sábado, 19 de setembro de 2020

 

Nos tempos do rádio


Cesar Vanucci

 

"Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado.

Não perdia um só capítulo de “O direito de nascer”."

(Antônio Luiz da Costa, professor)

 

Em artigo recente afirmei, com convicção, que a hora da novela é sagrada pra um mundão de gente. Era assim também nos tempos do rádio. A televisão herdou, no capítulo das novelas, alguns macetes do rádio. Junto com outro tipo de herança: a absorção, pela telenovela, de talentosos autores, atores e diretores consagrados na radionovela. A radionovela naqueles áureos tempos do rádio como o mais poderoso instrumento de difusão cultural do continente brasileiro, distinguia-se do radioteatro. Era de duração longa, apresentação diária. Assim que acabava uma história, o horário passava a ser ocupado por outra radiofonização. A radionovela que deixava o ar e a que entrava mereciam, na programação, insistentes e persuasivas chamadas. Já o radioteatro podia ser definido como uma novela de tamanho menor, transmitida esporadicamente. Tá na cara que esse modelo inspirou a televisão, quando criou, junto com a telenovela, a minissérie. Essa, também, novela de curta duração.

 

Aqui está intrigante relato sobre as emoções desenfreadas dos ouvintes nos bons tempos das novelas de rádio. Nélio Pinheiro era costumeiramente escalado para papéis de galã, diferentemente de Rodolfo Mayer, convocado sempre para vilão nos folhetins radiofonizados da Nacional. Dono de voz expressiva e envolvente, exercia no público um fascínio comparável ao que se percebe hoje na televisão, em relação ao desempenho de Tony Ramos, Antônio Fagundes, por aí.

Numa trama determinada, seu personagem "descendia" de uma família da Beira, em Portugal. Tomado de estupefação, Nélio recebeu um dia nos estúdios um grupo de cidadãos lusitanos, todos oriundos daquela região, radicados no Rio de Janeiro. Os entusiasmados visitantes, exibindo documentos, fotos, transmitindo depoimentos em viva voz procuraram, com vigoroso empenho, estabelecer com o ator um vínculo de parentesco próximo. Até passagens da "infância", pródiga em "traquinagens" dos tempos em que "viveu" na Beira, foram "relembradas". Deu trabalhão danado explicar que os personagens e fatos retratados na novela eram pura ficção. Não passava de mera coincidência toda e qualquer semelhança com nomes e lugares da vida real.

Noutro seriado, a mocinha do papel central, defendido com competência pela radioatriz Zezé Fonseca, comeu o pão que o diabo amassou por culpa das armações inimigas. Mas como diz o ditado, não há mal que sempre dure. Veio daí que no desfecho a jovem acabou recompensada por tanto sofrimento. Encontrou seu príncipe encantado, filho obviamente de seu principal algoz. A ele se uniu pelos laços indissolúveis do matrimônio, sendo feliz para sempre. Nas imediações do casamento de mentirinha, pipocou algo fora do enredo. Um mundão de ouvintes entendeu de participar, à sua maneira, da celebração. A heroína recebeu felicitações e presentes à pamparra. Enxovais, eletrodomésticos e outros utensílios para o lar. Além, está claro, de hospedagens em locais paradisíacos para desfrute da merecida lua de mel...

Como dá pra ver, o desconcertante entrelaçamento da ficção com a realidade no imaginário popular, traduzido em episódios jocosos, não é coisa de agora, destes tempos televisivos. A história do rádio de antanho, quando a radionovela e os programas de auditório abriam as portas da fama para artistas, igualzinho faz hoje a televisão, é pródiga em registros reveladores desse descompassado estado de espírito de alguns viventes.

 Volto à radionovela no capítulo vindouro.

 

Não sobrou ninguém

 

Cesar Vanucci

 

"É prá já!"

(João David, autor de novela,

 instado a apressar o desfecho da trama)

 

A mania nacional da radionovela levou, na década de 50, muitas PREs do interior a criarem esquema próprio de produção. Os radioatores, radioatrizes, autores ou adaptadores de textos eram recrutados no meio artístico local. Cumpriam as tarefas ou por desprendido amor à arte, ou em troca de módicos cachês semanais. As radiofonizações saiam ao vivo. Nada de gravações, artifício técnico inacessível aos minguados orçamentos das emissoras. No Rio e em São Paulo, pequenas empresas dedicavam-se à elaboração de textos melosos para suprir as necessidades da radionovela interiorana. O estilo lembrava romance de madame Delly, autora de grande aceitação junto ao público leitor feminino. Funcionava também nas capitais como opção, implicando em custos evidentemente maiores, uma central de produção, que se valia do concurso de radialistas consagrados. Ela garantia capítulos prontos, gravados.

 

A PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, de Uberaba, pioneira nos Vales dos rios Grande e Paranaíba, naqueles vastos e férteis chapadões do Triângulo, apostou na radionovela própria. A emissora, ligada ao grupo "Lavoura e Comércio", que deixou de circular há poucos anos depois de uma trajetória centenária, abriu caminho, no mundo da comunicação e do espetáculo, para um punhado de celebridades. Entre muitos outros: Urbano Vanucci Loes, que compôs com Cesar Ladeira, Carlos Frias, Celso Guimarães e Luiz Jatobá o time dos grandes locutores do rádio; Gontijo Teodoro, futuro "Repórter Esso"; e Augusto Cesar Vanucci, que veio a conquistar no teatro, cinema e televisão expressivos prêmios, inclusive o "Emy", nos Estados Unidos, e o “Ondas”, na Inglaterra. O seu “Emy”, em 1981, foi por sinal o primeiro da série de dez arrebatados por artistas da Globo até o ano de 2013, quando o laurel foi conferido à fabulosa Fernanda Montenegro. Depois do ano citado o criativo time global recebeu outros “Emys”.

