domingo, 25 de junho de 2023

Jogo legal

 



*Cesar Vanucci

“Constatação surreal: Las Vegas recebe mais turistas estrangeiros do que”

( Antonio Luiz da Costa, educador)

 

Las Vegas, cidade estadunidense com 640 mil habitantes, 2 milhões e 200 mil na zona metropolitana, acolhe mais de 5 milhões de turistas estrangeiros e recebe cerca de 52 milhões de visitantes  a cada ano. O Brasil, país com 2020 milhões de habitantes com pontos de atrações inigualáveis, registra fluxo anual de 2 milhões e 200 mil turistas estrangeiros. Não está havendo erro nos números que o caro leitor acaba de ler. Las Vegas, com seu fabuloso complexo de cassinos, atrai mais visitantes estrangeiros do que nosso país por inteiro. Esta a atordoante constatação.

 Os cassinos fazem a diferença. Movimentam uma rede fantástica de hotelaria requintada e um sistema espetacular de serviços de entretenimento artístico e de lazer.



 Já o Brasil, um colosso em paragens deslumbrantes, não possui cassino. Pelo menos operando legalmente. E o porquê isso acontece? Por que ao contrario de praticamente todos outros países do mundo, resolvemos por aqui proibir o funcionamento de cassinos?  Colocando os pingos nos is, num papo franco e objetivo, a explicação a dar não pode ser outra que não o falso moralismo, o puritanismo rançoso e o preconceito encardido.

 O negativismo relacionado com o jogo operado em cassinos colide frontalmente, o tempo todo, com a realidade da prática de apostas existente, de forma profusa em todos os cantos. O chamado “jogo de azar” em inumeráveis modalidades é difundido em larga escala na vida nacional. Sendo raríssimos os cidadãos que deixam de participar, regularmente de uma inocente “fezinha”. Está presente em milhares de agremiações recreativas, nas plataformas digitais, nas conhecidas “bancas de bicho” , - carecedoras de regulamentação oficial - e nos concursos lotéricos diários. E o que não dizer das manjadas casas de apostas que, por sinal, andam frequentando assiduamente as manchetes por conta de muretas praticadas nas arenas esportivas? O Brasil tomou-se de assombro ao saber que as casas de apostas, em questão são todas sediadas no exterior, carreando para outros países os frutos de rendosas operações. É alentadora a revelação de que o governo está cuidando de oficializar esse tipo de aposta.

O jogo é uma realidade palpável, fingir que nada disso acontece não passa de deslavada hipocrisia.

 Existe no parlamento projetos para a legalização de jogos em cassino. Os parlamentares, os políticos, as lideranças empresariais e a sociedade precisam atentar para importância econômica e social dessa legalização. No momento em que o país estuda as possibilidades de incrementar seu desenvolvimento criando empregos, oportunidades de renda e aumento de recursos públicos para aplicação em obras de infraestrutura, a abertura de cassinos em inúmeros pontos de convergência de atração turística, a institucionalização do bingo e do “Jogo do Bicho” despontam como iniciativas recomendáveis. A estruturação de atividades, compreendendo hotelaria, gastronomia, lazer cultural e artístico, a ser gerada a partir da implantação de um cassino poderá alterar a fisionomia econômica dos lugares contemplados com esse tipo de empreendimento. A construção civil ganhará alento com obras que fatalmente surgirão e levas de turistas brasileiros que em numero elevado demandam localidades estrangeiras providas de roletas, mesas de cartas, máquinas de caças níqueis e entre, uma rodada e outra, shows de todos os tipos, redirecionarão seus destinos de lazer.

Não seja ignorado o volume considerável de recursos que, desde muito tempo, até aqui, circula na clandestinidade, notadamente por parte das bancas de jogo do bicho. A pujança desse segmento “operacional” é tamanha que já nos habituamos a ver, em campanhas políticas no Estado do Rio de Janeiro, candidatos a postos eletivos se reunirem com os assim chamados  “banqueiros”(bicheiros), dando do encontro ampla divulgação. Isso aí....

 Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Choque elétrico nas “senzalas modernas”

 



                                                 *Cesar Vanucci

 

choque elétrico e “spray” de pimenta eram aplicados nos “trabalhadores”” (fiscal do MT acerca das condições de trabalho em Bento Gonçalves)

 

Este nosso mundo velho de guerra, mundo do bom Deus onde o tinhoso costuma implantar detestáveis enclaves, continua nos surpreendendo com suas inimagináveis narrativas. Algumas de arrepiantes impactos. Ferem direitos sagrados. Alvejam em cheio a dignidade humana.

Caso sem tirar nem pôr dessa inacreditável notícia de trabalho escravo em Bento Gonçalves, Rio Grande do sul. Ampla divulgação pela mídia acentua que o Min. do Trabalho flagrou em vinícolas da região condições de trabalho análogas ao da escravidão. Resgataram 207 operários submetidos a degradante tratamento. As “modernas senzalas” dispunham de aparelhos de choque elétrico e de “sprays” de pimenta utilizados na “relação trabalhista”.  Situações assemelhadas têm sido identificadas pela fiscalização noutras partes do país.

