sábado, 21 de novembro de 2020

 A cor do gato

 

Cesar Vanucci

 

“Vacinação em massa e gratuita”

(Joseph Biden, presidente do EUA)

 

Assim que definida, de modo insofismável, sua escolha como presidente dos Estados Unidos da América, Joseph Biden anunciou vacinação gratuita contra o Covid-19 para todos. Traduziu irrefreável vontade das ruas. Todas elas. Ruas de seu país. Ruas do mundo inteiro.

Uma vacina que seja capaz de assegurar imunização contra o flagelo que açoita a humanidade constitui, certeiramente, nesta quadra da existência humana, aspiração suprema ardentemente compartilhada pela gente do povo em todos os quadrantes do planeta. Independentemente de nacionalidade, cultura, etnia, credo, idioma, hábitos comportamentais, condição social, todos, em todos os lugares, anseiam pelo momento histórico em que a Ciência irá fazer uma proclamação liberando a fórmula, ou as fórmulas farmacêuticas eficazes para o combate vitorioso ao vírus letal. Tanto as lideranças conscientes, quanto a opinião pública compenetrada de suas prerrogativas nas práticas cidadãs estão suficientemente informadas de que a ela, Ciência, é que toca proferir a decisão acerca dos procedimentos corretos a serem adotados, na momentosa questão da vacinação, no sentido de garantir a almejada proteção das populações.

A “politização da vacina”, acirrando fastidiosas polêmicas, dando vaza a egocentrismos e a reações demagógicas, bem como a manifestações histéricas fundamentalistas e teorias conspiratórias dos “terraplanistas” de carteirinha, coloca em desconforto a sociedade. Agride o sentimento das ruas. O sentimento nacional. Traz desassossego e confusão. O bom-senso e o acatamento comunitário confiante às recomendações emanadas das instituições científicas oferecem blindagem contra esses fatores de distorção dos fatos e de negacionismos mórbidos e persistentes.

Um velho ditado anota que não importa a cor do gato, o que importa mesmo é que ele, gato, pegue o rato. Trazendo o emblemático conceito para a faixa cotidiana em que ocorrem as estéreis discussões provocadas por uma minoria barulhenta, é o caso de se afirmar, em alto tom, não importar coisa nenhuma que a vacina seja inglesa, americana, chinesa, australiana, alemã, canadense, russa. O que importa, de verdade, é que ela imunize as pessoas contra a enfermidade. Assegure proteção ampla, geral, irrestrita, tenha efeitos duradouros e, quem sabe até, definitivos.

Há uma “torcida uniformizada” global aí, carregada de esperança, aguardando que todos os experimentos laboratoriais em curso cheguem, no mais curto espaço possível, e, se possível também, todos ao mesmo tempo, ao derradeiro e redentor objetivo. E que, ainda, as vacinas possam, todas elas, ser produzidas em escala volumosa suficiente de modo a favorecer utilização maciça imediata, a custo zero, pelas multidões.

A propósito, o provérbio acima citado é chinês. Seu entendimento, universal.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

 

Fábrica de moleque malcriado...

 

Cesar Vanucci

 

“Nenhum taverneiro poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira..."

(De um edital da Câmara da Vila de Catimbal, Minas Gerais, publicado no ano de 1868)

 

Na reorganização, tempos atrás, de minha biblioteca, meti a mão no fundo do baú, desencavando algumas preciosidades em matéria de livros e textos soltos. Foi assim que andei redescobrindo um exemplar do “Elixir do Pagé”, sobre o qual João Dornas Filho assim se expressa: “Um injustiçado pudor sempre dificultou a leitura do que eu considero os melhores versos de Bernardo Guimarães, os seus poemas eróticos. Sugeri, por mais de uma vez, a inclusão desses versos numa antologia galante, que contivesse outras joias líricas da nossa poesia e continuo a pensar que constituiriam um escrínio precioso da nossa poética”.

 

Uma outra publicação rara, ofertada pelo próprio autor, a pessoa de meu apreço pessoal por ocasião de visita que lhe fez, na década de 30, em sua fazenda em Ponte Nova, é o livro que contém o desassombrado pronunciamento nacionalista de Arthur Bernardes, na sessão de 18 de junho de 1937, na Câmara dos Deputados, sobre a Itabira Iron.

Sem que me veja em condições de poder explicar em detalhes, recorrendo apenasmente à memória, como foram parar em meus “arquivos implacáveis”, deparei-me, também, nessa mexida, com documentos de nítido caráter picaresco que me disponho, agora e em dois outros momentos na sequência, pelo seu sabor hilário, a trazer ao conhecimento de meus preclaros leitores. Os textos republicados ajudam a quebrar a sisudez dos comentários sobre a temática política e econômica desta hora de pandemia e pandemônio.

 

O que vem aí é a transcrição de uma portaria editada pela Câmara Municipal de Catimbau, Província de Minas Gerais, no ano de 1868. Foi encontrada nos arquivos do INPM.

“Antônio Pires de Noronha Franco, fiscal aprovado pela Câmara desta Vila de Catimbau Minas Gerais:

Faço saber aos povos desta vara que no dia 1° do mês que vem sairei em triunfo de correção aferindo os pesos de todos, bem como as respectivas.

Art. 1°- Ficam proibidos os regos. Aqueles que não mandarem tapar os que tiverem, bem como todos buracos, serão multados em 20$000 cobre.

Art. 2°- Nenhum animal de ordem das cabras poderá roer pelo vizindário.

Art. 3°- Nenhum negociante ou taverneiro, ainda mesmo Coronel da Guarda Nacional, poderá vender farinha em cuia, que é ladroeira.

Art. 4°- Negro sem bilhete, tarde da noite na rua, é ladrão. Multa no senhor de 6$000.

Art. 5°- Português de braço dado com negra cativa, alta noite, é fábrica de moleque malcriado e sem-vergonha. Cadeia nos dois, um em cada xadrez, para evitar dúvidas.

Art. 6°- Boi ou vaca deitado na rua de noite, sem lamparina no chifre, do modo que os andantes não o vejam bem, multa de 5$000.

E para que não digam que não sabiam mando afixar este edital e mais outro na porta de frente e de trás do boticário, que é o lugar onde se fala da vida alheia.

Em 4 de março de 1868.”

 

Ofereço, na sequência, a transcrição de uma decisão distribuída no âmbito do Juizado de Direito da comarca de Porto de Folha, Bahia, datada de 15 de outubro de 1833.

 

De xumbregância e capadura...                                                           

Cesar Vanuccci 


“A capadura deverá ser a macete."

(Decisão judicial de 1833)

 

No documento abaixo transcrito, que desencavei do fundo do baú, conta-se como o cabra da peste Manoel Duda, por causa de malefícios praticados contra a mulher de Xico Bento, foi condenado à capação a macete, nos idos de 1833, na comarca de Porto de Folha. Já na súmula da decisão, é sublinhado que “comete pecado mortal o indivíduo que (...) faz coças de suas victimas desejando a mulher do próximo para (...) suas chumbregâncias”.

 

A decisão do Juiz Municipal, acolhendo representação da Promotoria, é abaixo reproduzida, respeitada a ortografia original, inclusive com a expressão xumbregância grafada com “ch”.

