país continental. Os dirigentes empresariais obtiveram, ao que se ficou sabendo, compromisso formal, dos setores governamentais competentes, de que serão adotadas, daqui pra frente, todas as providências necessárias para a contenção das desabridas ações em curso. Oxalá tudo transcorra conforme o combinado. É o que pede o interesse nacional!

· O alongado “chá de sumiço” do ex-assessor parlamentar, policial aposentado suscitou pergunta infindável número de vezes formulada por aí afora: “cadê o Queiroz?” Transitando diante do palácio do governo em Brasília, um motociclista lançou a pergunta. A resposta dada, por personagem da mais alta graduação do Poder, em estilo bem característico, foi de que o Queiroz estava com a mãe dele, o motociclista.
Mas, não, como restou comprovado, o Queiroz não estava com a mãe do motociclista. Estava – isso mesmo! –, escondidinho da silva, numa mansão em Atibaia, cidade que tem aparecido com singular frequência no noticiário político-policial. A residência aludida pertence ao advogado do filho senador do Presidente Bolsonaro. O ilustre causídico dono do imóvel, instado a esclarecer o fato, sustentou, candidamente, não fazer a menor ideia de como ele, Queiroz, fôra parar ali. A prisão do ex-assessor parlamentar decorreu de indiciamento por causa da chamada “rachadinha”. Ele é também apontado como suspeito de integrar a falange de milicianos que opera, desembaraçadamente, em vastas áreas da antiga cidade maravilhosa de São Sebastião do Rio de Janeiro. A detenção em presídio foi convertida, posteriormente, em prisão domiciliar, aplicada igualmente a sua esposa. A decisão da Justiça, no tocante à cara metade, vem sendo criticada, devido à circunstância de ter sido tomada antes mesmo que a mesma, foragida, houvesse sido localizada pelos agentes da lei, ou se entregado.
Esse Queiroz ainda vai dar muito o que falar, podes crer! Sobretudo se resolver falar.

· O “ensurdecedor” silêncio midiático à volta da sanguinolenta guerra civil na Síria, das ações sinistras dos terroristas islâmicos (que deslocaram para terras d’África o foco de suas tenebrosas façanhas), da crise venezuelana em suas múltiplas facetas, é de molde a esquentar a mufa de quem acompanha e analisa as peripécias que rolam na política internacional. Até bem recentemente, todos esses assuntos rendiam, dia sim, outro também, estardalhantes manchetes. Agora, muita gente se pergunta, entre confusa e desconfiada, que manobras, artimanhas, artifícios cavilosos são esses de que se valem, volta e meia, os “donos do mundo”, os estrategistas da geopolítica para colocar ou retirar dos holofotes, na hora em que bem entendem, a seu bel prazer, essas e muitas outras questões momentosas e contundentes, capazes de acenderem debates acalorados no seio da opinião pública? Quem puder que trate de explicar o porquê disso tudo...

· A recente sequência de artigos estampada neste acolhedor espaço, alusiva a JK e sua portentosa obra, ensejou comparação entre os tempos dourados da atuação governamental do grande estadista e os dias tristonhos da atualidade político-administrativa. A lista de nomes vinda a seguir, englobando alguns entre vários personagens políticos, de diferentes tendências, que acusaram presença destacada na cena pública naquele significativo período da história brasileira, estimula, pela mesma forma, sugestivas comparações. É só botar tento na lista: Israel Pinheiro, Afonso Arinos de Melo Franco, Santhiago Dantas, Milton Campos, Tancredo Neves, Pedro Aleixo, Leonel Brizola, Carvalho Pinto, Carlos Lacerda, Paulo Pinheiro Chagas, Henrique Lott, Eduardo Gomes, Negrão de Lima, Juarez Távora, Gustavo Capanema, Octávio Mangabeira, Aliomar Baleeiro.



Ai de quem apedreja cruz!
Cesar Vanucci

“Nenhuma qualidade humana é mais intolerável na vida comum, nem é, com efeito, tolerada menos, que a intolerância”.
 (Leopardi, pensador italiano)

