sábado, 29 de agosto de 2020


O amigo que nos deixou
Cesar Vanucci

“Cada qual tem seu dia marcado”.
(Virgílio)

Disse Camões: “As pessoas não morrem, partem primeiro”. Disse Richard Bach: “Existe um jeito simples de saber se está cumprida a missão de alguém. Se está vivo não está.” O que nem o poeta, nem o pensador disseram é que, na fase outonal da vida, a gente descobre, de súbito, que vai se tornando frequente a “partida primeiro”, bem cumprida a missão, de um punhado de amigos diletos. A lista dessas separações envoltas em saudade acaba de ser acrescida do nome de Silviano Cançado Azevedo, companheiro de jornadas memoráveis.
Cidadão de bem, engenheiro culto e capaz, dono de irradiante simpatia, este construtor do progresso deixou pegadas cintilantes em trilhas percorridas no rumo do desenvolvimento econômico e prosperidade social. Causa por ele perseguida com benfazeja obsessão. Desempenhou, com zelo e competência, funções executivas nas áreas pública e privada. O BDMG, a Secretaria de Estado da Indústria e Comércio, a Companhia de Distritos Industriais guardam, em seus acervos, anotações exuberantes de atos e decisões brotados de seu labor, talento e inventividade. Trabalhamos juntos, por longo espaço de tempo, no Sistema Fiemg. Eu, como Superintendente Geral; ele, como dinâmico coordenador do Conselho de Estudos Econômicos e, noutro período, como Superintendente de Cultura do Sesi.
A parceria rendeu frutos compensadores. Silviano passava para os colegas, continuamente, lições de vida impregnadas de otimismo. Sua crença em valores caros ao sentimento de brasilidade e ao sentimento comunitário era bem arraigada. Ele foi uma dessas criaturas raras, desprendidas e leais, que, antes de tudo mais, costumam encarar o trabalho, executado com afinco, espírito público e sensibilidade social, como recompensa do próprio trabalho.

· No dia em que o Brasil chegou a cem mil mortos pela Covid, sem qualquer sinal no ar de que a pandemia está se aproximando do fim, num suplemento da “Folha de São Paulo”, saiu estampado um poema de forte simbolismo. O texto é de autoria de W.H.Auden, traduzido por João Mostazo. Intitula-se “Blues fúnebre”. Tomo a liberdade de reproduzi-lo. “Parem os relógios, desliguem o telefone, / calem com um osso o cão que está com fome, / fechem o piano, abafem os tambores / para o caixão passar, cortejo e flores.// Deixem o avião rodar no céu / riscando esta palavra no ar: morreu. / Que a pomba use uma fita de amuleto / e o guarda tire a farda e vista preto. // Morreu. Era meu norte, era meu leste, / meu sul, meu sol, minha noite, meu oeste. / Meu canto, meu descanso, minha canção. / O amor era pra sempre, que ilusão. // Apaguem as estrelas, não servem de farol. / A Lua, guardem, que derreta o Sol. / O mar, recolham, varram as florestas / que nada me consola uma hora destas.”

sexta-feira, 21 de agosto de 2020


100 mil

Cesar Vanucci

O Brasil é um caso singular de fracasso no combate a pandemia”.
(Esther Dweck, Professora universitária)

Cem mil. A esta altura, já bem mais que isso. Cifra atordoante. Machuca bastante imaginar que muita coisa poderia ter sido feita, em termos de ação política e administrativa, de modo a evitar que a questão assumisse feitio catastrófico.
O negacionismo persistente, a ponto de causar forte irritação, por parte de personagens institucionalmente investidos da indeclinável responsabilidade de conduzir o processo de combate tenaz à pandemia, fez com que ela ganhasse proporções calamitosas. É o que demonstra, irrefutavelmente, avaliações comparativas entre o que está acontecendo por aqui e o que vem sucedendo noutras paragens do mundo. Todas elas, igualmente, molestadas pelo vírus impiedoso de origem misteriosa. Em matéria de vidas preciosas, aniquiladas em curtíssimo espaço de tempo, o corona provocou “impacto Hiroshima” na história do País.

