segunda-feira, 8 de agosto de 2022

 Um caso espantoso de memorização.


“A maior parte de nossa memória está fora de nós...”

(Marcel Proust)


CESAR VANUCCI *


Tempos outros. A televisão não passava de experiência incipiente, de lá do estrangeiro. O rádio era o veículo de comunicação com grande poder de penetração, mas limitado na capacidade de cobertura dos acontecimentos em regiões distantes. O Brasil ainda não havia despertado para as conquistas do desenvolvimento, incrementadas sobretudo na “era JK”. Incontáveis registros de fatos relevantes passavam desapercebidos, diferentemente do que hoje ocorre, do grande público em escala nacional. Ficavam circunscritos a ambientes mais fechados. Mesmo quando divulgados com intensidade, naturalmente relativa, alcançavam ressonância reduzida, se consideradas as dimensões continentais do país.

Nessa época, em ambiente interiorano, fase da adolescência, tomei conhecimento do maior fenômeno de memorização de textos de que já ouvi falar. O assim chamado “Salão Grená” da PRE-5, Rádio Sociedade do Triângulo Mineiro, Uberaba, funcionava como um centro cultural. Provido de 500 poltronas, localizado em ponto estratégico do centro urbano, abrigava eventos artísticos, culturais, mesas-redondas, por aí. Para boa parte das promoções realizadas havia cobertura radiofônica, o que ampliava, consideravelmente, a divulgação. A emissora, pioneira na região, pertencia ao grupo “Lavoura e Comércio”, criado pelo saudoso jornalista Quintiliano Jardim. O jornal diário circulou por mais de cem anos, até o comecinho deste século.

Colegial fissurado em manifestações culturais, vi atuar, no local, numa série de aplaudidas audições, um cidadão dotado de capacidade inigualável para memorizar textos. Jamais tive notícia, nem antes nem depois de conhecê-lo, de ninguém com predicado – ou que outro termo possa existir para classificar seu desempenho – em condições ligeiras de igualá-lo naquilo que fazia.

Ele reproduzia, com absoluta exatidão, palavra por palavra, detendo-se nas pausas recomendadas pela pontuação, textos inteiros, de qualquer natureza, verso ou prosa, com ou sem menção de números, lidos cuidadosamente por outrem. Discursos, poemas, trechos de romance, trabalhos técnicos, tudo era absorvido com precisão. E, ao depois, repetido. A reação da plateia oscilava entre a perplexidade e o deslumbramento. Lembro-me bem de que, ao anunciá-lo, o mestre de cerimônia narrava saborosas historietas, alusivas a demonstrações dadas pelo nosso personagem, em respeitáveis ambientes frequentados por líderes políticos e intelectuais de renome. Nem bem o expositor, debaixo de aplausos, dava por finda a fala nesses encontros e já o cidadão dono de memória prodigiosa surgia em cena, solicitando permissão para usar da palavra. Em tom sério, pondo todo mundo confuso e nervoso, “garantia” que o texto apresentado não passava de “descarado plágio”. Tanto isso “era verdade”, acrescentava ele, confessando-se o “verdadeiro autor” do texto, que iria repeti-lo, ali, naquele mesmo momento, parcial ou integralmente, sílaba por sílaba. A atmosfera pesada reinante só se desfazia quando, entre risos e pedidos de desculpas, surgia a explicação acerca dos inacreditáveis dons de memorização do “inoportuno” aparteante.

Nunca me esqueci do nome desse cidadão, tão vigorosa a impressão que deixou registrada, de suas habilidades incomuns, no espírito dos que testemunharam essas proezas nas diversas vezes em que se apresentou no “Salão Grená”: Eurícledes Formiga. Os anos se amontoaram, nada mais ouvi contar, adiante, a seu respeito. Até que, outro dia, um conhecido falou-me da existência em Belo Horizonte de um centro espírita que traz esse nome como patrono. Imaginei naturalmente tratar-se da mesma pessoa. Mas, tanto quanto me recorde, naqueles tempos, a fantástica condição de produzir “reprografia cerebral” de Euricledes, reconhecida como inexplicável e extraordinário fenômeno, não se achava vinculada a nenhuma atividade de cunho religioso.


*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br).

 Defesa da Democracia


Cesar Vanucci *

“A democracia tem dado provas seguidas de robustez”


(Manifesto da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, subscrito por mais de uma centena de entidades dos setores produtivos nacionais)


A FIESP - Federação das Indústrias do Estado de São Paulo-, entidade patronal mais poderosa do País, primando-se hoje por atuação politicamente isenta, diferente do que ocorria em tempos passados, acaba de divulgar um manifesto em defesa da Democracia que traduz com fidelidade, insofismavelmente, o verdadeiro sentimento nacional. O documento guarda perfeita sintonia com o pronunciamento tornado público, dias atrás, pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

O mencionado documento da escola de direito, como amplamente noticiado, seria assinado a princípio por trezentas personalidades, mas, na verdade, devido à repercussão suscitada pelo anúncio da iniciativa, aglutinou mais de 750 mil signatários, número que será fatalmente nos próximos dias superado. Será oficialmente lançado, junto com o manifesto da FIESP, no próximo dia 11 de agosto, em São Paulo, no Largo São Francisco, palco de memoráveis arregimentações populares, nas tradicionais comemorações alusivas à implantação dos cursos jurídicos no Brasil.

