sexta-feira, 26 de outubro de 2018


CONVITE AOS AMIGOS PARA A HOMENAGEM 
QUE RECEBEREI NO DIA 19 DE NOVEMBRO





Despotismo gera chocantes incidentes mundiais

Cesar Vanucci

O “sumiço” do jornalista, o “suicídio” do vereador, a “renúncia” do chefe da Interpol documentam, mais uma vez, o que os regimes ditatoriais são capazes.”
(Antônio Luiz da Costa, Professor)

Governos de características despóticas, contumazes na violação dos direitos fundamentais, acabam de protagonizar novas censuráveis ações de repercussão mundial.

Um dos incidentes impactantes ocorridos implica o reino saudita. Escorada numa estrutura de poder medieval, que comporta até mesmo tolerância em relação à escravatura, a monarquia árabe mantem-se totalmente fechada às conquistas civilizatórias. A Arábia abriga em seu território o local considerado mais sagrado da fé islâmica. Isso lhe confere influência considerável no jogo político regional. Detentor de enormes reservas petrolíferas, exploradas em consórcio com as maiores empresas americanas e europeias do ramo, o país desfruta de prestígio injustificável por parte dos mandatários das potências mundiais, por conta de espúrias conveniências geopolíticas. Seus parceiros empenham-se em ocultar os delitos frequentes perpetrados pelo regime contra os direitos humanos.

Maquinações cavilosas apontam a realeza saudita como reformista, modernizadora, modelar na defesa dos postulados democráticos. Mas não são suficientes para impedir que muitos analistas de política internacional tragam ao conhecimento público a asfixiante situação em termos de respeito à dignidade humana vigente nos domínios árabes. O escritor e jornalista Michael Moore sustenta que, naquele pedaço do mundo, fica localizada a fonte matricial do fundamentalismo muçulmano. Fundamentalismo esse responsável pela existência do ISIS, Al-Qaeda e outras sinistras organizações. Embora os dirigentes saudistas aleguem combater as falanges extremistas, nos bastidores, atuam em sentido totalmente inverso, afirma Moore.

O que ocorreu no dia 2 de outubro passado, na Turquia, é uma amostra tétrica do sufocante clima de repressão praticado pelos sauditas. O jornalista Jamal Khashoggi, colunista do Washington Post, crítico do governo e da aliança dos monarcas com Donald Trump, compareceu ao consulado saudita em Istambul para regularizar papéis referentes a seu enlace matrimonial. Sua noiva ficou a aguardá-lo do lado de fora. O jornalista nunca mais foi visto. De acordo com a segurança turca, foi sequestrado, torturado, morto e esquartejado. Estranhas movimentações na sede do consulado, rastreadas pela polícia turca, informaram o mundo do “desaparecimento”. Pressionados a se explicarem, ameaçados com sanções, os dirigentes sauditas limitam-se a dizer que promoverão retaliações contra os que os censuram.

Afogada em caos político e econômico, devido a desatinos sem conta cometidos por governantes despreparados, desafeiçoados ao diálogo democrático, nossa vizinha Venezuela assume, outra vez mais, notoriedade negativa no palco dos acontecimentos mundiais. Às voltas com o dilacerante drama dos refugiados, criticada acerbamente pela repressão à liberdade de expressão, pelas violências contra os que discordam da orientação caudilesca dominante, o governo Maduro é acusado agora da eliminação, em circunstâncias cruéis, de um adversário político. A vítima, um vereador, foi conduzida à sede da temida polícia política. De acordo com a versão oficial, pôs termo à vida, esmagado diante das provas acumuladas de sua participação em delito contra o Estado, atirando-se de uma das janelas do edifício em que se achava detido. Os indícios, entretanto, são de que ele não se jogou, foi jogado depois de “severo interrogatório”...

A China também ganhou evidência por ato chocante, revelador da falta de transparência e desdém com que trata, no seu estilo autocrático de conduzir as coisas, a comunidade das nações e a opinião pública. O presidente da Interpol, chinês Meng Hongwei, que acumula o posto de Secretário de Segurança em seu país, deixou a sede da organização, em Lion, França, para uma viagem de curta duração a Pequim. Como não mais desse qualquer notícia, por bom pedaço de tempo, para familiares e subordinados, depois de pisar no solo chinês, a Interpol resolveu acionar o Governo com pedido de esclarecimento. A resposta demorou a ser dada: Meng estava detido por acusações não devidamente especificadas.  Por tal razão “resolveu renunciar” ao comando da Interpol. O embaraçoso episódio consignou a impressão de que o cidadão citado foi alvo de um dos tradicionais “expurgos” que pontuam o jogo pelo poder político no sistema comunista. Na comunidade internacional afloraram questionamentos a respeito da forma desrespeitosa com que a China lida com organizações, à feição da respeitável Interpol, que mantêm atividades conectadas com os países em função de tratados por eles referendados.