Sem que se possa enxergar ainda luz redentora no final do túnel, nessa avassaladora progressão da enfermidade, as estatísticas continuam produzindo calafrios a cada boletim noticioso. O contingente de vitimas fatais no território nacional supera a população inteira de 95% dos municípios da Federação. Estamos colocados em incômodo segundo lugar, com a “possibilidade” até de superar os Estados Unidos, no macabro “ranking” de casos de contaminação e mortes. Naquele país irmão são 4 milhões e 90 mil infectados e 162 mil óbitos. Aqui, 3 milhões, 15 mil pessoas contaminadas e, no momento em que estas linhas são digitadas, quase 110 mil vítimas fatais. Índia (mais de um bilhão e  duzentos milhões de habitantes), China (1,5 bi de habitantes), Rússia (população superior a do Brasil), México, Chile, Peru, Inglaterra, Itália, França, Espanha, Irã, Japão, África do Sul, Canadá, Argentina estão, citando exemplos, posicionados abaixo do Brasil na tétrica marcha dos perturbadores algarismos.

Os dados oficiais vindos a lume têm, volta e meia, suscitado de certo modo alguns questionamentos. Analisando o quadro universal, há quem admita que Rússia e China, por exemplo, camuflem a realidade, por conta usual de transparência política. Estariam sonegando informações. O mesmo poderia estar ocorrendo também com a China, com seu modelo fechado de governança.

Relativamente ao próprio Brasil, aqui e ali espocam desconfianças quanto aos números divulgados. Eles não expressariam a realidade nua e crua. Os jornalistas Fábio Dakabashi e Flávia Faria, comentando os desnorteantes 100 mil, asseveram que o “marco alcançado é relevante”. “Porém – acrescentam –, este marco é calcado em dados imprecisos.” “Ele (marco) desperta a oportunidade de fazer um balanço da extensão da doença, das ações de gestores e da população. Mas foi agora mesmo que se chegou aos 100.000 mortos no Brasil? Categoricamente, não!”

Seja como for, são fartas as evidências acumuladas, em observações aguçadas do problema, das devastadoras consequências da pandemia no cenário nacional. As circunstâncias de o número de habitantes em nosso país representar pouco mais de 2,5% da população universal e de o número de mortos pela Covid-19 somar quase 15% dos casos fatídicos apontados nas estatísticas globais são revelações eloquentes de que muita coisa vem funcionando de mal a pior no enfrentamento, nestes nossos pagos, do flagelo que se abateu sobre a humanidade. As causas dessa colossal encrenca político - administrativo têm “explicação”: inabilidade gerencial, autossuficiência embriagante, negligência, despreparo gritante para exercício de liderança, insensibilidade social. E por aí vai...

100.000 mortos. Já mais até do que isso. Não precisava ter sido assim! Teria bastado um pouco de bom-senso, disposição para servir e sintonia verdadeira com o sentimento nacional.


Anestésicos, desembargador, Trump e estátuas

Cesar Vanucci

“Cê sabe com quem está falando?”
(Indagou insolentemente o magistrado ao ser alertado 
pelo guarda sobre o uso da máscara)

· A balbúrdia é tamanha que, talvez, a gente esteja até interpretando equivocadamente o que leu ou ouviu. A inverossímil resenha dos fatos mostra que, nos hospitais e demais unidades de atendimento aos cidadãos atacados pela “gripezinha”, andam faltando, de forma mais que preocupante – diríamos, calamitosa -, medicamentos essenciais para salvar vidas preciosas. Tipo, por exemplo, sedativos, anestésicos, oxigênio, produtos indispensáveis para amenizar padecimentos de enfermos em estado crítico. A aquisição de tais insumos, conforme denúncias de médicos e enfermeiros que atuam na linha de frente no tratamento aos pacientes, vem sendo colocada em segundo plano. Enquanto isso, a compra de cloroquina, remédio de eficácia questionada pela OMS e entidades médicas, acusa quantitativos exagerados, gerando desnecessários estoques nos almoxarifados da saúde pública. Como dito no preâmbulo: difícil pacas compreender as razões desse tão inusitado procedimento das autoridades competentes.


· S.Exa., o desembargador, foi pego em flagrante, numa praia do litoral paulista, a arrotar prepotência. Despejou “em riba” de um guarda municipal, ao ser alertado sobre o uso obrigatório de máscara protetora em via pública, o célebre “Cê sabe com quem está falando?” Como se diz no popular, “soltou os cachorros” numa tentativa de intimidar alguém que, em ação profissional e pedagógica, apontou-lhe obrigação de cidadania. A ocorrência, mostrada na televisão, chamou a atenção da corregedoria do Judiciário. Consulta aos arquivos do Tribunal de Justiça de São Paulo revelou que a folha corrida do dito cujo acusa 41 infrações disciplinares. Dá pra imaginar as “aprontações” desse cara nas decisões proferidas ao longo de extensa carreira como magistrado?


