sexta-feira, 29 de maio de 2020


Nossa fascinante MPB


Cesar Vanucci


"Onde se toca boa música,
 não pode haver coisa má."
(Cervantes)


Nestes tempos amargos de forçada reclusão venho procurando escapulir, por instantes que sejam – sempre enlevantes -, do inevitável e impactante bombardeio midiático gerado pela pandemia, ouvindo peças musicais de compositores de meu especial agrado. Foi assim que já repassei, em agradáveis espaços de tempos, os repertórios de Vila Lobos, Ary Barroso, Tom Jobim, Dorival Caymmi, para falar de alguns poucos de uma cintilante constelação de figuras exponenciaisna criação artística. As audições serviram para fortalecer arraigada convicção pessoal.

A música brasileira representa, no reconhecimento popular, um instante mágico, privilegiado, de elevação na escala da criatividade universal.

Não existe neste mundo do bom Deus, onde o diabo costuma armar barraca pra aprontar malvadezas, quem ouse não se confessar encantado com os sons cheios de vida, líricos e coloridos, lembrando imenso calidoscópio, de infinitas e variegadas emoções, produzidos à mancheia pelo time dos artistas brasileiros da música. Um time, sem qualquer sombra de dúvida, da maior competência, preparado para ganhar tudo quanto é copa de que venha participar.

Quando se fala dos sons musicais brasileiros, dos versos primorosos reunidos em milhares de composições do melhor quilate, não há como esquecer também do ritmo malemolente, único, saído dos instrumentos de percussão. Ele é inconfundível e, também, irreproduzível em outras plagas, mesmo por craques na arte de extrair ruídos sonoros dos tambores. Produz um barulho de fala muito especial. Junto com os da melodia e letra, que são barulhos que pensam, conforme o clássico conceito de Victor Hugo, ajuda a mostrar, de modo exultante, a riqueza cultural fabulosa da gente brasileira.

Em tudo quanto é canto deste planeta azul, as músicas brasileiras enternecem e arrebatam. Ary Barroso e Tom Jobim, pra ficar no registro de dois nomes transcendentes da populosa nação dos compositores brasileiros talentosos, deixaram as digitais impressas nos repertórios das mais famosas orquestras, dos grandes instrumentistas e vocalistas. São assobiados nas ruas. Ouvidos com prazer em todos os lugares onde se toca boa música, lugares, conforme Cervantes, em que não pode haver coisas más.

Os turistas brasileiros são, vez por outra, envolvidos em suas andanças pelo exterior por inesperadas ondas de simpatia, que ajudam a quebrar o gelo da recepção costumeiramente oferecida, sobretudo em paragens europeias. É quando a música brasileira pinta no pedaço. Algo assemelhado com o que ocorre, também, quando o futebol aflora nas conversas. Nossa música popular e nosso futebol – de passado recente fantástico -têm o condão de identificar lá fora, admiravelmente, o nosso jeito de ser. E produzem, como nenhuma outra ação construtiva consegue fazer, aproximações enriquecedoras e saudáveis.

Acode-me, a esta altura, a lembrança de uma situação singular que experienciei (ora, epa!) em 1995, no Tibete.

Disponho-me, adiante, a contar o que aconteceu, aqui neste espaço, se não me falha a memória, pela segunda vez. A repetição, assinale-se logo, vem robustecer os argumentos da defesa apaixonada que estou fazendo da cultura musical brasileira neste de hoje e no próximo artigo.


A MPB reclama proteção

Cesar Vanucci

"Brasil que eu amo é (...) o balanço das minhas cantigas e danças."
(Mário de Andrade)

Interrompi a crônica anterior no momento em que anunciava o relato de uma experiência singular, ligada à música popular brasileira, vivida em 1995 no Tibete. Conto como tudo se deu.

Numa longa noite fria, a pressão fora de controle por conta da altitude (mais de 4 mil metros), resolvi mandar-me para um estabelecimento tipo “piano-bar”.Mobiliado com muita simplicidade, ficava localizado na principal rua de Lhassa. Já alvejado, naquelas impiedosas cumeeiras, pelo danado do banzo, cabeça a ponto de explodir, defrontei-me, em dada hora, com outra séria ameaça. Cheguei a imaginar mesmo estar sendo convocado, ali, naqueles ermos, mais “próximos” do céu, a deixar pra sempre este nosso vale eternamente banhado de lágrimas...

Aconteceu quando o pianista, um europeu com o qual não havia trocado, até então, qualquer palavra, e que ignorava minha nacionalidade, resolveu sapecar pra cima da pequena e distinta plateia um punhado de músicas brasileiras. “Aquarela do Brasil” abriu o desfile. Veio depois o “Vou te contar”, de Jobim. Foi demais. Não deu pra segurar. A emoção ganhou, sem intenção de trocadilho, dimensões himalaianas. O coração velho de guerra disparou adoidado. O ar à volta desapareceu. Um chá ultra-amargo, providencialmente enfiado goela abaixo, garantiu o prestígio da tradicional medicina tibetana, composta de ervas, ao permitir recobrasse a condição física.

Pois bem, tudo quanto contado aí atrás e dito no artigo passado vale como manifestação do enorme fascínio que a MPB desperta, não apenas neste desajeitado escriba, como também – evidente está - em multidões correspondentes a todos os sotaques, latitudes e hábitos culturais. Chega, então, o momento de se botar pra fora, numa pergunta, a perplexidade de muita gente: por que cargas d’água o rádio e a tevê deste país rico em musicalidade insistem tanto em conceder escandalosa preferência à música estrangeira em suas programações? Outra pergunta: o que leva, afinal de contas, gravadoras estrangeiras e brasileiras a protagonismo tão estranho e desconcertante nessa história toda?