· Ativistas sociais e parentes enlutados fincaram cruzes na areia alva da praia com os nomes de algumas das mais (no momento em que estas palavras são digitadas) de 70.000 vítimas da tenebrosa “gripezinha” que assola o planeta. Enfermidade que elegeu o Brasil como epicentro na América Latina, com “dilatadas chances” de disputar indesejável primeiro lugar no pódio com os Estados Unidos. O ato na franja litorânea carioca teve o sentido de um tributo de saudade, como tantos outros tradicionalmente promovidos em circunstâncias ditadas por forte comoção. Eis que, de repente, espumando ódio pelas ventas, semblante, olhar, gestos, grunhidos na voz denunciando belicosidade, um indivíduo de maus bofes adentrou a área, em passadas vigorosas, desfazendo os montículos de areia, chutando as cruzes, sob olhares atônitos e indignados das pessoas ao redor. Os responsáveis pelo ato simbólico de homenagem aos mortos, entre eles pais angustiados, cuidaram logo de refazer o cenário vandalicamente desmontado.
Fanatice política, típica destes momentos sombrios, desvario mental, surto paranoico ocasional, tudo isso misturado? Como caracterizar a impactante ocorrência? No que me concerne, ignorando o que veio a acontecer ao depois com o agressor, ocorre-me garantir que uma coisa é absolutamente certa: ninguém apedreja cruz impunemente. Digo e provo!
No povoado do Capão da Onça, caminhonete desgovernada atropelou e matou uma jovem. O pai da moça, pequeno sitiante, mandou afixar uma cruz no local do fatídico acidente. A cruz ficou plantada na estrada quase rente à cerca de arame, nas imediações da porteira de entrada da sede da fazenda do coronel Felisberto. O fazendeiro, chefe político na localidade, mandou retirá-la. O sitiante Libório não concordou. O fazendeiro resolveu arrancá-la com as próprias mãos, jogando-a de lado. O pai da vítima tornou a colocá-la. Passando pelo local, no dia seguinte, não mais avistou a cruz. Ficou sabendo, então, que ela tinha sido retirada e lançada em lugar não sabido, no meio do mato. Não pensou duas vezes. Abriu a porteira e foi até o alpendre da casa do fazendeiro. Ao avistá-lo, apontando-lhe o dedo em riste, bradou: - “Até o final do dia, você será castigado pelo que fez!” Sem disponibilizar tempo para discussão, quase correndo, botou o pé na estrada...
De tardinha, uma ambulância chamada às pressas transportou o coronel Felisberto, homem de saúde robusta, acostumado a cavalgar em locais íngremes por horas seguidas, acometido de mal súbito, ao hospital de uma cidade próxima. Permaneceu meses internado. Até o final de existência longa, carregou no corpo alquebrado sinais de atrofiamento nas pernas e braços. Passou a utilizar cadeira de rodas para locomoção.
Outro episódio desconcertante nessa mesma linha aconteceu em Riachão das Flores. O comerciante Azarias implicou pra valer com o ritual promovido por um vizinho, às sextas-feiras, num trecho da pracinha em que ambos moravam. O ritual consistia na fixação de uma cruz de madeira adornada com flores e velas. O autor da proeza dizia que a cruz era legado sagrado trazido da África por ancestrais. A intolerância do comerciante impeliu-o a gesto extremado. Sem mais essa nem aquela, dirigiu-se até o local em que a cruz se achava exposta com o declarado propósito de “acabar na base da porrada com a palhaçada”. Tomou distância, à maneira dos batedores de pênalti, para o chute fatal, mirando o objeto. A impressão que se tem é de que no preciso momento do arremesso o piso da calçada transmutou-se num tapete de cascas de banana. Catapruz! Que baita escorregão! A queda do Azarias foi de contundência tal que exigiu internamento no setor de fraturas expostas do Pronto-Socorro. Saiu de lá condenado a usar muletas pra sempre.
Isso aí: não se apedreja cruz impunemente!

· Sinal (a)berrante destes tempos amalucados. O excelentíssimo senhor prefeito Fernando Gomes, de Itabuna, Bahia, em entrevista sobre a reabertura do comércio na cidade, deixou cair esta “preciosidade”: “Mandei já fazer um decreto e no dia 09 de julho abre, morra quem morrer”.

sábado, 18 de julho de 2020


Eles partiram primeiro
Cesar Vanucci *

“A morte é a curva da estrada. Morrer é só não ser visto”. (Fernando Pessoa)