Expressando esplendidamente como já foi dito, o pensamento cívico da Nação a Carta pela Democracia e em defesa da ação reconhecidamente eficiente da Justiça Eleitoral elaborada pela instituição representativa da indústria paulista soma adesões importantíssimas. É subscrito por mais de uma centena de organizações de variados setores produtivos da sociedade: entidades patronais, centrais sindicais operárias, associações profissionais, instituições classistas e liderança de realce no cenário cultural. Figuram entre elas a Federação dos Bancos do Brasil, Ordem dos Advogados do Brasil, Associação Brasileira de Imprensa, Câmara Americana de Comércio, além de órgãos de presença exponencial na luta pela preservação do meio ambiente. Idênticas na essência, as proclamações - FIESP e USP - sustentam ser a democracia o único regime capaz de conferir dignidade ao ser humano. Rechaçam com veemência, os desabridos ataques, volta e meia desferidos, na atualidade brasileira, de origem palaciana, ao processo eleitoral vigorante no país, que trazem em seu bojo críticas sem fundamento à Justiça Eleitoral e seus componentes. As duas cartas pedem a estabilidade política e o desenvolvimento democrático como o “sentido maior” do 7 de setembro deste ano. Reiteram, ainda, a necessidade de se estabelecer um compromisso formal com “a soberania do povo brasileiro representada pelo voto”, a independência dos Poderes e a relevância do Supremo Tribunal Federal.

São textos indicativos de que a opinião pública brasileira se mantem serena e altiva na firme disposição de defender os postulados democráticos e republicanos e o Estado de Direito, por serem conquistas inalienáveis no itinerário do país rumo ao seu destino de grandeza.

Dá pra perceber nestas saudáveis manifestações, categóricas e ordeiras com ampla e saudável visibilidade, que segmentos representativos da coletividade brasileira experimentam neste instante, euforia cívica bastante semelhante àquela que prevaleceu por ocasião das “Diretas-já”, movimento que nos permitiu, depois de trevoso período, a reconquista das liberdades públicas de que hoje tanto nos ufanamos. Nossa gente sabe muito bem o que quer com relação ao pleito eleitoral que se avizinha. Sua expectativa e esperança voltam-se para um processo de escolha de seus governantes liso e transparente, que garanta à ascensão ao poder dos candidatos que a soberana vontade popular venha a apontar nas urnas eletrônicas, como os de sua preferência dentre os nomes credenciados pelos partidos e referendados pela Corte Eleitoral, na forma regimental consagrada pelos ritos democráticos.


*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

quarta-feira, 3 de agosto de 2022


PREVENIR-SE É O JEITO

“O homem é um animal que se adapta.”

(Walter Benevides, médico e escritor)

CESAR VANUCCI *


A capacidade de adaptação do ser humano ao meio em que atua faz parte de nossa peregrinação pela pátria terrena. Dependendo dos fatores em jogo, esse ajustamento ou outro nome que se queira dar ao esforço pessoal de cada qual em se inserir adequadamente no contexto da vida social, familiar ou profissional, acatando as regras e exigências dominantes, assume por vezes inusitadas características. Byron, num lapidar pensamento colhido pelo culto Paulo Rónai, pesquisador de mão cheia de achados verbais que ajudam a compor a sabedoria dos tempos, lembra que: “Os homens são joguete das circunstâncias, quando as circunstâncias parecem joguete dos homens.” O poeta inglês repete, com palavras bem parecidas, segundo o mesmo Rónai, a ideia expressa milênios antes por Heródoto, ao proclamar que: “São as circunstâncias que governam os homens, não os homens que governam as circunstâncias.” Os dois pensadores remetem a Ingenieros: “Cada homem é ele mais suas circunstâncias.”

Todo esse papo introdutório, calcado na erudita contemplação do jogo da vida de doutos personagens da história, chega a propósito de uma questão terra-a-terra, de doridos efeitos no cotidiano de todos. A crescente violência urbana, com suas inesperadas armadilhas, que ceifam vidas e produzem toda sorte de traumas, vem forçando a comunidade a usar amplamente as potencialidades de seu instinto de defesa. E, com isso, a criar constantemente dispositivos que possam proteger melhor as pessoas dos riscos que as rondam. Para enfrentar a turbulência solta nas ruas – que já teria, por sinal, sido contida, a nos louvarmos na derrama publicitária com a qual os governos, em frenética disputa com as “Casas Bahia”, ocupam os intervalos televisivos – motoristas e pedestres apelam para um sem-número de estratagemas. Mudam itinerários. Aplicam películas de escurecimento nos vidros dos veículos. Atravessam sinais interditos de trânsito nas horas tardias. Carregam consigo os instrumentos de som, quando estacionam. Substituem documentos de identidade por cópias. Escondem cartões de crédito na cueca, seguindo o edificante exemplo do assessor parlamentar carregado de dólares. Ocultam os celulares. Tudo, tudo, no afã de se adaptarem às circunstâncias perversas ditadas pela audácia da bandidagem armada. O jeito é prevenir-se. Um homem prevenido vale por dois. Não é o que diz o ditado?

Fiquei sabendo, inda outro dia, de criativos artifícios utilizados por moradores de residências da classe média. Apesar de aparelhadas com alarme e cerca elétrica, “visitadas” em momentos de ausência fortuita dos moradores. No jardim de uma delas, afixou-se placa com ilustração caprichada mostrando dois apavorantes répteis, mais os seguintes dizeres: “Cuidado, jararacas adestradas”. E mais embaixo: “Usem o interfone, para que os bichos possam ser recolhidos.” O manhoso alerta tem dado certo. Até mesmo os valorosos carteiros adotam hoje, pelo sim pelo não, posição de cautela quando nas imediações. Um vizinho andou implicando com a coisa e mandou chamar a Polícia Florestal. Mas tudo acabou bem, depois das explicações.