 

O "cast" da E-5, como era de bom tom dizer-se na época, agregava gente de valor. Alguns deles: Altiva Glória Fonseca, dona de lindíssima voz; Silvia Riccioppo, cantora lírica e atriz teatral de méritos; Jonas Garret, José Vianna, Raul Jardim, Sebastião Costa, que acumulava as funções de contrarregra. Do elenco infantil faziam parte o já citado Augusto Cesar; este locutor que vos fala; e a talentosa Valia Vieira, filha do diretor da emissora, o saudoso Waldemar Vieira, que aliava ao perfil de humanista incomum capacidade de ação.

 

Se a memória não tá a fim de me trair, "Armadilhas do destino" o nome da novela. João David, o autor, tabagista inveterado, cigarro pendurado nos lábios, pigarro constante, dedos amarelecidos pela nicotina, aprendera do ofício na Excelsior, de São Paulo. Numa Remington manipulada freneticamente ia desovando com talento os capítulos de cada dia. As cópias, em papel carbono, com uma ou outra correção a lápis, eram distribuídas pouquinho antes do capítulo ser jogado no ar, tempo às vezes insuficiente para os radioatores treinarem as inflexões corretas das falas. Seja como for, o público parecia gostar da coisa. Muitos ouvintes compareciam, assiduamente, ao auditório, conhecido por "majestoso salão grená", para acompanhar de perto a trama "encenada" no palco, se é que assim possa ser dito. Em "Armadilhas do destino", as tragédias pessoais com óbitos frequentes, se acumulavam. E como a novela já se espichasse por longo tempo, o patrocinador recomendou a João David que apressasse o desfecho. O autor não se fez de rogado. Anunciou, resoluto: "É pra já!". Botou os personagens remanescentes num ônibus em viagem tumultuada por estrada coalhada de precipícios e engendrou um derradeiro desastre. Não sobrou ninguém pra contar história.

sábado, 12 de setembro de 2020


Chá russo

Cesar Vanucci

“O povo com seu bom senso nativo, com a sua segura intuição das coisas boas, justas e legítimas, nunca tomou chá.”
(Escritor Ramalho Ortigão, “As Farpas”, conforme registro do “Dicionário de Citações”, de Paulo Rónai.”

· O tzar Vladimir Putin não é de dar “colher de chá” pra ninguém. Que o digam seus adversários. Prefere dar chávena inteira de chá. Com veneno dentro.
Quem dele ouse discordar expõe-se a riscos. Dentro ou fora da imensidão territorial russa. O opositor da vez, na lista dos atingidos pelos “sutis” processos empregados com objetivos de retirada abrupta de “desafetos” do palco político, é Alexei Nalvany. O citado cidadão tornou-se famoso pela divulgação sistemática, com ênfase nas redes sociais, de denúncias acerca de arbitrariedades cometidas pelas autoridades supremas do Kremlin.
O atentado de que foi alvo pode ser assim resumido. Em Tomsk, Sibéria, ele tomou chá num bar do aeroporto, enquanto aguardava voo para Moscou. Instantes depois, já alojado no avião, foi visto a retorcer-se em dores. Em Onsk, a 750 quilômetros do ponto de partida, por conta do agravamento de seu estado de saúde, o aparelho foi forçado a fazer uma parada de emergência. Inconsciente, Alexei foi hospitalizado.  O boletim de internamento acusou coma. Companheiros seus de embates políticos, alarmados, resolveram botar a “boca no trombone”. Bradaram alto, provocando comoção internacional, a informação de que Alexei, a exemplo de outros em passado recente, havia sido envenenado por ordem de Putin. A repercussão adquiriu tal proporção que às autoridades russas não sobrou outra alternativa senão atender, relutantemente, em meio a tensas negociações, ao apelo angustiado de parentes da vítima e organismos internacionais vinculados a movimentos humanitários, no sentido de que o paciente pudesse deixar a Rússia e ser medicado na Alemanha.  Entregue a cuidados médicos especiais, já a esta altura em Berlim, ele se encontra em fase de recuperação.
Os laudos médicos alemães corroboram a suspeita de envenenamento, categoricamente negada por fontes oficiais de Moscou.
O amplo noticiário a respeito dessa impressionante história, que parece extraída de novela policial, fala de uma extensa relação de casos de envenenamento registrados, em anos recentes como já dito, envolvendo, “coincidentemente”, outros cidadãos que ganharam notoriedade por militância ativa nas hostis da oposição ao governo. É oportuno recordar, a propósito, que o dirigente russo ostenta no currículo a condição de haver comandado, nos tempos do autoritarismo bolchevista, a temida KGB.
Abaixo vêm alinhados os nomes dos demais desafetos do mandatário russo apontados como vítimas de envenenamento.
 Iuri Sochekochikhin, jornalista investigativo. Faleceu. Anna Politkovskia, jornalista investigativa. Sobreviveu ao “chá”, mas foi assassinada a tiros, algum tempo depois. Viktor Iushchenko. Sobreviveu. Alexander Litvinenko, ex-espião. Ficou seriamente enfermo, após tomar chá, em Londres, na companhia de um colega de profissão. Serguei Skripal, ex-agente russo. Juntamente com a filha, sofreu atentando por envenenamento numa praia no Reino Unido. Ambos conseguiram se recuperar. Piotr Verzilov, ativista político oposicionista. Sobreviveu, após receber, como acontece agora com Alexei, tratamento emergencial de desintoxicação por envenenamento ingerindo chá. A assistência médica que permitiu sua recuperação foi prestada em clínica alemã.
As afamadas “casas de chá” de Moscou e São Petersburgo, tradicionais pontos de confraternização mundana das celebridades russas, parecem haver perdido, nestes tempos desvairados, seu fascínio e charme. Andam às moscas, como se costuma dizer no linguajar das ruas... E não por causa apenas da covid-19!