Convido o leitor destas mal digitadas a pedir numa loja um CD com músicas do genial Ary Barroso. Não vai ser mole achar. Mas achará, com extrema facilidade, trazido por solícitos vendedores, o que existe de mais extravagante no lixo musical alienígena. Um besteirol de sons, imposto pela indústria fonográfica, pra consumo de público desprevenido, a render polpudos direitos autorais para compositores e músicos, em não poucos casos,sem talento digno de nota. Gente que, em seus delírios criativos, acaba confundindo som musical com barulheira de utensílios metálicos desabando das prateleiras no piso da cozinha...

A música brasileira faz jus a uma maior proteção na legislação do país. Fico torcendo para que brote do Parlamento um projeto de lei que defina certas obrigatoriedades para torná-la mais divulgada entre nós. Nas rádios, na televisão, nas lojas, nas festas dançantes, na publicidade. Em benefício da cultura e dos artistas. Que não seja vista, todavia, com desalento e como desestimulo uma tentativa que não rendeu os frutos almejados, tomada por deputados,anos atrás, no sentido de defender um outro valor cultural precioso, o idioma, das descabidas agressões continuamente perpetradas pela neobobice vernacular. Tanto quanto o idioma - que, no ver de Monteiro Lobato, é a pátria -, a música brasileira precisa também ser defendida, como expressão pujante de nossa autêntica identidade cultural.

sexta-feira, 22 de maio de 2020


Barganha, vírus, estufa, óvnis

Cesar Vanucci

  
“E dando que se recebe”.
(Belo e sugestivo preceito franciscano utilizado
indevida e hipocritamente em barganhas de bastidores políticos)

· Vivendo e aprendendo. Quer dizer, então, que existem dois tipos diferenciados do inextinguível “toma lá, dá cá” político?  Um deles voltado para o bem, o outro inteiramente voltado para o mal? É a dedução a extrair do comportamento dos atuais detentores do poder político, em seu manifesto pragmatismo revisionista das coisas na vida pública. Ao que se é dado a ver, com solar clareza, a manjadíssima barganha de cargos com fitos de conquista de apoio político, quando praticada pelos adversários, é uma situação abominável. Desrespeita a ética e a moral, favorecendo a corrupção. Ao reverso, quando o mesmíssimo procedimento envolve abnegados partidários e leais cupinchas palacianos, as motivações, já aí, são sempre nobres e edificantes. Saudavelmente regidas por princípios e valores irrepreensíveis. Valha-nos Deus, Nossa Senhora!

· Com cifras macabras, o “resfriadozinho mixuruca” da retórica e conduta oficial irresponsáveis, acena para este nosso país tropical, bonito por natureza, tomado de perplexidade e amargura, com a indesejável perspectiva, logo ali na frente, de assumir um lugar no “pódio” na desconfortável “disputa mundial” por recordes na maratona do flagelo. A Organização Mundial de Saúde diz que a união nacional e a solidariedade internacional são imprescindíveis no enfrentamento adequado da crise humanitária. O óbvio ululante, diria Nelson Rodrigues. “Estamos, então, mal-arranjados pacas!” – cabe-nos reconhecer, em nossa vez de dizer alguma coisa, ao contemplar o que anda rolando no pedaço político brasileiro. A conjugação de forças e vontades políticas, tão necessária, tão essencial, no combate à pandemia que, diariamente, amplia a capacidade dos cemitérios, com a abertura de covas em ritmo de mutirão, vem passando, insolentemente, ao largo das cogitações prioritárias das lideranças munidas de canetas para a tomada de decisões. Ou seja, de cidadãos aos quais se acham afetas indeclináveis obrigações legais de coordenar as ações exigidas para se encarar o dramático problema em suas variadas facetas. Para a sociedade, que abriga as vítimas em potencial da tragédia em marcha, fica sobrando o direito de recorrer a orações, meditações, gestos e palavras de solidariedade, além do dever de guardar respeito rigoroso às recomendações da ciência no tocante a cuidados individuais e coletivos que ajudem a refrear a proliferação da enfermidade. Até que o surto infeccioso desapareça e apareça a vacina. Quanto ao mais, que os deuses de todas as crenças não deixem de  acudir-nos em nossas aflições!

· O assim chamado “efeito estufa”, categórica e histericamente negado por teóricos do fundamentalismo político e religioso, gente solta na praça com retrógradas reinterpretações da aventura humana, vem produzindo descomunais crateras na camada de ozônio que protege a Terra. Falamos, está evidente, da “terra redonda”, não da “terra plana” das delirantes elucubrações de um punhado de viventes com válvulas de menos na cachola. Cientistas respeitados afiançam que só uma das crateras é de dimensão equivalente a toda a América do Sul. Razoável imaginar que pelas fendas o planeta esteja sendo bombardeado por partículas microrgânicas vindas de pontos distantes do infinito espaço sideral. Faz sentido, à vista disso, supor que uma ou outra substância assim chegada até nós contenha elemento patogênico. Pergunta inevitável: será que a origem da Covid-19 não poderia ser explicada com base na circunstância declinada?

· “Há algo no ar além dos aviões de carreira”. Este dito, de autoria do irreverente Barão de Itararé, foi vastamente empregado noutros tempos para medir as tensões políticas. A frase bate-me à lembrança neste instante por uma outra intrigante razão. Inteiro-me, por intermédio de conhecidos empenhados no estudo dos chamados fenômenos transcendentes, que os óvnis, estes erráticos e misteriosos “vagalumes do espaço”, responsáveis por espantosas coreografias nos céus, estão sendo avistados, num volume inusitado, na hora atual, em tudo quanto é parte do mundo. As informações falam de naves gigantescas e de artefatos menores. Os especialistas assinalam que essa revoada dos enigmáticos objetos sempre ocorre em ocasiões de efervescência histórica, sabe-se lá porque cargas d’agua! A pandemia do coronavírus talvez possa explicar. Olhar, de vez em quando, a imensidão azul do firmamento é algo recomendado pelos ufólogos àqueles que se interessem pela captação de imagens dos instigantes voos desses aparelhos não classificados, definitivamente, como “aviões de carreira”...