No jardim de outra residência, pode ser visto painel de grandes dimensões, ao lado de uma réplica de caveira encimada por um protótipo de vela, sempre iluminada, contendo estes dizeres: “Atenção. Perigo! Não ultrapasse. Vodu na linha do Haiti.”

Dizem que, tirante uns tantos olhares de esguelha de desconfiados vizinhos pertencentes a seitas religiosas ortodoxas, que evitam transitar pelo passeio da casa, a família vem conseguindo manter distanciados “intrusos” de diferentes naipes.

* Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 Negacionismo Eleitoral


“Quem ataca a eleição semeia a antidemocracia”. (Edson Fachin – Presidente do TSE)

CESAR VANUCCI*


Mais essa, agora: negacionismo eleitoral. Dos arroubos retóricos açodados e impertinentes do Presidente Jair Messias Bolsonaro brota outra perturbadora encrenca política com ressonância fora de nossas fronteiras.

S. Exa. entendeu, de repente, num de seus desconcertantes impulsos de beligerante sem causa, de convidar parte do corpo diplomático acreditado em Brasília, para uma despropositada fala de crítica acerba ao sistema eleitoral do país do qual é dirigente. O inverossímil questionamento deixou a opinião pública brasileira, os círculos políticos e os meios diplomáticos, estarrecidos. Nunca, jamais, em tempo algum, alguém deu notícia de algo desse gênero!

Tomados de indignação e inconformismo, os setores democráticos reagiram à insólita manifestação, que abrangeu também ataques a ilustres integrantes do Supremo Tribunal Federal. O Ministro Presidente do TSE, Edson Fachin, em lúcido pronunciamento lançou no ar a expressão “populismo autoritário” ao exprimir repulsa pelo ocorrido. Assinalou, com todas as letras, pontos e virgulas: “Mais uma vez, a Justiça Eleitoral e seus representantes máximos, são atacados com acusações de fraude, ou seja, uso de má fé. Ainda mais grave o envolvimento da política internacional e das forças armadas. É hora de dizer basta a desinformação e ao populismo autoritário que coloca em xeque a Constituição de 1988”.

O Presidente do Congresso Nacional, Senador Rodrigo Pacheco, reafirmou, por sua vez de forma peremptória que as urnas eletrônicas constituem um instrumento confiável e legítimo das práticas democráticas em vigor. Nesse mesmo tom, houve uma sequência vasta de declarações formuladas por lideranças políticas e de outros segmentos participativos da vida econômica e social brasileira. Até mesmo partidários do Presidente Jair Bolsonaro demonstraram, de forma bastante visível, constrangimento com relação aos fatos. Tem-se como certo, por sinal, que algumas vozes mais moderadas dos redutos governistas vêm insistindo com Bolsonaro para que adote procedimentos mais brandos ao externar suas ideias, deixando de lado essa questão do voto eletrônico, acatado como sabido e notório pela maioria da sociedade.

Dias antes dessa última tentativa presidencial de desmoralização do processo eleitoral que, por sinal, possibilitou, sem tropeços, sua ascensão ao poder em 2018, na Catedral da Sé, em São Paulo, num culto ecumênico em memória do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Don Phillips, assassinados na Amazônia, autoridades religiosas de

diferentes crenças lamentaram o posicionamento assumido por Bolsonaro e seus adeptos nesse desconcertante capítulo do processo de votação.

Diplomatas estrangeiros, ouvidos por jornalistas brasileiros, foram unânimes em registrar seu espanto diante do acontecimento. Muitos deles, como já havia sido feito, algum tempo atrás, pelo Presidente Joe Biden dos EUA emitiram a opinião de que o sistema da votação eletrônica, empregado com sucesso no Brasil, não comporta esse tipo de questionamento que vem sendo trazido a público.

Uma coisa, a essa altura revela-se bem nítida no sentimento nacional: o negacionismo eleitoral está causando fadiga e stress à sociedade brasileira. Já está passando a hora de se pôr um basta nesta arenga eleitoreira descabida e antidemocrática. O que o Brasil mais deseja é que as eleições se efetivem na forma preconizada e apontem resultados que traduzam a soberana vontade popular, qualquer que seja ela, como estipula um saudável jogo democrático.

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

terça-feira, 19 de julho de 2022

 

Turbulência à Vista.

“Os questionamentos sobre a legitimidade do modelar sistema eletrônico de votos só fazem crescer nos redutos bolsonaristas”. (Domingos Justino Pinto, educador)

CESAR VANUCCI*

Não é preciso nenhuma bola de cristal ou qualquer outro instrumento “supostamente confiável” de adivinhação para que sejam percebidos, até mesmo pelo reino vegetal, como costuma dizer o jornalista Mino Carta, que momentos com certo grau de turbulência ainda nos aguardam no processo sucessório presidencial em marcha.