· Vamos admitir, condescendentemente, num voo condoreiro de imaginação, que 95 por cento dos malfeitos atribuídos pela mídia a Vladimir Putin e Donald Trump não passem de meras “intrigas da oposição”. Mas, cá pra nós, falar verdade, esses 5 por cento restantes são suficientes o bastante pra produzir calafrio na espinha de qualquer mortal. Não há como esquecer que ambos, os dois, ao lado de alguns outros integrantes (não tão confiáveis assim) da confraria gestora do chamado “clube atômico”, são detentores do poder de acionar os botões daqueles apavorantes painéis montados com a  tétrica finalidade de atear fogo no mundo, se isso, por acaso, atender às conveniências soberanas da geopolítica dominante. Valha-nos Deus, Nossa Senhora!


Hora da novela é sagrada

Cesar Vanucci

“Desde os áureos tempos da Rádio Nacional, da Rádio Tupi, da Mayrink Veiga, entre outras PREs, que as novelas mexem, pra valer, com a sensibilidade da gente do povo.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

· Conterrâneos, amigos desde os idos da meninice, Barcelos e Ascânio comunicam-se quase todos os dias, mode que manterem-se atualizados quanto aos assuntos cotidianos.
Nestes tempos de reclusão forçada, trocam sempre informações pelo telefone. Preenchem, assim, o hábito, de longos anos, do bate papo durante terapêuticas caminhadas matinais, por agora interrompidas. Barcelos estranhou bastante o recado do amigo, passado pela secretária, em resposta a uma chamada pelo celular. Ascânio, médico oftalmologista, mandou dizer que não poderia atendê-lo por estar “acompanhando no momento o parto da Filó”. Barcelos comentou: “Uai! Eu não fazia a mais leve ideia de que o Ascânio atuasse também na área da obstetrícia!”
Um dia depois, tudo acabou devidamente explicado. A “assistência ao parto da Filó” não foi de cunho profissional. Foi “assistência” na condição de telespectador. O companheiro médico havia se referido, na verdade, a lance “acontecido” numa novela, da Globo, de grande audiência, levada ao ar no final da tarde. Intitulada “Êta Mundo Bom!”, a novela foi relançada de forma condensada, cobrindo espaço na programação à vista da paralisação, por motivos conhecidos, das gravações no setor da teledramaturgia. Barcelos riu a bandeiras despregadas, passando adiante a amigos comuns, a “novidade” sobre a súbita conversão do amigo, nas lidas domésticas, ao papel de telenoveleiro.
Mas, como proclama a sabedoria das ruas, “nada como um dia após o outro”. Não é que, pouquíssimos dias transcorridos, a inesperada situação que suscitou gargalhadas se inverteu? Com os fraternais amigos jogando, como de costume, conversa fora via telefônica, chegou a vez de o médico surpreender-se com perguntas, fora do prosaico enredo do dia a dia, formuladas pelo colega Barcelos. Cá estão: “O que você acha que poderá acontecer com a Sandra e o Ernesto, no final da trama, a levar-se em conta as malvadezas praticadas contra a bondosa “tia” Anastácia e o ingênuo Candinho?” “Você acha que a Conegundes, vulgo “Boca de fogo”, permitirá que o Zé dos Porcos contraia matrimônio com a Mafalda, decifrando de vez, para a graciosa roceira, a charada do cegonho?”
Vamos reconhecer o óbvio. As fantasias que brotam das novelas mexem em cheio com a sensibilidade das pessoas. O confinamento provocado pela “gripezinha maligna” ajudou aumentar de forma impressionante o “ibope” da criativa dramaturgia televisiva. O que tem de cavalheiros, madames, mancebos e moçoilas a se refestelarem em poltronas, na “hora sagrada” da exibição do capítulo do dia, de olho grudado na telinha, acompanhando as peripécias do qualificado elenco de atores e atrizes “globais”, vou te contar!...
Cabe, a propósito, introduzir na conversa, aproveitando – isso mesmo! - um intervalo publicitário da divertida comédia em foco, uma sugestão endereçada aos encarregados da programação da emissora. Por que não se cogitar da volta, nos repetecos de “antigos sucessos”, de “Gabriela” e “O Bem Amado”. Os telespectadores de sempre, somados aos de agora agradecerão, penhorados, se isso acontecer. Podem crer.

Deu a doida (1). Deu a doida na telefonia móvel. Um monte de gente se queixando. Numerosas vezes por dia os celulares soam anunciando chamadas com os números de origem, naturalmente, registrados no visor. A pessoa chamada diz “alô”, repetidas vezes, encontrando silêncio como resposta. Resolve, então, retornar a ligação, para saber do que se trata. Uma voz metálica “explica”: “Este telefone não existe”. A agência reguladora dos serviços telefônicos precisa mandar averiguar que “diacho” de coisa é essa, dessas chamadas inoportunas, bastante numerosas, obviamente misteriosas, com números que ficam registrados, inclusive códigos de área, “mas não existem”...