Fatos reais,
mas parecem nventados

Cesar Vanucci
                                                         
“Símbolo budista significando amor, paz e harmonia.”
(Delegado de polícia gaúcho explicando a suástica gravada a canivete na barriga da jovem)

Nestes tempos amalucados, de informações falsas apelidadas de “fake news” pelo modismo babaca solto na praça, andam pintando também no pedaço, exageradamente, sabe-se lá porque cargas d’água, situações de características bastante singulares e bizarras. Tão singulares e bizarras que chegam a confundir a mufa de muito vivente. Num primeiro instante, parecem até essas mentiras encomendadas distribuídas por “criativos técnicos” na propaganda política. “Especialistas” em “estratégias” de persuasão do povão. Um tipo de gente que dita, impavidamente, as regras das campanhas eleitorais modernosas. Campanhas desfalcadas, como sabido, de ideias e de projetos. Campanhas de conteúdo panfletário, conduzidas mais na linha do “contra alguém”, do que “a favor de alguém”. Abaixo, sugestivas amostras, recolhidas em datas recentes, de fatos reais que, à primeira vista, soam como histórias inventadas.

Comecemos com uma ida ao Rio de Janeiro, pedaço de chão de lindeza especial deste conturbadíssimo planeta azul. Nessa cidade e adjacências sempre pontilhadas de lances desnorteantes gerados pelo desatino político, o candidato a governador vitorioso no primeiro turno fez uma declaração que vem dando o que falar. O ilustre cidadão, até indoutrodia desconhecido da imensa maioria das pessoas, magistrado conceituado, conseguiu contrariar todas as projeções das polêmicas pesquisas pré-eleitorais com bom trabalho de proselitismo. Assumiu com folgada vantagem a liderança na disputa, sobrepujando um ex-prefeito carioca, apontado o tempo todo na dianteira das tais pesquisas. Alijou praticamente do poder todos os grupos hegemônicos da política guanabarina. A declaração surpreendente que emitiu pode ser assim sintetizada: se seu adversário, num debate televisivo, se atrever a alvejá-lo injuriosamente, não vacilará em dar-lhe, ali mesmo, voz de prisão. Vasculhando a memória, constato que em campanha eleitoral alguma ouvi nada ligeiramente parecido com tão insólita e original manifestação.

Seguindo em frente. Detenho-me, por ligeiros instantes em um programa de auditório na televisão intitulado “Amor e Sexo”. A simpática apresentadora concita o entrevistado, ator de renome, em meio a frenéticas manifestações da indefectível bancada de juradas e da plateia, composta predominantemente de mulheres, a compor com bonecos de pano uma simulação de relação sexual ardente. Ele ajeita os bonecos diante das câmeras, de modo a oferecer uma representação da tarefa que lhe está sendo proposto. Embalde. Não consegue, na abalizada opinião da apresentadora e juradas, deixar “bem explicitada” a cena. Na sequência, na tela de fundo do cenário, bastante nítida, em movimentos de bonecos eletrônicos, é projetada a “imagem adequada” da tal “relação sexual ardente”. Aplausos ensurdecedores antes de deslizarem os letreiros do fecho do programa.

Em Porto Alegre, descendo de um ônibus, uma jovem de 19 anos, envergando camiseta com o slogan “Elenão”, é agredida e imobilizada por desconhecidos. Os agressores fazem-lhe talhos na barriga configurando a sinistra suástica. O delegado encarregado da investigação larga uma declaração insólita sobre o atentado. Possuído “da mais absoluta convicção”, diz que a marca a canivete, face ao detalhe de a perna do “S” estar invertida, não representa, ao contrário do que se supõe, o símbolo hitlerista. Mas, sim, um símbolo budista milenar com o significado de “amor, paz e harmonia”. Quis referir-se, talvez, ao fato histórico de que, no Tibete budista do Dalai Lama, o sinal da cruz gamada invertida é propagado com sentido positivo, desde tempos imemoriais. Os nazistas dele se apoderaram, adulterando-lhe o conceito. Passaram a apontá-lo como representação da “pureza racial ariana”. É obvio que a manifestação da autoridade gaúcha impacta as pessoas de bom-senso. Fica evidente também que os autores da agressão não estavam imbuídos, coisíssima alguma, do “edificante propósito” de espalhar, com seu gesto, mensagem de amor, paz e harmonia...