Tudo mostra que teremos uma réplica, à moda brasileira de questionamento contestatório envolvendo o resultado eleitoral, como aconteceu recentemente, promovido por Donald Trump, nos Estados Unidos. Adeptos da candidatura à reeleição do presidente Jair Bolsonaro, contando com seu indisfarçável estímulo deixam clara a disposição de colocar em dúvida, desacreditando-o, o sistema de coleta de votos eletrônico. Na hipótese de uma decisão desfavorável nas urnas de outubro, a arguição de fraude será fatalmente levantada segundo a opinião de experimentados analistas políticos. Lideranças exponenciais no quadro político, entidades representativas do pensamento da sociedade civil, forças parlamentares, pelo que se sabe, já se preparam para o enfrentamento de eventual movimentação contrária ao veredito popular. Seja colocado em realce a certeza de que a votação eletrônica é um método modelar, comprovado numa profusão de testes elaborado pelo Tribunal Superior Eleitoral, com o aval de respeitadas instituições internacionais. Bem ao contrário do antigo e obsoleto esquema da votação com o emprego de cédulas, é invulnerável a fraudes, assegurando que a vontade expressa soberana dos eleitores seja rigorosamente evidenciada e acatada, como recomenda a saudável prática democrática.

A esperança da opinião pública é no sentido de que o efeito contaminante do vírus contestatório, no que concerne ao sistema eletrônico de votação, não disponha de força suficiente para molestar a vontade soberana do eleitor.

Clélia Fialho Ferreira.

“As pessoas não morrem. Partem primeiro”. (Camões)

Mais, muito mais do que uma secretária de alta competência, com predicados acima dos padrões. Ela foi além disso, muito mais do que uma eficiente assessora técnica e administrativa, provida de invejável capacidade de iniciativa e liderança, de conformidade com o perfil de um colaborador ideal almejado por atarefados executivos. Clélia Fialho Ferreira, aos setenta e três anos, envolvida, há décadas em atividades executadas na tenda de trabalho deste desnorteado escriba, acaba de partir primeiro, deixando um vazio impreenchível. Foi uma irmã, amiga e conselheira, presente o tempo todo em nossa lida cultural e profissional. Cuidava, com esmero sem igual, da digitação de textos, arquivos, de todo o suporte logístico necessário ao trabalho relacionado com os artigos, conferências, discursos, livros por mim produzidos. Na memória privilegiada e em agendas bem cuidadas relacionava informações valiosas para que os resultados das ações empreendidas pudessem ser eficazes. Ser humano admirável, sensível aos clamores sociais, sempre disposta a atuar com presteza em afazeres que requeressem seus préstimos, Clélia conquistava simpatia à primeira vista de quantos dela se acercavam. Otimista, acreditava no destino superior do ser humano, achando sempre uma palavra de encorajamento e alento para situações perturbadoras. Quando alguém exprimia inconformismo, decepção, frustração, face a problema ocasional, costumava aconselhar, fraternalmente, ao dito cujo, a tentar desvencilhar-se da “amolação”, “amarrando tudo em nome de nosso Senhor Jesus Cristo”.

Chamada prematuramente a cumprir outra missão no plano existencial, minha irmã, conselheira e amiga Clélia já está fazendo muita falta. Sua ausência, como dói!    

 

*Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br).

quinta-feira, 30 de junho de 2022

 

Meio ambiente, Ambar, Trump

 

Cesar Vanucci

A Terra não precisa de nós –

 somos nós que precisamos dela”.

(Dal Marcondes, jornalista)

 

· O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado na semana passada suscitou por algum tempo, como sempre acontece, debates e a circulação mais intensa de informações acerca das ações agressivas continuamente praticadas, em todas as partes, em prejuízo da vida pela insensatez do ser humano.  Soam oportunas, a propósito da candente temática essas reflexões do  Dal Marcondes, jornalista, diretor da Agência Envolverde, especialista em meio ambiente, mestre em modelagem de negócios digitais e conselheiro do ICLEI América do Sul:

“O planeta não precisa ser salvo, o que precisamos salvar é sua capacidade de seguir resiliente frente aos desatinos e desmandos da humanidade.

 

Desde os anos 1960 os sinais de que o meio ambiente está em perigo começaram a soar. Em 1962 Rachel Carson publica “Primavera Silenciosa”, sobre os efeitos dos agroquímicos, em especial o DDT, sobre a fauna e os seres humanos. É considerado uma das pedras fundamentais do ambientalismo. Em 1972 os especialistas do Clube de Roma publicam “Os limites do crescimento”, uma modelagem do impacto do rápido crescimento populacional sobre os recursos naturais da Terra.

Os diagnósticos de que algo não vai bem no terceiro planeta seguiram dando     alertas. Em 1987 a médica e ex-primeira ministra da Noruega, Gro Brundtland publica o relatório “Nosso Futuro Comum”, que explicita a necessidade de uma solidariedade intergeracional. Que as atuais gerações devem garantir que as pessoas do futuro tenham também os recursos necessários para sua sobrevivência na Terra. Em 1992, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ou Eco-92), representantes de 179 países assinaram a Agenda 21, um documento que aponta para a necessidade de cooperação global para a construção de uma sociedade planetária sustentável”. 

· O bom senso prevaleceu e a Universidade Federal de Ouro Preto acabou voltando atrás na decisão que molestou interesses respeitáveis da bióloga Ambar Soldevila Cordoba. O título de mestre que lhe havia sido arrebatado por uma decisão infeliz do colegiado da UFOP, em consequência de protocolo burocrático despojado de sensibilidade social, vai ser-lhe restituído. A deliberação tomada, com relativa rapidez, evitou demanda judicial e uma série de transtornos derivados de uma resolução que com toda certeza atentava contra sagrados direitos femininos. Ambar logrou, com a bandeira de luta que levantou, mobilizar, em poucas horas, pelas redes sociais, milhares de pessoas em torno de sua justa causa, criando condições para revogação de um ato burocrático que até aqui vem prejudicando mães acadêmicas em sua carreira profissional na área do ensino.  Boas falas.