Humanistas, defensores dos direitos humanos, cidadãos dotados de sensibilidade social se perguntam, tomados de estupefação e santa indignação, como algo desse gênero pode prosperar em pleno século XXI, molestando tão ruidosamente os brios da nacionalidade e envergonhando um setor produtivo relevante no plano econômico. Provocou pasmo argumento atribuído à representação das organizações pilhadas em flagrante delito trabalhista, ao proclamarem que o trabalho escravo está relacionado com a falta de mão de obra.

O chocante episódio reavivou em minha memória história ocorrida a mais de meio século. Relato-a em seguida.

O antigo "Correio Católico", vibrante diário (mais de 10 mil assinantes) da arquidiocese de Uberaba, e que provocou também reações enfurecidas de setores radicais, que insistiam em nada ver de reprovável na ocorrência, estava ligada ao tráfico de seres humanos transportados como mercadoria nos chamados "paus-de-arara". De quando em vez, década de 50, um desses caminhões, atulhados de nordestinos escorraçados pela seca, atraídos pelas imagens mirabolantes do tal sul maravilha, despejava sua carga nas imediações do Mercado de Uberaba, defronte à sede da Delegacia Regional de Polícia. O que vinha na sequencia daria para estarrecer as imagens de pedra dos profetas enfileirados por Mestre Aleijadinho no átrio da Igreja de Congonhas. O leilão humano se desenrolava debaixo da passividade geral. Lembrava leilão bovino. As ofertas eram precedidas de exames físicos aviltantes, meticulosos. Operada a transação, a mercadoria, ou seja, o ser humano adquirido, era conduzido a área próxima, devidamente cercada e vigiada. Permanecia ali até que o conduzissem, com os companheiros de desgraça, ao seu destino final. Dos compradores dizia-se serem "generosos credores" dos "trabalhadores rurais" recrutados no tenebroso processo. A esses últimos sobrava a "prerrogativa" de, em esfalfante lida rural, poderem algum dia quitar os débitos e, quem sabe até, ganhar de futuro sua "alforria", minha Nossa Senhora da Abadia!

A denúncia do jornal explodiu na Câmara dos Deputados. Estimulou até mesmo, em certa ocasião, uma ação de resgate, executada com precisão de comandos israelenses. Ela foi articulada por cidadãos bem situados na comunidade. Nas caladas da noite, deram fuga a um grupo que havia sido "leiloado" na véspera, na porta do Mercado, defronte a Delegacia Regional de Polícia, para prestar serviços a uma meia dúzia de "senhores feudais" responsáveis pelo pagamento dos custos da "viagem" aos donos dos "paus-de-arara". O pessoal libertado foi recolhido, por dias, aos vestiários do estádio "Boulanger Pucci", do Uberaba Sport, por iniciativa do presidente do clube, Rafael Angotti, o Bolão. Lá fora, as intensas buscas para se saber do paradeiro dos fugitivos resultaram infrutíferas. Com a solidariedade das pessoas que os arrebataram do regime de trabalho escravo das previsões iniciais, homens, mulheres e crianças puderam regressar aos seus pagos nordestinos.

 


Jornalista(cantonius1@yahoo.com.br)

quarta-feira, 14 de junho de 2023

Barrados no baile


  

Cesar Vanucci *

 

“Não há nenhum problema negro.

O que há apenas é um problema branco”

(Richard Wrigth, escritor negro estadunidense)

 

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Na esteira do momentoso incidente racista envolvendo a figura do consagrado craque brasileiro Vinícius Jr., resolvemos recontar aqui uma história chocante, de preconceito por causa da cor, ocorrida a mais de meio século, tendo como vítimas atletas famosos do basquetebol.

Finalzinho dos anos 50. O Palmeiras acabara de conquistar o sul-americano de basquete. O Jockey Club de Uberaba, possuidor de imponente complexo de lazer e desporto, convidou os campeões para exibição em seu ginásio. Evento prestigiadíssimo. Público vibrante compareceu à partida de basquete, fazendo coro com o Jockey nas homenagens prestadas na quadra aos visitantes.

À delegação do Palmeiras ofereceu-se, depois, no salão de festas, baile de gala. Só que com estridente porém. Numa demonstração inacreditável de racismo, deu-se a conhecer que não seria permitida a presença dos atletas negros. Dois. Um deles, principal astro, cestinha do time, conhecido por Rosa Branca. Cruel e ironicamente, o Rosa, chamado de Branco, foi barrado no baile justamente por não sê-lo.

O gesto foi acompanhado, da parte da comitiva do Palmeiras, de outo ato de pusilanimidade. Os palmeirenses brancos deixaram os colegas alvo da odiosa discriminação no hotel. Compareceram maciçamente à festa, embasbacados com os rapapés, como se nada de singular tivesse rolado. Extrai-se daí medida exata da falta de sensibilidade social que, de forma talvez até mais intensa que hoje, prevalecia naquela época nesses domínios perturbadores da convivência racial.