 

“VISTOS, ETC.

 

O adjunto de Promotor Público, representa contra o cabra Manoel Duda, porque no dia 11 do mês de Nossa Senhora Sant’anna, quando a mulher do Xico Bento ia para fonte, o supracito cabra que estava de tocaia em uma moita de mato sahiu della de supetão e fez proposta a dita mulher (...), para coisa que não se pode trazer a lume, e como ella se recusasse, o dito cabra abrafolou-se ella, (...) deixando as encomendas della de fora e ao Deus dará, e não conseguio matrimonio porque ella gritou e veio em assucare della Nocreto Correia e Clementos Barbosa, que prenderam o cujo em flagrante, e pediu a condenação delle como incruso nas penas de tentativas de matrimonio proibido (...). As testemunhas, duas são de vista porque chegaram no flagrante e bisparam a perversidade do cabra (...). Dizem as leises que duas testemunhas que assistam a qualquer nauvrágio do sucesso faz prova (...):

 

CONSIDERO – que o cabra Manoel Duda, agrediu a mulher do Xico Bento por quem roia a brocha, para conxambrar, com ella, coisas que só o marido della, competia eonxambrar, porque eram casados pelo regime da Santa Igreja Catholica Romana; - que o cabra deitou a paciente no chão e quando ia começar as suas conxambranças, viu todas as encomendas della que só o marido tinha o direito de ver; - que a paciente estava peijada e que em conseqüência do sucedido, deu à luz de um menino macho que nasceu morto; - que o cabra é um suplicante deboxado que nunca soube respeitar as famílias, tanto que quis também fazer comxumbranças com a Quitéria e Clarinha, que são moças donzellas, e não conseguio porque ellas repugnaram e deram aviso a polícia;- que Manoel Duda é um sujeito perigoso e que não tiver uma causa que atalhe a perigança delle, amanhã está metendo medo até nos homens por vias das suas patifarias e deboxes; - que Manoel Duda está em pecado mortal porque nos Mandamentos da Igreja é proibido desejar a mulher do próximo (...); - que sua Majestade Imperial (...) precisa ficar livre do cabra Manoel Duda para secula, seculorum amém, arrefem dos deboxes e semveregonhesas por elle praticados.

 

POSTO QUE:

Condeno o cabra Manoel Duda, pelo malifício que fez a mulher do Xico Bento (...) a ser CAPADO, capadura que deverá ser feita A MACETE.

 

A execução deverá ser feita na cadeia desta Villa, Nomeio carrasco o Carcereiro. Feita a capação depos de 30 dias o mesmo Carcereiro solte o cujo cabra para que se vá em paz. O nosso prior aconselha – Homine debochado eboxatus mulherorum inovocabus est sententias quibus capare est macete macetorim carrascus sine facto nortre negare pete.

 

Cumpra-se e apregue-se editaes nos lugares publicos. Apelo ex oficio desta sentença para o Dr. Juiz de Direito desta Comarca.

Porto de Folha, 15 de outubro de 1833

a)  Manoel Fernandes dos Santos, Juiz Municipal suplente em exercício”.

 

Um tal Dionísio...


Cesar Vanucci


“Em minha humilde opinião, ele deve ser enforcado e ficar na forca até feder."

(Trecho da correspondência do Juiz de Paz de um lugarejo baiano a Dom Pedro II)

 

Incomodado com a presença, no lugarejo em que pontificava como representante supremo da lei e da ordem, de um tal Dionísio, pelo visto “republicano bagunceiro e anti-clerical incorrigível”, Antônio Pires de Oliveira, também conhecido por Tonico Paçoca, no exercício de suas elevadas funções de Juiz de Paz, resolveu manter em cativeiro o “perigosíssimo anarquista”, aplicando-lhe severos corretivos. Entendeu também de seu indeclinável dever dar conta a Sua Alteza, o Imperador Dom Pedro II, dos “malfeitos” provocados em seus pagos pelo “indigitado subversivo”. A inusitada ocorrência, registrada no Arraial de Sapecado, Província da Bahia, no ano da graça de mil oitocentos e setenta e cinco, vem relatada com pormenores em pitoresco ofício. O texto do Tonico Paçoca foi reproduzido, alguns anos atrás, numa revista da capital da Bahia, “Mensageiro da fé”.

 

Protestante, maçon e republicano, o tal de Dionísio passou maus bocados nas mãos do zeloso guardião dos valores imperiais, morais e cristãos, pelo que se deduz da missiva. Conservamos na reprodução aqui trazida, a ortografia utilizada na correspondência ao Imperador.

 

“Ilmo. Sr. Imperadô,

Antônio Pires de Oliveira, vurgamente conhecido por Tonico Paçoca, moradô no arraiá do Sapecado e juis de pais do mesmo mencionado arraiá, vem por meio da presente adeclará para voça ecelentícima o que abaixo vai dizê: Appareceu por aqui “um tar de Diunizo” que intentô virá o povo na lei do protestante, maçono e arrepublicano, adeclarando que voça Sinhoria é um bobo que faz de nóis pau de amarrá égua. Eu, im vista da formação que tive por quexa do spetor, prendi em sufragante o referido Diunizo que se acha amarrado legalmente dos péis e das mãos, em corda, pur não havê argema, e purtanto eu peço a voça Sinhoria que me arresponda o que qué que eu faça do bicho, o quar eu tenho martratado pior du que um caxoro.

Na minha mirde opinião ele deve sê enforcado e ficá na forca até fedê, porque não é brinquedo a bobage que ele bota em voça Sinhoria de todo nome feio e eu já quiz dá nelle promorde as injurias que esse tranca diz a seu respeito.

Espero a sua resposta pra meu gunvernu.

No mais pro sê.

Seu amigo e defensô perpetu.

(a) Antonio Pire de Oliveira

-- Dado e paçado no arraiá do Sapecado no dia 28 de fevereiro do anno que estamos n’ele”.

sexta-feira, 30 de outubro de 2020

 Os dados intrigantes da OCDE

 

Cesar Vanucci

 

“Ao contrário do que alegam,

o Estado brasileiro não é inchado.”

(Carlos Drummond, jornalista)

 

Fiquei deveras surpreso e intrigado ao inteirar-me, de repente, de dados divulgados pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), em análise comparativa a respeito das políticas tributária e administrativa dos países que integram a instituição. Ou seja, países detentores das economias mais pujantes do planeta, o Brasil entre eles.

 Em extensa atividade como jornalista, a exemplo de tanta gente, absorvi com tranquilidade, sem questionamentos, as informações fortemente enraizadas no conhecimento popular, retumbantemente difundidas em palanques, tribunas, artigos, por líderes políticos, classistas, empresariais e de outros setores, de que o Brasil ocupa, tradicionalmente, incômoda dianteira no concerto das nações, em matéria de custos tributários e de exagero na composição do quadro de servidores encarregado de movimentar as engrenagens burocráticas do Estado.