                                                                               


A velha senhora

Cesar Vanucci

“Pois vêem-se chamas nos olhos dos moços, mas no olho do ancião vê-se a luz.”
(Victor Hugo)

A velha senhora, cercada do reverente respeito das redondezas, é uma arguta observadora dos lances que rolam naquilo que costuma chamar de “meu pedaço de chão preferido”. Ou seja, a praça fronteiriça da casa em que mora. Frequenta o lugar com rigorosa habitualidade, dia sim, outro também. Funcionária pública aposentada, próxima dos 90 anos, faz dalí recanto para lazer físico e mental. Comportando-se como meio dona, vela, com carinho, mas rigor de sentinela militar, pelos equipamentos da área. Mantém os órgãos competentes devidamente informados das coisas que não funcionem nos conformes. É capaz de identificar pelos nomes boa parte dos personagens que circulam pela praça. Conhece os hábitos de cada qual. Sabe o momento certo em que os pombos aterrizam à cata de alimentos e a hora em que alçam vôo, na busca de refúgio sob o manto da noite.

Familiarizada com figuras e rotinas da praça, a velha senhora sentiu-se muito intrigada, indoutrodia, com a postura sob certo aspecto inusual de um par de jovens. O que prendeu-lhe a atenção não foi o traje sumário da moça. Nem as imagens de dragão cuspindo fogo tatuadas s nos braços do rapaz. Nem, tampouco, o objeto metálico perfurante preso nos lábios da garota, ou a argola dourada imensa pendurada na orelha esquerda do parceiro. Falar verdade, nem a pegação, na base de incandescentes afagos, escandalizou a veneranda dama. Como realística e compreensivamente acentua, agarração em público deixa, “nestes nossos tempos modernosos”, de ser enxergada como ofensa aos costumes.

Aliás, mode reforçar a tese, a velha senhora se socorre de episódio recente, envolvendo um “morador genioso” da vizinhança. O cara é manjado pela truculência verbal com que alude, em reuniões da associação do bairro, ao “comportamento indecente” de casais que recorrem à cumplicidade da noite para trocas efervescentes nos bancos e gramados da praça. De repente, todavia, o destino caprichoso colocou o dito cujo no foco de uma situação que bem se pode classificar de kafkiana. Acompanhado de uma meia dúzia de três ou quatro elementos, tanto quanto ele movidos por raivosa indignação diante das supostas cenas obcenas vividas no escondidinho noturno do logradouro, resolveu desencadear operação, na base da surpresa, pra pilhar no flagra os incorrigíveis protagonistas dos presumidos atos pecaminosos. Conferindo  tom mais amedrontador à sortida moralizadora, levou até, puxado pela coleira, um cão pastor de aparência feroz. Os resultados extravasaram de longe as expectativas do grupo repressor. O inesperado da silva montou, com impacto de bomba de fragmentação, uma peça daquelas para o líder do grupo e leais comandados. A prendada filha única do “morador genioso” integrava uma das duplas flagradas em “atitudes inconvenientes”. Fazia-se acompanhar, por sinal, da namoradinha. O desarvorado pai ficou sem fala. Permanece, ainda hoje, mudo e quedo que nem penedo.

Mas, retornemos à dupla da praça sob mira da velha senhora. Uma dupla que não estava nem aí para o resto, em seu dengoso afagamento. Como já anotado, algo diferente no procedimento dos jovens intrigou a velha senhora. Durante a esfrega de beijos e abraços intermináveis, eles procuravam, sentados ou semi-deitados, se acomodar em posições sincronizadas com as câmeras dos respectivos celulares. Ardendo de curiosidade face a tão inusitada postura, a velha senhora não resistiu. Aproximou-se para indagar a razão de tudo aquilo. A resposta chegou surpreendente. As fotos estavam sendo batidas para lançamento na Internet, com o intuito de garantir ampla divulgação às efusões carinhosas.

A velha senhora declarou-se atônita com a revelação, preferindo calar-se naquele momento. Coincidentemente, horas depois, tomou ciência pelo jornal de uma ocorrência cabulosa, até parecida, lá nas bandas de Pernambuco. Magoado por haver sido clamorosamente passado pra traz pela companheira, um “cabra da peste” de nome Formozinho resolveu escancarar, nas redes sociais, em sinal de represália, cenas da intimidade conjugal do casal, fotografadas com celular. Apoderada de pressentimentos estranhos, temores indefinidos e de repentino instinto protetor, a velha senhora montou vigília na praça à espera do retorno da dupla de jovens. Quando isso se deu, chamou-os às falas num canto. Despencou pra cima deles uma bronca em regra. Exigiu que deletassem dos celulares, na sua frente, as imagens dos exuberantes e explícitos achegos. Justificou, assim, a impulsiva determinação: - Mal conheço vocês dois, mas não vou consentir que banquem os calhordas, com essa bestagem de fotografar coisas íntimas. Escutem aqui, seus panacas: vocês andam querendo virar clones do zé roela lá de Pernambuco?



sexta-feira, 15 de maio de 2020


Prioridade para o social

Cesar Vanucci

“A maneira mais fácil de antecipar o futuro é entender o presente.”
(John Naisbitt)

Em mais de uma ocasião, expressamos, neste ponto de encontro de ideias frequentado pelo leitorado de elevada linhagem cultural, nossa convicção em torno da prioridade absoluta que se deve conferir nas cogitações humanas à questão social. A crise humanitária em curso, expondo de forma mais aguda os males crônicos da caminhada existencial, provocados em larga escala pela indecente desigualdade social, confere atualidade mais refulgente a este tema. É a questão número um. Estamos falando naturalmente da questão social. Prioritária dentro das prioridades.

Não importa tanto, no contexto geral, o que pensem e digam os formuladores das estratégias da política global de desenvolvimento. Por impecável que possa parecer, do ponto de vista técnico, a tese segundo a qual a questão social só será equacionada em plenitude depois de resolvidos outros desafios, fundamentalmente nas áreas econômica e educacional, é bom não perder nunca de vista a sabedoria popular quando apregoa que a teoria na prática é diferente.