Fiz questão fechada de abrir espaço, no diário “Correio Católico” e na rádio Difusora, em que atuava como editor geral, para criticar com veemência o sucedido. Os responsáveis pelo absurdo procedimento, tentando tapar o sol com peneira, contestaram as evidências. Veladas ameaças foram postas a circular. Falou-se até em eliminar-se dos quadros de sócios do clube a "cambada de jornalistas", todos "extremistas", comprometidos com as denúncias. Alguns diretores do clube, mais sensatos, não só se opuseram à tresloucada ideia, como se animaram, até mesmo oferecendo a mão à palmatória, a procurar-me no jornal e na rádio, pedindo desculpas pela besteira. As contestações e ameaças motivaram o jornal e a emissora a desnudar outros aspectos dolorosos do problema da discriminação racial.

Os desdobramentos do assunto permitiram-me também anotar uma manifestação incrível, reveladora dos surpreendentes disfarces de que a discriminação racial costuma se valer de modo a expor-se menos ao crivo da consciência social comunitária. Entre os registros de solidariedade recolhidos pela posição que tomei figurou o de um dirigente destacado de outro clube da cidade. Cidadão muito simpático trazia definidos na epiderme amorenada traços de sua ancestralidade negra. Ao cumprimentar-me efusivamente "pela atitude assumida no incidente Rosa Branca", ele esclareceu que "em seu clube, absurdo desses jamais ocorreria." Acrescentou triunfante: "– Lá, não proibimos pretos de frequentar bailes. O que eles não podem é sair dançando. Cada um no seu devido lugar..."

Isso aí. Como diz o escritor norte-americano mencionado no intróito, fixando o assunto da segregação no enfoque correto, o que existe não é um problema negro. Mas, simplesmente, "um problema branco."

Ao ficar sabendo que Rosa Branca e companheiros haviam sido barrados no baile, deixei o salão de festas do clube impelido por justa indignação, dirigindo-me ao hotel onde a delegação do Palmeiras achava-se hospedada. Percebi, de cara, que os atletas, recolhidos em resignado sofrimento, mostraram-se um bocado espantados com minha reação. Ou seja, com a palavra de solidariedade que levei, anunciando a firme disposição de fazer pública nos instantes seguintes a denúncia sobre a violência racista de que tinham sido inocentes vítimas.

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

Os desígnios políticos

 

 

                                                                                    *Cesar Vanucci

 

 “O discurso antivacina é como induzir ao suicídio coletivo”

(Dráuzio Varella)

 

Os desígnios políticos são, em não raros instantes, imperscrutáveis. Escapam à compreensão de argutos observadores. O caso de Deltan Dallagnol afigura-se bem emblemático.  Decisão fulminante do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) cassou-lhe o mandato parlamentar, sob a acusação de haver se licenciado das funções exercidas no Ministério Publico, para candidatar-se, infringindo normas regimentais de rigorosa observância.  A Câmara dos Deputados referendou, mais do que depressa, a determinação da Corte. Dallagnol viu-se, de repente ao relento, praticamente deixado de lado pela classe política. As poucas vozes de protestos contra a decisão Judicial foram tímidas e sem agregar adesões significativas. O recurso que impetrou foi denegado. Sua atuação na Operação Lava Jato, bastante contestada em redutos jurídicos e políticos, influenciou, por certo, o comportamento nada solidário com sua causa percebido no ambiente político.

Outra situação digna de atenção, dentro da mesma linha de raciocínio, diz respeito ao Senador Sergio Moro. Transitam no TSE dois requerimentos pedindo sua degola. Um deles do PT (Partido dos Trabalhadores). Outro, por incrível que pareça, do PL de Valdemar Costa Neto, agremiação que tem como presidente de honra o ex - mandatário, Jair Messias Bolsonaro, supostamente um aliado do ex - juiz da Lava Jato. As rusgas nascidas entre os dois, quando da saída intempestiva de Moro da pasta da Justiça foram dadas como águas passadas, por ocasião do segundo turno das eleições. Nos debates pela televisão, Moro atuou como colaborador de campo de Bolsonaro na contenda verbal com o oponente Lula.

Sobrepaira no ar no ver de analistas credenciados, a curiosa sensação de que nos arraiais políticos, deixadas de lado as tendências partidárias, predomina certa hostilidade com relação aos dois expoentes da Lava Jato.

 

2) Negacionismo doentio – Nas redes sociais - hoje, menos do que ontem; amanhã, provavelmente, menos que hoje -, prolifera todo o tipo de negacionismo. O negacionismo antivacinal propagado com intensidade por correntes fundamentalistas em descompasso com a marcha civilizatória, convoca as pessoas a retrocessos, pode se dizer, medievais. “Vacina é coisa maligna”! Asseveram alguns. Já houve até quem ousasse afirmar que vacina poderia fazer nascer escamas no corpo com risco da pessoa virar jacaré, estão lembrados? A mórbida pregação tem produzido resultados preocupantes, de acordo com o entendimento da Saúde Pública. A redução de cidadãos vacinados, principalmente crianças, trouxe de volta algumas doenças já erradicadas no país. Lamentável que isso esteja ocorrendo. Durante largo espaço de tempo fomos referencia mundial em planos de vacinação bem sucedidos. Na atualidade, especialistas chegam a temer que a poliomielite, banida há anos, volte a ameaçar  lares. Tudo, por causa do receio infundado, espalhado pelos negacionistas, sobre males que as vacinas estariam em condições de acarretar à saúde. Faz-se urgente uma retomada consciêncial da importância desse eficaz processo prevencionistas de doenças que fazem vitimas fatais e deixam sequelas.