· O livro de uma sobrinha rebelde está colocando a família de Donald Trump em polvorosa. “Trump é incapaz de crescer, aprender ou evoluir, incapaz de moderar suas emoções e suas reações”, anota, ferina, Mary Trump. A autora, 55 anos, traz a público revelações chocantes, apresentando-as como memorias de sua convivência com o tio, sobretudo ligadas aos tempos da infância e adolescência passados na residência em que Donald cresceu, no bairro Queen, Nova Iorque. O título da obra resume o conceito que a sobrinha tem de seu famoso parente: “Demais e nunca o bastante – como minha família criou o homem mais perigoso do mundo”. Segundo noticiário, a família tentou bloquear a publicação, com base na alegação de que havia um acordo de confidencialidade. Mas o argumento não colou. Em curto espaço de tempo, o dirigente do mais poderoso país do mundo conseguiu a “façanha” de se ver retratado pejorativamente por duas testemunhas oculares bem próximas de sua trajetória pública e privada. Antes da sobrinha quem andou lançando livro, relatando as entranhas da controvertida política externa conduzida por Trump, foi seu ex-assessor de segurança nacional, John Polton.


· No auge das recentes manifestações de rua, de repúdio ao racismo, ocorreu, em vários lugares, a derrubada de estátuas erguidas, no passado, com o intuito de enaltecer personagens históricos. No alvo dos ativistas foram colocadas esculturas representativas dos tempos da escravidão e das descobertas marítimas colonizadoras. Além daquele episódio, que absorveu vistosas manchetes, do busto de um mercador de escravos inglês retirado do pedestal, posto a rolar rua abaixo e lançado no fundo do rio, numa cidade próxima a Londres, foram registrados, nessa onda de reações populares, mais esses incidentes, dignos de nota, abaixo sublinhados.
Em Washington, Estados Unidos, a estátua do general confederado Albert Pike ficou inteiramente destruída. Em Watesbury, Connecticut, também nos Estados Unidos, a estátua de Cristóvão Colombo foi decepada. Aconteceu a mesma coisa em Boston. Na Inglaterra, outra vez, a escultura de Robert Mulligan, figura ligada a atividades escravagistas, foi retirada de um parque público. Noutros lugares – Bélgica, Groelândia, França, para nos limitarmos a poucos exemplos -, em cidades americanas de forma mais pronunciada, marcos de registros variados, afixados para celebrar pessoas e acontecimentos de outras épocas, foram pichados ou danificados. Pelo visto, as manifestações antirracistas fizeram com que algumas estátuas, projetadas com fitos comemorativos, perdessem sua majestade...


quinta-feira, 13 de agosto de 2020


A palavra dos Bispos

Cesar Vanucci

“Todos (...) seremos julgados pelas ações ou omissões.”
(Trecho de documento divulgado por quase duas
centenas de Bispos e Arcebispos da Igreja Católica no Brasil)