Rio de Janeiro, outra vez. Os encarregados das investigações não sabem, jeito maneira, como “descascar o abacaxi” da cobrança sistemática, por parte de uma opinião pública vigilante, a respeito da elucidação da tramoia criminosa que vitimou a vereadora Marielle Franco e seu assessor. Continuam, à vista disso, a se valer de trapaças para justificar a ausência de revelações. Dão força aos indícios de que conveniências poderosas se opõem ao esclarecimento de tudo, conforme denúncia recente de um delegado que abandonou o trabalho de apuração. A última informação estapafúrdia liberada pelas autoridades competentes é esta aqui: os peritos já teriam conseguido compor o biotipo físico do atirador. Já quanto aos nomes do atirador e prováveis mandantes, neca de pitibiriba.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018


Apurações acima de 
quaisquer suspeitas


Cesar Vanucci

Tudo não passa de notícia falsa.”
(Comunicado do TSE)

Parar com esse descabido papo. Conversa mais sem pé nem cabeça, como era de costume dizer-se, face a revelações despropositadas, em tempos de antigamente. Apelando para o bom-senso, tratemos de repelir essas insinuações maliciosas, atulhadas de segundas intenções. Elas vicejam soltas por aí que nem fiapo de tiririca escondido no torrão, conforme o linguajar roceiro.

Essa história de fraude nas urnas eletrônicas é rigorosamente falsa. Tanto quanto uma nota de três reais. Não passa de desculpa de maus perdedores. Melhor dizendo, a se levar em conta a origem da suspeição levantada, desculpa de maus ganhadores. Perpetrada sabe-se lá com quais enigmáticos desígnios.

A Organização dos Estados Americanos (OEA) constituiu uma missão para acompanhar o processo eleitoral brasileiro. Seus integrantes, sem vozes discrepantes, emitiram parecer consistente, irretorquível, acerca da lisura do processo de coleta de votos instituído pelo TSE. Auditagens independentes, a cargo de organizações conceituadas, foram de outra parte contratadas com o fito de rastrear eventuais fissuras no sistema de votação que pudessem vir a afetar a fidedignidade dos resultados. Não deu outra. O certificado por elas divulgado comprovou, sem a mais tênue ressalva, a eficácia plena dos procedimentos. Seja juntada a tudo isso o notório reconhecimento na esfera internacional de que o esquema eleitoral vigente no Brasil é modelar, a ponto de vir sendo copiado noutros países. A conclusão inapelável a que se chega, no frigir dos ovos, é única. O Tribunal Superior Eleitoral está coberto de razão, detentor de autoridade moral mais do que suficiente, quando rebate de pronto quaisquer dúvidas, acusações e denúncias ardilosas, diretas e indiretas, que busquem, ao fragor das paixões políticas, desfazer a legitimidade dos métodos empregados na apuração de votos.


Faz-se oportuno também, seguindo esta mesma linha de considerações, chamar atenção para o falso teor de uma mensagem vastamente propagada nas redes sociais alusiva a interferências indevidas do TSE nos números do primeiro turno. Segundo texto veiculado, o órgão teria anulado pelo menos 7.2 milhões de votos, com isso alterando significativamente os resultados. A publicação feita reclama do TSE um esclarecimento cabal a respeito da suposta anulação dos votos. Conclama os usuários das redes para que compartilhem a denúncia, de maneira a que “os incautos não sejam ludibriados, antes que seja tarde demais.” Manifestando-se sobre a questão, o TSE deixa esclarecido que “o dado não é verdadeiro”. Explica em comunicado que “os 7.2 milhões de votos nulos foram dados pelos próprios eleitores”. De acordo com o Tribunal, o voto nulo ocorre quando o eleitor digita o número de um candidato inexistente na disputa do cargo.

Na votação para a Presidência da República, o quantitativo acima mencionado de votos nulos correspondeu a 6,14 por cento dos sufrágios depositados nas urnas. Desde 1998 esse índice tem variado de 5 a 10 por cento. “No caso da Presidência, se o eleitor, por exemplo, votasse 99 estaria anulando o voto. Isso pode acontecer por erro do eleitor na hora da votação, ou de forma intencional”, pontua ainda o TSE.