· Deu a doida (2). Sinal desnorteante da confusão mental que grassa solta na praça: Na portaria de condomínio de luxo, a administração mandou afixar um aviso em letras garrafais. Diz o seguinte: “Parentes e conhecidos não são bem-vindos a este edifício”.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020


Hiroshima, 75 anos

Cesar Vanucci*

“Bella matribus detestata – As guerras detestadas pelas mães".
(Horácio, 658 a.C)

Retiro do baú anotações com mais de duas décadas e frescor atual. Referem-se ao apavorante lance inaugural da era atômica. Ou seja, a explosão, 75 anos atrás, da bomba de Hiroshima, assunto intensamente relembrado pela mídia nestes dias.
O estoque das armas de destruição em massa é cada dia mais volumoso. O tal acordo de não proliferação de armas nucleares só vale, de verdade, para os países que ainda não as possuem. Os integrantes do fechadíssimo “clube atômico” monitoram com rigor policialesco as ações dos demais países, procurando dificultar-lhes até mesmo a aquisição de conhecimentos concernentes ao emprego da energia nuclear para fins de desenvolvimento econômico e social. Atribuem, por antecipação, a responsabilidade por uma eventual tragédia nuclear futura a terceiros, não detentores da mortífera tecnologia.
“Esquecem-se” de que na única vez na história humana em que bombas atômicas caíram sobre populações civis, destruindo cidades e matando centenas de milhares de pessoas, a iniciativa de detona-las foi tomada justamente por um dos membros do “clube”, que continuou, a exemplo dos parceiros, a armazenar novos e mais arrasadores artefatos.
Por outro lado, analistas em estratégias militares garantem que existem, presentemente, também, em poder dessas mesmas potências artefatos químicos tão “eficazes” quanto o armamento atômico. O que dá para “garantir”, se da vontade dos “senhores das guerras”, o extermínio de qualquer forma de vida sobre a superfície planetária. Uma ligeira amostra dos danos de que essa parafernália bélica é capaz de provocar tem sido dada numa série de conflitos registrados, mundo afora, posteriormente à segunda guerra mundial. É só lembrar o que sucedeu no Vietnã, no Golfo Pérsico, no confronto Irã-Iraque. Aquele mesmo em que o ditador Saddan Hussein pôde contar com copioso fornecimento de armas e sólido apoio logístico dos antigos aliados e futuros arquiinimigos estadunidenses.
Não esquecer ainda que a bomba de hidrogênio, mais potente do que a atômica, ainda não foi testada em campo de batalha. Existe em quantidade suficiente para acabar com o mundo várias vezes. As estatísticas mencionam milhares de engenhos guardados em silos subterrâneos, porta-aviões, submarinos e aviões permanentemente, por “estratégicas precauções”, preparados para decolar. São coisas assim que fazem com que os guerreiros vocacionados se imaginem sempre, em sua paranóia destrutiva, próximos do Armagedon. Farejar o Armagedon é postura natural para os espíritos deformados que fazem das guerras um bom negócio. Não sei se alguém, dentre ocasionais leitores destas maltraçadas linhas, ainda se recorda de um estapafúrdio lance, de anos atrás, estampado em jornais televisivos, quando do conflito Irã-Iraque. Um empresário paulista, cheio de empáfia, fornecedor de equipamentos bélicos a um dos litigantes, envergando uniforme de campanha iraquiano, ocupou as câmeras de televisão no ridículo papel de comentarista. Empunhando uma vareta sobre imenso mapa, vangloriou-se da eficiência mortífera dos instrumentos produzidos em suas fábricas. O homem babava de contentamento, em delirante fantasia, com as revelações sobre os estragos que as armas estariam em condições de provocar. Sentia-se um pouco dono do mundo. Uma cena arrepiante, essa proporcionada pelo mercador de armas. A história mostra que tem gente poderosa, espalhada por esse mundo de Deus onde o diabo costuma plantar seus enclaves, raciocinando e agindo nos mesmos termos do babaca citado. Nem todos talvez possuídos da ânsia tresloucada de exibir seu pendor belicista e primitivismo via televisão. Gente perigosa, sempre de prontidão para atear fogo em tudo.
Hiroshima e Nagasaki, alvos civis atingidos em cheio pela insanidade bélica, legaram-nos uma mensagem. Uma mensagem contra todas as guerras. Não só contra a guerra atômica. Um clamor pela paz, originário dos recantos mais generosos da alma humana, em todas as latitudes. Bem apreendido, pode levar o ser humano a refletir melhor sobre suas origens e seu destino. Permite-lhe até sonhar com aquele instante ideal na aventura terrena em que toda a dinheirama gasta para produzir morte seja aplicada na celebração da vida. Em favor de pesquisas e ações que elevem os padrões do bem-estar, promovam a cura de doenças e a erradicação da miséria. São essas, aliás, as guerras que precisam ser combatidas por todos.
Palavra de Hiroshima. E de Nagasaki!

 
Hiroshima e Nagasaki

 Cesar Vanucci

“Meu Deus! O que foi que nós fizemos?”
(Robert Lewis, co-piloto da fortaleza voadora que lançou a bomba atômica sobre Hiroshima)
 