Com a clarividência que é de se esperar de uma liderança espiritual verdadeiramente compromissada com sua nobre missão apostólica, centenas de Bispos, Arcebispos, Cardeal entre eles, tornaram pública uma candente manifestação sobre a conjuntura política e social brasileira. O documento, intitulado “Carta ao povo de Deus”, começa por lembrar que nosso País atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, vivendo “uma tempestade perfeita”.
A tempestade, sustentam os Prelados, combina “uma crise sem precedentes na saúde” e um “avassalador colapso na economia”, com tensões que pressionam “fundamentos da República”, provocadas em grande medida pela equivocada atuação dos governantes. Tudo isso – ressalta-se – conduz a uma profunda crise política e de governança.
Sem meias palavras, os signatários da Carta, quase duas centenas de dirigentes eclesiásticos da Igreja Católica, asseveram que a avaliação do cenário político permite perceber, sem paixões, com nitidez, “a incapacidade e a inabilidade do governo federal em enfrentar essas crises.” “Assistimos sistematicamente – pontua-se no documento – a discursos antidemocráticos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortos pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino.”
Os dirigentes religiosos declaram-se sumamente preocupados, também, com “o caos socioeconômico que se avizinha, trazendo desemprego e carestia, projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam a manutenção do poder a qualquer preço”. Afirmam, peremptoriamente, que os discurso e posicionamentos adotados “não se baseiam nos princípios éticos e morais, tampouco suportam ser confrontados com a tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento Àquele que veio para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.
Com foco na necessidade urgente das reformas estruturais, os Bispos e Arcebispos condenam as alterações promovidas na Previdência Social e legislação trabalhista. Segundo alegam, ambas, “tidas como para melhorarem a vida dos mais pobres, mostraram-se como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo.” Enfatizando que o Brasil carece de reformas, explicam que as medidas almejadas pela comunidade não poderão oferecer resultados que “piorem a vida dos pobres, desprotejam vulneráveis”.
Criticam, ainda, “a liberação do uso de agrotóxicos antes proibidos e o afrouxamento do controle de desmatamentos”, atitudes que “não favorecem o bem comum e a paz social”. O documento classifica de “insustentável uma economia que insiste no neoliberalismo, que privilegia o monopólio de pequenos grupos poderosos em detrimento da grande maioria da população”. O “sistema do atual governo” - diz ainda o texto – não coloca no centro das cogitações a pessoa humana e o bem geral, “mas a defesa intransigente da economia que mata, centrada no mercado e no lucro a qualquer preço”.
O pronunciamento menciona, também, que “o desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia” é de maneira a causar estarrecimento, ficando visíveis nas demonstrações hostis à educação pública e no “apelo a ideias obscurantistas”.
Na manifestação ganha destaque o que é classificado como “uso da religião para manipular sentimentos e crenças, provocando tensões entre igrejas”. “Ressalte-se o quanto é perniciosa toda associação entre religião e poder no Estado laico, especialmente associação entre grupos religiosos fundamentalistas e a manutenção do poder autoritário”, segue o documento.
Os religiosos pedem serenidade, compreensão, disposição de luta a todos que detenham influência nas decisões voltadas para a causa do desenvolvimento, no sentido de contribuírem para a abertura de “um amplo diálogo nacional que envolva humanistas, os comprometidos com a democracia, movimentos sociais, homens e mulheres de boa vontade objetivando seja restabelecido o respeito à Constituição Federal  e ao Estado Democrático de Direito.”
Sublinham, por derradeiro, que “todos, pessoas e instituições, seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador”.
Assim falaram os Bispos. Com sabedoria traduziram, na “Carta ao Povo de Deus”, anseios legítimos de segmentos majoritários da sociedade.


Vacina(s) à vista

Cesar Vanucci

“Por que o pessoal não se junta pra apressar a solução do angustiante problema?”
(Pergunta ouvida num bate-papo domingueiro em que o médico infectologista explicava para familiares o estágio atual das pesquisas referentes à vacina contra o coronavirus)

· As buscas pela vacina. Na tradicional reunião domingueira, o avô, médico infectologista renomado, explica a familiares o que anda pintando no pedaço científico, no que concerne ao “resfriadozinho”. O relato passado vem resumido na sequência. A OMS assevera   que a solução do baita problema do coronavírus vai custar a chegar.  A Rússia anuncia para outubro a aplicação em massa de providencial vacina. No Reino Unido, proclama-se que a Universidade de Oxford está próxima do antídoto capaz de debelar o flagelo. As pesquisas a respeito, bem avançadas, envolvem inclusive participação de brasileiros. Ainda em nosso país, está sendo desenvolvida, igualmente em estágio de testes com voluntários, uma outra pesquisa coordenada por órgão científico chinês. O governo de São Paulo admite mesmo que um remédio preventivo possa ficar pronto a partir de outubro. Nos Estados Unidos, onde várias organizações se empenham em promissoras investigações que levem a próximo lançamento de medicamento eficaz, o Presidente Donald Trump, com sua costumeira arrogância imperial, berra a plenos pulmões estar apto a oferecer, como já quis fazer(ou fez) no tocante     às encomendas emergenciais de respiradouros, imbatível lance para eventuais aquisições de toda a produção disponível de vacina que surja em qualquer lugar do mundo. Levantamento recente anota serem em número de 161, mundo afora, os grupos febrilmente engajados em alentadoras buscas da fórmula farmacêutica em condições de libertar a humanidade da pandemia.
Neste exato momento da dissertação do avô médico, o neto Expedito, 21 anos, estudante de Ciências Sociais, agilidade de raciocínio fazendo jus ao nome, toma da palavra e deixa cair: - “Cumé? Isso mesmo, 161 grupos de pesquisa? Escuta aqui: não seria mais prático, mais objetivo e eficiente, mais condizente com o bem-estar social, reunir num único lugar os melhores cérebros de todas essas equipes pra uma ampla, geral e irrestrita troca de informações sobre o que sabem e, assim, conjuntamente, chegarem mais rapidamente à solução que todos procuram separadamente?”
O avô, com o queixo apoiado na mão em gesto pensativo, responde: – “Falar verdade, não sei o que dizer”.
Expedito retorna: - “Quer saber duma coisa, minha gente? Do que o mundo anda mais precisado - é só botar tento nas mazelas soltas na praça – é de uma vacina potente pra acabar com o egoísmo, a soberba e a insensatez...” Nada mais disse, nem lhe foi perguntado.