· A palestra na AMULMIG (Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais), com foco na lendária história de Sobral Pinto, comemorativa dos 300 anos de Minas, estava marcada para meados de abril. Teve que ser adiada por conta do flagelo da Covid. Agora, por dolorido motivo, acabou tendo que ser mesmo cancelada. Quem havia se comprometido a proferi-la – e o faria, com toda certeza, de modo empolgante – era o magnífico ser humano, profissional do Direito de conceito ímpar, Aristóteles Atheniense. Com sua súbita partida, o destino cruel privou-nos, certo é, de momentos de fruição intelectual de rara beleza, mas muito mais do que isso, numa extensão e intensidade difíceis de serem medidas, do convívio ameno e cordial com personalidade exponencial da inteligência e do saber. Aristóteles, com sua proficiência profissional, liderança inconteste, expressa em inúmeros cargos exercidos na OAB e em outros redutos expressivos na vida comunitária, aos quais emprestou fecundo labor, fez-se reconhecido publicamente, entre os pares e junto a diferentes setores, como um “advogado símbolo”. Ele se confessou sumamente desvanecido com o convite que lhe fiz para contar coisas a respeito de Sobral Pinto, símbolo perfeito do advogado brasileiro. É certo que, à hora de sua subida à tribuna da AMULMIG para o pronunciamento, o mestre de cerimônia da assembleia iria, naturalmente, apresenta-lo à plateia, sublinhando sua invejável condição de cidadão identificado com as causas nobres e os edificantes valores enfeixados na reluzente trajetória de Sobral. Aristóteles foi alguém que soube cumprir exemplarmente a missão que lhe tocou executar em sua passagem pela pátria dos homens. Deixou enorme saudade.

· Alberto Oswaldo Continentino Araújo, outro amigo dileto que acaba de “partir primeiro”. Passou a não mais ser visto na curva da estrada da vida, conforme a lírica imagem de Fernando Pessoa. Mantive convivência extensa e frutuosa com esse cidadão de bem. Homem culto e diligente, sintonizado com as coisas positivas da aventura cotidiana. Trabalhamos juntos num sem número de empreitadas, na gloriosa Minas-Brasil Seguradora e no operoso Sindicato das Empresas de Seguros Privados de Minas Gerais. Ele presidiu, por vários mandatos, com competência, o órgão representativo dos empresários do setor de seguros e ofereceu-me a presidência da Comissão de Recursos Humanos. Em sua gestão administrativa foi desencadeada vasta programação de cursos de especialização profissional nas diferentes regiões do Estado. Esta ação educativa foi complementada, por bom espaço de tempo, com orientação técnica oferecida numa página semanal de seguros, divulgada no jornal “Estado de Minas”.

Alberto era filho de José Oswaldo Araújo, ex-prefeito de Belo Horizonte, fundador da Minas-Brasil, poeta consagrado. Ocupou também funções de realce na Federação dos Seguradores e na Associação Comercial de Minas. Fez parte, demonstrando disposição infatigável para o trabalho, de um grupo de líderes classistas firmemente engajados em campanhas voltadas para o engrandecimento econômico do Estado.  Graças ao estilo de governança que adotou com seus companheiros executivos, ajudou a estruturar na Minas-Brasil, na época, uma das mais importantes organizações do país do ramo de seguros, um elo de integração humana poderoso com a comunidade de trabalho. Ainda hoje, muito tempo depois da transferência do acervo da empresa para outra companhia, os antigos colaboradores da Minas-Brasil se reúnem periodicamente em festivos e concorridos encontros de congraçamento. Alberto Oswaldo não estará presente no próximo, para tristeza geral.

· Ivermectina: este o nome do remédio. Antiviral de custo até dia desses acessível, utilizado com êxito, segundo depoimentos colhidos em fontes acreditadas, para tratamento de determinados surtos epidêmicos, vem sendo apontado nas redes sociais, com insistência, como terapia preventiva dotada de certo efeito positivo no caso da Covid. Como simples repórter, que das coisas cientificas, bem como de tantas outras coisas relevantes, nada sabe, confesso com sinceridade haver ficado impressionado com as revelações, acerca das propriedades do aludido medicamento, que ouvi, indoutrodia, da infectologista Lucy Kerr. Trata-se de médica e pesquisadora de Ribeirão Preto, pertencente aos quadros da USP. Aconselho o reduzido, posto que leal e assíduo, contingente de leitores deste desajeitado escriba a se inteirar do que a especialista vem dizendo, baseada – conforme   acentua – em pesquisas promovidas por um punhado de profissionais médicos.


sexta-feira, 17 de julho de 2020


Não precisava ser assim

 Cesar Vanucci

“Esse nosso infernal cotidiano!”
(Domingos Justino Pinto, educador)

Carga pesada. Isso tudo e a um só tempo. Essa infinidade de mazelas, que enxameiam de aflição e angústia a pedregosa caminhada humana, confere algum sentido a desnorteante observação do pensador Aldous Huxley. E se, meio assim de repente, a gente descobrisse que a Terra é o inferno dos demais planetas da Via Láctea?