 Mas não é que os dados da OCDE se contrapõem ruidosamente a essas versões! Registram, muito antes, pelo contrário, que a posição brasileira é na “rabeira”, não na dianteira nessas classificações! Antes de passar aos números e índices das inesperadas revelações, cuidemos de explicar o que vem a ser a OCDE. Aglutinando 37 países – os de maior PIB, repita-se -, ela se dedica à promoção de padrões convergentes em vários temas, como questões econômicas, financeiras, comerciais, sociais e ambientais, fornecendo contribuição às políticas públicas executadas por seus integrantes. Os encontros e debates que promove permitem troca de experiências e apoio a iniciativas em áreas diversificadas da atuação governamental. O trabalho executado reúne cerca de 200 comitês e forças-tarefas, abrangendo concurso de 40.000 funcionários de governo, membros da sociedade civil e representantes do setor privado. Calcula-se sejam realizadas, nessas ações, duas mil reuniões por ano. A OCDE busca definições, medidas e conceitos que possibilitem comparações em problemas similares confrontados pelos países. Fomenta enfoques comuns para políticas públicas. A vinculação do Brasil à OCDE começou na década de 90. A relação foi beneficiada com a decisão da entidade de estreitar contatos com países selecionados por seu potencial de expansão econômica.

 Chega, agora o momento de anotar os índices comparativos que divergem dos argumentos, amplamente propagados, de que o Brasil tributa muito mais que os outros países e de que nossa máquina burocrática seja inchada, comportando contingente exagerado de servidores.

 Entre 37 países analisados, ostentando índice de 35,6 por cento com referência ao PIB, nosso país, segundo a OCDE, está em 29º lugar. O índice médio do conjunto de países é superior ao nosso: 42,4 por cento. A Dinamarca, com índice de 56%, é o Estado que mais tributa. Acima da posição do Brasil colocam-se, entre outros, a Grã-Bretanha, Alemanha, Espanha, Portugal, Holanda, Áustria, Suécia, Finlândia.

 Na comparação internacional correspondente à mão de obra empregada no serviço público, a posição brasileira é de 32º lugar no contexto das nações. O indicador é de 12,1% relativamente à população ocupada. Nos demais países avaliados, o índice é quase o dobro: 21,9%. Também, nesse capítulo, a Dinamarca, com 34,9%, é o país que mais funcionários arregimenta. Nesse item, só quatro países vêm abaixo do Brasil: México, Chile, Japão e Coréia do Sul.

 Os quadros comparativos em que se baseiam estas considerações constam de trabalho do renomado jornalista Carlos Drummond, na “CartaCapital”, sobre a Reforma Tributária em estudo no Congresso Nacional. Volto a dizer: os indicadores deixaram-me intrigado.

 · Guardiões talebanistas. Mais essa agora: “Guardiões do Crivella”! Num Rio de Janeiro já acuado pelas milícias, pela “corrupção institucionalizada”, pelas quadrilhas do tráfico de drogas, pela ferocidade de segmentos policiais, surge agora, para atazanar ainda mais a paciência da população, uma falange, composta de “voluntários”, com o objetivo de intimidar, nas portas dos hospitais, cidadãos em busca de informações sobre pacientes internados. A ação irada dos “guardiões”, em boa parte recrutados nos quadros do funcionalismo público, contempla preferencialmente jornalistas encarregados da cobertura de fatos ligados ao flagelo da Covid-19. Essa mais recente ofensiva de intolerância talebanista, registrada na cena carioca, agride acintosamente os preceitos democráticos.

 

 

Antes da vacina chegar

 

Cesar Vanucci

 

“O ideal seria contar com um antivírus especifico,

com alta eficácia, como as drogas para Aids.”

(Dráuzio Varela, em entrevista a Mino Carta)

 

Dráuzio Varela, aclamado cientista brasileiro, de renome internacional, inspira-se nos bons resultados alcançados no combate à Aids para apostar na pesquisa com o retrovírus no enfrentamento da Covid-19. Ele acredita que um coquetel de drogas pode surtir efeitos positivos, enquanto a vacina não chega. Explica seu ponto de vista em momentosa entrevista concedida a Mino Carta, um dos mais influentes jornalistas do país, diretor da apreciada revista “CartaCapital”. Da entrevista, estampada na edição de 23 de setembro último, tomo a liberdade de reproduzir, na sequência, alguns trechos significativos.

 O entrevistador indaga: “A esperança do mundo concentra-se na vacina. É esta a solução?” Dráuzio responde: “Não é uma solução milagrosa, primeiro a vacina vai proteger 98 por cento dos infectados? Nenhum cientista diz isso. Quem tomar a vacina vai ter uma resposta duradoura? A gente também não sabe. Sabemos, isto sim, que a vacina ítalo-inglesa, que está sendo produzida em Oxford e comercializada pela AstraZeneca, vai precisar de duas doses. A vacina da Cynovac, que está sendo testada pelo grupo do Butantã, também vai precisar de duas doses. Será que a imunidade vai ser suficiente para proteger a gente por anos? Nós não sabemos. A vacina da gripe, por exemplo, tem de ser tomada todos os anos. Eu acredito haver uma alternativa para desenvolvimento de uma substância antiviral. Está claro que não é a cloroquina. Ao contrair uma gripe comum, você começa o dia com o corpo meio quebrado, meio cansado, no outro dia você está com febre, que pode ser alta, coriza, dores no corpo. Em 24, 48 horas, desenvolvemos a gripe. Mas com essa doença não. Com essa doença a pessoa pega o vírus. Qual é o sintoma? Você vai tomar café e não sente o perfume, fica um pouco enjoado, mas a primeira semana decorre mais ou menos normalmente, nos primeiros dias, a pessoa tem sintomas gripais muito leves até. Depois do quinto, sexto, sétimo dia, ela piora, abre-se então uma janela de tratamento. O ideal seria contar com um antivírus especifico, com alta eficácia, como temos as drogas para Aids. Diziam que para Aids era impossível conseguir e hoje você pega uma pessoa HIV positivo, toma a medicação e o paciente vive 20 anos sem manifestar a doença. Nós temos drogas altamente eficazes de alta potência contra o HIV, então por que não podem desenvolver outras contra o coronavírus?”

 Adiante, Dráuzio Varela responde assim à pergunta “E que dizer da segunda onda que ocorre em muitos países?”: “Olha, eu tenho muita dificuldade em aceitar essa chamada segunda onda como uma entidade separada da primeira. Acho que, na verdade, os países estão vivendo a mesma onda que começou lá atrás e tem períodos de calmaria. A partir do momento que as pessoas começam a se movimentar e a se aglomerar, a doença volta a atacar mais gente. Também acho que há uma onda única que responde às aglomerações, aumentando o número de casos e infecções. Se fazem isolamentos, caem os níveis de infecções e de casos confirmados. O exemplo de Israel é bem típico, lá eles voltaram ao lockdown completo porque os casos estão aumentando, como estão aumentando também na Espanha e na França. Aquela ideia de que teríamos um pico e do pico os casos cairiam rapidamente, e pronto, estaríamos livres. Com a gripe espanhola foi assim, ela chegou dizimando populações. Em dois meses, no surto de 18, a doença foi embora. Isso porque a gripe infectou uma massa muito grande e aí passa a ter essa imunidade coletiva mais depressa. Mas com o coronavírus não vai ser assim, as infecções podem seguir persistindo.”