· Desde que deixou a Casa Branca, após a tentativa golpista frustrada com a invasão do Capitólio, o ex-presidente estadunidense Donald Trump vem dando demonstrações contínuas de ser mesmo “lelé da cuca” conforme, aliás, é taxativamente reconhecido pela Associação Médica de Psiquiatria dos Estados Unidos. Ainda outro dia compareceu a uma convenção da poderosa associação dos fabricantes de armas de seu país para proclamar a necessidade de que cada americano tenha acesso a armas. Em sua delirante fala, deixou subentendido que o ideal é todo mundo proceder como nos filmes de faroeste deslocando-se de um lugar para outro com um cinturão de balas e um trinta e oito. O insensato pronunciamento foi feito poucos dias depois de uma tragédia envolvendo um jovem insano. Na comemoração de seu décimo oitavo aniversário adquiriu um rifle potente, dirigiu-se, a uma escola trucidando vinte e uma pessoas entre estudantes e professores antes de ser abatido pela polícia. O episódio como esperado, causou imensa consternação e revolta, levando influentes vozes da cúpula governamental estadunidense a bradarem por uma legislação que restrinja a comercialização aberta de armas, fato motivador de chacinas periódicas.

Buzina estridente: uma tese

 

Cesar Vanucci

 

“Todo buzinador inveterado carrega dentro de si

 uma alma gentil ávida por mudança de sexo.”

(Professor Adamastor Abaeté)

 

 

Na tevê, são apontados os ruídos mais desagradáveis. Um deles: o estrondo de britadeira rasgando asfalto. Choro de bebê na calada da noite entra na lista. Riscar com as unhas a superfície verde das lousas antigamente conhecidas por “quadros-negros” é outro som indicado como capaz de quebrar o sossego público, no grau supliciante mais extremado. 

Essa relação de barulhos incomodativos parece insuficiente. Não foram incluídas, pelo menos, três outras práticas atentatórias - quanto as que mais o sejam - aos bons costumes. Suscetíveis, por esse motivo, de atraírem sanções, na forma de degredo, a escolher entre o charme de Cabul e a hospitalidade de Bagdá. Primeira: as batidas belicosas do róqui bate-estaca. Segunda: o ruído arrepiante, de dar calafrio até em múmia egípcia, de dedo molhado deslizando no espelho. Terceira: a enlouquecedora buzinação que motoristas desvairados, a pretexto nenhum, aprontam no alucinante tráfego urbano. 

O buzinaço remete à figura do professor Adamastor, dono de insólita tese acerca dos riscos à saúde decorrentes do emprego descontrolado da buzina. Antes de falar da tese, contemos algo sobre o autor. Adamastor, natural de Catas Altas da Noruega, é sociólogo, com mestrado em Kuala Lumpur, onde residiu à época em que o pai exercia função diplomática. Acompanhando o genitor em sua peregrinação profissional, morou em dezenas de países. Aprendeu idiomas, entre eles o mandarim. Em momento de desencanto, ruptura de casamento (quinto de longa série) com uma atriz croata, alistou-se na Legião Estrangeira, indo servir no Saara tunisiano. Da convivência com culturas do oriente nasceu provavelmente sua inclinação para vivências ocultistas. Prestou serviços como escafandrista em Luxor. Foi pintor de quadros na Riviera. Atuou, ainda, como sertanista, no Roncador. Em Belô, onde residiu por alguns anos, ali por volta do sétimo casório, andou ministrando aulas de física quântica e esperanto. Cometeu livro de versos e se envolveu na preparação de um filme nunca rodado. Sumiu, ao depois, do mapa. Uns dizem que se recolheu a monastério na Capadócia. Outros garantem que anda por aqui mesmo, curtindo as bem-aventuranças ecológicas de uma próspera quinta recebida como herança, lá nas bandas de São José do Mantimento. 

Chegamos, finalmente, à tese do polimorfo ensaista. Juntando conceitos de gente respeitada em estudos de comportamento com pesquisas e intuições pessoais, o homem sustenta, com ardorosa convicção, a idéia de que a buzinação é conseqüência fatal de insopitável anseio, do desalmado buzinador, de que se possa operar, algum dia, uma radical mudança sexual em sua anatomia. Até mesmo, pegando ao pé da letra o significado médico do verbo, recorrendo aos préstimos profissionais daquele cirurgião do Paquistão que adquiriu sólida fama mundial em operações transexuais. 

O professor entrega copiosa argumentação. Casos de buzinadores inveterados, por ele próprio, exaustivamente, acompanhados. Um deles: rapaz de família abastada, morador do Carmo-Sion. Dono de frota de carros, marido de socialite. De repente, não mais que de repente, chutou tudo pra corner. Mandou-se para Paris, depois de apoquentar, anos a fio, os ouvidos alheios e a tranquilidade das ruas com diabólicas partituras de buzina. Buzinava sem parar. Saindo e chegando. Pra chamar a atenção de alguém. Nos cruzamentos e sinais, exigindo passagem. Comemorando sempre não se sabe bem o quê. Lá onde reside ocupa, prazerosamente, o cargo de presidente do Sindicato dos Travestis da praça Pigale. Mais um caso: o de uma jovem do Calafate. Cumpria, também exemplarmente, por onde circulava, a sina inapelável da buzinadora frenética. O berro emitido era do estribilho do hino do clube de sua paixão. Largou amigos e familiares. Foi bater com os costados em Manila. Convolou núpcias com uma halterofilista filipina, de origem cigana. Participa, na atualidade, de disputas de sumô, enfrentando galhardamente avantajados especialistas japoneses. 