 

 

3) Surrealismo – impossível conceber algo tão surreal. Partido da oposição no Congresso Nacional indicou para integrar a CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Senado e da Câmara) dos Atos Golpista parlamentar apontado nas investigações da Policia Federal como um dos instigadores dos abomináveis acontecimentos ocorridos em 8 de janeiro e em datas anteriores na capital da República. A estapafúrdia designação equivale a se recrutar membro de gang de assaltantes de banco para apurar detalhes de assalto que ajudou a promover com o concurso de comparsas, contra uma agencia creditícia. Como se costuma dizer na tagarelice das ruas é o fim da picada!

 

Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

sábado, 10 de junho de 2023

Rombo descomunal

 


                            *Cesar Vanucci

“Bolsonaro deixou rombo histórico na Caixa para se reeleger”. (Lenio Streck, jurista).

1) Rombo descomunal nas contas públicas. Bilhões de reais consumidos na voragem da negligencia administrativa. A Controladoria Geral da União trouxe ao conhecimento público informações estarrecedoras a respeito dos abonos emergenciais concedidos com escancarado fito eleitoreiro pelo governo Bolsonaro.  O “pacote de bondades” compreendeu, entre outros itens passiveis de questionamentos, empréstimos consignados, auxílios pecuniários a taxistas e caminhoneiros, tudo com recursos via Caixa Econômica Federal, da “viúva”, como se diz na linguagem das ruas. Os empréstimos foram parar, em boa parte, nas algibeirairas de “amigos do rei”.  As descabidas oferendas contemplaram, em numero bastante elevado, pessoas que não se enquadram nas categorias profissionais favorecidas. No tocante aos caminhoneiros, a estimativa é de que 75% dos beneficiados não preenchiam os requisitos estipulados no instrumento de outorga do auxílio. O percentual de casos irregulares flagrados nas averiguações correspondentes aos taxistas é só um pouco menor, valha nos Deus!

As chocantes revelações, que se juntam a uma fileira impensável de desatinos cometidos pelo governo passado, já fazem parte de inquéritos abertos no âmbito da Policia Federal. Todos estes malfeitos, ao que tudo faz crer na opinião de juristas conceituados, poderão conduzir o ex-presidente a se tornar futuramente inelegível.

 


2) PIB em Alta
- Boas falas. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 1,9% neste primeiro trimestre de 2023. Na comparação com o mesmo período de 2022, o índice que mede o crescimento da economia teve alta de 4%.  Resultados bem acima das expectativas projetadas. Em valores reais, o PIB totalizou R$ 2,6 trilhões.

Apenas três países das 37 nações cujos dados já estão disponíveis , segundo a OCDE - Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, apresentaram desempenho superior ao do Brasil: Polônia, China, e Luxemburgo.

A atividade agropastoril, a exemplo do que vem ocorrendo em sucessivos levantamentos trimestrais, foi a que registrou maior expansão no período em pauta. Resta torcer para que os próximos meses nos brindem com performances econômicas sempre crescentes!

 3) Eletrobrás - O Governo está coberto de razão ao recorrer ao Poder Judiciário com o objetivo de rever despropositado dispositivo no processo de privatização da Eletrobrás. Não faz o menor sentido ser detentor de 40% das ações da empresa e não dispor de poderes proporcionais nas decisões de caráter administrativo e técnico. O superior interesse público recomenda que a cláusula contendo definição tão esdrúxula do acordo de acionistas seja desfeita. Privatização não pode continuar sendo uma forma de negociar ativos valiosos da Nação a preço de banana nanica como refugo de final de feira em arrabalde.

 4) Ary Barroso - Confesso, sem vacilação, ser “fã de carteirinha”, com direito a cadeira cativa no auditório, de Ary Barroso. A eletrola lá de casa é “viciada” em suas canções. Isto posto, não me conformo com o silêncio sepulcral que recobre a obra do compositor na programação nossa da TV e rádio de cada dia. Tirante a belíssima “Aquarela do Brasil”, as mais de 300 composições do genial autor padecem de esquecimento imperdoável, sabe-se lá porque cargas d’água. Pesquisando mais fundo o trabalho artístico de Ary, consegui reunir sugestivas observações. Aqui, algumas delas: Tom Jobim e Dorival Caymmi gravaram melodias do repertorio do polivalente “homem da gaitinha”. O esplêndido samba “Inquietação” foi gravado por Aracy Cortes, dircinha Batista, Elizeth Cardoso, Gal Costa, Dorival Caymmi, Sivuca, Baden Powell e pelo próprio Ary. Dia desses, deleitei-me com a reprodução, numa sequencia de todas essas interpretações. Queria ver qual a melhor delas. Deu empate.  