 A entrevista é longa e rica em considerações sobre questões de saúde pública. Dráuzio Varela afiança existirem motivos de sobra para os brasileiros se sentirem “orgulhosos de nosso Sistema Único de Saúde (SUS)”. Lembra que, no mundo inteiro, “nenhum país, com mais de 100 milhões de habitantes, ousou oferecer saúde pública para todos”.

 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

 

As duas frentes de luta na Amazônia

 

Cesar Vanucci

 

“A Amazônia corre risco permanente por causa

da devastação e por causa da cobiça estrangeira.”

(Antonio Luiz da Costa, educador)

 

Cobiça estrangeira e devastação florestal. Na atilada percepção da sociedade brasileira são duas questões candentes que comportam ser enfrentadas, a um só tempo, com máxima disposição e destemor.

 

Minimizar a gravidade da ação predatória, fora de controle, detectada no fabuloso bioma amazônico, atribuindo a divulgação persistente, sobre o que vem acontecendo, exclusivamente a grupos que, lá fora, promovem permanentemente articulações no sentido de obter acesso livre, para explorá-las a bel prazer, às prodigiosas riquezas dos dadivosos solo e subsolo, não representa, de maneira alguma, a verdade fatual. É certo, absolutamente certo – não há como negar -, que grupos e personagens influentes, das mais diferentes nacionalidades, ora dissimuladamente, ora às escancaras, defendem a estapafúrdia tese de que a Amazônia é região a ser internacionalizada. No momento presente, esses setores se mostram mais alvoroçados que de costume, em seus destemperos verbais, por causa justamente do volume mais intenso, escorado em recordes históricos, das queimadas despropositadas nos principais biomas de nosso país.

 

Cabe, obviamente, ao Governo brasileiro tomar a si a responsabilidade de repelir, com toda a veemência, de conformidade com o sentimento nacional, quaisquer ações oriundas de tais grupos e personagens, que, agora e sempre, atentem contra nossa soberania. A Amazônia é brasileira e os problemas a ela atinentes dizem respeito tão somente à Nação brasileira.

 

A atitude de repulsa do Brasil a qualquer intromissão terá que levar em conta, naturalmente, outros aspectos. Por exemplo: que história mais insana é essa de cartilhas escolares, em alguns países ditos amigos, como já foi insistentemente denunciado, apontarem o território amazônico como zona regida por organismos internacionais, e não parte indesvinculável de nossa pátria? Que história mais adoidada é essa de revistas de quadrinhos mostrarem o “famoso” Capitão Marvel usando seus “poderes miraculosos” para “proteger” a Amazônia de “marginais brasileiros” que estariam a “invadi-la” com o fito de se “apoderarem” de suas riquezas?

 

Chegamos, assim, nestas considerações, a uma clara constatação. Devastação florestal e olho gordo estrangeiro na Amazônia são situações com características distintas. Como muito bem diz o ditado popular, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Advém daí o imperativo de se reconhecer que o “dever de casa” governamental não vem sendo realizado a contento, no tocante à necessária, urgente e indeclinável defesa do meio ambiente. Amazônia em chamas, Pantanal em chamas, Cerrado e Mata Atlântica pegando fogo são fatos insofismáveis mostrados pelos sistemas de monitoramento. A culpa pelo que rola não pode ser imputada, assim sem mais nem menos, a índios e a moradores de recônditos lugarejos espalhados pela vastidão amazônica. Os culpados são outros: grileiros, madeireiros, garimpeiros, a banda podre do agronegócio. Esses aí, sim, carecem ser contidos em sua reiterada insubmissão às leis e portarias que dão suporte à política ambientalista do país.

 

O desserviço que a predação florestal acarreta é tremendo. Das fragilidades que deixamos à mostra, no combate aos abusos ininterruptos cometidos, nossos inimigos, embuçados ou não, se prevalecem a mancheia, para lesionar a imagem brasileira, para prejudicar interesses econômicos brasileiros em suas vinculações com o resto do mundo.

 

A conjugação de vontades políticas com as dos demais segmentos da sociedade é reclamada para constantes e infatigáveis esforços em duas frentes de luta: a da criminosa destruição florestal e a das insidiosas e solertes manobras dos grupos que contemplam a Amazônia com gula colonial.

 

Biden ou Trump?

  

Cesar Vanucci


“A sugestão de se conferir a Donald Trump o Nobel da Paz fortalece

a impressão de que alguma coisa no ar anda afetando o miolo das pessoas.”

(Domingos Justino Pinto, educador)

 

 · Biden ou Trump? Conhecidos respondem: pra nós, tanto faz como tanto fez. Trata-se de uma forma de dizer que, a grosso modo, nada tende a mudar, de modo a favorecer o resto do mundo, qualquer que venha a ser a escolha do eleitorado estadunidense, na conduta política da Casa Branca no plano internacional. A relação de Washington com outros países se prima sempre pela mesmíssima ótica imperial da Roma dos césares, guardadas, obviamente, as devidas proporções e configurações da conjuntura política e cultural vigente nos tempos de agora. Valendo-nos de chistosa observação, ouvida em mais de uma ocasião, a diferença na mudança do poder supremo na grande potência equivale, comparativamente, à do sabor da pepsi e da coca cola. Todas essas considerações não invalidam, contudo, a “torcida” que, em diferentes partes do planeta, setores da opinião pública identificados com a democracia e valores humanísticos, fazem pela vitória do candidato democrata. A aposta no triunfo de Biden leva em conta a perspectiva de alívio nas tensões cumulativas criadas pelo seu oponente, cidadão despreparado e fanfarrão, com um parafuso de menos na cachola. É certo que Joe Biden não reúne, a uma vista d’olhos superficial, as qualificações de um Barack Obama, ou de John Kennedy. Mas pra quem acompanha as performances do atual mandatário estadunidense, dúvida alguma paira quanto à opção a fazer. Trump vive emaranhado em trapalhadas e manobras belicosas com potencial para acender estopins de explosões incontroláveis.

 

· Nobel da Paz. Ato escancarado de desfaçatez pré-eleitoral. Quem ousou promovê-lo foi um deputado norueguês, Christian Tybring-Gjedde, membro da Assembleia Parlamentar da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte). Ele indicou o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, ao “Prêmio Nobel da Paz”, ora, veja pois! A indicação de personagens e instituições, no tocante ao Nobel, é ampla, geral e irrestrita. Não significa que o indicado venha a ser escolhido. Brasileiros ilustres, carregados de méritos, como Dom Helder Câmara e Chico Xavier, tiveram os nomes apontados para receber a honrosa láurea. As sugestões não foram acolhidas. O Comitê do Nobel não se manifesta previamente sobre eventuais candidaturas. São os autores das indicações que se encarregam de divulgá-las, como agora acontece no caso de Trump. É significativo o número de propostas nascidas ao longo dos anos, de conveniências políticas inocultáveis. Oportuno assinalar, a esse propósito, que as eleições presidenciais nos Estados Unidos estão bem próximas. Cabe, também, recordar que, no passado, entre as figuras de projeção política mundial “lembradas”, mas não condecoradas, estiveram Adolf Hitler, Benito Mussolini e Joseph Stalin.