Não há como obscurecer a transparência dos fatos. O quadro que desfila incessantemente diante de nossos olhares assustados exige papo curto e ação intensa e extensa. Não mais existe fôlego suficiente, em lugar algum do mundo, para uma espera angustiante, que se espiche no tempo. As dificuldades têm que ser enfrentadas já. Aqui e agora. Com medidas práticas e objetivas. Com disposição e vontade política. O que não exclui, evidentemente, a urgência na tomada de providências complexas, de maior amplitude, capazes de assegurar conquistas futuras definitivas. John Naisbitt ensina que a maneira mais confiável de antecipar o futuro é entender o presente. E agir logo em função das constatações levantadas.

É como se, de repente, enfrentando cara a cara a cruel realidade universal dos cortiços desassistidos, dos guetos mal vestidos, da mendicância desamparada, dos atendimentos insuficientes no campo da saúde pública, do abandono infantil retratado em cenas de rua contundentes, espalhados por esse mundo do bom Deus onde o tinhoso costuma fincar alguns enclaves, resolvêssemos traçar, simultaneamente, duas linhas de atuação. Ambas fundamentais na procura das soluções pertinentes.

Numa delas, cuidando de aperfeiçoar, com a urgência requerida, os instrumentos jurídicos em condições de garantir a justiça social, pessoas e instituições sairiam no encalço dos semelhantes excluídos, entregando-lhes apetrechos de pesca com orientação sobre como fisgar o peixe. Na outra vertente, desencadeada também em ritmo de emergência, a sociedade partiria ao encontro das populações marginalizadas, onde necessário, para entregar-lhes postas de peixes, de forma que possam sobreviver decentemente e manter acesa sua esperança na solidariedade humana.

Não há como fugir dessa dupla proposta de ação social apelando para sofismas e conversa mole. Com discurso formal evasivo, oco de conteúdo. Com alegações que camuflem a ausência do desejo de engajamento. Ninguém, verdadeiramente permeável ao clamor das ruas, mostra-se disposto a aceitar sem questionamentos a negligência das lideranças, representada por manobras diversionistas. Manobras que costumam deslocar o foco central da questão analisada, conservando incólumes as estruturas sociais iniquas que aí estão. São estruturas, como sabido, derivadas da indiferença e insensibilidade, da injustiça pontuada por perversa concentração de renda, que brada aos céus.

O sentimento do mundo é desfavorável para procedimentos esquivos, vazados em meias-verdades, revestidos de falsos refinamento e sutileza, na verdade potencialmente explosivos.  É preciso refazer as linhas de atuação social do mundo, reconectar o mundo com sua humanidade.  Dar tratos à inteligência e criatividade, descartando fórmulas de diferentes tendências ideológicas e políticas exageradamente desgastadas na busca, tão almejada pelas multidões, de soluções para os aflitivos problemas detectados em tantos recantos socialmente desguarnecidos deste nosso maltratado planeta azul.


Giro por um mundo de inexplicabilidades

Cesar Vanucci

“A respeito das coisas deste mundo confuso,
 as pessoas normais sabem que nada sabem.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Aconteceu em janeiro, antes um pouco da angustiante crise humanitária desencadeada pelo coronavirus. Os ponteiros do famoso “Relógio do Juízo Final” foram adiantados mais 20 segundos. Ficaram posicionados a 1 minuto e 40 segundos das fatídicas badaladas das 24 horas. Trata-se – é bom saber – do “momento” mais próximo, até aqui atingido, das apavorantes “trombetas apocalípticas” prenunciadas pelos cientistas. Como é do conhecimento de muitos, mas do desconhecimento da grande maioria, figuras altamente qualificadas na seara científica criaram esse instrumento simbólico para avaliação das tensões mundiais. Décadas atrás, à época em que John Kennedy, Nikita Krushev e Fidel Castro governavam, respectivamente, os Estados Unidos, Rússia e Cuba, ocorreu a chamada “crise dos mísseis”. O planeta foi colocado à beira da terceira e, provavelmente, última guerra mundial. Negociações processadas na 25ª hora evitaram a catástrofe. Naquele recuado instante – é oportuno anotar – os ponteiros do “Relógio” estiveram posicionados a “apenas” 2 minutos da hora crucial.

Faz sentido supor, por mais desagradável pareça a ideia, que as turbulências vividas presentemente são de molde a acionar, agora mesmo, de novo, o “tic-tac” do relógio. Deus nos livre e guarde!

As atenções (e preocupações) globais estão centradas, como fácil deduzir, na colossal encrenca gerada pela Covid-19. Por essa forte razão passou um tanto quanto desapercebido - aos olhares demasiadamente carregados de ansiedade das pessoas - inquietante incidente internacional, de dias recentes. Foi protagonizado pelos supremos dirigentes de duas grandes potências, com decisiva influência na cena mundial, sobretudo por conta de seu poderio militar. O assunto rendeu naturalmente manchetes. Mas elas acabaram sendo obscurecidas pelos infortúnios e estatísticas resultantes da pandemia. Seguinte: o Presidente Donald Trump anunciou, pomposa e inopinadamente, que os Estados Unidos estão preparados para levar avante, bem proximamente, um exercício militar de envergadura. O proposito é testar, no oceano, um super míssil, sem similares no estoque bélico conhecido. O artefato seria lançado por submarinos nucleares. Pouco depois do anúncio da Casa Branca, por meio de nota oficial da chancelaria russa, o Presidente Vladimir Putin, em tom irritado, tornou pública a disposição de ordenar, em caráter imediato e retaliativo, um maciço ataque a alvos estadunidenses com armas de seu arsenal atômico, caso a ação preconizada viesse a se concretizar. Os incômodos avisos de ambos os lados permaneciam suspensos no ar, ameaçadoramente, à hora em que estas considerações estavam sendo datilografadas. Durma-se com um barulhão desses! Mais uma da inesgotável lista das vicissitudes, nascidas da prepotência e arrogância dos “senhores do mundo”, impingidas aos pobres mortais desta nossa ilhota perdida nas distâncias infindáveis de um oceano composto de inexplicabilidades e infortúnios, sabe-se lá por quais insondáveis desígnios!