·  Ajuda emergencial. O auxílio emergencial concedido pelo governo, apesar dos pesares, derivados da inadaptação burocrática para prestação de um atendimento menos tumultuado aos beneficiários, tem contribuído, sem sombra de dúvida, para reduzir o sufoco financeiro da parte socialmente mais vulnerável da população. Já, agora, o esquema de socorro montado com o objetivo de suprir carências imediatas das pequenas e médias empresas, não conseguiu, jeito maneira, engrenar. Bastante razoável na teoria, consideradas as circunstâncias confrontadas pelos empreendedores neste aflitivo instante econômico e social, a ajuda em questão está demorando a chegar aos interessados. As dificuldades provêm, em grande dose, dos arbitrários “prolegômenos” concebidos pelo sistema bancário para liberação dos recursos. A rede creditícia, só pra variar, procura distanciar-se, o mais que pode, de compromisso formal e permanente com a promoção social. Reserva prioridade absoluta para os números, sempre ascendentes, dos balanços trimestrais. Tal conduta em nada contribui para “aliviar a barra” de setores produtivos que respondem por volume altamente expressivo na ocupação laboral. Cabe lembrar, focados ainda na política de créditos e financiamentos, que não tem repercutido, nos termos desejáveis, nos guichês das agências bancárias, o correto esforço oficial em favor da redução da taxa Selic. Este instrumento regulador do mercado financeiro acha-se situado, na atualidade, no mais baixo nível do ciclo histórico. Nada obstante, os tomadores de empréstimos continuam sendo onerados, nas operações, por escorchantes juros. Não é a toa que os negócios, nestas bandas ao sul do Equador, proporcionam ao sistema bancário os mais estrondosos resultados. Coisa de dar “santa inveja” nos dirigentes das organizações congêneres doutras paragens.


quarta-feira, 5 de agosto de 2020


Os supremacistas e os protestos antirracistas

Cesar Vanucci

“O clamor das ruas exige vacina eficaz contra o vírus do racismo”.
(Antônio Luiz da Costa, educador)

Aviso ao leitor: o texto da sequência é pura ficção. Aplica-se aqui o dito dos letreiros das fitas de cinema. Qualquer semelhança dos fatos narrados com a realidade é mera coincidência.

Caso é que, transtornado com a avalancha dos protestos nas ruas, o Venerável Grão-Mestre da Ku Klux Klan resolveu convocar, para encontro urgente, o Conselho Supremo da “Ordem dos Patriotas Arianos da Pureza Racial”.

Aos dignitários da KKK, dos “Supremacistas Brancos” e da “Milícia Neonazista Mein Kampf” esclareceu que a reunião seria dedicada a análise das “ilegais passeatas contrárias à ordem constituída e aos saudáveis valores eugênicos”. Recomendou que todos comparecessem devidamente paramentados. Ou seja, em roupagens de gala. A turma da Klan com as imponentes mantas alvas e capuzes em forma de cone; os demais com vistosas “camisas pardas” adornadas com cruz gamada. Pontualíssimo, o disciplinado time de convidados cumpriu garbosamente o ritual. Todos, na chegada, perfilaram diante da estátua de bronze, de corpo inteiro, do “inolvidável ídolo”, erguendo os braços, batendo calcanhares e bradando, com vozes encharcadas de emoção, o “Heil Hitler!”.