Tudo isso acontecendo junto, neste preciso momento, neste mundo repleto de inexplicabilidades onde o tinhoso costuma armar barraca e aprontar baitas confusões. Pandemia desenfreada de Covid-19, vírus de origem desconhecida, contaminando e matando milhões, disseminando pânico e estrangulando o desenvolvimento econômico. Hospitais de menos para pacientes de mais, numa extensão territorial que vai de Bangladesh aos Estados Unidos, passando naturalmente pelo Brasil. Escassez de leitos em enfermarias e unidades de terapias intensivas. Almoxarifados desfalcados chocantemente de aparelhos respiratórios e doutros apetrechos de proteção indispensáveis, até mesmo anestésicos. Fila pra tudo. Fila por boias de sobrevivência em mar encapelado, enquanto se aguarda pelo barco de socorro moroso. Fila pra maca, ambulância, atendimento de urgência, tratamentos paliativos, leitos, terapia intensiva, respiradouros, medicamentação. Correndo paralelo à crise humanitária, os custos dos remédios escalam altitudes himalaianas. Por outro lado, parte considerável dos necessários auxílios pessoais de emergência fica retida no emaranhado burocrático. O mesmo sucede com os estímulos financeiros destinados a socorrer empreendedores, tendo por causa a tradicional insensibilidade social do sistema bancário, que nestes nossos pagos brasileiros habituou-se a operar com os juros mais escorchantes da já citada Via Láctea.

Indícios de deslavada corrupção nas aquisições exigidas pelas circunstâncias de produtos essenciais no combate à enfermidade. Incompetência manifesta de lideranças políticas institucionalmente incumbidas de comandarem as ações de enfrentamento do flagelo que assola a humanidade.

Em outras frentes da batalha pela vida, mais sinais alarmantes são emitidos do irremediável descompasso geral, flagrado a mancheia por aí, entre o que é feito usualmente, mundo afora, e as legítimas aspirações da sociedade. Aspirações hauridas em propostas humanísticas e espirituais capazes de recobrirem de dignidade a aventura humana. Personagens de proa nos escalões do poder decisório alegam, com certa frequência, que os insucessos ocorridos em seus bem-intencionados projetos de universalização do bem-estar social potencialmente garantido pelos avanços tecnológicos e científicos esbarram sempre em fatores fortuitos, alheios à vontade. A “explicação” remete a uma fala famosa de São Bernardo, quando diz que de boas intenções e desejos o inferno está cheio...

A carga pesada despejada nos ombros dos indefesos viventes abrange mais incontáveis itens. Corrida armamentista frenética. Guerras insanas geradas por nebulosas conveniências geopolíticas-econômicas e por ideologias incendiárias. Aplicação leviana de recursos públicos em gritante menosprezo às prioridades sociais. Concentração aviltante nas mãos de poucos da riqueza produzida pelo labor coletivo. Clamorosas desigualdades sociais. Miséria ao rés do chão em fatias consideráveis de chão intensamente povoadas. Epidemias grassando em lugares aonde ainda não chegaram serviços de infraestruturas básicas, tipo rede de esgoto, água canalizada e por aí vai... Surtos de cólera dizimando populações inteiras por falta de - imaginem só! - soro fisiológico, uma simples mistura caseira de água e sal.

Redes sociais na contramão de sua relevante missão, ocupadas, boa parte do tempo, com mórbida assiduidade, por hordas de fanáticos e insensatos empenhados na propagação de falsidades, conteúdos destorcidos da história, interpretações amalucadas do sentido das coisas. Racismo repugnante. Intolerâncias, discriminações, fobias, alvejando impiedosamente etnias, crenças, gêneros, faixas etárias, estabelecendo regimes de castas institucionalizados ou não. Agressões sistemáticas ao meio ambiente. Aquecimento global, devastação florestal, como consequências funestas do excesso de ganância, ignorância, prepotência. Desemprego também em proporções pandêmicas. Transtornos climáticos ameaçadores: tsunamis, ciclones, terremotos, degelo nas calotas polares, crateras gigantescas na camada de ozônio que envolve o Planeta.

Coisas demais. Não precisava ser assim. É o caso até de se lançar no ar uma pergunta mesclada de dúvida, inquietude e temor. Será que a intrigante observação de Aldous Huxley não está provida de (alguma) pertinência? 



sábado, 11 de julho de 2020



Falando de gripe comum

                                                               Cesar Vanucci


“ (...) Daí ser a venda de remédios
negócio de primeira ordem.”
(Antônio Callado)

Falo de uma gripe comum. Não dessa “gripezinha” desembestada, que anda ceifando vidas preciosas, semeando pânico e tolhendo as atividades produtivas.