E com essa, sinceramente, ninguém contava! No meio do turbilhão das informações concernentes ao sufocante flagelo que martiriza a sociedade, chega da França informação desnorteante. Pode alterar por inteiro a cronologia dos acontecimentos ligados à pandemia. Cientistas do país asseveram que num povoado francês foram detectados, antes do surto irrompido na província chinesa, casos letais de coronavírus. Pelo surpreendente relato que as vítimas não tiveram, a qualquer tempo, contatos exteriores que expliquem como a contaminação se teria dado. Tal notícia adiciona novo argumento às versões propaladas acerca da origem misteriosa da enfermidade.

Uma coisa puxa outra. Quando surgirá explicação razoável acerca da circunstância de que muitas pessoas infectadas jamais tiveram contato com outras pessoas procedentes de áreas de contaminação maciça? Recorramos a um intrigante exemplo. O corona atingiu moradores de povoados remotos, distanciados do resto do mundo. Alguns deles na selva amazônica, à beira do rio-mar. O acesso a tais locais só é possível por barco, em viagens que se alongam pela “eternidade” de 10 ou mais dias. E agora, José? Será legítimo pensar, dando rédeas à imaginação, que a contaminação possa derivar de microrganismos patogênicos de trânsito livre na atmosfera? Alargando a hipótese: poderiam ser partículas brotadas de hipotética reação de elementos da Natureza, tão alvejada pelo chamado efeito estufa? Ou seria alguma substância trazida por meteoritos que, de quando em vez, colidem com a crosta terrestre?

Ficam estas interrogações. São formuladas, obviamente, por alguém, um desajeitado escriba, detentor de uma única certeza: a de saber, a propósito das coisas, que nada sabe.

sexta-feira, 8 de maio de 2020


Reflexões suscitadas pelos vírus

Cesar Vanucci
                                                                                                 
“A liberdade de expressão é requisito fundamenta de país democrático” (...) A independência e harmonia entre Poderes são imprescindíveis” (Ministro da defesa, Fernando Azevedo e Silva)


Comecemos pelo corrosivo vírus antidemocrático. Qualquer semelhança não será mera coincidência se, de repente, em meio à colérica turba que anda aprontando estripulias antidemocráticas na Esplanada dos Poderes, em Brasília, despontarem histéricos cavalheiros e madames a envergar, garbosamente, camisas pardas com suástica pendurada na manga.

Nas palavras de ordem emitidas, cartazes e faixas, gestos desafiadores e intimidatórios, nas vociferações preconceituosas e agressões à imprensa, essas mobilizações milicianas deixam descoberta a afinidade ideológica de seus integrantes com as falanges hitleristas de tenebrosas recordações. Causam pasmo – mais do que isso, náusea – as inacreditáveis cenas, captadas pelas câmeras, da presença de parlamentares e até de Ministro de Estado no grupo de arruaceiros pregando o fechamento do Congresso. Como classificar um procedimento desse jaez? Mas, a história não cessa aí. O aturdimento da opinião pública ganhou maior robustez ainda ao confrontar uma inimaginável postura do Chefe do Governo nos deploráveis acontecimentos. S.Exa., exercendo funções propiciadas pelo regime democrático ora vilipendiado na algazarra de dúzia e meia de fanáticos, desonerou-se, lamentavelmente, de seus deveres institucionais, ao se aproximar do pessoal com acenos de simpatia.

As reações que se seguiram a esse desfile de absurdidades, abrangendo avalancha de pronunciamentos contendo censuras, revelam o quanto a consciência cívica da Nação se sente injuriada. Tais reações vão respaldar, com certeza, as providências competentes, a serem adotadas no âmbito judicial e parlamentar, em defesa dos postulados democráticos. O Brasil civilizado abomina autoritarismos de quaisquer matizes. Passa a aguardar, agora, confiante e esperançoso, por decisões vigorosas, tomadas por quem de direito, capazes de refrear, vez para sempre, os impulsos deletérios dos radicais de plantão. Os sagrados valores da cidadania exigem fique devidamente protegido o curso dos avanços civilizatórios promovidos pela sociedade. Tudo de conformidade com o inalienável regramento democrático e republicano. O vírus antidemocrático que alguns vêm procurando disseminar carece ser erradicado já. Com vigor. Assim pede o sentimento nacional.

Falemos, na sequência, do outro vírus. Na esteira da Covid-19, as ponderações vindas a seguir são, todas elas, muitíssimo sensatas. Vão direto ao ponto.  Consultam anseios e conveniências legítimos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda, enfaticamente, que a tormentosa questão do coronavírus não seja politizada. Exatamente o que não está sendo feito, neste preciso momento, num país “lindo e trigueiro” – consoante dizeres de canção inesquecível - localizado ao sul do Equador. E tudo por conta de visão política medíocre, egos inflados, inapetência administrativa, demagogia inconsequente e insensibilidade social. O país ultrapassou a China em número de casos fatais. “E daí?” Indaga em tom inflamado o dirigente político com a responsabilidade de coordenar – sem disposição para fazê-lo - as ações de combate sem tréguas ao flagelo pandêmico. Promove atos ambíguos indesculpáveis, em beligerância aberta com a OMS, mundo científico e demais lideranças políticas engajadas na luta contra a enfermidade, expressando discordância insanável com relação à metodologia terapêutica proposta nos protocolos médicos e sanitários. E daí, como ficamos? – a vez de interrogar agora é da própria coletividade, insatisfeita com o rumo das coisas.

O Clube de Diretores Lojistas pede que os juros bancários para as atividades produtivas sejam zerados. O apelo procede. Como todos estamos calvos de saber, notadamente os que recorrem a financiamentos pra tocar negócios, garantir empregos e impulsionar a economia, os juros praticados por aqui atingem altitudes galácticas. Isso permite ao sistema bancário o desfrute de rentabilidade ininterruptamente recordista, há décadas, a cada balanço trimestral. Tem nada demais, portanto, que face às aflições e angústias detectadas nesta situação emergencial, que reclama conjugação de forças para a debelação da crise, sejam as taxas temporariamente zeradas. Atente-se, ainda, à circunstância de que a queda significativa da Selic não redundou, inexplicavelmente, até aqui, na almejada redução dos custos para os tomadores de empréstimos bancários.