 

 Jornalista (cantonius1@yahoo.com.br)

 

Liderança, guerra, “aliados”, ditadura.

 


                                                                                *Cesar Vanucci

“Quem tem amigos assim, não precisa de inimigos.”(Ditado popular apropriado para o momento   político)

 

1) Liderança - Oposição à cata de liderança. Tantos os malfeitos cometidos pelo ex-presidente Bolsonaro e seu prestimoso quadro de “ajudantes de ordem”, que os oposicionistas acabaram ficando ao relento na arena política, impossibilitados de canalizar aflições e problemas para alguém capaz de dar voz ao seu sentimento. No ver de experimentados analistas da cena política, o Governador Tarcísio de Freitas, do Estado de São Paulo é quem desponta com melhores chances para vir a ocupar as funções em futuro próximo. Já para as eleições municipais do ano vindouro a situação estará por certo definida.

 

2) Guerra - Enganoso pensar que as hostilidades, motivadas pela invasão russa, que ensanguentam o solo ucraniano possam findar a curto ou médio prazo. Até mesmo um “cessar-fogo” temporário parece pouco provável, a serem levados em conta os desdobramentos do esforço bélico de parte a parte. A Rússia, com sua voracidade imperialista, declara-se no firme propósito de não arredar pé das províncias ocupadas por suas tropas e mercenários arregimentados por uma milícia contrária ao governo de Kiev. Os ucranianos, por sua vez, preparam-se para receber dos Estados Unidos e aliados frota de jatos de última geração com capacidade operacional para atingir território adversário. Estima-se que o treinamento dos pilotos para utilização das referidas aeronaves se prolongue por cinco meses. O ditado popular “quando um não quer dois não brigam” não se ajusta definitivamente ao estúpido conflito.

 

3) “Aliados” - O presidente Lula está mal arranjado com seus “aliados” de última hora (talvez fique melhor dizer “fora de hora”). O fisiologismo dominante na conduta da corrente parlamentar liderada por Arthur Lira, Presidente da Câmara dos Deputados, é de molde a criar fissuras constantes nos alicerces de um relacionamento razoável entre os Poderes em torno da desejável governabilidade. O apetite por emendas e cargos do pessoal é pantagruélico. O governo precisa acautelar-se no sentido de que as articulações políticas com vistas à aprovação de projetos relevantes não sejam marcadas pelo manjado e viciado esquema do “toma lá, dá cá”, origem perniciosa de tantas indesejáveis crises. Em recentes decisões da Câmara dos Deputados, quando do exame de pautas importantes para que a engrenagem dos Ministérios na nova configuração pudesse funcionar regularmente, assistiu-se ao absurdo da maioria de algumas bancadas de partidos detentores de pastas ministeriais votarem contrariamente às propostas apresentadas pelo Planalto. O fato é inédito na história republicana. A situação levou observadores traquejados da vida política a relembrarem velho ditado: “Quem tem amigos assim, não precisa de inimigos”.

 

4) Ditadura - Vamos e venhamos. Tudo bem quanto a restabelecer relações diplomáticas com a Venezuela. O Brasil possui linha fronteiriça de ampla extensão com o país, além de interesses comerciais razoáveis. Mas, daí, numa saudação protocolar ao presidente venezuelano, admitir que o mundo inteiro labora em imperdoável equivoco ao classificar o regime de Caracas de ditatorial, significa um desprezo descomunal para com a realidade fatual. Maduro, assim como Daniel Ortega, na Nicarágua, não passa de um caudilho da pior categoria, responsável por delitos hediondos. Persegue e elimina adversários, viola resultados eleitorais, amordaça a imprensa, afugentou do território que oprime 8 milhões de pessoas. A Venezuela não é única ditadura com a qual o Brasil mantém relações diplomáticas. Arábia Saudita, Irã, Síria, além da China e da Rússia, são, entre outros alguns países de governos autoritários com os quais mantemos contatos diplomáticos e negociais significativos.

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com)

quinta-feira, 1 de junho de 2023

O antirracismo entra em campo

 



 

Sou negro.negro como a noite, negro como as profundezas d’África”, (Versos célebres do poeta Langston Hughes)

 

Antes, 3 anos atrás, da posição assumida por Vinícius Jr. contra o racismo no futebol, os atletas de uma peleja realizada em Paris reagiram de forma inédita a uma manifestação preconceituosa da arbitragem. Relembremos o episódio.