Falar verdade, em meu caso particular, a “marvada” foi mesmo a gripe. Não a pílula antigripal de alardeados efeitos milagrosos daquele reclame musical na televisão. Pegou-me de com força. Estirou-me na lona. Foi assim como se houvesse sido atingido por um cruzado do Popó, ou do Eder Jofre, ou mesmo de ambos, os dois, conjuntamente, ufa! Gripe dessas faz germinar, no silêncio mais profundo de duas ou três noites mal dormidas, um bocado de ruminações. Algumas doídas. Ocupamo-nos delas na sequência.

Os gastos com medicamentos, em função da “marvada”, anotadinhos na ponta do lápis, superaram dois salários mínimos. E olhe que nos consultórios visitados me foram generosamente passadas algumas amostras grátis! Os desembolsos não contemplaram honorários médicos, chapas, exames de laboratório, itens acobertados pelo seguro-saúde, que custa aliás uma nota preta. O orçamento doméstico do mês sofreu algum abalo mas, pelo menos desta vez, o leite dos meninos não ficou prejudicado. Das coisas vivenciadas por conta da gripe sobraram amargas indagações. Quem puder faça a gentileza de responder. No auge de uma crise gripal braba como a que me acometeu, que grassa solta pela aí, atingindo impiedosamente mesmo quem (como eu) recebeu vacina a tempo e a hora no centro de saúde, como é que se arranja mesmo um trabalhador de salário mínimo inesperadamente alvejado pelos mesmos sintomas febris que derribaram o neto predileto de vó Carlota?

Adiante, gente boa. Concordam comigo que essa questão de medicamento é troço danado de sério? Um mal sem remédio? Peguemos um dado da Organização Mundial de Saúde. Não mais do que 150 fórmulas farmacêuticas, diz ela, são suficientes para o mundo encarar de frente os problemas básicos de saúde. A revelação adquire toque burlesco confrontada com os zilhões de marcas amontoadas nas prateleiras das farmácias espalhadas por tudo quanto é canto deste nosso planeta de consumismo desvairado. Não por outras razões a cartelizada indústria farmacêutica, sob controle de grandes corporações, compõe com os setores petrolífero e de armamentos a lista dos negócios mais rentáveis bolados pelo engenho humano. Isso remete, nas avaliações e anseios dos humanistas por um mundo melhor, à ideia de que, algum dia, mais na frente, a sociedade vai se ver compelida a fazer uso de todo seu talento, criatividade, empenho político na formatação de modelos de atendimento social no campo da saúde totalmente diferenciados dos de hoje. O esquema adotado no fornecimento de medicamentos às populações revela-se ineficaz, injusto. Coloca-se a distância considerável dos objetivos primordiais buscados nas políticas sociais. Muita coisa feita com reta intenção, no sentido de ajudar a população, acaba se transformando na prática, em consequência de “estratégias negociais” dos laboratórios, num instrumento inofensivo. Caso sem tirar nem pôr dos genéricos. Imaginava-se, de princípio, pudessem ser entregues ao consumidor, opcionalmente, a preços acessíveis. Ledo engano. Entre os “produtos de marca”, os “genéricos” e, ainda, os “similares” - classificações, pelo que se percebe, criadas para confundir a patuleia ignara - não existem diferenciações de valor, identificáveis à primeira vista, que tragam real benefício ao consumidor.

Quebra de patentes, expansão da rede de farmácias populares, lançamento em larga escala de produtos homeopáticos e fitoterápicos, tudo isso pode integrar um sistema de proteção à saúde fundamentado no objetivo de ajudar o povo em sua sufocante luta diuturna pela aquisição de remédios. Mas não é o bastante. As lideranças comprometidas com a causa do bem-estar social têm a obrigação de aprofundar estudos e discussões em torno do angustiante problema dos remédios. E, a partir daí, promoverem uma reavaliação do que é hoje feito e vem se revelando extremamente insatisfatório. O interesse social reclama um tipo novo de relacionamento entre fabricantes, comerciantes e clientela de medicamentos. O relacionamento vigente é desvantajoso para o povo. E bota desvantagem nisso!

sexta-feira, 3 de julho de 2020


Não precisava ser assim
 Cesar Vanucci

“Esse nosso infernal cotidiano!”
(Domingos Justino Pinto, educador)

Carga pesada. Isso tudo e a um só tempo. Essa infinidade de mazelas, que enxameiam de aflição e angústia a pedregosa caminhada humana, confere algum sentido a desnorteante observação do pensador Aldous Huxley. E se, meio assim de repente, a gente descobrisse que a Terra é o inferno dos demais planetas da Via Láctea?