Encurtando razões: tudo quanto venha a ser alardeado de teor inverso à constatação da lisura nas apurações há que ser interpretado, pela opinião pública, como desserviço à causa democrática.

sábado, 13 de outubro de 2018


A eleição que continua

Cesar Vanucci

“Um governo deve sair do povo
como o fumo sai da fogueira.”
(Monteiro Lobato)

A democracia funciona assim. O que as urnas falam está falado. A fala de agora foi de eloquência atordoante. Muitos os recados transmitidos. Reclamam descomedida atenção. Como diz o poeta, é preciso saber entender direitinho os sinais. É preciso perceber o significado dos sinais.

Expressando a vontade popular, os resultados do pleito desmentiram pesquisas que se acreditam criteriosas do ponto de vista técnico. Contrariaram avaliações de um batalhão de analistas políticos, integrantes de bancadas televisivas dominadas por embriagante autossuficiência. Produziram euforia em alguns redutos e frustração noutros. São resultados a serem, obviamente, assimilados sem choro nem vela por todos os cidadãos e grupamentos partidários que atuaram como protagonistas na frenética corrida pela conquista do voto.

Um aluvião de situações inesperadas apoderou-se da paisagem política. Foram registradas alterações expressivas na composição do Senado, da Câmara dos Deputados, das Assembleias. Revelou-se impactante a pífia votação, sob certo aspecto inimaginável, atribuída a numerosas figuras de prestígio nacional na disputa presidencial. O mesmo cabe ser dito a respeito da retirada constrangedora do palco de nomes proeminentes - alguns deles, não todos - com participação de certo modo realçante no processo de desenvolvimento social e econômico. E o que não dizer do desfecho pra lá de desconcertante da pugna eleitoral em determinados cenários, com destaque para o que aconteceu em Minas Gerais e Rio de Janeiro?

As considerações suscitadas pelo que rolou no pedaço eleitoral são a perder de vista. Os desacertos clamorosos, outra vez mais, das pesquisas de intenção de voto estão a pedir uma reformulação dessas consultas pré-eleitorais. Não há como ignorar a influência que os dados propagados, com frequência praticamente diária, podem vir a exercer junto a parcelas dos votantes indecisos. Isso carece ser levado na devida conta. As críticas ao esquema adotado pelos institutos se avolumam. Todos nós já nos deparamos com pessoas que alegam nunca terem sido ouvidas em pesquisa alguma. Mais do que isso: jamais tiveram, tampouco, conhecimento de alguém que o tenha sido. Fica evidente que a questão comporta a necessidade imperiosa de reexame.

Mudemos o foco, agora, para um aspecto inegavelmente positivo extraído do evento de domingo. Ele se configura no clima civilizadamente ordeiro que prevaleceu ao longo do período de comparecimento dos votantes às seções eleitorais.  Em ponto nenhum da extensão continental brasileira ocorreu, ao que se sabe, como consequência de discordâncias políticas inflamadas, incidente que maculasse a beleza da festa cívica transcorrida. Essa inequívoca demonstração de maturidade política e democrática do eleitorado, no momento de expressar suas preferências nas urnas, contribuiu para reafirmar a veemente condenação da sociedade brasileira a atos deploráveis anotados no andamento da campanha eleitoral. Com ênfase ao desvairado atentado de Juiz de Fora.

O segundo turno é uma outra eleição. São bastante compreensíveis as expectativas externadas por todos os segmentos representativos da sociedade, comprometidos com o Bem Comum, em relação ao posicionamento a ser mantido, daqui pra frente, pelos candidatos apontados para a derradeira disputa. A ardente esperança popular é de que eles se coloquem à altura da confiança que lhes foi outorgada. Esmerem-se na elaboração e exposição dos planos e estratégias julgados relevantes para que o país possa ser recolocado nas trilhas do desenvolvimento econômico e das conquistas sociais. Faz-se essencial se mostrem aptos a oferecer indicações claras de competência, preparo psicológico, condição moral e ética para gerir os sagrados negócios públicos. É fundamental que saibam projetar publicamente elementos de forte convicção sobre seus propósitos, que mostrem exuberantemente seus currículos, suas histórias de vida, que proclamem com clareza solar suas ideias sobre as questões pertinentes ao crescimento brasileiro e à nossa evolução civilizatória.