 Conforme manjado jargão da crônica futebolística, o antirracismo adentrou a cancha. Em grande estilo. Soberbo espetáculo de afirmação civilizatória aconteceu no majestoso estádio parisiense “Parque dos Príncipes”, com arquibancadas vazias como pedia a turbulência pandêmica, quando da disputa entre o PSG, francês, e o Istanbul Basaksehir, equipe turca, pela última rodada da fase de grupos da Liga Europeia dos Campeões. No comecinho do jogo, 13 minutos do primeiro tempo, um árbitro de linha, romeno, alvejou com expressão desairosa, de notório conteúdo preconceituoso, um atleta africano que, por sinal, não participava da partida. No quiproquó que se seguiu o cartão vermelho de expulsão foi sacado do bolso do árbitro principal, mas o prélio foi interrompido por conta de um episódio jamais registrado nos anais do esporte das multidões. Os jogadores dos dois times tomaram, conjuntamente, unanimemente, a incrível decisão de abandonarem, disciplinadamente, o gramado, em sinal de protesto contra o ato de discriminação praticado. A atitude sem precedentes assumida num palco esportivo colocou obviamente em xeque o regulamento do torneio, deixando a cartolagem aturdida e o público (que acompanhava a competição pela tevê) maravilhado. Menos de 24 horas transcorridas da inusitada ocorrência, com a composição da arbitragem alterada, normas e regimentos burocráticos chutados pra escanteio, a partida interrompida teve continuidade. A punição aplicada na véspera – cartão vermelho – passou a não valer. O placar avantajado, 5 a 1 em favor do time francês, foi considerado detalhe de somenos na flamejante história, diante da memorável goleada, de impactante simbolismo, aplicada contra o racismo numa das canchas da vida em que ele costuma mostrar a cara.

 A situação vivida no “Parque dos Príncipes” concitou-nos a percorrer as ladeiras da memória, recolhendo na caminhada exemplos frisantes, de duradoura repercussão, afrontosos à dignidade humana, cometidos em ambientes esportivos pomposos.

 Talvez o mais contundente desses registros haja sido o da Olimpíada de Berlim, realizada pouco antes da segunda guerra mundial. O protagonismo infame ficou a cargo do sinistro Adolf Hitler, ícone das falanges racistas em sua configuração mais horrenda. Num dado momento, espumando ódio, ele resolveu deixar, abrupta e acintosamente, a tribuna do estádio para não ter que entregar troféu a um magnífico atleta estadunidense – “negro como a noite, negro como as profundezas d’África”, segundo os versos célebres do poeta Langston Hughes -, que acabara de conquistar, galhardamente, a mais cobiçada láurea dos jogos. Mas, na ocasião, nada obstante a ressonância midiática alcançada pelo boçal gesto, a ninguém, a nenhuma delegação, acudiu a ideia de marcar indignação, inconformismo face ao abjeto posicionamento racista cometido pelo ditador nazista, com ato de desagravo coletivo instantâneo, tal como o este de Paris, ocorrido, como já dito, em 2020.

 Naquele e noutros momentos em que a brutalidade racista se fez sentir num cenário festivo repleto de esfuziantes emoções, como costumam ser os cenários compostos para grandes concentrações esportivas, nada se viu, como reação dos atletas e público, que ligeiramente pudesse se igualar ao que os jogadores turcos e franceses, promoveram na noitada  futebolística reportada. Uma noitada inesquecível, na qual futebol, com toda sua eletrizante carga emotiva, cedeu lugar, contentando-se a segundo plano na ribalta, a uma atração que não estava no programa, a uma manifestação histórica que engrandece a consciência humana.

 

Jornalista(cantonius1@yahoo.com)

 


 


Craque enfrenta racismo

                                                                                                                *Cesar Vanucci


 


“O racismo é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele.”

(Paulo Paim, ex-Senador)


 

  O mundo esportivo acolhe, jubilosamente, uma jovem liderança arrojada com disposição para enfrentar o vírus do racismo. O craque brasileiro Vinicius Jr., 22 anos, principal estrela do Real Madrid, apontado pela crônica esportiva como o melhor jogador de futebol da atualidade, está sendo enxergado com respeito e admiração como nova e impetuosa voz, de repercussão mundial, na luta árdua contra o odioso preconceito racial e xenofóbico vigente em gramados esportivos.

 

Alvejado com inclemência, de forma recorrente pela histeria de torcidas ditas (des) organizadas, diante da omissão cúmplice de setores incumbidos institucionalmente de zelar pela ordem e disciplina nos espaços das disputas futebolísticas, Vini Jr. resolveu desassombradamente tornar público seu inconformismo e indignação, erguendo mais alto do que de costume em circunstancias análogas a bandeira do antirracismo. Seu brado de revolta ecoou por todos os cantos, galvanizando atenções e provocando manifestações de solidariedade sem conta, nas esferas governamentais e em outros estamentos importantes da coletividade.

 

Em passado recente, outros atletas - a exemplo do que aconteceu em 2020, numa partida realizada em Paris entre PSG e Istanbul, episódio que pretendo rememorar no artigo vindouro - assumiram posição impactante contra o racismo. Mas essas posições não tiveram os desdobramentos agora alcançados pela atitude do talentoso Vinicius Jr., que teve o Don de tirar do comodismo e da inércia as autoridades esportivas da Espanha. Como sabido demorou um pouco, após a toarda erguida pelo jogador, para que os paredros do futebol espanhol anunciassem medidas punitivas contra as agressões praticadas pelos torcedores racistas.