O mundo está a relembrar, nos dias que correm, o apavorante episódio que, há 75 anos, fez de Hiroshima e Nagasaki cidades-símbolos do holocausto.
A colossal tragédia já foi analisada em livros, reportagens, tribunas, atos cívicos, exposições, por historiadores, dirigentes políticos, militares, educadores, cientistas, gente do povo, pessoas que ajudaram a apertar o botão fatídico naquela manhã de agosto de 1945 e, também, como não poderia deixar de ser, por parentes das vítimas fatais e dos sobreviventes.
São relembranças que carregam no bojo uma profusão de versões. Há a versão dos vencidos e a versão dos vencedores. A versão dos estrategistas. A de cientistas que se ocupam com entusiasmo dos avanços tecnológicos da física e do ingresso da humanidade na era nuclear. E a dos humanistas, preocupados com os enfoques demasiadamente técnicos da questão. Existem, ainda, versões militar, jurídica, ética e moral. Todas escoradas numa superabundância de argumentos solidamente plantados nas mentes de seus propagadores.
Alega-se de um lado que, se os Estados Unidos não tivessem optado pela bomba, a invasão do Japão teria custado o sacrifício de 500 mil vidas americanas. Reforça-se a alegação com o argumento de que havia uma nova arma para ser empregada e que o país chegou primeiro que os adversários na disputa pelo domínio nuclear. Em contraposição, afiança-se que a estimativa de baixas na provável invasão foi ardilosamente exagerada, de modo a provocar comoção e justificar o lançamento do artefato. Os Estados Unidos bem que poderiam ter promovido, com a presença de observadores neutros e de representantes nipônicos, uma demonstração prévia do poder catastrófico da arma. O ato valeria como um ultimato e ao adversário, comprovadamente fragilizado àquela altura, não restaria alternativa que não a capitulação.
 No extenso capítulo da condenação à atitude dos vencedores sustenta-se ainda que a bomba foi lançada menos com o intuito de levar o Japão à rendição e mais com o sentido de protocolar um recado claro e explícito à União Soviética. Uma espécie de carta de apresentação, com currículo e referências à mostra, para o pós-guerra. Para a desgastante “guerra fria” que se estendeu, com muito sofrimento e angústia, até a Perestróica, a glasnost, a derrubada do famigerado “muro de Berlim” e o consequente desmoronamento da estrutura comunista. Os anos de chumbo da “guerra fria” foram marcados, todos sabem, pela ampliação do clube atômico, que absorveu como novos associados a Rússia e outros países da antiga União Soviética, a Inglaterra, a França, a China, a Índia, o Paquistão, o Israel, a Coréia do Norte e, provavelmente, a África do Sul. E sabe-se lá mais quem!... Só que os arsenais de agora fazem dos modelos, disparados contra alvos japoneses, autênticas peças de museu, valha-nos Deus!...
Outro argumento contestatório à posição estadunidense está contido na seguinte indagação: por que o repeteco, dias depois de Hiroshima, da bomba atirada em Nagasaki? Uma única bomba não teria sido suficiente para dobrar a arrogância do Império do Sol Nascente?
Nessa hora em que afloram relembranças do histórico acontecimento, não há como esquecer a atuação dos cientistas engajados no projeto concebido em Los Alamos. Receosos de que Hitler chegasse primeiro à construção da bomba, eles fizeram um apelo a Roosevelt para que apressasse as pesquisas. Depois dos eventos de Hiroshima e Nagasaki, muitos deles, como Robert Oppenheimer, ousaram propor a abolição das armas atômicas. Sofreram estrondosa e amarga desilusão. A questão já havia escapulido ao seu controle.

sábado, 29 de agosto de 2020


O amigo que nos deixou
Cesar Vanucci

“Cada qual tem seu dia marcado”.
(Virgílio)

Disse Camões: “As pessoas não morrem, partem primeiro”. Disse Richard Bach: “Existe um jeito simples de saber se está cumprida a missão de alguém. Se está vivo não está.” O que nem o poeta, nem o pensador disseram é que, na fase outonal da vida, a gente descobre, de súbito, que vai se tornando frequente a “partida primeiro”, bem cumprida a missão, de um punhado de amigos diletos. A lista dessas separações envoltas em saudade acaba de ser acrescida do nome de Silviano Cançado Azevedo, companheiro de jornadas memoráveis.
Cidadão de bem, engenheiro culto e capaz, dono de irradiante simpatia, este construtor do progresso deixou pegadas cintilantes em trilhas percorridas no rumo do desenvolvimento econômico e prosperidade social. Causa por ele perseguida com benfazeja obsessão. Desempenhou, com zelo e competência, funções executivas nas áreas pública e privada. O BDMG, a Secretaria de Estado da Indústria e Comércio, a Companhia de Distritos Industriais guardam, em seus acervos, anotações exuberantes de atos e decisões brotados de seu labor, talento e inventividade. Trabalhamos juntos, por longo espaço de tempo, no Sistema Fiemg. Eu, como Superintendente Geral; ele, como dinâmico coordenador do Conselho de Estudos Econômicos e, noutro período, como Superintendente de Cultura do Sesi.
A parceria rendeu frutos compensadores. Silviano passava para os colegas, continuamente, lições de vida impregnadas de otimismo. Sua crença em valores caros ao sentimento de brasilidade e ao sentimento comunitário era bem arraigada. Ele foi uma dessas criaturas raras, desprendidas e leais, que, antes de tudo mais, costumam encarar o trabalho, executado com afinco, espírito público e sensibilidade social, como recompensa do próprio trabalho.