A outra postulação merecedora de registro procede da Federaminas. Num dos itens da proclamação em que são abordados problemas cruciais gerados pela sufocante crise humanitária, a instituição dirige um apelo a grupo privilegiado de agentes públicos. Abram mão, provisoriamente, dos vantajosos penduricalhos que permitem a ultrapassagem, em seus holerites, do teto salarial estipulado em preceito constitucional, escancaradamente desrespeitado. Integrem-se no esforço geral, como já feito por outras categorias de assalariados, voltado para o relevante alvo de aliviar a carga de encargos que recaem sobre os ombros da comunidade. A contribuição dos milhares de servidores enquadrados nessa condição será muito bem-vinda.




Nação e Democracia merecem respeito

Cesar Vanucci

“O papel do Congresso é ter paciência,
equilíbrio e não ter açodamento”.
(Deputado Rodrigo Maia, Presidente da Câmara dos Deputados, comentando
os 28 pedidos de impedimento presidencial encaminhados ao Parlamento)

A crise política, de consequências imprevisíveis, brotada de excesso de arrogância, insensatez, incompetência, tendo por epicentro redutos palacianos brasilienses, elevou a níveis insuportáveis a tonalidade do desassossego na vida nacional. As pessoas se interpelam, tomadas de preocupação, se já não bastaria como ônus pesado pra carregar nos ombros, neste conturbado panorama de tantos males crônicos, a calamidade adicional da covid-19. Um baita problema demasiadamente agravado, em nossas plagas, por abordagens oficiais dúbias e impróprias. Até com a indesejável “exoneração da ciência”, a nos valermos de denúncia do defenestrado ministro Mandeta.

O que vem rolando no pedaço político “não está no gibi”, como se diz em papo de rua. Causa enorme sobressalto. Vejamos. Grupelho terrorista, uma minoria atuante ancorada em apoio clandestino, bota a cara nas ruas pra pregar a derrubada das instituições democráticas. Por meio de palavras de ordem beligerantes, deixando à mostra a histeria típica dos incendiários de carteirinha, os agentes da subversão pedem, descerimoniosamente, com todas as letras, pontos e vírgulas, uma ditadura para o Brasil. Fiéis ao desvario inerente aos fanáticos – pessoal que tem os pés permanentemente plantados no ar, conforme saborosa definição de Roosevelt –, eles clamam a volta do AI-5. Pedem o fechamento do Congresso e STF. Pugnam pela supressão das liberdades públicas. Desejam seja silenciada, com base na porrada, a voz da imprensa. Imprensa essa - asseveram –, “responsável” por tudo quanto de ruim e negativo vem pintando por aí...

O que faz o senhor Presidente da República ao tomar ciência de uma manifestação absurda, enquadrada dentro de tão ignominioso objetivo, convocada para praça pública na Capital? Escanteia deveres inerentes à nobre função exercida, à qual foi alçado por consagradora votação em eleição patrocinada pelo regime democrático; esquecido do solene juramento constitucional da posse, resolve ir ao encontro dos desordeiros. Não o fez para condenar o desvairado procedimento. Mas para externar, inacreditavelmente, simpatia pela desatinada turba. Onde foi que já se viu tamanho despautério? O pronunciamento corretivo, horas depois, em termos comedidos, obviamente recomendado por colaboradores ajuizados, não se revelou eficaz pra desfazer a enrascada. As repercussões do insólito ato, até internacionais, foram estrondosas. Parlamentares, juristas, líderes de diferentes tendências e segmentos, alguns próximos da cúpula governamental, condenaram a atitude de Bolsonaro. Houve quem propusesse, sem meias palavras, reações legais extremas. Caso, entre outros, de um presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, reconhecidamente prudente em ocasiões de ânimos acalorados.

O alarido alusivo ao estouvado episódio ainda se mantinha inteiriço quando explodiu, com máxima intensidade, a inimaginável notícia do entrechoque entre o Presidente e o Ministro Sérgio Moro. Colisão apinhada de interrogações, acusações e suspeitas de teor muito sério. As atordoantes alegações do magistrado que se tornou célebre na “Lava Jato”, falando dos motivos de sua saída da pasta, deixaram um rastro de estupefação no espírito popular. Foram apontadas, nos círculos jurídicos, como libelo acusatório explosivo. Rebatendo o ex-colaborador, brindado repetitivamente, em passado recente, com referências altamente elogiosas, o Presidente levantou, por sua vez, a tese de que as desavenças nasceram da incontrolável disposição do contendor em utilizar expedientes desprimorosos na conquista de posições de maior projeção na carreira.

O “quiproquó” ganhou estardalhante reverberação. Causou natural estarrecimento, colocando a opinião pública em alerta e na expectativa de que o bom-senso possa prevalecer, nos desdobramentos das candentes questões, de forma a garantir o império estrito da Lei nas soluções políticas e judiciais requeridas pelas circunstâncias. 

Tudo quanto narrado remete a inarredáveis conclusões. A pátria e a democracia exigem respeito. O flagelo do coronavírus carece de conjugação poderosa de vontades pra mode que ser conjurado. O diálogo é instrumento imprescindível na busca das decisões, a serem regradas pelos preceitos constitucionais. As exigências sociais e econômicas reclamam crises de menos, algumas mesquinhas e artificialmente semeadas. No lugar delas mais, muito mais trabalho, iniciativas, criatividade, arrojo empreendedor tendo em mira a retomada de um processo de desenvolvimento verdadeiramente conectado com a vocação de grandeza do País. O Brasil em primeiro lugar. O resto é resto.

quinta-feira, 30 de abril de 2020


Só mesmo Nonô! (I)

Cesar Vanucci

“Nossa missão: A democracia praticada e não apenas pregada.”
(JK, em mensagem aos colegas militares)

A soberba cena já foi narrada em verso e prosa. Até mesmo em cantoria de cordel. Pisando pela primeira vez o solo de Brasília, a professora Julia, mãe de JK, abriu a janela do aposento em que se achava alojada, esquadrinhou maravilhada, olhos marejados, o deslumbrante cenário descortinado e exclamou com voz forte, carregada de emoção cívica, mesclada com orgulho maternal: - Só mesmo Nonô seria capaz de fazer tudo isso!