Dos eleitos espera-se mantenham sintonia perfeita com o sentimento das ruas. Como dizia o imortal Monteiro Lobato, “um governo deve sair do povo como o fumo sai da fogueira.”


sexta-feira, 5 de outubro de 2018


Está chegando a hora

Cesar Vanucci

“Eleição é um teste cívico periódico para se manter a boa saúde democrática.”
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Em idos tempos, anteriores ao estrondoso advento da era da comunicação digital, disputantes de cargos eletivos e próceres partidários costumavam recorrer, nalguns instantes de efervescência política, a uma frase declinada como uma espécie de refrão. A frase “em tempo de guerra, mentira como terra...” sintetizava, com adequação, o duelo flamejante das acusações e denúncias trazidas a público.

De meu isolado posto de observação, atento ao que leio e ouço dos protagonistas das competições eleitorais e porta-vozes, dou-me conta de que essa expressão parece haver caído em desuso. Está fora de moda. Pergunto-me por quê? A resposta que me acode é simples. A tal frase - com jeito, repita-se, de bordão, ou coisa equivalente - não consegue exprimir com fragor apropriado a avassaladora torrente de informações dúbias ou inteiramente falsas, os doestos, as sibilinas assacadilhas despejadas nas chamadas redes sociais. Redes sociais estas reconhecidas como as fontes de consulta mais incrementadas na atualidade. Muita gente vislumbra, nesse impactante esquema de divulgação, instrumento de propaganda de impensável descarte nestes tempos amalucados.

Admitamos, com pitadinha de condescendência, a hipótese de que a orientação geral passada pelos comandos partidários aos encarregados da marquetagem não contemple a avalancha de exageros detectada. Os excessos cometidos correriam a débito do descontrole emocional ou fanatice de apaixonados seguidores dos candidatos. Mesmo assim, sob mira crítica, não há como desfazer, ou deletar, como se diz no linguajar internauta, a incômoda sensação de que, na campanha em curso, os limites éticos vêm sendo extrapolados pra valer. A propagação, às vezes com ímpeto de rastilho de pólvora, de notícias desairosas, alvejando adversários, revela-se volumosa. Infinitamente mais do que a própria e, aí sim, absolutamente necessária disseminação das propostas de trabalho daqueles cidadãos que, na tentativa de sensibilizar o eleitorado, proclamam-se dispostos a batalhar incansavelmente pela solução das questões tormentosas enfrentadas no panorama brasileiro. E, pelo que se percebe, esse indesejável estado de coisas está longe de arrefecer. Tende, falar verdade, a agravar-se no breve pedaço de tempo que resta para a decisão soberana e inapelável das urnas.

É oportuno enfatizar que o jogo democrático tem regras claramente definidas. A livre expressão das ideias, as discordâncias, as ruidosas manifestações populares fazem parte do enredo elaborado e garantido pela Carta Magna. Levantar, a esta altura de nosso estágio democrático, desconfiança e suspeição a respeito da legitimidade e seriedade de um sistema de coleta e apuração dos votos mundialmente louvado pelo seu elevado grau de eficiência, constitui expediente nada democrático, de baixo nível e deslavada má-fé. De igual modo, há que ser visto como achincalhe aos nossos foros de cidadania bravatices do estilo “vamos acabar tomando o poder, o que é diferente de ganhar eleição...” É de se deplorar e de se estranhar também que, justamente à véspera do pleito, fragmentos de depoimentos obtidos via delação premiada, considerados juridicamente insuficientes como elemento probatório, sejam extemporaneamente liberados para divulgação espalhafatosa. Coisa assim pode ser interpretada como atentado à neutralidade que o Judiciário tem o dever de sustentar diante de uma contenda política, sobretudo marcada por acesas paixões.

Ao eleitor consciente impõe-se o discernimento de saber distinguir, na frenética onda de impropriedades espalhadas, os propósitos realmente positivos e edificantes, contidos nos projetos e propostas debatidos, daquelas maquinações demagógicas e desconstrutivas que, desafortunadamente, enxameiam a corrida atrás do voto. Por outro lado, o bom senso, os ditames éticos e legais estatuídos pelo regime democrático reclamam dos candidatos, também nesta mesma hora, que esmerem na apresentação de suas plataformas. Tratem de convencer, pela argumentação, pelo conteúdo da pregação, as legiões de votantes, tornando-os simpáticos à causa que abraçam.