· No dia em que o Brasil chegou a cem mil mortos pela Covid, sem qualquer sinal no ar de que a pandemia está se aproximando do fim, num suplemento da “Folha de São Paulo”, saiu estampado um poema de forte simbolismo. O texto é de autoria de W.H.Auden, traduzido por João Mostazo. Intitula-se “Blues fúnebre”. Tomo a liberdade de reproduzi-lo. “Parem os relógios, desliguem o telefone, / calem com um osso o cão que está com fome, / fechem o piano, abafem os tambores / para o caixão passar, cortejo e flores.// Deixem o avião rodar no céu / riscando esta palavra no ar: morreu. / Que a pomba use uma fita de amuleto / e o guarda tire a farda e vista preto. // Morreu. Era meu norte, era meu leste, / meu sul, meu sol, minha noite, meu oeste. / Meu canto, meu descanso, minha canção. / O amor era pra sempre, que ilusão. // Apaguem as estrelas, não servem de farol. / A Lua, guardem, que derreta o Sol. / O mar, recolham, varram as florestas / que nada me consola uma hora destas.”

sexta-feira, 21 de agosto de 2020


100 mil

Cesar Vanucci

O Brasil é um caso singular de fracasso no combate a pandemia”.
(Esther Dweck, Professora universitária)

Cem mil. A esta altura, já bem mais que isso. Cifra atordoante. Machuca bastante imaginar que muita coisa poderia ter sido feita, em termos de ação política e administrativa, de modo a evitar que a questão assumisse feitio catastrófico.
O negacionismo persistente, a ponto de causar forte irritação, por parte de personagens institucionalmente investidos da indeclinável responsabilidade de conduzir o processo de combate tenaz à pandemia, fez com que ela ganhasse proporções calamitosas. É o que demonstra, irrefutavelmente, avaliações comparativas entre o que está acontecendo por aqui e o que vem sucedendo noutras paragens do mundo. Todas elas, igualmente, molestadas pelo vírus impiedoso de origem misteriosa. Em matéria de vidas preciosas, aniquiladas em curtíssimo espaço de tempo, o corona provocou “impacto Hiroshima” na história do País.

Sem que se possa enxergar ainda luz redentora no final do túnel, nessa avassaladora progressão da enfermidade, as estatísticas continuam produzindo calafrios a cada boletim noticioso. O contingente de vitimas fatais no território nacional supera a população inteira de 95% dos municípios da Federação. Estamos colocados em incômodo segundo lugar, com a “possibilidade” até de superar os Estados Unidos, no macabro “ranking” de casos de contaminação e mortes. Naquele país irmão são 4 milhões e 90 mil infectados e 162 mil óbitos. Aqui, 3 milhões, 15 mil pessoas contaminadas e, no momento em que estas linhas são digitadas, quase 110 mil vítimas fatais. Índia (mais de um bilhão e  duzentos milhões de habitantes), China (1,5 bi de habitantes), Rússia (população superior a do Brasil), México, Chile, Peru, Inglaterra, Itália, França, Espanha, Irã, Japão, África do Sul, Canadá, Argentina estão, citando exemplos, posicionados abaixo do Brasil na tétrica marcha dos perturbadores algarismos.

Os dados oficiais vindos a lume têm, volta e meia, suscitado de certo modo alguns questionamentos. Analisando o quadro universal, há quem admita que Rússia e China, por exemplo, camuflem a realidade, por conta usual de transparência política. Estariam sonegando informações. O mesmo poderia estar ocorrendo também com a China, com seu modelo fechado de governança.

Relativamente ao próprio Brasil, aqui e ali espocam desconfianças quanto aos números divulgados. Eles não expressariam a realidade nua e crua. Os jornalistas Fábio Dakabashi e Flávia Faria, comentando os desnorteantes 100 mil, asseveram que o “marco alcançado é relevante”. “Porém – acrescentam –, este marco é calcado em dados imprecisos.” “Ele (marco) desperta a oportunidade de fazer um balanço da extensão da doença, das ações de gestores e da população. Mas foi agora mesmo que se chegou aos 100.000 mortos no Brasil? Categoricamente, não!”

Seja como for, são fartas as evidências acumuladas, em observações aguçadas do problema, das devastadoras consequências da pandemia no cenário nacional. As circunstâncias de o número de habitantes em nosso país representar pouco mais de 2,5% da população universal e de o número de mortos pela Covid-19 somar quase 15% dos casos fatídicos apontados nas estatísticas globais são revelações eloquentes de que muita coisa vem funcionando de mal a pior no enfrentamento, nestes nossos pagos, do flagelo que se abateu sobre a humanidade. As causas dessa colossal encrenca político - administrativo têm “explicação”: inabilidade gerencial, autossuficiência embriagante, negligência, despreparo gritante para exercício de liderança, insensibilidade social. E por aí vai...

100.000 mortos. Já mais até do que isso. Não precisava ter sido assim! Teria bastado um pouco de bom-senso, disposição para servir e sintonia verdadeira com o sentimento nacional.


Anestésicos, desembargador, Trump e estátuas

Cesar Vanucci

“Cê sabe com quem está falando?”
(Indagou insolentemente o magistrado ao ser alertado 
pelo guarda sobre o uso da máscara)

· A balbúrdia é tamanha que, talvez, a gente esteja até interpretando equivocadamente o que leu ou ouviu. A inverossímil resenha dos fatos mostra que, nos hospitais e demais unidades de atendimento aos cidadãos atacados pela “gripezinha”, andam faltando, de forma mais que preocupante – diríamos, calamitosa -, medicamentos essenciais para salvar vidas preciosas. Tipo, por exemplo, sedativos, anestésicos, oxigênio, produtos indispensáveis para amenizar padecimentos de enfermos em estado crítico. A aquisição de tais insumos, conforme denúncias de médicos e enfermeiros que atuam na linha de frente no tratamento aos pacientes, vem sendo colocada em segundo plano. Enquanto isso, a compra de cloroquina, remédio de eficácia questionada pela OMS e entidades médicas, acusa quantitativos exagerados, gerando desnecessários estoques nos almoxarifados da saúde pública. Como dito no preâmbulo: difícil pacas compreender as razões desse tão inusitado procedimento das autoridades competentes.