Tudo isso acontecendo junto, neste preciso momento, neste mundo repleto de inexplicabilidades onde o tinhoso costuma armar barraca e aprontar baitas confusões. Pandemia desenfreada de Covid-19, vírus de origem desconhecida, contaminando e matando milhões, disseminando pânico e estrangulando o desenvolvimento econômico. Hospitais de menos para pacientes de mais, numa extensão territorial que vai de Bangladesh aos Estados Unidos, passando naturalmente pelo Brasil. Escassez de leitos em enfermarias e unidades de terapias intensivas. Almoxarifados desfalcados chocantemente de aparelhos respiratórios e doutros apetrechos de proteção indispensáveis, até mesmo anestésicos. Fila pra tudo. Fila por boias de sobrevivência em mar encapelado, enquanto se aguarda pelo barco de socorro moroso. Fila pra maca, ambulância, atendimento de urgência, tratamentos paliativos, leitos, terapia intensiva, respiradouros, medicamentação. Correndo paralelo à crise humanitária, os custos dos remédios escalam altitudes himalaianas. Por outro lado, parte considerável dos necessários auxílios pessoais de emergência fica retida no emaranhado burocrático. O mesmo sucede com os estímulos financeiros destinados a socorrer empreendedores, tendo por causa a tradicional insensibilidade social do sistema bancário, que nestes nossos pagos brasileiros habituou-se a operar com os juros mais escorchantes da já citada Via Láctea.

Indícios de deslavada corrupção nas aquisições exigidas pelas circunstâncias de produtos essenciais no combate à enfermidade. Incompetência manifesta de lideranças políticas institucionalmente incumbidas de comandarem as ações de enfrentamento do flagelo que assola a humanidade.

Em outras frentes da batalha pela vida, mais sinais alarmantes são emitidos do irremediável descompasso geral, flagrado a mancheia por aí, entre o que é feito usualmente, mundo afora, e as legítimas aspirações da sociedade. Aspirações hauridas em propostas humanísticas e espirituais capazes de recobrirem de dignidade a aventura humana. Personagens de proa nos escalões do poder decisório alegam, com certa frequência, que os insucessos ocorridos em seus bem-intencionados projetos de universalização do bem-estar social potencialmente garantido pelos avanços tecnológicos e científicos esbarram sempre em fatores fortuitos, alheios à vontade. A “explicação” remete a uma fala famosa de São Bernardo, quando diz que de boas intenções e desejos o inferno está cheio...

A carga pesada despejada nos ombros dos indefesos viventes abrange mais incontáveis itens. Corrida armamentista frenética. Guerras insanas geradas por nebulosas conveniências geopolíticas-econômicas e por ideologias incendiárias. Aplicação leviana de recursos públicos em gritante menosprezo às prioridades sociais. Concentração aviltante nas mãos de poucos da riqueza produzida pelo labor coletivo. Clamorosas desigualdades sociais. Miséria ao rés do chão em fatias consideráveis de chão intensamente povoadas. Epidemias grassando em lugares aonde ainda não chegaram serviços de infraestruturas básicas, tipo rede de esgoto, água canalizada e por aí vai... Surtos de cólera dizimando populações inteiras por falta de - imaginem só! - soro fisiológico, uma simples mistura caseira de água e sal.

Redes sociais na contramão de sua relevante missão, ocupadas, boa parte do tempo, com mórbida assiduidade, por hordas de fanáticos e insensatos empenhados na propagação de falsidades, conteúdos destorcidos da história, interpretações amalucadas do sentido das coisas. Racismo repugnante. Intolerâncias, discriminações, fobias, alvejando impiedosamente etnias, crenças, gêneros, faixas etárias, estabelecendo regimes de castas institucionalizados ou não. Agressões sistemáticas ao meio ambiente. Aquecimento global, devastação florestal, como consequências funestas do excesso de ganância, ignorância, prepotência. Desemprego também em proporções pandêmicas. Transtornos climáticos ameaçadores: tsunamis, ciclones, terremotos, degelo nas calotas polares, crateras gigantescas na camada de ozônio que envolve o Planeta.

Coisas demais. Não precisava ser assim. É o caso até de se lançar no ar uma pergunta mesclada de dúvida, inquietude e temor. Será que a intrigante observação de Aldous Huxley não está provida de (alguma) pertinência?