A tese, damas e cavalheiros um tanto quanto chegados à buzinação imoderada, é da responsabilidade exclusiva do Adamastor. Sua, a frase prefacial destas maltraçadas. Esse desajeitado escriba não tem nada a ver com isso.

sábado, 25 de junho de 2022

 

Os normais

Cesar Vanucci

 

“Uma pessoa pode não ter maus hábitos e ter piores.”

(Mark Twain)

 

Chegou exultante da cavalgada domingueira. Entrou, esbaforido, pela sala, em direção do quarto, limitando-se a cumprimentar com leves acenos a cara-metade, filhas e genros, em lugar de abraçá-los efusivamente como de costume. 

Descalçou as botas, amontoou num canto o chapéu e o restante da indumentária de montaria, ligou o chuveiro e pôs-se a cantarolar, a plenos pulmões, uma ária da Carmem, de Bizet. A repentina performance como “tenor de banheiro”, juntada a outros sutis detalhes de conduta captados pelo arguto poder de observação dos parentes, familiarizados com seus hábitos, que estavam a aguardá-lo para o tradicional ajantarado semanal, levou a filha mais velha a comentar com os demais: “- Papai deve ter alguma coisa especial pra contar. Tá parecendo até que ele andou vendo o periquitinho verde...” O genro mais novo não entendeu bulhufas a menção ao periquitinho, o que obrigou a cunhada a explicar-lhe, pacientemente, que a expressão por ela reavivada era de uso comum em tempos de antigamente, servindo para retratar o enlevo das pessoas diante de determinadas situações. A observação gerou uma certa expectativa com relação ao que o chefe da casa teria presumivelmente a relatar. Na sobremesa, a revelação esperada pipocou. Tirando do bolso, todo afável, o semblante risonho, uma folha digitada frente e verso, ele passou a ler, pausadamente, uma lista de coisas que soaram, de algum modo, incompreensíveis e que chegaram mesmo a ser recebidas com certa hilaridade pelos demais. O escrito do cabeçalho era este: "Itens da consulta aos meus camaradas de sela, bem entendido sela começando com “s” e não com “c”. 

Na sequência, numerados de 1 a 8, os seguintes registros: “1. Besuntar com fartos respingos de creme dental, por ocasião da higiene bucal, o pijama, a camisa, a gravata, a cueca e até a sobrancelha; 2. Esquecer eventualmente de levantar a parte com orifício circular do tampo do vaso, nalgum momento de desafogo urinário; 3. Ir parar, algum dia, nalgum posto de atendimento médico de urgência pela desastrada circunstância de não haver adotado as cautelas de estilo, deixam de calcular na justa medida a trajetória cortante do zíper, ao fechar a braguilha da calça; 4. Abrir a geladeira, alta madrugada, colocar dentro um copo, enchê-lo de leite, sem conseguir evitar, todavia, por alguma razão inexplicável, que parte do líquido escoe pelas prateleiras do refrigerador; 5. Na direção do carro, só dar-se conta da necessidade de afivelar o cinto de segurança no preciso instante, no meio de enervante congestionamento de tráfego, da ameaçadora aproximação de um guarda de trânsito; 6. Esquecer-se, vez em sempre, de datas comemorativas relevantes, do ponto de vista da convivência familiar, como aniversários da esposa e filhos, dia das mães, por aí; 7. Cortar-se, habitualmente, pela manhã, com a lâmina de barbear; 8. Erguer-se da cama, no breu da noite, luzes todas apagadas, percorrendo pé ante pé, bem devagarzinho mesmo, mode não incomodar ninguém, percurso invisível até a sala de televisão e dar uma baita e inesperada topada de canela e dedão com a quina de um móvel fora do lugar, botando pra fora um uivo de dor, cantando a pedra noventa e acordando e colocando em sobressalto toda a patota familiar. 

Finda a leitura, olhar triunfante, fixado nos rostos entre zombeteiros e curiosos do pequeno público doméstico, balançando o papel no ar, desabafou: - Vocês implicam muito comigo, chamando-me de desajeitado, de mister Bean, de Inspetor Clouseau, pra dizer o mínimo, por conta de inofensivas trapalhadas que apronto, e que estão aqui da lista. Pois bem, resolvi submeter esses itens aos companheiros de cavalgada. Todos, sem uma unicazinha exceção, são réus confessos das mesmíssimas aprontações. Querem saber de uma verdade: quem age costumeiramente assim são pessoas absolutamente normais, tá bem?  Há aprontações bem piores. 

Nada mais disse nem lhe foi perguntado.

 

Regras de vida

                                                                       Cesar Vanucci

 

“Você é o que se fizer”

 (Gurdjieff)

 

Trata-se de um filósofo russo muito badalado nos meios esotéricos. Viveu no início do século passado e traçou regras de vida citadas com frequência em cartilhas, prédicas e livros dedicados a autoestima e comportamento. Seu nome: Gurdjieff. O Instituto Francês de Ansiedade e Estresse divulgou com destaque 20 regras básicas de vida boladas pelo pensador. Entendemos interessante e oportuna sua reprodução para conhecimento dos leitores ou, se o caso, aplicação em seu dia-a-dia.