 

 · Guardiões talebanistas. Mais essa agora: “Guardiões do Crivella”! Num Rio de Janeiro já acuado pelas milícias, pela “corrupção institucionalizada”, pelas quadrilhas do tráfico de drogas, pela ferocidade de segmentos policiais, surge agora, para atazanar ainda mais a paciência da população, uma falange, composta de “voluntários”, com o objetivo de intimidar, nas portas dos hospitais, cidadãos em busca de informações sobre pacientes internados. A ação irada dos “guardiões”, em boa parte recrutados nos quadros do funcionalismo público, contempla preferencialmente jornalistas encarregados da cobertura de fatos ligados ao flagelo da Covid-19. Essa mais recente ofensiva de intolerância talebanista, registrada na cena carioca, agride acintosamente os preceitos democráticos.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

 São Francisco de Assis - vida e obra

O trabalho vindo na sequência, de autoria da Acadêmica Marilene Guzella Martins Lemos, da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, foi preparado para uma assembleia da entidade que seria realizada no dia 6 de outubro passado. Por causa da quarentena o trabalho não pôde ser apresentado presencialmente. O Blog do Vanucci tomou a iniciativa de aqui estampá-lo, como já fez na edição passada com o trabalho do acadêmico Jair Barbosa da Costa.

Acadêmica Marilene Guzella *

                        SÃO FRANCISCO

                                   

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     "São Francisco é um dos santos mais carismáticos da Igreja Católica. Com misticismo pessoal é amado e muito representado na arte popular.  Suas imagens são reproduzidas aos montes: São Francisco rodeado de animais, de aves, em contato com a natureza. Até em posição de Lotus.   

A atualidade de São Francisco é considerada porque o mundo despertou para a importância da preservação ambiental com proteção à flora e fauna.  Nada mais natural do que ele tornar-se um padroeiro ecológico.

Sua simplicidade e despojamento consegue despertar sentimentos de ternura.  Sua universalidade    habilitou-o a ser aceito por outras religiões. No sincretismo brasileiro foi adotado pela Religião Espírita e pelo Candomblé.  Algumas fontes mediúnicas fazem menção de que seria uma reencarnação do apóstolo João, o Evangelista e que teria deixado mensagens através de Chico Xavier. O Candomblé o identifica a Xangô. Sua mensagem é abrangente e sua atitude foi original quando afirmou a bondade da criação num tempo em que o mundo e o homem eram vistos como essencialmente maus. Filósofos e filosofias que grassavam na época assim o diziam.  Sua visão positiva estava de acordo com as forças primeiras que levaram à formação da filosofia da Renascença. Dante Aligheri disse que ele foi “uma luz que brilhou sobre o mundo”.

A santidade de Francisco foi reconhecida quando ainda era vivo e permanece inabalada, mesmo quando alguns cristãos dizem que é necessário um olhar crítico com base mais científica e fazer uma distinção entre apreciações emocionais e textos realistas.  Porque verdade e lenda se entrelaçam de maneira tão magnífica e ao mesmo tempo tão pitoresca que torna-se difícil separar o mito do Francisco real.

Vejamos o personagem histórico. Ele nasceu na Itália, na cidade de Assis e não se chamava Francisco. Seu nome era Giovanni Pietro di Bernardone, nome de dois santos também muito carismáticos.  Francisco era uma espécie de apelido. Sua família tinha raízes francesas por parte da mãe.  Dizem que o pai não estava presente ao seu nascimento, estava na França e foi a mãe que lhe deu o nome de Giovanni Pietro. O pai, quando voltou, chamou-o de Francesco, francês, e o filho foi crescendo admirando a cultura francesa, o modo de vida dos franceses, falando francês. Foi descrito como:

“Aparência extremamente agradável refletindo a pureza de seu coração. Estatura abaixo da média, cabeça proporcionada e redonda, face alongada, testa plana e curva, olhos negros e límpidos. Cabelos castanhos, orelhas pequenas, voz forte e sonora, dentes unidos, alinhados e brancos, lábios pequenos e delgados, barba preta e rala, ombros direitos, braços curtos, mãos delicadas com dedos longos, pernas delgadas, pés pequenos, pele fina e muito magro. “

Mas ele descrevia-se como “um franguinho preto”.

Em Assis, o pai de Francisco era um alto comerciante, riquíssimo. A família pertencia à alta burguesia.

Assis fica na Úmbria, região central da península Italiana. A Itália não existia como nação, só foi unificada muito mais tarde, quase em nossos dias.  Era dividida em cidades-estados independentes, rivais, sempre em disputas umas com as outras.  

Francisco era um jovem de seu tempo, perfeitamente engajado no modo de vida dos jovens da época.

Agregava Indisciplina, extravagância, paixões, bebidas, aventura, roupas na moda, liberalidade com o dinheiro da família, interesse pelas histórias de cavalaria que levavam os jovens a procurar aventuras. Mas nele sobressaiam as qualidades: pureza de coração e bondade.

Sabemos que os jovens são sempre os mesmos.  Mudam os adereços inseridos pelo tempo, pela moda, pelos costumes. Nos jovens de todos os tempos prevalecem a inquietação, a revolta contra as autoridades constituídas, a busca pelo novo, num borbulhar de ideias que deixam os mais velhos perplexos e desconcertados. Costumam quebrar a cara ao arremessarem-se nos muros do formalismo, da incompreensão e dos conceitos enraizados. Mas não desistem, vão em frente. E aí do mundo se não fossem esses inconsequentes visionários. O mundo estaria inerte, estagnado, preso nas teias do conformismo.

São Francisco não fugiu à regra. Era um jovem e como todo jovem não concordava com muitas normas de seu tempo. E rebelou-se. São Francisco foi movido por um misticismo exacerbado e em fervor religioso muito grande. Rebelou-se contra uma sociedade endurecida pelo egoísmo.  Outros Franciscos existiram antes e depois dele: Ghandi, Luther King e tantos mais cujo anonimato nega-lhes a nossa reverência.

Vejamos o cenário em que nasceu Francisco. Como era o seu mundo?

Francisco nasceu em 1182 e morreu em 1226, com 44 anos.  Viveu na virada do século XII para o século XIII. Na Itália, como na maior parte da Europa, vivia-se o esplendor da riqueza proporcionada pelo comércio com o oriente próximo.  Passara a época das invasões dos Bárbaros e o continente ainda não havia sido assolado pela Peste Negra que viria em meados do século 14.

  A Europa vivia em estabilidade, as nações já se delineando. O período feudal da servidão já vinha terminando. Antigos servos foram atraídos pelo espaço urbano em novas atividades. As cidades aumentavam em população e assistiam ao nascimento da burguesia através do comercio e movimentação proporcionada pelas riquezas que os cruzados traziam do Oriente.

 A Europa vivia a Era das Cruzadas e sabemos perfeitamente o que as motivou. A desculpa era libertar o Santo Sepulcro em Jerusalém, cidade dominada pelos muçulmanos. Estes proibiram a entrada de peregrinos europeus. Como os nobres viviam brigando entre si, o papa pensou: _ vamos gastar esta energia lutando contra os turcos muçulmanos. Foram então realizadas 8 Cruzadas, desde 1096 até 1270.