Após evocações aos “excelsos patronos” Nero e Torquemada, o mestre de cerimônia apresentou seu relatório. Informou que tudo começou em Minneapolis, EUA, por conta de “incidente de rua banal”. Ofereceu, “aos companheiros versão fidedigna da história”, registrando que “a realidade vem sendo deturpada pela imprensa corrupta e subversiva”. Contou: “Indivíduo negro, de vida pregressa censurável, afrontou, com intuitos intimidatórios, uma briosa guarnição policial. Defendendo-se da ameaça à sua integridade física, os guardiães da lei, frustrados na tentativa de dissuadir o agressor de seu nefando propósito, viram-se obrigados a subjugá-lo. Como consequência de seu impulso belicoso, o desordeiro foi acometido de mal súbito, vindo a falecer antes que pudesse ser-lhe prestado magnânimo socorro pelos policiais. Dessa ocorrenciazinha valeram-se hordas de arruaceiros, drogados, abortistas, degenerados de todos os graus, das diferentes sub-raças, inimigos da moral e bons costumes, para algazarras de rua, em diversos lugares, até fora do país, vilipendiando caras tradições e salutares conceitos eugênicos de vida”.

Neste ponto, alguém da plateia assinalou que “a maioria dos manifestantes era de gente branca, como nós...” O Venerável interferiu, afirmando que a observação era fruto de “interpretação equivocada”. Ao que outro participante da reunião disse haver identificado, “na multidão, membros de famílias entrosadas com o nosso movimento”.

 – “Se isso é real, eles não passam de bastardos, merecedores de severo corretivo”, exclamou, possesso, o Grão-Mestre, determinando prosseguisse a explanação.

Retomando, o expositor destacou que “a sinistra conspiração, alvejando valores sagrados, extrapolou nossas fronteiras”. Explicou: “Delinquentes de outras nacionalidades aderiram a esse processo de negação desagregador do sistema racial puro”. Mencionou “revoltante lance na Inglaterra, onde a memória de um benfeitor comunitário foi ultrajada.” Prosseguiu: “Baderneiros arrancaram do pedestal, puseram-na a rolar pelas ruas, atirando-a no rio, a estátua de um cidadão honrado, negociador de escravos bem-sucedido, festejado por seu espírito solidário e arrojo empreendedor. Meritoriamente, ele libertou de suas degradantes origens, na África distante, milhares de homens, mulheres e crianças da sub-raça negra. Trouxe-os, em porões de navios, para redentor contato com a civilização. E o que está se vendo, agora, nesses atos repulsivos, é a tentativa de obscurecer um itinerário de vida edificante. A ralé está indo longe demais!” – enfatizou.

Aplausos frenéticos coroaram as palavras. O Grão-Mestre, declarando-se estarrecido, recomendou aos prosélitos que se prevenissem com relação às investidas “dos inimigos da sacrossanta supremacia racial”. Acrescentou que, “embora as amarguras sofridas, é alentador saber que, em outras paragens do mundo, têm sido detectados sinais promissores de que nem tudo está perdido”. Complementou: “No Brasil, por exemplo, uma facção diminuta, mas resoluta, vem abraçando com singular vibração nossa magnífica concepção de vida. Passo a contar-lhes o que anda rolando naqueles pagos...”

Os “camisas pardas” tupiniquins entrarão em cena no próximo capítulo desta história de ficção.


Os “camisas pardas” tupiniquins

Cesar Vanucci

“São rinocerontes. Não pensam. Racistas e adeptos do totalitarismo”. (Eugène Ionesco, dramaturgo, sobre o nazismo)

Tem continuidade a narrativa do encontro de próceres da Ku Klux Klan e coligados para avaliação das passeatas contra o racismo.  O relato – já explicado – é ficcional. Qualquer semelhança com fatos reais não passa de mera coincidência.