1) Faça pausas de dez minutos a cada duas horas de trabalho, no máximo. Repita essas pausas na vida diária e pense em você, analisando suas atitudes.

2) Aprenda a dizer não sem se sentir culpado ou achar que magoou. Querer agradar a todos é um desgaste enorme.

3) Planeje seu dia, sim, mas deixe sempre um bom espaço para o improviso, consciente de que nem tudo depende de você.

4) Concentre-se em apenas uma tarefa de cada vez. Por mais ágeis que sejam os seus quadros mentais, você se exaure.

5) Esqueça, de uma vez por todas, que você é imprescindível. No trabalho, em casa, no grupo habitual. Por mais que isso lhe desagrade, tudo anda sem a sua atuação, a não ser você mesmo.

6) Abra mão de ser o responsável pelo prazer de todos. Não é você a fonte dos desejos, o eterno mestre de cerimônias.

7) Peça ajuda sempre que necessário, tendo o bom senso de pedir às pessoas certas.

8) Diferencie problemas reais de problemas imaginários e elimine-os porque são pura perda de tempo e ocupam um espaço mental precioso para coisas mais importantes.

9) Tente descobrir o prazer de fatos cotidianos como dormir, comer e tomar banho, sem também achar que é o máximo a se conseguir na vida.

10) Evite se envolver na ansiedade e tensão alheias. Espere um pouco e depois retome o diálogo, a ação.

11) Família não é você: está junto de você, compõe o seu mundo, mas não é a sua própria identidade.

12) Entenda que princípios e convicções fechadas podem ser um grande peso, a trava do movimento e da busca.

13) É preciso ter sempre alguém em que se possa confiar e falar abertamente ao menos num raio de cem quilômetros.

14) Saiba a hora certa de sair de cena, de retirar-se do palco, de deixar a roda. Nunca perca o sentido da importância sutil de uma saída discreta.

15) Não queira saber se falaram mal de você e nem se atormente com esse lixo mental; escute o que falaram de bem, com reserva analítica, sem qualquer convencimento.

16) Competir no lazer, no trabalho, na vida a dois, é ótimo... para quem quer ficar esgotado e perder o melhor.

17) A rigidez é boa na pedra, não no homem. A ele cabe firmeza, o que é muito diferente.

18) Uma hora de intenso prazer substitui com folga três horas de sono perdido. O prazer recompõe mais que o sono. Logo, não perca uma oportunidade de divertir-se.

19) Não abandone suas três grandes e inabaláveis amigas: a intuição, a inocência e a fé.

20) Entenda de uma vez por todas, definitiva e conclusivamente: você é o que se fizer.

 

quinta-feira, 16 de junho de 2022

 

Um andarilho da polícia

Cesar Vanucci

 

“Uma obra singular”.

(Jair Barbosa da Costa, Coronel PM)

 

“Um Andarilho da Polícia” é o título do livro que Klinger Sobreira de Almeida, coronel da Polícia Militar de Minas Gerais, acadêmico com significativa participação na vida cultural mineira, acaba de lançar, narrando lances de sua brilhante trajetória na carreira militar. Líder carismático, dinâmico dirigente da Academia de Letras “João Guimarães Rosa”, da Polícia Militar de Minas Gerais, desfruta de elevado conceito no meio literário pelos seus livros, artigos, palestras sobre temas variados da aventura humana.

Tomando conhecimento da esplêndida apreciação feita a respeito da obra por um outro militar envolvido também nas lidas culturais, o mestre Jair Barbosa da Costa, coronel PM, membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, resolvi ocupar, hoje, este espaço, com vantagens para o leitor, com as considerações por ele alinhadas, certo de que retratam magistralmente a história, fecunda em realizações, do empolgante relato do autor.

“Essa alentada e linda enciclopédia policial-militar, de 900 páginas, intitulada Um Andarilho da Polícia, de autoria do Coronel Klinger Sobreira de Almeida, coadjuvado, no crivo revisional, pela ilustrada Professora Sílvia de Araújo Mota, já recebeu muitos louros do Editor (nas orelhas) e do Prefaciador, Acadêmico Cel Edgar Eleutério Cardoso, na reflexão analítica, fotografia verbal da riqueza semântica dessa obra singular.

Fonte permanente de consulta profissional, lato sensu, porque o Autor, por si só, se fez um enciclopédico. Não se limitou às ciências militares, restritas aos feitos peculiares da profissão. Dedicou-se ao aprimoramento intelectual e filosófico, aplicando-os na PMMG, ao longo de sua bem-sucedida jornada de miliciano das Alterosas.

Psicólogo nato – e sua trajetória de chefe militar, Delegado de Polícia, Diretor de Empresa, membro de Entidades de Serviço, prova-o –, desenvolveu atividades de aprimoramento da tropa por onde passou, de setores da PM que criou e dirigiu (como a revolução administrativa e operacional que imprimiu no COPOM). Ampliou seus que fazeres na medida em que foram sendo demandados sua experiência e talento.

Esta breve palavra sobre a trajetória policial-militar do Coronel Klinger deveria ter sido prelibada com o que lhe foi dirigido pelo Comandante Geral aquando de sua entrega da Chefia do Estado Maior da PM, por motivo de transferência para a Reserva:

“Sua carreira é a expressão maior do desprendimento e da devoção aos altos interesses da Polícia Militar, e se constitui em símbolo do quanto se pode realizar quando se ama a profissão e se acredita naquilo que faz.” (Cel Leonel Archanjo).