Se Francisco viveu entre 1182 e 1226, foi em plena época destas expedições.  Seu pai era o exemplo típico do burguês enriquecido com o comercio proporcionado por este intercâmbio com o oriente próximo.

A época era de grande intolerância religiosa.   Na Espanha judeus e mouros eram perseguidos. O pensamento religioso há muito se afastara dos ensinamentos daquele de Jesus de Nazaré. O Cristianismo, com mais de mil anos, já via distante o cisma entre católicos e ortodoxos.   A igreja de Roma se firmara com um poder extraordinário.  O cerimonial do Vaticano com sua legião de cardeais e bispos representava um esplendor nunca visto. A igreja já criara doutrinas, liturgias, dogmas e hierarquias. O domínio sobre os Estados Papais conferiam ao papa um status de imperador. Já instituído, o Tribunal do Santo Ofício iria considerar hereges todos que discordassem de suas proposições. Em vez de paz e amor aos semelhantes, a igreja ditava: _ vamos lutar e matar mouros. O lema dos cruzados era: “Deus o quer”

Se havia ordens religiosas que viviam em mosteiros numa vida de trabalho e oração, marcavam presença os Templários, cujo poder e riqueza ameaçavam os reis. Os Templários se tornaram tão ricos que viraram banqueiros quando acabaram as Cruzadas.  O fervor religioso era demonstrado através da construção de catedrais com torres altas _” mais alta a torre, maior a fé”. E essas catedrais abrigavam sempre relíquias que atraiam peregrinos levando esmolas generosas.

Enfim, tudo girava em torno do dinheiro.  Como se deu a mudança na alma de Francisco?

Como disse, as cidades viviam em guerra e Francisco, em 1202, aos 20 anos alistou-se para lutar na guerra entre Assis e Perúgia. Foi ferido, feito prisioneiro, resgatado só um ano depois. Ficou muito doente e teve uma longa convalescença, permanecendo problemas de visão e digestivos. Na verdade, ele contraiu malária e tuberculose e elas deixaram sequelas.

Esse período de reclusão levou-o a pensar, notar as diferenças entre as pessoas, a pobreza de muitos, o sofrimento da maior parte da população. Recuperado, ainda participou, junto com o exército papal na luta com Frederico II, imperador Romano Germânico. Foi quando teve um sonho, um chamado para uma missão. Intensificou-se sua preocupação com os pobres e desinteresse pelos antigos hábitos. Claro que viveu períodos de hesitação entre arroubos de devoção e o caminho natural de seguir o ofício do pai.

Aí aconteceu um fato que talvez tenha sido decisivo, seu encontro com um leproso.   Era costume esses doentes carregarem um sino avisando sua presença para as pessoas se afastarem. Francisco, em vez de se proteger, aproximou-se e cobriu o leproso com seu manto. Foi então que venceu a vontade de ajudar os pobres e passou a agir de forma diferente.  Foi taxado de louco. Tornou-se perdulário, começou a usar a fortuna do pai para ajudar aos mais necessitados.

Na igreja de São Damião onde entrara para rezar, ouviu um apelo para reconstruir uma igreja em ruínas nos arredores da cidade.  Vendeu tecidos da loja do pai para usar o dinheiro na reconstrução. O pai, desesperado, levou-o ao bispo. Foi quando aconteceu a cena que se tornaria marcante em sua vida. Tirou suas vestes, devolveu-as ao pai e foi viver nas ruinas da igreja.  Outros jovens aderiram à causa e foram viver lá também. Formaram uma comunidade, vivendo na maior pobreza, carregando pedras para reconstruir a igreja.

Uma jovem da cidade, Clara, com quem manteve a vida inteira uma parceria em sua missão de ajudar os pobres, também juntou-se ao grupo. Outras moças uniram-se a ela, marcando o início da futura Ordem   Religiosa das Clarissas.

Havia entre eles um amor místico, sublimado. Nada proibiria que eles tivessem uma relação normal. Francisco não era um sacerdote sujeito ao celibato e nem Clara fizera votos de castidade. Apenas pertenciam a um grupo de jovens que optaram por levar uma vida de pobreza e ajuda aos necessitados. As ordens religiosas foram criadas depois, com regulamentos e proibições. Mas eles deram ao afeto que os unia uma realização maior do que a de sentimentos puramente humanos.

Leonardo Boff diz em seus livros sobre Clara e Francisco de Assis:

“Clara junto com Francisco – nunca devemos separá-los, pois se haviam prometido, em seu puro amor, que “nunca mais se separariam” segundo a bela legenda da época – representa uma das figuras mais luminosas da Cristandade”

.” Ela, de família nobre de Assis, dos Favarone, e ele, filho de um rico mercador de tecidos, os Bernardone.Com 16 anos de idade quis conhecer o então já famoso Francisco com cerca de 30 anos. Bona, sua amiga íntima, conta, sob juramento nas atas de canonização, que entre 1210 e 1212 Clara “foi muitas vezes conversar com Francisco, secretamente, para não ser vista pelos parentes e para evitar maledicências”.
“Destes dois anos de encontro nasceu grande fascínio um pelo outro. Como comenta um de seus melhores pesquisadores, o suíço Anton Rotzetter em “Clara de Assis: a primeira mulher franciscana” (Vozes 1994):

“...neles irrompeu o Eros no seu sentido mais próprio e profundo  pois sem o Eros nada existe que tenha valor, nem ciência, nem arte, nem religião, Eros que é a fascinação que impele o ser humano para o outro e que o liberta da prisão de si mesmo” - (p. 63).

“Esse Eros fez com que ambos se amassem e se cuidassem mutuamente, mas numa transfiguração espiritual que impediu que se fechassem sobre si mesmos. Francisco afetuosamente a chamava de a “minha Plantinha”. Três paixões cultivaram juntos ao longo de toda vida: a paixão pelo Jesus pobre, a paixão pelos pobres e a paixão um pelo outro. Mas nesta ordem. Combinaram então a fuga de Clara para unir-se ao seu grupo que queria viver o evangelho puro e simples sem glossas e interpretações que lhe tirariam o vigor.”

Como teriam sido vistos nos dias de hoje? Seriam uma espécie de hippies com as devidas diferenças. Não havia drogas e nem liberação sexual.  Um bando de hippies usando andrajos, mas diferentes, porque em seu protesto diante uma sociedade injusta fizeram esta diferença ajudando aos necessitados, doentes e leprosos. Não apenas ajudando, mas vivendo como eles.

E ele quis criar uma ordem religiosa pobre, mendicante, voltada para a pobreza, pregando o evangelho de forma itinerante.  E para isso precisava da autorização do papa. E lá se foi Francisco e seus companheiros a pé para Roma.

Quem assistiu ao filme “Irmão Sol, Irmã Lua” pode visualizar a situação. Embora num filme os fatos sejam romantizados e mostrados sob uma ótica bem ficcional, o fato real é que Francisco e sua turma, depois de muitas negativas, foram recebidos pelo papa e tiveram deste a aprovação para a fundação da Ordem Franciscana que vem perdurando através dos séculos.