A frase da veneranda educadora ricocheteou, vezes numerosas, na memória velha de guerra deste escriba durante recente encontro cultural interacadêmico levado a efeito na sede da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais. O economista Carlos Alberto Teixeira de Oliveira e o coronel Klinger Sobreira de Almeida presentearam o público na ocasião com esplêndidas exposições, enfocando a vida e obra do inesquecível Juscelino Kubitschek de Oliveira. Inserido nas comemorações do tricentenário da implantação da Província de Minas Gerais, o evento foi promovido pelas instituições acadêmicas na sequência nominadas: Arcádia,  Academia Feminina Mineira de Letras, Academia Cordisburguense de Letras Guimarães Rosa, Academia de Letras João Guimarães Rosa da PMMG, Academia de Letras do Ministério Público, Academia de Letras do Triângulo Mineiro,   Academia   Mineira   de   Leonismo,    Academia
Mineira de Letras, Academia Municipalista de Letras, Instituto   Histórico   e Geográfico.

A plateia, composta de personagens da maior representatividade intelectual, aplaudiu com vivo entusiasmo as palestras proferidas pelos dois ilustres acadêmicos, ambas de altíssimo nível e substancioso conteúdo histórico. Ambas reveladoras, no retrato produzido dos feitos de JK, daquilo que dona Julia proclamou: - Só mesmo Nonô seria capaz de fazer tudo isso!

Klinger é membro da Academia da Polícia Militar. Carlos Alberto integra os quadros da Amulmig. Primeiro a fazer uso da palavra, o coronel relatou lances marcantes da atuação de Kubitschek na Força Pública. Como capitão médico lotado no Hospital Militar, ele ingressou na corporação em 1931. Participou como oficial médico da Revolução de 32.

O expositor valeu-se de sugestiva e exaustiva pesquisa, estampada em publicação distribuída aos presentes durante o encontro, para sublinhar aspectos pouco divulgados pertinentes à trajetória jusceliana na vida militar. Referiu-se aos louvores de superiores hierárquicos a propósito de seu desempenho no movimento. Na folha de serviços ele é apontado como “o cirurgião da campanha” e “bisturi de ouro da Força Pública”. A afeição e fidelidade de JK à corporação fica bem evidenciada no fato dele jamais ter dela se desligado, mesmo consagrando-se às tarefas políticas que o celebrizaram.

Quando do lançamento da candidatura à Presidência da República, perante a oficialidade reunida, envergando farda, ele assim se pronunciou: “Senhor Comandante Geral, o tenente coronel Juscelino Kubitschek de Oliveira, do Serviço de Saúde, aqui se apresenta por motivo da passagem do Governo do Estado ao seu substituto legal, em obediência ao dispositivo da Lei, já que é candidato à Presidência da República”.

Noutro instante, junho de 1959, já aí como chefe do governo, ele agradeceu a uma homenagem da Polícia Militar com manifestação de carinho, de sonora atualidade, da qual extraímos os trechos na sequência alinhados. “Neste momento medito bem, e faço o balanço do muito que, a crédito da Polícia Militar, está consignado no processo de autêntica democratização de nosso Estado. (...) Colocando-nos rigorosamente dentro do mais alto sentido da nossa missão, foi-nos dado colaborar para o advento do que aí está: a democracia praticada e não apenas pregada.” (...) “A Polícia Militar de Minas (...) colaborou para o êxito desta sábia orientação política.” (...) “Não haverá obra de desenvolvimento possível, nem seríamos levados a sério, se déssemos prova de subdesenvolvimento político (...), se nos portássemos como subdesenvolvidos (...), por demonstrações de incompatibilidade com o regime civilizado que adotamos.”

Dá pra repetir: Só mesmo Nonô!


Só mesmo Nonô (II)

Cesar Vanucci

“De todos nós, é o nome dele que vai durar mil anos.”
(Afonso Arinos, referindo-se a JK, seu adversário politico)

Fixo o olhar da memória, novamente, em cena já aqui descrita. A mãe de JK, professora Julia, maravilhada diante da contemplação, pela primeira vez, do portentoso cenário de Brasília, dá voz à sua emoção e orgulho maternais: - Só mesmo Nonô pra fazer algo assim!

Parto desse terno registro para prosseguir no relato do que ocorreu no encontro cultural patrocinado por dez prestigiosas instituições acadêmicas mineiras, indoutrodia, na Casa de São Francisco de Assis, sede da Amulmig. Como ficou explicado, dois ilustres conferencistas produziram, na ocasião, magistrais exposições com foco na obra do estadista Juscelino Kubitschek de Oliveira. Depois da aplaudida fala do coronel Klinger Sobreira de Almeida, chegou a vez do numeroso público ouvir, também com visível empolgação, o pronunciamento do economista Carlos Aberto Teixeira de Oliveira. O ex-presidente do BDMG e ex-secretário de Estado, autor de livros acolhidos com simpatia pela crítica e leitores, alusivos à fascinante saga jusceliniana, galvanizou as atenções da plateia, composta de categorizados representantes da cultura mineira. Enfileirou na narrativa números e dados impressionantes sobre o trabalho fecundo levado avante pelo gestor público responsável, conforme o reconhecimento das ruas, por fazer o Brasil crescer 50 anos em 5. Reportou-se às realizações extraordinárias que, em momentos distintos de extensa trajetória pública, projetaram o poder empreendedor do ex-prefeito de Belo Horizonte, ex-governador de Minas e, no ápice de uma vitoriosa carreira, ex-presidente da República. Enfatizou as crenças democráticas, tantas vezes postas à prova, que adornaram prodigiosa aventura vital. Falou de sua condição de liderança, de seus notáveis pendores para o exercício, com firmeza, autoridade moral, sensibilidade social, visão pragmática de problemas, das nobres funções de comando que o destino providencialmente entregou-lhe.