· S.Exa., o desembargador, foi pego em flagrante, numa praia do litoral paulista, a arrotar prepotência. Despejou “em riba” de um guarda municipal, ao ser alertado sobre o uso obrigatório de máscara protetora em via pública, o célebre “Cê sabe com quem está falando?” Como se diz no popular, “soltou os cachorros” numa tentativa de intimidar alguém que, em ação profissional e pedagógica, apontou-lhe obrigação de cidadania. A ocorrência, mostrada na televisão, chamou a atenção da corregedoria do Judiciário. Consulta aos arquivos do Tribunal de Justiça de São Paulo revelou que a folha corrida do dito cujo acusa 41 infrações disciplinares. Dá pra imaginar as “aprontações” desse cara nas decisões proferidas ao longo de extensa carreira como magistrado?


· O livro de uma sobrinha rebelde está colocando a família de Donald Trump em polvorosa. “Trump é incapaz de crescer, aprender ou evoluir, incapaz de moderar suas emoções e suas reações”, anota, ferina, Mary Trump. A autora, 55 anos, traz a público revelações chocantes, apresentando-as como memorias de sua convivência com o tio, sobretudo ligadas aos tempos da infância e adolescência passados na residência em que Donald cresceu, no bairro Queen, Nova Iorque. O título da obra resume o conceito que a sobrinha tem de seu famoso parente: “Demais e nunca o bastante – como minha família criou o homem mais perigoso do mundo”. Segundo noticiário, a família tentou bloquear a publicação, com base na alegação de que havia um acordo de confidencialidade. Mas o argumento não colou. Em curto espaço de tempo, o dirigente do mais poderoso país do mundo conseguiu a “façanha” de se ver retratado pejorativamente por duas testemunhas oculares bem próximas de sua trajetória pública e privada. Antes da sobrinha quem andou lançando livro, relatando as entranhas da controvertida política externa conduzida por Trump, foi seu ex-assessor de segurança nacional, John Polton.


· No auge das recentes manifestações de rua, de repúdio ao racismo, ocorreu, em vários lugares, a derrubada de estátuas erguidas, no passado, com o intuito de enaltecer personagens históricos. No alvo dos ativistas foram colocadas esculturas representativas dos tempos da escravidão e das descobertas marítimas colonizadoras. Além daquele episódio, que absorveu vistosas manchetes, do busto de um mercador de escravos inglês retirado do pedestal, posto a rolar rua abaixo e lançado no fundo do rio, numa cidade próxima a Londres, foram registrados, nessa onda de reações populares, mais esses incidentes, dignos de nota, abaixo sublinhados.
Em Washington, Estados Unidos, a estátua do general confederado Albert Pike ficou inteiramente destruída. Em Watesbury, Connecticut, também nos Estados Unidos, a estátua de Cristóvão Colombo foi decepada. Aconteceu a mesma coisa em Boston. Na Inglaterra, outra vez, a escultura de Robert Mulligan, figura ligada a atividades escravagistas, foi retirada de um parque público. Noutros lugares – Bélgica, Groelândia, França, para nos limitarmos a poucos exemplos -, em cidades americanas de forma mais pronunciada, marcos de registros variados, afixados para celebrar pessoas e acontecimentos de outras épocas, foram pichados ou danificados. Pelo visto, as manifestações antirracistas fizeram com que algumas estátuas, projetadas com fitos comemorativos, perdessem sua majestade...


quinta-feira, 13 de agosto de 2020


A palavra dos Bispos

Cesar Vanucci

“Todos (...) seremos julgados pelas ações ou omissões.”
(Trecho de documento divulgado por quase duas
centenas de Bispos e Arcebispos da Igreja Católica no Brasil)

Com a clarividência que é de se esperar de uma liderança espiritual verdadeiramente compromissada com sua nobre missão apostólica, centenas de Bispos, Arcebispos, Cardeal entre eles, tornaram pública uma candente manifestação sobre a conjuntura política e social brasileira. O documento, intitulado “Carta ao povo de Deus”, começa por lembrar que nosso País atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, vivendo “uma tempestade perfeita”.
A tempestade, sustentam os Prelados, combina “uma crise sem precedentes na saúde” e um “avassalador colapso na economia”, com tensões que pressionam “fundamentos da República”, provocadas em grande medida pela equivocada atuação dos governantes. Tudo isso – ressalta-se – conduz a uma profunda crise política e de governança.
Sem meias palavras, os signatários da Carta, quase duas centenas de dirigentes eclesiásticos da Igreja Católica, asseveram que a avaliação do cenário político permite perceber, sem paixões, com nitidez, “a incapacidade e a inabilidade do governo federal em enfrentar essas crises.” “Assistimos sistematicamente – pontua-se no documento – a discursos antidemocráticos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortos pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino.”
Os dirigentes religiosos declaram-se sumamente preocupados, também, com “o caos socioeconômico que se avizinha, trazendo desemprego e carestia, projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam a manutenção do poder a qualquer preço”. Afirmam, peremptoriamente, que os discurso e posicionamentos adotados “não se baseiam nos princípios éticos e morais, tampouco suportam ser confrontados com a tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.
Com foco na necessidade urgente das reformas estruturais, os Bispos e Arcebispos condenam as alterações promovidas na Previdência Social e legislação trabalhista. Segundo alegam, ambas, “tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo.” Enfatizando que o Brasil carece de reformas, explicam que as medidas almejadas pela comunidade não poderão oferecer resultados que “piorem a vida dos pobres, desprotejam vulneráveis”.
Criticam, ainda, “a liberação do uso de agrotóxicos antes proibidos e o afrouxamento do controle de desmatamentos”, atitudes que “não favorecem o bem comum e a paz social”. O documento classifica de “insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”. O “sistema do atual governo” - diz ainda o texto – não coloca no centro das cogitações a pessoa humana e o bem geral, “mas a defesa intransigente da economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”.
O pronunciamento menciona, também, que “o desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia” é de maneira a causar estarrecimento, ficando visíveis nas demonstrações hostis à educação pública e no “apelo a ideias obscurantistas”.
Na manifestação ganha destaque o que é classificado como “uso da religião para manipular sentimentos e crenças, provocando tensões entre igrejas”. “Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário”, segue o documento.
Os religiosos pedem serenidade, compreensão, disposição de luta a todos que detenham influência nas decisões voltadas para a causa do desenvolvimento, no sentido de contribuírem para a abertura de “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade objetivando seja restabelecido o respeito à Constituição Federal  e ao Estado Democrático de Direito.”
Sublinham, por derradeiro, que “todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador”.
Assim falaram os Bispos. Com sabedoria traduziram, na “Carta ao Povo de Deus”, anseios legítimos de segmentos majoritários da sociedade.