 Não foi fácil estruturar a Ordem Franciscana. Francisco queria regulamentos tão rígidos para seus participantes que o papa considerou-os impossíveis de serem praticados. Muitas normas foram abrandadas e Francisco teve de aceitá-las por obediência ao papa. Muitas viagens de evangelização foram empreendidas por ele e seus companheiros enfrentando situações as mais adversas.

Em seus últimos anos Francisco foi se isolando, passando a maior parte do tempo em um lugarejo próximo, Porciúncula, tornando-se cada vez mais místico. Consta que ele adquiriu as estigmas de Cristo, isto é feridas nos mesmos locais das feridas de Jesus, feridas estas que ele procurava esconder.  Surge a indagação, teria ficado leproso?

Sobre o filme “Irmão Sol Irmã Lua”, trata-se de um musical e mostra um Francisco idealizado ao lado de Clara, enfatizando já pelo nome “Irmão Sol Irmã Lua”, o jeito de Francisco referir-se a animais e coisas como irmãos. Ele queria dizer que tudo pertencia à obra divina do Criador

A cena de Francisco e seus companheiros, todos eles maltrapilhos, descalços, sendo esmagados pela pompa da corte do papa é fantástica.  Este reinava, sentado majestosamente num trono, no alto de muitos degraus. A cena é chocante, mostrando o contraste entre as duas concepções de religião.  Francisco foi visto com desdém pelos altos prelados. O que fazia ali, num lugar tão suntuoso, aquele bando de maltrapilhos? Eles estavam conspurcando a casa de Deus.

De repente, o inusitado. O papa, depois de ouvir Francisco, foi tomado de uma iluminação mística, um transe divino e sua atitude deixou todos boquiabertos. Ele desceu do trono, caminhou até Francisco e beijou-lhe os pés.  A estupefação geral foi encerrada quando alguém, tomando as rédeas da situação, fez o papa voltar a sua postura e sinal a Francisco que poderia se retirar.

Francisco deixou um legado, uma revolução na maneira de viver a religião. Foi canonizado apenas dois anos após sua morte, fato raro na história das canonizações.

Morreu o homem. Desenvolveu-se a lenda. A figura de Francisco chegou a substituir personagens de Contos de Fada. Quando Ítalo Calvino escreveu o livro “Fábulas Italianas”, uma coletânea de contos populares recolhidos na região da Toscana e da Sicília, muitos com enredos semelhantes aos contos de fadas no resto da Europa, muitos destes contos tinham sido cristianizados pela população.  Fadas madrinhas, velhos sábios, figuras benfazejas haviam sido substituídas por Nossa Senhora, São José, São Pedro e São Francisco.

 São Francisco é uma união de várias figuras: o homem, o santo e o mito. Tornou-se um arquétipo, uma referência do ideal humano."

*
* Membro da Amulmig, Afemil, escritora, pesquisadora, memorialista,  palestrante, contadora de histórias.

 

 Mensagem dos leitores


- Cel   Klinger   Sobreira   de   Almeida, membro   da

Academia “João Guimarães Rosa” da Polícia Militar

de Minas Gerais: “Caro confrade Cesar Vanucci, boa tarde!

Seu Blog, sempre de conteúdo renovado, continua

nosso guia. A palestra do confrade e amigo Jair Barbosa da

Costa, que você divulgou, é magistral. Merece,

realmente, uma audiência de qualidade.

Abraços, Klinger Sobreira de Almeida”.

 

- Cel Acadêmico Jair Barbosa da Costa:

“Mui-prezado Presidente Vanucci, boa-noite.

Agradeço, lisonjeado, a distinção que você conferiu

a   meu   texto sobre   o   Patrono   Acadêmico   da

AMULMIG.

Continuo ao dispor de nossa Casa Franciscana, sob

sua batuta.

Fraternamente, Jair Barbosa da Costa”

 

 

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

 

DIA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS

 Palestras dos Acadêmicos Jair Barbosa da Costa e

Marilene Guzella Martins Lemos

 O 4 de outubro é dia dedicado, no calendário litúrgico, a São Francisco de Assis. A AMULMIG (Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais), que tem Francisco de Assis como patrono, programou para o dia 6 de outubro um encontro cultural comemorativo da data. Os acadêmicos Jair Barbosa da Costa e Marlene Guzella ficaram incumbidos de proferir palestras a respeito do fascinante personagem. A reunião presencial não pôde ser realizada em razão da quarentena recomendada pela Saúde Pública. O “Blog do Vanucci” pediu aos autores dos trabalhos permissão para publicá-los. Na edição de hoje, vamos tomar conhecimento do que foi preparado por Jair Barbosa da Costa. Na semana vindoura se dará a divulgação do trabalho de Marilene Guzella Martins Lemos. Temos convicção plena de que, com a divulgação, os leitores serão brindados com textos de excelente conteúdo literário, humanístico e espiritual.


           Oração de Francisco de Assis (*)

Semântica à luz da Bíblia Sagrada

                          Jair Barbosa da Costa (**)


 

Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz.

Onde houver ódio, que eu leve o amor.

Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.

Onde houver discórdia, que eu leve a união.

Onde houver dúvida, que eu leve a fé.

 

Onde houver erro, que eu leve a verdade.

Onde houver desespero, que eu leve a esperança.

Onde houver tristeza, que eu leve alegria.

Onde houver trevas, que eu leve a luz.

 

Ó mestre, fazei que eu procure mais:

consolar que ser consolado;

compreender que ser compreendido;

amar que ser amado.

 

Pois é dando que se recebe.

É perdoando que se é perdoado.

E é morrendo que se vive para a vida eterna.


Macroestrutura

Há duas ou três formas(ô) poemáticas na internet para a composição transcrita. Preferi essa às outras, por facilitar este estudo, não obstante as duas primeiras estrofes poderem ser fundidas numa só por conter o mesmo assunto.

A súplica está distribuída em duas invocações: no verso 1 da primeira estrofe – “Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz.” – Francisco se apresenta para o apostolado que se propõe na obra de Deus, assim como fez Isaías, o maior profeta do Antigo Testamento que, ao ouvir “a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei...?”, ele se apresenta: “...eis-me aqui, envia-me a mim.” (Isaías 6:8); a segunda invocação do poverello di Assisi  constitui o verso 1 da última estrofe – “Ó mestre, fazei que eu procure (ser) mais...”

No primeiro apelo, é como se dissesse: Eis-me aqui, Senhor, usa-me. Francisco, diferentemente de Isaías, não é provocado, mas, de modo espontâneo, apresenta-se para servir à seara divina. No segundo, suplica o equipamento espiritual, o caráter de servo de Deus, para desempenhar-se a contento – a oferta de si, o que pode desprender-se em benefício do Outro.

 Ora, não se dá o que se não tem, mas, uma vez tendo (ou na possibilidade de tê-lo), a maior parte seja para o semelhante, e não para si mesmo. “Ó mestre, fazei que eu procure mais...” consolar, compreender e AMAR – são os núcleos desse segundo apelo.

O lugar-onde (ainda que virtual) se faz refrão nas duas primeiras estrofes e núcleo-significativo espacial na concretização da obra missionária do religioso. Sua missão, ao fim e ao cabo, é pacificar, mas, para isso, precisa destruir o obstáculo que se apresenta na primeira parte de cada sentença: ódio, ofensa, discórdia, dúvida.