Um Andarilho da Polícia não pode ser classificado como autobiografia, porquanto transcende o Autor e sua Família pelo interesse e utilidade pedagógica que encerra. O desfile de agradecimentos e elogios de companheiros de todas as unidades por onde passou, assim também de entidades civis, sociais, filantrópicas e filosóficas, confirmam no Autor desta obra o cidadão plenisciente de seus deveres e exacerbado no cumprimento deles em favor da sociedade.

Nem toda biografia (ou memorial) oferece tanto conteúdo profissional e lições de vida, na constante busca de aprimoramento, quanto esse mentefactum lítero-policiológico do Coronel Klinger Sobreira de Almeida, presente inestimável ao acervo bio-historiográfico da PMMG e da Segurança Pública de Minas.

Em pouco tempo, saberemos de seu usufruto nas instituições de ensino da Corporação, como fonte imprescindível na formação e aperfeiçoamento dos quadros, quer por sua natureza constitutiva de anais das operações de segurança, quer pelo que o Autor oferece de paradigma de homem público nessa área – vocação, competência, desprendimento e zelo.

Estou certo de que Um Andarilho da Polícia será bibliografia acadêmica estelar, de consulta-ensinamento, assim que analisada por especialista, discutida por uma comissão de docentes e aprovada pela Diretoria Geral de Ensino e Planejamento.”

 

 

Coligações e Federações

 

Cesar Vanucci

 

“As federações evitam que o voto vá para um

partido que tenha ideologias muito diferentes”.

(Ricardo Vita Porto, presidente da

Comissão de Direito Eleitoral da OAB)

 

A CNN ofereceu explicação bem didática a respeito de coligação e federação partidárias. Convido o leitor a se inteirar do tema.

As federações partidárias são uma nova forma dos partidos se juntarem para disputar as eleições e atuarem de forma unificada pelos quatro anos seguintes. Criadas em setembro de 2021, em reforma eleitoral aprovada no Congresso Nacional, acabaram referendadas pelo TSE e pelo STF, para as eleições de 2022. Três registros de federações já foram aprovados pelo TSE: PT-PCdoB – PV, Rede – PSOL e PSDB – Cidadania. A CNN ouviu Ricardo Vita Porto, presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB de São Paulo, e Fernando Alencastro, secretário Judiciário do TSE, para explicar como as federações funcionam, e qual a diferença para as coligações partidárias. A federação permite que dois ou mais partidos atuem de forma unificada durante as eleições e na legislatura consequente, devendo permanecer com essa união por no mínimo quatro anos. A entidade deve agir, no parlamento, como uma única bancada, sem que os partidos tenham a obrigação de se fundir. As federações são válidas tanto para eleições majoritárias (presidente, governador, senador e prefeito) quanto para a proporcional (dep. Federal, dep. Estadual e Distrital e Vereador). Para serem registradas pela justiça eleitoral, as legendas devem antes constituir uma associação que deve ser registrada em cartório de registro civil de pessoas jurídicas, com aprovação absoluta de seus órgãos regulatórios. A participação da federação nas eleições só será possível até 31 de maio, prazo final para o registro, em seguida, a união das siglas será celebrada por prazo indeterminado, com cada uma conservando seu nome, número, filiados e o acesso ao fundo partidário ou eleitoral. A coligação é uma reunião temporária de partidos políticos para disputar uma eleição. Tem natureza eleitoral e se estinguem após as eleições. Durante o pleito, elas funcionam como se fossem um só partido. Em 2017, as coligações para eleições proporcionais, foram extintas, mas são permitidas para cargos majoritários. A união proporciona mais recursos para as campanhas eleitorais, como mais tempo de televisão e a possibilidade de receber verbas de todos os partidos coligados.

Enquanto as coligações são válidas apenas no período eleitoral, na federação os partidos são obrigados a se unir durante quatro anos e atuar como se fossem, bancada única. Para Vita Porto, isso evita que nas eleições proporcionais o voto do eleitor vá para um partido que tenha ideologia muito diferente. “Partidos se coligavam porque não tinham uma chapa forte e se aproveitavam dos votos dirigidos aos candidatos de outros partidos. Então, para amenizar este movimento, foi criada a federação”, explica Vita Porto. Existem também semelhanças entre as duas constituições. A distribuição dos votos entre os candidatos das federações ocorre de maneira semelhante ao das coligações, explica Alencastro, do TSE. “As federações fazem com que as votações dos partidos sejam somadas. Se os partidos A, B e C formam uma federação, suas votações se somam para atingir X cadeiras no legislativo, distribuídas entre os candidatos mais votados. Se os três mais votados, forem do mesmo partido, eles ficam com as vagas. Elas não precisam ser distribuídas entre os que formam a federação”, diz ele.

Se um partido deixar a federação partidária, ele não poderá ingressar em outra, e nem poderá fazer coligação nas duas eleições seguintes. A sigla também ficará proibida de utilizar o fundo partidário até a data prevista para o fim da federação. Um parlamentar eleito só pode sair do partido e da federação por justa causa, previstas na lei eleitoral e estará sujeito a penalidades. Um político pode ser expulso da sua federação, se ele não seguir as diretrizes determinadas no estatuto de seu partido ou orientação partidária, como votar de acordo com a bancada em algum projeto. Apesar da possibilidade de ser expulso da federação e do partido, isso não implica perda de mandato.

A SAGA LANDELL MOURA

  Um caso espantoso de memorização. “A maior parte de nossa memória está fora de nós...” (Marcel Proust) CESAR VANUCCI * Tempos outros. A te...