O Grão-Mestre da KKK declarou-se amargurado com “as execráveis e subversivas manifestações”. Espumando ódio, deplorou “o malefício que as algazarras acarretam, afrontando o sentimento da sociedade, favorável à prevalência, no relacionamento social, dos princípios da pureza eugênica”. Convidou o coordenador do Birô latino americano da Klan a transmitir à plateia informações acerca das “admiráveis reações aos descalabros antirracistas e impertinências democráticas, ocorridas no Brasil, levadas avante por grupo decidido de adeptos das propostas redentoras de desmantelamento das falidas estruturas republicanas”. Na dissertação, entrecortada de aplausos frenéticos, o coordenador do Birô reportou-se “aos épicos eventos conduzidos pelos parceiros brasileiros”. Esclareceu que eles se dizem em número de 300. “Embora não somem, se tanto, um terço disso, pelo desassombro na conduta, vale por milhares de combatentes. Indicado para cargo de projeção, um deles recitou, na televisão, sem vacilos, trechos inteiros das falas do inolvidável pensador Joseph Goebbels.” “Só de recordar a performance – sublinhou – lambuzo-me de emoção, tal a similaridade da alocução com aquelas arrebatantes prédicas de nossos comícios de Munique e Berlim.”

O Grão-Mestre atalhou o expositor “para proclamar jubilosamente” que “ao brilhante interprete de Goebbels será conferido o ‘Grande Colar da Suástica Escarlate’, instituído para perenizar feitos grandeloquentes”.

O coordenador prosseguiu: “Dezenas de camisas pardas, traquejados no emprego das redes sociais para difundir magistrais ‘fakes’, inclusive com o concurso de robôs; sabendo esculhambar impecavelmente, de modo anônimo, os representantes do desmoralizado sistema democrático; partícipes ativos  de minicomícios de achincalhe ao carcomido regime das liberdades públicas, promoveram, em Brasília, uma soberba manifestação de culto adolfista. Sob o manto estrelado da noite, ao som de tambores, portando máscaras venezianas, carregando archotes, entoando mantras supremacistas, postularam, com altivez, a implantação de ditadura e o controle policial dos órgãos de comunicação. A coreografia caprichada, lembrando o célebre ‘passo de ganso’, recompôs as cenas memoráveis das marchas dos gloriosos tempos do Terceiro Reich”.

O Grão-Mestre voltou a intervir: - “Conferiremos o Grande Colar também, a esses audazes correligionários de nossa santa cruzada”. Indagou: - “Algum fato relevante a mais?” – “Sim, Venerável, tenho mais um episódio extraordinário. O dirigente de um órgão cultural, jornalista, berrou alto e bom som que a escravidão é uma baita mentira propagada por esquerdopatas. O distinto pontuou que os negros foram sempre bem tratados e que a liderança negra comprometeu-se sordidamente com procedimentos malsãos. Condenou ainda a absurda comemoração do dia da ‘Consciência Negra’, propondo que as pessoas favoráveis à tão descabida celebração sejam deportadas para o Congo”.

O Grão-Mestre, exultante, puxando aplausos, garantiu que “também esse notável pensador será contemplado com a máxima condecoração”. Acrescentou o propósito de “convidá-lo a fazer parte de nossa assessoria de comunicação, para ajudar-nos a mostrar ao universo a farsa histórica do holocausto, propaganda subversiva contraposta aos sublimes valores raciais”. Nesse ponto o expositor achou por bem esclarecer, que “no caso em foco, existe um porém, todavia, contudo...”
- “Do que está mesmo falando? Desembuche logo!” - tornou o Grão-Mestre.
- “O cara das declarações não é bem um dos nossos”.
- “Como assim?”
- “É... negro! Convertido!”
- “Negro?”
- “Sim, como a noite”.
- “Com essa eu não contava. Isso muda tudo. Mantenham-se as demais condecorações. Mas, quanto a esse lance específico o ‘manual da supremacia ariana’ veda a concessão do Colar. Cuidemos de arranjar outro tipo de homenagem. Acode-me uma idéia: remeter ao dito cujo, na data natalícia, um cartão de congratulações.  Eu assino. Melhor pensando, a assinatura será delegada  ao encarregado do expediente da secretaria”.

Esta historieta ficcional fica por aqui.