 

A praga racista suscita infindáveis reflexões. A raça humana é uma só. Cor de pele é mero detalhe. Se negra, branca, amarela, parda, rosada - em tons mais ou menos acentuados, consoante a diversidade biológica natural – tudo isso, repita-se, não passa de detalhe. Assim como a cor dos olhos, ou dos cabelos. Ou a estatura e o peso das pessoas.

 

A raça humana é uma só. Em nada influem, para que essa verdade verdadeira deixe de ser reconhecida, as circunstâncias de os indivíduos nascerem ou viverem, nessa ou naquela região específica deste planeta azul. Bem como as constatações de que eles pratiquem cultos, cultivem hábitos e costumes, falem línguas e enverguem trajes diferenciados, uns dos outros. A raça humana é única. A recusa na aceitação plena desse preceito de vida universal, na efervescente convivência social, gera uma aberração cruel e repulsiva chamada racismo. Um vírus que, contaminando mundão de viventes por aí, produz enfermidades e mortes, escancara instintos bestiais, alveja inclementemente a dignidade da vida. Faz, também, com que humanistas da maior envergadura intelectual levantem, por vezes, dúvidas quanto à assertiva, sagrada para contingentes apreciáveis do mundo civilizado, de que o homem é ser de luz moldado à imagem e semelhança de Deus.

 

O racismo, com todo seu cortejo de horrores e injustiças, é antigo e universal. Contribui significativamente para que se perpetue o dramático problema das desigualdades. De visibilidade permanente nos atos cotidianos, a questão é exposta com abundância de evidências em tudo quanto é pesquisa de comportamento, seja aqui, seja alhures.

 

No comentário vindouro iremos relembrar o episódio da repulsa antirracista tomada conjuntamente pelos jogadores, em 2020, em estádio parisiense.

 

Dia da Indústria, 1971.

 

                     

                              Cesar Vanucci *

 “Esta celebração (...)transmite mensagem de poderosa irradiação cívica, social e democrática.”                                                              (Fábio Motta, Ex-presidente FIEMG)

 

Escalando as ladeiras da memória, volto às celebrações do “Dia da Indústria”. Estas comemorações são promovidas em Minas desde 1960. Entre 61 e 64, a festividade deixou de ser realizada. De 1965 em diante, acontece no mês de maio, sempre com pompa e brilhantismo, atraindo público numeroso, convidados de expressão empresarial, política e social.

De 1965 a 1994, período em que estive Superintendente Geral da FIEMG, função exercida nas gestões de Fábio de Araújo Motta, Nansen Araujo e José Alencar Gomes da Silva, todos de saudosa memória, à frente de equipe valorosa participei da coordenação do evento. Em 1976, além da comenda do “Mérito Industrial”, atribuída tradicionalmente a cidadãos indicados pelos vários segmentos industriais, a entidade resolveu  instituir o título de “Industrial do Ano”. Hélio Pentagna Guimarães, dirigente da Magnesita, à época vice-Presidente da Fiemg, foi a primeira personalidade agraciada com a honraria, como mencionado no  comentário passado.

Dois ou três anos transcorridos, outra categoria de homenageados foi incluída nas festivas celebrações: “Construtores do Progresso”. Personagens exponenciais de outros setores da comunidade passaram a receber, da FIEMG, láureas de reconhecimento pela sua contribuição ao desenvolvimento econômico e social.

Testemunha ocular, por largo período, do intenso trabalho de organização, das articulações de bastidores que, naturalmente, envolvem celebração dessa magnitude, acumulei na memória velha de guerra lembranças de fatos sugestivos, alguns mais, outros menos interessantes, vividos nesses movimentados momentos ficados pra traz.

Reporto-me, agora, a  outro registro, desconhecido até mesmo de muitos antigos dirigentes da Fiemg. Houve um ano, 1971, em que a festa do “ da Indústria” esteve, à última hora, sob ameaça. Conto como se deu. Na manhã do evento, um assessor de Fábio Motta, general Onésimo Becker, cidadão de invulgares qualidades humanas, foi contatado por elementos ligados ao Ministro da Justiça Alfredo Buzaid. Eles se faziam portadores de mensagem preocupante. Buzaid estava na iminência de tornar público o seu não comparecimento à sessão solene programada, na qual seria  homenageado. A alegação, prepotente e preconceituosa, era de que, entre os demais homenageados, de uma lista de vinte jornalistas apontados como “colaboradores da indústria”, faziam parte elementos, considerados desafetos do governo, segundo os critérios ditatoriais dominantes. Durante horas estressantes, cuidamos de formatar proposta “pessedista” capaz contornar a questão, sem repercussões que afetassem a festividade da noite. Emergiu dessas confabulações a ideia, acolhida pelos representantes do Ministro, de se dividir em dois atos distintos a programação anunciada. A manifestação de apreço aos homens e órgãos de comunicação ficaria para outro instante. Os “colaboradores da indústria” foram notificados, a toque de caixa, da alteração, com a “explicação” de que brotara, de repente, a necessidade de se alterar a programação, por indisponibilidade de tempo na agenda ministerial. No evento de horas depois, na Casa da Indústria, foram homenageados o Ministro e os industriais agraciados com o “Mérito”. O segundo ato, dedicado aos jornalistas, uma semana depois, consistiu em concorrido jantar no “Automóvel Clube”.