JK já afirmava – recordou ainda – que as maiores ameaças à democracia são a miséria, o desemprego e o subdesenvolvimento. Sem investimento não há desenvolvimento. O palestrante salientou que Kubitschek, intérprete qualificado do sentimento nacional, pregava a necessidade de a Nação promover o desenvolvimento como garantia de nossa própria sobrevivência num mundo que se impõe, mais e mais, pela força de uma vertiginosa marcha técnica. O desenvolvimento não deve ser tomado apenas como justa ambição, mas como um objetivo essencial de sobrevivência. Na pregação desenvolvimentista, Nonô asseverava que o planejamento estratégico a longo prazo – as célebres metas - constituía elemento basilar para que o Brasil conseguisse galgar patamares de potência superdesenvolvida. O “Profeta do desenvolvimento”, expressão encaixada no perfil de JK, sabia enfrentar com destemor, ancorado nas potencialidades do país e virtualidades de seu povo, o que bem pode ser denominado de “síndrome do raquitismo econômico”. Algo que leva a gente a desaprender de crescer. A permitir o enferrujamento de nossa máquina propulsora do crescimento vigoroso e contínuo.

O fabuloso legado do governo JK, que favoreceu avanços consideráveis, nunca dantes nem depois alcançados na invasão do futuro, foi também descortinado na exposição. A deslumbrante Brasília, a indústria automobilística, os imensos canteiros de obras espalhados, a proliferação de hidrelétricas, as cintas asfálticas em todas as direções, a ambiência propícia para que a indústria nacional se expandisse, libertando-nos da dependência de desnecessárias importações de produtos, a geração contínua de empregos, os índices de crescimento elevados comparativamente com os demais países em ascensão econômica, a repousante atmosfera democrática, que assegurou o respeito internacional a pujantes manifestações culturais e artísticas: tudo isso e tantas coisas mais foram objeto de apreciação na palestra.

Resumo de nosso bate-papo. De tudo quanto contado nas palestras (a do coronel Klinger e a do economista Carlos Alberto), no encontro cultural interacadêmico, sobrelevou-se, bem visível, a certeza de que os tempos dourados de JK ficaram definitivamente incorporados à história, significando o instante político administrativo mais imponente vivido pela Nação, na era contemporânea. O Brasil foi visto ali na rota correta de sua indesviável vocação de grandeza.

Só mesmo Nonô foi capaz de fazer tudo isso!





RUMO A UMA NOVA CIVILIZAÇÃO

Maurício Roscoe

Em meu livro A Borboleta Azul (uma adaptação dos conceitos do Efeito Borboleta e da Teoria do Caos para crianças) vemos como uma borboleta pode mudar o rumo da história. E agora surge, de fato, um minúsculo organismo, um vírus a que chamaram COVID-19, que põe em xeque o modo que a humanidade vê e lida com as coisas.

Vivemos em um Universo Inteligente. Todas as leis universais da física, da química, da biologia são leis muitíssimo inteligentes. Não as entendemos bem, pois ainda estamos em evolução. Por mais que as ciências tenham avançado, ainda há muito a evoluir.

Esse minúsculo ser veio para ensinar que colaborar é muito mais inteligente que competir. O COVID-19 nos apresenta muitos desafios, mas também apresenta uma grande oportunidade evolutiva. Estamos sendo forçados a aprender que a polarização esquerda versus direita - bem como o excesso de especialização - não apenas são falhos em equacionar os problemas fundamentais da nossa sociedade, mas também ineficientes em lidar com a situação emergencial pela qual o mundo está passando.

O mundo já sofreu pandemias épicas no passado, mas hoje temos a tecnologia para compartilhar ideias, compartilhar conhecimento de forma rápida e eficaz, permitindo decisões mais bem fundamentadas. Toda a sociedade, em todos os países do globo, é chamada a lutar pelo bem de todos. Unidos, buscamos soluções para superar a pandemia e para evitar o que pode ser uma das maiores crises econômicas que o mundo já passou. As questões à nossa frente são problemas macro, sistemas complexos nos quais diversos aspectos estão interligados. A solução para tais questões não podem ser traçadas por médicos, cientistas ou economistas trabalhando isoladamente.

A solução requer trabalho multidisciplinar. Mas, mais do que isto, a solução requer repensarmos muitas das nossas “verdades”. Não é uma questão de “voltarmos à vida normal”. O uso descontrolado de recursos naturais, obsessão pelo crescimento a qualquer custo, a iniquidade, a fome, a falta de acesso à saúde e à educação, não pode mais ser considerada normal.

A natureza nos deu um vislumbre do que é possível se redefinirmos nossas prioridades. Em apenas alguns meses, e pela primeira vez em muitas décadas, o Monte Everest é visível da Índia graças à queda do nível de poluição atmosférica; os canais de Veneza estão cheios de água cristalina; e peixes e tartarugas nadam livremente na rejuvenescida Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro. Isso significa que muitos de nossos recursos naturais podem ser reconstituídos. Em meio às incertezas criadas pela pandemia, vemos amostras do que uma restauração coordenada de pensamento coletivo mundial pode alcançar.

O vírus veio para reforçar o que a ecologia há muito tenta nos ensinar: que temos a liberdade que o Livre Arbítrio nos dá, mas temos que usar bem essa liberdade, para criarmos uma sociedade mais orgânica, colaborativa e justa, enfim, uma sociedade mais inteligente, que mereça o nome de CIVILIZAÇÃO.



A SAGA LANDELL MOURA

Nossa fascinante MPB Cesar Vanucci "Onde se toca boa música,   não pode haver coisa má." (Cervantes) Neste...