Vacina(s) à vista

Cesar Vanucci

“Por que o pessoal não se junta pra apressar a solução do angustiante problema?”
(Pergunta ouvida num bate-papo domingueiro em que o médico infectologista explicava para familiares o estágio atual das pesquisas referentes à vacina contra o coronavirus)

· As buscas pela vacina. Na tradicional reunião domingueira, o avô, médico infectologista renomado, explica a familiares o que anda pintando no pedaço científico, no que concerne ao “resfriadozinho”. O relato passado vem resumido na sequência. A OMS assevera   que a solução do baita problema do coronavírus vai custar a chegar.  A Rússia anuncia para outubro a aplicação em massa de providencial vacina. No Reino Unido, proclama-se que a Universidade de Oxford está próxima do antídoto capaz de debelar o flagelo. As pesquisas a respeito, bem avançadas, envolvem inclusive participação de brasileiros. Ainda em nosso país, está sendo desenvolvida, igualmente em estágio de testes com voluntários, uma outra pesquisa coordenada por órgão científico chinês. O governo de São Paulo admite mesmo que um remédio preventivo possa ficar pronto a partir de outubro. Nos Estados Unidos, onde várias organizações se empenham em promissoras investigações que levem a próximo lançamento de medicamento eficaz, o Presidente Donald Trump, com sua costumeira arrogância imperial, berra a plenos pulmões estar apto a oferecer, como já quis fazer(ou fez) no tocante     às encomendas emergenciais de respiradouros, imbatível lance para eventuais aquisições de toda a produção disponível de vacina que surja em qualquer lugar do mundo. Levantamento recente anota serem em número de 161, mundo afora, os grupos febrilmente engajados em alentadoras buscas da fórmula farmacêutica em condições de libertar a humanidade da pandemia.
Neste exato momento da dissertação do avô médico, o neto Expedito, 21 anos, estudante de Ciências Sociais, agilidade de raciocínio fazendo jus ao nome, toma da palavra e deixa cair: - “Cumé? Isso mesmo, 161 grupos de pesquisa? Escuta aqui: não seria mais prático, mais objetivo e eficiente, mais condizente com o bem-estar social, reunir num único lugar os melhores cérebros de todas essas equipes pra uma ampla, geral e irrestrita troca de informações sobre o que sabem e, assim, conjuntamente, chegarem mais rapidamente à solução que todos procuram separadamente?”
O avô, com o queixo apoiado na mão em gesto pensativo, responde: – “Falar verdade, não sei o que dizer”.
Expedito retorna: - “Quer saber duma coisa, minha gente? Do que o mundo anda mais precisado - é só botar tento nas mazelas soltas na praça – é de uma vacina potente pra acabar com o egoísmo, a soberba e a insensatez...” Nada mais disse, nem lhe foi perguntado.

·  Ajuda emergencial. O auxílio emergencial concedido pelo governo, apesar dos pesares, derivados da inadaptação burocrática para prestação de um atendimento menos tumultuado aos beneficiários, tem contribuído, sem sombra de dúvida, para reduzir o sufoco financeiro da parte socialmente mais vulnerável da população. Já, agora, o esquema de socorro montado com o objetivo de suprir carências imediatas das pequenas e médias empresas, não conseguiu, jeito maneira, engrenar. Bastante razoável na teoria, consideradas as circunstâncias confrontadas pelos empreendedores neste aflitivo instante econômico e social, a ajuda em questão está demorando a chegar aos interessados. As dificuldades provêm, em grande dose, dos arbitrários “prolegômenos” concebidos pelo sistema bancário para liberação dos recursos. A rede creditícia, só pra variar, procura distanciar-se, o mais que pode, de compromisso formal e permanente com a promoção social. Reserva prioridade absoluta para os números, sempre ascendentes, dos balanços trimestrais. Tal conduta em nada contribui para “aliviar a barra” de setores produtivos que respondem por volume altamente expressivo na ocupação laboral. Cabe lembrar, focados ainda na política de créditos e financiamentos, que não tem repercutido, nos termos desejáveis, nos guichês das agências bancárias, o correto esforço oficial em favor da redução da taxa Selic. Este instrumento regulador do mercado financeiro acha-se situado, na atualidade, no mais baixo nível do ciclo histórico. Nada obstante, os tomadores de empréstimos continuam sendo onerados, nas operações, por escorchantes juros. Não é a toa que os negócios, nestas bandas ao sul do Equador, proporcionam ao sistema bancário os mais estrondosos resultados. Coisa de dar “santa inveja” nos dirigentes das organizações congêneres doutras paragens.


A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...