Manifestos, Trump, Aldir Blanc

Cesar Vanucci

“Aldir nunca foi menos do que ótimo e muitas vezes genial.”
(Luis Fernando Veríssimo)

· Contingente apreciável de cidadãos considera os manifestos bem mais eficazes do que as manifestações. Vem daí, com certeza, a inspiração para as proclamações que têm sido trazidas ao conhecimento da sociedade, contendo milhares de assinaturas, a cada dia acrescidas de adesões, em defesa dos ideais democráticos, do respeito às instituições e da liberdade de expressão em sua forma genuína. Revelou-se significativo e bastante sintomático, do ponto de vista da pujança democrática reinante no coração e na mente da grande maioria da população brasileira, o registro de que essas declarações, em tom resoluto e respeitoso aos valores da cidadania, vêm sendo – oportuno pontuar - compartilhadas ecumenicamente. Noutras palavras: os signatários pertencem a todas as classes sociais, níveis culturais, inclinações ideológicas. Deixadas de lado ocasionais divergências políticas, antagonismos circunstanciais, confessam-se firmemente decididos a promover uma conjugação de vontades poderosa em torno do fortalecimento dos princípios democráticos e republicanos e do aprimoramento do processo civilizatório. Contrapõem-se, com vigor, às ameaças de visibilidade atordoante ora confrontadas na cena brasileira. Os manifestos têm sido, nalguns redutos, alvo de críticas. Por exemplo, a liderança petista, representada pelo ex-presidente Lula, rotulou-os impropriamente de movimentos ineficientes do tipo “Maria vai com as outras”... Cabe, entretanto, enfatizando sua relevância na conjuntura política, recorrer a uma sugestiva ilustração sobre os fundamentos de pluralismo democrático que os rege. Tomemos um, entre muitos casos de convergência de opiniões ditada por interesses mais elevados neste momento difícil atravessado pela Nação. Dois famosos artistas, Caetano Veloso e Lobão, costumeiramente posicionados em trincheiras ideológica opostas, apuseram, lado a lado, seus chamegões numa das proclamações transmitidas em defesa da democracia. Estão vendo só?

· Com atos inconsequentes repetitivos, o Presidente Donald Trump agrega, continuamente, indicações que robustecem a teoria formulada publicamente por renomados psiquiatras de seu país a respeito de sua sanidade mental. Como destacada em ampla divulgação, os especialistas médicos garantem que o supremo mandatário executivo da mais poderosa nação do mundo é doido de jogar pedra em avião. A única dúvida que ficou é se ele lança a pedra a mão livre, ou se utiliza uma atiradeira para o arremesso. Recentemente, o mundo inteiro tomou conhecimento, perplexo e indignado, que o cidadão mencionado, detentor, pelo cargo que ocupa, de poderes capazes de alterar o curso da civilização, autorizou a deportação de quase uma centena de menores de idade que se achavam recolhidos, em situações deploráveis, em centros de detenção reservados a imigrantes ilegais. Nos numerosos protestos acolhidos pela mídia, foi assinalado que a estarrecedora decisão não acusava precedentes na crônica histórica, pelo menos no pós segunda guerra mundial. Noutra manifestação amalucada, pela televisão, milhões de pessoas ouviram o cara sugerir, em plena pandemia, não se sabe ao certo se em tom de descabido gracejo ou não, a possibilidade da ingestão de detergente para combater eficientemente o coronavírus. Não deu outra: mais de meia centena de criaturas psicologicamente debilitadas levaram ao pé da letra a “recomendação do líder”, indo parar em unidades de saúde de emergência com graves intoxicações. As informações relativas ao inusitado incidente cessaram nesse ponto, não se sabendo dizer se algo pior aconteceu com qualquer uma das vítimas...

· O jornalista Luis Fernando Veríssimo, numa de suas apreciadas crônicas, aponta os versos que considera os mais sugestivos do repertório do saudoso Aldir Blanc. Assinala que ele, Aldir, nunca foi menos do que ótimo e muitas vezes genial. Sua predileção é pelo final da melodia “Dois pra lá, dois pra cá”. Veja se concorda com Veríssimo: “A tua mão no pescoço / as tuas costas macias / por quantas noites rondaram / as minhas noites vazias... / No dedo um falso brilhante / brincos iguais ao colar /e a ponta de um torturante band-aid no calcanhar.”

sábado, 27 de junho de 2020


Zote e o Marechal

Cesar Vanucci

“Zote é fino observador e psicólogo do sertão.”
(João Gilberto Rodrigues da Cunha)