A informação acerca da belicosidade ministerial tem complemento: dois  empresários da relação do “Mérito Industrial” foram alcançados, também, pelas incríveis restrições, de forma um tanto mais branda. Por conta, igualmente, de supostos posicionamentos políticos pessoais em desacordo com o pensamento doutrinário governamental. Mas a impertinente ressalva não foi de molde a gerar questionamento radical quanto à presença de ambos na cerimônia do “Dia da Indústria”.

Dia da Indústria, 1976.

 


     

 “A democracia é, antes de tudo, um estado de espírito.” (Pierre Mendes-France, ex-primeiro ministro da França)

 

 

A celebração, 25 de maio, do “Dia da Indústria”, dentro da costumeira atmosfera de pompa e brilho que a Federação das Indústrias de MG empresta ao evento, recordou-me episódio de grande sabor histórico vivido numa dessas comemorações, há 47 anos. À falta de divulgação adequada, por culpa da rígida censura vigente na época, o caso acabou não ganhando a notoriedade a que fez jus, permanecendo na obscuridade de esquecimento quase total. Os registros disponíveis acerca do papel desempenhado pelas lideranças empresariais na redemocratização do país praticamente o ignoraram. Desconheceu-se da ocorrência o seu caráter precursor, o seu altivo e prenunciador apelo liberal.

Maio de 1976. Era a primeira vez, na história da festividade, que além do “Mérito Industrial”, atribuído a pioneiros, se iria conferir o título de “Industrial do Ano”. A escolha recaiu em Hélio Pentagna Guimarães, dirigente do poderoso grupo Magnesita, reconhecido como cidadão dotado de todos aqueles dons vocacionais que compõem o perfil do grande empresário: arrojo, dinamismo, força criativa, vigor, sensibilidade social. Dons acrescidos de sólida formação liberal, concepção profissional avançada, inteligência aguda e  rica experiência de mundo, identificando familiaridade na teoria e na prática com as modernas correntes do pensamento humanístico. Pentagna, de saudosa memória, foi um símbolo dos valores enaltecidos na manifestação.

Fábio Motta, saudoso dirigente da Fiemg, tinha Pentagna na conta de dileto companheiro. Mencionava sempre as posições firmes por ele assumidas na lida classista e empresarial, detendo-se, particularmente, na postura que teve nos idos de 60, quando se opôs com veemência à tentativa de um grupo interessado em intervir nos destinos da entidade.

Mas, eis que chegamos ao auditório do edifício “Louis Ensh”, antiga “Casa da Indústria”, para festejar o “dia da indústria” de 1976. Mundo oficial e empresarial condignamente representados. Uma multidão de convidados se acotovelando nos insuficientes espaços do auditório, saguão e jardins. A grande maioria acompanhando o desdobramento da cerimônia pelo sistema de som.

Chega a hora do agradecimento. O que se passa a ouvir vai entrar para a antologia política. Deixados pra traz os trechos introdutórios, o orador mergulha resoluto, consciente, na parte conceitual – uma baita de uma mensagem política, reveladora de que a democracia, antes de tudo, é um estado de espírito. A mensagem é recebida por um público eletrizado, dividido entre a ansiedade e a surpresa. No recinto baixa um silêncio de cemitério etrusco. Desfaz-se, como que por encanto, o burburinho característico dos atos de grande afluência, originário da impaciência de convidados que mal conseguem se aguentar de pé nos exíguos territórios em que alojam seu desconforto. De muitas pessoas percebe-se uma toada ofegante na respiração.

Enquanto isso, com o domínio da cena, a fala do homenageado se converte numa análise lúcida da realidade política, econômica e social, voltada para clara e inequívoca concitação: seja promovida logo a reabertura política sonhada por tanta gente. Pela vez primeira, em anos, em acontecimento público concorrido, empresário renomado defende ardorosamente a democracia, associando-a, como parceira indispensável, à luta pelo desenvolvimento. Discurso concluído, as palmas surgem, de início, tímidas, descompassadas, lembrando motor de carro ativado, mas não liberado ainda de todo para o arranque. Já depois, noutra cadência, impetuosas, desmancham-se em borbulhante aplauso. A festa da indústria registrou, naquela noite memorável, com toque épico, uma vigorosa proclamação de fé democrática e de crença nos destinos do Brasil.

Isso se deu meses antes do célebre protocolo firmado por um grupo de industriais paulistas, apontado ao equívoco das anotações coletadas pela história, como a primeira manifestação do empresariado em favor das liberdades públicas.

A SAGA LANDELL MOURA

A Fala do Presidente

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