O vírus do racismo

Cesar Vanucci

“O racismo no Brasil é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele.”
(Paulo Paim, Senador)

A raça humana é uma só. Cor de pele é mero detalhe. Se negra, branca, amarela, parda, rosada - em tons mais ou menos acentuados, consoante a diversidade biológica natural – tudo isso, repita-se, não passa de detalhe. Assim como a cor dos olhos, ou dos cabelos. Ou a estatura e o peso das pessoas.
A raça humana é uma só. Em nada influem, para que essa verdade verdadeira deixe de ser reconhecida, as circunstâncias de os indivíduos nascerem, ou viverem, nessa ou naquela região específica deste planeta azul. Bem como as constatações de que eles pratiquem cultos, cultivem hábitos e costumes, falem línguas e enverguem trajes diferenciados, uns dos outros. A raça humana é única. A recusa na aceitação plena desse preceito de vida universal, na efervescente convivência social, gera uma aberração cruel e repulsiva chamada racismo. Um vírus que, contaminando mundão de viventes por aí, produz enfermidades e mortes, escancara instintos bestiais, alveja inclementemente a dignidade da vida. Faz, também, com que humanistas da maior envergadura intelectual suscitem, por vezes, dúvidas quanto à assertiva, sagrada para contingentes apreciáveis do mundo civilizado, de que o homem é ser de luz moldado à imagem e semelhança de Deus.
O racismo, com todo seu cortejo de horrores e injustiças, é antigo e universal. Contribui significativamente para que se perpetue o dramático problema das desigualdades. De visibilidade permanente nos atos cotidianos, a questão é exposta com abundância de evidências em tudo quanto é pesquisa de comportamento, seja aqui, seja alhures. Fixemo-nos na situação brasileira.
Cá estão alguns indicadores sociais apontados em levantamento recente do IBGE. Retratam com fidedignidade as cores da desigualdade, as notórias fragilidades econômicas e sociais enfrentadas pela população negra.
1.Desemprego e subocupação – pardos ou negros, 66 por cento; brancos, 33 por cento. 2.Rendimento médio mensal da mão de obra ocupada – R$2.796,00, brancos; R$1.608,00, negros ou pardos. 3.Trabalho informal – 47%, pardos ou negros; 35%, brancos. 4.Cargos gerenciais – 29,9%, pardos ou negros; 68,6%, brancos. 5.Hora paga no mercado de trabalho para assalariados com diploma – R$33,00, brancos; R$23,00, negros ou pardos. 6.Participação na vida política – negros e pardos representam 24% dos quadros parlamentares formados nas eleições de 2018. É oportuno lembrar que a população brasileira é composta, em mais de 55%, por negros e pardos.
De um trabalho jornalístico divulgado na “Folha de São Paulo”, edição de 19 de julho, assinado por Érica Fraga, recolhemos informações que fluem no mesmo sentido das revelações do IBGE. Mulheres brancas desfrutam de vantagens salariais no confronto dos holerites com as trabalhadoras negras ou pardas. A comparação, envolvendo profissionais da mesma faixa etária, mesmo grau de escolaridade e mesmo lugar de residência, acusa diferença média mensal de R$475,00. Mais um lance perturbador. A desigualdade, no tocante a rendimentos femininos por conta da cor da pele, ao invés de cair, só vem fazendo crescer. Em 2012, a diferença apurada era de 11,5% (ao contrário dos 14% de 2019), equivalendo em valor a R$364,00, descontada a inflação do período. No caso masculino, a diferença salarial é, na atualidade, de 13%, observadas as mesmas circunstancias já pontuadas (faixa etária, escolaridade e mesma região domiciliar). Esse percentual representa R$624,00 a menos na folha de pagamento de negros ou pardos.
“O racismo no Brasil é tão cruel, dói tanto, que tu te negas a falar dele”, denuncia Paulo Paim, Senador gaúcho, uma rara presença negra na Casa, acrescentando que o Congresso espelha a tremenda desigualdade racial, com conotações sociais chocantes, existente no País.
Tudo quanto aqui relatado, flagrantes de tormentosa questão que abarca facetas a perderem de vista, deixa soltas no ar perguntas que colocam em desconforto a consciência coletiva. Por quê pretos e pardos ganham menos que brancos? Por que se lhes são destinados tão poucos cargos de chefia? Por quê, embora sejam 55,8% da população brasileira, eles ocupam apenas 24,4% das cadeiras parlamentares? Indagações embaraçosas, que nem essas, obviamente brotarão de quaisquer análises a respeito das condições vivenciadas pela comunidade negra em matéria de moradia, infraestrutura básica, educação, saúde etecetera e tal...


A SAGA LANDELL MOURA

  Nos tempos do rádio Cesar Vanucci   "Surpreendi-me noveleiro depois de aposentado. Não perdia um só capítulo de “O direito ...