Só Deus possui e dispõe aos homens de boa vontade a única arma eficaz para dissipar todos os sentimentos contrários à paz – o amor em suas variadas formas de manifestação:

AMOR, pois, é a palavra solar, em plenitude semântica de todo o poema, transfeita (ou compreendida) em “perdão, união, fé, verdade, esperança, alegria, luz”, e mais, na estrofe conclusiva: “consolar, compreender e amar”, palavras, estas, a constituírem o foco desejável da mensagem-prece.

 Todavia, não é em qualquer das acepções conhecidas ou em todas elas. Não, porque a oração franciscana é inspirada no AMOR ÁGAPE – aquele que se doa, se entrega, desinteressada e incondicionalmente ao Outro. Esse amor cujo paradigma está na Bíblia Sagrada:

 “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (João 3:16)

Exemplo de amor ágape, que pontifica reluzente na história dos homens, é o amor sacrificial, representado na crucificação de Jesus Cristo por todos nós, e está, assim na terra como nos céus, eternamente, no Filho unigênito do Pai, “o pão da vida”, “a fonte de água viva”, “a luz do mundo” (Evangelho de João)

Todos os significantes abstratos, no texto sob análise, traduzem o amor ágape, fruto de identidade espiritual, imitação – possível – do amor de Jesus pela humanidade. Por isso, diferente do amor carnal, cupidinoso, ou do amor como sinônimo de empatia. Este último, denominado pelos gregos de philos, amor-amizade por alguém ou alguma coisa. Daí a palavra filósofo, por exemplo (philos [amigo] mais sophos [saber]), significar amigo da sabedoria.

Esse sentido-temático, objeto de toda a súplica da mensagem, ressuma, de forma simétrica, no início e no fim do alopoema: “Onde houver ódio, que eu leve o amor” (2º v da 1ª estrofe) e “Procure mais // Amar que ser amado” (último verso, em itálico, antes da conclusão).

Pode-se inferir dos quatro versos da penúltima estrofe que Francisco se tenha dirigido desta forma ao Senhor Deus: “Mesmo em minhas aflições, ó Pai, “Fazei que eu procure mais consolar que ser consolado”, eu tenha só o mínimo de consolo para não sucumbir, mas seja de tal modo dotado desse nutriente espiritual que possa aquinhoar meu semelhante com a melhor porção.

A sublime palavra amor perpassa os dois testamentos da Sagrada Escritura como genetriz de toda bondade e misericórdia de Deus para com os homens. O apóstolo Paulo, ao ministrar aos irmãos das igrejas da Galácia, na região da Ásia Menor, mostra-lhes como a liberdade é limitada pelo amor:

“...não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros pelo amor”. (Gálatas 5:13), para concluir: “Porque toda lei se cumpre em um só preceito, a saber: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. (Idem, 14 e 15)

Ao final do capítulo treze da Primeira Carta aos Coríntios, Paulo afirma que o amor é o maior dos dons. Bem antes, a partir do versículo quatro, o apóstolo ensina:

O amor é paciente, é benigno, o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece; // não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; // tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. 1Coríntios 13:4, 6 e 7)

A dimensão do querer amar fraternamente o Outro, no poema-súplica de Francisco, encontra ressonância nesta passagem do Evangelho:

Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás (a remissão em Levítico diz ‘repreenderás o teu inimigo’) o teu inimigo. / Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste... / Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes?...” (Mateus 5:43 a 46)

Pode-se vislumbrar Francisco de Assis a encarnar todo esse sentimento de fraternidade humana em sua mensagem, desejoso ardente que estava de servir ao próximo, despojando-se em favor do Outro, convicto de que, como conclui sua oração: “...é dando que se recebe / é perdoando que se é perdoado...”.

 Duas lições, a seguir, de dependência da misericórdia, do perdão e bondade do Pai celeste (ou de sua provisão) na vida de todo aquele que se entrega à obra de Deus para o cumprimento de uma delegação de poder, como a de Salomão, herdeiro do trono de Davi, seu pai (citação abaixo) ou de uma jornada apostólica, como a do próprio frade de Assis:

Ouve a súplica de teu servo e do teu povo de Israel, quando orarem neste lugar, sim, ouve tu no lugar da tua habitação; ouve e perdoa”. (1Reis 8:30).

 

Na extensão do objeto do verbo “fazei”, a prelibar o poema, Deus é clamado por provisão de seu servo:

Onde houver ódio, que eu leve o amor// Onde houver ofensa, que eu leve o perdão”.

Ao evocar, páginas atrás, a recorrência a Gálatas, imagino Francisco contemporâneo de Paulo e seu coadjutor na ministração da Palavra aos discípulos, a ensinar-lhes sobre As obras da carne e o fruto do Espírito. Quanto às primeiras, destacaria:

 “prostituição, lascívia, iras, discórdia, inimizade, dissensões, inveja”; as últimas: “o amor, a alegria, paz, benignidade, fidelidade, bondade, mansidão”. E concluiria ao afirmar não haver lei contra estas ‘coisas’ finais, ou seja, contra o fruto do Espírito. (Gálatas 5: 19 a 23)

Apostolar é renunciar, e o cântico poético franciscano transmite a mensagem de apelo à autotransformação do Autor em prol da humanidade. A penúltima estrofe revela sua incompletude – donde o pedido para que aprimore sua capacidade de consolar, compreender e amar.

Um dos versículos-frásicos do Sermão do Monte diz: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”. (Mateus 5:7) Francisco não apenas se mostra misericordioso, por índole vocacional, como ainda se torna exemplo cristão dessa virtude para com seu semelhante.

Ao reportar-nos ao Capítulo Quinto de Gálatas, enxergamos ali o bem contra o mal. Por essa reflexão, seremos convencidos de que Francisco se entregou à luta contra esse antagonismo espiritual, e sua oração exprime exatamente a busca de força do Espírito de Deus para que ele possa combater o mal onde ele estiver, levando o seu sucedâneo – o bem, para o reencontro de seu irmão com a paz e a alegria.

 

 Corolário

E é morrendo que se vive para a vida eterna”. Verso-fecho do canto franciscano a desempenhar dupla função – a de corolário dos apelos do frade, a tarefa clamada a Deus, seu apostolado e a consequência eterna, ou a recompensa; o aspecto recolectivo de toda a mensagem – a cadeia dos significados, da 1ª. à última estrofe, da concordância bíblica que sustém o destrinçamento semântico, ao sentido de transcendência constante da mensagem.

O galardão, entanto, pressupõe o condicionamento à lei do plantio e da colheita: é plantando que se colhe, ”...é dando que se recebe”. A oferta de si, com a renúncia da própria vida em benefício do Outro, representa a semente geradora da vida eterna.

Belo horizonte, seis de outubro de 2020



(*) Trabalho programado para a sessão literária da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais (AMULMIG), dia 6.10. 2020, mas sustado por cautela sanitária (covid).

(**) Evangelista-capelão, autor de três livros cristãos: Missões locais, Missões transculturais e Homilia Matutina.

 


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