A receita democrática é essencialmente esta: quem conseguir aglutinar maior contingente de votos ficará, obviamente, investido da sagrada missão de conduzir os destinos nacionais. A campanha finda no segundo turno, se houver. Ao depois de anunciados oficialmente os resultados, de acordo com o calendário estipulado, acontece a posse dos legitimamente escolhidos.

E se Deus assim permitir em resposta a justos anseios da sociedade, estaremos inaugurando uma nova etapa em nossa história política. Aguardada com expectativa, mais do que isso, com fervorosa esperança, essa nova etapa, congregando as forças vivas e produtivas da Nação, haverá de favorecer a retomada do desenvolvimento econômico e social. Haverá de garantir definitiva ruptura com esse hiato de estagnação que tanto nos amargura.


A política, segundo o 
pensador Arduini


 Cesar Vanucci


“(...) Política é nobilitante e expressa sentido de cidadania.”
(Padre Juvenal Arduini, sociólogo e professor)

Criatura admirável, provida de incomum sabedoria, soube colocar os talentos do espírito a serviço do mundo, das causas sociais, dos excluídos na partilha dos bens terrenos prodigalizados pela Natureza ou produzidos pelo labor humano.   Chamava-se Juvenal Arduini. Padre, escritor, sociólogo, professor, tribuno eletrizante. Desfrutei do privilégio de extensa convivência, muito fecunda para mim em benefícios, com esse admirável mestre. Em certa ocasião, ao homenageá-lo, disse-lhe que o considerava o padre Lebret brasileiro. Atualizo o conceito. Nutro hoje convicção plena - repassando lances do seu trabalho apostólico e revendo escritos brotados de sua pena refulgente e ensinamentos transmitidos em sua fala civicamente desassombrada - que faz todo o sentido proclamar também que o citado padre Lebret, festejado pensador, foi o Juvenal Arduini francês.

Ao relembrar personagem de tão maiúscula presença na cena intelectual, aquinhoado de dons humanísticos e espirituais invejáveis, amigo muito querido, meu compadre, tomo a liberdade de substituir, com notória vantagem para o leitor, meu comentário nesta véspera eleitoral por palavras extraídas da vasta e valiosa obra deixada pelo mestre. São pensamentos vigorosos, oportunos e atuais, como se verá adiante.

Vamos lá. Assim falou Juvenal: “Em tempo de eleições (...) é oportuno refletir sobre a política. Política deriva de “poleteia”, no grego. “Polis” significa cidade, região habitada. E “polites” é cidadão. Verifica-se que, originalmente, política é nobilitante e expressa sentido de cidadania.

Política é fenômeno eminentemente social e promove a sociedade como todo. Política tem significado de associação, convivência e aliança. A política existe para reunir pessoas, integrar grupos e povos para responder aos desafios sociais. A verdadeira política suscita a socialização substancial e elimina o dilaceramento feroz entre pessoas, organizações e partidos.

A política está organicamente ligada ao povo. É destinada a servir o povo e não a subordiná-lo a interesses mesquinhos. A Constituição brasileira foi ousada e lúcida ao tratar da relação entre poder e povo. No artigo primeiro, parágrafo 1, a Constituição declara: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Aí está proclamação constitucional lapidar que dignifica Nação moderna. O poder emerge do povo. E também é exercido pelo povo mediante os eleitores ou diretamente. O poder está no povo, permanece no povo. O povo pode outorgar funções aos políticos, mas não lhes transfere o poder. Estritamente, o poder é do povo e não dos governantes. Há políticos que agem como se fossem donos do poder, que pertence ao povo. Isso é usurpação do poder popular.

Há muitos tipos de política. A politica humanizada, social, ética e comprometida com a população. A política prostituída, corrupta e perversa. A política autoritária, tirânica e a política submissa, servil. Há política séria que responde às necessidades da população e política corrompida que se apodera dos recursos que pertencem aos pobres.” (...) “A realidade política, em si, é valor humano, social, cultural e histórico. A política sadia é necessária à sociedade. Não se trata de abolir a política, mas de limpá-la. Há que resgatar o potencial político dos povos. É urgente instaurar (...) a política da justiça e não da miséria. (...) A política da ética (...) A política da vida e não da morte. A política deve estar comprometida com o clamor da humanidade sofrida e com a responsabilidade histórica.”

A SAGA LANDELL MOURA

Falando de gripe comum                                                                 Cesar Vanucci “ (...) Daí ser a venda d...