Estou vindo de uma releitura prazerosa. Crônicas do cotidiano boladas em tom alegre. “O Triângulo de bermudas”, de João Gilberto Rodrigues da Cunha, médico, empresário, ex-presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu, é um livro que reúne acontecencias de refinado sabor. Numa narrativa vivaz e cabritante, que se espicha por 150 páginas, são trazidos ao deleite dos leitores pitorescos causos de personagens que povoam aquelas bandas do mapa das Gerais onde um “narigão esquisito se intromete entre Goiás e São Paulo, cheirando os fundos de Mato Grosso”, conhecidas por Triângulo Mineiro. O autor, dono de talento e verve, sabe jogar bem com a imprevisibilidade que é a própria essência do humor. Já teve romance selecionado para a finalíssima do “Jabuti” de literatura.

O cidadão chamado Zote que faz dupla com um marechal no título destas maldatilografadas, é mostrado no livro de corpo inteiro, num sem número de proezas folclóricas. O autor deixa escapar afetuosa simpatia pelo dito cujo. Explica que “nem nas piores aperturas o Zote perdeu sua audácia comercial nem seu senso de humor”. Conta que em tempo de crise “ele construiu na rodovia o seu Motel Zote, durante anos ponto de parada para refeição ou sono daqueles que iam de São Paulo para Brasília”, acrescentando que “o motel do Zote era motel mesmo e não ponto de sacanagem, como os seus futuros sucessores.” Dito o que, recorda passagem em que seu irmão José Humberto, médico famoso, deputado federal, num domingo setembrino, participou no local do apreciado rodízio de churrasco, disputado costumeiramente por considerável número de clientes “Bebeu, comeu, festivo, e no final recebeu na mesa a visita alegre de Zote, orgulhoso de sua visita e presença.”

Conversa vai, conversa vem, o irmão do João Gilberto que, segundo ele, “sempre foi de certas prosopopeias em elogios”, resolveu gastar “sem economizar no Zote”, entoando louvação à beleza do lugar, à excelência dos comes e bebes, por aí. “Zote ficou feito mosquito em tampo de xarope”. Na continuidade do papo ameno, o Zé Humberto, “com seu jeito confidente e sério”, perguntou: “Zote, e o ambiente aqui é sempre sadio?” João Gilberto ainda falando: “Zote, conhecia o compadre, mas por via das dúvidas achou que devia devolver os agrados: - Sadio é, doutor. Mas, se o senhor quiser, nós adoecemos ele em meia hora!” Não deu outra. “Zé Humberto, bom médico, horror à doença e similaridades zotianas, não esperou clarear o tipo de epidemia programada, bateu em retirada.” Um amigo que o acompanhava, “Elias, ainda espantado, rindo escondido da audácia do Zote, setenciou o acontecido com a exclamação do povinho do Irara: - Vote!”

O causo acima coloca o leitor em condições de ficar sabendo quem é o Zote. Já o marechal dispensa apresentações. Cidadão ilibado e discreto, intelectual, comedido nos gestos, Humberto Alencar Castelo Branco foi o primeiro presidente do ciclo de militares catapultados às culminâncias do poder político com o golpe de 64.

No dia 3 de maio de 1964, os caminhos do Zote e do marechal se cruzaram. Este amigo de vocês estava lá. Viu, anotou e registra aqui o ocorrido. Castelo Branco visitava Uberaba, pouco depois de assumir o governo. Manteve acesa tradição implantada por Getúlio: a participação presidencial na solenidade de abertura da feira de zebu. Desceu do avião em meio a forte aparato de segurança, recebendo os cumprimentos protocolares. Dirigiu-se à porta de saída do aeroporto. Nas imediações, ao contrário de outros anos, a presença de público, contido por cordões de isolamento, era reduzida. À hora em que transpunha a distância até o veículo que o conduziria ao parque da Exposição, uma voz esganiçada, em meio aos populares, passou a chamá-lo: - Castelo, Castelo! O marechal e o pessoal à volta, trazendo nos semblantes claros sinais de tensão, voltaram-se pra o ponto de onde provinha a inesperada chamada. Era o Zote: “- Castelo, vê se dá pra manerar. A barra tá pesando.” Posso garantir, como testemunha ocular, que na cara habitualmente sisuda do marechal ganhou contorno um sorriso.

A SAGA LANDELL MOURA

Os supremacistas e os protestos antirracistas Cesar Vanucci “O clamor das ruas exige vacina eficaz contra o vírus do racismo”. (...